Arquivos anuais: 2011

Royalties: uma riqueza que deve ficar dentro do Brasil

Fernando Leite Siqueira

O projeto original do governo para o Novo Marco Regulatório não tratava da distribuição dos royalties, pelo seu elevado conteúdo polêmico, pois iria obscurecer o debate na Sociedade sobre a apropriação e o destino dos outros 90% do petróleo produzido.

No entanto, o Relator do Projeto na Câmara, além de introduzir a distribuição dos royalties, elevou-os para 15% e acrescentou emenda ao projeto do Governo Lula prevendo a absurda devolução, em petróleo, do royalty pago. Denunciamos essa emenda no Senado. Diante da péssima repercussão nessa casa, ela foi retirada pelo relator Romero Jucá. Mas, por força do lobby, ele a recolocou: distribuindo-a em quatro artigos, dificultando a sua supressão.

Assim se tornou imprescindível a Emenda Pedro Simon, acrescentada e aprovada no Senado, estabelecendo uma importante proibição a qualquer forma de restituição ou compensação de royalty. Bem como um novo critério para sua distribuição entre os Entes Federados e uma previsão transitória para evitar perdas para os Estados e Municípios Confrontantes.

Devolver em petróleo o royalty pago, se aprovada a sua elevação para 15% do petróleo produzido, conforme Projeto de Lei 8051/10, do Governo Lula, em tramitação, implica numa apropriação indébita de cerca de 15 bilhões de barris de petróleo, que estariam sendo transferidos, de graça, ao Consórcio produtor. Esse volume é superior às reservas brasileiras antes do pré-sal (14,2 bilhões de barris), que foram descobertas em 58 anos.

O poder geopolítico dessa riqueza, o bem mais carente e cobiçado no planeta, o petróleo, irá mudar profundamente o patamar de inserção do Brasil no cenário internacional.

A derrubada do veto evita que a União, que poderia receber mais de 50% do petróleo produzido pelo projeto inicial de partilha, veja essa participação cair para menos de 35%. Assim, é de suma importância que não se cometa esse crime de lesa pátria, pela perda da propriedade dessa riqueza pelo país. Seria uma injustiça com nossas gerações futuras.

Viabilização

Proposição para Distribuição Equânime dos Royalties do Petróleo

O grande gargalo para a derrubada do veto é o critério constante na Emenda para distribuição dos royalties, que altera a situação atual, é não prejudicar o Rio de Janeiro e o Espírito Santo. Visando uma maior equanimidade de seu aproveitamento por todos os Entes Federados, propomos uma definição para a transição, uma forma de superar esse impasse.

Estratégia:

Distribuição dos royalties da Exploração do Petróleo na plataforma marítima equanimemente entre todos os Estados e Municípios do País, estabelecendo uma transição para que os Estados e Municípios confrontantes não tenham prejuízo em relação à sua atual participação.

Essa equanimidade reforça o pacto federativo, e todos os Entes Federados terão participação mais igualitária no resultado da exploração dessa riqueza, que pertence a todos os brasileiros

Critério:

Manter fixos os atuais valores distribuídos como royalties do petróleo produzido na plataforma marítima para os Estados e Municípios confrontantes. E todo o acréscimo de valor a ser distribuído, seja ele por aumento de produção, aumento de preço do petróleo ou da percentagem de royalties, será distribuído para os demais conforme a Lei de Fundos de Participação dos Estados e Municípios. Esta lei está em revisão no Congresso, e pode ser aperfeiçoada de modo a contemplar a todos sem gerar prejuízos.

Com isso, ao longo do tempo, tenderemos a alcançar uma equanimidade de benefício entre os Entes Federados, e, portanto com uma maior justiça social para aplicação em Programas para o Desenvolvimento Regional Sustentado.

Esses valores fixados para os Estados e Municípios confrontantes deverão ser atualizados financeiramente, de modo a não perderem o seu valor no longo prazo.

Nesse processo de ajuste pode ser eliminada outra forte distorção: a aplicação da Lei Kandir que isenta de ICMS a exportação do petróleo. Não tem sentido incentivar a exportação do bem mais cobiçado do planeta, cuja carência é cada vez mais crescente, em detrimento do Brasil e para benefício de outros países mais ricos e poderosos que nós. Essa retirada da isenção de tributação para a exportação do petróleo pode ser usada como a compensação pela União de eventuais perdas de tributo dos Estados confrontantes prevista na emenda Pedro Simon. O petróleo não exportado hoje poderá sê-lo futuramente por um preço muito maior. O pico de produção está chegando. A elevação dos preços é irreversível.

Esta correção da Lei Kandir pode também compensar a eliminação da Participação Especial, existente no Regime de Concessão, que não consta no Novo Marco Regulatório do Petróleo para o Regime de Partilha. Hoje essa participação gera um montante anual de R$ 11 bilhões. Cabem aos estados confrontantes 40% desse valor, ou seja, cerca de R$ 4,5 bilhões.

Entretanto, com a aplicação indevida da Lei Kandir, hoje, os estados confrontantes deixam de receber 18% de ICMS do petróleo exportado, cerca de R$ 6,7 bilhões por ano, bem mais que a participação especial. Assim, eliminada essa distorção, a União pode fazer a compensação supracitada e ainda sobram para ela mais R$ 2,2 bilhões.

Situação atual:

O Royalty é uma compensação para o País pela exploração de uma riqueza que lhe pertence. Atualmente os seus percentuais são:

    Taxas:     Lei 7990/89 –  5% do petróleo produzido

        Lei 9478/97 –  5% a 10% do petróleo produzido na plataforma continental.

        PL  8051/10 – 15% do petróleo produzido.

Hoje os Estados confrontantes com a produção de petróleo no mar recebem 2,65% dos 10% de royalties pagos, e os Municípios Confrontantes outros 2,65%, proporcionalmente às respectivas produções. Em 2010 essa produção foi conforme indicado na tabela do anexo 1, em que vemos que o maior beneficiário é o Rio de Janeiro com 70% e o menor é o Ceará com 0,34%.

O royalty do petróleo pago em 2010 foi de R$ 9.929.990 mil, e a Participação Especial foi de R$    11.270.000 mil. (R$ 11,27 bilhões)

Cabe ressaltar que essa distribuição dos royalties, apresentada no anexo 2, foi estabelecida como uma compensação pela perda do ICMS do petróleo produzido junto aos Estados Confrontantes, que pela Constituição Nacional de 88 passou a ser cobrado pelo Estado consumidor e não mais o produtor.

Como esses Estados vão perder a Participação Especial, Ela pode ser compensada eliminando a isenção de ICMS para a exportação de petróleo. A exportação de petróleo em 2010 foi da ordem de 600 000 barris (219 milhões de boe/ano), e o montante de ICMS foi R$ 6,7 bilhões.

