Arquivos anuais: 2011

As economias emergentes são chave para o salvamento da Europa

O encontro do G20 na semana passada marcou o fim da tentativa de três anos da zona do euro para se salvar. A união monetária vai ser salva, mas não a partir de dentro. Sua sobrevivência virá pelas mãos do Fundo Monetário Internacional e das economias emergentes.

O encontro em si foi embaraçoso para a França em seu próprio território. Apesar dos pedidos do presidente Nicolas Sarkozy por uma cúpula de “Novo Mundo – Novas Ideias”, a reunião foi sobre o velho mundo e velhas disputas. Com a Alemanha, França, Grécia e Itália e outros vizinhos mal falando entre si, o resto do G20 ficou pasmo com as discordâncias intra-europeias.

A confusão da zona do euro explodiu, de uma crise regional contornável em 2009 tornou-se uma crise global hoje. A verdade simples é que a Europa foi incapaz de resolver seus problemas. Por três razões.

A primeira é que concordar em como dividir as perdas é sempre difícil, mas praticamente impossivel em um mundo com 17 estados, bancos poderosos, mais de uma instituição europeia com a mesma função, uma opinião pública ressentida e dúzias de partidos políticos, com alguns dos menores tendo a maior capacidade de barganha.

Como prevê a game theory, a liberdade dos True Finns, dos eslocavos, do Banco Central Europeu, dos bancos credores e de outros tornou quase impossível chegar a um acordo sensato sobre qualquer coisa. Sem números claros e sem um garantidor de último recurso que tenha credibilidade*, os mercados financeiros da Europa são dominados por ondas de pânico auto-realizável.

O segundo é o colapso dos processos técnicos, relacionados à primeira síndrome. A Europa se pendura nas palavras da chanceler Angela Merkel, que são esporádicas e frequentemente divulgadas na véspera das cúpulas da zona do euro. Há pouca preparação técnica em questões altamente técnicas. A política da coalizão alemã predomina. Os próprios alemães falam com vozes múltiplas, inclusive as dos partidos políticos, da chancelaria, do ministério das Finanças, do Bundesbank e do Bundestag. Mesmo a França fica sabendo sobre as mais novas estratégias da Alemanha na véspera dos encontros Merkel-Sarkozy que precedem cada encontro de cúpula.

O terceiro motivo foram os fracassos específicos da Comissão Europeia e do Banco Central Europeu. Há muitas razões para isso, que vão da liderança gasta de Jean-Claude Trichet à impraticabilidade do Tratado de Lisboa, ao desprezo da Alemanha e França por Bruxelas. A chegada de Mario Draghi ao comando do BCE será um tônico parcial.

As fraquezas da Europa ficaram claramente à mostra no encontro de Cannes. O sr. Sarkozy não hesitou em condenar seus colegas grego e italiano. O primeiro-ministro da Itália, Silvio Berlusconi, se afastou ainda mais da realidade. A sra. Merkel, como sempre, disse muito pouco. Os Estados Unidos disseram ainda menos. O decl~inio do poder econômico dos Estados Unidos ficou patente.

O resto do G20 demonstrou o desejo de ajudar, mas não de atirar dinheiro diretamente em tal confusão. Nenhum país declarou interesse em investir num fundo de resgate europeu. A mensagem da China, do Brasil, da Rússia e de outros economias emergentes foi clara: a ajuda externa seria canalizada através do FMI, porque ele é global, tecnocrático e desligado da política europeia do dia-a-dia. Ajuda externa, em resumo, requer condicionalidades.

As próximas semanas são cruciais, durante as quais o FMI, o BCE e a comissão tem a última chance de responder antes de um derretimento da zona do euro. A nova liderança do FMI tem de longe a maior resp0nsabilidade, de primeiro entre iguais, no desenho de um plano amplo. Os políticos europeus e o restou do G20 fariam muito bem se encorajassem a Grécia a trabalhar com o FMI, a Comissão Europeia e o BCE para resolver as questões críticas ainda não resolvidas. O FMI, por sua vez, precisa ser especialmente sábio para desenhar programas socialmente aceitáveis e economicamente realistas.

Primeiro, a Grécia precisa ter o peso do serviço da dívida cortado de forma decisiva e sustentável, com o corte dos juros, do valor de face dos papéis ou de alguma combinação dos dois. A redução da dívida precisa cobrir tanto a dívida pública quanto a dívida privada. O corte deveria ser suficientemente profundo para permitir uma redução gradual e confiável da relação dívida-PIB para níveis gerenciáveis dentro de uma década. Uma estratégia clara precisa tratar do problema dos credores, como os fundos “vulture”, que se negam a participar voluntariamente da reestruturação.

