Arquivo mensais:setembro 2011

Palestina: “se nada mudar em setembro, haverá uma grande decepção”

Eduardo Febbro – Direto de Jerusalém

A Praça de Al Manara, centro nevrálgico de Ramallah, brilhava com a agitação dos melhores dias. Sob as bandeiras das nações que já respaldaram um Estado Palestino independente, cerca de 20 mil pessoas saíram às ruas de Ramallah até a emblemática praça para apoiar o que, em todas as formas possíveis, diziam os cartazes: “Sim a um Estado, sim à liberdade, sim à integração plena às Nações Unidas”. Os palestinos nunca perdem o humor, inclusive nos piores momentos, nem com um sol que queima os lábios. A marcha foi organizada pelo movimento Palestino 194, nome explícito que se refere ao número que um Estado Palestino teria dentro da ONU. “Agora iremos até o final, pacificamente, como pede nosso presidente, resistência sem golpes nem morte”, diz Ahmad, um dos homens do movimento 194. Em uma das ruas que desembocam na praça, os manifestantes construíram uma imensa poltrona, muito parecida com as que se usam na ONU. Por enquanto, os protestos quase quotidianos se mantêm afastados dos pontos de passagem, das colônias e dos soldados israelenses.

Não restam muitas opções aos palestinos: vivem com um muro de 700 quilômetros e estão negociando há mais de 20 anos sem ter obtido outra coisa que não seja o aumento da colonização. Esse é o grande problema de toda negociação: desde os acordos de Oslo, o número de colonos israelenses se multiplicou por dois, chegando hoje à casa do meio milhão na Cisjordânia.

Não há convivência pacífica possível. Os colonos estão armados, são treinados pelo exército israelense e costumam fazer incursões provocadoras nas localidades palestinas. Os colonos, como boa parte da classe política, intelectual e da sociedade israelense, sentem-se ameaçados pela iniciativa de Mahmud Abbas nas Nações Unidas. Um locutor da rádio pública israelense lamentou-se dizendo: “O governo turco está contra nós, no Egito, a população está contra nós, e na ONU a maioria dos Estados que a integram também estão contra nós”. E agora vem o pôquer da ONU. O gabinete do primeiro ministro Benjamin Netanyahu já advertiu: “se os palestinos mudam não só as regras do jogo, mas também o jogo em si mesmo, Israel sabe como responder e poderá garantir seus interesses sem depender das limitações e das concessões oriundas dos acordos anteriores, incluídos os de Oslo”.

Os palestinos alegam que, no atual estado de coisas e com um processo de paz permanente bloqueado, Barack Obama na obscuridade e a União Europeia incapaz de superar suas divisões, não havia outro remédio. O governo israelense, por meio do chefe de sua diplomacia, Avigdor Lieberman, acusa os palestinos de “preparar um banho de sangue”. O Executivo fala, inclusive de uma espécie de “tsunami diplomático” se Mahmud Abbas levar adiante seu projeto.

Ghasan Khatib, porta-voz da Autoridade Palestina, tem outra análise quando lembra que todas as negociações realizadas nos últimos vinte anos tem sido sempre a favor de Israel e de Washington e que a consequência dessa dinâmica é o “caminho sem saída a que chegamos”. Os palestinos, porém, também estão divididos sobre a questão, tanto quanto alguns intelectuais e editorialistas israelenses que criticam o governo de Netanyahu, seu imobilismo, sua incapacidade de levar adiante uma iniciativa que reative o processo de paz e retire Israel do isolamento no qual está caindo.

Ari Shavit, editorialista do Haaretz, escreveu há alguns dias: “o governo israelense é incapaz de lançar uma iniciativa política que atenue a hostilidade árabe, turca e palestina. O governo pactua sua aliança com o Ocidente e queima os navios do mundo árabe”. Este editorialista fustiga o Executivo por sua cegueira na hora de antecipar as consequências que a Primavera Árabe e as demandas insatisfeitas dos palestinos poderiam acarretar para o país.

