O âncora da Band News fala sobre a reação do tucanato ao livro de Amaury Ribeiro Jr.
Arquivo mensais:janeiro 2012
Away de Petrópolis e a Privataria Tucana
Mais um vídeo sesacional sobre o livro de Amaury Ribeiro Jr.
Cadê a crise no Brasil?
Leda Paulani
(*) Publicado originalmente no jornal Brasil de Fato.
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A crise financeira mundial do último trimestre de 2008 parece ter desaparecido como que por encanto. Depois de comparada, por sua gravidade e extensão, à grande crise dos anos 30 do século passado, sai de cena quase despercebidamente, como se tivesse sido um “alarme falso”, um pequeno problema precipitadamente guindado ao status de hecatombe. Como interpretar esse movimento? Monumental equívoco por parte daqueles que interpretaram o fenômeno como sendo um desastre de grandes proporções, ou, ao contrário, a aparência de que tudo volta aos eixos é efetivamente apenas uma aparência, encobrindo uma situação de vulnerabilidade e graves desequilíbrios no plano da economia mundial? Se analisarmos, do ponto de vista do longo prazo, o que vem se passando com o processo como um todo de acumulação de capital, concluiremos que a última hipótese é bem mais plausível.
Primeiro, convém deixar claro que a crise não começou em setembro de 2008. Começou muito antes, algumas décadas antes. Segundo, a crise não foi produzida pelo mercado imobiliário americano, ainda que tenha sido revelada aí a ponta do iceberg, mas produzida por causas estruturais. Na realidade, o capitalismo, desde o final dos anos 1960, viu agravar-se um processo que alguns economistas de extração marxista denominam sobreacumulação de capital, ou seja, o fato de existirem determinados períodos em que há excesso de capital para as possibilidades disponíveis de aplicação produtiva lucrativa. Quando isso acontece, diversos expedientes entram em cena para contornar o obstáculo. Um dos mais acionados é a busca de valorização financeira, ou seja, de acumular capital por meio de empréstimos e aquisição de ativos financeiros. Na maior parte dos casos, tal busca implica também valorização fictícia, aquela valorização que aparece por obra e graça da mera circulação do capital, ou seja, da compra e venda de ativos, fictícios ou não.
Ora, foi exatamente isso que começou a ocorrer à larga há cerca de quatro décadas, depois de quase 30 anos de crescimento acelerado da economia mundial. Para complicar, essa busca desenfreada de valorização financeira combinou-se com as transformações no sistema monetário internacional, as quais resultaram na reafirmação do dólar americano como dinheiro mundial, mas agora sem o lastro do ouro, que caracterizara sua função de moeda número um no sistema anterior (o sistema de Bretton Woods, acordado no pós-guerra).
O elo entre um e outro fenômeno fortaleceu-se com a vitória do ideário neoliberal. Um mundo de fronteiras financeiras livres e de direitos dos credores em primeiro lugar, mas, ao mesmo tempo, de políticas monetárias rígidas e de duros controles dos gastos dos estados nacionais, levou a inflação mundial que resultaria da plena liberdade concedida à política monetária americana (com a desvinculação entre dólar e ouro) a saltar para a esfera dos estoques de riqueza, acrescentando à natural valorização dos ativos financeiros então em curso o combustível monetário sem o qual não poderia ir muito longe.
Resultado: crescimento ímpar da riqueza financeira, crescimento que a fez multiplicar-se por 15 nas últimas três décadas, enquanto o PIB mundial cresceu não mais que quatro vezes no mesmo período. Ao mesmo tempo, tal crescimento exponencial da riqueza financeira é pontuado pela contínua formação de bolhas de ativos, que provocam fortes crises quando estouram. O último episódio teve exatamente esse formato, o estouro da bolha do mercado imobiliário americano, a qual havia fomentado a formação de uma série de outras, mundo afora, num processo patrocinado pela assim chamada globalização financeira.
Vale dizer, o excesso de liquidez mundial num mundo patrulhado pelos imperativos neoliberais é o responsável maior pela crise. E qual o remédio adotado? Uma cavalar dose de liquidez aplicada pelos estados nacionais… coisa da ordem de trilhões de dólares! sem contar os US$ 600 bilhões recentemente anunciados pelo governo americano. Mas, se, de imediato, isso parece minorar os efeitos primeiros e mais agudos da crise, no médio prazo só faz aumentar o descompasso que está em sua origem. Haja contradição!
