A hipocrisia dos dirigentes das grandes potências

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Flavio Lyra. 

Para o cidadão comum, que se informa sobre os acontecimentos mundiais pela grande mídia, chega a ser confortante e mesmo tranquilizante ouvir os pronunciamentos  otimistas dos dirigentes dos grandes paises. Estes, em nome da implantação de governos democráticos, saudam e elogiam os povos dos pequenos paises pela derrubada de seus governos autoritários, muitas vezes, com o trucidamento de seus chefes em verdadeiros atos de selvageria. O caso mais recente é o Kadafi e da Líbia.

Tudo se passa como se a implantação de formas democráticas de governo nesses paises ocorressem automaticamente e fossem a solução para a exploração secular a que as grandes potências têm submetido seus povos, inclusive com o patrocínio e sustentação de governos ditatoriais, enquanto é conveniente para os interesses dessas potências.

Não é irrelevante chamar a atenção para o fato de que a ditadura de Moubarak, recém derrubada no Egito, contava desde seu início, com o apoio das grandes potências. O atual reino da Arábia Saudita, principal produtor de petróleo do mundo, nada possui de democrático, com a maioria de seu povo vivendo em condições de grande pobreza e sua família real e súditos leais desfrutando de altíssimo padrão de vida. Para a proteção dessas instituições feudais e defesa das instalações petrolíferas, os Estados mantêm ali uma importante base militar, prepararada para intervir, quando conveniente, em todo o Oriente Médio.

O assassinato de Kadafi, ex-ditador da Líbia, é apenas mais um episódio de violência, ao lado de tantos outros em que, sob o estímulo e participação das grandes potências, tomam forma rebeliões em nome dos nobres valores democráticos e de defesa dos direitos humanos. A realidade, porém, é outra bem menos nobre. O que está em jogo são os interesses econômicos associados à exploração do petróleo. O Oriente Médio, produz nada menos que 36% da produção mundial de petroleo, dos quais não consome mais do que 2%. O restante, destina-se a manter o alto padrão de vida das grandes potências.

A importância estratégica do Oriente Médio para a sustentação do padrão de vida das grandes potências com o abastecimento de petróleo, em boa medida explica a proteção que os Estados Unidos concedem a Israel, ao transformar este pequeno país, de 10 milhões de habitantes, numa potência militar. Há razões humanitárias para essa proteção, mas não são elas que predominam, mas sim o de manter uma ponta de lança do poder militar dos Estados Unidos, no meio aos paises arábes. Desde a nacionalização do Canal de Suez pelo Egito, sob o governo de Gamal Abdel Nasser, em 1956, que as potências ocidentais se sentem ameaçadas pelo nacionalismo arábe e patrocinam formas abertas e disfarçadas de intervenção em seus governos.

Por certo, não vai aqui qualquer intenção de defender formas autoritárias de governo, que quase sempre vêm em detrimento da dignidade e do bem-estar das povos a elas submetidos. Tampouco, pretende-se colocar Kadafi como um exemplo de governante a ser defendido para qualquer país.

O que choca é a hipocrísia dos dirigentes das grandes potências, os verdadeiros algozes dos pequenos paises, em usarem os valores democráticos, para justificarem a derrubada dos governos para cuja manutenção contribuiram ao longo dos anos, sem qualquer preocupação com o bem-estar dos povos desses paises.

No caso da derrubada de Kadafi, os Estados Unidos não tiveram participação direta, mas deixaram a tarefa para a França e a Inglaterra, membros da OTAN, na qual quem manda de fato são eles, na condição de maior potência militar do mundo. Os Estados Unidos omitiram-se de atuar diretamente, pois estão envolvidos expressivamente com duas guerras imorais: Iraque e Afeganistão que já produziram mais de 100 mil mortos.

As informações que circulam na Internet permitem supor que sem os bombardeios da OTAN, os milhares de mercenários contratados pela Inglaterra e despejados na Líbia e a grande quantidade de armas fornecidas aos insurgentes, é pouco provável que o desfecho tivesse sido o da derrota do governo de Kadafi. Não deve ser esquecido que a Líbia possui o nivel mais elevado da Africa do índice de Desenvolvimento Humano, o IDH, para o qual certamente contribuiu o governo de Kadafi, usando os recursos do pétroleo.

