O investimento após 2011

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Por David Kupfer / Valor Econômico

 

Pelo andar da carruagem, 2011 já deixou antever que não será um ano marcado como o da retomada do ritmo de investimento, perdido pela economia brasileira após o grande crash financeiro de 2008. Considerando-se o terceiro trimestre, já transcorrido mas ainda não captado pelas estatísticas, e o quarto trimestre, recém-iniciado, pode-se esperar que os dados, quando disponíveis, irão mostrar um final de ano bastante desanimado nessa campo. Com isso, dificilmente a formação bruta de capital fixo conseguirá repetir a taxa de 18,4% do Produto Interno Bruto (PIB) atingida em 2010. Mais provavelmente os valores deverão recuar para a casa dos 18% ou mesmo um pouco menos, deixando ainda mais distante a barreira dos 20%, que não é superada pela economia brasileira desde a década de 1980.

É claro que parcela importante desse indesejado recuo na formação de capital fixo decorre dos sinais negativos que, menos pelas expectativas de recessão e mais pela elevação das incertezas, a atual conjuntura internacional vem despejando sobre o ânimo dos investidores. Merecem registro, porém, algumas tendências fortes que deverão sobreviver à atual conjuntura e passarão a guiar as perspectivas do investimento no Brasil nos próximos anos.

Dentre essas tendências, tudo indica que uma longa fase de barateamento dos preços do investimento está chegando ao fim. Especialmente os componentes comercializáveis do investimento, os bens de capital, deverão passar a exibir preços em ascensão, refletindo o término de um processo que se iniciou com a liberalização comercial dos primeiros anos da década de 1990, que favoreceu o acesso às máquinas e equipamentos importados e prosseguiu com as sucessivas rodadas de apreciação cambial ocorridas desde então, que reduziram sobremaneira os preços em reais desses bens. De fato, não há mais muito espaço para liberalizar o acesso a bens de capital externos enquanto do lado da taxa de câmbio as perspectivas para os próximos anos são de mudança de sinal ou ao menos de interrupção do processo de apreciação do real.

Na indústria, a expansão da produção de commodities pode sofrer uma onda de adiamentos e de interrupções

Se pelo lado dos preços parece razoável prever um aumento do esforço de investimento requerido para se obter um dado montante de crescimento do PIB, algo similar também deve ser esperado pelo lado das quantidades. Há boas razões para se acreditar que a composição do investimento está se alterando em direção a uma maior presença de infraestrutura (energia e transportes) e também da construção habitacional. Não há dúvida que, em vista do déficit historicamente acumulado pelo país na oferta desses bens, essa seja uma mudança desejável. Não se pode esquecer, porém, que ambas atividades caracterizam-se por exibirem as mais elevadas relações capital-produto da economia. Por exemplo, os dados disponíveis nas contas nacionais brasileiras mostram que, no país, a relação capital-produto incremental da atividade de exploração e produção de petróleo é três vezes maior que a da indústria de transformação.

Já na indústria, a expansão da capacidade de produção de commodities, que responde por grande parcela da formação de capital, e que já vinha em desaceleração diante das perspectivas menos favoráveis do comércio internacional, poderá sofrer uma onda de adiamentos e interrupções se o processo, ora ainda suave, de reversão do ciclo ascendente dos preços, ganhar intensidade.

Mas há também mudanças positivas que podem contrabalançar a tendência de aumento do esforço de investimento esperada para o futuro próximo. A principal delas, caso venha a se confirmar, é a prevalência de uma trajetória declinante para a taxa de juros. Seja em vista da necessidade de menor ativismo da política monetária devido à deterioração das expectativas sobre a economia internacional, seja em vista de uma mudança nos princípios de condução da macroeconomia pelo Banco Central, ou de ambos, a convergência das taxas de juros reais no Brasil para valores mais próximos aos vigentes no restante do planeta poderá promover importante redução no custo de capital, impactando de forma muito favorável as decisões de investimento. Adicionalmente, características específicas da indústria brasileira de petróleo, decorrentes do enorme potencial trazido pela exploração do pré-sal, poderão constituir um importante driver de investimentos e também contribuir decisivamente para a intensificação da formação de capital.

Por fim, mas não menos importante, restam os efeitos esperados do novo modelo de política industrial, baseado na edição de regimes competitivos setoriais, que vem sendo experimentado pelo governo federal. Ainda que esse novo modelo esteja em construção, ele aponta na direção correta de condicionar desonerações de impostos e encargos sociais assim como a concessão de incentivos fiscais e financeiros a comportamentos mais pró-investimento por parte das empresas. Se vier a ser bem desenhada e implementada, a nova política industrial poderá constituir uma peça importante para ajudar a sustentar uma taxa de investimento mais elevada, compatível com a aceleração do ritmo de crescimento do país.

David Kupfer é professor do Instituto de Economia da UFRJ e coordenador do Grupo de Indústria e Competitividade (GIC-IE/UFRJ. Escreve mensalmente às segundas-feiras. E-mail: gic@ie.ufrj.br)

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