Os bancos gregos (e, de fato, muitos da Europa) precisam urgentemente de liquidez, porque a retirada dos depósitos e créditos dos bancos gregos está destruindo a economia e com isso a capacidade de arrecadar impostos. Garantir a liquidez deve ser mais urgente até que a recapitalização. O BCE precisa finalmente entrar em ação. Se os alemães continuarem a se opor a esta função vital do BCE, o FMI deveria enfatizar a importância do BCE na função de garantidor de último recurso.

Como parte de um ajuste, a Europa precisa de uma infusão de apoio financeiro que virá de fora da zona do euro, canalizada através do FMI. Estamos, portanto, no fim de uma era, não apenas na Europa, mas globalmente. Os poderes econômicos emergentes tem superávits financeiros, crescimento econômico e muito em jogo na estabilidade global. Eles tem os meios para fazer o papel de novas fortalezas do sistema multilateral. Os poderes tradicionais terão de abrir espaço para eles na cabeceira da mesa. Isso deveria acontecer de maneira cooperativa e ordeira, não através de crise ou colapso.

Fonte: http://blogs.ft.com/the-a-list/2011/11/07/emerging-economies-are-key-to-the-eurozones-survival/#ixzz1d2jPf2P6

Brasil 2020: uma potência solidária

Marcelo Salles e Fábio Balestro (*)

O cálculo é da revista The Economist: em 2020 a China deixará os Estados Unidos pra trás e se tornará a maior economia do planeta. Não por outro motivo os teóricos estadunidenses já fazem projeções para os próximos anos, considerando cenários que oscilam entre a cooperação e a competição entre os dois países. As gradações variam de acordo com os analistas e os ângulos considerados.

Nesse sentido, destaca-se um recente comentário de Kurt Campbell, conselheiro da Secretaria de Estado para o Leste Asiático e o Pacífico dos Estados Unidos. “Um dos desafios mais importantes para a política externa dos Estados Unidos é efetivar a transição do foco imediato do Oriente Médio para o longo prazo da Ásia”.

Considerando essa mudança de posicionamento dos Estados Unidos e o conturbado cenário europeu, em que o desemprego e a crise econômica se aprofundam, o melhor que temos a fazer nesse momento é estreitar os laços com os países latino-americanos e ampliar as relações com os africanos.

O Brasil deve, mais do que nunca, aproveitar algumas vantagens conquistadas pelo continente sul-americano, manifestadas com maior clareza nos últimos seis anos: o expressivo crescimento econômico regional, o significativo aumento da inclusão social, as amplas reservas financeiras acumuladas e o portentoso mercado interno que conquistamos. Isso tudo nos garante um razoável respaldo diante das turbulências externas. Em vez de ficar a reboque dos que estão em crise, devemos montar nossa própria agenda positiva nesta década. Esse é o melhor caminho para nos fortalecermos e, num futuro próximo, reunirmos melhores condições para enfrentar os grandes desafios que se avizinham de igual para igual com as potências mundiais.

Para tanto, é fundamental impulsionar as atividades da Unasul – União das Nações Sul-Americanas. Criada com grandes ambições geopolíticas e econômicas, a Unasul se destacou, entre outras ações, quando investigou o massacre em Pando, na Bolívia. A missão, liderada pelo Brasil em 2008, conseguiu reunir provas que tiveram grande importância na condenação e prisão do então governador Leopoldo Fernandéz, que agia em consonância com os interesses da direita separatista e da diplomacia estadunidense.

Ações como essa precisam ser retomadas, já que reforçam o pólo de poder regional e ampliam nossa governabilidade sobre a segurança de Nuestra América. Vale lembrar que são ações cujos contenciosos são resolvidos pela ação diplomática com base nas doutrinas sul-americanas do direito internacional, o respeito à soberania e à não-intervenção em assuntos internos dos Estados. Desse modo, ao passo que valorizamos a institucionalidade regional, afastamos a interferência de potências estrangeiras.

Dando continuidade às iniciativas da política externa e em complementação a ela, o ministro da Defesa, Celso Amorim, vai esta semana ao Peru, quinto país da região que visita desde que assumiu a pasta, em agosto. “Estamos tratando de garantir que haja um ‘cinturão de paz e boa vontade’ em nossa região. Isso requer muita compreensão dos problemas dos nossos vizinhos, sem arrogância ou falsos complexos de superioridade”, disse à Carta Maior.

África – O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva priorizou o fortalecimento das relações comerciais do Brasil com o continente, visitando pelo menos 25 países e duplicando o número de embaixadas em seus dois mandatos.

