Arquivo mensais:outubro 2011

As razões do movimento

Mauro Santayana

O movimento de protesto nos Estados Unidos teve ontem um dia diferente em Nova Iorque: piquetes de centenas de pessoas se manifestaram às portas de cinco dos maiores milionários de Manhattan, começando pela casa de Rupert Murdoch. Outras residências visitadas foram as dos banqueiros John Paulson, Jamie Dimon, David Koch, e Howard Millstein – todos eles envolvidos nos grandes escândalos de Wall Street, e socorridos por Bush. Os lemas foram os mesmos: que tratassem de devolver o que haviam retirado da economia popular.

A polícia limitou-se a conter, com barreiras, os manifestantes. Mas a mesma coisa não ocorreu em Boston. A polícia municipal atuou com extrema violência durante a madrugada de ontem, atacando, com porretes, dezenas de manifestantes e ferindo dois veteranos de guerra, um deles, de 74 anos, ex-combatente no Vietnã. O “Occupy Together” atingiu mais de 1.200 cidades norte-americanas, em preparação para as grandes concentrações nacionais no próximo sábado, dia 15.

Conforme o jornalista americano David Graeber, em incisivo artigo publicado pelo The Guardian, os jovens, e também homens maduros, vão às ruas nos Estados Unidos em busca de empregos, de boa educação, de paz, é certo,  mas querem muito mais do que isso. Eles contestam um sistema que deixou de servir aos homens, para servir apenas aos banqueiros e a um capitalismo anacrônico. “Para que serve o capitalismo?”, é uma de suas perguntas. Eles contestam um sistema baseado no consumo supérfluo de uns fundado na negação das necessidades básicas de 99% da população de seu país. Descobriram que o seu futuro, os seus sonhos, o seu destino e a sua vida  foram roubados pelo sistema que deixou de ser democrático.

Os neoliberais no mundo inteiro fazem de conta que esses protestos nada significam, e muitos deles continuam  sem perceber o que está ocorrendo. Tem sido sempre assim na História. Na noite de 4 de agosto de 1789, quando, a Assembléia revolucionária da França aboliu os privilégios feudais da nobreza, Luis 16,  que seria guilhotinado menos de três anos depois, escreveu em seu diário: hoje, nada de novo. Como bem registrou Paul Krugman, em seu artigo no New York Times, os manifestantes não são extremistas: os verdadeiros extremistas são os oligarcas, que não querem que se conheçam as fontes de sua riqueza.

Não percebem os políticos o processo revolucionário em marcha que, de uma forma ou de outra, atingirá todos os países do mundo. Ao globalizar-se, pela imposição do sistema financeiro, a economia, globalizou-se a reação dos povos ao sistema totalitário e criminoso. Seria a hora de um entendimento entre os estadistas do mundo, a fim de chamar os especuladores à razão e colocar o Estado ao serviço da justiça, retornando-o à sua natureza original.  Na Europa e nos Estados Unidos o que se vê é o Estado socorrendo os banqueiros fraudulentos, e os ricos insistindo na receita neoliberal clássica, de ajustes fiscais, de redução dos serviços sociais, do arrocho salarial e da demissão sumária de imensos contingentes de trabalhadores, a fim de garantir o lucro dos especuladores.

Nos anos oitenta, os paises emergentes de hoje, entre eles o Brasil, estavam atolados em uma dívida internacional marota, gerada pela necessidade de rolar os bilhões de eurodólares, e não dispunham de recursos. Mme Thatcher disse que o Brasil teria que vender as suas terras e florestas, a fim de pagar o que devia. Hoje, trinta anos depois, a Grécia está vendendo tudo o que pode, até mesmo monumentos históricos, enquanto parcelas de seu povo começam a passar fome.

