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Comparação entre China e Brasil

“O Brasil tem de se reinventar para ser bem-sucedido em uma economia mundial radicalmente mudada pela China”, Antonio Barros de Castro, 2011.

Carlos Américo Pacheco[1]

Este texto faz um sumário das características dos sistemas e políticas de ciência, tecnologia e inovação (CT&I) da China e do Brasil, buscando salientar diferenças que expliquem a melhor performance chinesa recente e indicar aspectos que poderiam servir de referência ou de debate para as opções brasileiras de políticas de inovação.

Evidentemente, como acontece com vários fenômenos da sociedade e da economia chinesa, comparações pontuais nem sempre são o melhor indicador do que acontece naquele país. Para além dos surpreendentes números absolutos que a China tem revelado, é inconteste que a velocidade da mudança é um dos aspectos que mais desperta curiosidade, admiração e medo em todo o mundo. Isso também é verdade para os indicares aqui reproduzidos, que poderiam ser sintetizados num único dado: desde 1.999, os investimentos chineses em pesquisa e desenvolvimento (P&D) crescem em média 20% por ano.

O quadro descrito a seguir está fundamentado na publicação “A Transformação da China em Economia Orientada à Inovação”, publicada pelo IEDI, onde se faz um exaustivo exame das políticas recentes de inovação na China. Em complemento àquela publicação, busca-se aqui compreender aspectos da economia e das políticas chinesas que sirvam de contraponto com a situação brasileira, no que diz respeito às diretrizes para inovação e ao ambiente econômico em que se funda a trajetória da China.

1.     China e Brasil: as velocidades de mudanças dos sistemas de inovação

Tanto a China, quanto o Brasil, tem buscado adaptar suas políticas de CT&I ao novo contexto da economia mundial e aos chamados desafios da sociedade do conhecimento. Os documentos oficiais deixam claro uma crescente ênfase na inovação, a busca de apoio às empresas como protagonistas principais dos sistemas de inovação, a introdução de políticas de estímulo ao esforço tecnológico empresarial, uma indução à maior cooperação entre universidades e empresas, etc. Mas é preciso, antes de qualquer comparação pontual, salientar uma diferença marcante entre a China e o Brasil: a velocidade da mudança.

Qualquer indicador do desempenho da China pode resumir isso. A tabela e o gráfico a seguir dão uma mostra disto em termos do gasto em P&D de cada país em relação ao respectivo PIB. Entre 2000 e 2009, o gasto da China em P&D passou de 0,9% do PIB para 1,7%, um desempenho impressionante, frente, por exemplo ao Brasil, em que o gasto passou de 1,0% para 1,2% do PIB. Mas este número conta apenas parte da história. Como o PIB da China multiplicou-se por três neste período e o do Brasil cresceu pouco mais de 60%, o crescimento do gasto da China foi, de fato, muito maior. No ano 2000, embora gastassem quase o mesmo em relação ao PIB (0,9% na China e 1,0% no Brasil), a economia chinesa já era mais de duas vezes a brasileira (2,4), e o seu gasto cerca de 2,2 vezes o do Brasil. Em 2009, o gasto em P&D da China comparado com o do Brasil era 6,5 vezes maior.

O dinamismo da economia chinesa é um fato marcante. Mantido este diferencial é possível estimar que o gasto em P&D da China seja cerca de dez vezes maior que o do Brasil em 2020. O ritmo da mudança não se reflete apenas no gasto. O dinamismo cria outro ambiente, estimula o investimento privado, muda culturas e comportamentos, induz o risco, coloca a economia em contato com o mundo e premia o sucesso. Entender as diferenças entre a China e o Brasil passa pela comparação de seus indicadores, mas passa também por entender a diferença notável entre uma economia de crescimento acelerado e uma de crescimento moderado.

Tabela I – Gastos em P&D em relação ao PIB (GDP) e Gastos em P&D

 

China
(% PIB)

Brasil
(% PIB)

China (*)
(% PIB2000)

Brasil (*)
(% PIB2000)

China/Brasil (**)

2000

0,9

1,0

0,9

1,0

2,2

2001

1,0

1,0

1,1

1,1

2,4

2002

1,1

1,0

1,3

1,1

3,0

2003

1,1

1,0

1,6

1,1

3,6

2004

1,2

0,9

1,9

1,1

4,3

2005

1,3

1,0

2,4

1,2

4,7

2006

1,4

1,0

2,9

1,4

5,2

2007

1,4

1,1

3,5

1,7

5,2

2008

1,5

1,1

4,2

1,8

5,7

2009

1,7

1,2

5,1

1,9

6,5

Fonte: Banco Mundial (dados brutos). Obs: (*) dados do gasto em P&D de cada ano, em US$ ppc, em relação ao PIB de 2000. (**) Relação entre os valores absolutos dos gastos em P&D da China e do Brasil, medidos em US$ de 2000.

Fonte: Banco Mundial (dados brutos). Ver observações da Tabela I.

2.     Características Gerais dos Sistemas Nacionais de C, T & I no Brasil e na China

As características básicas dos sistemas nacionais de CT&I da China e do Brasil estão listadas na tabela abaixo. Um primeiro fato que chama atenção é como evoluíram estes sistemas nas últimas décadas. Há trinta anos, quer em termos de patentes depositadas no escritório norte -americano (USPTO), quer em termos de publicações científicas internacionais, o Brasil apresentava números bem melhores que a China: depositava sete vezes mais patentes e sua produção científica era sessenta por cento maior que a chinesa. Hoje estes números mais que se inverteram: a produção científica chinesa, medida por publicações internacionais, é quase quatro vezes a brasileira e o número de patentes da China depositadas no USPT é quase quinze vezes maior que o correspondente do Brasil.

Tabela II
Indicadores Básicos dos Sistemas de CT&I da China e do Brasil

 

Brasil
(A)

China
(B)

B/A

Pessoal em atividade em P&D (mil) (2008)

128,0

1.965

15,4

Gastos Totais em P&D (bi US$ ppc) (2009)

23,5

155,3

6,6

Gasto Governamental em P&D (bi US$ ppc) (2009)

12,1

41,1

3,4

Gasto das Empresas em P&D (bi US$ ppc) (2009)

11,4

114,2

10,0

Gastos Totais em P&D/PIB (GERD) (2009)

1,2

1,7

1,4

Saldo Comercial da Indústria de alta tecnologia (bi US$) (2009) (1)

-18,4

113,0

-

Saldo Comercial da Indústria de alta tecnologia (bi US$) (2009) (2)

-30,9

67,0

-

% Exportações Alta Tecnologia/Exp manufaturados

14,00%

31,00%

2,2

PhDs concluídos (2004)

8.109

23.446

2,9

PhDs concluídos (2009)

11.368

48.658

4,3

Matrículas na Pós Graduação (C&E) – 2009

51.745

643.078

12,4

Papers (Thomson/ISI) – 1981

1.949

1.204

0,6

Papers (Thomson/ISI) – 2009

32.100

118.108

3,7

Patentes (USPTO) – 1980

53

7

0,1

Patentes (USPTO) – 2009

464

6.879

14,8

População (milhões de habitantes em 2011)

192,4

1336,7

6,9

PIB (2009 – bi US$ ppp)

1.958,8

9.135,3

4,7

Fontes: MCT, OECD e Banco Mundial.
Obs: (1) informática, equipamento de telecomunicações, instrumentos médicos e ótica e aeronáutica; (2) idem ao (1) mais o total da indústria química (inclusive farmacêutica).

Atualmente, e isso é central para compreender as peculiaridades dos dois países, há que se evidenciar as diferenças entre o Brasil e a China em termos das dimensões absolutas de seus sistemas nacionais de CT&I. Neste sentido vale atentar para:

  • O gasto em P&D da China, em relação ao PIB, é hoje cerca de 40% maior que o do Brasil e tem crescido a taxas muito elevadas, comparativamente ao gasto brasileiro. Mas, em função da diferença de tamanho entre as duas economias, isso implica em dispêndios anuais em CT&I, como foi dito, seis vezes e meia maior na China que no Brasil, quando medido em dólares americanos pelo poder de paridade de compra (ppc).[2]
  • As maiores diferenças entre China e Brasil, não são contudo nos investimentos, mas são na área de recursos humanos formados e alocados no seu sistema de CT&I. Na China, o pessoal em atividades relacionadas à P&D é quinze vezes o contingentes equivalente do Brasil. As matrículas em cursos de pós-graduação nas áreas de ciência, tecnologia e engenharia são doze vezes maiores. Esse números são significativos, pois a população chinesa é ‘apenas’ sete vezes maior que a brasileira. Em que pese os indicadores de escolaridade geral do Brasil serem até melhores que os da China, o viés da formação superior do sistema brasileiro, em que é muito baixo o percentual de egressos em cursos de engenharia, afeta negativamente a disponibilidade de recursos humanos no Brasil e salienta uma diferença importante entre os países, especialmente quando se trata do tema inovação.
  • Outra diferença que chama atenção é a performance da balança comercial chinesa em bens de alta intensidade tecnológica. Cerca de 31% da pauta de exportação de manufaturados chinesas está associado a este tipo de produto, contra apenas 11% no Brasil. Em termos absolutos, a China apresenta um saldo positivo na balança comercial de manufaturas de alta tecnologia (US$ 113 bilhões quando se excluí a indústria química e US$ 67 bilhões quando se inclui o conjunto da química), enquanto o Brasil apresenta déficits (US$ 18 bilhões sem a química e US$ 31 bilhões com a inclusão do conjunto da indústria química);[3]
  • Uma última grande diferença entre dois sistemas está relacionada ao papel desempenhado pelo setor privado em cada país. Na China os gastos em P&D são hoje preponderantemente de responsabilidade das empresas, na medida em que representam três quartos do dispêndio nacional em P&D (74%), contra um percentual de gasto privado no Brasil da ordem de 50%. Com isto o dispêndio privado em P&D da China já é mais de dez vezes o equivalente no Brasil, embora, como se pondera mais à frente, deva-se ter em mente que as empresas estatais tem um papel muito relevante na economia chinesa e bem menor no Brasil.

3.     O Desenho dos Sistemas Nacionais de C, T & I no Brasil e na China

Em termos formais, como mostra a figura a seguir, os sistemas nacionais de C&TI da China e do Brasil se assemelham. Ambos contam com um Ministério específico (MOST na China e o MCT no Brasil), com instâncias superiores de coordenação e um conjunto de atores descentralizados (Universidades, Institutos de Pesquisa e Empresas).

Contudo, esta similaridade formal encobre o fato de que, na China, há um grau muito maior de centralização das decisões e um peso mais acentuado do Grupo de Coordenação Nacional de C&T e Educação, onde são concebidos e acompanhados os grandes planos para CT&I.

A sistemática chinesa de formulação e implementação de planos qüinqüenais confere ao seu planejamento, quer em termos gerais ou setoriais, uma eficácia muito maior. Em primeiro lugar, porque a cultura de planejamento de longo prazo já está estabelecida e é uma rotina para todos os órgãos de governo. Em segundo lugar, porque há continuidade nas ações e os novos planos dão seqüência aos anteriores, sem as rupturas que comumente ocorrem no Brasil. Em terceiro lugar, porque a implementação dos programas é favorecida pelo grau de comando e controle que o Estado chinês possui sobre muitos dos atores envolvidos, que em grande parte depende diretamente do governo (empresas estatais, institutos federais de pesquisa, etc.) ou estão sujeitos a regras bem mais rígidas, inclusive no que tange ao IDE.


Fonte:IEDI.

 


Os diversos programas implementados nos últimos anos pela China são exemplos deste intento de planejar e implementar ações de longo prazo.[4] Não se dispõe de uma avaliação consistente da eficácia destas ações, mas a recorrente avaliação positiva de alguns desses programas parece indicar que ao menos parcialmente eles têm tido sucesso em contribuir para a transformação da economia chinesa. Ademais, o crescimento a taxas muito elevadas sempre exerce um efeito favorável ao planejamento de longo prazo, pois a demanda acelerada por recursos humanos e financeiros, associada a orçamentos públicos e privados também crescentes, abre amplas margens de manobra para ajustes e reprogramações.

