Arquivos anuais: 2011

Quando se pode sentir as negras nuvens que nos cobrirão

Taleb nos mostra a impossibilidade de prevermos sob um tecido complexo, definido por ele como o quarto quadrante, e que engloba o que tomamos por economia e finanças. Mas lui-même nos alerta que “se há nuvens no horizonte, se você pode vê-las, só então pode prever”. Taleb definiu a crise deflagrada pelo defunto Lehman como um white swan, ou um cisne branco (em oposição ao conceito de black swan), como passível de ter sido prevista. A crise que acomete a Zona do Euro é, indisputavelmente, uma continuidade daquilo que se iniciou em 2008. Portanto, suas consequências são previsíveis. E por que não colocam no papel quais são? Muitos o fazem, como Soros, Krugman, Delfim e Kaletsky, mas não queremos lê-las. Não podemos suportá-las mais. Vou tentar resumir aqui o que se lê por aí e ninguém quer ouvir:
- Esqueça stock picking pelos próximos seis meses. As bolsas estão subordinadas ao macro;
- A moeda euro vai se desvalorizar adamastoricamente. Se ao cabo não for extinta, valerá par com o dólar americano;
- Em tese, a Zona do Euro tem salvação, mas não será salva, porque o homem não consegue transcender sua instância humana, e envergar politicamente para fazer o que é tecnicamente correto; leiam Cachorros de Palha, de John Gray. Não há provisão para qualquer coisa igual ou maior do que a Espanha; e a Alemanha reluta em usar seu espaço fiscal e monetário para boost a região. Para alguns a austeridade é um vício;
- A taxa nominal básica de juros no Brasil vai cair para baixo de dois dígitos rapidamente. Não ouça o economista do seu banco que lhe diz o contrário. “Não há abandono da política de metas de inflação quando se altera o peso dado ao desvio entre a inflação corrente e sua meta, relativamente ao desvio entre o PIB e o PIB potencial”, ADN;
- A crise global vai sim chegar ao Brasil em 2012, assumindo, obviamente, particularidades tropicais, assim que o mundo se convencer que a China deverá crescer a 5% e não a 10% ao ano para o médio prazo. Há fortes indícios de que isso acontecerá;
- Algumas empresas de real estate listadas em Bolsa vão sim quebrar, seja por alavancagem ou por fraude. Temos que ter nossos próprios defuntos. Aliás, fique longe de Santander;
- Não morreria de espanto se o Real se desvalorizasse fortemente a partir de 2012, digamos, de volta aos R$ 2,80, e por que não?
O que fazer? O óbvio: dólar x euro, hedge em Ibovespa, se a compulsão por comprar for demais, arrisque em uma Ambev da vida, esqueça petróleo e petrolíferas, despeça o motorista e cozinheira: a coisa vai ficar selvagem!

A nova luta pela independência

Carta Maior / Mauro Santayana

O quadro internacional, se é preocupante por um lado, com a rearticulação dos velhos imperialistas, é, da mesma forma, oportunidade para a consolidação institucional da União Sulamericana, como passo necessário à aliança mais vasta, que compreenda todos os países do continente ao sul da fronteira com os Estados Unidos.

Acossada por uma crise econômica gravíssima, a Europa busca reforçar a aliança histórica com os Estados Unidos, a fim de consolidar e ampliar a sua presença na América Latina e na África – mas isso parece improvável.

Todos os movimentos, diplomáticos e militares, nestes últimos meses, dão nitidez a essa percepção, expressa ainda de maneira discreta por alguns analistas internacionais. Trata-se, conforme a velha imagem, do abraço dos afogados.

Ainda agora, Zapatero, que assumiu o governo com grandes esperanças da esquerda, depois da desoladora atuação da direita, com Aznar, leva a Espanha a integrar o famoso escudo antimísseis dos Estados Unidos, permitindo aos ianques que, para isso, utilizem sua base naval em Rota, na Andaluzia. Essa base, construída em 1953, quando Washington estreitou relações com Franco, seu aliado na guerra fria, ocupa uma área estratégica no Atlântico, fora das águas do Mediterrâneo.

