Arquivos anuais: 2011

A América cruel

Jonathan Schell – The Nation

Os debates da campanha presidencial são desenhados para dar aos candidatos uma oportunidade deles se expressarem aos eleitores. Mas as platéias, também, algumas vezes tornam seus pontos de vista conhecidos. Isso aconteceu nos debates republicanos ocorridos entre 7 e 12 de setembro, em dois episódios que foram bastante noticiados. No da NBC, do dia 7, Brian Williams perguntou ao governador do Texas, Rick Perry, se em algum momento durante seu mandato, no qual foram executadas 234 pessoas condenadas à pena de morte (que agora subiu para 235) ele “lutou para conseguir dormir à noite, com a ideia de que algum desses condenados pode ter sido inocente”.

Perry tem dormido bem. O Texas, ele disse, tem um sistema judicial muito “bom”. Então, partiu para um certo tipo de desafio. Disse ele: “se você vier ao nosso estado…e matar…um de seus cidadãos…você será executado”. A plateia aplaudiu entusiasticamente.

Williams, claramente surpreso com a manifestação, seguiu em frente perguntando a Perry o que ele tinha feito para que a sua resposta tivesse levantado aplausos. O governador foi impassível e repetiu o seu desafio: “Nossos cidadãos…tornaram claro o motivo, e eles não querem cometer esses crimes contra os nossos cidadãos, e se você o fizer, enfrentará a justiça final”.

Que esses não eram os únicos sentimentos possíveis em relação a execuções penais tornou-se claro rapidamente depois disso. Um movimento de massas, não apenas nos EUA mas nos países ao redor do mundo, levantaram-se, sem sucesso, contra a execução no Estado da Georgia, de Troy Davis, cuja condenação por assassinato há vinte anos tinha sido posta em dúvida por nova evidência, inclusive a retratação de sete de nove testemunhas. Uma petição assinada por mais de 600 mil pessoas foi apresentada à comissão de execução penal, que deixou a execução seguir adiante.

No debate republicano do dia 12, houve outra expressão pública de entusiasmo pela perda da vida no Texas. Wolf Blitzer, da CNN perguntou ao deputado do Texas, Ron Paul, que militou contra o projeto para a saúde apresentado pelo Presidente Obama, qual seria a resposta médica que ele daria se um jovem que tivesse decidido não contratar um plano de saúde entrasse em coma.

Paul respondeu: “É a isso que a liberdade diz respeito: assumir seus próprios riscos”. Ele parecia estar dizendo que se o jovem morresse isso seria problema dele.

Houve palmas na plateia.

Blitzer pressionou: “Mas deputado, você está dizendo que a sociedade deveria deixá-lo morrer?”. Grita alguém na plateia: “Sim!”. E a multidão segue batendo palmas, em apoio.

Uma das características que esses eventos têm em comum é a crueldade. A crueldade é a prima irmã da injustiça, ainda que seja diferente. A injustiça e seu oposto, a justiça – talvez o padrão mais comumente utilizado para julgar a saúde de um corpo político – são critérios por excelência, e se aplicam acima de tudo a sistemas e suas instituições. A crueldade e seus opostos, gentileza, compaixão e decência, são mais pessoais. São qualidades pessoais que têm, no entanto, consequências políticas. Um senso de decência de um país se situa acima de sua política, fiscalizando e estabelecendo limites frente aos abusos. Uma sociedade injusta deve reformar suas leis e instituições. Uma sociedade cruel deve reformar a si mesma.

Tem havido muitos sinais, recentemente, de que os EUA tem mergulhado fundo num padrão de crueldade. É difícil dizer por que uma coisa dessas está ocorrendo, mas parece que isso tem a ver com uma fé crescente na força como a solução de quase todos os problemas, seja em casa ou fora. O entusiasmo por matar é um sintoma inequívoco de crueldade. Ele também apareceu depois da morte de Osama Bin Laden, que mobilizou uma estrondosa celebração ao redor do país. Uma coisa é acreditar na necessidade infeliz de matar alguém; outra é revelar isso. Isso é especialmente perturbador quando não são apenas os quadros do governo, mas pessoas comuns que se engajam nessas efusões.