Kali Tafakji, ex-membro da delegação palestina que negociou os acordos de paz, argumenta que se não se apurar o passo “daqui a pouco não haverá mais nada o que negociar”. Os números dão razão a ele: fora quatro regiões que equivalem a apenas 40% da Cisjordânia, Israel controla todo o resto. Longe de ter sido suspensa, a colonização prossegue, como se pode constatar com uma rápida volta de automóvel. Mas as ilusões suscitadas pelo pedido de reconhecimento na ONU são escassas. A imprensa palestina teme que a ilusão que o gesto de Abbas desperta torne-se logo uma crua decepção. Akram Haniyeh, diretor do jornal Al-Ayyam, de Ramallah, adianta essa possibilidade: “se nada mudar depois desse mês de setembro, se a vida cotidiana não mudar de maneira substancial para as pessoas, haverá uma imensa decepção, um grande abatimento”.

É exatamente esse panorama que, de um lado e outro do muro, se insinua no horizonte como um muro maior, um caminho sem outra saída que “o caos”, segundo a expressão de Ghassan Khatib. O peso dos colonos é imenso ante qualquer possibilidade de concessão. Eles votam na coalizão de Benjamin Netanyahu e o chefe de governo não os abandona. Por eles, enfrentou Washington e não duvidará em fazer o mesmo contra o mundo inteiro.

Não é só uma questão política, mas também legal. Os governos do planeta e a própria Corte Internacional de Justiça consideram ilegal a situação dos colonos, incluindo a construção do muro. Se a Palestina obtiver ao menos o estatuto de Estado observador na ONU, poderia denunciar os colonos ante à justiça internacional. Isso os livraria de viajar, por exemplo, aos Estados Unidos, tal como fazem hoje. Yossi Alpher, especialista do processo de paz entre Israel e palestina, avalia sem rodeios a tática dos ouvidos moucos e de não negociação adotada por Benjamin Netanyahu: “foi um grande erro estratégico”.

Tradução: Katarina Peixoto

Fonte: http://cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=18529

“Contrato entre Estado e cidadãos foi rompido”, afirma líder dos indignados de Israel

Eduardo Febbro – Direto de Tel Aviv

Uma mistura de tradição e modernidade: o queijo e o Facebook. As marcas das barracas instaladas no badalado Boulevard de Rotschild, de Tel Aviv, ainda persistem várias semanas depois de o movimento israelense dos indignados ter sacudido o país com uma manifestação que reuniu meio milhão de pessoas no início de setembro. “Uma coisa inédita, de dar arrepios, maravilhosa, cada vez que me lembro não acredito que tenha começado na internet por causa do preço do queijo e que tenha ido parar na rua tão rapidamente e com tanta forla”, diz Alon, um jovem arquiteto com dificuldades para encontrar um lugar para morar.

A referência ao queijo é essencial: o protesto foi primeiro virtual, sobretudo através do Facebook, e tinha como objeto um dos alimentos básicos da comida israelense, o queijo cottage, cujo preço subiu 70%. Esse queijo é um alimento básico, um código culinário e cultural, uma espécie de concentrado da identidade israelense. Graças a esse queijo, “o inimigo externo entrou em Israel com a linguagem e o governo descobriu que os problemas não estavam só nas fronteiras, mas aqui dentro também”, cometa com expressão irônica Araon, outro jovem de Tel Aviv que viveu esses dias de protesto como se tivesse despertado, subitamente, em um sonho.

Seu comentário expõe um paradoxo intencional: as pessoas gritavam em hebraico muitos dos slogans oriundos da Revolução Árabe que iniciou na Tunísia e se propagou por Egito, Yemen, Jordânia, Síria, Bahrein e Líbia. A indignação israelense segue vigente, palpável. “A mecha que alimentou o protesto continuará acesa até haja reformas adequadas, justiça e um controle severo do sistema financeiro que nos encurrala”, acrescenta Araon.

O que os jovens contam na rua é incompatível com o discurso oficial do Estado. Hadar, uma elegante jovem desta zona rica de Tel Aviv, resume isso bem quando diz: “as revoluções árabes nos mostraram um caminho, rapidamente a história deu uma guinada. Até agora nós éramos em Israel a democracia exemplar, o modelo, mas aconteceu que, sem que fosse planejado, os árabes nos estimularam com a consequência do seu movimento. Vimos que tínhamos problemas comuns: corrupção, privilégios de uma casta, preços excessivos, indolência do poder”.

