Arquivos anuais: 2012

Dilma buscou maior controle sobre os bancos do que Lula

A Associação Keynesiana Brasileira (AKB) acaba de lançar o livro Sistema Financeiro e Política Econômica em Uma Era de Instabilidade: tendências mundiais e perspectivas para a economia brasileira. Duas questões predominam nos textos: a crise financeira mundial e o esforço dos autores para identificar diferenças entre as políticas econômicas de Lula e Dilma Rousseff.

 

“O livro expressa preocupação com a desregulamentação financeira que começou na década de 80 e permitiu inovações e práticas que acabaram por alavancar a especulação e contaminar outras economias, por causa da integração financeira que existe hoje”, disse o presidente da AKB, Luiz Fernando de Paula, economista da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

De Paula acrescentou, durante o seminário de lançamento da obra, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que Keynes trabalhava com a idéia de que as instituições financeiras fazem avaliações de risco pró-cíclicas. Ou seja, em momentos de expansão tendem a se arriscar mais e, portanto, precisam ser reguladas por instituições.

“Não existe uma única visão keynesiana, mas há questões compartilhadas no livro, como a idéia de que economias monetárias capitalistas estão sujeitas à incerteza radical. O capitalismo, devido às forças monetárias e financeiras, é propenso à crise e o que as evita é a existência de instituições”, disse, ponderando que Keynes colocava a necessidade de haver um equilíbrio entre Estado e mercado: “O sistema Bretton Woods mantinha uma razoável estabilidade.”

Lula x Dilma

Com relação ao Brasil, ele observou que, enquanto Lula foi “muito conservador”, mantendo Henrique Meirelles e os “falcões do mercado” no Banco Central, e não fazendo nada para conter o “boom de fluxos de capitais”, Dilma introduziu controles sobre o mercado de capitais e sobre mercado de derivativos cambiais: “Com Dilma há maior controle sobre a taxa de câmbio, basta ver a desvalorização do real, de R$ 1,60 para R$ 2,10. Os chamados novo-desenvolvimentistas acham que é pouco. Por outro lado, Dilma tenta puxar o crescimento pelo investimento público, com enorme dificuldade, mas há preocupação e iniciativa nesse sentido”, destaca.

“Questiona-se também se houve, no segundo mandato de Lula, flexibilização das regras de Fernando Henrique, baseadas no tripé superávit primário-câmbio flutuante-metas de inflação. Em caso afirmativo, se foram medidas keynesianas ou pragmatismo no momento de crise”, observou De Paula, para quem, no livro, há dois olhares em relação aos governos do PT:

“Uma, novo-desenvolvimentista, que aponta para intervenção na taxa de câmbio para dar competitividade à indústria e levanta questões sobre a doença holandesa e a desindustrialização. Outra visão, do pessoal da Unicamp, social-desenvolvimentista, fortemente governista, tenta mostrar que há um modelo de crescimento com distribuição de renda baseado no consumo interno induzido, seja por conta do crescimento do salário mínimo ou por causa do crédito consignado, com efeitos na distribuição de renda e nova classe média.”

Euro: miopia política

Sobre a crise do euro, o presidente da AKB afirmou que os trabalhos do livro e a visão pós-keynesiana têm enfocado que a moeda única européia tem problemas no desenho, que seria equivocado: “Foi uma estrutura montada fortemente influenciada pelos preceitos ortodoxos e liberais. Não se criou uma estrutura de instituições e políticas estabilizadoras. O euro não está preparado para enfrentar uma crise. Em sua estrutura não tem nada pronto para isso”, conclui o economista da Uerj, acrescentando que o Banco Central Europeu (BCE) era voltado para a estabilidade de preços, mas tinha suas funções de emprestador de última instancia bastante inibidas.

“Só recente e tardiamente o BCE anunciou que estará disposto a fazer compras ilimitadas de títulos soberanos para evitar que os preços despenquem. Então, enquanto “grande banco”, o BCE é bastante capenga”, define.