Para além do planejamento de longo prazo, também merece destaque, dentre estas peculiaridades da economia chinesa, o peso de seu segmento estatal. Segundo o Censo Econômico de 2008, 30% do total dos ativos empresariais e quase 50% dos ativos no setor industrial eram, em 2008, de propriedade de empresas estatais (SOEs – State-Owned Enterprises). Embora o número destas empresas não seja expressivo, para as dimensões da China (154 mil empresas estatais ao fim de 2008 ou pouco mais de 3% do total de empresas chinesas), as grandes empresas públicas controlam parte significativa do investimento e das decisões econômicas, entre elas as relativas ao gasto em P&D. O núcleo duro deste conjunto de empresas, coordenadas pelo State-owned Assets Supervision and Administration Commission of the State Council (SASAC) é ainda bem menor, mas detém extraordinário poder econômico. O SASAC controla diretamente as chamadas “empresas centrais”, pouco mais de cento e trinta empresas de enorme porte, selecionadas para estarem entre as maiores e mais importantes, em termos globais. Elas atuam em áreas consideradas de segurança nacional (indústrias estratégicas ou chaves), como energia, defesa, telecomunicações, construção naval e aviação; e em indústrias consideradas básicas para a estratégia chinesa de desenvolvimento, como maquinas e equipamentos, automotiva, tecnologias da informação, siderurgia, química, pesquisa e desenvolvimento. Apesar de poucas, elas possuem milhares de subsidiárias, em campos os mais diversos.[5]

Mas, para além do planejamento e do controle estatal da economia, talvez entre as maiores diferenças entre a China e o Brasil, no que toca às políticas nacionais de CT&I, está o grau de importância que o Estado chinês dá às questões de ciência, tecnologia e educação, compreendidas como parte indissociável da estratégia chinesa de desenvolvimento.[6] Duas dimensões são marcantes: a enorme ênfase do esforço educacional na China, comparativamente ao Brasil; e o fato da agenda de CT&I ser entendida como parte de sua agenda econômica, com um foco cada vez mais direcionado às empresas.

Por fim, cabe reafirmar que, hoje, a trajetória chinesa se beneficia do tamanho e do ritmo de crescimento de sua economia. Mas é preciso salientar que esta estratégia também foi condicionada, no passado e mesmo nos tempos atuais, pelo aprendizado, e também pela enorme pressão, que as políticas industriais e tecnológicas dos demais países asiáticos colocaram sobre a própria China. Neste sentido, as trajetórias do Japão e da Coréia são uma fonte de inspiração e de desafio ao Estado chinês.


4.     As Estratégias Governamentais de C, T &I no Brasil e na China

Desde o início da década de 1980, o governo chinês vem elaborando programas nacionais de ciência e tecnologia (C&T) que tem sido executados ao longo de sucessivos planos qüinqüenais (IEDI, 2011). As áreas prioritárias, objetivos e metas desses programas foram sendo revistos e reorientados às diretrizes e aos objetivos estratégicos do plano em vigor. Chama atenção o fato destes programas serem muitas vezes implementados ao longo de dois, três ou quatro planos qüinqüenais.

Apesar da importância dos programas iniciados ainda nos anos oitenta, os fatos mais marcantes da nova estratégia chinesa vieram com o 11º Plano Qüinqüenal (2006-2010), quando a China mudou o foco de sua estratégia de crescimento, priorizando atividades orientadas à inovação tecnológica no lugar da indústria e agricultura tradicionais. O Programa Nacional de Médio e Longo Prazo para Desenvolvimento da Ciência e da Tecnologia (MLP) de 2006, cujo horizonte vai até o ano de 2020, é o grande instrumento desta mudança, com ênfase na inovação nativa, no salto tecnológico em áreas prioritárias e já com ambição de alcançar um protagonismo global. É marcante que a coordenação destas ações tenha envolvido diretamente o gabinete do primeiro ministro. (IEDI, 2011)[7]

Mais recentemente, com o novo plano qüinqüenal chinês (2011-2015), a ênfase dada a esta dimensão da estratégia chinesa foi reforçada. Este novo plano qüinqüenal faz a emblemática proposta de passar do ‘made in China’ para o ‘design in China’. A China já é o principal exportador de produtos manufaturados do mundo e também é o segundo fabricante de bens de alta tecnologia do mundo. Contudo, apesar dos gastos em P&D da indústria de alta tecnologia terem triplicado entre 2003 e 2008, o diagnóstico deste novo plano qüinqüenal é que o país ainda apresenta um atraso quando se trata dos esforços de P&D das empresas desses setores. Sua meta é portanto deixar de ser uma plataforma de exportação de grandes empresas multinacionais estrangeiras e, também das empresas nacionais, para dar um salto qualitativo passando da imitação para a inovação, buscando a liderança mundial apoiada na inovação.

Esta estratégia guarda uma distância grande em relação às estratégias do Brasil. Não há por parte dos planos brasileiros setores ou tecnologias selecionadas que ambicionem liderança global. Mais saliente ainda é que as políticas de inovação brasileiras, que ganharam importância nos últimos dez anos, estão muito concentradas na reforma dos instrumentos, mas dão pouca importância aos aspectos estratégicos e aos objetivos econômicos decorrentes destas ações. De outro lado, as políticas brasileiras são mais fontes de estímulo ou indutoras de mudanças de conduta dos atores, do que mandatórias, como ocorre na China. Comparativamente à estratégia chinesa, pode se indicar que no Brasil prevalecem alguns aspectos problemáticos das políticas, a exemplo de:

  • O Brasil tem tradição de formulação de planos nacionais para CT&I, desde os anos setenta, com os chamados Planos Básicos de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – PBDCTs – e depois no período de criação do MCT, nos anos oitenta. Mas esta tradição só foi recuperada recentemente, a partir da criação de novos instrumentos de fomento e de financiamento, e de políticas industriais e tecnológicas um pouco mais ativas.
  • Os planos e políticas nacionais recentes (PACTI, PITCE, PDP, Plano Brasil Maior) dão grande ênfase à inovação, mas são frágeis em termos de opções estratégicas. Temos uma dificuldade intrínseca de escolher prioridades ou implantar de ações setoriais de grande fôlego, que estejam articuladas às estratégias do setor privado, talvez com a única exceção do setor de petróleo e gás, em função da capacidade de planejamento e de implementação de ações da Petrobrás.
  • A capacidade, dos planos de CT&I do Brasil, de coordenar, articular interesses e a capacidade de alterar de fato a conduta dos diversos atores são pequenas, comparativamente ao caso chinês. Para além das diferenças entre a ossatura do Estado chinês e brasileiro e do peso das empresas estatais e da capacidade de alinhamento de interesses, há também diferenças marcantes de desenho e governança. Aqui, o Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia é uma instância frágil, mais voltada a abrigar e contemplar ‘stakeholders’ convencionais do sistema de C&T do que formular planos estratégicos nacionais de longo prazo. É marcante o fato de que o CCT brasileiro mal disponha de equipe ou recursos capazes de formular e acompanhar de fato os planos nacionais, enquanto o processo de elaboração dos planos mais relevantes da China conte com numerosos grupos de trabalho e um staff técnico não apenas qualificado, mas igualmente numeroso.
  • Uma outra grande diferença entre a estratégia chinesa e brasileira é a precária articulação entre a estratégia do Brasil em CT&I e a agenda econômica nacional. Em parte isto se explica pela origem do MCT brasileiro, criado quando da redemocratização do país, mais em função do contexto político do que de uma opção de estratégia de desenvolvimento. A precária articulação do MCT com a agenda econômica salienta sua característica de lócus de interlocução com a comunidade científica, vis-à-vis, ao seu papel de articulação com setores centrais de governo, como o Ministério de Desenvolvimento e o Ministério da Fazenda. Esse não é caso chinês, muito mais inspirado no sucesso das estratégias asiáticas e nos ‘modelos’ japonês e coreano de políticas tecnológicas.

5.     China e Brasil: a base do sistema educacional

Brasil e China tem sistemas educacionais ainda precários, vis-à-vis os países já desenvolvidos. Apesar da universalização do sistema educacional básico, a escolaridade é baixa, tanto no ensino secundário, quanto no ensino superior. O positivo é que, em ambos os casos, as taxas de escolaridade tem crescido a ritmos acelerados, como mostram os dados a seguir acerca da escolaridade no ensino médio e superior.[8]

A taxa de escolaridade bruta do ensino médio passou, no caso da China de 39% para 62% entre 1.999 e 2.008. No mesmo período, a mesma taxa de escolaridade bruta do ensino médio passou de 78% para 92% no Brasil.[9] No ensino superior, taxa de escolaridade bruta da China passou, no mesmo período, de 6,5% para 22,7%, enquanto no Brasil passou de 13,3% para 34,4%.

Tabela III
Taxas de Escolaridade Bruta do Ensino Médio (em %)

 

1999

2008

China

38,6

61,9

Brasil

78,3

92,2

Fonte: Unesco.

Tabela IV
Taxas de Escolaridade Bruta do Ensino Superior (em %)
e Número Absoluto de Alunos Matriculados (milhões de pessoas)

 

1998

2004

2008

Variação abs.
1998 – 2008

China – taxa de escolaridade em %

6,0

17,6

22,7

Brasil – taxa de escolaridade em %

13,3

23,8

34,4

China (milhões de alunos)

6,1

18,1

26,7

20,6

Brasil (milhões de alunos)

2,2

4,3

6,0

3,8

Fonte: Unesco.

O crescimento da escolaridade nos dois países tem sido notável. No nível superior, a escolaridade (matrículas) cresceu, durante a década passada, a taxas superiores a 22% na China e próximas a 11% ao ano no Brasil. Evidentemente, ambos os sistemas tem ainda problemas de qualidade, tanto no nível superior, quanto em outros níveis de ensino, embora neste campo, os progressos recentes da China sejam significativos.

Apesar das similaridades existentes entre os dois países, algumas diferenças chamam atenção. Primeiro, como já foi dito sobre a China, a diferença de escala. A performance chinesa de ampliação do ensino superior representou absorver, em dez anos, cerca de novos 20 milhões de alunos. No Brasil, com um desempenho também expressivo, esse aumento da escolaridade implicou em novos 3,8 milhões de alunos. No ensino médio, a crescimento absorveu outros 20 milhões de estudantes, na China, com um acréscimo absoluto pequeno no caso do Brasil.[10]

Uma segunda diferença diz respeito aos progressos de cada país em termos de qualidade. Uma proxi da posição relativa da China e do Brasil, em termos da evolução recente da qualidade do ensino médio, é seu desempenho no PISA (Programme for International Student Assessment). Em que pese as limitações deste tipo de exame em países continentais como Brasil e China, as diferenças neste caso são marcantes, porque a China (Xangai) se situou no ranking do PISA na primeira posição, em 2009, enquanto a posição brasileira (que melhorou em relação ao exame anterior) foi apenas a 54ª ou a 58ª, dependendo do quesito avaliado.

No ensino superior, a literatura especializa tem chamado atenção para uma suposta baixa qualidade dos recursos humanos das áreas de ciência e tecnologia na China, comparativamente a outros países desenvolvidos. Mesmo assim, a aferir pelo crescente número de universidades chinesas que se posicionam entre as melhores do mundo, nos diversos rankings disponíveis, o esforço de constituir universidades de classe mundial tem tido resultados positivos.[11]

Em termos da disponibilidade de recursos humanos para inovação, o número que chama atenção é o de egressos no ensino superior. Como mostra a tabela anterior, entre 1998 e 2008, o número absoluto de estudantes matriculados no ensino superior aumentou consideravelmente nos dois países neste mesmo período: multiplicou-se por quase 3 no Brasil e por 4,5 no caso da China. A diferença de escala da China novamente chama atenção, pois este percentual baixo de escolaridade superior representava, em 2008, um contingente de mais de 26 milhões de alunos. Aqui o que se evidencia da China não é apenas o quantitativo, mas a efetiva disponibilidade de recursos qualificados nas áreas de ciência e engenharia.

A grande diferença entre os sistemas de ensino superior dos dois países está exatamente no perfil dos egressos: na China, 5,0% destes egressos se foram na área de ciências e 36,1% em engenharia (formação integral e de três anos), como mostra a Tabela V. No Brasil os percentuais equivalentes são de 7,8% e 6,7%, respectivamente. Em termos absolutos as diferenças são marcantes. Os egressos em ciências e engenharia na China, em 2009, eram mais de 1 milhão de jovens em cursos de formação plena e outros 1,1 milhão em cursos de tecnólogos (três anos), enquanto no Brasil os egressos nas áreas de ciência e engenharia eram de aproximadamente 120 mil jovens, incluindo a formação plena e tecnólogos.

