Arquivo mensais:outubro 2011

Dilma: Brasil não vai pagar por crise que não é dele

Por Yara Aquino*

Ao discursar nesta sexta-feira 14 em Porto Alegre, a presidenta Dilma Rousseff disse que o Brasil não irá pagar por uma crise financeira gerada por outros países e que é preciso ter a “humildade de cooperação” com os que estão enfrentando o problema.

“Não, não vamos deixar que o Brasil pague por uma crise que não é dele”, destacou durante o discurso de assinatura do Plano Brasil sem Miséria com governadores da Região Sul.

A presidenta citou o Fundo Monetário Internacional (FMI), ao lembrar que o país passou de devedor a credor do fundo e disse que possivelmente o Brasil terá maior participação na instituição e, assim, não aceitará que alguns critérios que foram impostos pelo FMI ao Brasil, no passado, sejam impostos a outros países.

Dilma reiterou também que a maior arma do país para enfrentar a crise é a força do mercado interno. “Como nossa raiz está no nossos mercado interno, nossa capacidade de resistência é muito elevada”, disse.

Na avaliação de Dilma, países que enfrentam dificuldades financeiras passam por processo semelhante ao da dívida brasileira, a partir de 1982. “Vivemos nossa crise da dívida soberana e aprendemos muito com o que foram duas décadas sem crescimento.”

Segundo o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), o programa vai buscar retirar 716 mil pessoas da miséria no Sul do país. Os três estados da região – Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina – têm 61% da população mais pobre concentrada na área urbana.

*Matéria publicada originalmente na Agência Brasil

Pânico em Washington

por Mauro Santayana, no seu blog

Ao morrer anos antes, Guimarães Rosa perdeu outro tema que a realidade dos sertões mineiros poderia ter oferecido à sua ficção: a da enlouquecida matança de inocentes por alguém acossado pelo medo de inimigos imaginários.

Durante alguns anos, um rico fazendeiro de Curvelo – cidade próxima a Cordisburgo, terra do escritor – manteve pequeno e eficiente grupo de pistoleiros, aos quais encarregava de identificar e matar suspeitos de tramar a sua morte. Os pistoleiros, que recebiam por empreitada, agiam com esperteza. Quaisquer estranhos que surgissem no município eram logo denunciados ao patrão, que, depois de exame sumário da situação, ordenava o assassinato. Os crimes só foram descobertos muito tempo depois, quando, por acaso, descobriram uma cisterna abandonada no distrito de Andrequicé, onde o fazendeiro tinha terras. Nela, exumaram-se ossos de trinta e seis vítimas. Os fatos foram conhecidos em 1975.

As investigações revelaram o horror: nenhuma das vítimas conhecia, sequer, o fazendeiro amedrontado. Eram caixeiros viajantes; turistas escoteiros, atraídos pelas grutas da região e pela represa de Três Marias, homens nascidos nas redondezas que, vivendo longe, visitavam seus parentes.

Os Estados Unidos, ao que parece, estão sob o meridiano fantástico e assustador de Andrequicé. Eles, nesta quadra, se encontram em situação semelhante. Em seu editorial de ontem, o New York Timesexpõe as dúvidas sobre o suposto complô iraniano contra o embaixador da Arábia Saudita em Washington e outros alvos. As acusações são bizarras e inconsistentes, diz o texto. E adverte o jornal que, desacreditados com tudo o que ocorreu com relação ao Iraque – quando os ianques mentiram do princípio ao fim – os altos funcionários do governo norte-americano deveriam ter provas irrefutáveis contra Teerã, antes de denunciar o plano. Como as coisas foram conduzidas – reitera o editorial – o governo está vendendo o que não tem, com impudência ridícula. Desde a guerra de anexação contra o México, no século 19, os Estados Unidos têm mentido e criado incidentes falsos para justificar seus atos de agressão, como fizeram, mais recentemente, no caso do golpe de 1964, no Brasil; no Chile de Allende; na Argentina; na Nicarágua; na Guatemala; em El Salvador; na República Dominicana; no Vietnã – em todos os países do mundo que não têm armas nucleares, e onde têm interesses.