Quando os africanos morrem de fome e de epidemias, como voltaram a morrer agora, não há problema. Para os brancos, europeus ou americanos, é alguma coisa que não lhes diz respeito. A África não é outro continente: é outro mundo. Mas, neste momento, são brancos, de cabelos louros e olhos azuis, como os manifestantes de Boston – jóia da velha aristocracia da Nova Inglaterra – que vão às ruas e são espancados pela polícia. A revolução, como os próprios manifestantes denominam seu movimento pacífico, está em marcha.

Há é certo, algumas providências na Europa, como a estatização do banco belga Dexie, mas se trata de um paliativo, quando Trichet, o presidente do Banco Central Europeu recomenda injetar mais dinheiro no sistema financeiro privado. Mais astuto, o governo da China reforçou a presença estatal no sistema financeiro, aumentando a sua participação nos bancos de que é acionista majoritário.

E o mundo se move também na política. Abbas – o presidente da Autoridade Nacional Palestina, que luta pelo reconhecimento pela ONU de seu Estado nacional -  em hábil iniciativa, esteve anteontem e ontem em Bogotá. Ele fez a viagem a Colômbia, sabendo que dificilmente o apoiariam: o país hospeda bases militares americanas e, ontem mesmo, um comitê do Senado, em Washington, aprovou o Tratado de Livre Comércio entre os dois países. Assim, o presidente Juan Manuel Santos limitou-se a declarações protocolares de apoio à paz no Oriente Médio, o que não impedirá a caminhada da História.

Fonte: http://www.conversaafiada.com.br/economia/2011/10/12/santayana-em-wall-street-para-que-serve-o-capitalismo/

O investimento após 2011

Por David Kupfer / Valor Econômico

 

Pelo andar da carruagem, 2011 já deixou antever que não será um ano marcado como o da retomada do ritmo de investimento, perdido pela economia brasileira após o grande crash financeiro de 2008. Considerando-se o terceiro trimestre, já transcorrido mas ainda não captado pelas estatísticas, e o quarto trimestre, recém-iniciado, pode-se esperar que os dados, quando disponíveis, irão mostrar um final de ano bastante desanimado nessa campo. Com isso, dificilmente a formação bruta de capital fixo conseguirá repetir a taxa de 18,4% do Produto Interno Bruto (PIB) atingida em 2010. Mais provavelmente os valores deverão recuar para a casa dos 18% ou mesmo um pouco menos, deixando ainda mais distante a barreira dos 20%, que não é superada pela economia brasileira desde a década de 1980.

É claro que parcela importante desse indesejado recuo na formação de capital fixo decorre dos sinais negativos que, menos pelas expectativas de recessão e mais pela elevação das incertezas, a atual conjuntura internacional vem despejando sobre o ânimo dos investidores. Merecem registro, porém, algumas tendências fortes que deverão sobreviver à atual conjuntura e passarão a guiar as perspectivas do investimento no Brasil nos próximos anos.

Dentre essas tendências, tudo indica que uma longa fase de barateamento dos preços do investimento está chegando ao fim. Especialmente os componentes comercializáveis do investimento, os bens de capital, deverão passar a exibir preços em ascensão, refletindo o término de um processo que se iniciou com a liberalização comercial dos primeiros anos da década de 1990, que favoreceu o acesso às máquinas e equipamentos importados e prosseguiu com as sucessivas rodadas de apreciação cambial ocorridas desde então, que reduziram sobremaneira os preços em reais desses bens. De fato, não há mais muito espaço para liberalizar o acesso a bens de capital externos enquanto do lado da taxa de câmbio as perspectivas para os próximos anos são de mudança de sinal ou ao menos de interrupção do processo de apreciação do real.

Na indústria, a expansão da produção de commodities pode sofrer uma onda de adiamentos e de interrupções

Se pelo lado dos preços parece razoável prever um aumento do esforço de investimento requerido para se obter um dado montante de crescimento do PIB, algo similar também deve ser esperado pelo lado das quantidades. Há boas razões para se acreditar que a composição do investimento está se alterando em direção a uma maior presença de infraestrutura (energia e transportes) e também da construção habitacional. Não há dúvida que, em vista do déficit historicamente acumulado pelo país na oferta desses bens, essa seja uma mudança desejável. Não se pode esquecer, porém, que ambas atividades caracterizam-se por exibirem as mais elevadas relações capital-produto da economia. Por exemplo, os dados disponíveis nas contas nacionais brasileiras mostram que, no país, a relação capital-produto incremental da atividade de exploração e produção de petróleo é três vezes maior que a da indústria de transformação.

