Arquivo mensais:setembro 2011

Não é mau-jornalismo. É má-fé

Hoje de manhã, quem leu a manchete do Estadão, certamente pensou: “Uai, a Dilma dando uma de FHC”?

Não era para menos: o jornal estampou em quatro colunas, embaixo de uma foto de uma faixa, onde estava escrito corrupção a seguinte chamada: “BC perdoa R$ 18,6 bi para que bancos do Proer quitem dívidas”. Na internet, o “perdão” foi remendado para “abre mão”.

Nem uma coisa nem outra.

Ao ler a matéria, só no quinto paragrafo, começa-se a notar que o Banco Central está apenas cumprindo uma Lei que vale para toda e qualquer empresa que pague as dívidas com a Receita Federal dentro do Programa de Recuperação Fiscal, que existe desde o ano 2000, que foi reformulado em 2009, com critérios absolutamente claros e universais.

O BC, portanto, não perdoou, dívida alguma dos bancos quebrados e, ao contrário, recusou o pagamento em “moedas podres”, aceitando apenas o uso de títulos públicos como moeda no pagamento.

Não apenas o Banco Central agiu exclusivamente dentro da lei, como resistiu a todas as pressões – e nessa área as pressões costumam tilintar- como recusou qualquer beneficio extralegal para facilitar a devolução, pelos bancos do que levaram do governo com a injeção de recursos públicos no período FHC.

A atitude do Estadão não é apenas mau jornalismo. É desonestidade para com os seus leitores. O jornal sabe que a autoridade pública não pode deixar de cumprir o que está previsto na lei e sabe, também, que é condição para se beneficiar do Refis, pagar o que se deve, sem discussões e protelações administrativas.

Insinuar que houve um “perdão” discricionário em favor destes bancos é brincar com a honradez da autoridade monetária. O dinheiro público não é para brincadeira, mesmo que sejam “gracinhas” de jornal.

Fonte:http://www.tijolaco.com/nao-e-mau-jornalismo-e-ma-fe/

Dilma veta desconto de R$ 35 bi em dívida de bancos

O Banco Central (BC) contou com o apoio da presidente Dilma Rousseff para evitar que bancos liquidados nos anos 1990, após o Plano Real, consigam descontos que superam os R$ 35 bilhões em suas dívidas.

Os bancos tentaram incluir um artigo na Medida Provisória nº 517, que trata da incidência de Imposto de Renda, de incentivos para usinas nucleares e da renovação da Marinha Mercante, para outro assunto: a dívida que eles assumiram entre 1995 e 1998, quando foi instituído o Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional (Proer).

Pelo artigo, quatro bancos – Nacional, Econômico, Banorte e Mercantil – poderiam pagar parte da dívida com créditos que teriam contra o Fundo de Compensação de Variações Salariais (FCVS). Essa parte equivale a R$ 28,9 bilhões.

Alertada pelo BC e pela Advocacia-Geral da União (AGU), Dilma vetou o artigo em 24 de junho. Ao fazê-lo, evitou a concessão de mais um desconto para os bancos que quebraram em meio a fraudes e má gestão.

Ao todo, os bancos sob liquidação pelo Proer devem mais de R$ 61 bilhões. Em junho de 2010, eles conseguiram um desconto de R$ 18,6 bilhões. Esse abatimento veio do Congresso Nacional, que aprovou a Lei do Refis dos Bancos (nº 12.249). Ela permitiu que pagassem as dívidas com títulos públicos federais e deu descontos para quitações à vista ou em parcelas de até 15 anos. Ou seja, estendeu os débitos iniciais do Proer até 2025.

Após obter esse abatimento em suas dívidas, os bancos tentaram conseguir mais dois que, somados, chegariam a R$ 35,4 bilhões. “Os bancos liquidados sempre pretenderam pagar as suas dívidas com ativos podres e o BC sempre resistiu firmemente”, afirmou aoValor o procurador-geral do BC, Isaac Sidney. Segundo ele, a instituição não vai perdoar nem fazer acordos para o pagamento dessas dívidas.