Graças ao trabalho do então ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, temos hoje 31 representações diplomáticas na África, à frente da Grã-Bretanha, com 26, que por contenção de custos está tendo de fechar embaixadas onde antes era senhora. Estados Unidos (46), Rússia (45) e China (42) seguem à frente do Brasil. Em termos de movimentação financeira, só estamos à frente da Rússia, que anualmente negocia US$ 3,5 bilhões com a região. O Brasil movimenta US$ 20 bilhões, ainda atrás da Índia (US$ 32 bilhões) e muito aquém da líder China (US$ 107 bilhões).

Em termos de cooperação, entretanto, a diferença vai muito além das cifras; enquanto esses países se dedicam ao tema com matizes imperialistas, buscando extrair o máximo do continente, e tratando o impacto sobre sociedades locais como pauta menor, a cooperação brasileira parte de um paradigma de solidariedade e imbui-se do espírito da Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948, que enfatiza em seu preâmbulo o conceito de família humana.

Essa diferença conceitual se verifica na prática absolutamente distinta entre o Brasil e as potências tradicionais quando cooperando com a África.

Ao passo que as segundas inundam o continente com dinheiro repleto de condicionantes, a cooperação brasileira, ao centrar suas ações no desenvolvimento humano, contribui para a autodeterminação e emancipação das sociedades locais, especialmente através do intercâmbio de boas práticas em políticas públicas. Um bom exemplo é a cooperação iniciada pelo presidente Lula, e mantida pela presidenta Dilma, com Guiné-Bissau para a Promoção do Registro Civil de Nascimento.

“Para cada problema africano existe uma solução brasileira”, afirma o pesquisador africano, hoje em Harvard, Calestous Juma. E os africanos reconhecem isso, como registrou Celso Amorim em artigo publicado na revista CartaCapital, com o significativo título “A África tem sede de Brasil”. No entanto, reforça ele, para transformar essa realidade virtual em ato concreto será preciso muita persistência e visão de futuro. “Estou certo [que essas virtudes] continuarão a inspirar o governo Dilma, como inspiraram o de Lula”.

Esse tipo de cooperação fortalece os laços entre o Brasil e os países africanos, produzindo efeitos mais duradouros ao reconstituir e estabelecer vínculos e similaridades não apenas no plano institucional, mas também entre os nossos povos, que um dia foram um só, e ainda hoje permanecem conectados pela influência cultural que exercem mutuamente uns sobre os outros.

O Brasil está no caminho certo, mas precisa aproveitar a atual conjuntura histórica para aprofundar o que vem se convertendo em uma nova hegemonia latinoamericana, baseada nos princípios da cooperação e no respeito à autodeterminação dos povos. Assim passaremos de país emergente a uma grande potência mundial – não uma potência imperialista, como tantas outras, mas de um novo tipo, que apenas o povo brasileiro, em seu singular sincretismo étnico-cultural, na acepção de Darcy Ribeiro, seria capaz de criar: uma Potência Solidária.

(*) Marcelo Salles é jornalista. Fábio Balestro é advogado e especialista no Estudo das Instituições Ocidentais (Universidade de Notre Dame).

Fonte: http://cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=18910

Os dois pólos da acumulação

por Monthly Review
Um sinal da gravidade do actual mal-estar económico é que hoje cada vez mais comentadores do establishment estão a voltar-se para as respostas de Marx. Assim, em 14 de Setembro de 2011, um artigo na Bloomberg Businessweek intitulado “Marx to Market”, reconhecia:

O Homem Barbudo raramente teve tão boa aparência. A actual crise financeira global provocou a ascensão de um novo contingente de improváveis admiradores. Em 2009 o jornal oficial do Vaticano, L’Osservatore Romano, publicou um artigo a louvar o diagnóstico de Marx da desigualdade de rendimento… Em Shangai, o centro turbo-capitalista da China comunista-só-no-nome, multidões afluíram a um musical de 2010 baseado em O Capital, a mais famosa obra de Marx. No Japão, O Capital saiu agora uma versão manga… Por mais equivocado que Marx fosse acerca de muitas coisas… há partes do seus (vastos) escritos que são chocantemente perceptivas. … Marx obteve recentemente uma leitura atenta do mais conhecido economista da Universidade de Nova York, Nouriel Roubini, e de George Magnus, o conselheiro económico sénior do UBS Investment Bank com sede em Londres… Num ensaio de 28 de Agosto para a Bloomberg View, Magnus escreveu que “a economia global de hoje sofre algumas sinistras semelhanças” com o que previu Marx…