Estas diferenças relativas entre perfis existem tanto para os egressos do ensino superior, quanto para a pós-graduação. Cerca de 35% dos mestres e 36% dos doutores formados na China são engenheiros. No Brasil estes percentuais são de 13% e 11%. Curiosamente, a disponibilidade relativa (em relação à população) de cientistas é (ou ao menos era, cabe ressalvar, em 2009) maior no Brasil que na China, bem como há mais ênfase nesta formação na graduação e na pós-graduação, a julgar pelo perfil dos egressos descritos na tabela V. Em certo sentido, isto reflete as influências e ‘características’ mais ocidentais de nosso perfil de formação superior, comparativamente ao perfil asiático e ‘soviético’ do caso chinês.

Tabela V
Concluintes de Ensino Superior e da Pós-Graduação por Área de Estudo:
Brasil e China: 2009 e Número Absoluto e per capita

 

Brasil

Brasil
(%)

Brasil
(p/ 10 mil hab)

China

China
(%)

China
(p/ 10 mil hab)

Ensino Superior (Integral)

722.202

100,0%

37,5

2.455.359

100,0%

18,4

  Ciências

64.291

8,9%

3,3

264.494

10,8%

2

  Engenharia

38.826

5,4%

2,0

763.635

31,1%

5,7

Ensino Superior (3 anos)

104.726

100,0%

5,4

2.855.664

100,0%

21,4

  Ciências

-

0,0%

0,0

1.543

0,1%

0

  Engenharia

16.601

15,9%

0,9

1.154.793

40,4%

8,6

Ensino Superior (total)

826.928

100,0%

43,0

5.311.023

100,0%

39,7

  Ciências

64.291

7,8%

3,3

266.037

5,0%

2,0

  Engenharia

55.427

6,7%

2,9

1.918.428

36,1%

14,4

Doutores

11.368

100,0%

0,5

48.658

100,0%

0,4

  Ciências

2.388

21,0%

0,1

9.570

19,7%

0,1

  Engenharia

1.284

11,3%

0,1

17.386

35,7%

0,1

Mestres

38.800

100,0%

1,9

322.615

100,0%

2,4

  Ciências

5.819

15,0%

0,3

32.252

10,0%

0,2

  Engenharia

4.986

12,9%

0,3

113.128

35,1%

0,8

Fonte: China Statistical Yearbook, 2010; INEP, Censo Escolar de 2009 e MCT.

A ressalva feita no parágrafo anterior é importante para entender a China. O gráfico a seguir é ilustrativo da velocidade com que a China está mudando em termos da formação de recursos humanos. Os valores da figura se referem ao número per capita de engenheiros formados entre 2001 e 2009. Cerca de 60% dos profissionais formados na China são tecnólogos (3 anos) e 40% tem formação plena. No Brasil estes números se invertem: 70% tem formação plena e 30% são tecnólogos. No começo da década, a disponibilidade de profissionais, relativa à população, era o dobro na China. Passados apenas oito anos, as diferenças se ampliaram enormemente: em 2009 já era cinco vezes maior que o número per capita do Brasil. Evidente que em termos absolutos estas diferenças são gritantes: os quase 2 milhões de profissionais formados são cerca de 35 vezes o número de egressos do Brasil, ainda que subsistam problemas de qualidade com esta mão-de-obra, tanto na China, quanto no Brasil.[12]

Apesar deste forte crescimento na formação de recursos humanos, em 2010, o Conselho de Estado do governo chinês lançou, para fazer frente aos seus novos desafios, um novo plano para a formação de recursos humanos qualificados.[13] Entre os objetivos está elevar o número de pesquisadores a 3,8 milhões em 2020, com 40 mil cientistas de altíssima qualificação nas áreas-chave de inovação. Em termos per capita, a meta é elevar o número de pesquisadores para 43 por mil habitantes até 2020 (ante 25 por mil em 2008), bem como aumentar a escolaridade bruta superior de 24% para 40% em dez anos.

Fonte: China Statistical Yearbook, 2010; INEP, Censo Escolar de 2009 e MCT.

6.     China e Brasil: Propriedade intelectual

Um dos fatos que mais tem chamado atenção sobre o desempenho tecnológico da economia chinesa é o crescente número de patentes depositas nos escritórios internacionais e, também, no escritório de patentes da China, o SIPO – State Intellectual Property Office. O número de patentes internacionais (depositadas ou concedidas) por instituições e empresas chinesas tem crescido de forma exponencial, a partir de 2001-2002, como mostra o gráfico a seguir, acerca de patentes concedidas pelo USPTO ou solicitadas via Tratado de Cooperação de Patentes (PCT). Em parte isso reflete a ênfase das políticas tecnológicas na comercialização da ciência e na inovação. De outro lado, é reflexo do posicionamento global das empresas chinesas, algumas das quais passaram a freqüentar o seleto clube dos maiores solicitantes mundiais de patentes, como a ZTE e a Huawei.

O início deste boom coincide com a revisão da legislação patentária chinesa, feita em 2001, no contexto da adesão da China à OMC. Esta trajetória foi reforçada com as políticas adotadas a partir de 2006, com o Programa Nacional de Médio e Longo Prazo para Desenvolvimento da Ciência e da Tecnologia e o novo plano qüinqüenal, que enfatizavam a criação de empresas e a comercialização de tecnologias pelos institutos de pesquisa e universidades. Esses estímulos levaram as universidades e os institutos a ampliarem significativamente o registro e o licenciamento de sua propriedade intelectual, mas as estatísticas revelam que esse é um esforço liderado pelo setor privado, que responde por cerca de 80% dos depósitos de patentes.

Fonte: USPTO, All Technologies Report, 2010; WIPO, WIPO Statistics Database, 2011.

O que é notável no exemplo da China é a consistência dos resultados alcançados, vis-à-vis as metas colocadas pelas políticas públicas. E, mais, notável, é a ambição da política chinesa de inovação e de propriedade intelectual. Em 2008, o Conselho de Estado lançou uma Estratégia Nacional de Propriedade Intelectual, que visava reforçar o compromisso e a determinação da China com a criação, proteção, utilização e gerenciamento dos direitos de propriedade intelectual (OCDE, 2011, apud IEDI, 2011). No contexto da crise internacional, estas ações foram reforçadas através de fundos para apoiar o registro internacional de patentes de empresas e universidades chinesas.

Em 2010, a estratégia chinesa de propriedade intelectual foi formalizada, com objetivos e metas extraordinariamente ambiciosas para o ano de 2015, como: ampliar a capacidade de criar patentes, para alcançar 2 milhões de patentes (invenção, design e modelo de utilidade) em cinco anos, o dobro dos números de 2010; estar entre os dois principais países em termos de patentes registradas internamente ao país; igualmente dobrar o número de patentes internacionais originadas na China; aprimorar a eficiência e a qualidade dos exames de patentes, tendo como meta um tempo médio de 22 meses para o exame de patentes de invenção e 3 meses para modelo de utilidade e design; ampliar o corpo técnico do SIPO para 9 mil examinadores (50% a mais do que possui hoje o USPTO).[14]

Um reflexo desta enorme ênfase chinesa na propriedade intelectual, comparativamente ao Brasil, nos é dada nos gráficos a seguir, que comparam os dados de solicitações de patentes no escritório dos dois países para 2010 (privilégios de invenção e modelos de utilidade) e que apresentam uma série histórica da evolução de patentes de privilégio de invenção, discriminando as patentes de residentes e não residentes. Em primeiro lugar, note-se que só é possível colocá-los lado a lado usando escalas absolutamente diferente.

Mas, para além da escala, há outras diferenças que chamam a atenção. É visível o forte crescimento das patentes de privilégio de invenção na China, comparativamente ao Brasil. Ambas crescem a partir das mudanças realizadas em cada país na legislação patentária, mas a performance chinesa se destaca pelo contínuo crescimento. E se destaca, porque, diferentemente do Brasil, as patentes de residentes são hoje cerca de ¾ do total, enquanto no Brasil este percentual não chega a 20%.

 

 

Fonte: WIPO Statistics Database, 2011; SIPO, Annual Report, 2010 e INPI, Relatório Anual, 2010.

 

 

Fonte: SIPO, Annual Report, 2010 e INPI, Relatório Anual, 2010.

Outro fato que chama atenção nestes dados é que ambas as legislações possibilitam utilizar modelos de utilidade como uma forma de proteção da propriedade intelectual. Esta forma de proteção tente a ser mais utilizada por pequenas e médias empresas domésticas, em geral associadas a aperfeiçoamentos ou melhoramentos em máquinas e equipamentos, em questões de uso prático suscetível de aplicação industrial. São em geral processos que não exigem a satisfação de requisitos complexos para o reconhecimento dos direitos associados, tendo como contrapartida prazos menores ou condições mais restritas de proteção. Modelos de Utilidade são raramente utilizada por grandes empresas estrangeiras, como mostram os dados dos dois países. O interessante é observar que a proteção a modelos de utilidade é muito mais marcante na China que no Brasil, o que denota um viés local que favorece pequenas empresas industrias.

7.     Desempenho da Indústria e das Exportações de Alta Tecnologia

Para entender perfeitamente o que explica o desempenho da China nos anos recentes é preciso se deter minimamente sobre o perfil de seu sistema produtivo. Isto porque, a performance de inovação da China é indissociável de sua consolidação como um dos líderes na produção industrial mundial. Ao longo da década passada, o peso da China no valor agregado da manufatura (MVA) mundial saltou de 6,7% em 2000 para 15,6% em 2009 (UNIDO, apud IEDI, 2011). Nesta década, a China passou a liderar o mercado mundial em alguns segmentos da indústria, como máquinas e equipamentos elétricos e na química, e se posicionou como um dos principais produtores em quase todos os demais segmentos industriais. No mesmo período, a participação brasileira no MVA manteve-se em 1,7%, como mostra o gráfico a seguir.

Fonte: Banco Mundial, 2011

O desempenho da China não se restringiu apenas aos setores de média ou baixa intensidade tecnológica. Ao contrário, progressivamente a China ampliou sua fatia dos chamados bens de alta intensidade tecnológica (informática, equipamento de telecomunicações, instrumentos médicos e ótica; aeronáutica e a indústria farmacêutica). Nestes segmentos, até meados da década de noventa, Brasil e China detinham cerca de 2% do valor agregado mundial. A partir de então a China ampliou sua fatia no mercado internacional de bens de alta intensidade tecnológica para cerca de 14% em 2007, enquanto o Brasil reduziu ligeiramente sua participação. O que o gráfico mostra é que o desempenho da China neste quesito é relativamente recente. Só a menos de dez anos a China de fato começou a se diferenciar como produtor de bens de maior intensidade tecnológica, embora a velocidade com que isto venha acontecendo impressione, tendo ultrapassado o Japão e ficado apenas atrás dos Estados Unidos, que responde por 1/3 deste mercado.

 Fonte: SEI, NSF, 2010.

Essa mudança na estrutura industrial da China, em direção a segmentos de maior intensidade tecnológica, também se reflete nas exportações do país. Hoje, as exportações de produtos classificados como de alta tecnologia respondem por quase um terço da pauta de exportações de manufaturados. É impressionante, neste aspecto, acompanhar a reversão do fluxo de comércio deste tipo de bens: só a partir de 2002 a China passa a apresentar superávit nestes bens. Mas em 2008 este superávit já era de mais de US$ 120 bilhões, como mostra o gráfico a seguir. Em contraposição ao caso chinês, o Brasil ampliou seu déficit neste tipo de bens, notadamente nos anos recentes.

O desempenho superavitário da China está fortemente baseado na sua indústria de equipamento de informática e de telecomunicações. A China continua tendo grandes déficits nos segmentos de aeronáutica, ótica e equipamentos médicos e um pequeno déficit na indústria farmacêutica. O Brasil diferente da China, tem superávit exclusivamente no segmento aeronáutico, mas este superávit é incapaz de reverter o sinal negativo do saldo comercial dos bens mais intensivos em tecnologia.

8.     Estrutura, intensidade e peso industrial da China e do Brasil: impactos sobre o gasto em P&D

Para compreender o desempenho recente da China na área de inovação e poder melhor compará-lo com o Brasil é necessário examinar com maior detalhe o esforço tecnológico da indústria chinesa e seus determinantes. A questão relevante é se perguntar como foi possível à China realizar, em tão pouco tempo, um processo de mudança de sua estrutura produtiva em direção a setores intensivos em tecnologia, podendo assim tirar proveito da demanda internacional e reverter seu déficit comercial nestes setores. E se, de fato, essa é a diferença essencial entre a China e o Brasil.