Em qualquer involução no sentido da barbárie pode-se estabelecer dois estágios. Primeiro, os demônios são apresentados – testados, se houver. Segundo, vem a reação – seja a indignação e a rejeição ou outra aceitação [da indicação do demônio], até mesmo o prazer com a coisa. A escolha pode indicar a diferença entre um país que está restaurando a decência ou um outro, que está afundando num pesadelo. Foi um dia escuro para os Estado Unidos aquele em que a administração Bush ordenou secretamente a tortura de suspeitos de terrorismo. Nesse dia, a civilização dos EUA caiu num buraco. Mas afundou ainda mais baixo quando, tendo os fatos dos crimes se tornado conhecidos, o ex-presidente Bush e o ex vice-presidente Cheney abraçaram publicamente o mal feito, como o fizeram em sua recente tour de divulgação de seus respectivos livros. À impunidade que já desfrutaram eles acrescentaram a insolência, como se desafiando a sociedade a responder ou a, de outra parte, entrar em cumplicidade tácita com seus abusos.

E ainda assim houve pouca reação. Numa outra afundada no buraco, o Presidente Obama, mesmo tendo ordenado o fim da tortura, decidiu na direção contrária, ao impedir qualquer responsabilização pelas patifarias, e de fato afastou qualquer punição em geral. Ele sequer buscou, digamos, algo equivalente a uma Comissão da Verdade como ocorreu na África do Sul, após o fim do apartheid.

Há muitos outros sinais de que o caminho ladeira abaixo está bem estabelecido. Nossa justiça criminal busca a injustiça. A pena de morte desafia padrões de decência aceitos em qualquer país civilizado. O encarceramento de mais de dois milhões de americanos – a maior proporção per capita no mundo – é um reflexo assustador de um país que parece saber que não há outro remédio para as doenças sociais que não a punição. As condições das prisões são temerosas. Atul Gawande, da The New Yorker, apresentou um quadro vasto e terrível do sistema prisional, com técnicas de isolamento que, muitos acreditam, equivalem à tortura. Os prisioneiros podem ser mantidos em solitárias por anos, em pequenas celas, sem janelas, nas quais permanecem por 23 horas por dia.

Muitos prisioneiros – assim como o senador John McCain, que foi mantido prisioneiro durante a Guerra no Vietnã do Norte – reportaram que tamanho isolamento é mais angustiante e destrutivo do que a tortura física. “Isso quebra o nosso espírito e enfraquece a nossa resistência mais efetivamente do que qualquer outra forma de mau trato”, disse McCain. Em muitos casos, o confinamento solitário leva à desintegração mental. Um artigo no Jornal da Academia Americana de Psiquiatria e Direito diz que “o confinamento da solitária …pode ser tão estressante clinicamente como a tortura física”. A diferença entre uma jaula e uma solitária pode ser maior do que a diferença entre a liberdade e a jaula, mesmo que essa punição possa ser imposta apenas administrativamente, por diretores de presídios.

Em 2010 mais de 25 mil detentos foram mantidos nessas condições.
Um deles – confinado não no sistema de prisão regular, mas em instalações militares – é Bradley Manning, o recruta de 23 anos, suspeito de vazar documentos para o WikiLeaks. Embora prisioneiro modelo, ele foi mantido por anos numa prisão de segurança máxima, enquanto era sujeito ao confinamento de 23 horas, impedido de se exercitar, sob vigilância permanente e, por um tempo, mantido nu. Na época, ele não tinha sido acusado de crime algum.

Gawande estabelece uma conexão entre o abuso dos estadunidenses em casa e a tortura de suspeitos estrangeiros na “guerra contra o terror”. “Com pouca preocupação ou resistência”, escreve, “temos despachado milhares de nossos próprios cidadãos para condições que horrorizariam nossa Suprema Corte há um século. Nossa vontade de nos desfazer desses padrões para os prisioneiros americanos tornou fácil o descarte das Convenções de Genebra proibindo tratamento similar de prisioneiros de guerra estrangeiros”.

Também se pode estabelecer uma conexão entre esses abusos e as atuais diretrizes das decisões orçamentárias, nas quais, como na prontidão para denegar assistência em saúde aos moribundos, uma impiedosa vontade de se desfazer das pessoas em sofrimento de qualquer ajuda que possam receber é evidente. A lista de cortes, alcançados ou propostos na agenda da direita é longa demais para enumerar, mas exemplos recentes, incluindo a assombrosa obstrução de assistência às vítimas do recente furacão Irene e da tempestade Lee, além de outros programas, foram cortados; a oposição a que se amplie o seguro desemprego, a derrota do Dream Act, o qual poderia dar às crianças dos imigrantes um caminho para a cidadania, a oposição ao gasto do estado com o programa de assistência em saúde para as crianças (S-CHIP, na sigla em inglês), assim como do Head Start, e por aí vai. Parece que ninguém é infeliz o suficiente para ser isento ou isenta do corte orçamentário, ao passo que, ao mesmo tempo, ninguém é feliz o suficiente para ser inelegível para ter corte nos impostos. Decisões orçamentárias não envolvem pena de morte, embora para muitos elas sejam questão de vida ou de morte.