Outro fato que faz lembrar o mandante do sertão mineiro, foi a decisão de Obama de ordenar o assassinato de um cidadão dos Estados Unidos no Iêmen, sem qualquer processo legal. O congressista republicano Ron Paul declarou que há fundamento legal para um processo de impeachment contra o presidente. Do ponto de vista técnico, trata-se de um assassinato por encomenda. Quanto a seu antecessor, Bush, há um pedido da Anistia Internacional ao governo do Canadá, para que o prenda – quando de sua visita ao país no dia 20 – e o submeta a julgamento por crimes contra a humanidade, por ter ordenado a tortura dos prisioneiros em Guantánamo e em outros lugares.

Convenhamos que não é fácil aceitar o declínio e o administrar com competência. Nisso, os ingleses, experientes e astutos, foram também eficientes, com a invenção da Commonwealth of Nations, o que, pelo menos, deu um pouco mais de fôlego à sua influência política nos domínios mais próximos da cultura européia, como os da Austrália e do Canadá.

Nesse processo de desvario das elites norte-americanas, que já acometeu outros impérios, a lucidez só pode ser imposta pelos próprios nacionais, o que é difícil e demorado, quando está em jogo a supremacia de seu país, mas pode ser inexorável. Tudo vai depender da persistência dos manifestantes e da capacidade que tenham de organizar e ampliar o movimento de resistência política.

É conhecida a tese de alguns historiadores, sobretudo de Toynbee, sobre o fim dos impérios: eles sempre desabam quando há a aliança entre o proletariado interno, o da metrópole, com o proletariado externo, isto é, o das províncias subordinadas. Ao que parece, com as manifestações dos indignados, nos paises centrais e nas antigas colônias, o proletariado do mundo começa a fazer suas alianças, de forma bem diversa da que Marx e Engels pregavam em 1848 – mesmo porque os trabalhadores de nosso tempo são bem diferentes, com a veloz transformação do processo tecnológico de produção dos últimos 60 anos. A articulação desses movimentos poderá surpreender o mundo, se os donos do poder não conseguirem, como já o fizeram antes, apropriar-se da indignação, domá-la e submetê-la aos seus interesses.

G20 quer liberar mais recursos para o FMI enfrentar a crise

Agência Brasil15 de outubro de 2011 às 18:17h

O G20, grupo das principais economias desenvolvidas e emergentes, pretende dotar o Fundo Monetário Internacional (FMI) com os recursos adequados para estancar uma eventual propagação da crise. O compromisso consta do projeto de comunicado final da reunião dos ministros das Finanças do grupo, que ocorre hoje (15) em Paris.

Segundo agências francesas, os 20 países mais ricos e emergentes prometem discutir mais detalhadamente o assunto durante o próximo encontro em Cannes, no Sul da França, em 3 e 4 de novembro.

Os recursos para o FMI estão no centro das discussões do G20. Vários países emergentes, entre os quais a China, o Brasil e a Índia, se mostram favoráveis a um reforço dos recursos do FMI. Os aportes devem ser suficientes para estancar uma eventual propagação da crise das dívidas soberanas a pesos pesados como a Itália ou Espanha e ao conjunto da economia mundial.

A França, que preside ao G20 até a reunião de Cannes, também está a favor de reforçar os recursos, assim como a diretora-geral do FMI, Christine Lagarde. Em contrapartida, a Alemanha mostra-se mais reservada, e os Estados Unidos, principal contribuidor do FMI, estão contra, considerando que a instituição multilateral se encontra dotada dos meios suficientes.

O G20 deverá ainda reiterar na reunião de hoje o seu compromisso a favor do crescimento mundial e o apoio aos bancos. O comunicado também saudará os progressos na resolução da crise na zona do euro, ao mesmo tempo em que pedirá a apresentação de um plano viável pelos países do bloco econômico até o encontro de Cannes.

