Três semanas depois de o primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, sair vitorioso em mais um voto de confiança no Parlamento, seu governo de centro-direita continua em uma situação frágil e pouco capaz de reagir aos desafios que o país enfrenta, enquanto a Zona do Euro ameaça se dissolver. Isso, e a determinação de Berlusconi a se manter no poder, continuam pesando na confiança do investidor, empurrando os rendimentos dos títulos de longo prazo do governo italiano para perto do limite considerado de modo geral pelos mercados em que o peso da enorme dívida pública do país se torna insustentável sem ajuda externa. Grécia, Irlanda e Portugal experimentaram uma rápida escalada em seus custos financeiros quando rendimentos semelhantes foram superados, enquanto ciclos de feedback negativos se faziam sentir e cresciam as pressões sobre os fundos dos bancos. Uma mudança de política é necessária, tanto na Itália como em toda a zona do euro. Mas nenhuma delas parece provável.
Ao se aproximar o voto de confiança, no mês passado, soube-se que existem três grupos dentro da coalizão governante que, por motivos diferentes, poderiam retirar seu apoio e derrubar o governo Berlusconi. O primeiro é formado por deputados que socorreram o primeiro-ministro em dezembro de 2010, quando ele mal sobreviveu a uma moção de não confiança apresentada pela oposição. Na última votação, vários desses deputados decidiram não votar a favor, enquanto outros que o fizeram foram recompensados com pequenos cargos ministeriais horas depois, salientando a força de seu poder de barganha junto a Berlusconi.
O segundo grupo é liderado pelo ex-ministro do Desenvolvimento Econômico Claudio Scajola, incluindo deputados do Povo da Liberdade (PDL), o partido de Berlusconi. Embora ele tenha apoiado o governo na votação de outubro, desde então indicou que preferiria ver Berlusconi permitir a formação de um novo governo sob outra figura de centro-direita. O terceiro grupo vem da Liga Norte, o parceiro menor da coalizão com o PDL. Esse grupo de potenciais rebeldes liderado pelo ministro do Interior, Roberto Maroni, tenta conquistar o controle da Liga do líder do partido, Umberto Bossi, e seus aliados. Eles parecem estar mais próximos da base do partido, que nos últimos meses demonstrou uma frustração crescente com o governo e gostaria que a Liga se afastasse de Berlusconi.
As profundas divisões na coalizão de governo – desde a votação do mês passado vários deputados desertaram ou estariam prestes a abandonar a aliança de governo – e a crescente tensão no mercado de títulos não são as únicas fontes de pressão sobre Berlusconi. Líderes empresariais influentes também manifestam preocupação. Estes incluem Emma Marcegaglia, dirigente da Confindustria (a federação de indústrias italianas), que repetidamente pediu em público que o primeiro-ministro tomasse ações decisivas ou se demitisse, e Luca Cordero di Montezemolo, o presidente da Ferrari, que em uma carta aberta ao jornal diário La Repubblica no final de outubro pediu o fim do governo Berlusconi.
O premier também enfrenta hoje uma pressão crescente de outros líderes europeus, muitos dos quais ainda lutam para (ou se recusam teimosamente a) compreender a escala da crise que se desenrola. A maior parte dessa pressão de outros governos da Zona do Euro sobre a Itália foi discreta, mas o tom endureceu nas últimas semanas, com o presidente francês, Nicolas Sarkozy, e a chanceler alemã, Angela Merkel, deixando clara sua frustração com Berlusconi e sua falta de confiança na capacidade de ele tomar as medidas necessárias – sobre reformas fiscais e estruturais – para tranquilizar os investidores.
Minando ainda mais a reduzida autoridade de Berlusconi em seu país e no exterior, líderes europeus recorreram ao presidente italiano, Giorgio Napolitano, para obter garantias de que a Itália fará “o que for necessário” para restabelecer a confiança do mercado. Embora o presidente não tenha poderes executivos, goza de considerável autoridade institucional e teria um papel crucial no caso de uma crise do governo. Pesquisas de opinião recentes mostraram que Napolitano tem um índice de aprovação de 92%, enquanto o de Berlusconi caiu para 24%.
Pequeno crescimento, pequena esperança
Governo de Silvio Berlusconi perde mais força, enquanto a economia da Itália ameaça ceder a crise. Foto: Vicenzo Pinto/ AFP
Apesar da aprovação pelo Parlamento em setembro de um pacote de ajuste fiscal frouxamente definido de 54 bilhões de euros para 2012-13 (cuja maior parte provavelmente virá de aumentos de impostos que deverão pesar ainda mais no já deprimido nível de atividade econômica), e compras substanciais da dívida italiana desde agosto pelo Banco Central Europeu (BCE), os custos de empréstimos do governo continuaram aumentando. No mercado secundário o rendimento do título de dez anos alcançou 6,4% em 4 de novembro, resultando em uma margem de mais de 460 pontos básicos sobre os títulos alemães de referência com a mesma maturidade, a mais alta desde a criação da Zona do Euro.