A crueldade de uma sociedade não pode ser quantificada mais do que o pode a sua reserva de decência. Nem tampouco pode ser legislada, embora ambas possam estar manifestas na legislação. Por tudo isso, não pode haver dúvidas de que decisões básicas, que antecedem qualquer lei e são provavelmente mais importantes, são silenciosamente tomadas nos corações e mentes de milhões. Se elas seguem um caminho, um movimento de milhões, de repente, aparentemente do nada, aparece para protestar fortemente contra uma execução injusta. Quando vão pelo outro caminho, você acorda um dia para ouvir, com um frio na espinha, uma sala cheia de gente comemorando o assassinato de centenas de seus concidadãos.

Fonte: http://cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=18617

Os que mandam no mundo

Mauro Santayana

As grandes crises econômicas mundiais trazem o desemprego e a miséria, e atingem também os investidores. Houve milionários que, vítimas de sua própria ambição e dos especuladores, chegaram ao suicídio, como na queda vertiginosa da Bolsa de Nova Iorque, em 1929. Mas as grandes crises são “o sonho feito realidade para aqueles que querem fazer dinheiro”, como revelou um corretor de valores de Londres, Alessio Rastani, em entrevista à BBC, que reproduzida pela internet, está surpreendendo o mundo. Ele afirmou também que havia sonhado três anos com uma recessão como a atual. Rastani é auto-identificado pelo seu site na rede mundial como hábil operador, consultor no mercado de capitais, e conferencista que percorre o mundo, a fim de orientar os investidores. Ele declarou à emissora britânica que quem manda no mundo, porque manda nos governos, é o grande banco de investimentos Goldman Sachs.

Rastani não citou diretamente o jornalista francês Marc Roche que, no ano passado, publicou um livro forte, e sobre o qual os grandes meios internacionais de comunicação quase nada dizem, com o título de La Banque: Comment Goldman Sachs dirige le monde (Albin Michel, Paris, 2010). Roche é, há mais de vinte anos, correspondente de Le Monde, na City de Londres, o que lhe possibilita acompanhar os grandes movimentos das finanças internacionais. O livro demonstra que o banco americano conseguiu atuar junto ao governo de grandes países, mediante a infiltração de seus ex-dirigentes, ao mesmo tempo em que cooptou ex-governantes para participar de suas grandes decisões, em operação que, de acordo com o livro de Marc Roche – em entrevista à televisão, o escritor os chamou de imorais- sugere corrupção e suborno em escala global.

Entre outros, Marc Roche cita o atual presidente do Banco Central da Itália, Mario Draghi. Draghi, como representante da Itália, participa do board do Banco Central Europeu, e é cotado para suceder a Trichet, na presidência da instituição. Foi vice-presidente e diretor executivo do Goldman Sachs para a Europa (e também diretor do Banco Mundial). Outro italiano, Mario Monti, é conselheiro atual do Goldman, para assuntos internacionais, e foi comissário da União Européia para o mercado interno e para os assuntos de concorrência. Nesses cargos, Monti defendeu ardorosamente a divisão de todos os serviços públicos em empresas médias e sua privatização.

Em sua tática de recrutamento, Goldman Sachs cooptou também Otmar Issing, ex-diretor do Bundesbank – o Banco Central da Alemanha – e ex-economista chefe do Banco Central Europeu, para o seu conselho diretor. Dirigentes do Goldman ocuparam posições destacadas no governo norte-americano, e ainda ocupam. Robert Rubin, de sua diretoria executiva, foi Secretário do Tesouro de Bill Clinton, de 1995 a 1999; Henry Paulsen, ex-presidente do Goldman, foi nomeado Secretário de Tesouro de George Bush, em 2006. Ainda nos Estados Unidos: o atual Secretário do Tesouro, Tim Geithner, escolheu, como seu chefe de gabinete, Mark Patterson que, durante dez anos, foi o chefe dos lobistas do Goldman Sachs junto ao Congresso dos Estados Unidos.