Veja não apura, enlameia honras

A revista Veja sai aos sábados. Com isso, garante seu principal obejtivo “jornalístico”, que não é noticiar, mas “repercutir” nos jornais de domingo.

O que a revista tem contra o Ministro Orlando Silva é a declaração de um PM preso numa investigação sobre desvio de verbas, corroborada por um empregado seu.

Pode ser verdadeira ou não a declaração, não se prejulga. Mas parece ter pouca ou nenhuma lógica que um esquema de corrupção não tenha outro lugar e outra pessoa, na imensa Brasília, para entregar uma caixa de dinheiro senão a garagem do Ministério, onde há funcionários e, quam sabe, até câmeras. E muito menos ao próprio motorista do Ministro, com ele dentro do carro.

Jornalisticamente, não era informação a ser publicada sem ser checada. A fonte da informação tem um apontado comprometimento em desvio de verbas e a este homem  foi imputado, pelo próprio Ministério, um desvio de R$ 2 milhões dos cofres públicos, por irregularidades nas prestações de contas.

Mas a honra das pessoas, para a revista Veja, não é objeto de qualquer cuidado. O negócio é levantar a suspeita e que as pessoas cuidem de “provar a inocência”, depois, claro, de devidamente linchadas em praça pública.

É como gol em impedimento, que todo mundo vê depois que deveria ser anulado, mas depois de marcado, vale tanto quanto um legítimo. A investigação pedida pelo Ministro à Polícia Federal, a menos que conclua por sua culpa, ficará como pizza.

Claro, numa época de preparação para a Copa, o que mais eficiente do que construir um escândalo que respingue sobre nossas responsabilidades e seriedade com as negociações com a Fifa? Que já manifesta, por “funcionários” anônimos, a preocupação disso sobre a organização da comeptição.

A Fifa, como se sabe, tem excelentes relações com o probo Ricardo Teixeira, presidente da CBF.

Mas não pensem que, apesar disso, não povoa os sonhos desta gente tirarem a Copa do Brasil. Vai ser o sonho de todas as suas noites deste verão.

Fonte: http://www.tijolaco.com/veja-nao-apura-enlameia-honras/

Financiamento público: prós e contras

Marcos Coimbra / CartaCapital 

Existem alguns argumentos relevantes contra a adoção do financiamento público exclusivo para as campanhas eleitorais e muitos a favor. Está chegando a hora de decidir a respeito dele.

É uma das principais ideias em debate no Congresso e entre especialistas em legislação eleitoral, desde quando as discussões sobre a reforma política se intensificaram a partir do início desta legislatura. Foi já aprovada pela Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania do Senado e está no anteprojeto de reforma elaborado pela Comissão Especial da Câmara dos Deputados.

Entre os grandes partidos, o PT é o defensor número 1. Não só fez parte das resoluções de seu último Encontro Nacional como ganhou o envolvimento pessoal de Lula, que se tornou seu paladino. Em reuniões sucessivas com lideranças do PMDB e dos maiores partidos da base, ele tem procurado formar um consenso para viabilizar a proposta.

Seus adversários costumam usar motivos circunstanciais para justificar a posição, especialmente a antipatia da opinião pública. De fato, as pesquisas mostram que a grande maioria da população discorda da hipótese de que as campanhas sejam financiadas com recursos do Orçamento. As pessoas acham que isso significaria diminuir investimentos em áreas “mais nobres” e não resolveria o problema do caixa 2. Seria um sacrifício inútil.

Esse sentimento tem duas origens. De um lado, como nunca tivemos esse tipo de financiamento, não sabemos como seriam as coisas se existisse. Caso o sistema político o aprovasse, seria necessário mostrar suas vantagens à opinião pública, por meio de campanhas informativas, e torcer para todos se convencerem à medida que o novo modelo confirmasse, na prática, ser melhor do que o atual.