O historiador Shlomo Sand, uma das grandes figuras da esquerda israelense, destaca uma das grandes características do movimento de jovens, de julho e setembro: o antagonismo foi interno, por problemas internos, não houve articulação entre o descontentamento e o discurso sionista”, comenta este intelectual que se inscreve na linha dos historiadores pós-sionistas. Não obstante, com lucidez, Shlomo Sand reconhece que, tal como se configurou, a onda de protestos não parece conduzir a uma mudança fundamental: “nos falta esclarecer as coisas, estabelecer com clareza o que é a esquerda e o que é a direita, questionar os gastos coloniais e militares de Israel, que pesam muito na economia do país. Se os protestos se restringirem a slogans simpáticos, nada mudará”.

Stav Shaffir está convencida do contrário e, ainda que à primeira vista tenha uma aparência frágil, é capaz de convencer a qualquer um. Ela é a jovem que armou o barulho, a líder dos indignados israelenses. Com seus 26 anos e sua cabeleira ruiva agitando-se ao vento, a jovem sustenta com convicção de combatente: “a sociedade despertou em Israel”. Foi ela que, com outros jovens, instalou as primeiras barracas no Boulevard Rothschild, de Tel Aviv. Stav Shaffir pertence à geração que desenvolvendo uma consciência política sem a obsessão do conflito palestino. É jornalista, trabalha em um jornal que recolhe os testemunhos dos refugiados que vieram para Israel desde a Tailândia, Guiné, Filipinas, Darfour ou Etiópia, Eritreia de fato. Como outros jovens de sua idade, sente que foi enganada, que, com o discurso da segurança de Israel como bandeira e prioridade, foi-se privatizando o país sem que ninguém se desse conta disso.

“O contrato entre o Estado e os cidadãos foi rompido. O Estado fala de segurança. Mas o que ocorre quando o mesmo Estado não faz nada pela saúde e pela moradia? – pergunta. Ante seu sorriso radiante e juvenil, impõe-se uma pergunta: e agora que o acontece com essa esquerda israelense que, assim como o governo, não apoiou o que acontecia nas ruas? “É preciso continuar”, diz ela, “com todo o coração”.

A revolução das barracas do Boulevard Rothschild deu origem a um fenômeno novo: um tipo de esquerda da rua, muito distinta da esquerda oficial dos partidos Avoda (trabalhista) e Meretz. O primeiro integrou as últimas coalizões de governos conservadores e não tem discurso frente aos problemas de justiça social, privatizações, aumento do custo de vida, repartição das riquezas. Ambos partidos, por sua vez, mantem uma posição mais do que ambígua ante à ininterrupta expansão das colônias nos territórios ocupados em 1967. Alon, o arquiteto que não pode pagar com o que ganha os 1.100 dólares que custa uma habitação, olha para o céu e diz: “nosso sistema de partidos tornou-se prisioneiro de si mesmo. Governou-se o país como se governa um país em pé de guerra. Assim nasceu uma oligarquia abusadora. Nós, os indignados, nascemos para que a voz de Israel chegue a esses ouvidos surdos por força de só escutarem a si mesmos”.

Tradução: Katarina Peixoto

Fonte: http://cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=18528

O dólar não está ficando mais forte, o mundo é que está ficando mais fraco, diz André Perfeito

A decisão do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) em continuar sua estratégia de derrubar os juros futuros gerou um mal estar difícil na alma do investidor, segundo o economista-chefe da Gradual Investimentos, André Perfeito.

“Ficou no ar uma sensação incômoda de que chegamos no limite do que a ponte entre o presente e o futuro (expressa na curva de juros) pode fazer por nós no presente. A impotência tomou conta do principal banco central do mundo”, diz o economista.

Para Perfeito, os juros longos caíram, mas o efeito não foi a retomada do ânimo no presente pela elevação da Eficiência Marginal do Capital – aquele cálculo onde o empresário pondera os rendimentos esperados das atividades disponíveis e aposta no investimento presente como espaço para o lucro futuro – e sim o vácuo de que nada pode ser feito. Os juros dos Treasuries de 10 e 30 anos despencaram com o anúncio.

“O dólar reagiu como este porto seguro num mundo onde tudo é fluido e se desmancha no ar. O dólar não está ficando mais forte, é o mundo que está mais fraco e com isto liquida-se o presente (fugindo para os ativos mais líquidos) em nome de um futuro que não está mais lá”, afirma.

