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G-20 pretende evitar recomendação que limite controles de capitais

Por Assis Moreira | De Genebra
Do Valor Econômico:

O G-20 deve evitar qualquer recomendação sobre quando e como controles de capitais poderiam ser impostos para combater fluxos enormes e voltáveis de recursos.

Valor apurou que, ao contrário da tentativa do Fundo Monetário Internacional (FMI) de estabelecer um “código de conduta” para limitar controles a capitais indesejáveis – que o Brasil rejeita duramente -, os representantes das maiores economias desenvolvidas e emergentes só conseguiram mesmo fixar um conjunto de sugestões genéricas.

Após meses de negociação, as conclusões, formuladas em Paris por um subgrupo coordenado precisamente por Brasil e Alemanha, admite que não existe uma solução única e destaca dois pontos.

Primeiro, reconhece que em situações de enormes e voláteis fluxos, o controle de capital pode ser usado de maneira flexível e como complemento, não como substitutivo, de medidas prudencial e de outra natureza. A ideia é de que o controle não sirva basicamente para impor “câmbio artificial”, como diz um negociador.

Além disso, as maiores economias do mundo dizem concordar, pelo menos no princípio, de que qualquer país com potencial de afetar os outros por meio de suas decisões nacionais precisa levar em conta o impacto de suas medidas sobre a economia global.

Enquanto a ameaça de guerra cambial se intensifica, o G-20 dirá que as medidas para gestão de fluxos de capital não devem ser usadas para “evitar ou atrasar ajustes necessários na economia”. Os países do grupo prometem que vão se dirigir para sistema cambial mais determinado pelo mercado, o máximo que a China aceita, “reforçando taxa cambial flexível para refletir os fundamentos da economia e refrear desvalorização competitiva das divisas”.

Para analistas, na prática, uma nova etapa da guerra cambial está começando com o gesto do Banco Central da Suíça de romper o regime de câmbio flutuante. Os suíços resolveram limitar a taxa de câmbio do franco a € 1,20. Alguns julgam que isso pode dar o exemplo para outros países protegerem suas moedas.

O Japão quer obter dos ministros de finanças do G-7, que se reúnem hoje e amanhã em Marseille (França), que seja mantido o esforço conjunto para enfraquecer quando necessário o iene. Jun Azumi, o novo ministro de finanças japonês, vem sinalizando que está pronto para outra rodada de intervenção no mercado.

Sobretudo, os emergentes estão inquietos sobre um novo plano de estímulo do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA), que poderia derrubar o valor do dólar contra suas moedas. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, vem insistindo que uma terceira rodada de “abrandamento quantitativo (QE3)” pelos EUA prolongaria a guerra cambial. E isso pode conduzir a uma guerra comercial.

O Brasil foi o primeiro país a levantar a importância de controle de capital, na cúpula de líderes do G-20 na Coreia do Sul no ano passado. Países desenvolvidos depois recuaram no reconhecimento do mecanismo. O FMI admitiu seu uso em “circunstâncias apropriadas”, quebrando um tabu contra medidas de restrição.

Mas em seguida houve reação de setores conservadores, encabeçados por países em desenvolvimento, gerando novo relatório sugerindo código de conduta para seu uso, que causou forte reação brasileira. O país se opôs a qualquer diretriz para estabelecer, uniformizar, priorizar ou restringir o conjunto de instrumentos dos países para enfrentar movimentos de capital de grande volume e voláteis.

O Brasil sempre viu a discussão no FMI como uma “tentativa para preparar o terreno para mais interferência do Fundo nas políticas dos países emergentes” temendo que o código de conduta se transformasse “em obrigações” para os emergentes.

Para o Brasil, os países precisam ter flexibilidade para adotar políticas que considerem apropriadas para mitigar riscos por meio de políticas macroeconômica, prudencial e de gestão da conta de capital. É basicamente nessa linha que o documento do G-20 vai ser submetido aos ministros de finanças numa reunião em outubro.

A grande promessa e a grande ameaça

Flavio Lyra(*)

A capacidade de prevenção dos seres humanos diante dos perigos que rondam suas vidas é normalmente reduzida, mormente quando se trata de realizar ações coletivas. Não sem razão, existe o dito popular que “só fechamos a porta depois que somos assaltados”. Muitas das catástrofes naturais que ceifam tantas vidas, certamente poderiam não ocorrer ou ter seus efeitos destrutivos minimizados se os seres humanos atuassem de forma coletiva e preventiva.

Há, porém, um tipo de ameaça, talvez muito mais grave do que os cataclismos naturais, que é ainda mais negligenciado e mesmo intencionalmente ocultado pelos interesses envolvidos, representado pelas formas de organização econômica e política adotadas pela humanidade com vistas a atender suas necessidades materiais e culturais.

Nossas sociedades atuais, como fruto do processo iniciado com a Revolução Industrial na Inglaterra por volta de 1750, foram conformadas em torno da empresa capitalista, entidade cuja essência é a propriedade do capital por indivíduos ou grupos sociais minoritários e a busca do lucro como sua finalidade precípua, a qual é a base do Estado Nacional como ente coletivo com jurisdição sobre os indivíduos que habitam um dado território.

Essa forma de organização trouxe substanciais resultados positivos para as regiões em que se desenvolveu mais intensamente, inicialmente alguns países da Europa, depois os Estados Unidos, posteriormente o Japão e mais recentemente a China. Outros países também receberam os benefícios desse tipo de organização social, porém em muito menor medida.

