Arquivo mensais:outubro 2011

A falibilidade dos bons

Paulo Métri

Tenho consideração pelos engenheiros Joaquim Francisco de Carvalho e Ildo Luís Sauer, por serem excelentes técnicos e cidadãos socialmente comprometidos. Contudo, mesmo os bons podem ser pouco precisos, em raros momentos, como aconteceu quando eles assinaram o artigo intitulado “O alto custo da energia de Angra III”, publicado em um dos jornalões do país em 26/09/11.

Não começo comentando o custo da energia nuclear obtido pelos autores, porque estaria entrando em um debate que não julgo o mais relevante e, em vários aspectos, eles devem estar certos. Começo fazendo uma observação relacionada com algo que eles deixaram de dizer. Falo dos critérios de julgamento das potenciais fontes geradoras, os quais contêm, como um de seus itens, o custo da energia gerada.

 O artigo 1º da lei 9.478 de 1997 define os objetivos oficiais da política energética nacional. Estes objetivos são importantes porque são exatamente os critérios de julgamento das fontes que competem entre si para satisfação das necessidades energéticas do país.

 Infelizmente, esta lei reflete o período neoliberal da época da sua elaboração e, assim, os objetivos nela existentes representam o reducionismo financista do neoliberalismo, que estão distantes de trazer impactos sociais, ambientais e mesmo econômicos expressivos para a sociedade. Donde constatamos que ainda restam entulhos neoliberais na legislação em uso.

 O incrível desta história é que conheço bem os engenheiros Joaquim de Carvalho e Ildo Sauer e eles estão a anos luz de distância do pensamento neoliberal, mas casualmente a prioridade única dada por eles no artigo ao custo da energia gerada lembra o referido pensamento. Menciono tudo isto sem querer negar a importância compartilhada deste custo.

Para mostrar que o problema é bem mais complexo, afirmo que as tecnologias de geração acarretam lucros e outros benefícios para seus investidores, de forma que qualquer agente econômico relacionado a uma tecnologia ou agente do Estado busca possuir força política para conquistar uma parcela da expansão da geração elétrica. Assim, impactos podem ser omitidos ou manipulados, para que alternativas de expansão sejam mal compreendidas pela sociedade e esta conclua na direção que o grupo vencedor, dentre os lobistas, deseja.

Atrevo-me a listar algumas das possíveis diferenças entre as tecnologias que podem resultar em válidos critérios de julgamento das mesmas: 1) compra de bens e serviços no país; 2) contratação de desenvolvimento tecnológico e engenharia local; 3) geração de emprego para brasileiros; 4) aplicação do lucro gerado no Brasil; 5) grau de impacto sócio-ambiental. Resumindo, investir para gerar energia causa impactos diversos tão ou mais importantes que o custo da energia gerada.

Continuando com esta visão macro, as decisões de um setor de infra-estrutura devem atender aos objetivos claros do setor, mas devem ser consideradas, simultaneamente, outras repercussões na economia e sociedade. Por exemplo, deve-se pensar como colocar as 309.000 toneladas de urânio disponíveis no Brasil em benefício da nossa sociedade. As emissões de CO2 de cada fonte geradora não podem deixar de ser consideradas no processo decisório. A segurança física dos projetos precisa ser avaliada para cada fonte. Estes são exemplos de como o uso isolado do custo da energia gerada para a tomada de decisão é impróprio.

Estou ciente que muitas características das fontes estão embutidas no custo, mas, ainda assim, questiono algumas suposições usualmente feitas. Visando exemplificar, trago o seguinte fato. As fontes de produção intermitente, por suas dependências a fatores climáticos, como são os casos da eólica, da solar e da hidráulica, têm suas intermitências espelhadas nos fatores de disponibilidade das unidades geradoras. Assim, quando dizemos que este fator relativo à energia eólica é em torno de 34%, estamos dizendo que, em 66% do tempo, a unidade não estará disponível para geração, sendo a falta de vento uma das principais causas.

