Por Rodrigo L. Medeiros
Tema recorrente na mídia é o da continuidade da crise de 2008. Quem apostou numa crise em formato W parece ter acertado. A ausência de lideranças e alternativas ao fim do ciclo neoliberal de 30 anos marca o tempo presente.
Muito se escreveu defendendo que necessitamos de novas idéias no campo da economia. Pensando bem, para o curto prazo essa tese não se sustenta. Em um contexto no qual o setor privado se contrai, o desemprego cresce e se mantém elevado, e, portanto, não se pode esperar vir do consumo ou mesmo do comércio exterior o alívio do crescimento econômico, só resta mesmo uma componente da equação: o gasto público. Essa é a síntese da visão keynesiana.
Há ainda quem defenda ingenuamente aquilo que o laureado economista Paul Krugman denominou criticamente de “fada da confiança”. Bastaria um ajuste fiscal draconiano nas contas públicas dos países em dificuldade e que a confiança retornasse ao mundo dos negócios para que os investimentos deslanchassem naturalmente.
Empresários perceberiam, em algum momento impreciso no tempo, que os preços relativos dos fatores de produção estariam favoráveis ao investimento. A eficiência marginal do capital estaria acima das taxas de juros do mercado e assim se iniciaria um novo ciclo de crescimento e ajustamentos.
Desde a crise de 1929 se reconhece não haver garantias de quando o mercado se recuperaria sozinho. Ademais, esse “longo prazo” seria inaceitável do ponto de vista político, pouco importando se o regime é democrático ou não. Certamente o caso se torna mais explosivo em um ambiente institucional de democracia política.
Ao que indicam os fatos presentes, a eurozona encaminha-se para a desintegração. Nos EUA, os dois partidos que se revezam na presidência mal conseguem estabelecer, como outrora, zonas mínimas de convergência para a política doméstica. Quanto à China, há sérias dúvidas se escapará ilesa da recessão na eurozona e da crise nos EUA. Duvida-se, inclusive, se o seu capitalismo de Estado conseguirá equilibradamente elevar a parcela doméstica do consumo na participação no Produto Interno Bruto.
O Brasil enfrenta esse quadro global de incertezas. Seu Congresso Nacional e os 29 partidos políticos em atividade estão efetivamente debatendo questões dessa natureza? O que estão debatendo as organizações da sociedade civil diretamente e/ou indiretamente afetadas?
Aparentemente, o Ministério da Fazenda e o BC estão antenados com essas e outras questões. O Ministério do Desenvolvimento, por sua vez, mostra-se sensível a questões de política industrial.
Entretanto, nota-se certa desarticulação de medidas e propostas no âmbito do Governo Federal. O PPA 2012-2015, por exemplo, possui como parâmetro cambial um dólar pouco abaixo de R$1,80. Abaixo, portanto, dos R$ 2,30 apontados por The Economist e pelo BIS como patamar de alinhamento cambial.
Há consequências sociais, políticas e econômicas nessa escolha. Pode-se até esperar utilizar o câmbio apreciado para aliviar eventuais pressões inflacionárias, muito embora essa mesma apreciação cambial derrube as tarifas comerciais praticadas pelo país e as indústrias instaladas expostas à competição externa sintam o peso de tal opção.
Interessa efetivamente um Brasil desindustrializado e com 80% de sua população morando em cidades? Revela-se sensato apostar-se novamente em uma estratégia de inserção primário-exportadora mesmo quando se reconhece ser a industrialização o caminho para o desenvolvimento, antes do gradual deslocamento de parcela da força de trabalho para os serviços?
Os debates reformistas no âmbito do G20 e dos fóruns multilaterais de regulação e articulação global estão paralisados, apontando para um caminho perigoso que já se trilhou no passado. Algumas lideranças dessas organizações apostam ilusoriamente na restauração da ordem pré-crise de 2008. Cada país precisará cuidar bem dos seus próprios interesses e não há garantias de que os cenários econômicos e políticos não se deteriorem nos próximos momentos.
Rodrigo L. Medeiros é integrante da World Economics Association (WEA).