O avanço do conhecimento científico e de sua incorporação à atividade produtiva, com o crescente domínio das forças da natureza e o aperfeiçoamento da organização trabalho, tem permitido elevar continuamente a produtividade do trabalho, fator decisivo para o sucesso alcançado.

O tipo de desenvolvimento propiciado pela empresa capitalista revelou-se, porém, desde suas fases iniciais, altamente problemático para o bem-estar-social, desde vários pontos de vista.

Primeiro. Levou a uma alta concentração do poder econômico nas mãos da classe dominante de uma minoria de países e relegou, até os dias atuais, mais de dois terços da população mundial a condições precárias de existência.

Segundo. Mesmo nos países onde foi bem sucedido, gerou grandes desigualdades sociais.  No país que se tornou a maior potência econômica do mundo, os Estados Unidos, a já elevada concentração, nos últimos 30 anos cresceu substancialmente. De acordo com estudo recente realizado por Atkinson, Picety e Saez (1), 59% do crescimento da renda ficou nas mãos do 1% mais rico da população. A situação em outros países não difere substancialmente desse percentual.

Terceiro. Conduziu a um sistema internacional altamente hierarquizado, no qual os países inicialmente melhor sucedidos, com o uso dos poderes econômico e militar, submeteram os demais povos a formas opressivas de domínio e exploração. É sabido que entre o final do Século XIX e primeiro quarto do Século XX, as grandes potências dividiram o mundo entre si criando vastos impérios, que de certa forma ainda se mantêm, embora tenha mudado a influência relativa dos centros hegemônicos.  A Inglaterra foi sucedida pelos Estados Unidos, depois das duas grandes guerras mundiais

Quarto. Foi mantido um clima permanente de disputa entre as grandes potências pelo poder mundial, apoiado no desenvolvimento de uma massiva e altamente destrutiva indústria de armamentos, levando a duas grandes guerras mundiais, algumas guerras civis terríveis e várias guerras menores entre os países centrais e os periféricos, por eles dominados. Vários milhões de vidas e vasta destruição de cidades e infraestruturas  decorreram dessas guerras.

As grandes potências mundiais dependem crescentemente para o atendimento de suas necessidades de energia e de matérias primas de fontes localizadas fora de seus territórios e são obrigadas a manter bases militares em várias partes do mundo (existem atualmente cerca de 600 bases militares dos Estados Unidos espalhadas pelo mundo) e imensas frotas navais circulando pelos mares, destinadas a assegurar o controle dessas fontes. A invasão dos Estados Unidos no Iraque e das forças da OTAN no Afeganistão são desdobramentos dessa situação.

Quinto. Produziu-se a devastação progressiva das condições ambientais, e dos recursos naturais, levando ao quadro atual em que a própria vida na terra acha-se ameaçada pelas mudanças climáticas derivadas do lançamento de CO2 na atmosfera, o que coloca em risco a própria sobrevivência da humanidade. A isto, acrescentem-se os riscos associados ao vasto arsenal de armas atômicas e de destruição em massa existente nas grandes potências, mas que atualmente já se difundiram para outros países, como são os casos da China, da Índia e do Paquistão e, talvez, de Israel, que já detêm artefatos atômicos de fabricação própria.

Em síntese, indiscutíveis benefícios foram trazidos à humanidade pelo desenvolvimento da produção para o atendimento das necessidades humanas, utilizando as forma de organização econômica baseada na empresa capitalista. Estes, porém, vieram acompanhados de resultados altamente perniciosos para a grande maioria dos habitantes da terra. Foram desenvolvidas potencialidades impensáveis, através da ciência e da tecnologia, mas paralelamente foram desacorrentadas forças diabólicas que concentram os benefícios nas mãos de poucos, oprimem a maioria e ameaçam destruir a vida no planeta.

Por certo, este não é um tema novo e pensadores notáveis têm dedicado esforços interpretativos da situação e propositivos de formas alternativas de organização econômica e política que preservem o lado positivo e impeçam a ação das forças destrutivas. É preciso reconhecer que os interesses ligados as formas de organização atuais impedem, através da ideologia e, quando necessário, do uso da força que, tanto a classe dominante, quanto a massa da população tornem-se conscientes da situação e se organizem para mudá-la.

Nossas sociedades foram escravizadas por uma forma de organização econômica que subordina o poder político ao poder econômico. Poder econômico este alicerçado numa concepção individualista do mundo, que aceita que atividade econômica deva ser exercida em função de objetivos privados e que, por essa mesma razão, impede a adoção de uma visão integrada dos interesses sociais. Nessa forma de organização o interesse social aparece sempre a posteriori, como resultante das ações desarticuladas entre das partes que constituem o sistema como todo. É ao mercado que cabe o papel de realizar a coordenação entre as empresas, mas que o faz precariamente, dando origem a crises econômicas devastadoras, paradoxalmente capazes de transformar a abundância em escassez.

A forma de organização econômica atual está envelhecida e desprovida da capacidade de solucionar os problemas a que ela própria deu origem. Somente o fortalecimento do poder político a partir de formas democráticas de organização assentadas na maioria da população, poderá criar as condições para o aparecimento de nova forma de organização econômica, voltada aos interesses da maioria da população.

Enquanto não for possível avançar nessa direção, a humanidade continuará sujeita a crises econômicas, a guerras, aos males produzidos pela desigualdade econômica e social e à destruição da natureza.

O grande perigo que nos ameaça consiste, portanto, na ordem econômica em que vivemos,  criada pelo homem, mas que fugiu ao controle social,  capaz de produzir resultados inimagináveis no domínio da ciência e no plano da produção de bens e serviços e, ao mesmo tempo, de produzir destruição e infelicidade para a maioria dos seres humanos.