Diversos fatores contribuem para aumentar o prêmio do risco da dívida italiana. Juntamente com preocupações óbvias dentro de círculos políticos e financeiros dirigidas ao próprio Berlusconi, persiste uma considerável incerteza sobre se seu governo dividido conseguirá aprovar as medidas específicas de reforma nas quais se baseia a estrutura de redução do déficit. Além disso, o crescente descontentamento popular na Itália inevitavelmente restringirá a capacidade do governo de implementar as medidas de austeridade que forem acordadas. A juventude italiana, em particular, mostra-se cada vez mais frustrada com o fracasso dos políticos para enfrentar o crescente desemprego e a queda dos salários entre os jovens, e há probabilidade de uma escalada das inquietações sociais. O desemprego entre os jovens está perto de 30% na Itália, um dos mais altos da Europa e mais que o triplo da taxa de desemprego geral.
Também há um considerável ceticismo do mercado sobre a provável eficácia do último “grande plano” dos líderes europeus destinado a resolver a crise da Zona do Euro, que foi revelado em 28 de outubro. Este inclui três elementos principais: cortes da dívida pública grega em mãos do setor privado; a recapitalização do sistema bancário da Europa e propostas de “alavancar” o poder de fogo do principal fundo de socorro da Zona do Euro, o Fundo Europeu de Estabilização Financeira (EFSF, na sigla em inglês). Há detalhes mínimos sobre como cada elemento funcionará na prática, e sem fundos de resgate adicionais realmente disponibilizados e o BCE sem vontade de assumir a responsabilidade de um “credor de último recurso”, é quase inevitável que esse pacote represente mais uma tentativa frustrada dos políticos de tentar enfrentar a crise pelo lado mais barato. Finalmente, mas não menos importante, os investidores (e os parceiros da Itália na UE) esperam há meses que o governo Berlusconi aprove medidas destinadas a reforçar o insípido desempenho econômico da Itália. Desde que entrou na Zona do Euro, em 1999, o crescimento anual de seu PIB foi de apenas 0,6% em média, comparado com 1,5% da França e 1,2% da Alemanha.
Berlusconi diversas vezes prometeu a seus colegas europeus que aprovará reformas estruturais para promover o crescimento, mas essas medidas não aparecem. No início da semana passada, o primeiro-ministro não conseguiu o apoio de seu gabinete para um pacote de medidas que supostamente visavam reduzir a rigidez no mercado de trabalho, incluindo um abrandamento das restrições sobre redundâncias e mobilidade trabalhista no setor público; a venda de ativos de propriedade do Estado, uma certa liberalização dos serviços públicos locais e serviços profissionais; e simplificações na burocracia para novas empresas.
Uma falta de progresso reflete principalmente discórdias dentro do gabinete e a forte resistência de vários grupos de lobby, incluindo associações profissionais e sindicatos, que mantêm um considerável poder de barganha por causa da fraqueza do governo. Associações profissionais poderosas, que são bem representadas no Parlamento, há muito resistem à necessária liberalização de uma série de serviços. Além disso, os sindicatos constantemente bloquearam reformas no mercado de trabalho italiano, em que os jovens, quando conseguem encontrar trabalho, têm pouca ou nenhuma segurança no emprego, enquanto os trabalhadores mais velhos gozam de alto nível de proteção. Uma maior pressão externa poderá surgir nos próximos meses, porém, depois que a cúpula do G20 em Cannes em 3 e 4 de novembro terminou com a Itália aparentemente “concordando” em aceitar o monitoramento do FMI a cada trimestre e em cumprir várias metas de reformas declaradas.
No entanto…
Enquanto Berlusconi e seu governo de coalizão parecem cada vez mais instáveis e ineficazes, os partidos de centro e centro-esquerda de oposição continuam falhando quase sempre em inspirar confiança de que podem ser uma alternativa verossímil. Embora o apoio ao governo esteja em seu ponto mais baixo desde a eleição de 2008, não há certeza de que uma eleição geral antecipada visse a centro-esquerda ganhar uma maioria absoluta nas duas casas do Parlamento.
Uma grande fonte de preocupação é que se uma crise do governo provocasse uma eleição antecipada seria improvável que produzisse um resultado definitivo, o que poderia exacerbar as tensões nos mercados financeiros. No caso de uma crise de governo, o presidente Napolitano poderá tentar convencer os partidos políticos no Parlamento a apoiar um governo tecnocrata, ou ver se uma figura importante na coalizão de governo, que não Berlusconi, poderia ampliar a aliança de governo para incluir a União de Centro. Mas, como Berlusconi provavelmente resistirá aos dois cenários, a previsão em médio prazo continua altamente incerta.
Fonte: http://www.cartacapital.com.br/blog/internacional/europa-rota-de-colisao/
