Arquivos anuais: 2011

Afinal, o que quer a imprensa?

A maioria dos grandes meios de comunicação da América Latina está em conflito aberto com os presidentes eleitos de muitos países, trazendo à tona o debate sobre deveres, limites e responsabilidades da informação. Em nome de uma suposta liberdade de imprensa, os meios rejeitam qualquer tipo de regulamentação, sempre acusada de censura, e afirmam que já existem os canais de controle da sociedade sobre possíveis erros ou excessos cometidos pelos jornais, revistas e emissoras de rádio e televisão.

Um destes caminhos seria a Justiça comum. Um cidadão, político, artista, jogador de futebol ou o que seja, teria a lei a seu lado para exigir reparações no caso de se sentir ofendido ou injustiçado. A situação não é tão simples assim, já que os danos que uma matéria mal apurada ou mal intencionada podem causar são, muitas vezes, irreparáveis. Ter o seu nome estampado nas páginas como ladrão, corrupto ou assassino é uma mancha difícil de apagar, mesmo que a Justiça venha a estabelecer alguma reparação, geralmente de caráter pecuniário. Os meios de comunicação não costumam se desculpar por seus erros e o que se resolve nos tribunais não merece grande espaço nos noticiários.

O recurso à Justiça foi a opção tomada pelo presidente do Equador, Rafael Correa, contra um artigo do jornalista Emilio Palacio, no jornal El Universo, no qual afirmava que o dirigente máximo do país teria ordenado “fogo à vontade contra um hospital cheio de civis e inocentes” durante a rebelião policial de setembro de 2010, quando o próprio Correa foi mantido por 12 horas como refém no mesmo hospital, cercado pelos revoltosos.

De vítima do que foi considerado tentativa de golpe de Estado e que valeu a Correa a solidariedade de vários presidentes latino-americanos e até de líderes conservadores mundiais, como o francês Nicolas Sarkozy, o presidente do Equador passou a “assassino de lesa humanidade”, que, de acordo com o articulista do El Universo, poderia vir a ser processado por futuros presidentes.

Correa entrou com processo contra o jornal em março deste ano e, em julho, decisão de primeira instância condenou três diretores do jornal e o jornalista Emilio Palacio a três anos de prisão e multa de US$ 40 milhões por injúria. As duas partes recorreram. Os advogados de Correa consideraram a quantia insuficiente, pois o dano causado seria irreparável, já que o editorial ficaria nos anais da história, nas bibliotecas do país e do mundo e permanentemente na internet. Os advogados do jornal pediram nulidade do processo, considerando decisão incompleta por fixar multa mas não a responsabilidade penal da empresa.

Decisão de segunda instância, nesta semana, confirmou a condenação e o caso vai agora à Corte Nacional de Justiça. “Tudo isso foi muito duro mas necessário”, afirmou Correa após a decisão. Seus advogados já tinham afirmado após a primeira decisão que pela primeira vez na história do país tinha sido eliminado o “direito ao insulto” e que qualquer cidadão seria capaz de exigir que sua honra fosse restaurada.

A história poderia ter sido diferente se o jornal tivesse provas de que Correa mandara abrir fogo contra o hospital, o que normalmente se exige do bom jornalismo. Depois, poderia ter sido mais responsável e evitado a publicação do texto diante da gravidade das acusações e da falta de sustentação do que era afirmado. Nada disso foi feito. Os gestores do jornal se eximiram da responsabilidade sobre o artigo e propuseram uma retificação escrita pelo próprio presidente, que a recusou, considerando a proposta um insulto à inteligência.

A decisão judicial pode levar ao fechamento do jornal, com muitos prejuízos envolvidos. Correa anunciou que não pretende ficar com um tostão do dinheiro a ser pago e cogita utilizá-lo para garantir o emprego dos jornalistas que lá trabalham. O radicalismo da situação reflete bem o que acontece em boa parte da América do Sul. A grande imprensa tem ou teve problemas com Correa, com Lula, com Evo e com Chavez, desde que se candidataram à presidência de seus respectivos países.