A primeira tentativa foi feita diretamente ao BC. Os bancos liquidados iniciaram um debate sobre a forma de amortização da dívida. O BC sempre entendeu que essa quitação deve ser feita primeiro sobre os encargos pactuados entre as partes. Ou seja, os devedores devem pagar os juros, primeiro, e o principal da dívida, depois.

Mas, os bancos propuseram uma nova forma de pagamento. Eles informaram ao BC que pretendiam fazer primeiro o pagamento do montante principal, deixando os juros para o fim. A conclusão do BC foi a de que essa nova forma de pagamento levaria os bancos liquidados a obter um desconto de R$ 6,5 bilhões.

A segunda tentativa de obter descontos bilionários nas dívidas assumidas com o Proer teve início no Congresso. Lá, as instituições sob liquidação já haviam conseguido o desconto de R$ 18,6 bilhões com a Lei do Refis dos Bancos. Essa lei foi aprovada, em junho de 2010, com a conversão da MP nºº 472, que trouxe um artigo com 35 parágrafos tratando de parcelamentos de dívidas. Inicialmente, a MP tratava de incentivos para a indústria petrolífera do Nordeste e da compra de computadores para escolas públicas. Ao fim, o texto especificou o desconto bilionário para os bancos num artigo que tinha tantos parágrafos (35) que era praticamente uma nova lei.

Um ano depois, em junho passado, os bancos tentaram incluir um novo desconto em outra MP – a nº 517, que também tratava de outros assuntos. Em meio a disposições sobre usinas nucleares, banda larga e fretes da Marinha, um artigo dessa MP previu que os créditos que os bancos têm com o Fundo de Compensação de Variações Salariais (FCVS) podem ser considerados títulos da dívida pública federal. Juridicamente, isso significava que os bancos poderiam usar os valores do FCVS para pagar as suas dívidas, inclusive a do Proer.

Esse artigo foi vetado por Dilma e, com isso, evitou-se um desconto adicional de R$ 28,9 bilhões na dívida dos quatro bancos que ingressaram no Proer, nos anos 1990.

“O BC não aceitou o FCVS por ser crédito incerto”, explicou Sidney. Segundo ele, os bancos queriam enquadrar o FCVS como instrumento de dívida pública, mas isso não é possível, pois esses créditos estão em processo de reconhecimento.

“É preciso esclarecer que o BC não está fazendo qualquer acordo com os bancos liquidados”, enfatizou Sidney. O procurador-geral explicou que o BC concedeu apenas os descontos determinados por lei, caso dos R$ 18,4 bilhões da Lei do Refis dos Bancos. As demais formas de descontos foram negadas.

“Os bancos liquidados, que já foram aquinhoados com descontos legais bem generosos, ainda pretendiam entregar créditos de FCVS ao BC. Essa proposta é juridicamente inaceitável”, afirmou Sidney. “Receber créditos ilíquidos para quitar dívidas do Proer equivaleria a um perdão da dívida dos bancos liquidados sem autorização legal, o que seria inadmissível”, concluiu.

Fonte:http://www.valor.com.br/financas/1001814/dilma-veta-desconto-banco-falido

Hildegard Angel e a alpinista social

por Hildegard Angel, em seu blog, através do Vi o Mundo

Ontem, postei no Twitter:
“O que acho desses “movimento” anti-corrupção mesclando “gatos & ratos”: que a demonização da política é o atalho mais curto para uma ditadura”.

Em seguida, complementei:
“Quem já viveu uma ditadura tem que estar atento e forte, sempre alerta, pois foi com esse discurso de “ladrões” que Lacerda incendiou o Brasil”.

Enfim, no espaço máximo de 140 caracteres, expressei minha opinião, que, como bem diz meu “lema”, pode não ser a melhor opinião, pode não ser a sua opinião, mas é a minha opinião….