Assim, não só a crise não terminou como vivemos hoje num mundo ainda mais vulnerável e desequilibrado, e que padece ainda por cima as consequências da aplicação do referido remédio, como o testemunham as duras situações vividas por alguns estados nacionais, com destaque para os mais frágeis da zona do euro.
Os países emergentes como o Brasil vêm sofrendo do mal contrário, mas não menos perigoso, expresso na contínua valorização de suas moedas. Por aqui, as consequências dessa situação já despontaram há algum tempo, com o desestímulo à produção nacional e o retrocesso do país à condição de exportador de commodities e bens de baixo valor agregado. Eis o outro lado da moeda de o país ter se tornado potência financeira emergente e plataforma internacional de valorização financeira.
A irresolução e o agravamento do descompasso existente no plano mundial tornam, portanto, ainda mais temerária a persistência no país da política de juros reais superlativos que experimentamos há mais de 15 anos, política injustificável e inexplicável sob qualquer outro critério que não o dos interesses por ela diretamente beneficiados.
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Leda Paulani, professora titular do Departamento de Economia da FEA-USP e da Pós-graduação em Economia do IPE/USP, é autora, entre outros, de Modernidade e Discurso Econômico (2005) e Brasil Delivery (2008), ambos pela Boitempo.
Keynes: um clássico da economia
Luiz Gonzaga Belluzzo / CartaCapital
A obra de Keynes, que atravessa o tempo, propõe a “ação jurídica e política do Estado” contra os efeitos negativos do darwinismo social. Foto: Tim Gidal/Getty Images
Mais do que um economista, Keynes era um publicista, um homem que pretendia falar em nome do interesse público e que acreditava no poder de persuasão das ideias. Para Maynard – assim o chamavam os discípulos de Cambridge –, o estudo da economia – uma ciência moral – só valia a pena como um meio para a realização dos valores que a sociedade moderna promete, mas não entrega aos cidadãos.
Publicado em 1930 na revista Nation and Atheneum e republicado em 1931 nos Essays in Persuasion, o artigo As Possibilidades Econômicas de Nossos Netos pretendia superar o pessimismo que afligia os tempos da Grande Depressão. Tempos açoitados pela derrocada econômica, pelo desespero social e pela turbação política.
No seu estilo peculiar, avesso aos cacoetes da linguagem usual dos economistas, Keynes desenha as possibilidades econômicas dos próximos cem anos. Na visão do autor, impulsionado pelo avanço tecnológico e pela rápida acumulação produtiva, o capitalismo criou as condições para a superação das limitações impostas milenarmente à satisfação das necessidades básicas. Essa vitória sobre a escassez acenou com a fruição de uma vida boa, moral e culturalmente enriquecedora para homens e mulheres. Mas, em sua maníaca obsessão pela acumulação monetária, o capitalismo cria tantos problemas quanto os que consegue resolver. A admirável “criatividade” produtiva e tecnológica não consegue rea-lizar a promessa da vida boa. Os poderes que o convocam à produção da abundância são os mesmos que submetem as criaturas humanas ao vício do consumismo, à permanente insatisfação das necessidades ilimitadas e aos grilhões do impulso insaciá-vel da acumulação de riqueza monetária.
Nesse texto perturbador para o ethos da sociedade aprisionada nas engrenagens da concorrência, Keynes escreve: “Devemos abandonar os falsos princípios morais que nos conduziram nos últimos dois séculos. Eles colocaram as características humanas mais desagradáveis na posição das mais elevadas virtudes. Não há nenhum país, nenhum povo que possa vislumbrar a era do tempo livre e da abundância sem um calafrio… Pois fomos educados para o esforço aquisitivo e não para fruir… Se avaliarmos o comportamento e as realizações das classes abastadas de hoje, as perspectivas são deprimentes… Os que dispõem de rendimentos diferenciados, mas não têm deveres ou laços, falharam, em sua maioria, de forma desastrosa no encaminhamento dos problemas que lhes foram apresentados”.