Os dirigentes da grande mídia costumam atribuir os conflitos a um caráter ditatorial dos presidentes legitimamente eleitos, mas parece muito mais que não aceitam a ascensão ao poder de líderes populares, que buscam acabar com privilégios e reduzir as desigualdades e a pobreza no continente.

Fonte: http://www.diretodaredacao.com/noticia/afinal-o-que-quer-a-imprensa

Execução só é crime para os “outros”?

Nas últimas 24 horas, foram excutadas três pessoas, por sentença judicial

Uma no Irã: um jovem de 17 anos condenado por homicídio . Outra na China: um paquistanês condenado por tráfico de drogas.

Ambos os países merecem, por conta destas execuções, condenações internacionais por atentarem contra os direitos humanos.

A terceira pessoa foi executada nos Estados Unidos.

Troy Davis, um homem negro de 42 anos,  foi condenado à morte em 1991 pelo homicídio do policial Mark Allen Macphail em Savannah, no estado da Geórgia. Sete das nove testemunhas-chave  do julgamento de Davis retiraram ou alteraram o seu testemunho, algumas alegando coerção policial.

As dúvidas fizeram um milhão de americanos, entre eles o ex-presidente Jimmy Carter, e o próprio Papa Bento XVI pedirem a suspensão da excução. Inutilmente: Davis foi executado esta madrugada.

Direitos humanos e valores da civilização, para que se exija seu respeito universal, devem ser, também, universais.

Não podem valer só “contra” os países que destoam do coro ocidental e não valer contra o mais poderoso deles. E ainda mais quando este se arroga o direito de “polícia do mundo” a pretexto de defendê-los.

Fonte: http://www.tijolaco.com/execucao-so-e-crime-para-os-outros/

Uma medida necessária e inadiável

Júlio Gomes de Almeida - Ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda e professor da Unicamp

Publicado no Brasil Econômico:

O contexto de baixa demanda mundial para produtos industriais e o dinamismo do mercado consumidor brasileiro motivaram estratégias agressivas de penetração no país.

Isso ocorreu de forma geral nos mercados industriais e não somente no mercado automobilístico, mas, nesse caso, a agressividade e a velocidade do processo têm sido realmente impressionantes.

Uma pequena ilustração: em 2011 até agosto com relação ao mesmo período de 2010, a demanda interna aumentou em 175 mil veículos.

A absorção desse aumento pelas importações chegou a 78%, ou seja, na margem, o importado passou a atender quase 4/5 do crescimento do consumo interno, ficando a produção nacional com apenas 22%.

Como cabe observar, durante todo o boom automobilístico, entre 2006 e 2010, o produto importado foi responsável por 28,3% do aumento da demanda interna, ficando os restantes 71,7% para o produto nacional.

A penetração por meio de exportações em um determinado mercado assume diversas características. Em se tratando do setor automobilístico, envolve, sobretudo, decisões estratégicas de grandes empresas multinacionais, incluindo as relações entre matrizes e filiais de empresas já instaladas no mercado em questão.

Também envolve a rebaixa de preços e a concessão de financiamentos e garantias generosas para a atração dos consumidores ao produto novo. Quanto maior o dinamismo do mercado em questão, maior o “pedágio” que as empresas estarão dispostas a pagar para desalojar em termos absolutos ou relativos os fornecedores já instalados.

As condições externas e internas da economia brasileira fizeram com que as empresas estrangeiras aceitassem arcar com um custo de entrada elevado. Uma interpretação da medida adotada na semana passada de aumento do IPI para automóveis é que ela encarece as estratégias de penetração no mercado doméstico.

Talvez o acréscimo do imposto em 30 pontos percentuais tenha sido dimensionado precisamente para neutralizar o “dumping” de entrada.

Surtindo o efeito desejado, ela não barrará os planos de penetração no mercado brasileiro, mas irá restringir seu ímpeto. Ou seja, o grande objetivo da medida é dar fôlego aos produtores instalados no país e nos parceiros dos acordos automotivos brasileiros – países do Mercosul e México – diante da invasão de importados.

O objetivo se fazia necessário, mas não tem correspondência com a política industrial. Esta, a nosso ver, deveria estar presente, ou, pelo menos, o governo poderia ter aproveitado o contexto para introduzir ações para elevar a eficiência energética e reduzir as emissões de CO2 e ampliar a segurança dos veículos produzidos no país.