E sabem o que aconteceu? Recebi como retorno, de uma certa @maria_lima, que não conheço, dois comentários sucessivos. Para o primeiro post: “decadente ridicula!”. Para o segundo: “Discurso imbecil!”…

Só então, dada a grita indignada dos demais seguidores do Twitter, eu soube tratar-se, a desbocada, da coordenadora de política da sucursal de Brasília do jornal O Globo! Eu, que convivi em O Globo – onde “nasci” como jornalista e trabalhei mais de três décadas – com os educadíssimos irmãos Roberto, Rogério e Ricardo Marinho, o finíssimo Padilha, o rigoroso mas sempre correto Evandro Carlos de Andrade, o cavalheiro José Augusto Ribeiro, o sempre amável Carlos Chagas, o elegante Milton Abirached, o sensível Pedro Gomes, o “lord” Carlos Menezes, o impecável Ali Kamel, o fraterno Agostinho Vieira, o cordial Ascânio Seleme, o discreto Rodolfo Fernandes e outros companheiros de grande categoria, levei um susto. Será esta a nova orientação de comportamento das Organizações? Não acredito…

Foi então que, puxando pela cabeça, lembrei-me de um post que recebi, no ano passado, quando, novata, ingressei no Twitter, enviado por “@maitêproença”, me pedindo voto para  Maria Lima, para um prêmio de mulher na imprensa. Como se tratava da Maitê, que aprecio, eu acreditei, votei e respondi à atriz, ainda via Twitter, informando o que fizera. Que mico! Fui alertada pelos seguidores que “@maitêproença” era um perfil falso, provavelmente inventado por alguém que queria emplacar o prêmio da tal candidata, que aliás ganhou o dito troféu e soltou foguete. É certamente uma ascendente. Sobe às alturas de uma alpinista…

Agora, vou dizer a vocês, neste espaço que não me limita, o que penso de um movimento “anti-corrupção”, convocado pelas redes sociais e inflado por lideranças empresariais, por uma imprensa muitas vezes comprometida com seus próprios interesses e uma canastra de senadores de diferentes naipes que não se combinam.  O que acho é que falta objetividade…

Para que os gritos contra a corrupção não ecoem no vazio e não se limitem a um exercício coletivo de catarse, a uma reunião esporrenta sob o sol antes da chopada, é preciso ter um foco. Exemplo: anos atrás propus, numa coluna, que todas as pessoas em funções públicas neste país fossem obrigadas por lei a manter informações detalhadas sobre sua evolução patrimonial, sempre atualizadas na internet, acessíveis a todos, a partir de data anterior aos cargos. Essa obrigação se estenderia aos cônjuges e ao núcleo familiar do personagem. Simples e transparente, não? Assim, saberíamos quando, onde e como o parlamentar tal enriqueceu, o prefeito ou governador ou presidente da estatal comprou seu avião particular. Uma passeata com essa proposta seria bem mais frutífera, não acham?…

Agora me perguntem se apareceu um  legislador, um deputado, um senador sequer interessado em propor uma lei com esse fim? NENHUM! Porque o que de fato se deseja não é “acabar com a corrupção”, esse objetivo vago, o que se quer é manipular a opinião pública em prol de seus interesses particulares, sejam eles políticos, profissionais ou empresariais…

Hoje, converso com mulheres arrependidas por terem, em março de 1964, participado da tal Marcha da Família com Deus pela Liberdade, que deu no que deu. Elas saíram às ruas de terço na mão, insufladas pelo seu ídolo Carlos Lacerda, e pediam aos gritos e em faixas o impeachment de João Goulart, o que foi usado como justificativa para o golpe militar. Inocentes úteis, coitadas, bem intencionadas, servindo à ambição ilimitada de um político que errou no cálculo, o tiro saiu pela culatra e ele próprio foi perseguido, se arrependeu, criou a tal Frente Ampla com Jango e JK, lembram?…

Bem, isso é História, e a História deve ser contada e recontada, para que os erros do passado não se repitam. Vivemos um novo tempo. O Brasil não é o mesmo, nem as pessoas, muito menos as nossas Forças Armadas. Mas há um fato novíssimo: as redes sociais. Poderosas, avassaladoras, incontroláveis. São elas que agora nos obrigam, a nós, os formadores de opinião, a ter uma responsabilidade muito maior. Devido a elas, mais do que nunca, devemos ser, nós, os jornalistas, ainda mais consequentes, sérios e cuidadosos antes de ajudar a acender qualquer pavio, que não sabemos que comprimento terá e que incêndios poderá provocar. Para que no futuro algumas “marias lima” não se arrependam por terem confundido experiência com decadência…