De outro, ele se funda no desconhecimento de que o modelo vigente depende fortemente da contribuição de recursos públicos. Ao contrário do que pensam muitos, o que está em discussão não é sair de um modelo “puro” para outro, mas de um modelo misto, onde recursos públicos e privados são combinados, para torná-lo exclusivamente público.

É difícil calcular quanto a mais os partidos teriam de arrecadar com pessoas físicas e jurídicas, caso não tivéssemos o aporte de recursos públicos às campanhas. O que sabemos é que a principal despesa das campanhas modernas, a compra de tempo de veiculação nos meios de comunicação de massa, é, no Brasil, bancada pela sociedade, na forma do “horário gratuito de propaganda eleitoral”. (Na de Obama, por exemplo, metade de tudo que foi gasto – o equivalente a 1,35 bilhão – destinou-se apenas a isso.)

Os partidos ainda recebem recursos públicos do Fundo Partidário, com o qual pagam o dia a dia e fazem face a custos fixos, indiretamente barateando suas despesas nos períodos eleitorais. A Justiça Eleitoral é encarregada de observar o cumprimento das exigências da legislação a respeito do fundo.

O relevante disso é que a possibilidade de controle é maior quando os recursos são públicos. Enquanto sempre pairam dúvidas sobre quanto e como gastam as campanhas dos que arrecadam entre cidadãos e empresas, as coisas são transparentes na parcela que provém do Orçamento.

No acesso aos meios de comunicação, integralmente financiado com recursos públicos, sabe-se tudo: como é a distribuição do tempo entre os partidos, o que é permitido e o que é proibido, em que penalidades incorre quem descumpre as regras. As decisões da Justiça Eleitoral podem ser discutidas, mas são rápidas, claras e tomadas de acordo com a lei.

Se o financiamento exclusivamente público fosse aprovado, teríamos algo parecido nos demais aspectos das campanhas. Antes das eleições, todos seriam informados de quanto cada partido pode gastar, que parte caberá a cada eleição, quanto será gasto em quê. Não só a Justiça Eleitoral, mas qualquer organização ou pessoa poderá acompanhar e fiscalizar o que tiver sido estabelecido.

Isso resolverá os problemas de arrecadação irregular e corrupção? É claro que não. Mas tem tudo para melhorar a situação de hoje.

O financiamento exclusivamente público tem um mérito adicional no seu efeito equalizador, anulando (no mínimo, reduzindo) a vantagem que partidos e candidatos vinculados às elites econômicas têm em relação aos demais. Isso pode ser criticável do ponto de vista da ortodoxia liberal, mas é benéfico para a consolidação de uma cultura política democrática.

Como acontece com o tempo de televisão e o fundo partidário, as legendas dinâmicas tendem a ganhar mais que as declinantes, pois o acesso a recursos públicos é sempre condicionado ao desempenho: mais para quem tem mais votos, ou seja, mais apoio social. É assim que as coisas funcionam nos países onde há algum tipo de financiamento público.

Deve ser por isso que certas lideranças da oposição e alguns comentaristas da mídia conservadora são tão contra a ideia. Acham que ela só é “boa para o PT”. Na verdade, é boa para todos os partidos, desde que tenham vida partidária real e votos.

Governo para a globalização

Por Jeffrey D Sachs / Valor Econômico

 

Vivemos uma era em que as forças mais importantes que afetam todas as economias são mundiais, e não locais. O que acontece “no exterior” – na China, Índia e em outros países – afeta substancialmente uma economia tão grande como a dos Estados Unidos.

A globalização econômica, como sabemos, produziu alguns grandes benefícios para o mundo, entre eles a rápida disseminação de tecnologias avançadas, como a internet e a telefonia móvel. A globalização também reduziu drasticamente a pobreza em muitas economias emergentes – de fato, só por esse motivo, a economia mundial deve permanecer aberta e interligada.

Mas a globalização também criou grandes problemas que precisam ser enfrentados. Primeiro, ela ampliou as possibilidades de sonegação de impostos, por causa de uma rápida proliferação dos paraísos tributários em todo o mundo. As empresas multinacionais têm agora muito mais oportunidades para não pagar sua justa e eficiente parte da tributação.