Já na indústria, a expansão da capacidade de produção de commodities, que responde por grande parcela da formação de capital, e que já vinha em desaceleração diante das perspectivas menos favoráveis do comércio internacional, poderá sofrer uma onda de adiamentos e interrupções se o processo, ora ainda suave, de reversão do ciclo ascendente dos preços, ganhar intensidade.

Mas há também mudanças positivas que podem contrabalançar a tendência de aumento do esforço de investimento esperada para o futuro próximo. A principal delas, caso venha a se confirmar, é a prevalência de uma trajetória declinante para a taxa de juros. Seja em vista da necessidade de menor ativismo da política monetária devido à deterioração das expectativas sobre a economia internacional, seja em vista de uma mudança nos princípios de condução da macroeconomia pelo Banco Central, ou de ambos, a convergência das taxas de juros reais no Brasil para valores mais próximos aos vigentes no restante do planeta poderá promover importante redução no custo de capital, impactando de forma muito favorável as decisões de investimento. Adicionalmente, características específicas da indústria brasileira de petróleo, decorrentes do enorme potencial trazido pela exploração do pré-sal, poderão constituir um importante driver de investimentos e também contribuir decisivamente para a intensificação da formação de capital.

Por fim, mas não menos importante, restam os efeitos esperados do novo modelo de política industrial, baseado na edição de regimes competitivos setoriais, que vem sendo experimentado pelo governo federal. Ainda que esse novo modelo esteja em construção, ele aponta na direção correta de condicionar desonerações de impostos e encargos sociais assim como a concessão de incentivos fiscais e financeiros a comportamentos mais pró-investimento por parte das empresas. Se vier a ser bem desenhada e implementada, a nova política industrial poderá constituir uma peça importante para ajudar a sustentar uma taxa de investimento mais elevada, compatível com a aceleração do ritmo de crescimento do país.

David Kupfer é professor do Instituto de Economia da UFRJ e coordenador do Grupo de Indústria e Competitividade (GIC-IE/UFRJ. Escreve mensalmente às segundas-feiras. E-mail: gic@ie.ufrj.br)

As contas da privatização

O Globo publica hoje matéria sobre os vinte anos de privatização de empresas estatais e diz que as empresas privatizadas responderam por um faturamento de R$ 3oo bilhões em 2010. A dólar de dezembro do ano passado, US$ 177 bilhões.

O total da receita com as privatizações, de 1991 a 2002, somou US$ 87,5 bilhões: US$ 59,5 bilhões em privatizações federais e US$ 28 bilhões em privatizações estaduais. Ou seja, metade do faturamento de um só ano destas empresas.

Diz o jornal que as empresas foram vendidas para reduzir o endividamento do Estado brasileiro. A dívida líquida do setor público no Brasil, em 1991, era de US$ 144 bilhões. Em 2002, com tudo que a privatização deveria ter “abatido” deste valor, era de US$ 300 bilhões.

Nem privatizar, nem dever, em si, são, em si, pecados. Vender mal, seja entregando o que é estratégico, seja fazendo isso na bacia das almas, por valores irrisórios, são. Dever, quando se paga juros módicos, pode ser o caminho para o desenvolvimento e o progresso. A juros extorsivos, porém, é apenas o caminho da escravidão ao rentismo.

A grande maioria das privatizações foi feita com financiamento público, com uma elevação brutal das tarifas cobradas nos servilos públicos, não se conservou participação do Estado nem para dirigir estrategicamente as suas atividades, nem para participar dos lucros que produziam.