Wikileaks: carta do embaixador enfatiza colaboração com o Brasil

Por Andre Borges Lopes/Do portal de Luis Nassif

Nassif, usando a velha terminologia tipográfica, o texto da embaixada tem 8057 toques. O Estadão garimpou até achar o que lhe interessava. Ignorou quase todo o resto e fez o resumo do conteúdo com base nessa frase, de 77 toques:

Persistent and widespread corruption affects all three branches of government. Ao pé da letra: Corrupção persistente e generalizada afeta (ou atinge) todos os três poderes do governo.

Na sua “tradução”, o Estadão arranjou um jeitinho de colocar a expressão “governo Lula” na boca da diplomacia americana, para que o resultado ficasse assim:

A diplomacia americana considera que a corrupção durante o governo de Luiz Inácio Lula da Silva era “generalizada e persistente” e atingia todos os Três Poderes.

Na manchete, adiciona-se um pouco mais de veneno: há uma sutil substituição de “corrupção durante o governo” por “corrupção no governo Lula” e uma troca do neutro “considera” para uma ilação negativa de “mostra preocupação”. O resultado fica assim:

Carta de embaixador dos EUA mostra preocupação com corrupção no governo Lula

Curiosamente, na própria carta diplomática, o nome de Lula só aparece uma única vez, e dentro da seguinte frase:

While continuing to pursue stability among Brazil’s ten South American neighbors, President  Luiz Inacio Lula da Silva and Foreign Minister Celso Amorim have  spent seven years aggressively reaching out to Africa, the Middle  East, and Asia, as well as taking a prominent role in global trade,  climate change, nuclear non-proliferation, and economic  discussions.

Em tradução livre: “Ao mesmo tempo em que continuam a incentivar a estabilidade entre os dez vizinhos sul americanos do Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o chanceler Celso Amorim passaram os últimos sete anos atuando de forma agressiva em direção a África, Oriente Médio e Ásia, bem como tendo um papel de destaque no comércio mundial, nas alterações climáticas, na não-proliferação nuclear, e nas discussões econômicas.”

Por motivos mais que óbvios, tal frase foi solenemente ignorada pelo jornal.

Essa matéria do Estadão merece ser emoldurada e pendurada ao lado do telegrama original na galeria dos “Anais do PIG”. É uma verdadeira aula de como funcionam os jornalões tupiniquins.

Letras em linhas tortas

Nos EUA, disseram que os americanos vão escrever de modo “infantil”. No Brasil, chamaram educadores às ruas caso tal medida chegasse ao País. Tudo porque o estado de Indiana tornou opcional o ensino de letra cursiva. Nos próximos anos, ela deve ser banida em definitivo, algo que pode ser seguido por outros 40 estados.

Defensores da proposta argumentam que as comunicações por celulares e computadores tornaram quase desnecessário escrever com papel e caneta. Mas críticos veem nisso algo como um assassínio cultural em massa. Um exagero como a polêmica que envolveu o livro Por uma Vida Melhor, de Claudio Bazzoni, acusado de ensinar a “falar errado”, avalia Luiz Carlos Cagliari, professor da Unesp de Araraquara.

Isabel Frade, professora da Faculdade de Educação e pesquisadora do Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita da UFMG, diagnostica uma falta de análise mais aprofundada do que é relevante na cultura escrita. “Não podemos defender o ensino só por tradição, mas, sim, pensar se existe uma prática social em que ele se sustenta.”

Para ambos, a letra cursiva não é um fator essencial para a alfabetização. Cagliari, porém, é categórico ao determinar que ela não deve ser ensinada até que o aluno saiba ler. “A escrita da escola, além de ser cursiva, é manuscrita e concatenada. E, por ser concatenada, achamos problemas específicos na alfabetização.” Isso porque diferenciar os caracteres de uma palavra “na letra da professora” pode ser mais complicado para quem está sendo alfabetizado.

