Infraestrutura dos EUA sofre com polarização política

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Infraestrutura do país sofre com a polarização política

Por Edward Luce | Financial Times, de Washington

Um motorista está parado num congestionamento em Washington. Um homem bate à sua janela: “Terroristas invadiram o Congresso e estão pedindo US$ 100 milhões, senão vão queimá-lo com gasolina”, diz o homem. “Estamos indo de carro em carro pedindo doações”. Quanto as pessoas dando em média, pergunta o motorista? “Ah, mais ou menos um litro.”

Embora maliciosa, a piada foi bem recebida quando distribuída para uma lista de e-mails de um círculo restrito em Washington – um grupo de diplomatas aposentados e acadêmicos. É difícil imaginar essa piada antigamente. No clima atual, nenhuma dose de desprezo parece demais para as antes extremamente confiáveis instituições democráticas do país.

No entanto, é difícil argumentar que o Congresso não merece isso (o desprezo, não a imolação). Sua taxa de aprovação caiu para um mínimo recorde de 9%, e isso significa que o apoio agora resume-se aos “parentes consanguíneos e à assessoria imediata”, diz uma piada mais amena. Parece que a cada dia, o primeiro dos poderes dos EUA faz alguma coisa para deixar mais descrente até mesmo os seus mais ferrenhos defensores.

A decisão do Senado, na semana passada, de rejeitar um projeto de lei prevendo modestos US$ 60 bilhões para modernizar a infraestrutura dos EUA, antes mesmo que fosse submetido a debate, pode ter superado até o histórico recente da Câmara. O pacote foi bloqueado por todos os republicanos e dois democratas. Eles se opuseram porque seria financiado por um imposto adicional de 0,7% sobre lucros acima de US$ 1 milhão.

E ponto final. Num momento em que empresas americanas preferem entesourar seu dinheiro, em vez de investi-lo, e quando os juros de longo prazo estão tão baixos que o custo do dinheiro é praticamente zero, o sistema político é incapaz de fazer o que deveria ser óbvio. Até hoje, os EUA nunca enfrentaram uma cisão ideológica em torno de necessidades de infraestrutura: os dois partidos sempre aceitaram a necessidade de modernizar os sistemas de estradas, barragens, pontes, energia e água.

Esqueça Abraham Lincoln e Dwight Eisenhower, os presidentes mais citados como tendo deflagrado ampliações e melhorias de infraestrutura nas ferrovias e rodovias federais, geradoras de aumento no crescimento. Esqueça até o entusiasta apelo de Bill Clinton pela criação de uma “autoestrada da informação”, que ajudou a pavimentar o caminho para a disseminação da internet.

Basta voltar a 2005, quando um Congresso de maioria republicana aprovou a infame Lei Rodoviária, de US$ 280 bilhões, o maior projeto da história dos EUA para o setor de transportes. Apelidado de “Ponte para lugar nenhum”, porque estava recheada de elefantes brancos, inclusive a infame ponte, a um custo de US$ 223 milhões, no Alasca, para ligar uma ilha com 50 habitantes já atendidos por um serviços de balsas, o projeto ganhou apoio quase unânime. Agora, poucos anos depois, aqueles pareçam bons velhos tempos.

Quer você tenha tido seu voo doméstico cancelado, esteja parado numa via expressa em Los Angeles ou se arrastando penosamente na internet para se conectar por meio de seu provedor de banda larga de “alta velocidade”, a infraestrutura americana está caindo rapidamente para um status de segundo mundo. Os EUA gastam apenas 2% de seu PIB em infraestrutura. A União Europeia gasta duas vezes isso, e a China mais de quatro vezes. E isso é perceptível.

Especialistas em aviação há muito queixam-se de que os EUA não está financiando a implementação de um sistema de controle de tráfego aéreo via satélite em substituição ao antiquados radares. A mudança seria boa para o crescimento, reduzindo distâncias de viagens, baixando emissões e melhorando drasticamente a segurança aérea. Na semana passada, Washington descartou propostas visando assegurar verbas adequadas. Assim, os motoristas que dispõem de sistemas GPS permanecerão anos à frente da aeronaves que voam sobre suas cabeças.

Ou, considere a lenta banda larga americana. Segundo a OCDE, os EUA estão em 29º lugar (de 34 países) em velocidade da internet. Alguns países, como França, Japão e Suécia, disponibilizam velocidades médias mais de quatro vezes superiores às dos EUA. A 16 mil kilobits por segundo, até as infelizes pessoas na Grécia – sim, até mesmo os gregos! – têm uma internet mais rápida do que os americanos (14,6 kbits/s). Agradeçamos o fato de os EUA ainda manterem uma pontuação de crédito mais alta.

Tudo isso viria a ser melhorado, com esse projeto de lei. Em vez disso, porém, republicanos arquitetaram uma manobra para evidenciar a alegada falta de patriotismo de seus adversários: apresentaram um projeto de lei para reafirmar que “In God We Trust” (em Deus acreditamos) continua sendo o lema nacional. A iniciativa foi motivada pela incorreta citação, por Barack Obama, no ano passado, de “E pluribus unum” (“de muitos, um”) como lema oficial americano. Em resposta à proposta, aprovada em votação, o presidente disse: “Confio em Deus, mas Deus quer nos ver ajudando a nós mesmos, colocando pessoas de volta ao trabalho”.

No entanto, Obama também tem culpa. Os EUA precisam gastar mais de US$ 2 trilhões nos próximos cinco anos só para manter sua infraestrutura existente. O projeto apresentado na semana passada propunha apenas uma pequena parte disso. Existem maneiras criativas que Obama poderia usar. Um think-tank sugeriu que as empresa americanas fossem beneficiadas uma renúncia tributária sobre seus lucros no exterior se os investissem em “títulos para reconstrução”. Isso poderia ter minorado alguma oposição no Congresso.

Em vez disso, Obama convidou os incautos republicanos a presenteá-lo com um argumento para a sua campanha pela reeleição em 2012, ao fazer com que eles votassem contra um pequeno imposto adicional sobre os milionários. Com isso, privilegiaram a ganância satânica a Deus. Isso pode funcionar, politicamente, porém é má notícia para a competitividade americana. Fazer piada com os republicanos é tedioso – eles próprios já estão se ridicularizando o suficiente. Falar sério sobre o que os EUA precisam fazer é outra conversa. Obama ainda não aprendeu a falar assim.

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