Após três anos cedendo aos lobistas empresariais, Barack Obama começou a enfatizar a necessidade de que os americanos ricos paguem mais impostos. Há um vislumbre de esperança de que ele irá defender uma política orçamentária mais justa.

Além disso, a globalização criou tanto perdedores como vencedores. Em países de alta renda, especialmente os EUA, na Europa e o Japão, os maiores perdedores são aqueles trabalhadores que não têm condição de competir com trabalhadores que ganham baixos salários nos países em desenvolvimento. Os mais atingidos são os trabalhadores nos países ricos que não têm educação universitária. Milhões desses trabalhadores perderam seus emprego. Aqueles que mantiveram seus empregos viram seus salários estagnar ou encolher.

A globalização também alimentou o contágio. A crise financeira de 2008 começou em Wall Street, mas alastrou-se rapidamente para todo o mundo, evidenciando a necessidade de cooperação mundial no terreno bancário e financeiro. Mudanças climáticas, doenças infecciosas, terrorismo e outros males que podem facilmente cruzar fronteiras exigem uma resposta mundial similar.

O que a globalização exige, portanto, são políticas de governo inteligentes. Os governos precisam promover educação de alta qualidade, para assegurar que os jovens estejam preparados para enfrentar a concorrência mundial. Eles devem incrementar a produtividade mediante a construção de infraestrutura moderna e do incentivo a ciência e tecnologia. E os governos devem cooperar em âmbito mundial para regulamentar os setores da economia – especialmente finanças e meio ambiente – onde os problemas de um país podem se disseminar para outras regiões do mundo.

A necessidade de governos extremamente eficazes na era da globalização é a mensagem chave de meu novo livro, “The Price of Civilization”. Essencialmente: hoje, precisamos de mais governo, e não menos. Mas o papel dos governos também precisa ser modernizado, em consonância com os problemas específicos criados por uma economia mundial interconectada.

Eu escrevi “The Price of Civilization” com a convicção de que o governo dos EUA não compreendeu os (nem reagiu aos) desafios da globalização desde que ela começou a impactar a economia americana na década de 1970. Em vez de reagir à globalização com mais gastos governamentais em educação, infraestrutura e tecnologia, Ronald Reagan ganhou a presidência em 1980 comprometendo-se a reduzir os gastos do governo e a cortar impostos.

Durante 30 anos, os EUA vêm caminhando na direção errada, reduzindo o papel do governo na economia doméstica, em vez de incentivar os investimentos necessários para modernizar a economia e a força de trabalho. Os ricos beneficiaram-se em curto prazo, obtendo enormes reduções de impostos. Os pobres sofreram com a perda de empregos e cortes nos serviços públicos. A desigualdade econômica atingiu um auge não visto desde a Grande Depressão.

 

 

Essas tendências adversas foram exacerbadas pelo cenário político interno. Os ricos têm usado sua riqueza para reforçar sua permanência no poder. Eles bancam as caras campanhas de presidentes e congressistas, para que presidentes e congressistas ajudem os ricos – frequentemente em detrimento do restante da sociedade. A mesma síndrome – na qual os ricos conquistaram o controle sobre o sistema político (ou reforçaram seu controle sobre ele) – agora aflige muitos outros países.

Mas há alguns sinais importantes, em todo o mundo, segundo os quais as pessoas estão cansadas dos governos que servem os ricos, ignorando todos os demais. Para começar, há crescentes apelos por maior justiça social. As insurreições em Tunis e no Cairo foram as primeiras da denominada Primavera Árabe, porque pareciam ser limitadas ao mundo árabe. Mas, depois, vimos protestos em Tel Aviv, Santiago, Londres e, agora, até mesmo nos EUA. Esses protestos têm cobrado, em primeiríssimo lugar, uma política mais inclusiva, em vez das políticas corruptas das oligarquias.