Até mesmo na África, o Goldman tem os seus tentáculos. Olusengun Aganga, que dirigia o serviço dos hedge funds, foi nomeado ministro de Economia do atual governo da Nigéria. Tito Mboweni, presidente do Banco Central da África do Sul, de 1999 a 2009, foi contratado pelo Goldman como seu conselheiro internacional, em maio do ano passado. Como registra o autor do livro, o Goldman conseguiu manipular os governos, de Mandela a Bush. Um só ato mostra a capacidade de cooptação do Goldman Sachs. Quando Secretário do Tesouro de Bush, seu ex-presidente, Henry Paulsen, decidiu que o Tesouro socorresse com 60 bilhões de dólares a seguradora AIG, falida pelas operações da bolha imobiliária. A primeira dívida da AIG a ser saldada, de 29 bilhões de dólares, foi exatamente com o Goldman Sachs.

Todas essas revelações, não contestadas pelo Goldman Sachs, mostram como atuam as grandes instituições financeiras. Elas só podem assim agir, porque os estados nacionais – hoje chefiados, salvo poucas exceções, por servidores do neoliberalismo – renunciaram à sua responsabilidade essencial, de promover a justiça e impedir o saqueio dos bens comuns pelos criminosos, muitos deles de enganosa respeitabilidade acadêmica, como são os principais dirigentes do Goldman Sachs.

Como estamos no assunto, Wall Street continua cercada pelos “indignados” manifestantes de Nova Iorque, que contam com o apoio de personalidades conhecidas, como Michael Moore, o incômodo cineasta de Farenheit 9/11 e o lingüista Noam Chomsky. É um princípio ainda tênue, mas os movimentos sociais são como os rios: nascem em pequenas fontes e vão crescendo rumo ao mar. No Brasil, é ainda tímida a atuação dos intelectuais – e de todos os cidadãos – junto ao Congresso para uma necessária e rigorosa legislação reguladora do sistema financeiro, o principal beneficiário da política privatizadora do governo Fernando Henrique Cardoso.

E para continuar no assunto: a escultura, intitulada “O dedo de Deus”, de Maurizio Cattelan, irreverente artista italiano – um punho fechado, mostrando o dedo médio levantado, gesto obsceno em quase todos os países do mundo – havia sido retirada da frente da Bolsa de Valores de Milão pela prefeita Letizia Moratti. O novo prefeito da cidade, Giuliano Pisapia, de centro-esquerda, com o apoio dos “indignati” italianos, recolocou-a em seu lugar.

Fonte: http://www.maurosantayana.com/2011/10/os-que-mandam-no-mundo.html

Serra e a reforma política

Depois de ter sido premiado com a presidência do conselho político do PSDB, o ex-governador José Serra resolveu virar cientista político. E especialista em legislação eleitoral. Em um texto publicado há alguns dias na mídia paulista, ele expôs suas ideias sobre alguns pontos polêmicos da reforma política. (De -forma sintomática, apesar de presidir o conselho de seu partido, falou por conta própria.)

A hora é boa: as primeiras propostas de emenda constitucional estão chegando ao plenário do Senado, depois de saírem da comissão especial que José Sarney criou no início da legislatura e passarem pela Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania. Em paralelo, a Comissão de Reforma Política da Câmara, cujo relator é o deputado Henrique Fontana (PT-RS), também está prestes a apresentar seu anteprojeto.

No PT e nos principais partidos que formam a base de sustentação do governo, há muita movimentação. Quem a lidera é o ex-presidente Lula, que tem levado a sério o papel que ele mesmo se atribuiu, de “embaixador da reforma”. Desde a campanha eleitoral de 2010, repete que considera imprescindível promover nem que sejam algumas mudanças nas regras que organizam o -nosso sistema político.

 

Lula tem procurado fazer com que o PT e esses partidos se entendam a respeito de duas questões básicas: o financiamento exclusivamente público das campanhas e a manutenção do voto proporcional, mas com lista fechada, na eleição de deputados e vereadores. Com os partidos médios (PSB, PDT e PCdoB), a concordância parece viável. Com o PMDB, quase impossível.

São as mudanças relevantes que ainda podem ocorrer. Algumas foram descartadas, como a queda da obrigatoriedade do voto e o fim da reeleição no Executivo. Outras devem ser aprovadas sem maior discussão, pois são pouco significativas.

O artigo de Serra tem um título revelador, “O ruim pelo pior”, e é um ataque à proposta de financiamento público, tal como está no anteprojeto do deputado Fontana. Sua tese central é que ele é pior que o modelo vigente, de financiamento misto, mesmo que esse seja admitidamente ruim.