Também o governo central, na visão dos autores, seria “capenga”, pois na região do euro não existe entidade supranacional fiscal: “Acrescente-se o fato de que a região é socialmente muito assimétrica, com desníveis agudos de competitividade. O Banco de Reconstrução Europeu fez investimentos, mas a região precisava de uma política permanente de transferência de renda para que a periferia se desenvolvesse. Mas não foi o que aconteceu. O bloco se manteve dependente dos países centrais, sobretudo da Alemanha. Com câmbio fixo, o país se tornou a grande exportadora para toda a região do euro”, critica De Paula.

Mais incerteza

Já Rogério Sobreira, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), destacou que os aperfeiçoamentos feitos no Acordo de Basiléia (mecanismo de supervisão bancária global) não alteraram o caráter auto-regulatório que lhe é intrínseco, o que manteria este conjunto de regras incapaz de mitigar crises do porte da verificada a partir de 2007: “A crise capitalista é um momento de aumento da incerteza, mas também muito rico para o debate. Defendemos que o desenho da regulamentação tipo Basiléia não tem condições de evitar crises como a que estamos vivendo.”

Sobreira argumenta que Basiléia 1, instituída em 1988, veio substituir uma regulação de caráter muito mais direto quanto ao controle de fluxos de capital e de liquidez: “Esse modelo de regulação era facilitado porque havia sistemas financeiros ainda não tão desenvolvidos e as inovações não tinham o alcance que passaram a ter, bem como os sistemas financeiros não tinham caráter tão global quanto passaram a ter a partir da segunda metade dos anos 80. A regulação financeira era muito mais doméstica e foi conduzida a bom termo”, historiou.

Segundo o economista da FGV, nos momentos de expansão é mais difícil controlar a expansão do crédito, pois os bancos têm tendência pró-cíclica, ou seja para relaxar a análise de risco: “Mesmo assim o tecido regulatório pré-Basiléia funcionava razoalvelmente. Depois passaram a lançar mão de inovações de processo e, principalmente, de produto. Derivativos, operações de securitização, alavancagem, inclusive, em operações internacionais. Desde os anos 70, já havia modelos de “apreçamento” de derivativos mas eles só passam a ser mais genericamente utilizados a partir das segunda metade dos anos 80, por causa do desenvolvimento da capacidade computacional. Isso começa a criar problemas críticos para o tecido regulatório.”

Globalização da crise

Segundo Sobreira, também os sistemas começaram a operar no vácuo das medidas de política que sugeriam abertura das contas de capital, fato que levou os sistemas financeiros a operarem de forma muito mais global: “O edifício regulatório passa a operar na base de incentivo (à auto-regulação), mais do que na intervenção direta”, afirmou.

O sistema, segundo ele, foi aperfeiçoado, em 2004, com Basiléia 2, mas isso não evitou que a crise explodisse em 2007-2008: “Foi uma grande ducha de água fria. Como um mecanismo tão sofisticado acabou não mitigando uma crise dessas proporções?”

Segundo Sobreira, perceberam-se pelo menos duas falhas em Basiléia 2: a tendência à inovação nos sistemas financeiros não foi alterada, bem como a falta de liquidez nos momentos de estresse.

Essa leitura orientou a construção de Basiléia 3: “Ampliou-se a responsabilidade do regulador, mantendo a filosofia do incentivo. Foi uma evolução, mas não resolveu dois problemas fundamentais: não atua na tendência dos sistemas financeiros de operarem cada vez mais no curto prazo, elevando a desfuncionalidade do sistema financeiro, e cria problemas em relação à capitalização dos bancos de desenvolvimento e bancos públicos”, finalizou.

Safatle: Escolha dos novos atores políticos é opaca e antidemocrática

Vladimir Safatle, em CartaCapital

Um dos fatos mais relevantes de 2012 foi a transformação dos juízes do Supremo Tribunal Federal em novos atores políticos. Já há algum tempo o STF virou protagonista de primeira grandeza nos debates políticos nacionais, ao arbitrar grandes questões ligadas à vida nacional em um ambiente de conflito. Por tal razão, vemos hoje um fato absolutamente inédito na história nacional: juízes do STF reconhecidos por populares.

Durante décadas, a Suprema Corte era um poder invisível para a opinião pública. Ninguém via no Supremo a expressão de um poder que poderia reverberar anseios populares. Hoje é inegável que algo mudou, principalmente depois do julgamento do chamado “mensalão”, no qual o tribunal procurou traduzir em ações as demandas sociais contra a corrupção. Nesse contexto de maior protagonismo do STF, algumas questões devem ser colocadas.