Entre minhas modestas tentativas de desvendar os valores que orientaram os trabalhos do maior economista do século- XX, sublinhei o peculiar conservadorismo de Keynes. Ele professava a crença de que a sociedade e o indivíduo são produtos da tradição e da história. Cultivava os valores de uma moral comunitária, radicalmente antivitoriana e, portanto, visceralmente antiutilitarista. Isso não quer dizer que recusasse as virtudes criativas da modernidade capitalista nascido sob consigna do avanço das liberdades e da autonomia do indivíduo. O “amor ao dinheiro”, dizia, é o sentimento que move o indivíduo na economia mercantil-capitalista. Fator de progresso e de mudança social, “the love of money” pode se transformar em um tormento para o homem moderno. A sanha competitiva não avalia os custos da refrega, “mas olha apenas para seus resultados finais, assumidos como permanentes”.
No seu célebre artigo O Fim do Laissez-faire, Maynard ironizou a ideia de que a busca do interesse privado levaria necessariamente ao bem-estar coletivo. “Não é uma dedução correta dos princípios da teoria econômica afirmar que o egoísmo esclarecido leva sempre ao interesse público. Nem é verdade que o autointeresse é, em geral, esclarecido.”
Os efeitos negativos do darwinismo social devem ser neutralizados mediante a ação jurídica e política do Estado e, sobretudo, pela atuação de “corpos coletivos intermediários”; como, por exemplo, um Banco Central dedicado à gestão consciente da moeda e do crédito. Keynes acreditava que a cura para os males do capitalismo deve “ser buscada, em parte, pelo controle da moeda e do crédito por uma instituição central e, em parte, por um acompanhamento da situação dos negócios, subsidiados por abundante produção de dados e informações”. Ele insistia na “da direção inteligente pela sociedade dos mecanismos profundos que movem os negócios privados”, particularmente as decisões sobre a posse da riqueza marcadas pelo conflito entre o investimento criador de riqueza nova – leia-se emprego, rendimentos e lucros para trabalhadores e empresários – e a acumulação de valores fictícios, estéreis para a comunidade.
No último capítulo de sua obra maior intitulada Notas Finais sobre a Filosofia Social, A Que Pode Levar a Teoria Geral, Keynes constrói a síntese entre a sua filosofia moral e a crítica à “teoria clássica” empreendida ao longo do livro. Ele propõe um conjunto de políticas apoiadas nas concepções já sugeridas no artigo de 1933, The Means to Prosperity: “O problema econômico é uma questão de economia política, isto é, da combinação entre teoria econômica e a arte da gestão estatal”.
O primeiro ponto desse arranjo de política econômica é a “socialização do investimento”, entendida como a coordenação pelo Estado das relações entre o investimento público e privado. O “orçamento de capital” do governo deve ser administrado de modo a minorar as incertezas que contaminam o investimento privado. “Creio que uma socialização bastante completa do investimento será o único meio de se aproximar do pleno emprego, ainda que isso não exclua qualquer forma de cooperação entre a autoridade pública e a iniciativa privada.”
O segundo pilar da proposta keynesiana cuida da eutanásia do rentier. A política bancária e de crédito deve ser administrada para neutralizar “o poder de opressão acumulativo do capitalista para explorar o valor de escassez do capital… enquanto sejam intrínsecas as razões para a escassez da terra, isso não é verdade para a escassez de capital”.
O terceiro ponto reclama um sistema fiscal que mantenha permanentemente a capacidade de redistribuir renda dos mais abonados para as classes menos favorecidas, com o objetivo de manter o consumo crescendo à mesma velocidade da expansão da renda.
O quarto ponto. Já na Teoria Geral, Keynes clamava por uma distribuição mais equitativa do ajustamento dos desequilíbrios de balanço de pagamento entre deficitários e superavitários, como forma de evitar os desatinos competitivos de “empobrecer o vizinho”. Isso significava facilitar o crédito aos países deficitários e penalizar os países superavitários. O propósito era evitar os “ajustamentos deflacionários” e manter as economias na trajetória do pleno emprego. Mais tarde, em Bretton Woods, Keynes propôs à Clearing Union, uma espécie de Banco Central dos bancos centrais. A Clearing Union emitiria uma moeda bancária, obancor, destinada exclusivamente a liquidar posições entre os bancos centrais. Ele imaginava que o controle de capitais deveria ser “uma característica permanente da nova ordem econômica mundial”.
É facil perceber a atualidade dessas recomendações de política econômica. Mas é quase impossível vislumbrar sua aplicação no mundo controlado pelas ideias do poder – econômico, financeiro e midiático – e não, como pretendia Keynes, pelo poder das ideias.