O passo humilhante de Zapatero não revela apenas submissão ideológica, mas erro político, mesmo dentro da consciência burguesa de nação. Como apontou, em seu editorial de hoje, sexta-feira, El País, trata-se de uma provocação à Rússia, que deve ser convencida a influir para que o Irã renuncie a seu projeto nuclear bélico. É claro que os russos, que não nasceram ontem, e conhecem a Europa Ocidental desde Ivã, o Terrível, sabem muito bem a que alvo apontam os foguetes norte-americanos. O fortalecimento de seus laços com o Irã e sua estratégia, a prazo maior, de restabelecer sua influência na Eurásia, com a esperada saída dos ianques do Iraque e do Afeganistão, orienta-lhe a postura. Seu veto à ameaça contra a Síria, ao lado da China, no Conselho de Segurança, é mais do que uma cortesia a Assad.

O quadro internacional, se é preocupante por um lado, com a rearticulação dos velhos imperialistas, é, da mesma forma, oportunidade para a consolidação institucional da União Sulamericana, como passo necessário a aliança mais vasta, que compreenda todos os países do continente ao sul da fronteira com os Estados Unidos. Enfim, é hora da definitiva independência de nossos povos, 200 anos depois da enganosa autonomia patrocinada pela Inglaterra e aprovada pelos europeus no Congresso de Viena.

O momento favorece, também, o retorno à esquerda, depois do desastrado recuo da União Soviética, com a traiçoeira capitulação de Gorbatchev. No mundo inteiro, e também no Brasil, houve o esmorecimento dos partidos de esquerda, com a deserção de conhecidos quadros intelectuais, e a permanência de diminutos núcleos de testemunho e resistência ideológica.

Na Europa, a social-democracia foi fazendo seu giro à direita, que atingiu também os partidos comunistas. O primeiro passo desses antigos partidos comunistas foi o abandono da denominação, como se o adjetivo, de origem tão generosa, se tornasse palavrão imoral. Enfim, parecia triunfante, ad-aeternum, o pensamento único, restaurador do fundamentalismo mercantil do século 17.

Passados trinta anos do reaganismo e vinte anos da Queda do Muro, o mundo desperta e, com ele, se restaura a silhueta de Marx. Teremos que voltar à consciência crítica e à filosofia da práxis, a fim de dar idéias ao movimento de massas que acaba de chegar aos Estados Unidos, e se acelere o processo histórico que, sendo necessário, passa a ser possível.

O Brasil, descontado o otimismo exagerado de alguns, terá de exercer resistência clara ao novo colonialismo, na consolidação da aliança continental, a partir dos mecanismos existentes, como o Mercosul, a Unasul, e o sistema de consultas militares entre os vizinhos. Devemos controlar, sem inibições, a atividade dos capitais estrangeiros. É conto da carochinha supor que o Banco Santander – que teve ontem sua nota rebaixada em diversas praças do mundo – esteja interessado no desenvolvimento autônomo do Brasil e em sua ação decisiva nas questões mundiais. O que os espanhóis pretendem é retornar ao domínio da América Latina, aproveitando-se da debilidade dos Estados Unidos. No âmago de sua arrogância, seus dirigentes acreditam que podem voltar aos séculos 16 e 17, ao tempo de Carlos V e de Filipe II, antes do desastre da Invencível Armada.

Convém recordar que a impetuosa invasão econômica da América Latina, com a compra de empresas nacionais, a partir das privatizações determinadas pelo Consenso de Washington e, no Brasil, pela submissão de Fernando Henrique, tem sido financiada com recursos da União Européia – que deveriam ter tido outro destino.

A nossa oportunidade é agora.

A falibilidade dos bons

Paulo Métri

Tenho consideração pelos engenheiros Joaquim Francisco de Carvalho e Ildo Luís Sauer, por serem excelentes técnicos e cidadãos socialmente comprometidos. Contudo, mesmo os bons podem ser pouco precisos, em raros momentos, como aconteceu quando eles assinaram o artigo intitulado “O alto custo da energia de Angra III”, publicado em um dos jornalões do país em 26/09/11.

Não começo comentando o custo da energia nuclear obtido pelos autores, porque estaria entrando em um debate que não julgo o mais relevante e, em vários aspectos, eles devem estar certos. Começo fazendo uma observação relacionada com algo que eles deixaram de dizer. Falo dos critérios de julgamento das potenciais fontes geradoras, os quais contêm, como um de seus itens, o custo da energia gerada.

 O artigo 1º da lei 9.478 de 1997 define os objetivos oficiais da política energética nacional. Estes objetivos são importantes porque são exatamente os critérios de julgamento das fontes que competem entre si para satisfação das necessidades energéticas do país.