O aumento do IPI sobre automóveis importados suscita o aprofundamento da discussão sobre o futuro da indústria no país, pois, guardadas as devidas proporções e características setoriais, o impasse de competitividade vivido pelo setor automobilístico é o mesmo dos setores em geral da indústria e da agroindústria brasileiras.

Reduzir custos sistêmicos, aumentar a produtividade e reposicionar a valorizada moeda nacional continuam sendo as medidas fundamentais e inadiáveis para o Brasil.

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Júlio Gomes de Almeida é ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda e professor da Unicamp

Belluzzo e o pânico na beira do abismo

Antes de mais nada o professor da Unicamp, intelectual do ano em 2005 (Prêmio Juca Pato), um dos mais argutos analistas do capitalismo, faz questão de ressaltar que o Brasil não vive uma fuga de capitais no sentido clássico. “Isso ocorre quando o alvo é um país com dificuldades pronunciadas, marcado por reputação vulnerável nos mercados. Não é o caso do Brasil, naturalmente, que tem posições muito mais sólidas do que no passado. O que vivemos nesse momento é uma fuga global de capitais em busca de segurança e isso ainda significa dólar e títulos do Tesouro dos EUA. Portanto, isso não tem nada a ver especificamente com o Brasil”, enfatiza o economista que foi professor da Presidenta Dilma Rousseff e hoje constitui um dos seus principais interlocutores, a exemplo do que ocorreu com Lula. ”Mas”, capricha na adversativa, “o Brasil tem a ver com tudo o que acontece no mundo. Estamos sendo atingidos. O dólar bateu em R$ 1,90 hoje e só recuou um pouco com desdobrados esforços do BC”.

Um traço que faz de Belluzzo um interlocutor requisitado é a rara capacidade que tem –exceto quando o assunto é Palmeiras– de ser assertivo e ao mesmo tempo sereno. Mesmo em momentos críticos como agora, ele sinaliza sem alterar a voz : “Esses movimentos de capitais são avassaladores. São massas monstruosas de riquezas que mudam de direção juntas, de uma vez. Para evitar o rastro de destruição a sua passagem é preciso uma intervenção do Estado”.

O que o professor da Unicamp está dizendo carrega certa urgência. Assim como os bancos ganharam muito em operações de carry trade especulando com a valorização do Real, agora vão tentar ganhar no sentido inverso, especulando com a desvalorização cambial. O lado assertivo do economista se expressa sem hesitação: ‘O governo deve proibir essas operações. Os bancos já ganharam muito dinheiro nesse mercado. Essas operações devem ser coibidas”.

Belluzzo compreende a lógica do poder; a força inercial que faz governos preferirem sempre contemporizar a decidir, acomodar a arbitrar. Compreende, mas não sanciona nada parecido na esfera cambial nesse momento tenso e delicado. Os motivos são contundentes.

De 2003 até meados de 2011, o passivo externo do país, ou seja, o estoque de investimentos estrangeiros diretos e fluxos de portfólio (aplicações curtas, voláteis, tipo entra-e-sai) somou mais de US$ 615 bilhões. “Mas o estoque total, adicionando-se o volume anterior a 2003, vai a mais de US$ 1 trilhão”, lembra adicionando gravidade à urgência.

As reservas brasileiras são robustas, da ordem de US$ 350 bi. Mas representam pouco mais que 1/3 dessa massa contagiável pelo tropel da manada, que agora inverteu o rumo em fuga pelo planeta.Não é apenas fuga. Mas também remessas que se avolumam. Na crise de 2008, por exemplo, elas aumentaram em 51% em relaçao a 2007. Agora em 2011, mais de US$ 37 bi foram transferidos em lucros e outras contas. “Getúlio Vargas numa situação similar de fuga global de capitais não teve dúvida: centralizou o câmbio e fez o que tinha que ser feito”, sinaliza Belluzzo ao responder sobre qual deveria ser a atitude do governo brasileiro diante do tropel que já range os assoalhos do mercado cambial.