Situação futura:

Está prevista no Planejamento Estratégico da PETROBRAS a seguinte evolução da produção:

Produção 2017: ~ 1 400 milhões de barris de óleo equivalente/ano

Produção 2020: ~2 190 milhões de boe/ano.

No mês de agosto, passado, o presidente Gabrielli, em palestra na sede do jornal Estado de São Paulo, previu uma exportação diária de 3 milhões de barris em 2020. Isto representa cerca de 1,1 bilhão de barris por ano. Assim, a perda com a Lei Kandir sobe para R$ 34 bilhões por ano. Essa transferência de recursos para exportadores não tem qualquer sentido.

Conclusão:

Face ao exposto é viável e fundamental a derrubada do veto à Emenda Simon (Art. 64 Lei 12 351/10 e seu §3º), pois ela impede uma esdrúxula devolução, em petróleo, dos royalties pagos. Quanto à distribuição dos royalties, ela também é importante podendo ser ajustada pela Lei que regula os Fundos de Participação dos Estados e dos Municípios, em fase de revisão, de forma a manter os ganhos atuais dos Estados e Municípios Confrontantes, sem prejudicar a distribuição equânime para todos os Estados e Municípios confrontantes ou não.

Cada Contrato de Partilha efetivado terá uma validade de 35 anos, e sua alteração dependerá de outros interesses que não o nacional. Daí a urgência para derrubar o veto, antes de algum leilão para exploração de petróleo inclua essa absurda devolução.

Além disso, esses royalties distribuídos, bem aplicados em projetos de investimentos sociais (saúde, educação, segurança e infra-instrutora), serão a maior chance da história para o Brasil   deixar de ser o eterno país do futuro para ser o País do presente. Para o seu povo.

Fernando Leite Siqueira é presidente da Associação dos Engenheiros da Petrobrás – AEPET

“A regulação é indispensável”, afirma Mino Carta

Em uma palestra sobre o atual jornalismo brasileiro na Faculdade Cásper Líbero, na segunda-feira 3, o jornalista Mino Carta, diretor de redação de CartaCapital, defendeu a regulamentação da mídia como forma de controlar os interesses dos proprietários de veículos do setor. “Quando se toca neste assunto, a mídia se apressa em dizer que está sendo tolhida. Porém, trabalhei fora do país em um lugar onde patrão não poderia ser diretor de redação por lei. É indispensável estabelecer esse limite”, disse Carta.

Aos 77 anos, o jornalista, criador das revistas Quatro Rodas, Veja e CartaCapital e do Jornal da Tarde, afirmou a uma platéia lotada, principalmente por estudantes de jornalismo, que a profissão reflete os atrasos políticos e sociais do País. “Não tenho uma boa opinião do jornalismo brasileiro e isso não deve mudar a curto ou médio prazo”, alfinetou.

Porém, essa visão não desanima a estudante de jornalismo Helena Lima. “É uma análise bem realista, mas não chega a assustar”, observou. “Creio que essa análise pessimista é até comum entre os jornalistas de uma forma geral”, concordou a também estudante Carolina Salomão, de 21 anos.

Segundo Carta, “alguns senhores, donos de veículos de mídia, carregam a herança da Casa Grande. Mostram um país que eles gostariam de ver”. Como exemplo deste posicionamento, cita o episódio ocorrido com o ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva, na França, na última semana.

Na oportunidade, Lula recebeu o seu sétimo título de doutor honoris causa. A premiação era do Instituto de Estudos Políticos de Paris, o Sciences Po, que concedeu a honraria pela primeira vez a um latino-americano. O diretor de redação de CartaCapital destacou que alguns correspondentes brasileiros na coletiva de imprensa “encarnaram seus patrões e manifestam o ódio de classe”. “Questionaram a decisão de uma respeitada instituição que pesou prós e contras, perguntando como era possível alguém que nunca leu um livro receber um título de doutor.”

A estudante de jornalismo Renata Moura, de 21 anos, concordou com as críticas feitas por Carta à mídia nacional, e aos seus correspondentes a “encarnar seus patrões”. “Acredito que é importante debater esse aspecto de casa grande e senzala e os problemas do jornalismo brasileiro, entre eles o fato de que os donos não deveriam ser diretores de redação.”

O criador de CartaCapital também mostrou-se preocupado com fato de alguns veículos de imprensa não se conscientizarem da importância de levar aos leitores uma informação correta. “É preciso sempre manter a fidelidade canina à verdade factual, mas infelizmente o jornalismo brasileiro atual não a respeita e omite fatos quando não lhe convém que algo venha à tona. Isso quando não mente.”

Carta falou também sobre o dever da imprensa em fiscalizar o poder, que nem sempre está na política. “Entendemos sempre que a política é corrupta, mas há uma via de duas mãos, quem corrompe e quem é corrompido. Nessa operação não existe somente políticos, há os senhores do poder, não só deputados, ministros e senadores.” Em seguida, ironizou: “A nossa corrupção é a mais glamurosa do mundo.”

Opinião

Segundo Carta, há espaço para a opinião no jornalismo, desde que seja feita uma apuração apresentando todas as partes envolvidas. “O espírito crítico nos permite saber que estamos vivos, é uma dádiva”, declarou, apontando que o formato de CartaCapital difere das demais revistas semanais do Brasil por ter uma característica de análise.

Sobre sua carreira, ele destacou a liberdade técnica que teve para fundar o Jornal da Tarde, na década de 60. “O jornal saia às 12h no centro de São Paulo. Era corajoso, bem feito e valorizava as grandes reportagens, além do tom literário. Embora tenha que admitir, o jornal cresceu muito após a minha saída em 1968 para dirigir a Veja, tendo o seu ápice até 1973.”

Em relação à semanal que também fundou, Carta é enfático: “Criei um monstro”. Porém, mantém o bom humor ao ser questionado se, como ex-diretor da revista Quatro Rodas, uma publicação sobre carros, sabe dirigir. “Não sei a diferença entre um Fusca e uma Mercedes. Talvez por isso a revista tenha sido um grande sucesso”, brincou.

O jornalista também falou sobre a internet como ferramenta para buscar informações em mídias alternativas aos grandes veículos de imprensa. “É um instrumento excelente, mas depende de quem está usando”, declarou. “Já tive e abandonei um blog porque por trás desse negócio há uma questão moral. Quem escreve não se identifica, ofende e não mostra quem é ou o que quer.”

Uma característica que, segundo Moura, não deve ser encarada de forma negativa. “Se você é um Mino Carta ou Rubens Paiva, vai ser atacado, mas é importante continuar escrevendo, é apenas mais um aspecto desse meio.”

Fonte: http://www.cartacapital.com.br/politica/%E2%80%98a-regulacao-da-midia-e-indispensavel%E2%80%99

A primavera brasileira

Alberto Dines

No Velho Testamento eles aparecem como líderes, sábios, depois foram substituídos pelos reis e três mil anos depois, neste esplêndido pedaço do mundo chamado Brasil, juízes estão na berlinda, candidatos ao banco dos réus. E, se a pendência entre a AMB e o CNJ acirrar-se, a toga corre o risco de perder a aura de solenidade que a envolve.