Fala-se muito da espetacularização do Judiciário, que seria sensível aos apelos da mídia e de setores da opinião pública. Isto principalmente depois da criação de um canal de televisão, a TV Justiça, pelo qual é possível acompanhar julgamentos do STF. Se levado a sério o argumento, teríamos de afirmar que tal espetacularização é um fenômeno a atingir a democracia como um todo, e não apenas um de seus poderes. Na verdade, melhor isso do que os momentos nos quais juízes do Supremo podiam dizer que julgavam “de costas para a opinião pública”. A democracia exige o regime da máxima visibilidade dos entes e processos públicos.

Segundo, que juízes se vejam como atores políticos não deveria ser visto como problema. Só mesmo um positivismo jurídico tacanho acreditaria que a interpretação das leis pode ser feita sem apelo à interpretação das demandas políticas que circulam no interior da vida social de um povo. Interpretar uma lei é se perguntar sobre o que os legisladores procuravam realizar, qual o núcleo racional por trás das demandas que se consolidaram através da enunciação de leis. Que juízes se vejam, atualmente, com tais incumbências, eis algo que não deveria nos preocupar.

Há, porém, duas questões urgentes que merecem nossa atenção diante deste novo momento do Judiciário. Primeiro, a tripartição dos poderes foi feita com vistas à possibilidade de constituir um sistema de mútua inspeção. Um poder deve ter a possibilidade de servir de contrapeso aos demais. Para isso, todos os três poderes devem ter o mesmo grau de legitimidade e todos devem ter mecanismos simétricos de controle.

O único fundamento de legitimidade reconhecido pela democracia é a soberania popular. Ela se manifesta na escolha do Poder Executivo e do Legislativo. Mas está completamente ausente no interior do Poder Judiciário. O sistema de escolha e nomeação dos integrantes do STF, com suas indicações do Executivo e sabatina do Legislativo, é completamente opaco e antidemocrático. Haja vista as recentes inconfidências do ministro Luiz Fux a esse respeito. Nem sequer procuradores do Ministério Público são escolhidos por deliberação popular. Um poder que deseja um protagonismo político respeitado deve se abrir para a participação popular direta. Há uma criatividade institucional necessária que deve ser mobilizada para sairmos de um sistema “monárquico” de constituição do Judiciário, com suas indicações por compadrio ou “serviços prestados”, seus cargos sem tempo fixo de mandato.

O problema do controle do Judiciário não deve, no entanto, ser posto necessariamente na conta de tentativas de amordaçamento. Todos os poderes têm mecanismos de controle. Por exemplo, podemos aplicar impeachment em um presidente, cassar o mandato de um deputado, mas o que fazer quando um juiz do STF demonstra-se inapto ao cargo? Um poder democrático é aquele que deixa claro seus mecanismos de entrada e de saída, ou seja, como ele escolherá seus integrantes e como afastará quem se demonstra inabilitado para o cargo. Nos dois casos, nosso Judiciário tem muito no que avançar.

É necessário que a sociedade brasileira tenha a serenidade para discutir mecanismos de reforma do Judiciário, principalmente agora que compreendemos a importância de sua função. A democracia tem muito o que construir no que diz respeito à legitimidade popular de seus juízes.

Skaf, da FIESP, ganha um carimbo: “oportunista”

Presidente da Fiesp estaria pegando carona no plano do governo pela redução da conta de luz e usando a entidade com finalidades políticas, tentando se viabilizar como candidato do PMDB ao Palácio dos Bandeirantes. Skaf diz que venceu a guerra pela redução das tarifas, “com o apoio da presidente Dilma”. Ou seja, ele é o pai da ideia

Por Brasil 247

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O presidente da Federação das Indústrias de São Paulo, Paulo Skaf, ganhou um rótulo no Palácio do Planalto, em Brasília: “oportunista”. O motivo é o vídeo em que ele tenta se apresentar como o pai do plano para a redução das contas de luz. “Ganhamos a guerra”, diz o presidente da Fiesp, “com o apoio da presidente Dilma”. Ou seja: é dele a paternidade.