Além disso, o presidente dos EUA, Barack Obama está gradualmente movendo-se para a esquerda. Após três anos em que seu governo cedeu aos lobistas empresariais, Obama finalmente começou a enfatizar a necessidade de os ricos pagarem mais impostos. Isto acontece no fim de seu mandato, e ele poderia muito bem continuar a privilegiar os ricos e Wall Street em troca de contribuições de campanha em 2012, mas há um vislumbre de esperança de que Obama irá defender uma política orçamentária mais justa.

Vários governos europeus, como a Espanha, a Dinamarca e a Grécia, também parecem estar se movendo na mesma direção. A Espanha recentemente impôs um novo imposto sobre a riqueza de contribuintes muito ricos. A Dinamarca elegeu um governo de centro-esquerda comprometido com um aumento dos gastos públicos financiado por novos impostos sobre os ricos. E a Grécia acaba de aprovar um novo imposto imobiliário para ajudar a fechar seu crescente déficit fiscal.

A Comissão Europeia também defendeu um novo Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) para captar cerca de US$ 75 bilhões por ano. A Comissão finalmente aceitou que o setor financeiro europeu tem sido subtributado. O novo IOF ainda poderá defrontar-se com oposição política na Europa, especialmente no Reino Unido, devido a seu grande e influente setor bancário, mas pelo menos o princípio de maior equanimidade tributária está no topo da agenda europeia.

As economias mais bem sucedidas do mundo, hoje, estão na Escandinávia. Usando impostos altos para financiar elevados níveis de serviços governamentais, esses países têm grande prosperidade equilibrada com justiça social e ambiente sustentável. Essa é a chave para o bem-estar na economia globalizada contemporânea. Mais regiões do mundo – e especialmente os jovens em todo o mundo – estão começando a reconhecer essa nova realidade. (Tradução Sergio Blum)

Jeffrey D Sachs é professor de economia e diretor do Instituto Terra, na Columbia University. Ele também é Assessor Especial do Secretário-Geral da ONU para os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. Copyright: Project Syndicate, 2011.

Desenvolvimento e conjuntura

Debater um tema recorrente na mídia não é um desafio menor. Em alguns momentos, dependendo das circunstâncias e dos atores envolvidos, essa discussão se assemelha a um “Trabalho de Sísifo”.

Segundo Simon Kuznets (1959), “o desenvolvimento econômico moderno é, em substância, uma aplicação do sistema industrial, isto é, de um sistema de produção baseado em crescente uso de modernos conhecimentos científicos”. Esse processo demanda, invariavelmente, algum grau de centralização das decisões econômicas e capacidade das sociedades em absorver mudanças. A importância das inovações não é recente na história econômica.

Em defesa das políticas industriais, deve-se ressaltar que, além da complementaridade entre manufaturas e serviços, a produtividade costuma ser mais elevada nas manufaturas, tendendo a aumentar mais rapidamente do que na agricultura ou nos serviços. De acordo com Dani Rodrik (2011), as diferenças de produtividade média podem chegar à casa de 75% em favor das manufaturas. Portanto, sem um setor de manufatura forte, trata-se de algo muito difícil desenvolver serviços de alta produtividade.

No passado, os países hoje mais desenvolvidos adotaram ativamente políticas industriais, comerciais e tecnológicas para promover suas indústrias nascentes. Japão, Coréia do Sul, Taiwan e China compreenderam essa questão na segunda metade do século XX; suas extraordinárias capacidades produtivas adquiridas assentam-se, em grande parte, no apoio governamental a novos e dinâmicos setores produtivos. Facilidades de acesso ao crédito e exigências de conteúdo local na produção resultaram no nascimento de fornecedores de produtos sofisticados. Incentivos à exportação ajudaram suas empresas a penetrar em mercados mais exigentes e competitivos, enquanto o aprendizado ocorria no âmbito organizacional.