A administração da justiça contém ritos fascinantes, a submissão ao poder das leis produz um dos mais belos espetáculos que a sociedade humana já inventou. Um júri diferente, porém, começa a empolgar o país e ele não favorece a Associação dos Magistrados Brasileiros no seu pleito contra a independência do Conselho Nacional de Justiça.

O confronto doutrinário que a entidade dos juízes pretendia provocar já não consegue esconder uma inequívoca motivação corporativista. O Estado de Direito que visa aperfeiçoar está negando um dos princípios básicos da mecânica democrática: cada poder deve ser equilibrado por um contra-poder. O Estado moderno é necessariamente descentralizado. A bandeira do “controle externo” embutida na criação do Conselho Nacional de Justiça é herdeira de outra, veneranda, a do equilíbrio entre os poderes para acabar com o absolutismo.

Contra o corporativismo

A ação de inconstitucionalidade impetrada pela AMB contra as prerrogativas constitucionais do CNJ desvenda um dos nossos paradoxos nucleares: aqueles que deveriam zelar pela aplicação das leis estão em pé de guerra contra os que pretendem cumprir as leis investigando e punindo juízes acusados de desvios de conduta.

A prepotência insurge-se contra a coerência. A investida da corregedora nacional de Justiça, Eliana Calmon, contra aqueles que deslustram a toga é quixotesca, mas não é fantasiosa, seria inacreditável se não representasse a pura verdade: tramitam na corregedoria 115 processos contra juízes de primeira instância e 35 contra desembargadores. A presidente do Tribunal de Justiça do Tocantins está sendo acusada de pertencer a um esquema de venda de sentenças que ficará impune caso a AMB consiga cercear o CNJ.

Em seis anos de existência, o CNJ e sua corregedoria puniram 49 juízes por desvios de conduta, enfrentaram o nepotismo, extinguiram benefícios abusivos e, sobretudo, estabeleceram metas de desempenho para acabar com a lentidão judicial, a grande cúmplice da impunidade. Segundo denúncia do Estado de S. Paulo de sexta-feira (28/9), 18 dos 29 corregedores de tribunais respondem ou já responderam a processos do próprio órgão. Em 2011, no Tribunal de Justiça de São Paulo foram punidos apenas seis magistrados, 460 denúncias foram arquivadas.

A OAB insurgiu-se contra o corporativismo da AMB, também a Procuradoria Geral da República, também senadores da situação e da oposição esqueceram suas diferenças e apresentaram uma Proposta de Emenda Constitucional mantendo os poderes do CNJ garantidos desde 2004 pelo artigo 103-B.

Letra da lei

Não é de hoje que a ABI – Associação Brasileira de Imprensa acusa o judiciário de ser a grande fábrica de mordaças e atos censórios da República. O mesmo Estadão está obrigado há mais de dois anos pelo Tribunal de Justiça de Brasília a silenciar sobre a Operação Boi Barrica da Polícia Federal que investiga os negócios do clã Sarney. As provas coletadas nesta operação pela PF foram consideradas nulas por outro tribunal.

A querela transcende ao Judiciário. O Estado brasileiro parece aturdido, perplexo, incapaz de enxergar as luzes que começam a ser acionadas. O espírito das leis começa a impor-se à letra da lei. Este é o espírito da primavera brasileira empurrada por duas destemidas juízas: Patrícia Acioly, fuzilada em Niterói pelos policiais corruptos que investigava e a brava Corregedora Nacional de Justiça, que nos lembrou algo comezinho: bandidos também usam togas.

Fonte: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/a-primavera-brasileira

Observatório da Imprensa - 15 Anos Apoio: Fundação Ford

CRISE NO JUDICIÁRIO

A primavera brasileira

Por Alberto Dines em 02/10/2011 na edição 661

Reproduzido do Diário de S.Paulo, 2/10/2011

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No Velho Testamento eles aparecem como líderes, sábios, depois foram substituídos pelos reis e três mil anos depois, neste esplêndido pedaço do mundo chamado Brasil, juízes estão na berlinda, candidatos ao banco dos réus. E, se a pendência entre a AMB e o CNJ acirrar-se, a toga corre o risco de perder a aura de solenidade que a envolve.

A administração da justiça contém ritos fascinantes, a submissão ao poder das leis produz um dos mais belos espetáculos que a sociedade humana já inventou. Um júri diferente, porém, começa a empolgar o país e ele não favorece a Associação dos Magistrados Brasileiros no seu pleito contra a independência do Conselho Nacional de Justiça.

O confronto doutrinário que a entidade dos juízes pretendia provocar já não consegue esconder uma inequívoca motivação corporativista. O Estado de Direito que visa aperfeiçoar está negando um dos princípios básicos da mecânica democrática: cada poder deve ser equilibrado por um contra-poder. O Estado moderno é necessariamente descentralizado. A bandeira do “controle externo” embutida na criação do Conselho Nacional de Justiça é herdeira de outra, veneranda, a do equilíbrio entre os poderes para acabar com o absolutismo.

Contra o corporativismo

A ação de inconstitucionalidade impetrada pela AMB contra as prerrogativas constitucionais do CNJ desvenda um dos nossos paradoxos nucleares: aqueles que deveriam zelar pela aplicação das leis estão em pé de guerra contra os que pretendem cumprir as leis investigando e punindo juízes acusados de desvios de conduta.

A prepotência insurge-se contra a coerência. A investida da corregedora nacional de Justiça, Eliana Calmon, contra aqueles que deslustram a toga é quixotesca, mas não é fantasiosa, seria inacreditável se não representasse a pura verdade: tramitam na corregedoria 115 processos contra juízes de primeira instância e 35 contra desembargadores. A presidente do Tribunal de Justiça do Tocantins está sendo acusada de pertencer a um esquema de venda de sentenças que ficará impune caso a AMB consiga cercear o CNJ.

Em seis anos de existência, o CNJ e sua corregedoria puniram 49 juízes por desvios de conduta, enfrentaram o nepotismo, extinguiram benefícios abusivos e, sobretudo, estabeleceram metas de desempenho para acabar com a lentidão judicial, a grande cúmplice da impunidade. Segundo denúncia do Estado de S. Paulo de sexta-feira (28/9), 18 dos 29 corregedores de tribunais respondem ou já responderam a processos do próprio órgão. Em 2011, no Tribunal de Justiça de São Paulo foram punidos apenas seis magistrados, 460 denúncias foram arquivadas.

A OAB insurgiu-se contra o corporativismo da AMB, também a Procuradoria Geral da República, também senadores da situação e da oposição esqueceram suas diferenças e apresentaram uma Proposta de Emenda Constitucional mantendo os poderes do CNJ garantidos desde 2004 pelo artigo 103-B.