O agente principal dessa ordem á a grande empresa capitalista (e as oligarquias a elas vinculadas) que, através do controle da produção estabelece a quantidade e qualidade dos bens materiais e culturais que consumimos,  para o que se valem do controle dos meios de produção e de comunicação, assim como da propaganda direta e subliminar por estes veiculada.

É ela que, nos bastidores do poder, influencia os dirigentes políticos para deflagrar guerras destinadas a controlar territórios, recursos naturais e mercados, que lhes são altamente lucrativos, através da venda de armamentos e suprimentos para as forças combatentes.

É ela que determina as condições em que as pessoas podem trabalhar e obter os meios para sua sobrevivência.

É ela que financia as campanhas eleitorais que escolhem nossos representantes políticos e os controla em função de seus interesses privados.

É ela que corrompe dirigentes e funcionários públicos, como parte da guerra competitiva no ambiente empresarial em busca do lucro.

Em síntese, o grande perigo que nos ameaça está bem próximo de nós, mas não conseguimos vê-lo, nem nos organizarmos para domesticá-lo, evitando que prossiga em sua sanha destrutiva, e possibilite aproveitar seu lado positivo em favor do bem-estar social.  Gastamos nossas energias protestando contra os efeitos negativos que nos afetam, mas nos faltam forças mentais e materiais para combater suas causas.

(*) Economista. Cursou do Doutorado de Economia na UNICAMP. Ex-técnico do IPEA.

(1) “Top Incomes in the Long Run History”.

Quem não é arrogante, faz consenso

O Globo noticia que o Ministro da Defesa, Celso Amorim, teria recebido “carta branca” dos comandantes de Marinha, Exército e Aeronáutica” para negociar no Congresso a aprovação da Comissão da Verdade, que deve buscar informações sobre pessoas desaparecidas na ditadura militar.

Embora a expressão seja imprópria, porque ninguém quer excluir os militares de qualquer discussão, é um sinal de que era pura intriga a tal história de que Amorim tinha dificuldades, quase uma sublevação, com os comandos militares. A serenidade com que tratam este tema espinhoso é um exemplo de que isso está longe de existir.

E é totalmente pueril a discussão de que a Comissão da Verdade implica diretamente em qualquer apreciação judicialmente punitiva ou mesmo persecutória sobre os monstruosos eventos ocorridos na noite sombria da ditadura. Essa atribuição não é dela ou do Governo, mas do Judiciário e do Ministério Público.

Vivemos num Estado de Direito, onde respeitam-se as decisões judiciais e o direito de delas discordar. Nossa Corte Constitucional examinou o assunto em tese e teve uma decisão, na opinião de muitos, errônea. Como é próprio da democracia, ela pode, diante de fatos concretos, rever sua posição. Volta e meia, aliás, os tribunais superiores fazem isso.

A Comissão da Verdade, como o nome bem diz, a verdade busca. Diante dela, e só diante dela, se pode ter paz e, igualmente, se pode decidir com sentimento de justiça o que fazer diante dos fatos revelados.

Este é o consenso, o alvo comum que deve superar todas as divergências de opinião: conhecer a verdade.

E  então, diante dela, discutir – na Justiça, outra vez,  inclusive, frente a fatos concretos – o que fazer.

Fonte:http://www.tijolaco.com/quem-nao-e-arrogante-faz-consenso/

BC justifica corte de juro,sugere repetição, mas volta a temer salário

André Barrocal/Carta Maior

BRASÍLIA – O Banco Central (BC) traçou nesta quinta-feira (08/09) um cenário favorável para o controle dos preços, graças à debilidade da economia mundial, o que permitiria continuar cortando a taxa de juros. A ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), porém, traz a reafirmação do BC de que aumento de salário ainda é “um risco muito importante” para a inflação.

No documento, o banco mantém a avaliação de que o mercado de trabalho permanece aquecido, com desemprego em nível historicamente baixo (6%) e salário médio elevado (R$ 1,6 mil), e que isso causa alguma preocupação.

Para o BC, como há “estreita margem de ociosidade no mercado de trabalho”, num momento de “descompasso” entre crescimento da oferta e da demanda, “um risco muito importante reside na possibilidade de concessão de aumentos de salários incompatíveis com o crescimento da produtividade e suas repercussões negativas sobre a dinâmica da inflação”.

Mas o próprio BC diz, na ata, que está aumentando a ociosidade nas empresas, e isso contribui para diminuir o “descompasso” entre oferta e demanda. Ou seja, alivia pressões inflacionárias.

Esta ata do Copom, referente à reunião de 31 de agosto que reduziu a maior taxa de juros do planeta em meio ponto percentual, é o terceiro documento seguido em que o BC diz ver salário como “risco muito importante” para a inflação.

Tinha sido assim no fim de junho, no relatório trimestral de inflação, o documento mais extenso contendo análises do BC. E um mês depois, na ata do penúltimo encontro do Copom.

A visão do BC tem incomodado aliados sindicais do governo. Para eles, o banco ajuda a dar munição a empresários que sentam à mesa para negociar reajustes salariais.

Há duas semanas, em audiência pública na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, contestara a tese de que “aumentar salário é inflacionário”. “Esta é uma velha ideia dos economistas conservadores do passado, entre os quais eu certamente não me incluo”, afirmara Guido. “Nós já ultrapassamos isso, acho que já há um consenso.”