 Infelizmente, esta lei reflete o período neoliberal da época da sua elaboração e, assim, os objetivos nela existentes representam o reducionismo financista do neoliberalismo, que estão distantes de trazer impactos sociais, ambientais e mesmo econômicos expressivos para a sociedade. Donde constatamos que ainda restam entulhos neoliberais na legislação em uso.

 O incrível desta história é que conheço bem os engenheiros Joaquim de Carvalho e Ildo Sauer e eles estão a anos luz de distância do pensamento neoliberal, mas casualmente a prioridade única dada por eles no artigo ao custo da energia gerada lembra o referido pensamento. Menciono tudo isto sem querer negar a importância compartilhada deste custo.

Para mostrar que o problema é bem mais complexo, afirmo que as tecnologias de geração acarretam lucros e outros benefícios para seus investidores, de forma que qualquer agente econômico relacionado a uma tecnologia ou agente do Estado busca possuir força política para conquistar uma parcela da expansão da geração elétrica. Assim, impactos podem ser omitidos ou manipulados, para que alternativas de expansão sejam mal compreendidas pela sociedade e esta conclua na direção que o grupo vencedor, dentre os lobistas, deseja.

Atrevo-me a listar algumas das possíveis diferenças entre as tecnologias que podem resultar em válidos critérios de julgamento das mesmas: 1) compra de bens e serviços no país; 2) contratação de desenvolvimento tecnológico e engenharia local; 3) geração de emprego para brasileiros; 4) aplicação do lucro gerado no Brasil; 5) grau de impacto sócio-ambiental. Resumindo, investir para gerar energia causa impactos diversos tão ou mais importantes que o custo da energia gerada.

Continuando com esta visão macro, as decisões de um setor de infra-estrutura devem atender aos objetivos claros do setor, mas devem ser consideradas, simultaneamente, outras repercussões na economia e sociedade. Por exemplo, deve-se pensar como colocar as 309.000 toneladas de urânio disponíveis no Brasil em benefício da nossa sociedade. As emissões de CO2 de cada fonte geradora não podem deixar de ser consideradas no processo decisório. A segurança física dos projetos precisa ser avaliada para cada fonte. Estes são exemplos de como o uso isolado do custo da energia gerada para a tomada de decisão é impróprio.

Estou ciente que muitas características das fontes estão embutidas no custo, mas, ainda assim, questiono algumas suposições usualmente feitas. Visando exemplificar, trago o seguinte fato. As fontes de produção intermitente, por suas dependências a fatores climáticos, como são os casos da eólica, da solar e da hidráulica, têm suas intermitências espelhadas nos fatores de disponibilidade das unidades geradoras. Assim, quando dizemos que este fator relativo à energia eólica é em torno de 34%, estamos dizendo que, em 66% do tempo, a unidade não estará disponível para geração, sendo a falta de vento uma das principais causas.

Então, à medida que a quantidade de energia gerada por esta opção é reduzida pela aplicação do referido fator, comumente diz-se que o custo do kilowatt/hora gerado já leva em conta a intermitência da fonte. Esta afirmação é questionável porque se esquece que tal opção requer necessariamente a existência de térmica a combustível fóssil para ficar “em espera”.

Entretanto, mais importante que esta discussão é a recomendação para que a lei 9.478 seja substituída, sem perda de tempo. A lei advinda, dificilmente, será pior que ela, bastando à nova abandonar a doação do petróleo nacional, tal como são as rodadas de leilões de nossas áreas, deixar de proteger fortemente as empresas e passar a proteger os cidadãos brasileiros.

Paulo Metri é conselheiro do Clube de Engenharia.

Publicado originalmente em: http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=6374:economia051011&catid=26:economia&Itemid=58

Brasil ajudará a Europa, mas não com dinheiro

Gabriel Bonis/Carta Capital

Com o avanço da crise e indícios cada vez mais concretos de uma moratória da Grécia, a presidenta Dilma Rousseff aproveitou a 5ª Cúpula Brasil-União Europeia em Bruxelas, na Bélgica, para reforçar o fortalecimento do Brasil como um importante ator econômico e ofereceu o apoio do País ao continente.

Em um pronunciamento na terça-feira 4, a mandatária brasileira fez duras críticas à política de corte de gastos adotada na Europa para conter a crise e declarou que vai apoiar as medidas necessárias para tirar o continente das turbulências, sem mencionar, no entanto, quais seriam.