Letra da lei

Não é de hoje que a ABI – Associação Brasileira de Imprensa acusa o judiciário de ser a grande fábrica de mordaças e atos censórios da República. O mesmo Estadão está obrigado há mais de dois anos pelo Tribunal de Justiça de Brasília a silenciar sobre a Operação Boi Barrica da Polícia Federal que investiga os negócios do clã Sarney. As provas coletadas nesta operação pela PF foram consideradas nulas por outro tribunal.

A querela transcende ao Judiciário. O Estado brasileiro parece aturdido, perplexo, incapaz de enxergar as luzes que começam a ser acionadas. O espírito das leis começa a impor-se à letra da lei. Este é o espírito da primavera brasileira empurrada por duas destemidas juízas: Patrícia Acioly, fuzilada em Niterói pelos policiais corruptos que investigava e a brava Corregedora Nacional de Justiça, que nos lembrou algo comezinho: bandidos também usam togas.

O perfeito imbecil politicamente incorreto

Cynara Menezes

Em 1996, três jornalistas –entre eles o filho do Nobel de Literatura Mario Vargas Llosa, Álvaro –lançaram com estardalhaço o “Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano”. Com suas críticas às idéias de esquerda, o livro se tornaria uma espécie de bíblia do pensamento conservador no continente. Vivia-se o auge do deus mercado e a obra tinha como alvo o pensamento de esquerda, o protecionismo econômico e a crença no Estado como agente da justiça social. Quinze anos e duas crises econômicas mundiais depois, vemos quem de fato era o perfeito idiota.

Mas, quem diria, apesar de derrotado pela história, o Manual continua sendo não só a única referência intelectual do conservadorismo latino-americano como gerou filhos. No Brasil, é aquele sujeito que se sente no direito de ir contra as idéias mais progressistas e civilizadas possíveis em nome de uma pretensa independência de opinião que, no fundo, disfarça sua real ideologia e as lacunas em sua formação. Como de fato a obra de Álvaro e companhia marcou época, até como homenagem vamos chamá-los de “perfeitos imbecis politicamente incorretos”. Eles se dividem em três grupos:

1. o “pensador” imbecil politicamente incorreto: ataca líderes LGBTs (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Trânsgeneros) e defende homofóbicos sob o pretexto de salvaguardar a liberdade de expressão. Ataca a política de cotas baseado na idéia que propaga de que não existe racismo no Brasil. Além disso, ações afirmativas seriam “privilégios” que não condizem com uma sociedade em que há “oportunidades iguais para todos”. Defende as posições da Igreja Católica contra a legalização do aborto e ignora as denúncias de pedofilia entre o clero. Adora chamar socialistas de “anacrônicos” e os guerrilheiros que lutaram contra a ditadura de “terroristas”, mas apoia golpes de Estado “constitucionais”. Um torturado? “Apenas um idiota que se deixou apanhar.” Foge do debate de idéias como o diabo da cruz, optando por ridicularizar os adversários com apelidos tolos. Seu mote favorito é o combate à corrupção, mas os corruptos sempre estão do lado oposto ao seu. Prega o voto nulo para ocultar seu direitismo atávico. Em vez de se ocupar em escrever livros elogiando os próprios ídolos, prefere a fórmula dos guias que detonam os ídolos alheios –os de esquerda, claro. Sua principal característica é confundir inteligência com escrever e falar corretamente o português.

2. o comediante imbecil politicamente incorreto: sua visão de humor é a do bullying. Para ele não existe o humor físico de um Charles Chaplin ou Buster Keaton, ou o humor nonsense do Monty Python: o único humor possível é o que ri do próximo. Por “próximo”, leia-se pobres, negros, feios, gays, desdentados, gordos, deficientes mentais, tudo em nome da “liberdade de fazer rir.” Prega que não há limites para o humor, mas é uma falácia. O limite para este tipo de comediante é o bolso: só é admoestado pelos empregadores quando incomoda quem tem dinheiro e pode processá-los. Não é à toa que seus personagens sempre estão no ônibus ou no metrô, nunca num 4X4. Ri do office-boy e da doméstica, jamais do patrão. Iguala a classe política por baixo e não tem nenhum respeito pelas instituições: o Congresso? “Melhor seria atear fogo”. Diz-se defensor da democracia, mas adora repetir a “piada” de que sente saudades da ditadura. Sua principal característica é não ser engraçado.

3. o cidadão imbecil politicamente incorreto: não se sabe se é a causa ou o resultados dos dois anteriores, mas é, sem dúvida, o que dá mais tristeza entre os três. Sua visão de mundo pode ser resumida na frase “primeiro eu”. Não lhe importa a desigualdade social desde que ele esteja bem. O pobre para o cidadão imbecil é, antes de tudo, um incompetente. Portanto, que mal haveria em rir dele? Com a mulher e o negro é a mesma coisa: quem ganha menos é porque não fez por merecer. Gordos e feios, então, era melhor que nem existissem. Hahaha. Considera normal contar piadas racistas, principalmente diante de “amigos” negros, e fazer gozação com os subordinados, porque, afinal, é tudo brincadeira. É radicalmente contra o bolsa-família porque estimula uma “preguiça” que, segundo ele, todo pobre (sobretudo se for nordestino) possui correndo em seu sangue. Também é contrário a qualquer tipo de ação afirmativa: se a pessoa não conseguiu chegar lá, problema dela, não é ele que tem de “pagar o prejuízo”. Sua principal característica é não possuir ideias além das que propagam os “pensadores” e os comediantes imbecis politicamente incorretos.

O que é o socialismo europeu em tempos de crise do capitalismo?

Eduardo Febbro – Correspondente da Carta Maior em Paris

O Partido Socialista francês entra na reta final do processo da eleição primária com vistas a apontar um candidato para as eleições presidenciais de 2012 sob um céu de brigadeiro. Pesquisas de opinião favoráveis, hecatombe da direita no poder, degradação da imagem do presidente Nicolas Sarkozy e, pouco a pouco, consolidação da candidatura do ex-primeiro secretário do PS, François Hollande. Ao mesmo tempo, o debate público organizado entre os seis candidatos que participam, dia 9 de outubro, do primeiro turno fez emergir algumas ideias novas no interior da chamada esquerda socialista, entre elas o conceito-chave da campanha de um dos candidatos, a “desglobalização” ou a “desmundialização”.

A eleição primária deste domingo oferece à esquerda uma tribuna que ultrapassa os limites de seu eleitorado e de seus simpatizantes. O PS calcula que se mais de um milhão de pessoas votarem na eleição ela terá sido um êxito. O processo é inédito na cultura política francesa. O voto não é reservado aos socialistas, mas a todas as pessoas inscritas nas listas eleitorais. A única condição para participar é pagar um euro e firmar uma “carta de adesão” aos valores da esquerda. Esta metodologia não restritiva teve um efeito inesperado: muitos eleitores ecologistas, comunistas, centristas e conservadores pensam participar. As pesquisas de opinião revelam que entre uma terça parte e a metade daqueles que participarão da primária do próximo domingo não são eleitores socialistas.