Então, à medida que a quantidade de energia gerada por esta opção é reduzida pela aplicação do referido fator, comumente diz-se que o custo do kilowatt/hora gerado já leva em conta a intermitência da fonte. Esta afirmação é questionável porque se esquece que tal opção requer necessariamente a existência de térmica a combustível fóssil para ficar “em espera”.

Entretanto, mais importante que esta discussão é a recomendação para que a lei 9.478 seja substituída, sem perda de tempo. A lei advinda, dificilmente, será pior que ela, bastando à nova abandonar a doação do petróleo nacional, tal como são as rodadas de leilões de nossas áreas, deixar de proteger fortemente as empresas e passar a proteger os cidadãos brasileiros.

Paulo Metri é conselheiro do Clube de Engenharia.

Publicado originalmente em: http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=6374:economia051011&catid=26:economia&Itemid=58

Brasil ajudará a Europa, mas não com dinheiro

Gabriel Bonis/Carta Capital

Com o avanço da crise e indícios cada vez mais concretos de uma moratória da Grécia, a presidenta Dilma Rousseff aproveitou a 5ª Cúpula Brasil-União Europeia em Bruxelas, na Bélgica, para reforçar o fortalecimento do Brasil como um importante ator econômico e ofereceu o apoio do País ao continente.

Em um pronunciamento na terça-feira 4, a mandatária brasileira fez duras críticas à política de corte de gastos adotada na Europa para conter a crise e declarou que vai apoiar as medidas necessárias para tirar o continente das turbulências, sem mencionar, no entanto, quais seriam.

Contudo, as colaborações do País, diz a CartaCapital o ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Júlio Sérgio Gomes de Almeida, devem ficar apenas no campo das idéias, sem injeção de capital, que ocorre indiretamente pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). “O Brasil tem outras preocupações econômicas e de infraestrutura. A nossa renda per capita ainda é muito inferior à dos gregos, portugueses, etc.”

Segundo Almeida, doutor em economia e consultor do Instituto de Estudos Para o Desenvolvimento Industrial (IEDI), as críticas da presidenta às medidas de austeridade europeias têm fundamento. “Dilma fala com conhecimento, pois o Brasil teve que enfrentar recessões muito dolorosas e desnecessárias determinadas pelo FMI e isto está sendo renovado na Europa.”

Amir Kahir, ex-secretário municipal de Finanças de São Paulo, aponta que essa “mentalidade retrógrada” de cortes prejudica a recuperação dos países e leva, na verdade, a uma arrecadação menor que a eventual economia. “Isso afeta a população, quando o responsável pelo endividamento público é o governo que assumiu a dívida do setor privado”, diz, em referência à crise de 2008.

Ativar a economia, segundo Kahir, seria a melhor forma de avançar na questão fiscal. Por outro lado, Almeida aponta a reestruturação das dívidas dos países do euro como prioridade para minimizar os efeitos da crise. “Essa mentalidade está sendo lentamente construída, pois os valores são impagáveis. É um processo lento, no qual se negocia quem perde mais ou menos, sabendo que ninguém ganha.”

Uma vez que os montantes de dívida acumulados são muito elevados, os países deveriam abandonar o princípio de que o débito seria “pagável” na totalidade, sugere Kahir. “É preciso haver uma composição na qual seja factível pagar apenas uma parte da dívida, e essa seria inferior à metade”.

O ex-secretário das finanças paulistas defende uma reestruturação dos valores em que credores aceitem ter seus títulos comprados pelo governo por um valor inferior ao pago por eles inicialmente. “Com isso, o governo compraria esses títulos primeiro em um prazo definido”, declara e completa: “Não existe saída fiscal sem perdas.”

Contudo, para Almeida, uma moratória em um dos países europeus fragilizados (Grécia, Itália, Espanha, Portugal e Irlanda são os principais) refletiria negativamente. “Um default da dívida grega, por exemplo, daria prejuízo a quem financiou a Grécia e implicaria em uma dúvida sobre outros devedores.”

FMI pressiona governos europeus

Tentando encontrar saídas para a crise, a Europa foi pressionada por um relatório do FMI divulgado na quarta-feira 5. O documento pede novas medidas para lidar com a deterioração econômica, entre elas uma sinalização do Banco Central Europeu para a compra de títulos da dívida pública dos países mais debilitados a fim de aumentar a confiança dos investidores.