Leia também:
Estados americanos abolem escrita à mão nas escolas

Frade avalia que mais importante que o formato é a legibilidade. Mas pondera: “Se pararmos de ensinar letra cursiva, os alunos vão dar conta de textos de gerações anteriores?”

A despeito das diferenças socioeconômicas e culturais que separam as escolas brasileiras das americanas, Cagliari diz não ver problemas no uso de computadores na alfabetização caso o modelo venha a ser adotado no País- algum dia. Todavia, a antecipação de uma possível escola toda digitalizada não é, para Frade, justificativa. “Não se pode pensar  em rompimento histórico nas práticas de escrita. O que varia são os elementos usados para escrever: barro, terra, instrumentos -objetos, pena de ganso, caneta etc.”

O que ficaria de fora, nessa hipótese, seria o lado artístico. “A caligrafia tem importância artística, mas a aula de artes terá de dar conta disso”, diz Cagliari, que aconselha: “O melhor é entender a situação. Ser prudente e não covarde. Queremos viver no mundo dos nossos filhos, não no dos nossos avós”.

Fonte:http://www.cartacapital.com.br/carta-fundamental/letras-em-linhas-tortas

EUA têm mais inimigos hoje do que tinham em 2011

Eduardo Febbro – Correspondente da Carta Maior em Paris

Uma década depois das imagens das Torres Gêmeas de Nova York caindo como castelos de areia as análises dos especialistas são contrastadas: Bin Laden não ganhou, mas tampouco os Estados Unidos. Em meio a isso, eclodiram as revoluções árabes e estas, em um mesmo movimento, desacreditaram tanto as teses do radicalismo islâmico como a vergonhosa posição dos países ocidentais que apoiaram, em nome de seus interesses, os piores déspotas da história. Professor de Ciências Políticas, pesquisador no Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas (IRIS), autor de vários ensaios brilhantes sobre o terrorismo, François Bernard Huyghe analisa nesta entrevista os dez anos transcorridos.

Em seu último livro publicado na França, “Terrorismes, violences et propagande”, François Bernard Huyghe faz uma análise histórica do terrorismo. O autor destaca nesta entrevista o papel dos meios de comunicação, a permanência da ideologia conservadora norteamericana e a forma pela qual, por meio da “guerra ao terror”, a primeira potência mundial recorreu ao terrorismo de Estado ao melhor estilo de Pinochet, no Chile.

Dez anos depois do 11 de setembro fica no ar algo como um balanço nefasto, tanto para os seguidores da Al-Qaeda quanto para os Estados Unidos. As revoltas árabes que estouraram em 2011 são uma poderosa negação das teses da Al Qaeda e, ao mesmo tempo, desmascaram o cinismo ocidental.

A primavera árabe se inscreve em uma lógica oposta às ideias da rede de Bin Laden. Para a Al Qaeda, os muçulmanos tinham só duas opções: submeter-se ao Ocidente ou a ditaduras pró-ocidentais como a de Mubarak no Egito; ou se comprometer com a Jihad, a guerra santa, e combater. Mas nos damos conta de que existia ao menos uma terceira alternativa, a saber, a das revoluções democráticas. Hoje estamos então em uma nova fase na qual a Al Qaeda e a nebulosa jihadista esperam aproveitar-se da primavera árabe segundo um esquema clássico. Contam com que a revolução popular e pacífica gere decepções, que haja desordens e tentativas reacionárias. A partir daí, os elementos mais duros jogarão a carta da radicalização da situação com a ideia de passar daí para a luta armada. Esse é o esquema que se depreende das ideias de Al-Zawahiri.

Por outro lado, Hosni Mubarak no Egito e Ben Ali na Tunísia agitaram o fantasma da Al Qaeda e com isso reprimiram a população ao mesmo tempo em que diziam ao Ocidente: “estamos do seu lado, lutamos contra os islamistas”. Chegamos assim ao assombroso paradoxo de ver os EUA felicitarem-se ante a maravilhosa revolução democrática no Egito quando, na verdade, até apenas alguns meses atrás Washington despejava bilhões de dólares no Egito de Mubarak.