Recessão externa
Na ata, o BC apresenta um cenário que o governo, pelas vozes de Mantega e da própria presidenta Dilma Rousseff, vem ecoando. A situação da economia internacional piorou nos últimos tempos, as previsões de crescimento pelo mundo caíram, o pessimismo aumentou e ninguém sabe ao certo quando isso tudo vai mudar.

Como a economia lá fora esfria, a brasileira tende a desacelerar um pouco, porque, apesar de estar crescendo à base do mercado interno, exporta o equivalente a 15% do produto interno bruto (PIB) e tem de enfrentar a concorrência de importados vindos de países que fazem de tudo para encontrar mercados em meio à crise.

Em pronunciamento em cadeia de radio e TV na noite de terça-feira (06/09), alusivo ao Dia da Independência que seria comemorado no seguinte, Dilma havia dito que “o mundo enfrenta os desafios de uma grave crise econômica” e que “os países ricos se preparam para um longo período de estagnação ou até de recessão”.

De acordo com o BC, a combinação de um cenário externo fraco com o esfriamento da economia brasileira, induzido pelo próprio governo com aumento de juros para conter a inflação, oferece perspectivas animadoras para o futuro da inflação no país.

O BC também aponta a decisão recente do governo de usar o aumento da arrecadação tributária para pagar mais juros da dívida, em vez de injetar o dinheiro na economia por meio de políticas públicas, como um elemento que tira impulso do PIB.

Por tudo isso, o BC estaria em condições de cortar a taxa de juros, que foi o que fez na semana passada e a ata explica nesta quinta-feira (08/09).

Fonte:http://cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=18428

Paz ou medo?

A maioria das UPPs está na zona sul e no entorno de centros esportivos. Para atender a todas as favelas, é preciso dobrar o total de PMs. Foto: Eduardo Naddar/Folhapress

Rodrigo Martins/Carta Capital

Passam das 7 da noite no Morro Santa Marta, a primeira favela “pacificada” pela polícia do Rio de Janeiro. A luz escasseia diante da íngreme ladeira, 788 degraus de ponta a ponta. Quem abre caminho pelo labirinto de becos e vielas, acuados entre os casebres erguidos à base do improviso, é o rapper Emerson Nascimento, o MC Fiell. “Tu tá impedindo a passagem. Olha que eu vou chamar a UPP, hein?”, sorri, debochado, para um distraído amigo a conversar com a namorada numa das claustrofóbicas passagens de pedra. A ofegante caminhada termina no bar do Zé Baixinho, onde o músico, responsável pela rádio comunitária da favela que ganhou fama pelas violentas guerras do tráfico do passado e pelos ilustres visitantes que lá passaram, de Michael Jackson a Lula, inicia um longo desabafo sobre a vida “militarizada” no Santa Marta.

“Os tiroteios acabaram, mas a verdade é que vivemos aqui uma ditadura branca. Tudo é proibido, tudo só pode ser feito mediante autorização prévia da polícia. O funk tá vetado, qualquer festa precisa de aval. Os jovens estão sempre sendo submetidos a revistas vexatórias. Sim, é bom não ouvir mais disparos de arma de fogo. Mas o problema dos moradores é outro”, avalia Fiell. “Para ter paz, perdemos a liberdade. Naqueles prédios vizinhos (aponta), ninguém diz o que eles podem ou não ouvir, nem a que horas a festa tem de acabar. Além disso, ainda convivemos com esgoto a céu aberto e barracos de madeira. Não há hospital, escola ou opções de lazer. As obras na comunidade são paliativas e o governador prefere gastar dinheiro para murar a favela a investir nas reais necessidades dos moradores. Honestamente, esse braço do Estado, o da polícia, eu conheço desde criança. E sei que não é a solução para nós.”

À medida que a conversa avança, outros moradores juntam-se à mesa para desfiar um corolário sem-fim de reclamações. Um jovem lamenta a demora no socorro ao pai que veio a falecer após passar mal. O ator Alan Barcelos, de 23 anos, lembra o episódio em que foi conduzido à delegacia por não portar documento de identificação durante uma abordagem policial. “Desfilaram comigo pela comunidade inteira, para constranger mesmo, como se fosse um crime não andar com o RG na carteira.” O mototaxista Marcelo de Lima Alves, cunhado de Fiell, mostra o boletim de ocorrência que registrou contra policiais de outra favela ocupada pela UPP, a Tabajaras, por abuso de autoridade. “Eles queriam que eu delatasse os motoqueiros que trabalham para o tráfico, mas eu não sabia de nada. Em retaliação, confiscaram meu crachá e me impediram de trabalhar lá. Vieram, inclusive, com uma história estranha de limitar o número de mototáxis na favela, só que eu tenho autorização da prefeitura.”

Para evitar a repetição de abusos como esses, o rapper Fiell participou da elaboração da Cartilha da Abordagem Policial, lançada em março de 2010, com o apoio da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Rio, da Ordem dos Advogados do Brasil e do Ministério Público. O manual orienta a população sobre seus direitos e como proceder para denunciar violações cometidas pela polícia. Curiosamente, dois meses após a divulgação do material, o músico foi preso no Santa Marta por desacato. “Uma dúzia de policiais invadiu o bar do meu sogro, onde acontecia uma roda de pagode, para desligar o som e expulsar todo mundo. Aproximava-se- das 2 da manhã, a hora-limite- estabelecida por eles para o fim de qualquer evento na favela. Peguei o microfone para protestar e fui agredido. Depois deram voz de prisão e me enfiaram no camburão.” À época, o Twitter oficial das UPPs informou, em resposta às perguntas enviadas por internautas, que o “MC Fiell foi autuado por perturbação da ordem após resistir ao pedido da UPP para que o som do bar do seu sogro fosse diminuído.”