Uma medida capaz de amenizar a incerteza nos mercados, visando uma reestruturação a longo prazo, segundo o consultor do IEDI. “É uma medida de compasso para buscar uma solução definitiva. A dívida podre sai dos bancos [privados] e vai para o BCE e os ajuda ganhar fôlego, mas não é a solução da Grécia”, aponta.

Kahir, no entanto, enxerga o mecanismo apenas como um paliativo perdendo o efeito. “O BCE está entupido de lixo [papéis da dívida de países em crise] e isso tem um limite. Vai desacreditando o sistema, os bancos [privado] não estão capitalizados suficientemente e os títulos podres vão se concentrar no BCE, apenas mudando de lugar.”

Com isso, Almeida acredita que o cenário econômico na Europa e também nos EUA é crítico. “A recessão nestes locais já está definida. A única dúvida seria a sua intensidade: suave, lenta ou uma ruptura. No último caso, uma depressão.”

Fonte: http://www.cartacapital.com.br/destaques_carta_capital/brasil-ajudara-a-europa-mas-nao-com-dinheiro

MP de combate à especulação com dólar é aprovada na Câmara

André Barrocal

BRASÍLIA – O plenário da Câmara dos Deputados aprovou nesta quarta-feira (5) medida provisória (MP) que dá poderes ao governo para agir contra a especulação com dólar no mercado de derivativos – negociações feitas na Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F). A principal arma é a taxação das transações com até 25% de Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), mas o governo também pode limitar valores e prazos dos contratos, por exemplo.

O parecer do relator, Reinhold Stephanes (PMDB-PR), alterou a MP para que empresas exportadoras que procuram a BM&F em busca de proteção contra variação do dólar não sejam punidas como os especuladores. Aquilo que os exportadores pagarem de IOF poderão descontar de algum outro imposto.

A votação do parecer foi feita de forma simbólica, pois a base aliada do governo, que é amplamente majoritária, não tinha manifestado nenhum desconforto com a MP. O sentimento geral foi definido pelo líder do PT, Paulo Teixeira (SP). “Sem a MP, o Real derreteria por causa desse capital especulativo”.

A tentativa de impedir o contínuo barateamento da moeda brasileira frente o dólar foi o principal motivo de a presidente Dilma Rousseff ter baixado a MP, a pedido da equipe econômica.

De lá para cá, porém, o dólar parou de se desvalorizar e até subiu, por causa da crise econômica global. No dia em que a MP foi publicada no Diário Oficial, o dólar custava R$ 1,53. Nesta quarta, pelo câmbio oficial do Banco Central, estava em R$ 1,84, alta de cerca de 20%.

Durante a votação, os adversários do governo criticaram a medida provisória e defenderam a BM&F. “Essa MP vai na contramão do desenvolvimento do mercado financeiro do país. É uma intervenção em um setor que deve ser livre”, disse o deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ).

A MP segue agora para apreciação do Senado. Na véspera da votação, o presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS), e líderes partidários haviam feito um acordo com senadores de não votar nenhuma MP até o dia 19, para que o Senado tivesse a pauta livre para decidir sobre uma nova distribuição de royalties do petróleo.

Fonte:http://cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=18636

A alma da UDN

A entrevista do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, hoje, no Estadão, deve ser lida abaixo da linha das palavras, na linha de visão de mundo neoliberal que domina a mente vaidosa do “príncipe” destronado.

Ele reage, em parte, aos “conselhos” da  professora americana Frances Hagopian, que sugeriu que o PSDB  precisa assumir-se como um partido de centro-direita.

A certa altura, ele se expõe:

Não se deve, então, falar em esquerda e direita ?

Há uma insistência nessa dicotomia. Isso se deve à falta de analisar os processos reais, o mundo concreto. Não é que inexista uma esquerda, mas… o que significa a esquerda hoje? Ninguém mais pensa, como no passado, coisas como coletivização dos bens privados, feita por um partido que dominasse o Estado em nome de uma classe. Isso não ocorre mais.