Considere os pormenores. Como observa Magnus, a previsão de Marx de que as empresas precisariam cada vez menos produtores quando melhoravam a produtividade, criando um “exército industrial de reserva” dos desempregados cuja existência manteria pressão descendente sobre os salários para os empregados… É difícil argumentar com isso nestes dias… A condição dos trabalhadores de colarinho azul nos EUA ainda está a grande distância do salário de subsistência e da “acumulação de miséria” que Marx conjurou. Mas ainda não é um paraíso, mesmo na América. (http://businessweek.com)

A Bloomber Businessweek parece inconsciente de que Marx encarou o exército de reservas do trabalho como aplicável não só a países desenvolvidos como os Estados Unidos mas também a todo o trabalho do globo. É desta questão do exército global de reservas que trata a Revista do Mês neste número. Não só descobrimos que hoje a maioria da força de trabalho mundial está a viver próximo do nível de subsistência, devido à enorme pressão baixista exercida pelo maciço exército global de reserva de trabalho, limitando salários, como também permanece verdadeiro, como escreveu Marx no Capital, que “Acumulação de riqueza num pólo é, portanto, ao mesmo tempo acumulação de miséria, o tormento do trabalho, escravidão, ignorância, brutalização e segradação moral no pólo oposto, isto é, no lado da classe que produz o seu próprio produto como capital”.

Durante o fim-de-semana de 9-11 de Setembro, Fred Magdoff esteve na Irlanda para participar no evento anual da Desmond Greaves School. Além de uma palestra sobre a crise económica nos Estados Unidos, Fred também participou num painel de discussão no domingo acerca do rumo do capitalismo. Ele encontrou-se com pessoas do movimento trabalhista, vários socialistas e membros do Partido Comunista da Irlanda. Um dos organizadores do evento, em agradecimento a Fred, escreveu o seguinte: “Consideramos [a Monthly Review ] como uma das mais importantes fontes de teoria e análise marxista acerca do capitalismo contemporâneo. Os conceitos de imperialismo, capitalismo monopolista e financiarização não estão generalizados aqui, de modo que a Monthly Review é vital para os nossos esforços de entender o que está a acontecer na economia e na sociedade. Sem estes conceitos e estas análises, é impossível entender a crise ou pensar acerca de para onde estamos indo e o que deveríamos estar a fazer”. Na MR esperamos que esta nova ligação com socialistas irlandeses seja apenas um começo do que será um relacionamento contínuo.

O original encontra-se em http://monthlyreview.org/2011/11/01/november-2011-volume-63-number-6

Infraestrutura dos EUA sofre com polarização política

Infraestrutura do país sofre com a polarização política

Por Edward Luce | Financial Times, de Washington

Um motorista está parado num congestionamento em Washington. Um homem bate à sua janela: “Terroristas invadiram o Congresso e estão pedindo US$ 100 milhões, senão vão queimá-lo com gasolina”, diz o homem. “Estamos indo de carro em carro pedindo doações”. Quanto as pessoas dando em média, pergunta o motorista? “Ah, mais ou menos um litro.”

Embora maliciosa, a piada foi bem recebida quando distribuída para uma lista de e-mails de um círculo restrito em Washington – um grupo de diplomatas aposentados e acadêmicos. É difícil imaginar essa piada antigamente. No clima atual, nenhuma dose de desprezo parece demais para as antes extremamente confiáveis instituições democráticas do país.

No entanto, é difícil argumentar que o Congresso não merece isso (o desprezo, não a imolação). Sua taxa de aprovação caiu para um mínimo recorde de 9%, e isso significa que o apoio agora resume-se aos “parentes consanguíneos e à assessoria imediata”, diz uma piada mais amena. Parece que a cada dia, o primeiro dos poderes dos EUA faz alguma coisa para deixar mais descrente até mesmo os seus mais ferrenhos defensores.

A decisão do Senado, na semana passada, de rejeitar um projeto de lei prevendo modestos US$ 60 bilhões para modernizar a infraestrutura dos EUA, antes mesmo que fosse submetido a debate, pode ter superado até o histórico recente da Câmara. O pacote foi bloqueado por todos os republicanos e dois democratas. Eles se opuseram porque seria financiado por um imposto adicional de 0,7% sobre lucros acima de US$ 1 milhão.

E ponto final. Num momento em que empresas americanas preferem entesourar seu dinheiro, em vez de investi-lo, e quando os juros de longo prazo estão tão baixos que o custo do dinheiro é praticamente zero, o sistema político é incapaz de fazer o que deveria ser óbvio. Até hoje, os EUA nunca enfrentaram uma cisão ideológica em torno de necessidades de infraestrutura: os dois partidos sempre aceitaram a necessidade de modernizar os sistemas de estradas, barragens, pontes, energia e água.