Na crítica à proposta, dois argumentos são usados. O primeiro diz respeito à previsão de que 80% dos recursos do fundo público de campanhas sejam distribuídos aos partidos de forma proporcional aos votos que obtiveram na eleição anterior, deixando 15% para reparte igualitário entre os que elegeram ao menos um deputado e 5% entre todos (mesmo os que não elegeram nenhum).

Parece que Serra considera errado levar em conta o desempenho dos partidos no acesso a um fundo como esse. Mas qual seria a alocação correta? A de um igualitarismo singelo, que faria com que legendas artificiais tivessem os mesmos recursos daquelas representativas?

Todo sistema de financiamento em que há algum tipo de recurso público estabelece a performance passada como critério de acesso. É assim no Brasil, onde o tempo de televisão depende do número de cadeiras conquistadas na Câmara na eleição anterior.

Serra diz que isso “congela a correlação de forças”, impedindo que “eventuais mudanças nas preferências dos eleitores” tenham “reflexos nos recursos disponíveis” na eleição seguinte. Ele mesmo expressa seu temor: “Que a proposta … beneficie diretamente os dois maiores partidos, PT e PMDB”.

 

Ou seja, é contra o financiamento público por conveniência, sem discuti-lo no mérito. Se contribui para a maior transparência na contabilidade dos partidos, se permite maior fiscalização ao explicitar o que cada um tem para gastar, se reduz a pressão por doações escusas, se fortalece os partidos, não importa: o que o preocupa é o risco de que seu partido seja “prejudicado”, recebendo menos dinheiro por ter tido menos votos que outros. (Ele parece não se lembrar que o PSDB perdeu votos, entre 2006 e 2010, na vigência do modelo atual, o que sugere que seu problema não se resolveria mantendo-o).

O segundo argumento é o mais usado pelos que preferem deixar tudo como está. Consiste em dizer que o financiamento público não impediria a arrecadação ilegal, pois os partidos continuariam a realizá-la.

É bem possível, mas isso não justifica considerar melhor o modelo vigente. Ou alguém acha que ele conduz à legalidade?

Não faz sentido a hipótese de que o financiamento público provoque mais problemas, que “empurre os candidatos para a ilegalidade”, como disse Nelson Jobim, citado por Serra. O que faz é reduzi-los, criando uma fonte legítima para os recursos necessários a uma campanha competitiva. Se empurra em alguma direção, é para a legalidade (o que não quer dizer que todos se comportarão da -maneira correta).

O texto termina com uma frase de pura fantasia: “A redução de custos, a transparência, a maior vinculação entre eleitor e eleito e o fortalecimento dos partidos, tudo isso pode ser alcançado… (com) o voto distrital”.

Com certo atraso, parece que Serra resolveu aderir a uma campanha que a direita brasileira faz há algum tempo.

Fonte: http://www.cartacapital.com.br/politica/serra-e-a-reforma-politica

Brasil se arma contra a crise, FHC acha “precipitado”

Governo amplia protecionismo à indústria e vincula crédito do Pronaf  à aquisição de máquinas e equipamentos agrícolas com pelo menos 60% de conteúdo nacional. Medida idêntica, com requisito de 65% de nacionalização, foi tomada em relação ao setor automobilístico. Nessa  mesma direção, a Presidenta Dilma anunciou um pacote de incentivos à indústria  da defesa. Trata-se de usar o poder de compra do Estado para fomentar e manter o nível do investimento na crise. Exigência de conteúdo nacional norteará também o acesso a incentivos fiscais na produção de computadores, tablets, televisores, etc.  Ações refletem a convicção de que é preciso fortalecer o mercado interno ante a perspectiva de longa contração na economia internacional. Ilustra esse diagnóstico o drástico recuo nas cotações das commodities, que em setembro registraram as maiores quedas  desde a crise de 2008. Outro sintoma: o efeito irrelevante da ampliação (acanhada para o tamanho da crise) do Fundo Europeu de resgate financeiro que teve o apoio alemão esta semana. No dia seguinte as Bolsas despencaram. O mundo escorrega para a recessão. Mas o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso saiu a campo, na 5ª feira, segundo o jornal Valor Econômico, para qualificar como ‘ precipitado’ o corte nas taxas de juros no Brasil. Reconheça-se no tucano o mérito da coerência. Em crises mundiais anteriores, na sua gestão, a resposta sempre foi doutrinariamente ortodoxa e pró-cíclica: aumento dos juros, arrocho no salário mínimo, redução do crédito, cortes brutais no gasto público, perda de receita fiscal e salto no endividamento público. Com alguns efeitos colaterais, a saber: quebra do Estado, perda de reservas, colapso da infraestrutura, desemprego e fuga de capitais. A avaliação veio nas urnas em 2002, 2006 e 2010.