Fernando Henrique, a quem não falta conhecimento teórico para saber disso, tem perfeita compreensão que, há mais de 50 anos, não se pode definir assim o pensamento de esquerda. Ele próprio, quando ainda não havia transitado de lado, era um intelectual de esquerda sem jamais ter defendido a coletivização dos bens privados ou o domínio do Estado por um partido em nome do Estado.

Ser de esquerda – sobretudo aqui e progressivamente, desde os anos Vargas – foi sinônimo de defender um nacionalismo inclusivo que, de um lado, protegesse o país do saque colonial – de riquezas naturais e, mais tarde, financeiro – e, de outro, promovesse o resgate, longe de ser concluído, de imensos contingentes da população de uma condição de miséria.

Seu governo fez exatamente o contrário. Sobre a entrega e abertura das entranhas do país, nem é preciso falar, todos sabem. Sobre a exclusão, alguém duvida do quanto se alargou o fosso entre elite e povão, nesse período. Não, claro, não foi ele quem a inventou. Mas tomou gosto nela, pela sua própria alma deslumbrada e a palavra “moderno” passou a ocupar na sua mente um lugar que eclipsava totalmente a palavra “justo”.

“Quem defende a direita no Brasil? Ninguém. Mas na prática ela existe – mas a nossa direita é muito mais o atraso, o clientelismo, fisiologismo, esse tipo de questão, do que a defesa dos valores intrínsecos da propriedade, da hierarquia”.

Perfeito. Reduzimos, então, a direita no Brasil a alguns políticos sem-vergonhas, nepotistas ou a figuras tristemente folclóricas.

A propriedade e a hierarquia que fazem deste país um dreno de riquezas e de trabalho, em proveito de uma ínfima elite e de uma ordem econômica mundial decrépita são defendidos por quem?

Ah, sim, pelos “modernos”.

“(…) Temos (o PSDB) uma tradição republicana, nos diferenciamos bastante nisso. A coisa pública tem que ser respeitada como tal e não ser objeto nem de apropriação privada nem político-partidária. Isso é uma linha. Não é esquerda nem direita, é republicana”.

Mais uns anos de tal tradição republicana, não sobraria República

Fonte: http://www.tijolaco.com/a-alma-da-udn/

Royalties do Petróleo: o veto ao artigo 64

Paulo Metri

O artigo 64 da lei 12.351 de 2010 tratava de dois assuntos: (1) a divisão dos royalties entre estados e municípios produtores e não produtores e a União, e (2) a proibição ao que está sendo chamado de “restituição ou compensação” dos royalties pagos.

Vamos separar estas questões porque cada uma delas pode levar a uma conclusão diferente com relação à derrubada ou à manutenção do veto ao artigo 64, colocado pelo presidente Lula.

Além disso, neste documento de análise, vou esquecer da divisão dos royalties, porque o presidente Lula remeteu, no mesmo dia em que vetou o artigo 64, para o Congresso um projeto de lei sobre esta divisão. Trata-se do projeto de lei, que tem o deputado Wellington Dias como relator. Então, se a maioria dos congressistas quisesse apoiar a emenda Simon (é o próprio artigo 64), bastava introduzi-la como uma emenda do projeto de lei.

Estou querendo dizer que a divisão dos royalties não precisa ser discutida no momento da avaliação do veto presidencial. Existe todo um processo legislativo em andamento que permite audiências, debates, votações e acordos diversos.

Então, de forma prática, apoiar ou rejeitar o veto se resume em julgar a chamada “restituição ou compensação” dos royalties pagos. A partir de agora, concentro a análise nesta direção.

O artigo 64, que foi vetado, contradiz o artigo 2o, inciso I; o artigo 10, inciso III, alínea d; o artigo 15, inciso V; e o artigo 29, inciso V, existentes na mesma lei 12.351. Desta forma, se o veto cair, a lei passará a possuir artigos conflitantes.