A configuração é paradoxal: esses eleitores “extra muros” do socialismo francês não votariam em nenhum candidato do PS no primeiro turno das eleições presidenciais de 2012, mas poderiam influenciar na interna socialista para optar pelo candidato que consideram melhor para disputar a eleição com a direita. O raciocínio é o seguinte: se o próximo presidente for um socialista, então que o seja o melhor deles.

As pesquisas internas apontam uma vitória expressiva de François Hollande frente a outra favorita, a atual primeira secretária do PS, Martine Aubry. Hollande poderia obter no próximo domingo cerca de 45% dos votos. A cifra é insuficiente para evitar um segundo turno no dia 16 de outubro. O candidato que avançou mais é Arnaud Montebourg e sua ideia de “desglobalizar” a sociedade. Montebourg conseguiu inclusive atrair os eleitores da esquerda da esquerda, agrupados na Frente de Esquerda.

Esta figura emergente foi a única que, até agora, tomou clara distância do liberalismo. “Proponho recuperar o controle da economia pela política”, disse, acrescentando: “não derrotaremos Nicolas Sarkozy respeitando as tábuas da lei da Organização Mundial do Comércio (OMC), não o derrotaremos aplicando suas ideias. Nós só vamos derrotá-lo combatendo os tabus que nos conduziram à quebra”. Seu projeto de “desglobalização” aponta para o “rompimento das cadeias ideológicas”, para a “quebra da ordem antiga”. De todos os candidatos, Arnaud Montebourg tem sido o mais severo em suas propostas contra o setor financeiro e em sua estratégia de incluir os “esquecidos da globalização”. O deputado socialista fez dos bancos seu principal cavalo de batalha. Para este deputado de 46 anos, o “espírito” socialista consiste em “desinflar” a esfera financeira e empregar “todos os meios para controlar os bancos”. Em uma entrevista ao diário Libération, Montebourg declarou que “os bancos deveriam ser cortados em pedaços (…) Os bancos têm uma responsabilidade pela derrocada do sistema financeiro”.

Nenhum outro candidato do PS falou até agora com essa agressividade. Frente a ele, François Hollande é mais modesto, quase um centrista cauteloso. Seu programa prevê um plano nacional de educação, a reforma fiscal a fim de reequilibrar as contribuições “entre o capital e o trabalho”, a imposição de regras para o sistema financeiro – não detalhadas – a instauração de um contrato geracional mediante o qual as empresas privadas conservariam os empregados mais antigos para que esses transmitam o ofício aos novos jovens contratados.

Os dois candidatos com mais votos, Hollande e Aubry, não esclareceram ainda a conta pendente que o PS tem com sua própria definição: o que é o socialismo europeu em tempos de estragos capitalistas? Como passar a ser outra coisa depois dos anos de ambivalência entre socialismo liberal e liberalismo social? O peso eleitoral que a ala esquerda do PS obtiver no domingo modificará nos próximos meses os ingredientes do discurso. Por enquanto, o socialismo francês navega no centro do rio, medindo com muita prudência a influência das costas.

Tradução: Katarina Peixoto

Fonte: http://cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=18611

Marcha por moradia entrega pauta ao Planalto e denuncia atentados

André Barrocal

BRASÍLIA – Movimentos sociais em defesa de moradia urbana aproveitam a Semana Mundial dos Sem Teto e realizam, nesta terça-feira (4), manifestações em todo o país, com ocupação de prédios púlicos, passeatas e protestos contra autoridades. Em Brasília, a pauta de reivindicações foi entregue por líderes da marcha ao ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, enquanto militantes estavam em frente ao Palácio do Planalto com faixas e bandeiras cobrando a presidenta Dilma Rousseff, que está na Europa.

Ao mesmo tempo em que ocorria a reunião no Planalto, alguns dirigentes do movimento participavam de audiência pública no Senado na qual denunciaram a perseguição e a tentativa de assassinato sofridas por militantes sem teto.

Eles entregaram ao presidente da Comissão de Direitos Humanos, senador Paulo Paim (PT-RS), relatório descritivo dos atentados, para ser encaminhado ao Ministério Público e ao Ministério da Justiça. O documento também foi dado ao Ouvidor Nacional da Secretaria de Direitos Humanos, Bruno Renato Nascimento Teixeira.

“A criminalização dos movimentos sociais é um problema muito sério, especialmente contra militantes sem teto nos últimos meses”, disse Guilherme Castro Bolos, coordenador do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto e da Frente de Resistência Urbana.

O relatório conta três casos brevemente narrados pelas próprias vítimas na audiência. Em Manaus, o militante sem teto Julio Cesar sofreu dois atentados por lutar contra a especulação imobiliária e a grilagem de terras. Segundo ele, um irmão teve uma arma apontada na cabeça para revelar seu paradeiro. “Não tenho rotina, Não durmo duas vezes no mesmo lugar. Isso protege minha vida”, disse Julio Cesar.

Uma ameaça igual – arma contra a cabeça – foi registrada em Minas Gerais. Contra uma menina de quatro anos, de nome Sofia. Os pais dela, Lacerda e Elaine, participaram de uma ocupação e foram pressionados, por homens armados, a entregar os nomes e o paradeiro dos líderes do ato.

Um outro caso ocorreu na própria capital federal contra um coordenador de um movimento de sem teto. O militante, de nome Edson, teve a casa invadida por dois homens, que lhe fizeram 18 disparos. Ele sobreviveu. Segundo o relatório, o motivo do atentado teria sido uma ocupação comandada por Edson em Ceilândia, uma das mais pobres cidades satélites de Brasília.

Governo
“A proteção das lideranças não é uma questão central, mas precisa ser discutida”, disse o ouvidor Nascimento Teixeira. Segundo ele, o “Disque 100” criado pela Secretaria de Direitos Humanos para receber denúncias de violência contra crianças está aberto também para casos de discriminação racial ou sexual, torturas e atentados como os relatados na audiência pública.

Mas, disse, é preciso também que os movimentos “façam pressão sobre o Ministério Público, o Poder Judiciário, os estados e os municípios”, porque, do contrário, um debate como o desta terça-feira fala apenas para quem já está engajado de alguma forma.

Assessor na Secretaria de Articulação Nacional da Secretaria Geral da Presidência, Jeter Luiz Gomes participou do debate e disse que o ógão “repudia toda e qualquer violência” contra os movimentos sociais.

Segundo ele, apesar de os governos Lula e Dilma terem criado e ampliado o programa de moradias Minha Casa Minha Vida, de construção de imóveis, o passivo na área ainda é grande, como reclama a Marcha que se realiza nesta terça.