A tabela VI traz, para 2008, ano em que se dispõe de informações mais detalhadas para as atividades de inovação industrial em ambos os países, alguns grandes números acerca do esforço em P&D da China e do Brasil que permitem desenhar um quadro geral, antes que nos debrucemos sobre a estrutura industrial e a intensidade tecnológica da manufatura nos dois casos. Como já se mencionou, nesta data, o gasto em P&D global da China era, em relação ao PIB, 1,4 vezes o gasto do Brasil. Mas, ao mesmo tempo, o gasto do setor privado já era 2,1 vezes o gasto privado no Brasil e o gasto em P&D da indústria manufatureira chinesa era 2,6 vezes maior que o mesmo tipo de gasto no Brasil. Ou seja, proporcionalmente falando, as diferenças em termos de P&D eram muito maiores entre a indústria da China e do Brasil, do que seria de esperar do esforço global, público e privado, em P&D dos dois países.

Estas informações, acrescidas do desempenho muito favorável das exportações chinesas de bens de alta tecnologia, parecem sugerir que a China evoluiu, muito mais rapidamente que o Brasil, em direção a um grande esforço tecnológico no setor industrial. Sem dúvida, este fato é parte da realidade que auxilia a explicar a trajetória chinesa. Mas há uma informação desta tabela que sugere cautela nesta conclusão: o valor adicionado pela indústria era duas vezes maior na China que no Brasil, medido em relação ao PIB. Ou seja, parte da diferença se deve ao maior tamanho relativo da indústria.

Tabela VI
Dados do Gasto em P&D e do Valor Adicionado da Indústria: Brasil e China -  2008

 

China (A)

Brasil (B)

A/B

Gasto em P&D Total em relação ao PIB (RD/GDP em %)

1,54

1,11

1,4

Gasto Privado em P&D em relação ao PIB (BERD/GDP em %)

1,12

0,53

2,1

Gasto em P&D da Indústria Manufatureira em relação ao PIB (%)

0,97

0,37

2,6

Valor Adicionado da Manufatura em relação ao PIB (%)

32,7

16,6

2,0

Fontes: National Bureau of Statistics of China (Second National Economic Census), IBGE (PINTEC), dados brutos.

Para poder ter conclusões é preciso examinar o efetivo esforço tecnológico de cada setor da indústria da China comparativamente ao Brasil. O Segundo Censo Econômico da China e a PINTEC do Brasil nos dão uma medida aproximada disso, para o ano de 2008, em função de avaliarem os gastos em P&D em relação à receita de vendas de cada setor.[15] A Tabela VII traz estes resultados: de fato, em 2008, a indústria da China já era mais intensiva em P&D. Na média, o gasto em P&D foi neste ano 30% superior ao realizado no Brasil. É possível, compreendendo o que ocorre na China, estimar que esta diferença esteja se ampliando, ano a ano.

Mas curiosamente, esta não é uma diferença tão marcante como seria de se esperar. Por exemplo, se esta comparação é feita com países mais desenvolvidos, as diferenças são muitos maiores. A intensidade do esforço tecnológico da Alemanha, da Coréia e dos Estados Unidos, medidas pelo gasto em P&D em relação ao valor adicionado na indústria, eram em 2005, comparativamente ao Brasil, aproximadamente 5, 6 ou até 7 vezes maiores, nesta ordem. A diferença com a China, neste sentido, não é tão grande, embora cresça a um ritmo muito acelerado.[16]

Em alguns setores, como mostra a tabela VII, a intensidade do gasto em P&D do Brasil chegava a ser superior a da China, notadamente na indústria de petróleo, gás e biocombustíveis; mas também havia um diferencial a favor da indústria brasileira nos segmentos de material de transporte, fumo, e indústrias diversas. Diferenciais maiores em favor da indústria chinesa se notavam nos setores de: bebidas, têxteis, produtos de minerais não metálicos, siderurgia, metalurgia de metais não ferrosos e fundição e em máquinas e equipamentos. Curiosamente, nos segmentos identificados como indústria de alta tecnologia, a saber informática, equipamento de telecomunicações, instrumentos médicos e ótica; aeronáutica e farmacêutica, as diferenças não eram relevantes, ou por vezes eram favoráveis ao Brasil, como no segmento aeronáutico.

Tabela VII
Estrutura Industrial e Intensidade dos Gastos em P&D: Brasil e China -  2008

 

China

Brasil

China

Brasil

 

Estrutura
Industrial

Estrutura
Industrial

Intensidade
de P&D

Intensidade
de P&D

Indústrias de transformação

100,0%

100,0%

0,84%

0,64%

   Fabricação de produtos alimentícios

7,3%

16,8%

0,26%

0,24%

   Fabricação de bebidas

1,4%

2,4%

0,74%

0,08%

   Fabricação de produtos do fumo

0,9%

0,7%

0,30%

0,72%

   Fabricação de produtos têxteis

4,9%

1,7%

0,36%

0,17%

   Confecção de artigos do vestuário e acessórios

2,8%

1,4%

0,21%

0,12%

   Produtos de couro e calçados

1,3%

1,4%

0,14%

0,41%

   Fabricação de produtos de madeira

1,3%

1,0%

0,19%

0,10%

   Fabricação de móveis

0,8%

1,0%

0,17%

0,16%

   Fabricação de celulose, papel e produtos de papel

1,8%

2,9%

0,45%

0,29%

   Impressão e reprodução de gravações

0,7%

0,6%

0,28%

0,24%

   Refino de petróleo, biocombustíveis e comb. nuclear

4,9%

11,8%

0,18%

0,87%

   Fabricação de produtos químicos

8,4%

10,3%

0,89%

0,59%

   Produtos farmoquímicos e farmacêuticos

1,6%

1,8%

1,81%

1,44%

   Fabricação de artigos de borracha e plástico

3,4%

3,5%

0,60%

0,48%

   Fabricação de produtos de minerais não metálicos

5,3%

2,9%

0,33%

0,15%

   Produtos siderúrgicos

9,9%

6,3%

0,89%

0,22%

   Metalurgia de metais não ferrosos e fundição

4,5%

2,2%

0,63%

0,18%

   Fabricação de produtos de metal

3,6%

3,6%

0,44%

0,27%

   Fabricação de máquinas, aparelhos e materiais elétricos

6,6%

3,1%

1,39%

1,01%

   Material de Transporte

7,4%

14,3%

1,54%

1,58%

   Fabricação de máquinas e equipamentos

9,2%

5,1%

1,26%

0,46%

   Equipamentos de informática, eletrônicos e ópticos

10,6%

3,6%

1,57%

1,29%

   Diversos

1,3%

1,4%

0,21%

0,36%

Fontes: National Bureau of Statistics of China (Second National Economic Census ) e IBGE (PINTEC), dados brutos.
Obs: (1) Intensidade do gasto para Brasil em relação à Receita Líquida de Vendas da PINTEC; para China intensidade em relação à Receita de Vendas medida pelo Censo Econômico da China ajustada (pelo peso do gasto em P&D da manufatura) para conciliar com definição de RLV do Brasil.

Uma forma de se examinar estas diferenças é comprar o que chamamos aqui de efeitos estrutura, intensidade e peso. Ou seja, o que seria o esforço em P&D do Brasil se o país tivesse a estrutura industrial da China (com a mesma intensidade e peso que existem no Brasil); qual seria o esforço em P&D do Brasil se o país tivesse a mesma intensidade da China (mas com mesmo peso e estrutura do Brasil) e , por fim, qual seria o gasto em P&D se a indústria brasileira tivesse o mesmo tamanho relativo ao PIB da indústria chinesa (mas com a intensidade e gasto e a estrutura da indústria brasileira). Os resultados estão na tabela VIII, a seguir.

É fácil perceber que os efeitos estrutura e intensidade pesam pouco: o gasto em P&D da indústria de transformação brasileira é hoje equivalente a 0,37% do PIB do Brasil; se gastasse com a mesma intensidade (setor a setor) da China, este percentual subiria para 0,43% do PIB; o efeito estrutura teria uma contribuição negativa (dada a intensidade do gasto do Brasil, setor a setor, se nossa estrutura fosse equivalente à da China, o gasto total seria menor). Combinados, intensidade e estrutura, o gasto em P&D passaria de 0,37% do PIB para 0,40%.

A diferença relevante entre “a China de 2008″ e o Brasil na mesma data era de fato o peso da indústria no PIB. Se a indústria brasileira tivesse o mesmo peso da indústria chinesa, com a mesma intensidade do gasto que já fazemos e com a mesma estrutura que temos, o gasto em P&D da industria seria de 0,73% do PIB, quase duas vezes maior do que é hoje.

Tabela VIII
Efeito Estrutura, Intensidade e Peso no Diferencial
da China e do Brasil no Gasto em P&D Industrial: Brasil e China -  2008

 

Efeito estrutura
e intensidade (1)

Efeito peso
estrutura e
intensidade (2)

Total P&D do Brasil (sem Efeito China) – (% do PIB)

1,11

1,11

P&D da Ind. Manufatura do Brasil (% do PIB) – Efeito Peso

0,37

0,73

Efeito Intensidade no P&D da Indústria (China) – %

0,06

0,06

Efeito Estrutura no P&D da Indústria (China) – %

-0,02

-0,02

P&D da Ind. Manufatura do Brasil (% do PIB) com Efeito China

0,40

0,76

P&D do Setor Público do Brasil (& do PIB)

0,58

0,58

Outros Gastos em P&D do Setor Privado (% do PIB)

0,16

0,16

Total P&D do Brasil (com Efeito China)

1,14

1,50

Fontes: IEDI; Obs: (1) Gasto de P&D do Brasil na hipótese de ter a mesma intensidade (efeito intensidade) de gasto em P&D da China (com estrutura setorial do Brasil), e na hipótese de ter a mesma estrutura industrial (efeito estrutura) da China (com a mesma intensidade do gasto do Brasil): (2) Idem ao anterior, mas considerando que a indústria brasileira tivesse o mesmo peso da indústria da China no PIB.

Esse resultado é interessante, porque mostra que um grande diferencial da China para com o Brasil é a relevância de sua indústria para a estratégia nacional de catching-up. Não que não existam outras diferenças, mas, em termos do esforço em P&D, ¾ da diferença relativa que existe entre os dois países se explica pelo peso relativo da indústria. E, como foi dito, é notável que, em 2008, na indústria considerada de maior intensidade tecnológica, as diferenças fossem ainda pequenas, em termos de P&D.

Pode-se dizer que a China tinha, até muito recentemente, uma indústria relativamente não muito diferente do Brasil, em termos de inovação e esforço interno de P&D. Seus diferenciais eram mais de custos muito mais baixos (custos de produção, em especial carga tributária, salários e logística, mas também custo de capital), escala muito maior e uma taxa de câmbio altamente favorável.

Mas o retrato que se faz da China aqui mostra que ela deve ser vista sempre como uma economia em forte velocidade de mudança. Sua indústria hoje não apenas é quase dez vezes maior que a brasileira, quando medimos o valor adicionado em termos de paridade do poder de compra, mas caminha celeremente para ser cada vez mais inovadora e tecnologicamente avançada. E caminha, porque a economia chinesa cresce a taxas elevadas e porque encontra um ambiente favorável a isto, em termos de um conjunto de políticas muito agressivas de suporte a esta trajetória.

9.     Conclusões

O Brasil e a China vêem formulando políticas industriais e tomando iniciativas de estímulo à inovação já há alguns anos. O esforço tecnológico interno é tido como prioridade e como parte essencial de suas tentativas de catching-up. Mas é visível o maior sucesso da China nesta empreitada. Explicá-lo, não é simples, pois como ocorre com fenômenos desta natureza, são muitos os fatores que contribuem para isto. De qualquer forma, alguns aspectos chamam atenção. Se fosse possível sintetizar estas diferenças, seria conveniente pelo menos pontuar os seguintes cinco aspectos:

1. O crescimento acelerado: o crescimento da China faz uma grande diferença, quando ela é comparada com qualquer outro país. Não apenas porque cria oportunidades de novos negócios, mas porque o crescimento implica em forte investimento. E é o novo investimento que difunde produtividade e abre possibilidade de incorporar novas tecnologias. E, como foi dito aqui, o dinamismo cria outro ambiente, muda culturas e comportamentos, induz o risco, coloca a economia em contato com o mundo e premia o sucesso. O crescimento, essa é uma lição da China, faz muita diferença, se o objetivo é ter uma economia mais inovadora.

2. A escala da indústria e o ambiente econômico: uma segunda diferença fundamental da China é sua escala de produção industrial. Isso abre possibilidade que poucos países tem, em termos de permitir custos muito menores e operações de natureza global. Mas isto se combina com um ambiente econômico que favorece a indústria: infra-estrutura, salários, tributos e câmbio estão todos alinhados de forma a favorecer um desempenho cada vez mais competitivo da China. A segunda lição que se pode apreender da China é que a inovação é parte de uma estratégia de desenvolvimento, mas ela sozinha não pode compensar diferenciais muito grandes de competitividade. A inovação e o esforço tecnológico prosperam e podem prosperar ainda mais, se encontram um terreno sólido de competitividade. Podem ser um diferencial para o futuro, mas não são uma compensação para diferenciais sistêmico de competitividade elevados.