Este conflito consiste, por exemplo, em que, no artigo 2o, inciso I, é dito: “…o contratado exerce, por sua conta e risco, as atividades de exploração, avaliação, desenvolvimento e produção e, em caso de descoberta comercial, adquire o direito à apropriação do custo em óleo, do volume da produção correspondente aos royalties devidos …“, enquanto no artigo 64, inciso II, parágrafo 3o, é dito: “Os royalties correspondem à participação no resultado da exploração de petróleo, de gás natural e de outros hidrocarbonetos fluidos …, vedada a sua inclusão no cálculo do custo em óleo, bem como qualquer outra forma de restituição ou compensação aos contratados, …”.

Se o veto cair, como a lei passa a ser inconsistente, a dúvida sobre que artigos irão prevalecer sobre quais outros poderá ser argüida no STF. O que sairá do Supremo, é muito difícil de ser previsto.

Outro possível acontecimento é que deputados e senadores podem querer trabalhar em um novo projeto de lei para emendar o novo marco regulatório recém aprovado (em 22/12/2010). Nesta hipótese, eles certamente não irão se ater, somente, ao conflito entre artigos. As multinacionais irão querer que a Petrobras deixe de ser a operadora única do Pré-sal, a empresa Pré-sal Petróleo deixará de ter o voto de desempate em todos consórcios e o Fundo Social poderá ser reformulado para permitir uso generalizado. Ou seja, a caixa de Pandora será aberta e uma grande conquista da sociedade brasileira será perdida.

Vimos o que se perde se o veto cair. Agora, vamos ver o que se perde se ele for mantido.

É preciso estar consciente que, depois que uma concessão ou um contrato de partilha tiver sido assinado pela ANP (como representante da União) com um consórcio de empresas, o petróleo existente no bloco, se vier a ser descoberto, não pertencerá mais à União. Ele pertencerá, no momento de entrada do óleo na plataforma, depois do primeiro medidor, ao consórcio.

Assim, mesmo ele ainda estando no subsolo, apesar de retoricamente ele pertencer à União (a Constituição diz isso), na prática, ele já pertence ao consórcio, pois só quem pode retirá-lo do subsolo é o consorcio. É bom lembrar também que a União não tem mais o direito de assinar outra concessão ou outro contrato de partilha. Nem ela própria pode produzir este petróleo.

Como observação, está certo que, no contrato de partilha, uma parcela do petróleo no subsolo deve ser considerada como pertencente ao Fundo Social. Mas, o consórcio tem a outra parcela do óleo do subsolo.

Quando se diz que o ressarcimento dos royalties é um grande prejuízo para a sociedade está-se dando a impressão, para o leigo, que a União irá devolver petróleo ao consórcio, o que não é verdade. O consórcio irá sacar do seu próprio petróleo uma parcela no mesmo valor dos royalties pagos.

É claro que este pseudo-ressarcimento faz o consórcio ficar com mais petróleo para comercializar, o que tem imenso valor estratégico. Se me perguntarem se concordo com esta permissão de saque do próprio petróleo (do consórcio) a título de alguma compensação, eu respondo que sou contra. E respondo isto, mesmo sabendo que a Petrobras será a grande beneficiária deste “ressarcimento” durante muitos anos futuros (ela é quem paga royalties neste momento).

Contudo, pelo risco que corremos em iniciar um novo processo legislativo referente à lei do petróleo, sou favorável à manutenção do veto.