A situação no Santa Marta é emblemática pelo fato de a favela ter sido a primeira a receber uma Unidade de Polícia Pacificadora, em dezembro de 2008. Mas os relatos de abusos são recorrentes em diversos outros morros ocupados. “Estamos com a favela ocupada há mais de dois anos, os policiais nos conhecem, sabem quem é trabalhador e bandido, mas insistem em continuar revistando todo mundo, revirando malas, apontando armas para nós. Hoje mesmo encanaram com a minha touca, perguntaram se era uma touca ninja. Não era, mas e se fosse?”, comenta o agente cultural Anderson José Ribeiro, o Lula, ora engajado na elaboração de um jornal comunitário para os moradores dos morros vizinhos Babilônia e Chapéu Mangueira, na zona sul. O periódico é um dos microprojetos contemplados por um edital do Ministério da Cultura e terá 10 mil reais de investimento público.

“Será um importante instrumento de denúncia e conscientização política, porque vejo com muita cautela essa presença constante da polícia com poderes de ditar normas para todo mundo. Os jovens estão acuados, proibidos até de dançar swing (variante do pagode para dançar atarraxado) e o maior temor é o de que…” A fala emudece por alguns instantes ao ver um PM se aproximar. Depois, Lula retoma o raciocínio, desta vez em voz baixa, quase aos sussurros. “A molecada tem medo é de algum policial desonesto fazer alguma armação, plantar arma ou droga na mochila de quem criar qualquer tipo de estorvo. A UPP é nova, mas a polícia é a mesma há tempos e, vez por outra, está envolvida em casos de corrupção e execuções.”

O vigilante André Luiz, morador do Morro da Babilônia, também se mostra refratário à atuação da UPP. “Ninguém gosta de tiroteio, de guerra de facções. Mas o que parece é que saímos do julgo do traficante para aquele da polícia. As armas pesadas continuam no morro. A diferença é que o fuzil não está na mão do traficante, e sim da polícia. Que paz é essa?” Ele reconhece algumas melhoras na favela, mas mantém o tom crítico. “O tráfico continua, mas diminuiu a violência. Também melhorou a qualidade de alguns serviços, como coleta de lixo e fornecimento de energia. Se faltasse luz à noite, antigamente a Light só fazia o reparo no dia seguinte, não entrava na favela de madrugada. Mas de resto, é a mesma coisa de sempre. O problema da favela não é o bandido, é a falta de educação, de saneamento, de oportunidades de trabalho.”

Apesar do queixume, sobretudo dos mais jovens, as pesquisas de opinião, encomendadas ou não pelo governo, revelam um alto índice de aprovação das UPPs pela população. Uma pesquisa de percepção da ONG Rio Como Vamos, divulgada no fim de junho, revelou que 56% dos cariocas consideram que a segurança melhorou na cidade, e 72% dos 1.358 entrevistados disseram estar otimistas com relação à política de pacificação do governo estadual. Outro levantamento, feito pelo Instituto Brasileiro de Pesquisa Social, mostra que 70% dos moradores de favelas não contempladas pelas UPPs são favoráveis à sua implantação. Entre os habitantes de favelas pacificadas, a aprovação é de 93%. Quase 70% temem o fim do projeto e a volta do tráfico.

O temor não é injustificável. Primeiro comandante negro da Polícia Militar do Rio, o coronel Carlos Magno Nazareth- Cerqueira idealizou, ainda nos anos 1980, durante a gestão de Leonel Brizola, os Postos de Policiamento Comunitário (PPCs) para aproximar a polícia das comunidades ocupadas. Sem investimento ou apoio da mídia, o projeto virou água. Os policiais, em menor número em relação aos traficantes armados, pouco ou nada podiam fazer, e muitos foram seduzidos pelo caminho fácil da corrupção. No início dos anos 2000, no governo de Anthony Garotinho, o então secretário de Segurança Pública, Luiz Eduardo Soares, criou o Grupo de Policiamento em Áreas Especiais, com atribuições muito semelhantes às das UPPs. Novamente sem recursos ou apoio político, o projeto não deslanchou. Com as UPPs, o governador Sérgio Cabral (PMDB) conquistou a simpatia da imprensa e contou com o inestimável apoio de empresários amigos. Eike Batista, do grupo EBX, por exemplo, doou 20 milhões de reais, em agosto do ano passado, para o governo do Rio investir na compra de equipamentos e na construção de UPPs. Também assumiu o compromisso de entregar o mesmo valor todos os anos, até 2014.

“De fato, o governador conseguiu reunir muitos aliados para fazer as UPPs funcionarem, mas não podemos ignorar as violações cometidas pela polícia nem deixar de questionar o ritmo lento da expansão”, avalia o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL). “Além disso, apenas uma das 18 UPPs era controlada por milícia. O governo tem deixado os territórios controlados por milicianos de lado. E as regiões mais violentas da cidade também não estão sendo contempladas. Ele privilegiou a zona sul e as favelas no entorno de instalações esportivas.”