3. O planejamento, a capacidade de organização de interesses e de intervenção estatal: Um terceiro aspecto que chama muita atenção da China, comparada ao Brasil, é a natureza sistemática e continuada do planejamento chinês e a capacidade de fazer políticas efetivas de seu Estado nacional. Grande parte desta diferença, evidentemente, tem relação com a trajetória histórica dos dois países: a tradição de planos qüinqüenais, o peso do setor estatal na economia, o grau de centralização das decisões, etc. Mas parte também se explica pela eficiência das medias tomadas, pela persistência e pela capacidade de tomar decisões de grande envergadura, correndo riscos de errar.

4. O diferencial de recursos humanos: Um quarta enorme diferença, e que talvez seja um dos aspectos que ficará cada vez mais evidente na próxima década, é a enorme ênfase na capacitação em larga escala de recursos humanos na China, comparativamente ao Brasil. Há aqui, é claro, um diferencial de tamanho. Mas, independente do tamanho, o que chama atenção é como a China se prepara com uma velocidade espantosa, para abastecer em larga escala o mercado de trabalho com recursos humanos qualificados, notadamente em engenharia.

5. A inovação como estratégia e como parte da agenda de desenvolvimento: Um último aspecto merece ser enfatizado. A inovação e o desenvolvimento tecnológico são, na China, um componente de uma estratégia nacional de desenvolvimento, são parte de uma agenda econômica clara e são tratadas como tal. Isso é um grande diferencial em relação à trajetória rotineira do Brasil, em que a agenda de inovação é encarada como parte anexa de uma agenda de ciência e tecnologia, com seus interlocutores tradicionais, e não como parte da agenda de política econômica.



[1] Professor do Instituto de Economia da Unicamp.

[2] Medido em dólares correntes, o gasto em P&D da China em 2009 era equivalente a 4,5 vezes o gasto do Brasil.

[3] Os bens considerados de alta tecnologia, na classificação adotada pela OECD, são : informática e equipamento de telecomunicações; instrumentos médicos e ótica; aeronáutica e a indústria farmacêutica, que é parte da química. A química não farmacêutica é considera de média alta tecnologia nesta classificação.

[4] Programa Nacional de P&D em Tecnologias-chave (1982); Programa Nacional de P&D High-tech – Programa 863 (1986); Programa Nacional de Pesquisa Básica – Programa 973 (1997); Spark (1986); Torch (1988); Programa Nacional de Infra-estrutura de Ciência e Tecnologia (2001); Ambiente para as Indústrias de Base Tecnológica (2001) e o Programa Nacional de Médio e Longo Prazo para Desenvolvimento da Ciência e da Tecnologia (2006). Ver IEDI, “A Transformação da China em Economia Orientada à Inovação”, 2011.

[5] Um exemplo do que representam estas empresas, em termos do esforço tecnológico da China, está no fato de empregarem cerca de cinco milhões de engenheiros, número que não tem crescido nos últimos anos, mas que é expressivo em si mesmo.

[6] É ilustrativo deste fato o grande peso na mais alta burocracia pública chinesa de cientistas e engenheiros, a começar pelo executivo e pela direção nacional do Partido Comunista Chinês. Por exemplo, no Politiburo do PCC, dos 25 membros, 12 são engenheiros.

[7] O MLP tinha, entre seus propósitos, acelerar a comercialização da ciência e encurtar o ciclo da industrialização e comercialização dos resultados dos esforços de P&D, estimulando a criação de spin-offs de base tecnológica, pelos institutos e universidades, e estimulando as empresas chinesas a assumirem a liderança do sistema nacional de inovação. Ver: IEDI, 2011.

[8] A escolaridade bruta refere-se ao número total de alunos matriculados (independente da idade) em relação à população da faixa etária que deveria freqüentar o mesmo nível de ensino. Quando há grandes distorções série-idade (como ocorre para Brasil), este indicador pode ser superior a 100%.

[9] Utilizam-se taxas brutas de escolaridade para efetuar esta comparação, em função de não se dispor das taxas líquidas de escolaridade da China. Para o Brasil, o percentual de jovens de 15 a 17 anos que freqüentavam o ensino médio, em 2009, era de 50,9%, segundo a PNAD/IBGE.

[10] Depois de ter-se expandido no início da década, as matrículas no ensino médio regular no Brasil tem se mantido no mesmo patamar de 8,5 milhões de alunos, nos últimos anos. O crescimento de matrículas tem ocorrido exclusivamente no ensino profissional.

[11] Entre 10 a 20 universidades chinesas tem se posicionado entre as quatrocentas melhores do mundo, nos rankings internacionais e entre 2 a 5 universidades brasileiras freqüentam estes mesmos rankings (QS, Time, Academic Ranking of World Universities, etc.). O resultado da China é conseqüência de políticas explícitas – como o Projeto 985, voltado a criar de 10 a 12 universidades de classe mundial.

[12] Uma avaliação dos problemas de qualidade da formação em engenharia na China pode ser encontrada em: Gereffi, Wadhwa, Rissing & ONG, Getting the Numbers Right: International Engineering Education in the United States, China, and India, Journal of Engineering Education, January 2008. Disponível em: http://ssrn.com/abstract=1081923.

[13] Plano de Médio e Longo Prazo de Desenvolvimento de Talentos (2010-2020). Ver IEDI, 2011 e OECD, Science, Technology and Industrial Outlook, 2010.

[14] National Patent Development Strategy (2011-2020), State Intellectual Property Office, 2010. Disponível em: http://english.sipo.gov.cn/laws/developing/200906/t20090616_465239.html

[15] O conceito de receita adotado em cada caso é diferente, mas os dados brutos foram ajustados, de forma a que os resultados de intensidade tecnológica fossem compatíveis com os dados gerais da Tabela VI.

[16] A tomar pelos dados do gasto em P&D em 2010, de forma aproximada, depois de 2008, o gasto privado tem crescido em média 20% ao ano e o PIB 10% ao ano. Com isto, pode-se estimar que a intensidade do gasto privado em P&D e relação à receita da indústria tenha crescido quase 20% nestes dois anos. Ver: National Bureau of Statistics, Communiqué on National Expenditures on Science and Technology in 2010, September, 2011.

A esquerda legitima e legitimada

Michael Moore

Terça-feira próxima farão 22 anos do momento em que estava com um grupo de operários, estudantes e desempregados no centro da minha cidade natal, Flint, Michigan, a anunciar que a Warner Bros, estúdio de Hollywood, comprara os direitos para distribuir por todo o mundo o meu primeiro filme, “Roger &Me”. Um repórter perguntou-me: “Por quanto você o vendeu?”

“Três milhões de dólares!”, exclamei com orgulho. Houve uma salva de palmas de gente dos sindicatos em meu redor. Era absolutamente inédito que um de nós da classe trabalhadora de Flint (ou de qualquer outro lugar) recebesse tamanha soma dinheiro a menos que roubasse um banco ou, por sorte, ganhasse o prémio da lotaria de Michigan. Aquele dia ensolarado de Novembro de 1989 foi como se eu tivesse ganho a lotaria – e o pessoal com quem eu vivia e lutava em Michigan ficou emocionado com o meu êxito. Era como se a boa fortuna houvesse finalmente sorrido para um de nós. O dia acabou em festas e “hurras para o Mike!”. Quando você vem da classe trabalhadora tem raízes entre todos e quando um vai bem, ou outros vibram com orgulho – não só pelo êxito da pessoa, mas pelo facto de que a equipe também venceu, derrotando o sistema que era brutal e implacável e que efectuava um jogo com regras feitas contra nós. Nós sabíamos as regras e estas diziam que nós ratos de fábricas da cidade não podíamos fazer cinema, ou dar entrevistas à televisão ou conseguirmos fazer ouvir a nossa voz num cenário nacional. Devíamos ficar calados, de cabeça baixa e voltar ao trabalho. Se, por algum milagre, um de nós escapasse e tivesse acesso a uma audiência em massa e um bocado de dinheiro – bem, santa mãe de Deus, cuidado! Uma posição de influência e bastante dinheiro para fazer barulho – isso era uma combinação incendiária e só significava perturbação para os de cima.

Naquele momento, eu sobrevivia com o subsídio de desemprego, recebendo US$98 por semana. Previdência. A caridade. Meu carro morrera em Abril e há sete meses não tinha veículo. Os amigos levavam-me para jantar, sempre com uma desculpa para celebrar ou comemorar alguma coisa e depois levantavam-se e pagavam a conta para me poupar a vergonha de não poder dividir a conta.

E agora, subitamente, eu tinha três milhões de dólares! O que faria com ele? Houve homens de fato e gravata a fazerem-me sugestões e pude ver como aqueles sem um forte sentido de responsabilidade social podiam ser facilmente arrastados para o caminho do “EU” e muito rapidamente esquecer o do “NÓS”.

Assim, em 1989 tomei algumas decisões de fundo:

1. Primeiro pagaria todos os meus impostos. Disse ao rapaz que fazia a minha declaração de rendimentos para não efectuar quaisquer deduções além da hipoteca e que pagasse todos os impostos federais, estaduais e municipais. Orgulhosamente contribui com quase um milhão de dólares pelo privilégio de ser um cidadão deste grande país.
2. Dos US$2 milhões restantes, decidi dividir do modo como o fazia o cantor e activista Harry Chapin: “Um para mim, um para o amigo”. Então, peguei metade do dinheiro – US$1 milhão – e criei uma fundação para distribuir o dinheiro.

3. O milhão que sobrou foi usado assim: paguei todas as minhas dívidas, paguei as dívidas de alguns amigos e membros da família, comprei um novo refrigerador para os meu pais, estabeleci um fundo de educação para sobrinhas e sobrinhos, ajudei a reconstruir uma igreja negra que se incendiara em Flint, distribuí um milhar de perus no Dia de Acção de Graças, comprei equipamento de filmar para enviar aos vietnamitas (minhas próprias reparações pessoais para um país que havíamos devastado), comprei todos os anos 10 mil brinquedos para dar no Natal ao [programa] Toys for Tots, comprei para mim uma nova Honda fabricada dos EUA e liquidei uma hipoteca de um apartamento em Nova York.

4. O que sobrou foi para uma conta-poupança simples, com juros baixos. Tomei a decisão de nunca comprar uma acção (nunca entendi o casino conhecido como Bolsa de Valores de Nova York, nem acredito em investir num sistema com o qual não concordo).

5. Acreditava que o conceito do dinheiro que gera dinheiro criara uma classe gananciosa, preguiçosa, que nada produzia, só miséria e medo para a massa do povo. Eles inventaram meios de comprar empresas e então encerrá-las. Conceberam esquemas para jogar com fundos de pensão do povo como se fosse dinheiro deles próprios. Exigiram que as empresas se mantivessem a registar lucros (o que era cumprido através do despedimento de milhares de trabalhadores e a eliminação de benefícios de saúde para os que permaneciam empregados). Decidi que se ia ‘ganhar a vida’, isso seria feito com o meu próprio trabalho, meu próprio suor, minhas ideias e minha criatividade. Eu produziria algo tangível, algo que outros pudessem possuir ou entreter-se ou aprender alguma coisa. Meu trabalho, sim, criaria empregos, bons empregos com salários de classe média e todos os benefícios de saúde.

Continuei a fazer filmes, a produzir séries de TV e escrever livros. Nunca iniciei um projecto a pensar “quanto dinheiro posso ganhar com isso?”. Nunca deixei que o dinheiro fosse a força motivadora para qualquer coisa. Simplesmente fiz exactamente o que queria fazer. Essa atitude mantém o trabalho honesto e firme – e, ao mesmo tempo, acredito que tenha resultado em milhões de pessoas a comprarem bilhetes para estes filmes, a sintonizarem meu programas de TV e a comprarem meus livros.

Isso é exactamente o que leva a direita à loucura em relação a mim. Como é que alguém da esquerda consiga uma audiência tão vasta?! Isto não pode acontecer (Noam Chomsky, infelizmente, não é registado The View de hoje e Howard Zinn, de modo chocante, só chegou à lista dos mais vendidos do New York Times, depois de morto). Eis como a máquina dos media está armada. Não se pode ouvir aqueles que mudariam o completamente o sistema para algo muito melhor. Só liberais tolos, que pressionam por cautela, compromissos e reformas suaves conseguem dizer algo nas páginas editoriais dos jornais ou nas entrevistas de TV nas manhãs de domingo.