Segundo ele, o incômodo com o presente não se dá apenas pela ineficácia das políticas econômicas, mas antes de tudo pela falta de liderança política. “Não há em nenhum dos dois lados do atlântico lideranças carismáticas e fortes o suficientes para dar sentido à um mundo que enfrenta desafios importantes.”

“O presidente norte-americano é apenas uma sombra do que foi no início do seu mandato e ele não tem mais o poder de organizar o espírito dos EUA – e da humanidade – para enfrentar o que é preciso”, diz Perfeito.

O economista afirma que, no Brasil, a taxa de desemprego manteve-se estável, mostrando que não há muito espaço para empregar mais na mesma velocidade. “As projeções de inflação devem disparar por conta do dólar em estado de pânico”.

“Gostaríamos de lembrar que apesar deste estouro da boiada do câmbio, esta situação tende a se normalizar e voltar para o fundamental: o Brasil ainda é visto como um destino interessante, logo os dólares voltarão”, diz.

Na opinião de Perfeito, “num ambiente de tanta incerteza talvez nossa autoridade monetária esteja pensando em parar o ciclo de afrouxamento monetário”.

Fonte: http://cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=18533

Deputados aprovam Comissão da Verdade sem punição para torturadores

André Barrocal/Carta Maior

BRASÍLIA – A Câmara dos Deputados aprovou, na noite desta quarta-feira (21), projeto de lei proposto pelo governo, no ano passado, que cria uma Comissão da Verdade para investigar e trazer a público – mas sem aplicar punições – crimes contra os direitos humanos praticados entre 1946 e 1988. O projeto, que sofreu algumas modificações – todas sugeridas por partidos adversários do governo – foi remetido ao Senado, que também terá de apreciá-lo e votá-lo.

A votação seguiu roteiro traçado pelo governo no início do ano. Supondo que não conseguiria aprovar uma comissão diferente da que propôs – com poderes punitivos, por exemplo – em um Congresso sensível à pressão militar, o governo trabalhou para que a votação ocorresse quase sem debates e de forma acelerada. Seria uma forma de contornar resistências.

Para isso, articulou para que fosse aprovado um instrumento que permitiria ao plenário votar o projeto mesmo sem que nenhuma comissão tivesse se pronunciado antes. O pedido de “urgência urgentíssima” passou por 351 votos favoráveis e 42 contrários. Feito isso, o mesmo plenário, logo em seguida, votou o projeto, o que ocorreu de forma simbólica, de modo que não há um placar a registrar o resultado.

Pelo projeto, a Comissão terá sete membros, designados pelo presidente da República, e prazo de dois anos para esclarecer crimes de perseguição, tortura e morte com motivação política cometidos num período de 42 anos. Seus integrantes vão receber salário de R$ 11 mil mensais.

O texto recebeu três pequenas alterações, negociadas pelo governo com adversários de PSDB, DEM e PPS. A pedido dos tucanos, a Comissão poderá tomar depoimentos espontaneamente oferecidos. Por sugestão dos democratas, seus integrantes não poderão ser dirigentes partidários, nem ocupar cargos de confiança no governo. E, por obra do PPS, decidiu-se que o conteúdo produzido pela Comissão será enviado ao Arquivo Nacional, para ficar disponível à consulta pública.

A criação da Comissão tinha o apoio de parlamentares mais à esquerda, mas eles achavam que o projeto proposto pelo ex-presidente Lula avançava pouco para que realmente fosse feita Justiça contra torturadores e assassinos. Familiares de vítimas da ditadura militar também tinham críticas ao projeto e, por isso, eram contra a votação “urgentíssima”.

A maior reclamação era contra o fato de que a Comissão não terá poder para punir criminosos, mandando-os a julgamento e à cadeia. Havia queixas também contra a possibilidade de militares integrarem a Comissão e contra o recorte de tempo (42 anos) Seria tempo demais para que apenas sete pessoas possam investigar de forma eficaz. Por isso, defendiam que a Comissão tivesse foco na ditadura militar de 1964-1985.

Durante as semana, familiares de vítimas percorreram gabinetes de deputados, fazendo pressão para que houvesse mudanças, mas não tiveram sucesso.