Só os desinformados e ingênuos contentam-se com as versões de que a destituição e prisão do Primeiro-Ministro do Iran, Mossadegh, em 1953, não foi fruto de uma conspiração patrocinada pela Inglaterra e pelos Estados Unidos (CIA), para afastar do poder o líder nacionalista que havia comandado a nacionalização do petróleo iraniano

A derrubada do governo legal de Jacob Arbens na Guatemala, em 1954, também foi fruto de uma ação da CIA, pois ele propunha-se a mudar as regras do jogo que favoreciam absurdamente a exploração dos agricultores locais pela United Fruit, empresa norteamericana.

O dedo da CIA também esteve presente no golpe de Estado do terrível General Pinochet em 1973 no Chile, no golpe militar de 1964 no Brasil e nas demais ditaduras que tomaram conta do cenário político da América Latina nos anos 70-80.

Por fim, os golpistas que tentaram destituir o governo de Chaves na Venezuela, em 2002, e nos primeiros dias constituiram um governo autoritário, também agiram em articulação com a CIA.

Faz todo sentido, portanto, o temor que militares brasileiros revelam sobre a intervenção de forças militares ligadas às grandes potências no território nacional para defender interesses daqueles paises. Nunca é demais lembrar que quando os Estados Unidos queriam construir o canal do Panamá, fomentaram um movimento rebelde na parte do território Colombiano que posteriormente declarou sua independência, sob o nome de Panamá e, em seguida, fez um acordo com os Estados Unidos para construir e administrar o canal de mesmo nome até muito recentemente.

Os tempos mudaram, mas os antigos metódos ainda continuam muito vivos, baseados o uso da força para submeter os paises mais frágeis e controlar seus mercados e recursos naturais. Não nos deixemos iludir com os discursos de boa vontade de Obama, de Sarkozy, nem de Cameron, eles são apenas a aparência externa de uma realidade dura e iníqua que é da exploração econômica dos paises mais fragéis que dispõem de potencial de mercado e/ou de recursos naturais.

Para eles é indiferente que vivamos em ditaturas ou em democracias, o que lhes importa é o grau de dificuldade que lhes impomos para atender os objetivos de suas grandes corporações. Cabe sempre a indagação: se as grandes potências preocupam-se realmente com os povos mais pobres, por que não ajudam a matar a fome dos milhões de miseráveis que vegetam no continente africano, contribuindo para o desenvolvimento de sua produção de alimentos? O que fazem, em realidade, é subsidiar sua própria produção e, por esse meio, desestimular a produção mais cara nos países mais pobres, condenado-os à dependência, à fome e ao desespero. Que outro nome pode ter esse sistema, se não capitalista? 

Uma ideia sobre “A hipocrisia dos dirigentes das grandes potências

  1. mauricio

    Recomendo aos interessados a leitura do vasto material, disponivel em sitios militares ingleses e norte-americanos, bem como em sitios que colecionam documentos obtidos via FOIA, concernente a operacoes psicologicas, information warfare e temas correlatos.

    Ha um conceito muito interessante, de uso abundante nos manuais, pelo menos ate 2010 – perception management.

    Um bom sitio para comecar, sugiro, seria http://www.fas.org

    Imprescindivel a leitura dos relatorios do Comite Church (decada de 1970) – http://www.archive.org/details/finalreportofsel01unit (volume 1 de 6)

    Especial atencao deve ser concedida ao capitulo que detalha as relacoes entre inteligencia, midia e editoras (publishing houses).

    Fundamental a compreensao da ideia – presente no relatorio – do papel dos livros como principal arma de manipulacao psicologica a longo prazo. Ate 1961, mais de 1000 obras – a maioria em linguas outras que nao o ingles – haviam sido produzidas por um dos sub-programas relatados. Mas fiquem tranquilos, afinal todos esses programas foram cancelados e variantes deles nao mais existem…

    Como explicar o sistematico desinteresse da comunidade de analistas – nacionais e internacionais – sobre esses assuntos (teclado sem ponto de interrogacao nem acentos).

    Boa leitura!

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