Estamos pagando caro, muito caro, e ainda pagaremos por muitos anos por este período de vergonha da história brasileira.

Não foi uma estratégia, foi uma liquidação, uma entrega desavergonhada do que pertencia ao povo brasileiro.

Fonte: http://www.tijolaco.com/33131/

FNDC e PT irão pressionar o governo sobre o marco regulatório da mídia

O Fórum Nacional de Democratização da Comunicação (FNDC) encerrou nesta sexta (7) o prazo para participação da sociedade na construção de plataforma sobre marco regulatório da radiodifusão, e promete torná-la pública até 12 de outubro, Dia Mundial de Democratização da Comunicação. Já o PT anunciou que irá promover, até o final de novembro, seminário internacional para aprofundar o debate com a sociedade.

Carta Maior / Najla Passos

Data: 07/10/2011

BRASÍLIA – A pressão para que o ministério das Comunicações abra ainda este ano a consulta pública sobre o marco regulatório da radiodifusão revigora o polêmico debate sobre o assunto. O Fórum Nacional de Democratização da Comunicação (FNDC) encerrou nesta sexta-feira (7) o prazo para participação da sociedade na construção de plataforma sobre o tema, e promete torná-la pública até 12 de outubro, Dia Mundial de Democratização da Comunicação. Já o PT anunciou que irá promover, até o final de novembro, um seminário para aprofundar o debate com a sociedade.

“Esta regulamentação está atrasada quase 70 anos. Já foi feita nos Estados Unidos, em países da Europa e da América Latina. E nós, desde a Constituinte, em 1985, temos discutido o assunto sem conseguir superá-lo”, afirma o coordenador do FNDC, Celso Schröder, que também é presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj).

Segundo ele, a conjuntura atual de convergência midiática torna a medida ainda mais urgente, já que o interesse das multinacionais de telecomunicações pelo setor ameaça a produção de conteúdos nacionais e o próprio atual modelo de negócio do setor de radiodifusão.

O Ministério das Comunicações pretende aproveitar o debate do marco regulatório da mídia para também atualizar a Lei Geral das Telecomunicações (LGT). A proposta herdada pelo ministro Paulo Bernardo do ex-ministro Franklin Martins não previa alterações na LGT.

Para Schröder, o marco da mídia já foi amplamente discutido pela sociedade na Constituinte, na I Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), realizada pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom) em dezembro de 2009, e em seminário internacional da Secom no fim de 2010. É justamente por isso que o sindicalista atesta que o governo já possui acúmulo suficiente para apresentar sua proposta de marco regulatório.

“O governo Dilma tem uma dívida conosco e precisa apresentar uma posição ainda este ano, até porque em 2012 teremos novas eleições e o debate ficará comprometido”, diz o jornalista.

PT quer aprofundar debate


Após aprovar, no seu 4ª Congresso Nacional, em setembro, a defesa do marco regulatório para os setores de rádio de TV como bandeira de luta, o PT afirma que também quer aprofundar o debate. O secretário de Comunicação do Partido, deputado André Vargas (PR), afirma que o objetivo do evento, mais do que influenciar o governo, é debater o tema e afinar posições com a sociedade. “Queremos ouvir intelectuais, movimento, entidades, veículos… enfim, no apropriarmos dos conhecimentos que já vem sendo produzidos sobre o tema”, esclarece.

Entre os temas que considera imprescindíveis ao debate, estão o combate ao monopólio e à propriedade cruzada dos veículos, a criação de agência reguladora, a institucionalização da Conferência Nacional de Comunicação, a instituição de uma Lei de Direito de Respostas e a universalização da banda larga. “A quebra do monopólio, por exemplo, é matéria constitucional, mas precisa ser regulamentada para ser, de fato, viabilizada. E para agilizar o processo, vamos levantar todos os projeto sobre o tema que tramitam no Congresso”, afirma o deputado.