Esqueça Abraham Lincoln e Dwight Eisenhower, os presidentes mais citados como tendo deflagrado ampliações e melhorias de infraestrutura nas ferrovias e rodovias federais, geradoras de aumento no crescimento. Esqueça até o entusiasta apelo de Bill Clinton pela criação de uma “autoestrada da informação”, que ajudou a pavimentar o caminho para a disseminação da internet.

Basta voltar a 2005, quando um Congresso de maioria republicana aprovou a infame Lei Rodoviária, de US$ 280 bilhões, o maior projeto da história dos EUA para o setor de transportes. Apelidado de “Ponte para lugar nenhum”, porque estava recheada de elefantes brancos, inclusive a infame ponte, a um custo de US$ 223 milhões, no Alasca, para ligar uma ilha com 50 habitantes já atendidos por um serviços de balsas, o projeto ganhou apoio quase unânime. Agora, poucos anos depois, aqueles pareçam bons velhos tempos.

Quer você tenha tido seu voo doméstico cancelado, esteja parado numa via expressa em Los Angeles ou se arrastando penosamente na internet para se conectar por meio de seu provedor de banda larga de “alta velocidade”, a infraestrutura americana está caindo rapidamente para um status de segundo mundo. Os EUA gastam apenas 2% de seu PIB em infraestrutura. A União Europeia gasta duas vezes isso, e a China mais de quatro vezes. E isso é perceptível.

Especialistas em aviação há muito queixam-se de que os EUA não está financiando a implementação de um sistema de controle de tráfego aéreo via satélite em substituição ao antiquados radares. A mudança seria boa para o crescimento, reduzindo distâncias de viagens, baixando emissões e melhorando drasticamente a segurança aérea. Na semana passada, Washington descartou propostas visando assegurar verbas adequadas. Assim, os motoristas que dispõem de sistemas GPS permanecerão anos à frente da aeronaves que voam sobre suas cabeças.

Ou, considere a lenta banda larga americana. Segundo a OCDE, os EUA estão em 29º lugar (de 34 países) em velocidade da internet. Alguns países, como França, Japão e Suécia, disponibilizam velocidades médias mais de quatro vezes superiores às dos EUA. A 16 mil kilobits por segundo, até as infelizes pessoas na Grécia – sim, até mesmo os gregos! – têm uma internet mais rápida do que os americanos (14,6 kbits/s). Agradeçamos o fato de os EUA ainda manterem uma pontuação de crédito mais alta.

Tudo isso viria a ser melhorado, com esse projeto de lei. Em vez disso, porém, republicanos arquitetaram uma manobra para evidenciar a alegada falta de patriotismo de seus adversários: apresentaram um projeto de lei para reafirmar que “In God We Trust” (em Deus acreditamos) continua sendo o lema nacional. A iniciativa foi motivada pela incorreta citação, por Barack Obama, no ano passado, de “E pluribus unum” (“de muitos, um”) como lema oficial americano. Em resposta à proposta, aprovada em votação, o presidente disse: “Confio em Deus, mas Deus quer nos ver ajudando a nós mesmos, colocando pessoas de volta ao trabalho”.

No entanto, Obama também tem culpa. Os EUA precisam gastar mais de US$ 2 trilhões nos próximos cinco anos só para manter sua infraestrutura existente. O projeto apresentado na semana passada propunha apenas uma pequena parte disso. Existem maneiras criativas que Obama poderia usar. Um think-tank sugeriu que as empresa americanas fossem beneficiadas uma renúncia tributária sobre seus lucros no exterior se os investissem em “títulos para reconstrução”. Isso poderia ter minorado alguma oposição no Congresso.

Em vez disso, Obama convidou os incautos republicanos a presenteá-lo com um argumento para a sua campanha pela reeleição em 2012, ao fazer com que eles votassem contra um pequeno imposto adicional sobre os milionários. Com isso, privilegiaram a ganância satânica a Deus. Isso pode funcionar, politicamente, porém é má notícia para a competitividade americana. Fazer piada com os republicanos é tedioso – eles próprios já estão se ridicularizando o suficiente. Falar sério sobre o que os EUA precisam fazer é outra conversa. Obama ainda não aprendeu a falar assim.

Faz sentido um partido político socialista?