Perspectivas para 2012
por James Petras
Atiram em Cristina para acertar Dilma
“A imprensa brasileira, com a Globo na liderança, tem por hábito promover chanchadas para demonizar a presidenta Cristina, criticando as reformas na legislação dos meios de comunicação”. Dizem que Paulo Henrique Amorim, um dos jornalistas mais influentes do Brasil, está entre as pessoas mais detestadas pelos executivos da rede Globo, onde trabalhou por mais de uma década.
“Conheço a maquinaria da Globo por dentro, vi ela funcionar quando fui editor e depois correspondente em Nova York, entre 1985 e 1996, sei como orquestraram uma campanha para destruir a reputação de Lula nas eleições de 1989. As campanhas sujas contra governantes que provocam algum incômodo são habituais aqui e, ressalvadas as distâncias, se repetem agora contra Cristina. Isso que digo sobre a Globo alcança também outros meios de comunicação aos quais passei a chamar Partido da Imprensa Golpista (PIG)”, assinala o jornalista. “O PIG se horroriza com o que acontece na Argentina, diz que é o exemplo que não deve ser seguido; imagine se Dilma resolvesse fazer o que fez Cristina, a colocariam diante de um pelotão de fuzilamento…Por isso aparecem editoriais dizendo que há uma ‘democradura’ na Argentina. Um absurdo…em matéria de comunicações, o Brasil é uma ditadura perfeita”.
A entrevista de Amorim ao Página/12 iniciou há dois meses no aeroporto de Porto Alegre, onde um grupo de senhoras o observava insistentemente, até que uma delas se aproximou de mim para perguntar: “É o Amorim, da televisão?” O diálogo foi retomado na semana passada por telefone, desde São Paulo, onde ele trabalha como um dos âncoras da Rede Record, a única que disputa em alguns horários a liderança ainda incontestável da Globo.
Uma espécie de movimento de “indignados” contra o bloco midiático dominante começa a se observar no Brasil, processo vigoroso, mas que ainda permanece nas bordas do sistema, dado que ainda não conseguiu colocar o pé na televisão nem conta com o apoio de um jornal de alcance nacional. Encabeçando essa guerrilha informativa, há centenas de blogueiros e sites independentes como Carta Maior, Vermelho, Opera Mundi, Brasil Atual, identificados com uma bandeira comum: a aprovação de uma nova legislação para a regulação dos meios de comunicação.
Nas últimas semanas de seu governo, Lula deu a benção ao movimento insurrecional concedendo-lhe uma entrevista no Palácio do Planalto e elaborando um esboço para esse projeto de legislação, herdado por Dilma Rousseff.
Paulo Henrique Amorim está entre os poucos, ou pouquíssimos, âncoras televisivos de grande audiência alinhado com as reivindicações da imprensa genericamente chamada de “alternativa”. Por isso, suas intervenções sarcásticas acabam sendo particularmente incômodas para os herdeiros de Roberto Marinho, patriarca do grupo Globo, falecido em 2003.
“O Brasil precisa despertar, e creio que está despertando. A Globo é poderosa, mas já não é mais tanto quanto foi. A Globo quis, mas não conseguiu impedir que Lula fosse eleito e reeleito, quis e não pode impedir que Dilma fosse eleita. A família Marinho é uma ameaça à democracia”.
Uma hipotética lei de comunicação deveria acabar com o modelo “monopolista onde a família Marinho abusa da propriedade cruzada de meios de comunicação para asfixiar a competição; no Rio de Janeiro, são donos de tudo, até do Cristo Redentor, a fundação Marinho limpou a estátua do Cristo Redentor, e o próximo passo é se adonarem da Copa do Mundo de 2014”. O método do maior grupo midiático da América Latina, sustenta Amorim, pode ser sintetizada em uma linha: “Proscrever todo debate com um mínimo interesse na mudança”.
“Se dependesse da família marinho, se interromperiam os movimentos de rotação e translação da Terra, eles não querem mudar nada”, reforça. Seguindo a lógica de um partido político, a “Globo atuou como oposição golpista contra Lula e atrasa mesmo as transições mais modestas em um país como o nosso, onde nunca caminhamos na direção de mudanças com grande velocidade”.
“O Brasil foi o último país a liberar os escravos (no final do século XIX) e para que ninguém se sentisse ameaçado queimaram os arquivos; um século depois veio a transição para a democracia, uma transição porca, porque em 1985 assumiu a presidência um colaborador dos militares, José Sarney. E seguimos esperando a transição completa porque até hoje se obstrui toda investigação sobre a ditadura”.