Fonte: http://cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=18533

EUA matam (mais) um homem inocente

Troy Anthony Davis era um homem inocente. E, como todas suas apelações e evidências que colocavam em dúvida sua culpa foram negadas pelo estado da Geórgia e pela Suprema Corte dos Estados Unidos, ele morreu um homem inocente. Às 23 horas da cidade de Jackson, onde esperava há 20 anos no corredor da morte, um coquetel de três substâncias letais foi administrado intravenosamente no afro-americano de 44 anos. Poucos minutos depois, Davis foi declarado morto, justiçado por um crime que certamente não cometeu.

O caso foi amplamente divulgado e tornou-se símbolo da luta contra a pena capital nos Estados Unidos. Davis foi julgado em 1991 pelo assassinato a tiros do policial Mark McPhail em Savannah, dois anos antes. Seu julgamento foi inteiramente baseado no relato de nove testemunhas que estavam no local. A arma que efetuou os disparos nunca foi encontrada. Tampouco houve algum exame forense que ligasse Davis ao policial.

Na noite de 19 de agosto de 1989, McPhail fazia um bico fora do expediente como segurança particular de uma lanchonete Burger King, quando presenciou o espancamento de um morador de rua num estacionamento próximo. Ele correu para ajudar a vítima e recebeu dois tiros do agressor. Na hora e no local errado – e aparentemente da cor errada – Davis foi detido.

Condenado a morte, as dúvidas acerca do caso começaram a surgir em 2003. Ao listá-las, parece impossível que o judiciário do estado as tenha ignorado solenemente nos últimos anos, sem jamais conferir-lhe o direito a um novo julgamento. Sete das testemunhas ouvidas pela corte se arrependeram de seus votos e disseram que, à época do processo, tinham sofrido intimidações da polícia para depor contra Davis. Das duas pessoas que mantiveram a convicção na culpa do condenado, uma é Sylvester ‘Red’ Coles, quem, na noite do assassinato, denunciou Davis à polícia. Declarações feitas por pelo menos nove indivíduos após o julgamento indicam que Coles foi o verdadeiro autor dos disparos. A última delas, Quiana Glover, revelou à Comissão de Perdão e Indultos do estado da Geórgia que ouviu da própria boca de Coles – pesadamente embriagado – a confissão do assassinato, durante uma festa em junho de 2009. Nada disso foi levado em conta.

Essa comissão, que se reuniu na segunda-feira 19 para analisar a última possibilidade de adiar o assassinato legal, ignorou a falta de evidências que levantam dúvidas mais do que suficientes para rever uma pena capital. Pesou mais a comoção da família McPhail. Na audiência, os filhos, a viúva e a mãe do oficial morto reafirmaram terem certeza que Troy Davis era o responsável pela morte do filho. Pesou também a força que o tema tem nos Estados Unidos, principalmente nos estados sulistas, responsáveis por mais de 80% das execuções no país. A última pesquisa Gallup mostra que 64% dos norte-americanos são a favor da punição máxima, enquanto apenas 29% se opõem. E o discurso político, principalmente nas fileiras do partido Republicano, é afetado pelo forte apelo popular.

Num debate entre os candidatos a candidato republicano a corrida presidencial do próximo ano, o atual governador do Texas, Rick Perry, foi confrontado pela pergunta se ele conseguia dormir tranquilamente sabendo que talvez houvesse inocentes entre as pessoas executadas durante o seu mandato. A pergunta era pertinente, afinal o número de pessoas mortas legalmente no estado sob a tutela de Perry é estrondoso: 234. O presidenciável fez um discurso vazio sobre a eficiência da justiça texana e a resposta dura que os criminosos recebem na corte estadual. Por isso, foi efusivamente aplaudido.

Troy Davis parece ser mais um caso que reflete a realidade racista dos corredores da morte norte-americanos. Cerca de 40% dos condenados a morte no país são negros, proporção que cai para 13% em relação ao total da população do país. Ele enfrentou hoje sua quarta data de execução. As outras três foram adiadas devido a apelações. Numa delas, Davis chegou a estar a duas horas do início do procedimento letal. Desde 1976, quando a pena capital foi restabelecida nos EUA após um intervalo de quatro anos, ao menos oito inocentes foram mortos pelas mãos do estado. Ao que tudo indica, agora são nove.