Para realizar essa campanha, Skaf contratou, com recursos da Fiesp, o publicitário Duda Mendonça, usando a entidade com finalidades políticas. Seu sonho é concorrer ao Palácio dos Bandeirantes em 2014, num cenário que parece inviável, pois a tendência é que PMDB e PT estejam alinhados – até porque, o principal nome do partido em São Paulo, Gabriel Chalita, deve se tornar ministro do governo Dilma no início de 2013.

Leia, abaixo, as notas publicadas na coluna do jornalista Claudio Humberto sobre a fama de Skaf em Brasília e assista aqui ao vídeo em que ele reivindica a paternidade do plano pela redução das tarifas:

SKAF ANTECIPA CAMPANHA ELEITORAL USANDO A FIESP

Quando faz a Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp) bancar suas aparições na TV sobre energia, Paulo Skaf tem vários objetivos estratégicos. O primeiro deles é aparecer, tentando viabilizar sua candidatura ao governo paulista em 2014, pelo PMDB, massificando seu rosto e seu nome, e pegando carona na redução da conta de luz, que na verdade decorre da obstinação da presidente Dilma Rousseff.

OPOSIÇÃO NA CNI

Outro objetivo de Skaf é fustigar o presidente da CNI, Robson Andrade, seu adversário, que não fala em energia por ser sócio de termelétricas.

OPORTUNISTA

Apesar dos elogios de Paulo Skaf a Dilma, na TV, ela deplora a jogada do presidente da Fiesp, classificada de “oportunista” no Planalto.

OUTRO OBSTÁCULO

Outro adversário no horizonte de Paulo Skaf é o deputado Gabriel Chalita, que terá a primazia no PMDB-SP para as disputas majoritárias.

Dilma: “é ridículo dizer que o país corre risco de racionamento”

por Danilo Macedo e Luana Lourenço, na Agência Brasil

Brasília – A presidenta Dilma Rousseff disse hoje (27) que acha “ridículo” dizer que o país corre o risco de racionamento de energia. Segundo ela, as empresas de energia não investiram adequadamente na manutenção do sistema elétrico durante anos, mas, a partir de agora, o quesito será melhor fiscalizado. Ainda segundo a presidenta, há recursos suficientes para usar em manutenção sem deixar de ampliar o sistema.

“Eu acho ridículo dizer que o país corre risco de racionamento”, disse a presidenta durante café da manhã com jornalistas

Em relação às interrupções de energia recentes, que deixaram milhões de pessoas sem luz, Dilma criticou a tentativa de colocar a culpa em fenômenos naturais, como raios. Segundo ela, se houve interrupção, houve falha humana. “No dia que falarem que [houve interrupção de energia porque] caiu um raio, vocês gargalhem”, ironizou.

“Raio cai todo dia. Um raio não pode desligar o sistema. Se cai, é falha humana. Não é sério dizer que o sistema caiu por causa de um raio”, disse Dilma mostrando fotos de satélites mapeando a constante incidência de raios no território nacional nos últimos dias.

Dilma disse que o sistema elétrico deve ser “implacável” contra interrupções de energia e o país não pode aceitar conviver com essa situação, porque muitas pessoas perdem equipamentos elétricos, além de outros prejuízos. Segundo ela, o sistema elétrico está sujeito a “estresse”, mas tem que estar preparado. “Tem que ser resistente ao raio, isolar e recuperar. Tem que ter bloqueio, estar blindado.”

Na avaliação da presidenta, a interrupção do fornecimento de energia no Aeroporto Internacional Tom Jobim/Galeão, no Rio de Janeiro, na noite de ontem (26), que provocou atrasos em 19 voos, também foi falha humana. “No Galeão, foram duas coisas: falha humana, porque deveriam ter trocado o ar condicionado que estava velho, e sobrecarga, por causa da temperatura alta”, avaliou. Dilma disse que é preciso se antecipar e adequar os equipamentos para possíveis riscos. “Planejar é isso.”