A despeito das críticas, os indicadores de violência no Rio têm caído sensivelmente. Os homicídios caíram de 6.133, em 2007, para 4.767, no ano passado. “Não há dúvidas de que é um projeto exitoso. Primeiro, porque acabou com a política de enfrentamento, com troca de tiros contra os traficantes, que trazia muita morte e insegurança e não resolvia nada. Agora, a polícia avisa que vai entrar no morro para evitar confrontos desnecessários”, avalia o sociólogo Ignácio Cano, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj). “O tráfico de drogas continuará existindo, como ocorre em qualquer cidade do mundo. Mas, ao tirar o controle territorial dos traficantes e impedir a presença de civis armados com fuzis e granadas, o número de assassinatos cai muito. E os números indicam isso, uma forte queda nos índices de homicídio no Rio.”

O antropólogo Paulo Storani, ex-capitão do Batalhão de Operações Especiais (Bope) e pesquisador do Instituto Universitário de Políticas Públicas e Ciências Policiais da Universidade Candido Mendes, alerta, porém, que a UPP é um projeto de curto prazo que terá dificuldades para se manter no futuro. Primeiro, pelo elevado contingente de soldados que demanda. O número de policiais em cada uma das 18 UPPs instaladas no Rio varia de 100 a 380. Para estar presente em cada uma das 250 maiores favelas da cidade, praticamente todo o efetivo Polícia Militar, que hoje dispõe de 39 mil homens e mulheres, estaria comprometido. O governo pretende aumentar esse número para 62 mil até as Olimpíadas de 2016. Mesmo assim haveria déficit nas ruas, avalia o especialista. “É preciso reformar toda a estrutura das polícias. Falta planejamento estratégico e integração, inclusive com a Polícia Federal, responsável por impedir que armas e drogas entrem no estado do Rio. Precisamos de um grande plano nacional para enfrentar a criminalidade.”

O risco é o de que uma boa ideia como a UPP se perca com o tempo se a polícia não mudar. E há sinais de descontentamento dentro da própria corporação. Uma pesquisa feita pela Universidade Candido Mendes revelou que 60% dos agentes de UPPs estão insatisfeitos com o seu trabalho. Dois soldados femininos da PM, que atuam em favelas na região central do Rio, nas favelas que formam o cinturão da Tijuca, no entorno do Maracanã, afirmaram a CartaCapital que estão há seis meses, desde o início das suas atividades na UPP, sem receber a gratificação prometida pelo governo e o auxílio transporte. São policiais recém-formadas, do interior do estado, que participaram de apenas cinco palestras de preparação antes de trabalhar nas favelas “pacificadas”. Sob a condição de não ter a identidade revelada, admitiram não ter experiência para lidar com situações de risco e dizem temer a repetição de episódios como a explosão de uma granada na favela da Coroa que feriu três policiais. Um deles teve de amputar as pernas. “Nossa estrutura é muito precária, andamos em duplas, com armamento leve, coletes de tamanhos inadequados, não temos nem onde tomar água, usar o banheiro ou se refugiar da chuva, precisamos da ajuda de moradores para tudo. Mas muitos são refratários à nossa presença e cobram investimentos sociais, escolas, esgoto, coleta de lixo. A gente não pode fazer nada. Essa não é uma atribuição da polícia.”

O secretário de Segurança Pública do Rio, José Mariano Beltrame, não atendeu ao pedido de entrevista da reportagem. Em maio, contudo, admitiu as limitações das UPPs: “Nada sobrevive só com segurança. Não será um policial com fuzil na entrada de uma favela que vai segurar, se lá dentro da comunidade as coisas não funcionarem. É hora de investimentos sociais.

“Washington promoveu uma Operação Condor mundial”

David Brooks – La Jornada

Nos 10 anos transcorridos desde os atentados do 11 de setembro, Washington desencadeou uma “Operação Condor estadunidense” em escala global, promovendo guerras contra vários países, supressão da dissidência interna, espionagem doméstica e anulação de garantias constitucionais, liberdades civis e direitos humanos, resume o advogado de direitos constitucionais Michael Ratner. Os EUA mudaram de uma maneira fundamental desde o 11 de setembro. Jamais teria previsto isso, diz Ratner em entrevista ao La Jornada para abordar o décimo aniversários dos atentados e seus efeitos sobre as liberdades e direitos nos Estados Unidos.

O presidente do Centro para Direitos Constitucionais (CCR) e reconhecido advogado internacional por enfrentar casos de violações de direitos humanos e de liberdades civis por parte do governo dos EUA em tribunais estrangeiros e nacionais, incluindo a Suprema Corte, afirma: “O próprio caráter do país mudou com as pessoas comuns aceitando as violações de suas liberdades pelo governo, as violações do direito internacional e da nossa própria Constituição. Aceitaram também que o governo pudesse espionar qualquer um sem autorização judicial, tudo sob a justificação oficial da ‘guerra contra o terrorismo’ Jamais teria antecipado tudo isso antes do 11 de setembro”.

Ratner acrescenta de modo incisivo: culpo George W. Bush por impulsionar tudo isso, mas também culpo Barack Obama por continuar todo o processo.

A resposta do governo ao ataque de 11 de setembro, qualificando-o como um ato de guerra e não criminal mudou o panorama interno e externo. “Assim que Bush fez seu discurso sobre as ‘cruzadas’ poucos dias depois do 11 de setembro, algo que estava carregado de um tremendo significado para muçulmanos e cristãos, sabia-se que o atentado seria tratado como um ato de guerra, com o que o governo assumiria poderes muito maiores dos que tinha para perseguir e deter pessoas no estrangeiro, assim como para promover a espionagem doméstica, tudo como se fosse uma guerra”, explicou Ratner.