Não se trata de um rompante. Tampouco de conclusão baseada em um dia de destempero dos mercados globais. Trata-se de um diagnóstico ponderado de um dos mais respeitados economistas brasileiros que não enxerga contrapesos institucionais para deter o ajuste selvagem em curso no cenário mundial.

A gigantesca massa de ativos e passivos financeiros, capitais fictícios proliferados no fastígio neoliberal, congestiona agora saída do baile. Investidores ariscos se amarrotam no declive das bolsas assoalhando o caminho para o abismo recessivo. A desabalada fuga para a liquidez esfarela tudo o que encontra pela frente, valores tangíveis e intangíveis. Os bancos, integrados mundialmente por uma rede de ativos e passivos, formam o entreposto do duelo sangrento entre as carcaças que ficarão pelo caminho e as que sobreviverão. Nessa contabilidade decidem também a sua própria sobrevivência.

“Who’s in charge?”, ironiza Belluzzo ao arguir a ausência de lideranças políticas à altura do colapso em curso no mundo das finanças desreguladas. “Quem é o encarregado?”, repete a pergunta para responder em seguida: ” Não há”. Se a política só produz vácuo, os mercados cuidam de produzir o que sabem. Um ajuste selvagem entre ativos e passivos. Deslocamentos abruptos e maciços de portifólios que esfarelam governos e nações a sua passagem estão na ordem do dia. “O que estão fazendo com a Grécia, por exemplo, é isso,e é de uma perversidade inútil”, desabafa Belluzzo que endossa a receita de Nouriel Roubini para os países falidos, os semi-falidos e aqueles candidatos à falência: uma depreciação contundente de passivos; o alongamento generoso dos prazos; incentivos para que voltem a crescer e possam sanear sua economia.

Os bancos sabem o que os aguarda, confidencia Belluzzo. Os espanhóis, por exemplo, que incluem o poderoso Santander, precificaram em 30% o calote-potencial na Espanha. A Alemanha de Angela Merkel não aceita fazer as contas porque não quer lagar o osso; “não quer devolver um pedaço do muito que ganhou com a União Européia”, critica Belluzzo. Mas os bancos americanos tem US$ 600 bi incrustrados na decadência europeia sabem o que os aguarda. Por isso mesmo Belluzzo não esconde a decepção com a tíbia atuação do governo Obama: “Está aquém do que poderia diante da inquietação de uma opinião pública açoitada por índices de desemprego da ordem de 9% e que não cedem. Até quando vão suportar isso?”, questiona. Obama, na opinião de Belluzzo, teria que acionar uma política fiscal corajosa, sem medo de afrontar a cegueira republicana.” O resto é inócuo”, condena. “Isso que estão fazendo agora, o ‘swing’ anunciado pelo Fed é assustador pela insuficiência e os efeitos colaterais que envolve”, adverte.

Ao anunciar a compra de US$ 400 bi em títulos de longo prazo, trocando-os por papéis de curto prazo, segundo Belluzzo, “os EUA estão estreitando perigosamente o perfil de sua dívida”. Pior que isso. Remam na mesma direção dos mercados. Alimentam a obsessão mórbida pela liquidez. Insuflam a manada em fuga pelo planeta, quando o que mais se necessita nesse momento é de investimentos que reordenem, disciplinem e conduzam os cascos de volta aos currais da produção.

“Será uma crise longa”, conclui o economista, mas sem entregar terreno à desesperança. “Há muito a ser feito” observa. Ele chama a atenção para desequilíbrios que extrapolam a horizonte imediato da crise financeira, mas que estão indissociavelmente ligados a ela, adicionando-lhe uma dimensão geopolítica pouco lembrada na vigília nervosa dos pregões. “O caso da China, por exemplo”, cobra de novo em tom mais assertivo: ”Até quando eles acham que vão poder se dissociar das soluções globais”.

Belluzzo deixa claro nesse comentário que considera a crise atual muito mais grave do que o capítulo da mesma cepa vivido em 2008. “Todas as ferramentas já foram usadas e não funcionaram. Só os tolos podem considerar que a situação agora é melhor”, retruca antes de retomar o caminho da esperança crítica e engajada. “Temos que agir com as forças disponíveis, com os partidos existentes. E, sobretudo”, finaliza, “garantir recursos à formação das novas gerações. É crucial formar cidadãos dotados de capacidade de discernimento democrático. Homens e mulheres preparados para exercer a liberdade humana, não apenas o ofício de especialistas blindados no seu campo. Caso contrário, como estamos vendo nesta crise, continuaremos sendo governados por idiotas sociais”.