Protestos crescem nos EUA, 700 detidos em Nova York

As manifestações de rua crescem a cada dia nos EUA. Os jovens “indignados” estadunidenses denunciam a injeção de dinheiro público para salvar os bancos e a corrupção do sistema financeiro. Neste sábado, mais de 700 manifestantes foram detidos, em Nova York, durante um protesto que bloqueou a ponte do Brooklyn e reuniu cerca de 3 mil manifestantes. Movimento está crescendo e já se estendeu para Washington, São Francisco, Chicago e Boston.
Mais de 700 manifestantes foram detidos neste sábado nos Estados Unidos, durante um protesto que bloqueou a ponte do Brooklyn, em Nova York, na 15ª jornada promovida pelo movimento Ocupar Wall Street, que mantém um acampamento no Zucotti Park, no centro de Manhattan.

A polícia alegou que não prendeu ninguém que se manteve no passeio, mas que os manifestantes foram para a estrada e assim bloquearam a ponte, o que é proibido. Mas os jovens dizem que foi a própria polícia que os conduziu e escoltou para a travessia rodoviária da ponte. Acusam, assim, a polícia de Nova York de tê-los conduzido a uma armadilha.

Os manifestantes levavam à frente um cartaz onde se podia ler “We the People” (Nós, o Povo), as primeiras palavras do preâmbulo da Constituição dos EUA. Quando começaram as prisões, os manifestantes reagiram gritando “O mundo inteiro está a ver”, em alusão ao live streaming pela Internet que estava a decorrer no momento.

Em seguida, sentaram-se no chão e gritaram “Let them go!” diante de todos os jovens, alguns visivelmente menores, que estavam sendo detidos. O protesto foi totalmente pacífico.

Segundo testemunhos citados pelo The New York Times, os detidos foram levados em dez veículos e libertados em seguida. Há denúncias que alguns deles foram agredidos. Todos foram algemados. Cerca de 3 mil pessoas terão participado na manifestação.

As manifestações ganhando cada vez mais peso nos EUA. Os “indignados” norte-americanos, que denunciam a injeção de dinheiro público para salvar os bancos e a corrupção do sistema financeiro, recebem a cada dia apoio público de intelectuais como Noam Chomsky, o documentarista Michael Moore ou a atriz Susan Sarandon. Houve manifestações também em Washington, São Francisco e Chicago. Já há um novo acampamento, desta vez em Boston, no Parque Dewey.

Dilma abre festival europeu de cultura que, este ano, homenageia o Brasil

Brasília – A presidenta Dilma Rousseff abre na terça-feira (4) a 23ª edição do maior festival de artes
da Europa, o Europalia, que este ano homenageará o Brasil. Ao longo de três meses e meio, serão
apresentados 130 shows, 60 apresentações de dança e 40 de teatro, 20 exposições de artes visuais e 80
conferências literárias, distribuídos por cinco países: Bélgica, Luxemburgo, França, Alemanha e Holanda.

Só os ministérios da Cultura e das Relações Exteriores investiram R$ 30 milhões no evento que contou,
também, com o apoio financeiro de empresas públicas e privadas. Além de Dilma Rousseff, estarão
presentes na abertura do festival os ministros da Cultura, Ana de Hollanda, e das Relações Exteriores,
Antonio Patriota.

O diretor de Relações Internacionais do Ministério da Cultura, Marcelo Dantas, um dos organizadores do
evento, disse à Agência Brasil que o esforço dos curadores – há um para cada área artística –
foi “fugir do óbvio”.

Os músicos Hermeto Pascoal e Egberto Gismonti mostrarão aos europeus um pouco da alquimia que marca o
trabalho dos dois, com uma mistura de sons que envolvem instrumentos convencionais e objetos dos mais
variados. O rapper carioca Marcelo D2 vai mostrar o som que mistura black music, rock e rap. A banda
Pedro Luis e a Parede seguirá na mesma batida.

O grupo Corpo, de Belo Horizonte, reconhecido internacionalmente como uma das mais importantes
companhias de dança contemporânea do mundo, mostrará trechos de seus últimos trabalhos. As companhias
Giramundo, de teatro de bonecos, e Intrépida Trupe, que há 21 anos mistura circo, teatro e dança nos
espetáculos, também estarão presentes.