Fiori: “Milagres econômicos” da guerra fria

Por José Luís Fiori
Salvo engano, foi o jornal “The Times” que falou pela primeira vez – em 1950 – de “milagres econômicos”, referindo-se a países com prolongados períodos de altas taxas de crescimento econômico sustentado. Depois, essa expressão foi utilizada para caracterizar o crescimento da Alemanha, Itália, Japão, Coreia e Brasil, entre as décadas de 50 e 80, período áureo da Guerra Fria. Entre 1950 e 1973, o produto nacional da Republica Federal Alemã, cresceu a uma taxa média anual de 5,05%; no mesmo período, a Itália cresceu 5,68%; o Japão, 9,29%; e a Coreia do Sul, 9.85%. No Brasil, as taxas foram mais altas e descontínuas, com uma média de 8%, entre 1955 e 1960, 11%, entre 67 e 73, e 6,4% entre 74 e 80, mas com uma queda significativa no período 61/67. Assim mesmo, depois de 1980, a taxa de crescimento de todos esses países caiu de forma desigual mas permanente.
Agora bem, a despeito de suas grandes diferenças históricas e políticas, Alemanha, Japão, Itália e Coreia foram derrotados e destruídos – na Segunda Guerra Mundial ou na Guerra da Coreia – e depois foram ocupados e transformados em “protetorados militares” dos EUA. Logo depois da guerra, a ideia americana era desmontar as antigas estruturas econômicas desses países. Mas, com o começo da Guerra Fria e o fim da Guerra da Coreia, esse projeto inicial foi substituído por uma política diametralmente oposta, de estímulo ao crescimento econômico, com forte participação dos governos locais, e dos próprios agentes econômicos e instituições privadas do pré-guerra. Por isso se pode dizer com toda certeza que a lógica da Guerra Fria pesou decisivamente na origem dos “milagres econômicos”, e na transformação posterior daqueles países em peças centrais da engrenagem econômica do poder global dos Estados Unidos, pelo menos até a década de 70.
No caso do Brasil – que foi aliado dos EUA na Segunda Guerra Mundial – o caminho foi diferente, mas também se pode falar de um “convite” que foi aceito – depois do Acordo Militar Brasil-EUA, de 1952 – e que transformou o Brasil no pivot central da estratégia desenvolvimentista americana, para a América Sul. A nova política foi experimentada primeiro com o governo JK – inteiramente alinhado com os EUA e com o colonialismo europeu – e só depois, a partir de 1964, sob comando direto do regime militar.
Estratégia americana permitiu o cerco e a desconstrução final da União Soviética e o fim da Guerra Fria
Depois de quase três décadas de “milagre econômico”, entretanto, esse processo foi interrompido pela “crise americana” da década de 70, e pela nova mudança da política internacional dos EUA. Tudo começou com a reaproximação da China, no início da década de 70, que levou à derrota/saída americana do Vietnã, e ao redesenho do equilíbrio do poder no sudeste asiático. Foi nesse mesmo contexto que os EUA decidiram abandonar Bretton Woods, liberando sua moeda e iniciando a desregulação do seu mercado financeiro, com a lenta construção de um novo sistema monetário internacional, baseado no dólar, mas sem base metálica. A nova estratégia permitiu o cerco e desconstrução final da URSS e o fim da Guerra Fria, mas, ao mesmo tempo, ela desativou ou esvaziou o papel econômico que fora ocupado pela Alemanha e pelo Japão, e secundariamente pelo Brasil, durante as primeiras décadas da Guerra Fria. O crescimento econômico médio anual da Alemanha caiu para 2,10%, entre 1973 e 1990; o do Japão, caiu para 2,97%; o da Itália, para 1,76; o da Coreia, para 6,77; enquanto o Brasil entrava num longo período de estagnação.
Ao mesmo tempo em que a China se transformou no novo milagre econômico do sistema capitalista mundial, a Alemanha e o Japão seguiam na sua condição de gigantes industriais e tecnológicos, mas com “pés de barro”, ainda na condição de protetorados militares dos EUA e sem dispor de recursos naturais essenciais, além de serem igualmente dependentes do ponto de vista alimentar e energético.
Assim mesmo, no início da segunda década do século XXI, pode ser que o Japão e a Alemanha venham a ser resgatados, uma vez mais, como caminho de saída da crise, para os EUA, e como instrumentos da nova doutrina Obama, que se propõe fazer – desta vez – o cerco econômico e militar da China. O Japão e a Coreia estão sendo pressionados para participar da Trans-Pacific Partenership – TPP, que é hoje a pedra angular da política comercial de Obama, e que se propõe reunir dos dois lados do Pacífico uma grande zona de livre comércio. Ao mesmo tempo em que a Alemanha vem sendo estimulada a liderar um grande pacto comercial transatlântico, entre a UE e os EUA, há quem proponha que o Brasil se junte à “aliança do pacífico”. Neste novo xadrez, entretanto, o Brasil é muito menos desenvolvido que a Alemanha e o Japão, mas dispõe de recursos naturais e é autossuficiente, do ponto de vista alimentar e energético. Por isso, talvez só o Brasil tenha hoje condições reais de escolher um caminho que lhe dê maior grau de autonomia estratégica, e maior capacidade de projetar seus interesses e sua influência, numa escala global.
José Luís Fiori, professor titular de economia política internacional da UFRJ, é autor do livro “O Poder Global”, da Editora Boitempo, e coordenador do grupo de pesquisa do CNPQ/UFRJ “O Poder Global e a Geopolítica do Capitalismo”.