Fonte: http://www.cartamaior.com.br/templates/postMostrar.cfm?blog_id=6&post_id=754

O custo intangível do fracasso europeu

Por José Luís Fiori/ Valor

“Se fosse possível hierarquizar sonhos, a criação da União Europeia estaria entre os mais importantes do século XX. Depois de um milênio de guerras contínuas, os estados europeus decidiram abrir mão de suas soberanias nacionais, para criar uma comunidade econômica e política, inclusiva, pacífica, harmoniosa, sem fronteiras, sem discriminações e sem hegemonias. Um verdadeiro milagre, para um continente que se transformou no centro do mundo, graças à sua capacidade de se expandir e dominar os outros povos, de forma quase sempre violenta, e muitas vezes predatória.” JLF: “Os sinos estão dobrando”, Valor, junho de 2008

Os sinais de desagregação são cada vez maiores e frequentes, e já não cabe dúvida que o processo de “unificação europeia” entrou num beco sem saída. É quase certo o calote da dívida grega, e é cada vez mais provável a ruptura da zona do euro, que teria um efeito em cadeia, de grandes proporções, dentro e fora do Velho Continente. Ao mesmo tempo, a vitória da França e da Inglaterra, na Líbia, aumentou a divisão e aprofundou o cisma alemão dentro da Otan. Por outro lado, os governos conservadores europeus estão em queda livre, e sua alternativa social-democrata não tem mais nenhuma identidade ideológica. Os intelectuais batem cabeça e a juventude busca novos caminhos um pouco sem rumo. O próprio ideal da unificação europeia tem cada vez menos força, entre as elites e dentro de sociedades em que se dissemina a violência e a xenofobia. Parece iminente o fracasso europeu.

Em tudo isso, chama a atenção que o avanço da catástrofe anunciada venha sendo acompanhado por uma consciência cada vez mais nítida e consensual a respeito das causas últimas, econômicas e políticas, da própria impotência europeia. Do lado econômico, todos reconhecem a falta de um Tesouro europeu com capacidade unificada de tributar e emitir dívidas, junto com um BC capaz de atuar como emprestador de última instância, em todos os mercados, garantindo a liquidez dos atuais títulos soberanos nacionais que deveriam ser extintos e substituídos por um único título publico unificado, para toda a zona do euro. E quase todos já reconhecem a impossibilidade de uma moeda soberana e de um BC eficaz, sem um estado que lhes dê credibilidade e poder real de ação, em particular nas situações de crise. Uma posição que só poderia ser cumprida, neste momento, pela Alemanha, que não quer ou não pode fazê-lo, ou por um estado central que ninguém aceita..

Do mesmo forma, pelo lado político, o aumento da fragilidade e da fragmentação da Europa, vem sendo atribuído pelos analistas, de forma quase consensual, ao fim da guerra fria e à unificação da Alemanha, junto com o aumento descontrolado da UE e da Otan, que passaram da condição de projetos defensivos, para a condição de instrumentos de conquista territorial e expansão da influencia militar e econômica do ocidente, dentro da Europa do Leste, e já agora, também, na Ásia Central e no Norte da África. O alargamento em todas as direções, da UE e da Otan, aumentou suas desigualdades sociais e nacionais e reduziu o grau de homogeneidade, identidade e solidariedade que existia no início do processo de integração, quando ele era tutelado pelos EUA, e tinha um inimigo comum, a URSS..