*Paulo Metri é conselheiro da Federação Brasileira de Associações de Engenheiros

Comentários sobre a crise

Gustavo Santos

Parece que a crise bancária deu uma forte amenizada em razão da promessa do Banco Central Europeu hoje
em financiar ILIMITADAMENTE qualquer bando que precisar de recursos e ainda a promessa de adquirir letras hipotecárias (ativos tóxicos?)
Realmente, isso deve reduzir o risco de colapso bancário generalizado.
Porém, a falência da Grécia ainda é tida como certa e seus impactos (apesar de diminuídos com a medida recente, ainda são substanciais)
podem ainda ser importantes.
Aparentemente, a Alemanha escolheu aceitar o Default parcial na Grécia (50% da dívida) e assim eles vão segurar a perda dos bancos e seu contágio com diversas medidas.
A Alemanha acha que colocar dinheiro na Grécia será como colocar dinheiro em um buraco sem fundo, porque isso só aumenta uma dívida que certamente se tornará inadimplente.
Ainda que resolvida essa questão, será muito díficil evitar uma recessão porque todos os países desenvolvidos buscarão reduzir seus déficits fiscais (contraindo os gastos públicos e aumentando os impostos)
Como a liquidez mundial é enorme, depois de 4 anos de enormes déficits e enorme expansão monetária, qualquer alento na crise deve gerar aparentes euforias nos mercados.
O impacto sobre o Brasil não é fácil de avaliar, porque essa enorme liquidez buscará ser aplicada na especulação com commodities sempre que acharem que viram alguma luz no fim do túnel.
Se as commodities permanecem em preços recordes, especuladores se sentirão seguros em aplicar nas altas taxas de juros brasileiras sua abundante liquidez.
Porém, quando a recessão for sentida de forma mais forte, e em especial quando isso impactar a adimplência dos financiamentos e a solvência dos bancos europeus, os preços das commodities podem cair forte assim como nossa moeda, o Real.
Essa situação ficará assim até que os Europeus resolvam mudar completamente o sistema de gestão monetária e fiscal da Confederação Européia em uma direção que pode ser próxima ao sugerido no último artigo.
Porém, se acontecer algo inesperado antes disso (um cisne negro), pode tudo desabar em uma velocidade maior do que resposta a isso possível no intricado sistema decisório europeu. Se isso acontecer, acho o câmbio brasileiro vai explodir muito rapidamente, porque ainda está artificialmente sustentado em especulação, financiamento estrangeiro e commodities a níveis recordes.
Isso tudo se nada imprevisto acontecer na China. Qualquer desaceleração mais rápida por lá, geraria um efeito em cadeia difícil de segurar. Porém, isso é muito pouco provável, os chineses tem uma gestão econômica muito segura e bem planejada.
Quero dizer com isso que aparentes melhorias na situação econômica devem ser interpretadas com muito cuidado.

Amazônia, energia elétrica e sustentabilidade

Por Joaquim Francisco de Carvalho e Ildo Luís Sauer / Valor Econômico

 Imagens colhidas de satélites meteorológicos mostram que o clima da Amazônia exerce forte influência sobre os regimes hidrológicos e pluviométricos de toda a América do Sul, e garante a estabilidade climática, fluvial e pluviométrica – portanto, a sustentabilidade da agricultura – de todo o Brasil.

Assim, a Amazônia vale pela importância de seus próprios ecossistemas. Enquanto não se acumularem e testarem suficientes conhecimentos científicos e técnicos sobre os intrincados ecossistemas regionais, a Amazônia deve ser mantida em sua integridade, evitando-se, principalmente, a pecuária extensiva, a ampliação de monoculturas de exportação (soja, milho etc.), a exploração madeireira e a implantação de novos projetos de mineração.

Apesar da polêmica desencadeada pelas organizações ambientalistas, a alternativa mais interessante para se desenvolver a Amazônia, mantendo a sua integridade, seria a de aproveitar o potencial dos recursos naturais renováveis da região, com projetos de turismo ecológico, extrativismo e geração de energia elétrica. Além de serem excelentes geradores de empregos e uniformizarem a distribuição de renda na região, o turismo ecológico e o extrativismo dependem da integridade do ecossistema.

Empresas públicas e privadas de geração elétrica poderão ser as maiores defensoras do ecossistema amazônico

Quanto è geração de energia elétrica, a Amazônia tem um dos maiores potenciais do mundo e, mediante políticas inteligentes e rigorosamente aplicadas, as empresas públicas e o empresariado do setor de geração elétrica deverão se transformar nas maiores defensoras do ecossistema amazônico. Alterações causadas por desmatamentos para abrir terrenos para plantações de soja e milho, criação de gado, projetos de exploração mineral e outros comprometerão o potencial hidrelétrico, inviabilizando as próprias usinas.

De acordo com a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), o potencial hidrelétrico brasileiro é de 268 GW, dos quais apenas 30% estão em aproveitamento. A região amazônica detém 65% do potencial não aproveitado.