O poeta e ensaísta Augusto de Campos e os escritores João Ubaldo Ribeiro e Renato Carvalho estão entre
os brasileiros que participarão das conferências literárias do Europalia. Nas artes visuais, a escolha
dos trabalhos envolve obras do período colonial do Brasil até os dias de hoje. No cinema, a ideia é
apresentar um panorama geral do que se produz no Brasil.

O Europalia, criado nos anos 1960, ocorre a cada dois anos e já virou tradição da agenda cultural do
Velho Continente. Até a década de 1990, apenas países europeus eram homenageados. De lá para cá,
México, Japão, e China já foram destaques no evento. A próxima edição do festival vai homenagear a
Índia, em 2013

Para diretor francês, não é o euro que está em perigo, mas a aliança política União Europeia

PARIS – Jean-Paul Fitoussi, diretor do Observatório Francês de Conjunturas Econômicas e professor do Instituto de Estudos Políticos (Sciences-Po), de Paris, se diz “perplexo” com a lentidão com a qual os líderes europeus estão reagindo à crise. Segundo ele, só há dois cenários possíveis: a explosão da União Europeia (UE) ou uma mudança política na direção do bloco. Ele defende o fim da exigência de unanimidade nas decisões da UE, pede mais intervenção do Banco Central Europeu e prega a nacionalização dos bancos em dificuldade. O Brasil, segundo ele, enxergou o que os alemães não viram: que a saída da crise está no crescimento e não na austeridade.

O senhor vê um fim para a crise do euro?

JEAN-PAUL FITOUSSI: Há dois possíveis: o primeiro é a explosão da União Europeia (UE), o que não desejo. E o segundo é a UE aceitar dar um passo político rumo a uma solidariedade fiscal entre seus membros. Uma das modalidades para isso seria emitir eurobônus. Outra é pedir ao Banco Central Europeu (BCE) para financiar monetariamente os Estados em dificuldade. A terceira é o Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (Feef) emprestar aos países em dificuldade.

Com a aprovação da ajuda aos países endividados pelos alemães, a Europa se salva de uma crise maior?

FITOUSSI: No curto prazo, sim. Mas não se salva da crise. Há uma lentidão nas decisões. O Parlamento alemão aprovou decisão tomada em julho.

O senhor está preocupado?

FITOUSSI: Muito preocupado, porque a exigência da unanimidade nas decisões da Europa significa que temos que esperar que todos os parlamentos aceitem a decisão.

Esperar a aprovação de todos significa que pode ser muito tarde?

FITOUSSI: Sim, muito tarde. E se não for tarde dessa vez, será da próxima. O problema está no processo de decisão, que não funciona. Os europeus precisam decidir imediatamente, mas a regra de unanimidade impede.

A crise pode se arrastar por anos?

FITOUSSI: Sim, com uma exceção: se o BCE intervier. O BCE pode intervir sem que haja decisão (unânime) do Conselho Europeu.

O que tem que ser feito para evitar que a Grécia arraste toda a Europa para o buraco?

FITOUSSI: A Grécia pode pagar sua dívida se for ajudada pelos países europeus. A Grécia tem problema em pagar hoje por causa de taxas de juros muito altas sobre sua dívida. Poderia haver um arranjo para que pague taxas menos altas. Estão obrigando a Grécia a seguir programas de austeridade que fazem desaparecer qualquer perspectiva de crescimento. Sem crescimento, não se reembolsa a dívida.

O “Le Monde” publicou um plano secreto alemão propondo a criação de uma holding com ativos da Grécia, como portos, aeroportos, bancos, estradas. Esta holding seria vendida a uma instituição europeia financiada pelos países. O que o senhor acha?

FITOUSSI: Não é uma má ideia. O dramático nas condições impostas à Grécia foi pedir que o país vendesse seus ativos públicos. No estado atual do mercado, estes ativos têm um preço muito baixo. A criação de uma holding permitiria atrasar a venda, à espera de momento melhor. Seria uma espécie de garantia à ajuda para a Grécia.

O senhor vê uma proposta destas avançar?

FITOUSSI: Esta proposta não resolve o problema. É preciso acabar com a austeridade e buscar o crescimento.

Para muitos economistas, o fim do sistema de moeda única é impossível, porque isso levaria uma quebra em massa. O que o senhor diz?