Agora, quando os analistas da crise europeia se dedicam a traçar cenários futuros, quase todos calculam o tamanho da desgraça em termos estritamente econômicos, em bilhões e trilhões de euros. E pouco se fala dos custos intangíveis do fracasso europeu no campo das ideias, dos valores e dos grandes sonhos e símbolos que movem a humanidade. Um verdadeiro impacto atômico sobre duas pilastras fundamentais do pensamento moderno: a crença na viabilidade contratual de um governo ou governança mundial; e a aposta na possibilidade cosmopolita, de uma federação ou confederação de repúblicas, pacíficas, harmoniosas, e sem fronteiras ou egoísmos nacionais. Duas ideias europeias que foram concebidas num continente extremamente belicoso e competitivo, mas que foi o grande responsável pela criação e universalização do sistema de estados nacionais modernos e do próprio capitalismo. Agora os europeus estão experimentando na pele a impossibilidade real de suas utopias, ao tentarem construir um governo cosmopolita e contratual a partir de estados nacionais extremamente desiguais, do ponto de vista do poder e da riqueza.

O problema grave e insanável é que a falência do “contratualismo” e do “cosmopolitismo, deixa os europeus sem mais nenhum sonho ou utopia coletiva. Em poucas décadas, no final do século XX, eles enterraram o seu socialismo, e agora, no início do século XXI, estão jogando na lata do lixo, o seu “cosmopolitismo liberal”. E estão deixando o resto do sistema mundial, sem a bússola do seu criador, porque o sistema seguirá em frente, mas o seu “software” europeu está perdendo energia e está se apagando.

José Luís Fiori é professor titular e coordenador do Programa de Pós-Graduação em Economia Política Internacional da UFRJ, e autor do livro “O Poder Global”, da Editora Boitempo, 2007. 

Fonte: http://www.valor.com.br/opiniao/1014068/o-custo-intangivel-do-fracasso-europeu

No Dia Mundial Sem Carros ciclistas promovem passeio

No Dia Mundial sem Carro, ciclistas mudam as paisagens tradicionais de Brasília com um passeio promovido pela Embaixada da Holanda e pela ONG Rodas da Paz em defesa da paz no trânsito. Um dos locais escolhidos pelo denominado Pelotão Laranja (cor oficial da Holanda) para a mobilização em defesa da paz no trânsito foi a Esplanada dos Ministérios.

Elza Fiuza/ABr

Ciclistas DF

Fonte: http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=164613&id_secao=10

A Grécia forçada a abandonar a zona do euro

por Costas Lapavitsas, no jornal britânico Guardian, em 19.09.2011

A Grécia está diante de um desastre econômico e social, como resultado do assim chamado resgate pela troica da União Europeia, Fundo Monetário Internacional e Banco Central Europeu. A Grécia deve mudar de curso para evitar um futuro sombrio para seu povo: deve declarar moratória de sua dívida e sair da zona do euro.

Considerem primeiro a escala da crise. Depois das contrações de 2009 e 2010, o PIB caiu mais 7,3% no segundo semestre de 2011. O desemprego se aproxima de 900 mil pessoas e há projeção de que deve exceder 1,2 milhão de pessoas, numa população de 11 milhões. Estes dados nos fazem lembrar da Grande Depressão dos anos 30.

As causas claramente se encontram no programa econômico da troica. No início de 2010 a Grécia estava de fato falida. Com sua sabedoria, a troica impôs políticas de austeridade severa e desregulamentação consistente com a ideologia neoliberal da União Europeia. Previsivelmente, a demanda desabou e o crédito bancário se tornou escasso, resultando no esmagamento do coração da economia grega.

As implicações sociais são catastróficas. Comunidades inteiras foram devastadas pelo desemprego, com a perda dos meios de sobrevivência e a perda das normas, costumes e respeito trazidos pelo trabalho regular. O escambo é usado pelos pobres e pelos nem tão pobres. Nos serviços médicos em bairros da classe trabalhadora há falta de provisões básicas. Escolas e transporte estão se desintegrando. As pessoas estão abandonando as cidades e retornando à agricultura, um sinal claro de regressão social.

Com o aprofundamento da recessão, o programa da troica fracassou mesmo em atingir suas próprias metas. O déficit do orçamento de 2011 deve chegar aos 10% do PIB, quando a meta era pouco acima de 7%. A proporção dívida-PIB poderá atingir 200% em 2013, quando era de 115% em 2009. Mas a troica se nega a aceitar seu fracasso e no início de setembro chantageou a Grécia: adote novas medidas de austeridade ou não haverá novos empréstimos. O governo cedeu, introduzindo o equivalente a um pesado imposto sobre as propriedades. Um novo encontro com a troica foi marcado para hoje, a partir do qual haveria demissão maciça de servidores públicos, novos cortes de salários e aposentadorias, novo aumento de impostos indiretos e assim por diante.