Pauta de reinvindicações
Aglutinados em torno do Fórum Nacional de Reforma Urbana, os movimentos presentes à Marcha têm cinco reivindicações principais, listadas na pauta entregue a Gilberto Carvalho.

Exigem participação popular e controle social das obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Cobram que o ministério das Cidades e a Caixa Econômica Federal parem de tomar decisões só em “gabinetes” e negociem a flexibilização de regras de acesso a moradias em regiões urbanizadas.

Querem uma “urgente política de distribuição de terras” e prédios federais para “enfrentar a especulação imobiliária” nos centros e nas periferias das cidades. Esperam que o Congresso aprove proposta de mudança constitucional de 2008 que impõe gastos obrigatórios com moradia popular (2% das receitas federais e 1% das estaduais e municipais).

Por fim, cobram que o governo discuta ameaças de remoção de famílias de áreas em que há obras da Copa do Mundo de 2014. Os despejos estariam acontecendo não só po causa da construção ou reforma de estádios, mas também de obras de mobilidade urbana, por exemplo.

Fonte: http://cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=18619

Quatro dos maiores bancos mundias correm risco de falência?

Oscar Ugarteche e Leonel Carranco

A má situação do Bank of America
O Bank of America, – o banco mais importante dos Estados Unidos em ativos e empréstimos – está passando por graves problemas financeiros em tal grau que pode ser comprado pelo JP Morgan, conforme anunciou em 23 de agosto de 2011 o Wall Street Journal através do seu blogue 24/7 Wall St. [1] com base em rumores que estão ganhando força dentro da praça financeira norte-americana. A transação de compra seria feita com a ajuda do governo norte-americano o qual desembolsaria cerca de 100 bilhões de dólares.

O blog do WSJ refere que o Business Insider calcula que o Bank of America necessitará entre 100 e 200 bilhões de dólares para reforçar as suas contas [2]. Isto significa uma falência técnica do Bank of America, mas como se viu na primeira crise bancária de 2008-2009, os grandes bancos não vão à falência, fundem-se porque são demasiado importantes para falir.

Notemos que o Bank of America no seu informe do segundo trimestre publicou as maiores perdas da sua história num montante de 9,127 bilhões de dólares. Estas perdas estão associadas, em grande medida, com hipotecas de segunda geração.[3] Trata-se de hipotecas que foram boas mas que se deterioraram pelo elevado desemprego e pelas más remunerações norte-americanas, em especial a partir de 2008.

No início do ano o preço das acções do Bank of America era de 14,19 dólares e em 22 de setembro (no fechamento da bolsa), – um dia depois da declaração de Bernanke sobre a gestão da política monetária dos Estados Unidos [4] -, o preço das ações foi de 6,06 dólares o que significa uma queda de 57,3% em cerca de nove meses, sem deixar de mencionar que no dia 8 de agosto houve uma forte queda, de 20,32%, causada pela baixa do rating da dívida dos Estados Unidos.

O preço de 6,06 dólares por ação significa que os investidores não acreditam no preço das ações dos livros de contabilidade do Bank of America (21,45 dólares), dado publicado no segundo informe do balancete financeiro deste banco. Isto é, os investidores crêem que o verdadeiro preço das ações do Bank of America vale menos de um terço do que os livros de contabilidade deste banco dizem.

Jonathan Weil, colunista da Bloomberg, disse que o mercado percebe que “mais de metade do valor da empresa que está nos livros é falso, por que os ativos estão sobrevalorizados ou os passivos subestimados, ou por uma combinação dos dois” [5].

A má situação financeira do Bank of America levou-o a tomar a decisão de começar a vender ativos que, segundo o banco, lhe são complementares. Entre estas decisões está a venda de uma carteira de investimentos imobiliários por um valor de um bilhão de dólares assim como outra de hipotecas vendida por 500 milhões de dólares à empresa estatal de hipotecas Fannie Mae. Também vendeu o TD Bank Group um negócio de cartões de crédito avaliado em 8,6 bilhões de dólares [6]. Os dois últimos anúncios foram a 30 de agosto quando vendeu as ações que possuía do Banco de Construção da China por um valor de 8,3 bilhões de dólares [7], e o segundo é a muito possível venda da sua participação na Pizza Hut por um montante de 800 milhões de dólares. [8]

Warren Buffet no resgate
No dia 25 de agosto, e tendo como ambiente uma maior desconfiança dos investidores na solidez financeira deste banco, Buffet, um dos mais poderosos investidores do mundo, participou no resgate do Bank of America comprando ações preferenciais (que não se vendem a qualquer um) num valor de 5 bilhões de dólares [9], o que representa aproximadamente 6,5% do capital social do banco [10]. Isto levou a que as ações aumentassem 20% de 25 a 29 de agosto mas este momento de subida mudou a 30 de agosto registando-se uma queda de 13,6% em relação ao preço de fechamento de 2 de setembro. O saldo geral do impacto da injeção de capital por parte de Buffet a 2 de setembro foi um aumento de 3,8% do preço das ações.

Este fato mostra-nos que o maior banco dos Estados Unidos está passando por grandes problemas financeiros, muito ligados à sua carteira de investimentos imobiliários. Recordemos que há dois processos relacionados com este tema, um da parte da AIG e o montante pedido é de 10 bilhões de dólares [11] e o outro por parte da Agência Federal de Financiamento à Habitação (FHFA, segundo as suas siglas em inglês) num montante de 24,8 bilhões de dólares [12].

O peso do Bank of America
O valor dos ativos do Bank of America no primeiro trimestre de 2011 foi de 2,3 trilhões de dólares enquanto que em derivados foi de 72,7 trilhões de dólares. Uma gestão de valores em derivados equivalente a 32 vezes o montante dos seus ativos [13]. Este banco representa aproximadamente 22,6% do mercado de derivados e 17% do total dos ativos bancários dos Estados Unidos.

Se compararmos o valor dos ativos do banco em 2010 com o Produto Interno Bruto da zona euro, teríamos que os ativos do Bank of America em 2010 representam 88% do PIB da França e 68% do PIB da Alemanha. O valor destes ativos é de 7,4 vezes o PIB da Grécia, 9,9 o PIB de Portugal, 1,1 o da Itália e 1,6 vezes em relação ao de Espanha.

Os problemas do Goldman Sachs e da UBS
A 15 de setembro de 2008 foi dada a notícia da falência do Lehman Brother’s; novamente a 15 de setembro, mas deste ano, surgiam duas notícias muito importantes no âmbito financeiro. A primeira do encerramento do que foi o mais importante hedge fund do Goldman Sachs e a segunda das perdas declaradas pelo banco suíco UBS, as quais ascendem ao montante de 2 bilhões de dólares.