André Vargas reconhece que o PT enfrentará muita resistência, como acontece sempre que se propõe esse debate no país. “Tentaram estigmatizar nossa disposição de debater a regulação da mídia como desejo de censura à imprensa. Mas esta manobra está cada vez mais evidente para a população”, acrescenta.

Quando se pode sentir as negras nuvens que nos cobrirão

Taleb nos mostra a impossibilidade de prevermos sob um tecido complexo, definido por ele como o quarto quadrante, e que engloba o que tomamos por economia e finanças. Mas lui-même nos alerta que “se há nuvens no horizonte, se você pode vê-las, só então pode prever”. Taleb definiu a crise deflagrada pelo defunto Lehman como um white swan, ou um cisne branco (em oposição ao conceito de black swan), como passível de ter sido prevista. A crise que acomete a Zona do Euro é, indisputavelmente, uma continuidade daquilo que se iniciou em 2008. Portanto, suas consequências são previsíveis. E por que não colocam no papel quais são? Muitos o fazem, como Soros, Krugman, Delfim e Kaletsky, mas não queremos lê-las. Não podemos suportá-las mais. Vou tentar resumir aqui o que se lê por aí e ninguém quer ouvir:
- Esqueça stock picking pelos próximos seis meses. As bolsas estão subordinadas ao macro;
- A moeda euro vai se desvalorizar adamastoricamente. Se ao cabo não for extinta, valerá par com o dólar americano;
- Em tese, a Zona do Euro tem salvação, mas não será salva, porque o homem não consegue transcender sua instância humana, e envergar politicamente para fazer o que é tecnicamente correto; leiam Cachorros de Palha, de John Gray. Não há provisão para qualquer coisa igual ou maior do que a Espanha; e a Alemanha reluta em usar seu espaço fiscal e monetário para boost a região. Para alguns a austeridade é um vício;
- A taxa nominal básica de juros no Brasil vai cair para baixo de dois dígitos rapidamente. Não ouça o economista do seu banco que lhe diz o contrário. “Não há abandono da política de metas de inflação quando se altera o peso dado ao desvio entre a inflação corrente e sua meta, relativamente ao desvio entre o PIB e o PIB potencial”, ADN;
- A crise global vai sim chegar ao Brasil em 2012, assumindo, obviamente, particularidades tropicais, assim que o mundo se convencer que a China deverá crescer a 5% e não a 10% ao ano para o médio prazo. Há fortes indícios de que isso acontecerá;
- Algumas empresas de real estate listadas em Bolsa vão sim quebrar, seja por alavancagem ou por fraude. Temos que ter nossos próprios defuntos. Aliás, fique longe de Santander;
- Não morreria de espanto se o Real se desvalorizasse fortemente a partir de 2012, digamos, de volta aos R$ 2,80, e por que não?
O que fazer? O óbvio: dólar x euro, hedge em Ibovespa, se a compulsão por comprar for demais, arrisque em uma Ambev da vida, esqueça petróleo e petrolíferas, despeça o motorista e cozinheira: a coisa vai ficar selvagem!

A nova luta pela independência

Carta Maior / Mauro Santayana

O quadro internacional, se é preocupante por um lado, com a rearticulação dos velhos imperialistas, é, da mesma forma, oportunidade para a consolidação institucional da União Sulamericana, como passo necessário à aliança mais vasta, que compreenda todos os países do continente ao sul da fronteira com os Estados Unidos.

Acossada por uma crise econômica gravíssima, a Europa busca reforçar a aliança histórica com os Estados Unidos, a fim de consolidar e ampliar a sua presença na América Latina e na África – mas isso parece improvável.

Todos os movimentos, diplomáticos e militares, nestes últimos meses, dão nitidez a essa percepção, expressa ainda de maneira discreta por alguns analistas internacionais. Trata-se, conforme a velha imagem, do abraço dos afogados.

