A crise é global, duradoura e multidimensional

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Flavio Lyra (*)

Não representa nenhuma façanha intelectual dar-se conta de que o mundo atravessa uma crise que, embora tenha seu epicentro nos países  desenvolvidos do Ocidente, estende-se a todos os rincões.  Por certo que, nessa fase inicial, seus efeitos impactam mais fortemente em alguns países, mas seu prolongamento  não deixa dúvida de que cada um será atingido em maior ou menor medida.

O alto grau de integração alcançado entre os sistemas econômicos nacionais, não apenas através do comércio, mas também da internacionalização da produção e dos movimentos de capital, responde pelo caráter global da crise.

Decorridos três anos da deflagração da fase mais aguda da crise, pois esta já vem delineando-se há vários anos, já se formou o consenso de que sua duração será longa. Os desequilíbrios atingidos no comércio internacional e nas estruturas produtivas nacionais, bem como nas relações financeiras, internas aos países e internacionais, são de tal monta que requerem de muito tempo para serem corrigidos

Não menos grave é o fato de que a crise permeia não apenas a estrutura econômica e financeira, mas penetra fortemente nas instituições políticas e culturais, trazendo à tona a incapacidade das sociedades em suas formas atuais de organização para mobilizar os meios para evitar seu aprofundamento e abreviar sua duração.

Por fim, duas outras dimensões relevantes da atual crise são as altas taxas de desemprego nas economias desenvolvidas e a chamada questão ambiental, para as quais não tem sido possível encaminharem providências que ofereçam a perspectiva de resolvê-las.

Entretanto, chama a atenção  a atitude diversionista dos meios de comunicação de apresentarem a crise como um questão corriqueira constituída de casos isolados de países que, em decorrência da desregulamentação do mercado financeiro possibilitaram aumentos exagerados do crédito ao consumo,  ou que adotaram políticas fiscais irresponsáveis que levaram a altos índices de endividamento externo. Com este expediente buscam transferir a responsabilidade do mal funcionamento da ordem econômica e social existente para os consumidores ou para os gastos sociais dos governos.

Enquanto isso, desconhecem o aumento da concentração da renda pessoal nas classes mais altas, as pressões do sistema produtivo para vender e do sistema financeiro para emprestar, mesmo correndo o risco de não recuperar os empréstimos, como ficou evidente na crise imobiliária dos Estados Unidos.  Esta semana circularam notícias dirigidas a criar a impressão de que o excesso de funcionários públicos da Grécia responde parcialmente pela insolvência do país.

A crise atual tem sua etiologia intimamente vinculada, por um lado à concentração da renda pessoal em estratos minoritários da população e a expansão descontrolada do crédito, como instrumento alternativo a uma distribuição mais igualitária da renda. Por outro lado, deve-se  à concentração dos investimentos e da inovação tecnológica em uns poucos países dotados de vantagens comparativas e/ou competitivas, nos quais a acumulação de superávits comerciais aparece como alternativa a mudanças na distribuição da renda pessoal que favoreçam a expansão de seus mercados internos.

Nesse contexto, os países conformaram dois grupos: os que expandiram o consumo interno, mediante o crescimento do crédito e acumularam difíceis significativos em suas balanças comerciais, incorrendo em endividamento externo; e países que aproveitaram seu potencial competitivo para acumular superávits comerciais. No primeiro grupo situam-se Estados Unidos e a maior parte dos países da União Européia. No segundo grupo Alemanha, Japão e China e vários países exportadores de produtos primários.

Estes últimos, separáveis em dois grupos: os com superávit estável, como são os casos de Alemanha, Japão China e os grandes exportadores de petróleo; e os com superávits transitórios, como é o caso de Brasil e de outros exportadores importantes de produtos primários.  O poder de mercado de Alemanha e Japão baseia-se em vantagens competitivas, associadas ao alto nível tecnológico de sua produção. No caso da China, vantagens comparativas de sua mão-de-obra barata e vantagens competitivas  desenvolvidas mais recentemente explicam o resultado alcançado.  Já os exportadores de petróleo, e outros exportadores de produtos primários basearam-se em vantagens comparativas.

No caso do desequilíbrio comercial entre China e Estados Unidos, em favor da China, não deve ser esquecido que as grandes corporações norteamericanas  beneficiam-se com a situação. Ao deslocarem seus capitais para China, elidem a necessidade de melhorar a distribuição da renda para expandir o mercado interno, que passa a ser abastecido com exportações da China por elas realizadas.  Por sua vez, a China, tem menor necessidade de melhorar a distribuição pessoal da renda interna, pois sua demanda efetiva se expande com o superávit comercial.