Estas medidas provavelmente vão fracassar: vão intensificar a recessão e enfrentar oposição política. O governo de George Papandreou está isolado e o partido governista perdeu qualquer capacidade de gerar apoio popular. A oposição oficial, Nova Democracia, tem criticado as políticas da troica, esperando obter ganhos eleitorais. Os partidos da esquerda já pregam desafio aberto às políticas e moratória.

Na prática, a Grécia está à beira da moratória e de abandonar o euro. Esta é a dura realidade, embora nenhum dos principais partidos esteja preparado para admitir. A tragédia é que a Grécia tem agora uma economia muito mais fraca que em 2010. É possível, asim, que haverá grande revolta econômica e social, com resultados imprevisíveis.

Levando em conta o melhor interesse público, o que um governo deveria fazer? O primeiro passo seria a moratória, mas sem deixar o processo nas mãos dos banqueiros, da União Europeia e do Fundo Monetário Internacional, pois temos provas do que isso significaria. Em julho passado a Grécia concordou em trocar a dívida antiga pela nova, o que reduziria seu passivo com os bancos em 21%. Mas a Grécia também precisou dar maciças garantias colaterais aos bancos, com o resultado final de que sua dívida com os bancos pode ter se tornado maior. Ainda assim, muitos bancos não aceitaram o acordo incrivelmente favorável, apostando em vez nisso que a Grécia pagaria a dívida sem desconto.

Se a moratória for para assegurar um profundo cancelamento da dívida, deve ser conduzida pela Grécia e ser coercitiva em relação aos bancos credores. Mas também deve ser democrática, baseada numa auditoria independente para avaliar quanto da dívida pode ser ilegítima. A Grécia tem algumas vantagens neste ponto. A maior parte dos papéis públicos são sujeitos a leis domésticas quanto aos termos do pagamento, leis que podem ser alterados por um ato do Parlamento. Além disso, os empréstimos de resgate feitos pela União Europeia e FMI podem ser declarados ilegítimos por uma auditoria independente. O povo grego poderia, assim, reconquistar parte de sua auto-estima, destruída de forma selvagem durante os últimos anos.

O segundo passo seria a saída da zona do euro, mas de forma que trouxesse benefícios a longo prazo para os trabalhadores, não para os empresários e os bancos.

Contrariamente ao que se diz com frequência, a Grécia não vai entrar em colapso se abandonar o euro. Afinal, as uniões monetárias tem data de validade limitada e a da Europa é particularmente mal estruturada. O abandono do euro é a forma mais sensível para a Grécia restaurar sua competitividade e começar a recuperação. A alternativa é continuar com pacotes de austeridade que não funcionam e que vão levar a um declínio econômico de longo prazo.

Um governo progressista daria vários passos decididos: mudar para uma nova drachma rapidamente; nacionalizar os bancos; e impor controles de capital.

Seriam necessárias medidas administrativas para assegurar fornecimento de petróleo, alimentos e remédios, além de redistribuição de renda e riqueza para ajudar os mais pobres. A recuperação poderia começar em alguns meses, auxiliada pela desvalorização que ajudaria a indústria a aumentar as exportações e recapturar o mercado doméstico. Se as forças progressistas mostrassem determinação suficiente, seria possível, então, transformar a economia profundamente, mudando o equilíbrio do poder em favor dos trabalhadores.

A moratória e saída do euro causariam tumulto internacional. A dívida grega pode não ser suficientemente grande para ameaçar diretamente os bancos europeus, mas a situação dos bancos no mundo é frágil. A ação grega causaria distúrbio nos mercados secundários da dívida soberana, produzindo potencialmente uma grande crise. Mas as autoridades da União Europeia só teriam a si próprias para culpar,  já que as ações delas é que estão empurrando a Grécia para fora da zona do euro.

Tradução Luiz Carlos Azenha