No dia 18 de novembro, Dilma Rousseff promulgou a Comissão da Verdade, atribuindo a ela poderes para averiguar e examinar os delitos perpetrados durante a ditadura. O lobby militar e o “boicote” do grupo Globo serão, aponta Amorim, dois fatores de poder que oporão “total resistência” a uma comissão que, segundo a lei, só procurará levantar os responsáveis por assassinatos, desaparecimentos e torturas, mas não encaminhará o julgamento de ninguém. “Se a Comissão avançar, inevitavelmente virá a público a cumplicidade da Globo com a ditadura, por isso eles vão combatê-la ou ocultá-la. A Globo foi muito mais porta-voz, foi um dos grupos mais beneficiados pelos militares, que deram a ela uma rede nacional de micro-ondas, tornando possível que se tornasse o gigante que é hoje”.
A nova façanha do Wikileaks: identificar as empresas que vigiam o mundo
Resistir - [Ciper] A mais recente revelação da organização dirigida por Julian Assange põe a nu o negócio milionário das empresas de segurança que converteram o seu negócio na nova indústria de espionagem maciça que alimenta sistemas de espionagem governamentais e privados.
A última entrega de Wikileaks fornece os nomes das empresas que, em diferentes países, interceptam telefones, rastreiam mensagens de texto, reconstroem a navegação na Internet e identificam inclusive, as vozes de indivíduos sob vigilância. Tudo isso é feito de forma maciça com softwares que são vendidos a governos democráticos e a ditaduras.
Poderia dizer-se que se trata de um mau filme, mas os sistemas de intercepção maciça fabricados por empresas ocidentais e usados, entre outros objectivos, contra adversários políticos, são mesmo uma realidade. A 1 de Dezembro, Wikileaks começou a publicar um banco de dados de centenas de documentos provenientes de cerca de 160 empresas do sector de vigilância dos cidadãos.
Em colaboração com Budget Planet et Privacy International, bem como meios de comunicação de seis países – L’ ARD na Alemanha, Le Bureau of Investigative Journalism na Grã-Bretanha, The Hindu na Índia, L’Espresso, em Itália, OWMI em França e Washington Post nos EUA, – Wikileaks expõe à luz do dia essa indústria secreta cujo crescimento explodiu após o 11 de Setembro de 2001, representando milhares de milhões de dólares em cada ano.
Desta vez Wikileaks publicou 287 trabalhos, mas o projecto “Um mundo sob vigilância” está lançado e novas informações serão publicadas esta semana e no próximo ano.
As empresas internacionais de vigilância estão localizadas nos países que têm as mais refinadas tecnologias. Elas vendem a sua tecnologia a todos os países do mundo. Esta indústria, na prática, não está regulamentada. As agências de espionagem, as forças militares e as autoridades policiais são capazes de interceptar massivamente, sem serem detectadas e no maior segredo, os telefonemas, tomar o controle de computadores, mesmo sem que os fornecedores das redes acesso se apercebam ou façam algo para o impedir. A localização de utentes pode ser seguida passo a passo, se usarem um telefone celular, mesmo se este estiver desligado.
Os dossiers de “Um Mundo Sob Vigilância” de Wikileasks estão acima do simplismo dos “bons países ocidentais”, exportando as suas tecnologias para os “pobres países em vias de desenvolvimento”. Empresas ocidentais também vendem um vasto catálogo de equipamento de vigilância para as agências de espionagem orientais.
Nas histórias clássicas de espiões, as agências de espionagem, tais como MI5, DGSE, colocam sob escuta o telefone de uma ou duas pessoas que interessem. Durante os últimos 10 anos a vigilância em massa tornou-se uma norma. Sociedades de espionagem, como a VASTech, têm secretamente vendido equipamentos que gravam de forma permanente chamadas telefónicas de países inteiros. Outros registam a posição de todos os telemóveis de uma cidade, com uma precisão de 50 metros. Sistemas capazes de afectar a integridade de pessoas numa população civil que usa Facebook, ou que tem um smartphone estão à venda neste mercado de espionagem.
VENDA DE FERRAMENTAS DE VIGILANCIA A DITADORES
Durante a primavera árabe, quando os cidadãos derrubaram ditadores no Egipto e Líbia encontraram câmaras de escuta onde, com equipes britânicas da Gamma, os franceses da Amesys, os sul-africanos da VASTech ou os chineses de ZTE, seguiam os seus mais pequenos movimentos on-line e por telefone.