Roberto Robaina*

O marxismo é um movimento social, político e uma concepção do mundo. Durante muitos anos foi perseguido nas universidades. Nos anos 60 ganhou peso acadêmico em países como a França e retomou novamente alguma influencia na Alemanha, a mesma que tinha visto a emigração para os EUA da última leva de professores marxistas durante a ascensão do nazismo. Com o recuo das lutas sociais dos anos 70, e, sobretudo, depois da queda do muro de Berlim, isto é, o anúncio do colapso do socialismo real, o marxismo passou a ser considerado como totalmente fora do jogo universitário. Este evidentemente é também o quadro do Brasil, onde hoje a defesa do marxismo nas universidades não passa de um movimento de resistência, sendo a base teórica de poucos professores e restrito a poucos cursos. Muitos, aliás, argumentam que Marx é um autor antigo, ultrapassado pelos novos tempos. Não poucos deles, na área da filosofia política, vão beber em autores anteriores a Marx, em Kant, em Hume, em Hobbes…

Agora, a partir da nova crise do capital, a obra de Marx começa novamente a ser lembrada. Mas como sempre Marx é mais comentada do que lido. Neste trabalho apenas resgato um aspecto de seu texto: sua análise da consciência de classes. Quando me refiro à consciência a entendo como um fenômeno biológico, uma faceta especial, uma característica qualitativa especial das funções cerebrais, tal como definia Vigotski, ou, na mesma linha, desta vez seguindo Jonh Searle, como os estados de “conhecimento ou percepção que começam quando acordamos de manhã depois de um sono sem sonhos e continuam durante o dia até que adormeçamos novamente” (página 45 – Mente, Linguagem e Sociedade, Rocco, 2000 – Rio de Janeiro).

 Marx marcou uma definição: as ideias dominantes de dada sociedade são da classe que controla o excedente econômico desta sociedade. O marxismo definiu que os pensamentos das classes dominantes são também, “em todas as épocas, os pensamentos dominantes, ou seja, a classe que tem o poder material dominante numa dada sociedade é também a potência dominante espiritual” (Ideologia Alemã, página 55, Editorial Presença).

O capital, isto é, o trabalho acumulado e apropriado privadamente era, então, segundo Marx, a base do poder dos capitalistas. A partir desta base criaram as leis, as instituições repressivas e ideológicas, crenças, moral, enfim, toda uma complexa superestrutura subjetiva e objetiva, ideológica, política, jurídica, militar, desenvolvida a partir da produção material dominada pelos grupos que controlavam o excedente econômico, com o objetivo principal de manter e reproduzir esta dominação. Ao mesmo tempo, pelas características do modo de produção capitalista, um modo de produção de mercadoria generalizado, pelas leis do seu funcionamento, esta dominação se reforça precisamente porque a exploração da força de trabalho fica oculta, isto é, o mais valor que os trabalhadores produzem em relação ao valor de sua força de trabalho está ocultado e é desconhecido pelos próprios trabalhadores que aceitam naturalmente o regime salarial como o único possível e eterno.

A consciência burguesa também se reproduz, todos os dias, defendida por instituições burguesas e/ou a serviço da burguesia, seja a mídia, a escola, a Igreja, os tribunais, e pela superestrutura burocrática do movimento operário, os partidos reformistas e sindicatos por ela controlados. Ou seja, a falsa consciência de que a sociedade é como é e não mudará, de que o sucesso ou fracasso de cada um depende de seus esforços no trabalho, e de que a produtividade do trabalho e o progresso material da sociedade estão determinados pelo espírito de iniciativa garantido pela propriedade privada dos meios de produção e de troca e pela intervenção das empresas na economia, enfim, esta consciência burguesa se reproduz com a ação cotidiana dos aparatos contrários a ideia da revolução. Tal falsa consciência, portanto, se objetiva em superestruturas e instituições. 

É lógico que Marx não se deteve na análise dos processos de reprodução e defesa da ideologia dominante. Seu trabalho foi mais centrado na elucidação da estrutura econômica da sociedade. E dispensável dizer que Marx não pretendeu nem de longe esgotar a discussão sobre a alienação e a consciência de classes, embora a parte do capital sobre o fetichismo da mercadoria é insuperável como base deste debate. Mas apenas indico esta leitura.

É claro igualmente que a alienação e o domínio ideológicos assumiram determinações mais complexas. O desenvolvimento do capital desenvolveu também formas sofisticadas de dominação cultural. No plano da reprodução ideológica da formação de produção capitalista é preciso que se diga, seguindo as lições de Debord, que o excedente sob a forma de capital, quando atinge alto grau de acumulação, como nos nossos dias, se transforma em imagem, em espetáculo. Nas palavras de Debord. “O espetáculo na sociedade corresponde a uma fabricação concreta da alienação” (Página 24, Editora Contraponto, 2003, Ro de Janeiro). Numa vida social dominada pela mercadoria esta fabricação é desenvolvida ao máximo pela grande mídia e pela força da Televisão, quando as classes dominantes tentam impor que exista apenas aquilo que aparece e tentam fazer aparecer apenas aquilo que querem que exista. Marx não podia nem imaginar tal situação.