De certa forma, encontrei uma brecha na muralha e meti-me por ela. Sinto-me muito feliz por ter esta vida – e não tomo nada como garantido. Acredito nas lições que aprendi na escola católica – que se você acabar por sair-se bem, tem uma responsabilidade ainda maior para com aqueles que não têm a mesma sorte. “Os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos”. Uma espécie de comuna, eu sei, mas a ideia era que a família humana devia partilhar as riquezas da terra de um modo justo a fim de que os filhos de Deus tivessem uma vida com menos sofrimento.

Sai-me bem – e para autor de documentários, sai-me extremamente bem. Isso, também, leva os conservadores ficarem desvairados. “Você está rico por causa do capitalismo!” – gritam par mim. Hummm… Não. Não assistiram aulas elementares de Economia? O capitalismo é um sistema, um esquema piramidal de pouco valor, que explora a vasta maioria de modo a que os poucos no topo possam enriquecer-se mais. Ganhei meu dinheiro à moda antiga, de modo honesto fabricando coisas. Nuns anos ganho uma montanha de dinheiro. Noutros anos, como no ano passado, não tenho trabalho (nenhum filme,nenhum de livro) e então ganho muito menos. “Como é que você afirmar estar a favor dos pobres, quando é o oposto de pobre?!” É como perguntar: “Você nunca fez sexo com outro homem! Como pode ser a favor do casamento gay?!” Penso tal como aquele Congresso só de homens que votou pelo direito de voto para as mulheres, ou o grande número de pessoas brancas que marcharam junto com Martin Luther King (quase posso ouvir esses direitistas a berrarem ao longo de toda a história: “Hei! Você não é negro! Você não está a ser linchado! Por que é que está com os negros?!). É precisamente esta desconexão que impede os republicanos de entender porque alguém dedicaria seu tempo ou dinheiro para ajudar aqueles menos afortunados. Isso é simplesmente algo que os seus cérebros não podem processar. “Kanye West ganha milhões! O que é que ele está a fazer no Occupy Wall Street?!” Exactamente – ele está ali a exigir que os seus impostos sejam aumentados. Isso, para um tipo da extrema-direita, é a definição da insânia. Todos os demais ficam gratos por pessoas como ele posicionarem-se, mesmo se e especialmente porque isso é contra os seus próprios interesses financeiros pessoais. É especificamente aquilo que a Bíblia, que os conservadores tanto alardeiam, exige daqueles que estão bem.

Naquele dia distante de Novembro de 1989 em que vendi o meu primeiro filme, um grande amigo meu disse- me: “Ele cometeram um erro enorme ao darem a um grande cheque a alguém como você. Isso o tornará um homem perigoso. E prova aquele velho ditado: ‘O capitalista lhe venderá a corda para enforcá-lo se pensas que pode ganhar com isso”.

Atentamente,
Michael Moore
MMFlint@MichaelMoore.com

OWS, capitalismo e democracia

Por Luiz Gonzaga Belluzzo / Valor Econômico

 

Os moradores de Flitch, no estado do Michigan, (EUA) perderam o emprego na fábrica de autopeças fechada sob a pressão da concorrência chinesa. Indagado sobre o destino dos desempregados, o economista Gregory Mankiw respondeu candidamente: “As pessoas têm que se mover”. Afirmou isso depois de ter proclamado a necessidade de um curso de economia no ensino médio para que o público em geral possa ter uma visão mais acurada da globalização.

O economista de Harvard, Richard Freeman, diz, em artigo recente, que a velha conversa sobre os benefícios do comércio – na situação em que os países avançados produzem bens de alta tecnologia com trabalho qualificado enquanto os menos desenvolvidos se dedicam aos setores de mão de obra não qualificada – “tornou-se obsoleta com a presença da China e da Índia”. Nos anos 90, Paul Krugman, o economista laureado com o Nobel, patrocinou uma cruzada ideológica contra os movimentos antiglobalização que profligavam a perda dos bons empregos americanos para os trabalhadores produtivistas da Ásia. Já em meados da primeira década do terceiro milênio, Krugman foi obrigado a reconsiderar seus pontos de vista. Indagado sobre as razões da mudança, Krugman respondeu: o avanço da China.

Os fenômenos centrais da economia de nosso tempo são o acirramento da concorrência entre as grandes empresas internacionais, a escalada da financeirização e as rápidas mudanças na geoeconomia mundial. As posições relativas de países, continentes e classes sociais sofreram alterações tão radicais quanto perturbadoras. Alguém designou esses deslocamentos tectônicos como “desenvolvimento desigual e combinado”.

Lógica da economia destravada restringe espaço democrático e impede cidadãos de decidir sobre seu futuro

Nas regiões ditas desenvolvidas, já no crepúsculo dos anos 90, era possível ouvir os clamores das manifestações antiglobalização. A toarda subiu muitos decibéis na posteridade da crise iniciada em 2008. Ontem, as gentes do movimento Ocupe Wall Street (OWS) eram dez gatos pingados. Hoje, os céticos de ontem observam o descontentamento dos “perdedores” se alastrar mundo afora. Agora já são muitos e a mídia global cuida de discernir se os manifestantes carregam o “anti-capitalismo” (sic) nos ossos ou apenas nas mochilas que levam às costas.

Nos círculos bem pensantes há desconforto com o mau humor dos cidadãos que não só rejeitam as consequências da crise, mas, sobretudo, contestam o modelo social e econômico que conduziu o planeta à beira de uma (outra) Grande Depressão. Os 99% sofrem as agruras da estagnação dos rendimentos familiares nos últimos trinta anos, das ocupações precárias, do desemprego de longo prazo, do aumento da pobreza e do desamparo na doença.

No torvelinho do desencontro das palavras de ordem, da diversidade de pontos-de-vista, os participantes dos protestos revelam uma percepção comum: a liberdade e a autonomia dos indivíduos de carne e osso não decorre naturalmente do movimento desembaraçado de mercadorias e de capitais. Os arautos do livre mercado asseguravam que a liberdade humana decorre do impulso natural do homem à troca, ao intercâmbio, à aproximação por meio do comércio etc.

É de lei reconhecer que Adam Smith corretamente chamou a atenção para o caráter libertador da economia mercantil capitalista e para as suas potencialidades. Marx, herdeiro e defensor das postulações do Iluminismo, da Revolução Francesa e admirador do caráter transformador do capitalismo, indagou se as relações de produção e as forças produtivas do novo modo de produção permitiriam, de fato, a realização da Liberdade e da Igualdade.

Entre tantas definições, o capitalismo pode também ser entendido como a coexistência de “duas naturezas”: 1) a enorme capacidade de criar, transformar, dominar a natureza, suscitando desejos, ambições e esperanças; 2) as limitações à sua capacidade de distribuir a renda e a riqueza, de entregar o bem estar e a autonomia individual a todos os encantados com suas promessas. Não se trata de perversidade, mas do seu modo de funcionamento.

Constrangidos pela concorrência e liberados das travas da regulação pública, os detentores de riqueza, não escapam dos estados de euforia e de apetite pelo risco que, culminam na decepção, na crise e na desvalorização da riqueza. Quando sobrevém o colapso da confiança, os indivíduos racionais e calculadores são açoitados pela “busca desesperada da riqueza líquida”.

A volúpia coletiva pela busca do dinheiro, a forma geral da riqueza, termina por destruir, em seu movimento maníaco, não só as suas formas particulares como também as condições de vida dos indivíduos atropelados pelo estouro da manada. Os mercados e seus agentes, diga-se, não estão certos nem errados. Estão simplesmente obrigados a tomar decisões que, em seu imaginário peculiar, são as apropriadas para proteger ou acrescentar o valor de sua riqueza. Na verdade, eles são “pensados” por uma lógica que não controlam.

Nesse ambiente darwinista, são cada vez mais frequentes as arengas dos economistas, sacerdotes da religião dos mercados, contra as tentativas dos simples cidadãos e cidadãs de barrar a marcha do Moloch insaciável e ávido por expandir o seu poder. A gritaria dos sábios das finanças é desferida contra os “desvios” da política, contra os surtos de “populismo”.

Os que protestam nas ruas do mundo sabem que as novas formas financeiras contribuíram para aumentar o poder das grandes corporações. As fusões e aquisições suscitaram um maior controle dos mercados e promoveram campanhas contra os direitos sociais e econômicos, considerados um obstáculo à operação das leis da concorrência.

A lógica da economia destravada restringe o espaço democrático e impede que os cidadãos, no exercício da política tenham capacidade de decidir sobre a própria vida.

Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp e escreve mensalmente às terças-feiras.

Dar direção aos movimentos

Adriano Benayon*

Crescem os protestos contra as intoleráveis injustiças sofridas pelos povos em grande parte deste mundo. Na Espanha, na Itália, na Grécia e em Portugal surgem grandes manifestações, desencadeadas pelo brutal aumento dos sacrifícios exigidos dos já sacrificados, pelo Fundo Monetário Internacional e pelo Banco Central Europeu, a fim de beneficiar bancos europeus e estadunidenses.

Experiência semelhante foi suportada, muitas vezes, por países latino-americanos. Entre eles o Brasil, que está menos distante do que imagina de mais uma crise nas contas externas, acompanhada de agravamento das já degradadas condições de vida da maioria de sua população.

Merecem atenção também as manifestações de resistência civil nos EUA e Reino Unido (Inglaterra), sedes da oligarquia financeira que comanda a tirania mundial. Especialmente, o “Ocupemos Wall Street” aponta para o alvo correto: os grandes bancos internacionais, cujos controladores e associados dominam não só as finanças, mas também o petróleo, os armamentos, a grande mídia, a indústria químico-farmacêutica etc.

Em suma: os concentradores do poder econômico-financeiro exercem absolutismo político cada vez maior, mandando nos governos “democráticos” eleitos pelo dinheiro e pela mídia. Esses não passam de gerentes da “democracia” e do cinismo que dá esse nome à tirania e que chama de liberdade a opressão, e de defesa de direitos humanos o genocídio cometido contra nações com armas de destruição de massa.

Se, em muitos países há alguma consciência da fonte do problema, no Brasil o povo parece anestesiado pelo ópio da TV enganadora. Os governistas pintam tudo de cor de rosa, como se não houvesse razão para manifestações contrárias ao status quo, enquanto oposicionistas, ainda mais submissos ao império, tentam capitalizar o élan dos indignados com a corrupção.

Os promotores das marchas “contra a corrupção” não entendem ou fingem não entender que – embora ela seja praticada por políticos e por muitos do serviço público – a mega-corrupção começa no setor privado, especialmente nas transnacionais sediadas no exterior, grandes beneficiárias das políticas públicas implantadas no País desde 1954.

A partir de então e crescentemente, tornou-se legal. e não identificada como corrupção, a mega-corrupção que entrega o mercado brasileiro à exploração de cartéis e oligopólios e que desnacionalizou o setor produtivo privado, além de privatizar a quase totalidade das empresas e bancos estatais e de pôr o que restou do setor público ao inteiro serviço das grandes empresas, principalmente estrangeiras.

O Brasil só faz figura de potência emergente para quem gosta de se iludir. A pobreza da grande maioria e também o atraso relativo do País resultam do modelo de dependência financeira e tecnológica. Ele não foi implantado por equívoco, mas de caso pensado: foi desenhado para isso, sob a influência e a pressão das potências imperiais que intervieram em 1954, 1961, 1964 e organizaram, entre 1982 e 1988, a pretensa volta ao “regime democrático”

A concentração da economia nas mãos das transnacionais só poderia dar no que deu: recorrentes crises nas contas externas, que geraram a dívida externa. Quando esta e seus juros se avolumaram, a ponto de levar à inadimplência forçada e ao consequente freiamento de sua expansão (final dos anos 70, início dos 80), despontou, em perene crescimento, a dívida pública interna.

Esta constitui enorme fardo, que inviabiliza o desenvolvimento do País, reduzindo a níveis ridículos os investimentos da União Federal e dos Estados. Aquela assumiu as dívidas destes e lhes exige juros tão absurdos como os que ela própria paga ao sistema financeiro.

Formou-se assim o esquema de quádrupla sugação dos brasileiros: a primeira, pagar impostos altíssimos e mal distribuídos: os pobres (mais de 83% da população) entregam mais de 30% do que ganham; os de renda média (menos de 15% da população) têm carga tributária acima de 50%, e as grandes empresas, bancos e outros investidores, além de poder evadir impostos, só são tributados nos ganhos financeiros em, no máximo, 15%.