O encaminhamento de uma solução para a crise passa necessariamente pelo poder político. Acontece que o poder político, nas democracias liberais acha-se cada vez mais submisso ao poder econômico, com a instituição da representação parlamentar sendo incapaz de levar adiante medidas que favoreçam melhor distribuição da renda. Exemplo emblemático são os Estados Unidos em que os dois maiores partidos políticos não se dispõe a aprovar qualquer mudança tributária que torne mais progressiva a tributação, mantendo-se assim o tratamento privilegiado de que vêm gozando as classes de alta renda desde as reformas realizadas no governo Reagan, ainda nos anos 70.

Por seu turno, no plano da política cultural, os intelectuais compreendidos em suas duas categorias, ideológicos e expertos, não conseguem dar origem a propostas que sirvam de referencial para as decisões políticas.  Os primeiros por estarem tão envolvidos pela ideologia dominante do capitalismo liberal que não se atrevem a pensar seriamente em alternativas de mudanças profundas na ordem econômica social. Os segundos, pelas limitações técnico-científicas de suas formações, que os transformam em meros instrumentos para escolher meios alternativos para a realização de fins imediatos.

No geral, o desenvolvimento da indústria cultural, ao mercadorizar suas atividades, transformou as manifestações culturais em mero instrumento de propaganda e promoção do capitalismo liberal e da forma de democracia existente, que leva à perpetuação no poder de oligarquias e finge ser representativa dos interesses da maioria da população.

As políticas adotadas pelos países para vencer a crise, ao invés de contribuir para uma saída do impasse, somente o tem agravado. Voltam-se crescentemente para o âmbito interno, com a adoção de medidas de contenção fiscal visando transferir para a maioria da população  o custo do ajuste que tentam realizar. No plano da política internacional, os interesses contraditórios entre os países superavitários no comércio e os deficitários, e a falta de instituições de coordenação adequadas, impedem o consenso necessário para ações políticas comuns.

Neste caso, também é evidente a intenção dos países mais fortes de transferirem os custos da crise para os mais frágeis. São emblemáticos aqui dois exemplos. Um deles, o dos Estados Unidos que, adotando uma política monetária frouxa, inunda o mundo com dólares, acarretando a valorização das demais moedas em relação ao dólar, visando a favorecer suas exportações e diminuir o déficit comercial.

O outro é o da Alemanha, país superavitário, que tem resistido a aceitar medidas suficientemente drásticas que impeçam a deterioração da situação financeira dos demais países europeus, na expectativa de que esses países sejam capazes de arcar com os serviços de suas enormes dívidas externas soberanas, mediante arrocho fiscal interno.

O caso da insolvência da Grécia é apenas a ponta do iceberg de uma situação de desequilíbrios que já afetou Portugal, Espanha, Irlanda e que agora atinge a Itália, representando uma ameaça séria à manutenção da União Européia em sua composição atual e a própria existência de sua moeda comum, o Euro.

O mais provável nos próximos é que o mercado internacional venha a se contrair, como conseqüência das políticas defensivas que já vêm sendo adotadas em várias partes, voltando-se as políticas econômicas para a expansão dos mercados internos. Os países, cuja correlação de forças internas permita o aprofundamento de políticas sociais poderão se sair melhor do que aqueles em que sejam maiores as resistências a mudanças no perfil da distribuição da renda.

No Brasil, a queda da taxa de juros real da divida pública abrirá caminho para ampliar a capacidade de investimento do setor público e o aprofundamento das políticas sociais, mantendo o país crescendo, porém a taxas baixas. Isto, porém, não ocorrerá sem fortes disputas. O setor financeiro vai continuar resistindo à redução da taxa de juro SELIC e um segmento crescente da classe média e das elites tradicionais vai crescentemente mobilizar-se contra o avanço das políticas sociais e trazer para a arena política temas como o da corrupção, como instrumento de pressão sobre o atual governo, dificultando a manutenção da mencionada orientação política.

No plano das mudanças mais estruturais, a pobreza do debate interno no Brasil é suficiente grande para que questões ideológicas mais profundas venham à cena. O mais provável é que disputas menores ocupem o espaço e o país fique na expectativa de mudanças significativas no cenário internacional, no qual há sinais de que forças populares estão deflagrando movimentos de protesto, que poderão assumir proporções preocupantes ao persistirem os impasses atuais.

Para nossos intelectuais fica o desafio de dedicarem mais tempo às questões ideológicas e de não se deixarem levar por disputas menores, que podem ser apenas cortinas de fumaça para não deixarem a descoberto os interesses das oligarquias locais em perpetuarem sua dominação sobre a maioria da população.

(*) Economista. Cursou doutorado de Economia na Unicamp. Ex-técnico do IPEA.

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