Tal tendência foi reforçada no atual período de domínio cultural do pós-modernismo em seus traços mais conservadores. Na leitura das características da consciência no período pós-moderno Harvey (56 – Condição Pós-Moderna) dá sinal verde a uma caracterização segundo o qual há fortes marcas de esquizofrenia na consciência social. Cita Lacan, para o qual na esquizofrenia temos “um agregado de significados distintos e não relacionados entre si”. Perde-se a capacidade de unificar passado, presente e futuro.

Assim a consciência se fragmenta, num mosaico de idéias, impressões, sentimentos, percepções, enquanto o presente, como antes mencionamos, se eterniza, sem balanços do passado e sem projetos coletivos de sociedade como vimos no período modernista, seja no modernismo conservador, fascista, no burguês progressista do iluminismo ou no modernismo socialista. Desta forma, “o caráter imediato dos eventos, o sensacionalismo do espetáculo (político, científico, militar, bem como de diversão) se tornam a matéria de que a consciência é forjada” (página 57 – idem – Harvey)

            Se tudo isso é certo, então, como se desenvolve a consciência de classe das classes oprimidas? Concretamente, como os trabalhadores explorados adquirem consciência de seus interesses próprios?

Vejamos mais de perto como Marx analisa a evolução desta consciência. Na sua obra está posto claramente a importância da experiência das lutas na formação da consciência de classes. No princípio era a ação, disse Goethe. Marx se refere as fases desta luta. Como se expressam estas fases? O livro a “A miséria da Filosofia” antecipa o “Manifesto Comunista”.

A crise chega nos derivativos?

O Federal Reserve (FED, banco central dos EUA) de Nova York proibiu nesta segunda-feira a MF Global de fazer mais negócios com a autoridade monetária e suspendeu as ações da empresa, já que a corretora em crise está perto de um acordo sobre seu futuro. Pelos planos, a holding da MF Global pedirá concordata, e a operadora de derivativos Interactive Brokers comprará os ativos, disseram o Wall Street Journal e o Financial Times.

“O FED de Nova York informou à MF Global que ela foi proibida de realizar novos negócios com o FED de Nova York”, disse o banco central americano. “A suspensão continuará até que a MF Global mostre que é plenamente capaz de cumprir com as responsabilidades estabelecidas na política do FED de Nova York.”

A MF Global, liderada pelo ex-presidente-executivo da Goldman Sachs Jon Corzine, tem lutado contra o tempo desde a semana passada, em que anunciou prejuízo trimestral, suas ações perderam dois terços do valor e seus rating foram reduzidos para a categoria de especulativos.
As ações da companhia foram suspensas antes da abertura dos negócios em Nova York. A Interactive Brokers provavelmente fará uma oferta inicial de compra cerca de US$ 1 bilhão durante um leilão judicial supervisionado, disse o Wall Street Journal. Os clientes da MF Global em Londres disseram que a empresa não estava fazendo novos negócios e que eles estavam fechando as posições.
“Foi muito difícil conseguir nosso dinheiro na sexta-feira, porque eles tinham um monte de chamadas na espera”, disse um operador cuja empresa usava a MF Global como corretora. “A empresa não iniciará nenhuma nova posição. Eles estão tentando fechar posições que já tinham com os clientes”, segundo o operador. A empresa está sofrendo por causa de baixas taxas de juros e com as apostas que fez na dívida soberana europeia, o que possivelmente fez dela a mais proeminente vítima nos EUA da crise da dívida da zona do euro.

A companhia tenta principalmente um acordo, mas todas as opções estão na mesa, já que contratou consultores de reestruturação e de falência, disseram fontes familiarizadas com a situação. O The New York Times informou em sua edição eletrônica que, no domingo, as conversas se reduziram a um interessado, a Interactive Brokers. Ambas as companhias se negaram a comentar o assunto.

Represália dos EUA pela entrada da Palestina na UNESCO: corte de U$ 70 milhões

Represália dos EUA pelo ingresso da Palestina na Unesco: corte de US$ 70 milhões

Ao aceitar a Palestina como membro pleno, a Unesco aceitou o desafio de funcionar com quase um quarto a menos de seu orçamento. Não é a primeira vez que os Estados Unidos chantageiam a Unesco com a retirada de sua contribuição financeira. Entre 1984 e 2003, Washington boicotou a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura para protestar por sua “péssima administração” e pela “ideologia terceiro-mundista”. O artigo é de Eduardo Febbro.