Forças globais de mercado não criam espontaneamente caminhos de convergência econômica entre países ricos e pobres. Dificuldades existem para os países menos desenvolvidos. As empresas transnacionais sediadas nos países desenvolvidos chegam a responder por dois terços do comércio global e três quartos dos fluxos dos investimentos estrangeiros diretos. EUA, Europa e Japão dominam a alta tecnologia, sendo que respondem por aproximadamente 90% do potencial tecnocientífico global. Os principais laboratórios de pesquisa e desenvolvimento ainda estão concentrados nos países desenvolvidos.

Recomendações para o desenvolvimento das sociedades são muitas, porém difíceis de serem transladadas. As sociedades precisam estar abertas à experimentação. Não existem receitas universais que sirvam para todos os casos. Entretanto, a análise econométrica empreendida por Rodrik (1999) chama a atenção pelo fato de identificar que os países que conseguiram sustentar o processo de crescimento econômico após a Segunda Guerra foram capazes de articular uma ambiciosa política doméstica de investimentos produtivos com instituições capazes de lidar com os choques externos adversos, não os que confiaram na mobilidade do capital e na redução indiscriminada de suas barreiras alfandegárias.

Nesse sentido, chama a atenção um estudo divulgado pelo Ipea que trata do efeito da sobrevalorização cambial nas tarifas consolidadas e aplicadas pelo Brasil (Comunicado do Ipea n.106, de 11 de agosto de 2011). Para uma valorização cambial do real que ultrapassou 30%, as tarifas aplicadas e consolidadas na OMC encontram-se anuladas: “a valorização da sua moeda praticamente anula o instrumento das tarifas e representa incentivo às importações em geral”. Infelizmente, não se pode esperar que seja eficaz a nova política industrial brasileira.

Ao se referir aos desafios do desenvolvimento, Joseph Stiglitz (1989) afirmou “o que está em jogo é mais do que apenas diferenças nas dotações dos fatores, mas sim aspectos básicos da organização da economia, incluindo o funcionamento dos mercados”. Instituições têm um papel-chave nesse complexo processo, reduzindo incertezas e garantindo alguma previsibilidade.

Desde 1995 a média do pagamento de juros no Brasil ultrapassou os 5% do PIB em um contexto no qual a média internacional foi de 2%. Alegou-se então que a taxa básica de juros precisava ser alta para atrair capitais (poupança externa) e também controlar a inflação doméstica, garantindo o que se convencionou chamar de “confiança do mercado”. Segundo Keynes (1936), “a sabedoria universal indica ser melhor para a reputação fracassar junto com o mercado do que vencer contra ele”.

A argumentação atual em favor de uma taxa básica elevada parece dizer respeito ao controle da inflação doméstica. Sendo esse o caso, parece fazer mais sentido a adoção de medidas prudenciais de redução dos prazos dos novos empréstimos para a aquisição de bens de consumo duráveis, por exemplo. Olivier Blanchard (2011), por sua vez, aponta cinco instrumentos que devem ser usados de forma coordenada para lidar com a entrada excessiva de recursos numa economia – (i) política monetária, (ii) política fiscal, (iii) medidas prudenciais, (iv) acumulação de reservas como forma de intervenção no mercado de câmbio e (v) controle de capitais. Não se faz necessário seguir essa ordem na condução da política econômica; devem ser avaliadas as necessidades, ponderando-se os efeitos das medidas.

Incertezas do cenário externo e os sinais de novo mergulho da economia mundial merecem cautela, discussão qualificada e um plano para o enfrentamento de um cenário adverso. Tensões nas relações comerciais estão no ar. Parece pouco provável que os políticos das nações desenvolvidas assistam passivamente a deterioração das relações sociais domésticas.

Até que ponto as altas taxas de desemprego nos EUA e na Europa não provocarão uma onda protecionista? Como o Brasil pretende se posicionar nesse ambiente?

Rodrigo L. Medeiros: D. Sc. em Engenharia de Produção pela Coppe/UFRJ, integra a World Economics Association.

 

Publicado originalmente em: http://www.monitormercantil.com.br/mostranoticia.php?id=102230