
A partir de agora, nossos leitores passam a contar com as análises do professor Carlos Lessa, ex-reitor da UFRJ e uma referência para aqueles que se interessam pelo desenvolvimento autônomo do Brasil.
Na coluna “Bate Papo com Carlos Lessa” o economista irá destacar e fazer comentários objetivos sobre as notícias que achar mais relevantes no noticiário.
Nesta estreia, ele aponta a recuperação, pela Argentina, do controle sobre recursos naturais estratégicos (petróleo e gás), ao retomar a maioria das ações empresa petrolífera YPF, administrada pela Repsol, anunciada há uma semana pela presidente Cristina Kirchner.
Desejamos a todos uma boa leitura.
Rogério Lessa
O exemplo argentino deveria servir de alerta para o Brasil
“Hoje, a energia é o que há de mais estratégico e seria uma temeridade abrir mão de controlar os recursos naturais para produzi-la. O Brasil, inclusive, deveria aproveitar o alerta de nossos vizinhos para a proteger melhor o pré-sal. No caso da YPF, acrescente-se a absurda liberalização promovida pelo ex-presidente Carlos Menen, que envolveu uma privatização cercada de denúncias a respeito de negociatas.”
A Associação de Engenheiros da Petrobras (Aepet) costuma lembrar que a Repsol usou uma auditoria norte-americana e conseguiu reduzir as reservas da empresa em 30%, para 1,6 bilhão de barris. Menos de um mês depois da privatização, voltaram para 2,3 bilhões.
Apesar de considerar que a Repsol, por vias tortas, “acabou fazendo o correto” que, para Lessa, é a não exploração de reservas estratégicas em ritmo acelerado, ele ressalva que gás e petróleo são essenciais para, por exemplo, a calefação, já que a Argentina tem clima frio durante boa parte do ano e a maior parcela da população vive nas cidades. “Não é só uma questão de equilibrar a balança comercial, para a Argentina petróleo e gás são fundamentais para a sobrevivência”.
Mídia e pré-sal
Lessa destaca também a “espantosa reação da mídia” na defesa da Repsol e achou os 62% de aprovação da população argentina à decisão do governo um índice relativamente baixo. “Na Europa, ameaçaram levar a Argentina para tribunas internacionais. Isto sinaliza para o Brasil cuidados que o nosso governo não tem. Imaginem o que poderá acontecer com o pré-sal, que talvez seja a terceira reserva mundial, se estamos no ‘baixo-ventre’ dos Estados Unidos”, disse. Para o economista da UFRJ, por trás da notícia, está a tese da soberania nacional.
Nota:
Documento das províncias argentinas produtoras de petróleo e gás, divulgado este ano, mostra que a produção das empresas de gás e petróleo desabou 11% e 18%, respectivamente. Na Repsol-YPF, o tombo ficou entre 30% e 35% da produção de petróleo nos últimos anos e de 40% da de gás.