Para Ratner, um aspecto desta guerra é o que denomina “Operação Condor estadunidense”, e explica: “É essencialmente o que fez Pinochet, mas de um modo muito mais amplo, capturando pessoas em qualquer esquina do mundo sem ordem ou processo judicial para colocá-las em centros de detenção clandestinos no mundo, não somente em Guantánamo, mas também na Romênia, Polônia, Lituânia, Tailândia, além de prisões especiais no Afeganistão. Isso está caracterizado pela captura de pessoas em qualquer parte do mundo e, depois de mantê-las incomunicáveis, sob Bush, torturá-las e encarcerá-las por tempo indefinido. E se chegam a ir a julgamento, isso ocorre diante de um tribunal militar.

“Tudo isso era condenado pelos Estados Unidos quando ocorria em outros países. Antes do 11 de setembro, condenavam os tribunais militares no Peru, na África” e outras medidas de segurança extra-legais, mas agora era o caso de perguntar se os EUA estavam se tornando um Estado policial.
Obama continuou quase tudo que foi iniciado por Bush, talvez com exceção da tortura extrema. As primeiras medidas implementadas depois do 11 de setembro tornaram-se uma vasta parte permanente do nosso panorama legal. Na minha avaliação, perdemos os valores fundamentais do século das luzes em torno dos direitos individuais que devem ser assegurados em todo processo judicial.

Ratner assinala ainda que Obama, apesar de suas promessas de acabar com esses elementos do que chama Operação Condor estadunidense, segue mantendo hoje cerca de 170 pessoas presas em Guantánamo e em outros centros de detenção do mundo, continua com algumas técnicas de interrogatório – ainda que tenha suspendido o afogamento simulado, ouwaterboarding – e com a perseguição de todo indivíduo suspeito de ser terrorista em qualquer parte do planeta. Mas, talvez o pior, argumenta Ratner, é que Obama não fez ninguém prestar contas pelo que ocorreu, sobretudo em relação à tortura. “Então, agora temos gente como (George W.) Bush escrevendo em suas memórias que, sim, ordenou o waterboardinge que o faria de novo. Se o próximo presidente desejar fazê-lo, estará liberado porque não houve uma fiscalização de ninguém sobre os programas de tortura. Não fazer com que prestassem contas é um fracasso real…não deixar claro que o uso da tortura não é uma opção legítima para nenhum governo”.

Ao mesmo tempo, Ratner diz que deve se enfatizar que estes esforços de captura, detenção e interrogatório não foram realizados contra cristãos. Ninguém encontrará um cristão fundamentalista em Guantánamo, posso garantir, e isso tem a ver com a animosidade contra os muçulmanos neste país. Ele lembra que, entre as primeiras medidas depois do 11 de setembro, estiveram as batidas policiais massivas contra muçulmanos dentro do país, com gente agredida e tratada como se fosse terrorista. O governo ordenou o registro de todos os homens muçulmanos entre 18 e 25 anos de idade originários primeiro de nove países e depois de 19. Ainda que estas medidas tenham sido suspensas, demonstram que os muçulmanos são uma população altamente suspeita no país, o que prossegue e é muito difícil de superar.

A maioria dos muçulmanos não cidadãos foi deportada, e o CCR está representando alguns deles, e também vários dos detidos em Guantánamo.

No que diz respeito ao controle interno depois do 11 de setembro, Ratner lembra a implementação do Patriot Act, que permite, entre outras coisas, que o governo possa conseguir toda a informação que quiser sobre mim ou você, como também adotar medidas de vigilância e/ou espionagem doméstica, o uso de informantes no interior de agrupações sociais e outras medidas para a supressão de protestos. O que está ocorrendo no Oriente Médio e na América do Sul (como no caso do Chile) são protestos massivos, e há medo de que isso ocorra aqui. O que se vê então é que o governo dos EUA está se preparando para a repressão real, com infiltração de agentes em grupos não violentos, uso de provocadores, detenções, etc., comenta ainda o advogado.

Ratner acaba de publicar outro livro, este sobre a supressão dos protestos massivos nos Estados Unidos, intitulado “Hell No: the right to dissent in 21st Century America”.

Em contrapartida, nestes últimos dez anos, estamos travando mais guerras que em qualquer outro momento de minha vida (Iraque, Afeganistão, Paquistão, Líbia, Yemen, Somália, entre outras), diz. Um resultado do 11 de setembro são guerras sem fim, juntamente com mais poder para o Executivo. Obama entrou na guerra da Líbia, por exemplo, sem autorização do Congresso. E este paradigma de guerra, ainda que não se esteja em uma zona de guerra, permite que os EUA ataquem quem quiser no mundo já que “afirma seu direito de matar qualquer suspeito de terrorismo em qualquer parte do mundo, com um drone (avião não tripulado) ou de outra maneira, como o assassinato. Os drones te permitem matar com impunidade”.

Ante um panorama tão desolador, La Jornada perguntou a Ratner que sinais de esperança ele percebe. “Duas das tendências mais importantes que temos visto no mundo hoje são, primeiro, as manifestações massivas, e, segundo, Wikileaks”. Quanto a esta, afirma que “Wikileaks minou a maneira pela qual nos entregam as notícias esvaziadas de certos fatos reais”. O fato de que o governo já não consegue proteger essa informação e esses sistemas de controle levará, claro, a mais repressão, mas, ao mesmo tempo, é um respiro impressionante de ar puro e de esclarecimento sobre como operam nossos governos, desde o Haiti até a Espanha, passando pelo tema da tortura e tantos outros, causando fissuras no controle oficial”. Ratner participa da equipe de representação legal do Wikileaks. “São impressionantes as mudanças que ocorreram nos governos e também na mídia por causa de Wikileaks”, afirma.