Empresas de espionagem, tais como SS 8 nos Estados Unidos, Hacking Team na Itália e VUPEN na França, fabricam vírus (Troianos) que invadem computadores e telefones (incluindo iPhones, Blackberry e Android), assumindo o seu controle e gravação de todos os seus usos, movimentos e até mesmo imagens e sons da sala onde os usuários estão. Outras sociedades, como a Phoenexia da República Checa, colaboram com os militares para criar ferramentas para análise de voz. Elas identificam os indivíduos e determinam o seu sexo, idade e nível de stress e, assim, seguem-nos através de suas “faixas vocais.” Blue Coat nos EUA e Ipoque na Alemanha, vendem as suas ferramentas aos governos de países como China e Irão para impedir os seus dissidentes de se organizar pala Internet.
Trovicor uma subsidiária da Nokia Siemens Networks, forneceu ao governo do Bahrein tecnologia de escuta que lhe permitiu seguir a pista do defensor dos direitos humanos Abdul Ghani Al Khanjar. Foram mostrados detalhes de conversas a partir do seu telefone pessoal, que datam de antes de ter sido interrogado e espancado durante o inverno de 2010 e 2011.
EMPRESAS DE VIGILANCIA PARTILHAM AS SUAS BASES COM ESTADOS
Em Junho de 2011, o NSA inaugurou um sítio no deserto de Utah para o armazenamento para sempre de terabytes das bases de dados tanto americanas como estrangeiras, a fim de poder analisá-las em anos futuros. Toda a operação teve um custo de US$1,5 mil milhões.
As empresas de telecomunicações estão dispostas a revelar as suas bases de dados dos seus clientes às autoridades de qualquer país. Os principais noticiários mostraram como, durante os confrontos em Agosto na Grã-Bretanha, a Research In Motion (RIM), que comercializa as Blackberry, propôs ao governo identificar os seus clientes. RIM tem estado envolvido em negociações semelhantes com os governos da Índia, Líbano, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, propondo-lhes compartilhar as suas bases de dados extraídas do sistema de mensagens do Blackberry.
TRANSFORMAR AS BASES DE DADOS EM ARMAS PARA MATAR INOCENTES
Existem muitas empresas que comercializam actualmente software de análise de bases de dados, transformando-os em poderosas ferramentas utilizadas por militares e agências de espionagem. Por exemplo, em bases militares dos EUA, pilotos da Força Aérea usam um joystick e um monitor de vídeo para pilotar os “Predator”, aviões não tripulados durante as missões de vigilância no Médio Oriente e Ásia Central. Estas bases de dados estão acessíveis aos membros da CIA que se servem delas para lançar mísseis “Hellfire”, sobre os seus alvos.
Os representantes da CIA têm adquirido software que lhes permite instantaneamente correlacionar os sinais de telefone com faixas vocais para determinar a identidade e a localização de um indivíduo. A empresa Intelligence Integration Systems Inc. (IISI), sediada no Estado de Massachusetts (EUA), vende software para esse fim – “análise com base na posição”,– chamado “Geospatial Toolkit”. Outra empresa, a Netezza, também de Massachusetts, que comprou este software com o objectivo de analisar o seu funcionamento, vendeu uma versão modificada à CIA, destinada a equipar aviões pilotados remotamente.
A IISI, que diz ter o seu software uma margem de erro de 12 metros, processou a Netezza para impedir a utilização deste software. O criador da sociedade IISI, Rich Zimmerman, disse a um tribunal que ficou “chocado e surpreso com o fato de que a CIA teria um plano para matar pessoas com o meu software, que nem funciona.”
UM MUNDO ORWELLIANO
Em todo o mundo fornecedores mundiais de instrumentos de vigilância em massa ajudam as agências de espionagem a espiar os cidadãos e os “grupos de interesse” em larga escala.
COMO NAVEGAR PELOS DOCUMENTOS DE “UM MUNDO SOB VIGILÂNCIA?
O projecto ” Um mundo sob Vigilância ” da Wikileaks revela, até ao pormenor, as empresas que estão fazendo milhares de milhões na venda de sistemas refinados de vigilância para os governos, ignorando as leis de exportação e ignorando de forma sobranceira que os regimes a quem vendem são ditaduras que não respeitam os direitos humanos.
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Mapa Um mundo sob vigiláncia.