O Goldman Sachs anunciou o encerramento, entenda-se como uma falência, do seu hedge fund Alpha Global [14], que fora catalogado como a jóia da coroa daquele banco [15]. Este fundo tinha perdido, durante este ano, 12% do seu valor16, o que representava uma segunda queda em quatro, uma vez que em Setembro de 2008 teve uma queda de 22%17, sendo um dos acontecimentos que iniciou o caminho para a Grande Recessão [18].

A esta notícia somou-se a de que um operador estabelecido em Londres e pertencente ao banco UBS tinha incorrido numa fraude que provocara perdas do banco no montante de 2 bilhões de dólares [19], algo que relembra a fraude no banco francês Societé Générale em janeiro de 2008 num montante de 5 bilhões de dólares [20].

A fraude de 2 bilhões de dólares, segundo a versão do banco UBS, levanta dúvidas sobre como o operador pôde ultrapassar os controles internos num montante de tal tamanho. Se este montante em vez de ser perdas fossem lucros então, como menciona o editor principal da CNBC John Carney, não lhe estariam a chamar desonesto mas teria ascendido a vice-presidente ou diretor geral de algum departamento do banco suíço [21]. Tduo isto levanta a interrogação: Quantas destas fraudes haverá na banca mundial? Recordemos Barinas, falecido em 1994 numa operação análoga em que os controles internos não funcionaram [22].

Os problemas do Commerzbank
À situação de deterioração do Bank of America não é estranha o banco alemão Commerzbank – o segundo mais importante da Alemanha – que está passando por graves problemas financeiros, mas diferentemente do banco norte-americano, o Commerzbank tem problemas pela sua elevada exposição em valores emitidos pelos países europeus altamente endividados.

No início do ano o preço das acções do Commerzbank era de 5,636 euros e a 22 de setembro (no fechamento) o preço das acções foi de 1,56 dólares o que significa uma queda de 72,3% durante este ano. É importante mencionar que a 10 de agosto este banco anunciou que os seus lucros do segundo trimestre, comparados com os do primeiro, tinham caído 93% devido aos problemas que tem a sua carteira de investimentos relacionados com a dívida soberana da Grécia. [23]

A alquimia dos bancos alemães
Um dos problemas que a desregulação financeira e a contabilidade criativa trouxeram, foi o de esconder os problemas financeiros de qualquer empresa, temos exemplos clássicos disso no Long-Term Capital Management e no Enron que faliram em 1998 e 2001, respectivamente.

Yalman Onaran escreveu um importante artigo na Bloomberg intitulado “Global bank capital regime at risk as regulator spar over rules” [24], onde fala sobre os problemas existentes nos bancos europeus e norte-americanos, para que eles cumpram as normas escritas em Basileia III. Destaca-se o caso da banca alemã onde existe um elevado uso dos valores híbridos (também conhecidos como “silent participations”), os quais se contabilizam como dívida e capital ao mesmo tempo mas que estruturalmente são passivos. Estes valores híbridos em certas ocasiões chegam a representar 50% do capital das entidades financeiras dentro da Alemanha; temos um caso concreto no banco Landesbank Hessen-Thuering que foi retirado em 2010 dos testes de stress devido a ter um elevado montante de capitais híbridos.

No caso do banco Commeszbank estes valores estão contabilizados como ativos. [25] É importante mencionar que durante a crise bancária de 2008 este banco vendeu ao governo alemão 2,75 bilhões de euros em valores híbridos que foram convertidos em ações. [26] Isto é os alquimistas do governo alemão a partir da contabilidade creativa e da engenharia financeira (parecidos neste caso com a pedra filosofal) fizeram uma transmutação de um valor que pela sua estrutura espresenta um passivo numa ação financeira convertendo empréstimos em entradas de capital.

A França e a sua banca com problemas
Depois da baixa de qualificação dos Estados Unidos por parte da Standard and Poor’s, a pergunta é: Qual país é o próximo? Os rumores começaram a surgir de que o seguinte seria a França. No dia 10 de agosto de 2011, as ações francesas foram afectadas pelo rumor de uma possível baixa do triplo AAA27 na notação financeira da dívida do governo francês por parte da Moody’s mas isto não aconteceu, nesse mesmo dia tanto a Moody’s como a Standard and Poor’s vieram ratificar o nível de qualificação [28].

Estes rumores levaram a que, no dia 24 de agosto, o governo francês tenha anunciado um plano para reduzir o seu déficit fiscal. O plano consiste num aumento das receitas em 10 bilhões de euros por meio de aumentos de impostos assim como cortes nas isenções e incentivos fiscais que estavam a ser utilizados para estimular o crescimento económico. [29] A França finalizou o ano de 2010 com um déficit fiscal no valor de 7% do PIB,30 enquanto que a sua dívida actual é de 86,7% e a privada externa de 208% [31].

Ao problema da notação da dívida pública francesa há que somar-se a má situação da sua banca privada. Em 14 de setembro a Moody’s anunciou a baixa da notação dos bancos Societé Générale e Crédit Agricole e pôs em revisão a notação do BNP Paribas; estes são os três mais importantes bancos dentro do país. A causa do rebaixamento da notação financeira deve-se à deterioração financeira provocada pelas dívidas soberanas que mantêm nos seus balancetes, principalmente à dívida grega. [32] Entre 3 de janeiro e 22 de setembro deste ano o preço das ações do BNP Paribas caiu 53,2% o Société Générale 63,4% e o Crédit Agricole 57%.

As demissões no setor bancário
A 12 de setembro, Brian Moynihan, diretor geral do Bank of America anunciou o corte de 30 mil postos de trabalho em nível internacional [33], isto com base no seu plano de reestruturação chamado “New BAC” apresentado em abril deste ano para tentar aumentar a rentabilidade e o capital deste banco [34]. Enquanto que os bancos europeus anunciaram 67 mil demissões entre janeiro e agosto deste ano, dos quais 50 mil foram da banca do Reino Unido [35]. Então temos que durante este ano, (janeiro-setembro) a banca europeia e norte-americana cortaram 97 mil empregos.

Estes números fazem-nos recordar duas situações já vividas, a primeira foi a demissão de 116 mil trabalhadores do setor bancário durante a crise financeira do ano 2001. A segunda tem a ver com a demissão de 130 mil pessoas entre janeiro e outubro de 2008. Recordemos que nesse ano, mas no dia 15 de setembro, o banco de investimentos Lehman Brother’s declarou-se em falência, fato que detonou uma crise bancária e a sua consequente recessão econômica.

Considerações finais: Os bancos candidatos à falência, à fusão ou a serem novamente salvos
Tendo em conta a situação que os bancos norte-americanos e europeus têm passado, destaca-se o nome de quatro bancos que poderão estar à beira da falência ou de ser salvos novamente pelos governos nacionais, já que são “demasiado grandes para falir”. Os seus nomes são: Bank of America, Crédit Agricole, Commerszbank e Societé Générale. Os últimos dois bancos apresentaram uma importante queda do preço das suas ações, nos nove meses deste ano, 72,3% e 63,4%, respectivamente.