Contudo, as colaborações do País, diz a CartaCapital o ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Júlio Sérgio Gomes de Almeida, devem ficar apenas no campo das idéias, sem injeção de capital, que ocorre indiretamente pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). “O Brasil tem outras preocupações econômicas e de infraestrutura. A nossa renda per capita ainda é muito inferior à dos gregos, portugueses, etc.”

Segundo Almeida, doutor em economia e consultor do Instituto de Estudos Para o Desenvolvimento Industrial (IEDI), as críticas da presidenta às medidas de austeridade europeias têm fundamento. “Dilma fala com conhecimento, pois o Brasil teve que enfrentar recessões muito dolorosas e desnecessárias determinadas pelo FMI e isto está sendo renovado na Europa.”

Amir Kahir, ex-secretário municipal de Finanças de São Paulo, aponta que essa “mentalidade retrógrada” de cortes prejudica a recuperação dos países e leva, na verdade, a uma arrecadação menor que a eventual economia. “Isso afeta a população, quando o responsável pelo endividamento público é o governo que assumiu a dívida do setor privado”, diz, em referência à crise de 2008.

Ativar a economia, segundo Kahir, seria a melhor forma de avançar na questão fiscal. Por outro lado, Almeida aponta a reestruturação das dívidas dos países do euro como prioridade para minimizar os efeitos da crise. “Essa mentalidade está sendo lentamente construída, pois os valores são impagáveis. É um processo lento, no qual se negocia quem perde mais ou menos, sabendo que ninguém ganha.”

Uma vez que os montantes de dívida acumulados são muito elevados, os países deveriam abandonar o princípio de que o débito seria “pagável” na totalidade, sugere Kahir. “É preciso haver uma composição na qual seja factível pagar apenas uma parte da dívida, e essa seria inferior à metade”.

O ex-secretário das finanças paulistas defende uma reestruturação dos valores em que credores aceitem ter seus títulos comprados pelo governo por um valor inferior ao pago por eles inicialmente. “Com isso, o governo compraria esses títulos primeiro em um prazo definido”, declara e completa: “Não existe saída fiscal sem perdas.”

Contudo, para Almeida, uma moratória em um dos países europeus fragilizados (Grécia, Itália, Espanha, Portugal e Irlanda são os principais) refletiria negativamente. “Um default da dívida grega, por exemplo, daria prejuízo a quem financiou a Grécia e implicaria em uma dúvida sobre outros devedores.”

FMI pressiona governos europeus

Tentando encontrar saídas para a crise, a Europa foi pressionada por um relatório do FMI divulgado na quarta-feira 5. O documento pede novas medidas para lidar com a deterioração econômica, entre elas uma sinalização do Banco Central Europeu para a compra de títulos da dívida pública dos países mais debilitados a fim de aumentar a confiança dos investidores.

Uma medida capaz de amenizar a incerteza nos mercados, visando uma reestruturação a longo prazo, segundo o consultor do IEDI. “É uma medida de compasso para buscar uma solução definitiva. A dívida podre sai dos bancos [privados] e vai para o BCE e os ajuda ganhar fôlego, mas não é a solução da Grécia”, aponta.

Kahir, no entanto, enxerga o mecanismo apenas como um paliativo perdendo o efeito. “O BCE está entupido de lixo [papéis da dívida de países em crise] e isso tem um limite. Vai desacreditando o sistema, os bancos [privado] não estão capitalizados suficientemente e os títulos podres vão se concentrar no BCE, apenas mudando de lugar.”

Com isso, Almeida acredita que o cenário econômico na Europa e também nos EUA é crítico. “A recessão nestes locais já está definida. A única dúvida seria a sua intensidade: suave, lenta ou uma ruptura. No último caso, uma depressão.”

Fonte: http://www.cartacapital.com.br/destaques_carta_capital/brasil-ajudara-a-europa-mas-nao-com-dinheiro

MP de combate à especulação com dólar é aprovada na Câmara

André Barrocal

BRASÍLIA – O plenário da Câmara dos Deputados aprovou nesta quarta-feira (5) medida provisória (MP) que dá poderes ao governo para agir contra a especulação com dólar no mercado de derivativos – negociações feitas na Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F). A principal arma é a taxação das transações com até 25% de Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), mas o governo também pode limitar valores e prazos dos contratos, por exemplo.

O parecer do relator, Reinhold Stephanes (PMDB-PR), alterou a MP para que empresas exportadoras que procuram a BM&F em busca de proteção contra variação do dólar não sejam punidas como os especuladores. Aquilo que os exportadores pagarem de IOF poderão descontar de algum outro imposto.