Fonte: http://www.cartacapital.com.br/internacional/eua-matam-mais-um-homem-inocente

Financiamento público a caminho

Enquanto a presidenta Dilma Rousseff discursa na Assembleia Geral da ONU em Nova York, a base aliada do governo fechou consenso nesta quarta-feira: o financiamento público exclusivo das campanhas eleitorais, bandeira do PT, deverá ser aprovado na reforma política que tramita no Congresso. A proposta foi discutida entre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente em exercício, Michel Temer (PMDB) e representantes do PT, PMDB, PSB, PCdoB e PSB, na tarde de hoje.

O presidente nacional do PMDB, senador Valdir Raupp, afirmou que o seu partido decidiu concordar com o financiamento público, e acordou também o fim das coligações proporcionais e a administração das federações de partidos. Ele frisou que não houve acordo, no entanto, com relação à forma de voto. “O voto em lista nós não vamos apoiar”, disse Raupp.

Na avaliação do presidente do PMDB, é possível que o PT recue de sua proposta de modelo de voto e faça um acordo em torno do chamado distritão, proposto pelo PMDB. O PT, no entanto, reprova o distritão, ou seja, voto majoritário nas eleições proporcionais (deputados e vereadores).

Lula defendeu que o financiamento público trará mais transparência ao processo eleitoral. O parecer do relator da reforma, deputado Henrique Fontana (PT-RS), prevê punição para empresários que fizerem doações para campanha política. Caso venham a infringir a lei, eles ficarão impedidos de participar de negócios com o setor público e de obter acesso a financiamentos públicos.

O texto estabelece também um teto para gastos com campanha eleitoral. Pela proposta, no ano anterior ao pleito, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) fará um cálculo e proporá um valor para as eleições.

A votação do parecer sobre a reforma política está prevista para 5 de outubro na comissão especial da Câmara dos Deputados. O presidente do PMDB frisou, no entanto, que não vê possibilidades de a reforma política ser aprovada à tempo de valer já nas próximas eleições, de 2012.

Fonte: http://www.cartacapital.com.br/politica/pmdb-aceita-financiamento-publico

Um oportunidade para Marx salvar a economia mundial

George Magnus (*)

Os responsáveis políticos que lutam para compreender a avalanche de pânico financeiro, os protestos e outros problemas que afligem o mundo fariam bem em estudar a obra de um economista morto há muito tempo: Karl Marx. Quanto antes reconhecermos que estamos diante de uma das grandes crises do capitalismo, melhor equipados estaremos para encontrar uma maneira de sair da crise.

O espírito de Marx, que está enterrado em um cemitério perto de onde viveu no norte de Londres, saiu da tumba em razão da crise financeira e da posterior recessão econômica. A análise profunda do filósofo apontado como o maior conhecedor do capitalismo tem vários defeitos, mas a economia global atual apresenta muitas misteriosas semelhanças com as condições que ele previu.

Consideremos, por exemplo, a previsão de Marx de que o conflito inerente entre o capital e o trabalho se manifestaria. Como escreveu em “O Capital”, a busca das empresas por lucros e produtividade, naturalmente, as leve a necessitar de cada vez menos trabalhadores, o que leva à criação de um “exército industrial de reserva” dos pobres e dos desempregados: “A acumulação de riqueza em um polo é, portanto, ao mesmo tempo, acumulação de miséria”.

O processo que Marx descreve é visível em todo o mundo desenvolvido, particularmente nos esforços das empresas dos Estados Unidos para reduzir custos e evitar contratações. Elas aumentaram os lucros corporativos em seu nível mais alto em mais de seis décadas, enquanto que a taxa de desemprego está por volta de 9,1% e os salários reais estão estagnados.

A desigualdade de renda nos Estados Unidos, por sua vez, chegou a seu nível mais alto desde a década de 1920. Antes de 2008, a disparidade de renda foi obscurecida por fatores como o crédito fácil, que permitiu às famílias pobres desfrutar de um estilo de vida similar ao dos mais ricos. Agora, o problema é ter uma casa para onde voltar e descansar.