Quando os preços das ações têm quedas de dois dígitos, começam a soar os alarmes nos investidores e ainda mais quando se apresenta a situação de uma tendência de forte baixa.

Recordemos que a agência de rating Moody’s anunciou a 21 de setembro o corte da notação da dívida de curto prazo de três dos mais importantes bancos dos Estados Unidos: Bank of America, Citigroup e Wells Fargo [36].

A forte queda dos preços das ações do setor bancário nos Estados Unidos e na Europa é muito parecida com a crise bancária desencadeada pela falência do Lehman Brother’s em setembro de 2008.

Três anos depois desta data, encontramo-nos novamente em vésperas de uma nova crise bancária e, portanto, financeira a nível internacional, assim o assinala a empresa PIMCO, a qual é a maior a nível internacional na comercialização de títulos. [37]

(*) Trecho do artigo “Estamos perante a segunda crise bancária? – Notícias da crise 2011” de Oscar Ugarteche [38] e Leonel Carranco [39], que foi publicado no site do Observatório Económico da América Latina (obela.org). Tradução de Carlos Santos para esquerda.net

NOTAS
[1] Disponível em http://247wallst.com/2011/08/23/jp-morganmay-take-over-bank-of-america/

[2] Disponível em http://www.businessinsider.com/bank-ofamericas-stock-collapse-2011-8?op=1

[3] Bank of America, Supplement information, Second Quarter 2011, Disponível em http://phx.corporateir.net/External.File?item=UGFyZW50SUQ9MTAwNDAzfENoaWxkSUQ9LTF8VHlwZT0z&t=1

[4] Ver: http://www.federalreserve.gov/newsevents/press/monetary/

[5] Disponível em: http://www.bloomberg.com/news/2011-07-21/curse-the-geniuses-who-built-bank-of-america-jonathanweil-1-.html

[6] Disponível em: http://www.businessinsider.com/bank-ofamericas-fire-sale-2011-8

[7] Ver: http://www.reuters.com/article/2011/08/30/usbankofamerica-ccb-idUSTRE77S2MO20110830

[8] Ver: http://www.bloomberg.com/news/2011-09-22/bankof-america-said-to-seek-800-million-in-sale-of-pizza-hutfranchise.html

[9] Ver: http://www.marketwatch.com/story/buffetts-bofainvestment-is-the-new-tarp-2011-08-25?dist=countdown

[10] Ver: http://www.marketwatch.com/story/sorry-warrenbank-of-america-still-stinks-2011-08-30?link=MW_story_investinginsight

[11] Ver: http://www.nytimes.com/2011/08/08/business/aig-tosue-bank-of-america-over-mortgagebonds.html?pagewanted=all

[12] Ver: http://www.bloomberg.com/news/2011-09-02/barclays-bank-of-america-are-sued-by-fhfa-overmortgage-backed-securities.html

[13] “Office of the comptroller of the currency , OCC´s Quarterly report on bank trading and derivatives activities first quarter 2011”. Disponível em http://www.occ.treas.gov/topics/capitalmarkets/financial-markets/trading/derivatives/dq111.pdf

[14] Este hedge fundactuava no comércio quantitativo o qual utiliza modelos computacionais altamente sofisticados para aproveitar rápidamente as oportunidades nos mercados.

[15] Ver: http://www.cnbc.com/id/44549144

[16] Ver: http://www.eleconomista.es/mercadoscotizaciones/noticias/3379250/09/11/ocaso-de-un-hedgefund-goldman-sachs-echara-el-cierre-global-alpha.html

[17] Ver: http://www.reuters.com/article/2011/09/16/usgoldmansachs-hedgefund-idUSTRE78F28Y20110916

[18] Ver: http://www.bloomberg.com/news/2011-09-16/goldman-s-global-alpha-reaches-its-omega-moment-theticker.html

[19] Ver: http://www.businessweek.com/news/2011-09-18/ubschief-gruebel-dismisses-calls-to-resign-after-trading-loss.html

[20] Ver: http://www.elpais.com/articulo/internacional/policia/britanica/acusa/broker/UBS/contabilidad/falsa/delito/fraude/elpepuint/20110916elpepuint_10/Tes

[21] Ver: http://www.cnbc.com/id/44533146

[22] Ver: http://redordead.wordpress.com/2009/08/15/thevictorian-remixes-the-demise-of-barings-bank-a-lesson-inrisk-management-internal-controls-and-regulations/

[23] Ver: http://www.marketwatch.com/story/commerzbankprofit-falls-93-on-greek-impairment-2011-08-10

[24] Ver: http://www.bloomberg.com/news/2011-08-19/globalbank-capital-regime-at-risk-as-regulators-spar-over-rules.html

[25] Ibidem

[26] Ver: http://www.ft.com/intl/cms/s/0/b44410e0-6010-11e0-abba-00144feab49a.html#axzz1X3q1aSC2

[27] Disponível em http://www.marketwatch.com/story/fornext-rating-downgrade-sp-may-look-at-france-2011-08-10?dist=afterbell

[28] Disponível em: http://www.bloomberg.com/news/2011-08-10/french-aaa-credit-affirmed-by-standard-poor-s-moody-samid-market-rout.html

[29] Disponível em: http://www.reuters.com/article/2011/08/24/france-budgetidUSLDE77N04F20110824

[30] Disponível em: http://epp.eurostat.ec.europa.eu/cache/ITY_PUBLIC/2-26042011-AP/EN/2-26042011-AP-EN.PDF

[31] Ver: http://www.usdebtclock.org/world-debt-clock.html

[32] Ver: http://www.theage.com.au/business/worldbusiness/french-banks-downgraded-by-moodys-20110914-1k95o.html

[33] Ver: http://www.nytimes.com/2011/09/13/business/ceopromises-cuts-at-bank-ofamerica.html?_r=1&ref=layoffsandjobreductions

[34] Ver: http://www.charlotteobserver.com/2011/09/02/2574344/bank-of-america-layoffs-could.html

[35] Ver: http://www.bloomberg.com/news/2011-08-23/european-bank-job-bloodbath-surpasses-40-000-as-ubscuts-workforce-by-5-.html

[36] Ver: http://www.marketwatch.com/story/moodys-cutscitigroup-to-p-2-affirms-p-1-2011-09-21?link=MW_home_latest_news

[37] Ver: http://www.bloomberg.com/news/2011-09-22/elerian-says-world-is-on-eve-of-next-financial-crisis-oversovereign-debt.html

[38] Oscar Ugarteche – Economista peruano e investigador do Instituto de Investigações Econômicas da Universidade Nacional do México (UNAM)

[39] Leonel Carranco – Colaborador do Observatório Econômico da América Latina da UNAM.

Fonte: http://cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=18610