FITOUSSI: Estou dizendo isso há dois anos: não adianta imaginar que podemos deixar um país da Europa cair, sem que haja um contágio generalizado da crise. Hoje, não é o euro que está em perigo: é a união política da Europa. E ao impor às populações programas de austeridade, corremos o risco de tornar a Europa muito impopular.

A presidente Dilma Rousseff tem razão quando diz que a austeridade vai acabar sufocando as economias?

FITOUSSI: Claro que ela tem razão. Austeridade generalizada é a chave para perder o crescimento e, portanto, perder o meio de reembolsar a dívida.

O pacto de estabilidade se tornou um obstáculo para solucionar a crise?

FITOUSSI: O obstáculo não é o pacto, mas a crise de doutrina da Europa. É uma crise do pensamento europeu. A Europa tem medo de dívida. Mas a dívida dos EUA é muito maior e a do Japão é duas vezes maior.

Mas é o mercado que está reagindo à dívida europeia, não?

FITOUSSI: Por que os mercados não atacam os EUA? Porque só atacam países que não têm armas para se defender. Os mercados não atacariam um país como a Itália, se este tivesse um banco central, porque sabem que o BC italiano compraria os títulos da dívida pública. E por isso não atacam os EUA: sabem que o Fed compraria títulos da dívida pública. O mesmo em relação ao Japão e ao Reino Unido.

A união monetária europeia foi uma má ideia?

FITOUSSI: Não, o que foi má ideia foi uma união monetária europeia sem união política. Criaram uma moeda sem soberania, sob as regras do mercado e não do poder público. É preciso avançar na integração política.

Criando um sistema federalista?

FITOUSSI: Claro. O Feef é um instrumento federal. Precisa dos meios.

A crise colocou em evidência uma Europa em duas velocidades. A Europa unida está perdendo o fôlego?

FITOUSSI: A Europa está sem fôlego, isso é certo. Quando falamos de Europa em duas velocidades, depende da época a que nos referimos. Antes da crise, o mais veloz era a Espanha, e a Alemanha tinha crescimento baixo. Amanhã, pode ser novamente a Alemanha com crescimento baixo.

Como salvar o euro?

FITOUSSI: Com mais vontade politica!

O senhor já pensou num cenário de fim da zona do euro?

FITOUSSI: Há vários cenários possíveis, que me parecem improváveis. Um é a saída de países em dificuldade, o que levaria à valorização tão grande das moedas dos que ficariam no bloco que isso resultaria numa depressão econômica muito grave. O segundo cenário, também improvável, é que a Alemanha deixe o euro. A escolha é: morrer fazendo os países do Sul saírem ou morrer fazendo os do Norte saírem. Nos dois casos, vamos morrer.

O senhor vê consequências para países emergentes como o Brasil?

FITOUSSI: É uma má notícia para esses países, porque se a Europa se afundar numa depressão, esses países perderão mercado. Nesta questão, todo mundo perde. O mercado europeu é o segundo maior do mundo.

O Brasil defende que os Brics ajudem a Europa por meio do Fundo Monetário Internacional ou comprando títulos da divida. O que acha?

FITOUSSI: O Brasil tem razão. O que o Brasil entendeu, os alemães ainda não entenderam.

Comprar títulos de endividados é arriscado para os emergentes?

FITOUSSI: Não, porque se compram a dívida acabam com o risco, permitindo à Europa sair da crise sem ter que passar por um período de depressão.

Mas o senhor não está otimista.

FITOUSSI: Estou, na verdade, perplexo em ver uma situação que parece simples de resolver, mas que, aparentemente, a Constituição Europeia não deixa resolver, porque impõe a unanimidade.

O que é preciso para acordar os políticos europeus?

FITOUSSI: Faço a mesma pergunta. Estão aparentemente adormecidos. Haverá eleições na França no ano que vem, o que limita a possibilidade de solidariedade. Na Alemanha, também haverá eleições. Se ambos estivessem em início de mandato, talvez a questão fosse resolvida mais rapidamente.

Não haverá uma solução rápida.

FITOUSSI: O grande perigo hoje é o afundamento dos bancos. Os Estados não permitirão isso. E vão acabar entendendo que, se não quiserem que seus bancos afundem, precisamos ajudar os países em dificuldade. Os bancos franceses estão ameaçados, mas também os alemães, italianos, espanhóis. Em geral, todos os bancos europeus estão ameaçados.
Fonte: http://oglobo.globo.com/economia/mat/2011/10/01/para-diretor-frances-nao-o-euro-que-esta-em-perigo-mas-alianca-politica-da-uniao-europeia-925487696.asp