O paradoxo do excesso de produção
Marx também apontou o paradoxo de um excesso de produção e de baixo consumo: quanto mais os trabalhadores ficarem relegados à pobreza, menos serão capazes de consumir os bens e serviços que as empresas produzem. Quando uma empresa reduz os custos para aumentar sua receita, é inteligente maximizar lucros, mas quando todas as empresas fazem isso ao mesmo tempo, abalam a distribuição de renda e a demanda efetiva da qual dependem para ter lucro.

Este problema também é evidente no mundo desenvolvido de hoje. Temos uma capacidade substancial de produção, mas nos setores de média e baixa renda encontramos uma situação de insegurança financeira generalizada e de baixas taxas de consumo. O resultado é visível nos Estados Unidos, onde a construção de novas casas e as vendas de automóveis seguem, respectivamente, 75% e 30% abaixo de seus picos de 2006. Como dizia Marx no Capital: “A razão última de todas as crises reais segue sendo a pobreza e o consumo restringido das massas”.

Enfrentando a crise
Como enfrentar essa crise, então. Para colocar o espírito de Marx de volta no caixão, os responsáveis políticos precisam colocar a criação de postos de trabalho na parte superior da agenda econômica e considerar outras medidas pouco ortodoxas. A crise não é temporária e, certamente, não será curada pela paixão ideológica dos governos pela austeridade.

Aqui, apresento cinco eixos principais para uma estratégia cujo tempo, infelizmente, ainda não chegou:

Em primeiro lugar, precisamos sustentar a demanda agregada e o crescimento da renda, ou do contrário cairemos na armadilha da dívida, com graves consequências sociais. Os governos que estão diante de uma crise iminente da dívida – incluindo aí Estados Unidos, Alemanha e Reino Unido – deveriam fazer da criação de emprego a prova de fogo de sua política. Nos EUA, a taxa de emprego está tão baixa como na década de 1980. As estatísticas de subemprego em quase todas as partes encontram-se em níveis recorde. A redução de impostos para os empregadores e a criação de incentivos fiscais para estimular as empresas a contratar mais pessoal e investir seria um começo.

Em segundo lugar, para aliviar a carga da dívida das famílias, as novas medidas devem permitir que elas tenham acesso a uma reestruturação de sua dívida hipotecária, ou então devem se criar alguns mecanismos de perdão da dívida para futuros pagamentos, aos devedores, diante de qualquer valorização do preço de sua casa.

Em terceiro lugar, para melhorar a funcionalidade do sistema de crédito, os bancos bem capitalizados e bem estruturados devem permitir um alívio temporário de adequação de capital para tratar de obter um novo crédito que flua, sobretudo, na direção das pequenas empresas. Os governos e os bancos centrais poderiam participar no gasto direto ou no financiamento indireto do investimento nacional com programas de infraestrutura.

Em quarto lugar, para aliviar a carga da dívida soberana na zona euro, os credores europeus devem baixar ainda mais as taxas de juros e dar maiores prazos de pagamento do que aqueles propostos recentemente para a Grécia. Se, conjuntamente, os eurobônus são uma ponte longe demais, a Alemanha precisa defender uma recapitalização urgente dos bancos para ajudar a absorver as perdas inevitáveis através de um muito ampliado “Fundo Europeu de Estabilidade Financeira”, uma condição sine qua non para resolver, ao menos, a crise do mercado de bônus.

Em quinto lugar, para construir defesas contra o risco de cair na deflação e na estagnação, os bancos centrais deveriam olhar para mais além dos programas de compra de bônus e dirigir-se, ao invés deles, a um ritmo de crescimento da produção econômica normal. Isso permitiria, por um determinado período, alcançar uma inflação moderadamente alta que poderia impulsionar ajustes nas taxas de juros e facilitar uma redução da carga da dívida.

Não podemos saber ao certo como estas propostas podem funcionar ou quais podem ser suas consequências. Mas a política de manter o atual status quo não é aceitável, tampouco. Pode ser que os EUA alcancem uma versão mais instável que o Japão e que a fratura da zona euro tenha consequências políticas imprevisíveis. Em 2013, a crise do capitalismo ocidental facilmente poderia estender-se a China, mas esse é outro tema.

(*) Economista chefe do UBS (União de Bancos Suíços), o principal banco privado da Suíça. Publicado em espanhol em Bitácora, Uruguai.

Tradução: Katarina Peixoto