Sobre as mobilizações sociais, diz que há algo ocorrendo agora, no sentido de que cada vez mais gente deseja ter maior controle sobre suas vidas e ninguém sabe exatamente o que vai acontecer. Mas há dois anos eu estava no Cairo, há um ano e meio, e era um dos lugares mais reprimidos, havia um silêncio tremendo. Não há mais.

Tradução: Katarina Peixoto

Fonte: http://cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=18427

Produtividade industrial perde para salários

Sergio Lamucci Valor Econômico

No primeiro semestre, os gastos com a mão de obra na indústria superaram a evolução da produtividade de modo generalizado, tendência que fica ainda pior quando se analisa as despesas salariais em dólares, devido à valorização de quase 10% do câmbio no período. De janeiro a junho, 15 dos 17 setores industriais que aparecem na Pesquisa Industrial de Emprego e Salário (Pimes), do IBGE, viram a folha de pagamento real em dólares ter variação superior ao da produtividade, de acordo com estudo da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). É um sinal ruim para o emprego na indústria, que já começou a encolher em alguns setores, segundo o IBGE.

Nos primeiros semestre, a produtividade do trabalho da indústria geral ficou estável em relação ao mesmo período de 2010, com alta de 0,1%, resultado da comparação do aumento de 1,7% da produção com a alta de 1,6% do número de horas pagas aos trabalhadores. Nesse período, os gastos com a folha de pagamento por trabalhador, já descontada a inflação, ficaram em 3,5%, deixando claro que os gastos salariais superaram com folga os ganhos de eficiência da indústria. É um quadro bem diferente do registrado em 2010, quando a produtividade aumentou 6,1%, alta bem maior que a elevação de 3,3% com custos da mão de obra.

O diretor do departamento de pesquisas e estudos econômicos da Fiesp, Paulo Francini, lembra que a produtividade do trabalho depende mais da evolução da produção industrial, uma vez que as horas pagas são mais estáveis. “O fraco desempenho da produtividade tem relação mais forte com baixo dinamismo que a produção vem exibindo”, diz ele, observando que a indústria está “estagnada há pelo menos 14 meses”. Isso ajuda a explicar por que 9 dos 17 setores tiveram perda de produtividade no primeiro semestre.

O tombo mais forte se observa no setor têxtil, com recuo de 13,2%, fruto da combinação de queda de 14,4% na produção e de alta de 0,83% do número de horas pagas. Também há perda de produtividade relevante no setor de metalurgia básica, com variação negativa de 5,1%, calçados e couro (-4,1%) e alimentos e bebidas (-4%). “Os setores têxtil e de calçados e couro vêm sofrendo bastante com a perda de competitividade e com a concorrência dos produtos importados, em virtude da taxa de câmbio sobrevalorizada”, aponta o estudo da Fiesp.

O segmento de fumo teve aumento forte de produtividade, de 21%, mas obtido por uma combinação não exatamente virtuosa – a produção subiu quase 9%, mas o número de horas teve queda de 13,2%. O pessoal ocupado no setor encolheu 8,5% no período.

O mau desempenho da produtividade do trabalho ocorre ao mesmo tempo em que aumentam os gastos com a mão de obra, num cenário de mercado de trabalho aquecido, com falta de pessoal qualificado. O resultado é que, em 13 dos 17 setores da Pimes, os gastos com a folha de pagamento por trabalhador, já descontada a inflação, avançaram acima da produtividade. “É um fenômeno generalizado na indústria”, diz Francini.

Não é algo que se limita a segmentos como têxtil e calçados, alcançando outros setores importantes, como máquinas e equipamentos, no qual a produtividade caiu 3,1%, enquanto os gastos com mão de obra avançaram 4,6%. No setor de meios de transporte (onde está a indústria automobilística), a produtividade subiu 0,1%, mas a folha de pagamento real por trabalhador teve alta de 3,9%.

O quadro fica ainda mais complicado quando se converte o custo da mão de obra em dólares. No primeiro semestre, o câmbio se valorizou 9,2%. “O diferencial entre a variação da produtividade e a do custo da mão de obra é ampliado pela trajetória de apreciação do real no período”, diz Francini. Quando a folha de pagamento real por trabalhador é medida em dólares, apenas os setores de papel e gráfica e fumo tiveram ganhos de eficiência do trabalho acima da variação dos gastos com salários.

Na indústria geral, os custos com a mão de obra em dólares aumentaram 12,8% no primeiro semestre, período em que a produtividade teve alta de apenas 0,1%. No setor têxtil, a distância entre a queda de 13,2% da produtividade e o aumento de 12,1% dos gastos com salários em dólares chega a 25,3 pontos percentuais. No setor de máquinas e equipamentos, que amarga perda de eficiência de 3,1%, as despesas com mão de obra crescem 13,8% de janeiro a junho.

Para Francini, os números evidenciam a perda de competitividade. O câmbio valorizado, segundo ele, “é a estrela de maior grandeza na constelação perversa que dificulta a vida do setor”. Os juros elevados, que ajudam a valorizar o câmbio, e a alta carga tributária também atrapalham bastante. “E, para piorar, alguns Estados incentivam a produção importada, o que é uma insanidade.”

Francini acredita que, nesse cenário, as perspectivas para o emprego na indústria são negativas no segundo semestre. De janeiro a junho, o pessoal ocupado na indústria cresceu 1,9% sobre igual período de 2010, mas seis setores já registram demissões no período (como vestuário, calçados e couro, fumo e papel e gráfica), de acordo com a Pimes.