A classe média está sendo vítima de sua ideologia

por Flávio Lyra (*)

Frente à verdadeira avalanche destruidora de seu nível de vida gerada pelo o avanço do processo de globalização, as classes médias do mundo capitalista permanecem surpresas, atordoadas e incapazes de se organizarem politicamente em defesa de seus interesses.  Desde logo, esse avanço deu-se sob a poderosa influência da onda ideológica constituída pelo ideário neoliberal, cuja essência é a maior entrega possível das decisões econômicas às forças livres do mercado e a redução ao mínimo do papel do Estado.

Com a deflagração da atual crise, em 2008, as primeiras vítimas do estouro da “bolha imobiliária” nos Estados Unidos e na Europa foram os infelizes adquirentes de casa própria que, iludidos com as facilidades de acesso ao crédito incorreram em dívidas impagáveis em face dos preços altamente inflacionados dos imóveis. Com a queda dos preços, ficaram as dívidas que, os bancos passaram a executar em massa, matando o sonho da casa própria e comprometendo as futuras rendas dos devedores.

De lá para cá, o problema só agravou-se, pois aumentou o desemprego e os que permanecem empregados são forçados a aceitar os salários declinantes, em termos reais. Para a salvação dos bancos, que se envolveram em operações de crédito, legais e fraudulentas, muito além do suportável, os governos foram obrigados a injetar vultosas cifras em seus caixas, que automaticamente se transformaram em grandes déficits fiscais.

Para ilustrar, veja-se o quadro atual da economia dos Estados Unidos em que Republicanos e Democratas se esmeram em reduzir o enorme déficit fiscal, mediante a eliminação de dotações do orçamento vinculadas a gastos na área social, sem terem em conta que estarão condenando as classes média e pobre a novas perdas de renda real e de qualidade de vida. Tudo isto, para manter incólumes as rendas dos mais ricos, que só têm aumentado, mesmo depois da crise. David Ruccio, em seu blog na Real-World Economic Review, em 03/09/11, mostra que nos Estados Unidos, entre 2002 e 2007, para um crescimento da renda disponível média de 3% ao ano, o estrato do 1% mais rico teve um crescimento médio de 10,1% e os 99% restantes de apenas 1,3%. Do crescimento total no período, o 1% mais rico apropriou-se de 65%.

Por sorte, grande parte dos países da America Latina, durante a primeira década deste Século, aproveitando a situação excepcional do mercado internacional de produtos primários, juntamente com a posta em prática de políticas sociais,  conseguiu alcançar taxas satisfatórias de crescimento da produção e do emprego e, por esse meio, manter a renda real de sua classe média em expansão.  Alguns destes países, entre os quais se inclui o Brasil, a Argentina, a Venezuela, a Bolívia e o Equador, introduziram mudanças significativas em suas políticas econômicas,  de modo a melhorar a distribuição da renda e favorecer os segmentos mais pobres da população.