Admitamos que, por motivos de caráter social e ambiental, os planos de expansão do sistema elétrico sejam reformulados, para se limitar em 80% o potencial hidrelétrico a aproveitar na Amazônia – e que as hidrelétricas a serem implantadas naquela região alaguem 0,2 km2 /MW. O que é uma hipótese conservadora, pois a maioria dos aproveitamentos existentes em outras regiões e em construção, na própria Amazônia, apresenta uma relação bem menor entre área inundada e potência instalada. Neste caso o aproveitamento do potencial hidrelétrico amazônico ocuparia cerca de 0,4% da área da região, ou seja, menos do que os grandes projetos agrícolas ou de pecuária.

Mesmo assim o Brasil poderá adicionar uma capacidade hidrelétrica de 148,7 GW aos 79,3 GW já instalados. Somando-se a isto os 17 GW das pequenas hidrelétricas, teremos uma capacidade hidrelétrica total de 245 GW.

 

 

No entanto, as ONGs ambientalistas optam por uma posição fundamentalista, baseada no dogma de que a Amazônia é intocável. É certo que os ecossistemas amazônicos são delicados, mas isso não significa que ficarão estacionados em sua condição primordial, se é que se possa falar em condição primordial de sistemas que se vêm alterando desde a origem, como todos os ecossistemas terrestres.

Com ou sem hidrelétricas, os povos indígenas (que fazem parte do ecossistema amazônico) vão continuar com as derrubadas e queimadas de matas, tradicionais em sua agricultura. E ainda há as mineradoras, o agronegócio e os pecuaristas, sobre os quais as ONGs ambientalistas ficam silenciosas, preferindo vociferar contra o aproveitamento do potencial hidrelétrico, que poderá dar ao Brasil um sistema elétrico limpo e sustentável.

A interligação do sistema hidrelétrico com o sistema eólico permitiria que parte da energia gerada pelas centrais eólicas ficasse “armazenada”, na forma de água acumulada nos reservatórios hidrelétricos – de maneira semelhante às malhas termo-eólicas de alguns países europeus, nas quais a energia dos parques eólicos permite que se economize gás natural ou óleo combustível. Segundo o Centro de Pesquisas em Energia Elétrica da Eletrobras, o potencial eólico brasileiro (com turbinas em torres de 50 metros) é de 143 GW. Note-se que, com torres mais altas, o potencial é maior.

O sistema hidroeólico poderia operar em sinergia com usinas termelétricas a biomassa, pois a frota automotiva brasileira é em grande parte alimentada com etanol, forçando a produção do bagaço de cana em escala suficiente para alimentar termelétricas de pequeno e médio porte, totalizando, em conjunto, uma capacidade da ordem de 15 GW, segundo a União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica).

Assim, aproveitando apenas fontes primárias limpas e renováveis, o sistema interligado hidroeólicobiotérmico teria uma capacidade conjunta de 403 GW, podendo gerar 1.589 GW por hora firmes por ano, admitindo-se, conservadoramente, que o fator de capacidade do sistema integrado será igual à média ponderada dos fatores de capacidade de cada sistema isoladamente, que é 0,45.

Por outro lado, de acordo com o IBGE, a população brasileira deverá se estabilizar em 215 milhões de habitantes, por volta do ano 2040, de modo que o sistema integrado hidroeólicobiotérmico teria um potencial suficiente para oferecer à população 7.390 kWh por habitante por ano, equiparando o Brasil a países de alto nível de qualidade de vida, tais como a França, a Alemanha e a Grã-Bretanha.

A reserva de segurança do sistema hidroeólicobiotérmico seria constituída pelas termelétricas a gás já existentes nas diversas regiões do país. Portanto, ao contrário de alguns países europeus e do Japão que, em médio prazo, não têm melhor alternativa, o Brasil não precisa correr o risco de gerar em centrais nucleares a energia elétrica de que precisa ou precisará.

Joaquim Francisco de Carvalho é pesquisador associado ao IEE/USP e ex-diretor industrial da Nuclen (atual Eletronuclear).

Ildo Luís Sauer é diretor do IEE/USP e ex-diretor de energia e gás da Petrobras