Eduardo Febbro – Correspondente da Carta Maior em Paris

Data: 01/11/2011

Os palestinos deram um passo firme rumo ao reconhecimento pleno de seu Estado, enquanto a primeira potência mundial, os Estados Unidos, colocou o primeiro obstáculo frente à marcha palestina. Reunida em Paris até dez de novembro, a Conferência Geral da Unesco votou pela adesão da Palestina como Estado membro de pleno direito. O ingresso da Palestina à Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura muda radicalmente o regime precedente dos palestinos uma vez que, até segunda-feira, 31 de outubro, a Palestina só tinha um estatuto de missão observadora. A adesão da Palestina como Estado de pleno direito foi aprovada por 107 votos a favor, 14 contra e 52 abstenções.

Os Estados Unidos, que se opuseram à medida, decidiram de imediato suspender seu financiamento à Unesco. Tal medida privará a organização de 22% do seu orçamento, em torno de 70 milhões de dólares. Washington aplicou, sem concessões, duas leis que datam dos anos 90 e que proíbem os Estados Unidos de financiarem qualquer agência das Nações Unidas em que a Palestina seja aceita como Estado pleno enquanto não se chegue a um acordo de paz com Israel.

Mas os já claríssimos interesses da administração norte americana e seu favoritismo para com Israel, não são os da maioria dos países da comunidade internacional. A França, a quase totalidade dos países árabes, os BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul), Argentina e, excetuando o México que se absteve e o Panamá que votou contra, os países de América Latina fecharam fileiras a favor dos palestinos. Os Estados Unidos, a Alemanha e o Canadá se opuseram enquanto a Itália e o Reino Unido se abstiveram. Israel também antecipou que retiraria sua contribuição financeira à Unesco.

O embaixador israelense na organização, Nimrod Barkan, disse que o ingresso da Palestina como Estado era una “tragédia para a Unesco”. Barkan tirou do bolso as já desgastadas ameaças contra os países que apoiaram os palestinos. O embaixador israelense advertiu que isso “debilitará” a capacidade desses países de “influenciar a posição israelense”. Barkan qualificou de “ficção científica” o ingresso dos palestinos na Unesco e ressaltou que este era “um dia triste” porque marcava o momento em que “uma organização decide desconectar-se da realidade”.

A disputa de declarações entre os principais atores do conflito israelense palestino permite medir a distância abismal que existe para se chegar a um acordo de paz. Washington, através de seu embaixador na Unesco, David Killion, avaliou que a iniciativa da Unesco era “prematura” e “contraproducente”. Na direção contrária, o Ministro Palestino de Relações Exteriores, Riyad Al-Malki, declarou que estamos vivendo “um momento histórico que devolve à Palestina parte de seus direitos”. Al-Malki refutou o argumento israelense norte americano que consiste em vincular o novo estatuto da palestina com a paz na região.

A Palestina se converteu no Estado número 195 da UNESCO graças aos estatutos que regem essa organização dependente da ONU. Diferentemente do que acontece no Conselho de Segurança onde cinco países (Estados Unidos, Grã Bretanha, França, Rússia e China) têm direito de veto e podem bloquear, entre outras coisas, a adesão de um novo Estado, na Unesco só se requer dois terços dos votos da Conferência Geral para adquirir o estatuto de Estado de pleno direito. O novo regime permitirá aos palestinos que alguns dos territórios ocupados por Israel, entre eles Belém, Hebrón e Jericó, sejam reconhecidos como Patrimônio Mundial da Humanidade.

Para o presidente da Autoridade Palestina, Mahmud Abbas, trata-se de um êxito diplomático de grande alcance que torna um pouco mais tangível o reconhecimento da Palestina como Estado. No dia 23 de setembro passado, Abbas propôs oficialmente a aceitação da Palestina como Estado membro da ONU. O Conselho de Segurança examinará a solicitação no próximo dia 11 de novembro, mas ela tem poucas possibilidades de ser aceita uma vez que Washington já adiantou que exerceria seu direito de veto.

Por enquanto, a Unesco aceitou em Paris o desafio de funcionar com quase um quarto a menos de seu orçamento. Não é a primeira vez que os Estados Unidos chantageiam a Unesco com a retirada de sua contribuição financeira. Entre 1984 e 2003, Washington boicotou a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura para protestar por sua péssima administração e pela ideologia terceiro-mundista que imperava na Unesco. A Diretora Geral da organização, Irina Bokova, admitiu que de agora em diante terá que “cortar programas e reajustar o equilíbrio do nosso orçamento”.

Entretanto, para a responsável da organização, já não se trata de um “problema financeiro”, mas de um “problema que concerne à universalidade da nossa organização”. Como já se pôde corroborar no conflito israelense palestino e tantos outros dramas que sacodem o mundo, as grandes potências mundiais têm uma visão variável da “universalidade” dos direitos. Estes são “universais” segundo o peso dos interesses e não como valor supremo da humanidade.

Tradução: Libório Junior