A impotência dos governos frente à crise

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Flávio Lyra
As crises no capitalismo são altamente paradoxais em suas conseqüências. A atual crise
não foge à regra. Desde 2008 vem afetando fortemente os países desenvolvidos e agora
ameaça, em uma segunda onda, estender-se a todo o mundo gerando, de um lado, crescente
ociosidade de instalações produtivas e, de outro, a impossibilidade de atendimento das
necessidades das pessoas, pois estas são lançadas ao desemprego contra sua vontade. Cria-
se, assim, uma situação de miséria diante da abundância de meios para evitá-la. Nos Estados
Unidos e na União Européia as taxas de desemprego têm girado em torno de 10% da força de
trabalho e, em casos mais graves com o da Espanha, chega a 22%. No caso dos trabalhadores
mais jovens essas taxas aproximam-se de 40%.

Por certo, que situações semelhantes já ocorreram no passado e somente foram superadas
com muitos sacrifícios. A pavorosa crise de 1929, segundo alguns autores, somente pôde ser
afastada com o expressivo esforço de guerra que os países tiveram de realizar, especialmente
os Estados Unidos, em função da II Guerra Mundial. Ou seja, foi preciso intensificar a
produção de armamentos e aumentar os gastos militares, para ativar as economias e gerar
empregos. Caberia indagar: por que não fazê-lo produzindo mais bens para atender o
consumo da população? Por uma razão muito simples: produzir armamentos dispensa realizar
mudanças na distribuição da renda em favor dos mais pobres, necessárias à criação de poder
de compra adicional (demanda) de bens de consumo.

É fato notório que os governos em sua forma atual têm sido incapazes, não somente de
promover as mudanças necessárias para evitar a eclosão das crises, mas também de mobilizar
os meios adequados para recuperar o funcionamento normal das economias. Pelo contrário,
têm contribuído para aprofundar e estender a crise ao resto do mundo.

O processo de globalização exacerbou de tal maneira a concentração do poder econômico
nas mãos das grandes corporações privadas, especialmente as financeiras, apoiados numa
ideologia liberal poderosa e excludente de outras linhas que pensamento e centrada na noção
de mercados livres e irrestritos, que retira aos governos quaisquer possibilidades de realizar
mudanças que favoreçam maior igualdade na distribuição da renda e regulação mais forte dos
mercados, especialmente, dos mercados financeiros.

O prêmio Nobel de Economia de 2001, o economista norteamericano Joseph Stiglitz, em artigo
recente “A Crise Ideológica do Capitalismo”(**), afirma enfaticamente: “Eu estava entre os
que esperavam que, de algum modo, a crise financeira ensinaria aos americanos ( e a outros)
uma lição sobre necessidade de maior igualdade, de uma regulamentação mais forte, e de um
melhor equilíbrio entre mercado e governo. Pobre de mim, não foi o que ocorreu”.

Um brutal processo de concentração da renda, associado à privatização crescente da
atividade econômica, a liberalização dos mercados e à fragilização do poder de resistência dos
trabalhadores à participação nos ganhos de produtividade constituem a raiz do problema, na
medida em que requereu um processo de endividamento crescente para viabilizar a expansão
do consumo de bens e serviços e tornar viável a sustentação da atividade econômica e da

acumulação capitalista.

Estão desinformados os que pensam que a questão do endividamento externo é um problema
unicamente dos pequenos países europeus. A dívida externa cresceu muito em todo o
mundo, representando atualmente nada menos que 98% do PIB. Nos Estados Unidos, chega
a 93% e na União Européia a 216%. Os grandes credores mundiais, atualmente são a China e
outros países asiáticos.

Os Estados Unidos vêm inundando o mundo com dólares, visando desvalorizar sua dívida
em detrimento dos credores e melhorar a situação deficitária de suas transações correntes,
tornando suas exportações mais competitivas. Os países da União Européia, especialmente
os mais frágeis, amarrados ao Euro, não têm como desvalorizar suas moedas e estimular as
exportações, não restando alternativa que cortar gastos públicos para atender ao serviço
de suas volumosas dívidas externas, cada vez mais difíceis de serem financiadas no mercado
financeiro. Tal dificuldade, inicialmente, atingiu a Irlanda e a Grécia, mas já chegou à Itália
e ameaça a Espanha e a França. O único país da União Européia a salvo é a Alemanha,
superavitária em sua balança comercial e grande credor dos demais países-membros.

Com a saturação do processo de endividamento e a ameaça de insolvência dos bancos
credores, os governos optaram por injetar volumes maciços de recursos nessas organizações,
assegurando-lhe a manutenção do status de empresas privadas, à custa de fundos públicos,
produzindo um quadro de profundo desequilíbrio fiscal. De direito, os bancos foram
estatizados, mas de fato permanecem sob o comando de agentes privados.

Os governos submissos inteiramente ao poder econômico e influenciados pela ideologia
do livre mercado, não se mostrando capazes de realizar as reformas fiscais adequadas para
melhorar a distribuição da renda, buscam transferir para maioria da população o custo dos
ajustes fiscais, levando às economias à estagnação e à recessão por insuficiência de demanda
de bens e serviços.

As revoltas populares que vêm ocorrendo no Oriente Médio e que já levaram à queda
dos governos autoritários da Tunísia, do Egito, da Líbia e, por último, do Iêmen guardam
semelhança com os distúrbios que começam a aparecer nos países industrialmente avançados,
pois decorrem da crescente insatisfação das populações jovens com a falta de perspectivas
para suas vidas, devido às insuficiências dos mercados de trabalho para lhes assegurarem
empregos adequados.

Os países da América do Sul, inclusive o Brasil, por sua condição de grandes produtores de
produtos primários valeram-se até recentemente da situação favorável da demanda asiática
para esses produtos, especialmente da China, para acumular reservas em moeda estrangeira
e resistir, por esse meio, à ação predatória da especulação financeira internacional. Mas, já
há sinais muito claros de que o endividamento externo dessas economias está crescendo, suas
taxas de crescimento declinando e capacidade de aprofundar as políticas de proteção social
que vêm pondo em prática estão seriamente ameaçadas.

Na medida em que a crise atual estenda-se no tempo e seus efeitos perniciosos associados
ao declínio das taxas de crescimento econômico e ao aumento nos índices de desemprego

conduzam a medidas de contenção dos gastos de proteção social, a insatisfação da população
com os dirigentes políticos e com as formas de governo atuais deverá crescer, como já vem
acontecendo na Europa e nos Estados Unidos. Em várias partes do mundo, os defensores
de formas autoritárias de governo vêm aumentando em número e em agressividade, o que
reforça o poder da ideologia privatizante das grandes corporações sobre os governos e
impede que as políticas adequadas para superação da crise sejam adotadas.

O grande desafio do momento para nossas sociedades é o da mobilização do povo para a
realização de reformas políticas que aumentem a participação popular nos governos e os
libertem do abraço mortal da ideologia privatizante das grandes corporações mundiais.
Somente assim será possível reorientar o processo decisório das atividades econômicas e
dos governos para buscarem maior igualdade social e ampliarem as liberdades democráticas.
Infelizmente, ainda não estamos caminhando nessa direção. Há, inclusive, sinais preocupantes
de que o inverso é que estaria ocorrendo. A substituição dos governos eleitos na Grécia e
na Itália por tecnocratas, representantes dos interesses dos bancos, sem qualquer consulta
popular, é emblemática a esse respeito.

(*) Economista. Cursou o Doutorado de Economia da Unicamp. Ex-técnico do IPEA.

(**) Publicado no “Estado de São Paulo” em 09/07/2011.

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