A votação do parecer foi feita de forma simbólica, pois a base aliada do governo, que é amplamente majoritária, não tinha manifestado nenhum desconforto com a MP. O sentimento geral foi definido pelo líder do PT, Paulo Teixeira (SP). “Sem a MP, o Real derreteria por causa desse capital especulativo”.

A tentativa de impedir o contínuo barateamento da moeda brasileira frente o dólar foi o principal motivo de a presidente Dilma Rousseff ter baixado a MP, a pedido da equipe econômica.

De lá para cá, porém, o dólar parou de se desvalorizar e até subiu, por causa da crise econômica global. No dia em que a MP foi publicada no Diário Oficial, o dólar custava R$ 1,53. Nesta quarta, pelo câmbio oficial do Banco Central, estava em R$ 1,84, alta de cerca de 20%.

Durante a votação, os adversários do governo criticaram a medida provisória e defenderam a BM&F. “Essa MP vai na contramão do desenvolvimento do mercado financeiro do país. É uma intervenção em um setor que deve ser livre”, disse o deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ).

A MP segue agora para apreciação do Senado. Na véspera da votação, o presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS), e líderes partidários haviam feito um acordo com senadores de não votar nenhuma MP até o dia 19, para que o Senado tivesse a pauta livre para decidir sobre uma nova distribuição de royalties do petróleo.

Fonte:http://cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=18636

A alma da UDN

A entrevista do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, hoje, no Estadão, deve ser lida abaixo da linha das palavras, na linha de visão de mundo neoliberal que domina a mente vaidosa do “príncipe” destronado.

Ele reage, em parte, aos “conselhos” da  professora americana Frances Hagopian, que sugeriu que o PSDB  precisa assumir-se como um partido de centro-direita.

A certa altura, ele se expõe:

Não se deve, então, falar em esquerda e direita ?

Há uma insistência nessa dicotomia. Isso se deve à falta de analisar os processos reais, o mundo concreto. Não é que inexista uma esquerda, mas… o que significa a esquerda hoje? Ninguém mais pensa, como no passado, coisas como coletivização dos bens privados, feita por um partido que dominasse o Estado em nome de uma classe. Isso não ocorre mais.

Fernando Henrique, a quem não falta conhecimento teórico para saber disso, tem perfeita compreensão que, há mais de 50 anos, não se pode definir assim o pensamento de esquerda. Ele próprio, quando ainda não havia transitado de lado, era um intelectual de esquerda sem jamais ter defendido a coletivização dos bens privados ou o domínio do Estado por um partido em nome do Estado.

Ser de esquerda – sobretudo aqui e progressivamente, desde os anos Vargas – foi sinônimo de defender um nacionalismo inclusivo que, de um lado, protegesse o país do saque colonial – de riquezas naturais e, mais tarde, financeiro – e, de outro, promovesse o resgate, longe de ser concluído, de imensos contingentes da população de uma condição de miséria.

Seu governo fez exatamente o contrário. Sobre a entrega e abertura das entranhas do país, nem é preciso falar, todos sabem. Sobre a exclusão, alguém duvida do quanto se alargou o fosso entre elite e povão, nesse período. Não, claro, não foi ele quem a inventou. Mas tomou gosto nela, pela sua própria alma deslumbrada e a palavra “moderno” passou a ocupar na sua mente um lugar que eclipsava totalmente a palavra “justo”.

“Quem defende a direita no Brasil? Ninguém. Mas na prática ela existe – mas a nossa direita é muito mais o atraso, o clientelismo, fisiologismo, esse tipo de questão, do que a defesa dos valores intrínsecos da propriedade, da hierarquia”.

Perfeito. Reduzimos, então, a direita no Brasil a alguns políticos sem-vergonhas, nepotistas ou a figuras tristemente folclóricas.

A propriedade e a hierarquia que fazem deste país um dreno de riquezas e de trabalho, em proveito de uma ínfima elite e de uma ordem econômica mundial decrépita são defendidos por quem?

Ah, sim, pelos “modernos”.

“(…) Temos (o PSDB) uma tradição republicana, nos diferenciamos bastante nisso. A coisa pública tem que ser respeitada como tal e não ser objeto nem de apropriação privada nem político-partidária. Isso é uma linha. Não é esquerda nem direita, é republicana”.

Mais uns anos de tal tradição republicana, não sobraria República

Fonte: http://www.tijolaco.com/a-alma-da-udn/