A segunda sangria é as pessoas gastarem elevadas quantias com serviços que deveriam ser públicos, gratuitos ou módicos, nas áreas de saúde, educação etc., além de sofrerem prejuízos com saneamento e transportes inadequados e com energia injustificadamente cara, devido às privatizações e à falta de investimentos públicos na infra-estrutura que ainda lhe cabe prover.

Os pobres e a classe média são mal atendidas ou nem o são, porque não têm como pagar clínicas, hospitais e escolas privadas, de qualidade, de resto, questionável e favorecidas pelo mercado com que o Estado lhes presenteia ao não proporcionar esses serviços à sociedade.

A terceira sugação são os juros escorchantes, múltiplos da taxa SELIC dos títulos públicos, de longe a mais alta do mundo, com 5,5% aa., corrigida a inflação. Chegam a cerca de 240% aa. no cartão de crédito, 180% no cheque especial e a 90% em empréstimos a pequenas empresas.

A quarta é adquirir bens e serviços a preços muitíssimo mais altos que os praticados em países mais dotados de indústrias intensivas de tecnologia, e mesmo que na Argentina, México e outros latino-americanos.

Exemplo gritante é a indústria automobilística transnacional favorecida com subsídios escandalosos desde o golpe de 1954, aumentados por JK. Isso prossegue, até hoje, com empréstimos do BNDES a juros baixos e n outras benesses prestadas às transnacionais em geral.

De fato, elas se cevam também com incríveis subsídios à exportação, desde o final dos anos 60 (Delfim Neto), – isentadas de gravames em suas superfaturadas importações – bem como com a isenção do ICMS na exportação, presenteada pela Lei Kandir/Collor. Cresceram no Brasil com capital formado no próprio mercado brasileiro e com dinheiro público.

Este ano, em oito meses, só as montadoras de veículos transferiram ao exterior mais de US$ 4 bilhões em lucros registrados, o que não inclui os ganhos com o subfaturamento de exportações e o superfaturamento de importações, nem os serviços superfaturados ou fictícios pagos às matrizes.

Agora, e mais uma vez, as montadoras estrangeiras foram agraciadas com proteção à “indústria nacional”, mediante elevações do IPI para veículos importados, alegadamente para evitar a “invasão” de carros chineses e coreanos. As montadoras aqui instaladas estão livres do IPI majorado, utilizando 65% de componentes produzidos no MERCOSUL. A reserva de mercado, que não existe para a indústria nacional, mesmo porque acabaram com ela, tornou-se política governamental para favorecer os “investimentos diretos estrangeiros – IDES”.

Os IDEs estão na raiz dos problemas, inclusive o da dívida interna, cujos juros são a expressão maior da submissão do País à escravização financeira, em nível injustificável conforme os parâmetros que balizam as taxas em todo o mundo. Por isso, a dívida adveio da capitalização de juros, estando os bancos e os aplicadores financeiros entre os grandes beneficiários do modelo econômico e político que inviabiliza o Brasil como nação.

Para concluir: sem liderança capaz de compreender as grandes sugações e de identificar os causadores delas, não há como fazer que qualquer movimento popular leve às transformações que se impõem, por mais que ganhe ímpeto em função das insuportáveis condições de vida do povo.

* Adriano Benayon é Doutor em Economia e autor de “Globalização versus Desenvolvimento” abenayon.df@gmail.com

Terras públicas: por que cedê-las?

É legítimo a Cidade do Rio ceder terras públicas à empresa privada internacional?
Em que condições?
Encontra-se em processo de votação na Câmara de Vereadores o projeto de lei 1110/2011, no qual o Executivo pede autorização ao Legislativo para dar em concessão real de uso, à General Electric do Brasil Ltda,uma área de 5 hectares de terras públicas (cerca de 50 milm2), na Ilha do Fundão, na Cidade Universitária, pelo período de 50 anos, prorrogável por mais 50: ou seja, um século !
Sendo um direito real, equivale, em todos os seus efeitos jurídicos, a um título de propriedade da área.
Esta concessão de terras públicas, que hoje pertencem à União, e estão sendo negociadas pelo Município sem qualquer informação de seus custos, faz parte de um pacote de benefícios, nos quais se incluem também isenções fiscais àquela empresa para que ela instale ali um Centro Tecnológico, e de Treinamento, de acordo com um Termo de Compromisso que teria sido firmado entre o Executivo municipal e aquela empresa americana de capital limitado.
Temos, no Brasil, uma lamentável tradição em termos de benefícios fiscais e fundiários; e há fartos estudos sobre a facilidade de como eles são concedidos, e a dificuldade de fiscalizá-los, posteriormente.

O recente caso da Companhia Siderúrgica do Atlantico (CSA) comprova isto: isenções e poluição, tudo devidamente aprovado no legislativo.

A questão é, sobretudo, a forma de como é feita a conta de custos públicos e dos benefícios coletivos.
Mais uma vez, a conta não é encaminhada à Câmara de Vereadores para deliberação e, infelizmente, apesar de ter sido objeto dos debates, apenas quatro vereadores votaram, ontem, em 1ª votação, contra o projeto (eu inclusa, evidentemente), por absoluta falta de informações.
A questão não é não dar, mas como dar: e isto faz toda a diferença!
Senão vejamos:
- No projeto, singelo, não está esclarecido nenhum tipo de encargo que a empresa terá por tamanhos benefícios, pois o Executivo Municipal nem se deu ao trabalho de encaminhar à Câmara o Termo de Compromisso que assinou com a empresa.
- Não há nenhum esclarecimento sobre o valor desta propriedade fundiária que está sendo dada  – uma fazenda no centro do Rio: quanto vale o terreno, e quanto vale esta concessão de direitos fundiários de terras públicas à empresa internacional, por cinquenta anos, e + cinquenta. Gratuito?  Há encargos?  Há remuneração?  Quais os compromissos em termos de benefícios públicos?
- Como será a instalação do Centro Tecnológico, quais os custos, quais os compromissos de passagem de tecnologia e registros de patentes no Brasil, para que possamos garantir o domínio tecnológico, e por isso justificar, minimamente, tamanhos benefícios fundiários públicos?
- Como e por que foi escolhida esta empresa?  Foi feita uma oferta pública para outras empresas, inclusive nacionais?
- Como ela se encaixa no projeto tecnológico do Campus Universitário do Fundão e da UFRJ?  Quem foi ouvido?
- Quais os estudos técnicos de custos públicos x benefícios sociais para tamanha gratuidade?
Estas são perguntas elementares, que deveriam ser parte de uma preocupação mínima antes de autorizar gratuidades públicas, que se repetem há séculos, em uma cultura de submissão que acredita que, se o poder público não der a alma, as terras, o grande investidor estrangeiro não investirá no País, ou na Cidade. 
Se a Cidade é tão boa, por que não investiria?
Duro é ver que a dita “base” de esquerda, e a do “povo”, na Câmara de Vereadores, ainda acredita neste discurso patrimonialista e neocolonial !

Confira, abaixo, quem votou a favor e quem votou contra o projeto:



Votaram SIM: Vereadores Adilson Pires, Alexandre Cerruti, Aloísio Freitas, Argemiro Pimentel, Carlinhos Mecânico, Carlos Bolsonaro, Dr. Eduardo Moura, Dr. Jairinho, Dr. João Ricardo, Dr. Jorge Manaia, Elton Babú, Israel Atleta, Ivanir de Mello, João Mendes de Jesus, Jorge Braz, Jorge Pereira, José Everaldo, Leonel Brizola Neto, Marcelo Arar, Márcia Teixeira, Patrícia Amorim, Paulo Messina, Renato Moura, Roberto Monteiro, Rubens Andrade, S. Ferraz, Tânia Bastos e Tio Carlos (vinte e oito)

Votaram NÃO: Vereadores Eliomar Coelho, Paulo Pinheiro, Sonia Rabello e Teresa Bergher (quatro). 

Crise do capitalismo provoca retorno às origens da democracia

Eduardo Febbro – Correspondente da Carta Maior em Paris

Há dez anos, Bin Laden e seu sócio carnal, o ex-presidente norteamericano George Bush, globalizaram o terrorismo de massa e a repressão em escala mundial. O Plano Condor em escala universal. Exatamente uma década depois, o movimento dos indignados globalizou o protesto social e a rejeição de um modelo de depredação social, de abuso e de consumo cujo controle está reservado a uma elite violenta e impune. Os protestos que levaram para as ruas dezenas de milhares de pessoas no mundo vem dar corpo a uma corrente moral e política cujos precursores levam anos propondo modelos alternativos ao sistema de destruição neoliberal.

Se Sthéphane Hessel e seu livro “Indigne-se” conseguiu congregar um planeta indignado, há autores cujos ensaios já continham muitas das consignas que agora são escutadas nas ruas do mundo. O economista francês Thomas Coutrot é um deles. Em 2005 publicou um livro que está no coração da crítica formuladas pelos indignados: “Democracia contra capitalismo”. Em 2010 saiu outra obra que representa muito bem a essência do que os indignados reclamam em Paris, Londres, Nova York, São Paulo, Tel Aviv ou Berlim: “Terrenos para um mundo possível: voltar a dar raízes à democracia”.

Economista e estatístico, vice-presidente da ong ATTAC desde 2009, membro da Rede de alerta sobre as desigualdades, Thomas Coutrot resgata um fato central na emergência desta revolta globalizada: ante o esgotamento do modelo capitalista e neoliberal e o descrédito dos dirigentes políticos, os povos saem à rua e encarnam uma espécie de retorno à raiz da democracia. Para Coutrot, a sublevação do mundo ocidental não seria possível sem as revoluções árabes que as precederam.

Para você, o movimento dos indignados significa um retorno às fontes da democracia. No entanto, até agora, os responsáveis políticos do planeta, ou seja, aqueles que foram eleitos mediante processos democráticos, fazem ouvidos surdos às reivindicações deste movimento mundial.

O retorno às fontes da democracia significa a intervenção do povo. É então quase normal que os dirigentes políticos se façam de surdos porque não estão de acordo com isso. Eles consideram que são os representantes do povo e que, por conseguinte, corresponde a eles conduzir os assuntos do povo. De fato, os dirigentes políticos não querem ver que no movimento atual há uma crítica fundamental contra o sistema tal como ele funciona hoje. Será necessário muito tempo e muito trabalho para que a classe política aceite ver que seu papel está sendo questionado. Por isso, o essencial de tudo isso não está tanto na crítica ao sistema financeiro.

Isso não é novo. A novidade está precisamente na crítica radical da representação política, esse grito mundial que diz: “vocês não nos representam”. As pessoas estão dizendo: não é porque votamos em vocês que vão fazer o que bem entendem entre duas eleições contra a nossa opinião. Essa é a inovação fundamental. A reclamação de um retorno às fontes da democracia, à democracia real, é algo histórico.

Muitos analistas criticam os indignados pelo fato de carecerem de lideranças visíveis e de uma estrutura vertical. Esse argumento aposta em um esgotamento do movimento. No entanto, essa não é a sua análise.

Não, de modo algum. É preciso ver esse movimento desde uma perspectiva histórica. Estamos recém no começo de uma crise muito profunda, uma crise que é do sistema capitalista e, mais fundamentalmente, do modo de civilização e do chamado capitalismo planetário. Esse capitalismo planetário está em uma fase terminal e o movimento dos indignados, que tem ressonância mundial, é um dos primeiros sinais que a sociedade está emitindo. As sociedades humanas estão trabalhando, criando alternativas para um modelo democrático que está esgotado. Não se trata então de um movimento conjuntural que vai se apagar rapidamente, ou que se acalmará com a próxima reativação econômica. É preciso vê-lo em uma perspectiva mais ampla, ou seja, face aos próximos dez anos.

Isso equivale a dizer que a reprovação atual vai mais além do conforto, mais além de um hipotético crescimento recuperado ou da recuperação da atividade econômica.

Sim, certamente. Vemos muito bem que o que está sendo questionado é muito mais fundamental que a dominação das finanças e da classe política. O que está em questão é um modelo de desenvolvimento baseado no enriquecimento permanente e no crescimento constante, independentemente de toda finalidade humana. Por isso creio que esse movimento, que explode em plena crise do modelo democrático, está chamado a amadurecer nos próximos anos.

O que vemos hoje é, de fato, a explosão de todo um conjunto de ideias e iniciativas que já estavam postuladas há algum tempo, tanto no chamado Terceiro Mundo, nos países emergentes, nas comunidades indígenas. Esses discursos, que existem há pelo menos três ou quatro décadas, eram minoritários. Hoje são globais e penetraram as democracias ocidentais.

