A segunda semana de novembro começa de forma melancólica. A Europa segue perdida na sua crise bancária e fiscal: o premiê da Grécia, George Papandreou, teve que se renunciar depois de sugerir que o povo grego deveria escolher, por meio de referendo, o seu próprio destino. Nada mais assustador para esse tal “mercado”, incapaz de responder diretamente aos cidadãos de um país.
A Itália apareceu como o próximo foco de crise. O primeiro-ministro, Silvio Berlusconi, costumaz frequentador de tablóides e tribunais do seu país por seu comportamento notadamente “liberal”, só agora pode cair. O motivo? Sua potencial incapacidade de fazer Parlamento Italiano votar a favor de um plano de austeridade que agrade os bancos. Um plano de austeridade parecido com o apresentado por Sarkozy, na França, que pretende economizar 7 bi de euros até 2016 com uma reforma previdenciária.
Se a Europa parece conservadora tentando enfrentar crise financeira com planos de austeridade recheados de medidas pró-cíclicas, o que se pode dizer de Israel e dos EUA? Ao que parece, o ultra-conservador governo israelense acredita que a solução de seus problemas internos, que não são poucos, é um ataque a mísseis contra o Irã. Tudo, claro, com apoio dos aliados do Ocidente.
A desculpa é velha: o Irã ameaçaria a paz na Terra com seu projeto (nunca realmente comprovado) de construção de armas nucleares. Jornais israelenses revelaram, ainda na semana passada, a pressão exercida pelo primeiro-ministro Binyamin Netanyahu e comparsas para convencer membros da alta cúpula do governo de que um ataque contra Teerã seria uma boa idéia. E o exército de Israel realizou, na úlima quinta-feira, manobras militares que simulam um ataque com mísseis a centros urbanos.
Um ataque de Israel, (ou Estados Unidos, ou da OTAN) contra o Irã seria desastroso. Como escreve Richard Norton-Taylor, no The Guardian, uma nova guerra intervencionista na região colocaria levaria o Oriente Médio, que já vive em convulsão, a um nível de caos nunca antes visto. Sem falar que a uma nova intervenção norte-americana na Ásia e no Norte da África mexeria nos brios, e na paciência, de China e Rússia.
Adriano Benaynon, doutor em Economia, cita recente artigo de Uri Avneri , para afirmar que “Israel não têm condições de atacar o Irã e que, por isso, suas ameaças são mais jogo de política interna que outra coisa”. No entanto, ele lembra que, no ano que vem, a secunda fase do colapso financeiro inciado em 2007/2008 deve chegar ao auge, o que pode levar os EUA e aliados do ocidente a não devem hesitar tanto em uma saída da crise, ou pelo menos no seu amortizamento, por meios bélicos. Benaynon alerta, “Nisso tudo, resta ver como China e Rússia estão avaliando o quadro. Não devememos, certamente, ignorar a história pré-2ª Guerra Mundial…”
Márcio Oliveira também vê o ataque contra o Irã como quase certo: “o mais provável é deixarem o ataque ao Irã para setembro/outubro de 2012, já no clima das eleições estadunidenses, com israel ficando na retaguarda, para poupar seus soldados. Claro que até lá os órgãos de inteligência soltarão diversos alertas contra ‘ataques terroristas’ supostamente financiados pelos persas…”
Carlos Ferreira, engenheiro membro do Clube de Engenharia, concorda com a fatídica data de 2012: “Até porque, hoje as fronteiras nacionais bem como os órgão da governança mundial, como a ONU, não significam praticamente mais nada contra a vontade do mais forte. Paradoxalmente, o único meio eficaz de dissuasão é ter capacidade nuclear.Quanto a China e a Rússia, não há o que esperar, continuarão em atitude passiva e serão cada vez mais encurralados”.
Rogério Lessa, jornalista, também acredita que esperar por China e Rússia é perda de tempo. E acrescenta: “enquanto a esquerda navega o barquinho turco, que serviu de base para Bush atacar o Iraque, ocupa o Chipre à revelia da ONU e nega aos curdos sua aspiração à nacionalidade – a Otan vai rapinando o petróleo do mundo e o Irã talvez seja a próxima vítima” .
Benaynon, por fim, alerta: “temer as consequências de uma guerra mundial, na era nuclear e eletrônica, é algo que vale para todos os lados”.