A temática comum do momento, tanto nos países centrais, quanto em nossos países, é a da escolha entre maior liberdade de mercado e maior intervenção do Estado. Nos países centrais, até agora, vem predominando a ênfase em maior liberdade de mercado, com as ações sendo dirigidas à redução do papel do Estado na economia, como forma de contenção dos déficits fiscais. As classes média e pobre nesses países  já estão pagando um preço altíssimo pela opção realizada.  As tentativas de resolver o problema com expansão monetária (“quantitative easing”) não estão produzindo resultado internamente e podem estar lançando as bases para uma futura onda inflacionária no mundo.

Vítimas da cegueira ideológica que domina a classe média, movimentos políticos como o Tea Party, nos Estados Unidos, posicionam-se contra seus próprios interesses, ao defenderem a redução da intervenção do Estado na economia em nome da liberdade de mercado, o que leva os mais ricos a não pagarem impostos de acordo com sua capacidade contributiva.

No Brasil, a classe média vem adotando uma conduta semelhante. Sob a influência da grande imprensa tem passado a condenar abertamente a maior intervenção que o governo vem realizando na economia, supondo que com maior liberdade de mercado será possível aproveitar melhor o potencial produtivo do país, bem como diminuir a corrupção, que associam à presença de um estado forte.  Essa atitude encontra apoio na suposição equivocada de que na atual etapa de nosso desenvolvimento, os interesses da classe média estão em contradição com os da população mais pobre e que uma maior participação do Estado na economia, sob o comando de lideranças ligadas às forças populares, levará a mais gastos sociais financiados com o aumento da tributação da classe média.

Ora, maior liberdade de mercado num país ainda pouco desenvolvido como o nosso, em um mundo dominado por grandes corporações internacionais, somente vai aprofundar a adaptação passiva de nossa estrutura econômica ao mercado internacional.  O processo de desindustrialização que estamos sofrendo, com o aumento da participação de produtos primários em nossa pauta de exportação, sintoma desse tipo de ajustamento passivo, não assegura que possa melhorar a capacidade de nossa economia para crescer de modo sustentável e avançar tecnologicamente. Os dois últimos governos, através de maior intervenção estatal, vêm buscando exatamente reverter essa tendência, influenciando na escolha dos setores onde investir e no aprofundamento da capacitação tecnológica.

Maior intervenção estatal através de políticas sociais só, à primeira vista, pode prejudicar a classe média. A incorporação dos segmentos populares ao consumo de massa é a forma mais segura e eficiente de ampliar as oportunidades de investimento na economia e propiciar a dinamização do crescimento, o que retorna em termos de aumento de renda e oportunidades de trabalho em favor da classe média. Caso contrário, a classe média vai sofrer vai estar sujeita ao mesmo tipo de deterioração de sua renda real que está sofrendo nos países em que as grandes corporações internacionais comandam o processo de crescimento.

Em síntese, no atual contexto de uma economia internacional controlada por grandes monopólios privados, sediados em economias centrais em profunda crise,  com a existência de grande capacidade ociosa de instalações modernas,  deixar  as decisões econômicas de um país ainda em desenvolvimento entregues às forças do mercado só pode prejudicar  seu potencial de expansão econômica e avanço tecnológico.

Se assim chegar a ser, os segmentos produtivos que vão continuar se expandido serão os que interessam diretamente ao mercado internacional  e aos grandes monopólios. Por exemplo: o agronegócio, o setor mineral e os bancos.   Certamente, seus proprietários vão expandir os negócios e acumular riqueza, exportando produtos primários para industrialização no exterior,  mas muito pouco será feito para a constituição de uma estrutura econômica dinâmica, que gere empregos de qualidade nas zonas urbanas e que responda aos interesses da maioria da população.

Os membros da classe média brasileira que se mostram simpáticos aos argumentos em favor de maior liberdade das forças de mercado e da redução do papel do Estado na Economia,  não percebem que estão indo na contramão de seus próprios interesses. Na ânsia de combater as forças populares e seus governos, somente estão contribuindo para o fortalecimento das forças políticas que defendem maior subordinação às forças de mercado o que, em outras palavras, significa aumentar a dependência externa e perda de autonomia nacional para levar adiante uma política econômica que permita mobilizar o potencial produtivo do Brasil em favor da maioria de sua população.