Ainda agora, Zapatero, que assumiu o governo com grandes esperanças da esquerda, depois da desoladora atuação da direita, com Aznar, leva a Espanha a integrar o famoso escudo antimísseis dos Estados Unidos, permitindo aos ianques que, para isso, utilizem sua base naval em Rota, na Andaluzia. Essa base, construída em 1953, quando Washington estreitou relações com Franco, seu aliado na guerra fria, ocupa uma área estratégica no Atlântico, fora das águas do Mediterrâneo.

O passo humilhante de Zapatero não revela apenas submissão ideológica, mas erro político, mesmo dentro da consciência burguesa de nação. Como apontou, em seu editorial de hoje, sexta-feira, El País, trata-se de uma provocação à Rússia, que deve ser convencida a influir para que o Irã renuncie a seu projeto nuclear bélico. É claro que os russos, que não nasceram ontem, e conhecem a Europa Ocidental desde Ivã, o Terrível, sabem muito bem a que alvo apontam os foguetes norte-americanos. O fortalecimento de seus laços com o Irã e sua estratégia, a prazo maior, de restabelecer sua influência na Eurásia, com a esperada saída dos ianques do Iraque e do Afeganistão, orienta-lhe a postura. Seu veto à ameaça contra a Síria, ao lado da China, no Conselho de Segurança, é mais do que uma cortesia a Assad.

O quadro internacional, se é preocupante por um lado, com a rearticulação dos velhos imperialistas, é, da mesma forma, oportunidade para a consolidação institucional da União Sulamericana, como passo necessário a aliança mais vasta, que compreenda todos os países do continente ao sul da fronteira com os Estados Unidos. Enfim, é hora da definitiva independência de nossos povos, 200 anos depois da enganosa autonomia patrocinada pela Inglaterra e aprovada pelos europeus no Congresso de Viena.

O momento favorece, também, o retorno à esquerda, depois do desastrado recuo da União Soviética, com a traiçoeira capitulação de Gorbatchev. No mundo inteiro, e também no Brasil, houve o esmorecimento dos partidos de esquerda, com a deserção de conhecidos quadros intelectuais, e a permanência de diminutos núcleos de testemunho e resistência ideológica.

Na Europa, a social-democracia foi fazendo seu giro à direita, que atingiu também os partidos comunistas. O primeiro passo desses antigos partidos comunistas foi o abandono da denominação, como se o adjetivo, de origem tão generosa, se tornasse palavrão imoral. Enfim, parecia triunfante, ad-aeternum, o pensamento único, restaurador do fundamentalismo mercantil do século 17.

Passados trinta anos do reaganismo e vinte anos da Queda do Muro, o mundo desperta e, com ele, se restaura a silhueta de Marx. Teremos que voltar à consciência crítica e à filosofia da práxis, a fim de dar idéias ao movimento de massas que acaba de chegar aos Estados Unidos, e se acelere o processo histórico que, sendo necessário, passa a ser possível.

O Brasil, descontado o otimismo exagerado de alguns, terá de exercer resistência clara ao novo colonialismo, na consolidação da aliança continental, a partir dos mecanismos existentes, como o Mercosul, a Unasul, e o sistema de consultas militares entre os vizinhos. Devemos controlar, sem inibições, a atividade dos capitais estrangeiros. É conto da carochinha supor que o Banco Santander – que teve ontem sua nota rebaixada em diversas praças do mundo – esteja interessado no desenvolvimento autônomo do Brasil e em sua ação decisiva nas questões mundiais. O que os espanhóis pretendem é retornar ao domínio da América Latina, aproveitando-se da debilidade dos Estados Unidos. No âmago de sua arrogância, seus dirigentes acreditam que podem voltar aos séculos 16 e 17, ao tempo de Carlos V e de Filipe II, antes do desastre da Invencível Armada.

Convém recordar que a impetuosa invasão econômica da América Latina, com a compra de empresas nacionais, a partir das privatizações determinadas pelo Consenso de Washington e, no Brasil, pela submissão de Fernando Henrique, tem sido financiada com recursos da União Européia – que deveriam ter tido outro destino.

A nossa oportunidade é agora.