Sim. No interior do movimento altermundista já se via a emergência destes componentes, assim como a crítica radical do modelo de desenvolvimento, não só capitalista, mas também ocidental. Esse modelo se caracteriza por estar baseado unicamente no bem estar material, independentemente dos valores e da solidariedade. Hoje, esse movimento conseguiu desenvolver suas críticas no próprio coração da Europa.

Na sua avaliação, o sistema capitalista não chegou já ao ápice de sua própria barbárie social?

Não creio que tenha chegado ao final. Penso que ainda temos um período a percorrer e que ainda veremos desdobramentos terríveis. A crise econômica e social não terminou. Ainda não chegamos ao final da barbárie social. Temo que o que vem por aí será muito feio com, por exemplo, o desencadeamento dos nacionalismos e a ruptura entre as nações. Já vemos hoje o crescimento das tensões dentro da própria Europa, entre Estados Unidos e Europa, entre China e EUA. As rivalidades se agudizam. As elites tentarão prolongar sua dominação, buscarão legitimá-la recorrendo como sempre a um inimigo externo, o nacionalismo. No entanto, a emergência de um movimento mundial como o dos indignados é um sinal de que não devemos esperar necessariamente pelo pior. A ação da sociedade civil pode ser um muro de contenção.

Estamos em uma corrida mundial entre soluções autoritárias, que implicam a xenofobia e o fechamento em si mesmo, e, de outro lado, vemos a afirmação de uma sociedade civil internacional em torno dos valores da democracia. O curioso é que estes valores são os valores oficiais das elites. Daí o fato de o movimento dos indignados ser, ao mesmo tempo, poderoso e perigoso para as elites porque repousa sobre a ideologia oficial das elites. Mas essas elites se tornaram incapazes de preservar esses valores.

É um paradoxo: faz-se uma espécie de revolução em nome dos valores da elite dominante.

Sim, esse é o grande paradoxo desta crise e deste movimento que defende os valores supremos da sociedade. As elites que se proclamam democráticas estão renunciando à democracia para preservar sua dominação.

Muitos indignados reconhecem a influência determinante que tiveram as revoluções árabes na posterior revolta ocidental. A cronologia demonstra efetivamente que houve uma correlação entre ambos os acontecimentos. Os indignados de Paris, Roma, Madri ou Londres afirmam que as revoluções árabes mostraram a eles que a palavra “povo” tinha um sentido.

As revoluções árabes foram uma faísca fundamental porque demonstraram que, inclusive as situações mais bloqueadas, que inclusive os regimes menos democráticos onde as elites tinham tudo controlado, podiam desembocar em uma situação revolucionária incrível e inesperada. As revoltas árabes aportaram um alento de esperança, um impulso, uma dinâmica. O mundo se deu conta de que as elites dominavam porque nós permitíamos que dominassem. Fazem o que querem conosco porque deixamos que o façam e, frequentemente, votamos para que o façam. As revoluções árabes foram uma mensagem de esperança e um chamado à sublevação dos povos. Hoje, as pessoas renunciaram à resignação.

Outro paradoxo não menos substancial reside no fato de que a França, o país da Revolução por definição, o país do autor do livro por meio do qual se plasmou o movimento – Indigne-se, de Stéphane Hessel – seja hoje o mais passivo, o menos mobilizado.

Trata-se de um autêntico paradoxo. Há várias razões para explicar isso. Talvez a primeira seja o fracasso do movimento social contra a reforma do sistema de aposentadorias impulsionada pelo presidente Nicolas Sarkozy. Foi um movimento muito profundo e majoritário na sociedade que não conseguiu que o governo recuasse em sua reforma. Isso pesou muito na disponibilidade mental dos cidadãos para empreender outra ação coletiva. Também temos a campanha eleitoral em curso, que polariza muito os debates e leva a que muita gente se diga: vamos nos concentrar em Sarkozy e depois veremos o que faremos.

O último elemento é o fato de que a França não conhece no momento uma situação de austeridade tão brutal como a que ocorre na Grécia, Espanha ou Portugal. As políticas de austeridade na França estão muito abaixo das aplicadas em outros países, incluindo aí Grã Bretanha ou Estados Unidos. Esses fatores explicam por que, no momento, a população não se sente tão agredida como em outros países.

O que causou surpresa mesmo foi o surgimento de um movimento social no berço do liberalismo, os Estados Unidos.

Na verdade, o que chamava a atenção desde a eleição de Obama era o fato de que foram os conservadores do Tea Party que ocuparam as ruas, que conseguiram lançar o único movimento social importante desde o ano 2000. Isso foi mais assombroso ainda na medida em que a crise social é consequência do ultra-liberalismo mais dogmático, mas foram os ultraliberais que acabaram cristalizando um movimento de massa, popular. Agora, o despertar do movimento dos indignados nos EUA mostra que a sociedade civil democrática dos Estados Unidos começa a se organizar, a atuar, a plasmar-se em um movimento de massa e popular.

Em suma, estamos em uma fronteira da história da humanidade. Há, por um lado, um sistema que acumula contradições e excessos imperdoáveis, e, por outro, uma resposta nascente.

Sim, nos encontramos em uma época determinante, em um processo de mudanças ainda incertas. Não só assistimos ao desmoronamento de um sistema de acumulação capitalista, ou seja, o neoliberalismo, como também, e mais profundamente, o desmoronamento da civilização do consumismo. Estamos em uma fase de decomposição que vai durar várias décadas com seus dois processos simultâneos: o desmoronamento da civilização e a busca de alternativas. Nossa civilização atual não oferece mais perspectivas: o crescimento, a acumulação, o controle da natureza, todos esses ideais estão indo a pique e já não oferecem uma possibilidade de sobrevivência à humanidade. Nas próximas décadas nos cabe a tarefa de inventar uma nova maneira de viver juntos.

Tradução: Katarina Peixoto

Fonte: http://cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=18781

Líbia: é o fim ou só o começo?

Sirte, cidade natal de Muammar Kaddafi, sofreu cinco semanas de bombardeios da Otan e de disparos de artilharia de ambos os lados, durante os quais o “fogo amigo” entre rebeldes parece ter feito a maior parte das vítimas entre eles. Sempre em nome de uma resolução da ONU que autorizou a Otan a “proteger civis” por meio de um bloqueio aéreo, logo transformado em intervenção aberta do Ocidente a favor dos insurgentes, quando estes se mostraram incapazes de vencer a luta sozinhos. Isso apesar de a mesma resolução ter proibido o fornecimento de armas a qualquer dos lados.

Grande parte dos sobreviventes estava reduzida a desabrigados famintos entre os escombros – seus líderes religiosos emitiram uma fatwa permitindo-lhes comer cães e gatos, o que normalmente é proibido pelo Islã – quando o Conselho Nacional de Transição (CNT) anunciou sua conquista, às 11 da manhã de 20 de outubro, hora da Líbia (7 da manhã em Brasília, horário de verão). Duas horas depois, às 13h07, o Conselho Militar de Misrata – um comando que apoia o CNT, mas não aceita suas ordens –, disse ter capturado o próprio ditador vivo. Menos de uma hora depois, às 13h53, a Reuters e a Al-Jazira afirmaram que ele estava morto.

Pelas primeiras informações, Kaddafi tinha sido capturado após a última resistência em um “buraco”, pedindo “não atirem”. Depois, foi dito que o acharam em um cano de esgoto, “como uma ratazana” – insulto que ele frequentemente distribuiu aos rebeldes. Disse o CNT que morreu na ambulância, mas suspeita-se de que foi executado após a captura. Um médico que esteve na ambulância que levou o cadáver (contrariando o CNT) contou para a agência AP que ele tinha um tiro no peito e outro na cabeça, enquanto comemorava: “Vocês não podem imaginar minha felicidade, a tirania acabou. Agora o povo líbio pode descansar”.  À noite, o premier do novo governo, Mahmoud Jibril, afirmou que Kaddafi  foi morto após a captura, em fogo cruzado com seus partidáros.

Desde o início da guerra civil, em fevereiro, foram frequentes notícias rapidamente desmentidas – depois de comemoradas com muitos tiros para o ar –, de vitórias rebeldes e captura de -membros da família Kaddafi e outras figuras do antigo regime, de modo que as mídias e agências de notícias mais sérias foram cautelosas. O site do jornal britânicoGuardian, por exemplo, esperou por mais quatro horas – e um pronunciamento oficial do primeiro-ministro britânico, David Cameron, anunciando a morte – para publicar o obituário do ex-líder e mudar o título da notícia de “Kad-dafi está morto, segundo o Conselho Nacional de Transição”, para simplesmente “Kaddafi foi morto e Sirte caiu”. Nesse meio-tempo, foram divulgados vários vídeos  e fotos. Um deles mostrava o ex-ditador capturado e vivo, nos outros, aparece já morto. Em um deles, o cadáver é carregado por rebeldes entre tiros para o ar. Mas mesmo depois disso, sites kaddafistas continuaram a afirmar que os vídeos eram forjados e o líder estava vivo e longe de Sirte.

Os informes sobre o destino de seus filhos e outros integrantes de seu governo foram ainda mais confusos. Dezessete lideranças do regime deposto, segundo o CNT, teriam sido mortas ou capturadas em Sirte. Entre os capturados vivos estariam os filhos Mutassim e Saif al-Islam e o porta-voz Moussa Ibrahim. Informou-se depois que os dois filhos estavam mortos e também que Saif havia fugido. Pormenor importante, pois era o presumível sucessor do pai e poderia tentar continuar- a luta. Às 21 horas locais, enquanto os partidários do novo regime -comemoravam nas ruas de Trípoli, o CNT confirmou oficialmente a morte de Mutassim e surgiram fotos de seu corpo.

Duas horas depois de Cameron, também Barack Obama se pronunciou, com frases que talvez tenham embaraçado até alguns de seus aliados: “Lembramos de todos esses americanos perdidos para as mãos do terror de Kaddafi”, depois de vários anos de reconciliação com seu regime, nos quais a CIA até o ajudou a caçar e torturar dissidentes agora no CNT.

“Vemos a força da liderança americana pelo mundo”, proclamou, dizendo ter posto a Al-Qaeda no “caminho da derrota” (discutível), estar “acabando” a guerra no Iraque (ainda mais duvidoso) e “começado a transição” (catastrófica) no Afeganistão. O honesto, mas indizível, ainda mais em período eleitoral, seria afirmar que vemos a força das bombas e dos aviões estadunidenses pelo mundo, mas mesmo assim ela não é capaz de impor aos acontecimentos os rumos que Washington desejaria, muito menos restaurar sua liderança.

Em 20 de setembro, o ex-presidente afegão Burhanuddin Rabbani, ao negociar com o inimigo em nome do governo protegido pela Otan, foi assassinado em atentado suicida do suposto emissário do -Taleban, denunciado em 2 de outubro, por Cabul e Washington, como um paquistanês -incitado e ajudado pelo serviço secreto de Islamabad, oficialmente tido como aliado.

A Líbia pode ser outro Afeganistão. Os grupos que reconhecem o CNT incluem desde militantes da Al-Qaeda até monarquistas comprometidos com as transnacionais do petróleo, passando por militares e ministros que estiveram com Kad-dafi até a penúltima hora. Como o ex-comandante militar “rebelde” Abdel-Fattah Younis, morto em julho por “companheiros” insurgentes  de orientação fundamentalista. São mínimas as chances de estabilidade, para não falar de democracia: um relatório de 13 de outubro da Anistia Internacional denuncia os abusos da “Nova Líbia” contra supostos kaddafistas, líbios negros e imigrantes africanos.

Assim como Bush júnior na Ásia Central e no Golfo Pérsico, o governo Obama decidiu agarrar a oportunidade de conquistar um satélite e uma base de operações a um custo em tese baixo, desta vez na África, cujos recursos disputa com a China. Isto se articula à criação do Comando Africano no Pentágono, ao envio de tropas dos EUA para apoiar o regime de Uganda – ditadura nada melhor que aquelas que Washington se vangloria de ter ajudado a derrubar – e à ampliação da guerra na Somália com apoio do Quênia. Mas a Líbia já custou mais do que o planejado (oficialmente, 2 bilhões de dólares até agora) e esse envolvimento pode acabar tão catastrófico, inclusive para a economia, quanto o das malfadadas intervenções anteriores. •

 

Antonio Luiz M. C. Costa

Fonte: http://www.patrialatina.com.br/editorias.php?idprog=575afbdca5a101e3088b2b6554398b0c&cod=8771