Outro dos grandes paradoxos do 11 de setembro reside em que os atentados serviram mais aos interesses da ideologia neoconservadora norteamericana do que aos interesses do mundo árabe.

Para os neoconservadores dos EUA, os atentados do 11 de setembro foram uma surpresa divina. Os atentados deram aos conservadores o argumento ideológico para justificar os planos que já tinham prontos, como a invasão do Iraque por exemplo. Esse argumento consistia em dizer que os EUA não eram um tigre de papel, que podiam utilizar a força e inclusive impor a democracia pela força no mundo árabe. Eles aproveitaram a ocasião para vivificar o país preconizando valores militares, de disciplina, de ofensiva.

Os neoconservadores se apegaram à locomotiva do 11 de setembro e conseguiram com isso uma influência ideológica incrível. Aproveitaram-se da situação, da personalidade do presidente Bush. Para eles, o 11 de setembro foi um pão abençoado. E creio que, ainda hoje, não estão fora do jogo. Podem voltar nas próximas eleições presidenciais e, contrariamente ao que pensam muitos analistas, os neoconservadores não estão descontentes com Obama. Eles aprovaram a decisão de enviar 20 mil soldados adicionais ao Afeganistão. Para a Al Qaeda, o fato de a primeira potência do mundo, os EUA, ter declarado guerra e apontado a rede como seu principal inimigo foi um tipo de felicidade paradoxal.

De alguma maneira continuamos mergulhados nas duas ideologias, a que Bush colocou em prática como resposta a Bin Laden.

Sim, essa corrente ideológica persiste. Por exemplo, um mês depois do assassinato de Bin Laden, Barack Obama firmou uma enésima doutrina contra o terrorismo na qual o enunciado principal segue sendo “estamos em guerra contra a Al Qaeda”. A obsessão de um segundo 11 de setembro, a prioridade que se deu à ação para eliminar os terroristas e suas redes assim como os regimes que os apoiam não desapareceu. O discurso de Obama, obviamente, é diferente. O presidente diz que é preciso agir respeitando certos valores e Obama não adotou um regime jurídico excepcional como o Patriot Act.

O terrorismo ao estilo Bin Laden também inaugurou uma indústria mundial dos meios de comunicação, uma espécie de frenesi comercial de comentaristas, analistas e canais de televisão que se ocuparam de propagar a legitimidade da chamada “guerra contra o terror”.

Sim, é certo, mas essa é também uma das regras do terrorismo: o terrorismo é também um meio de comunicação. Se os meios de comunicação não existissem, se os meios não afetassem o imaginário das pessoas, o terrorismo não existiria. O atentado contra as torres gêmeas foi o acontecimento mais filmado da história da humanidade. O terrorismo vive graças ao impacto que tem nos meios de comunicação. Antes, nos anos 70, os terroristas eram obrigados a ser apoiar nos meios de comunicação inimigos, nos meios do capitalismo digamos, para que suas ações fossem difundidas. O que mudou hoje é a aparição da internet. Hoje há redes sociais islâmicas, portais islâmicos, revistas virtuais islâmicas e produtoras islâmicas. Os terroristas têm também seus próprios meios de comunicação.

De um 11 de setembro a outro, o do golpe de estado de Pinochet no Chile e o dos atentados de 2001, encontramos uma constante: o Estado chileno recuperado por Pinochet levou a cabo no Chile uma repressão semelhante a que Bush implementou em escala mundial na chamada guerra contra o terror. As violações de direitos humanos que vimos no Chile, Argentina, Uruguai e Brasil se reencarnaram mais tarde nas práticas da primeira potência mundial.

É certo que como resposta às guerrilhas houve um terrorismo de Estado na América do Sul. Trata-se de uma lógica clássica na qual grupos minoritários obrigam o inimigo a mostrar seu verdadeiro rosto, desmascarando-o para mostrar que é sanguinário. Quando os Estados se veem confrontados ao terrorismo, aplicam suas próprias leis, adotam medidas, proclamam um estado de exceção e, assim, entram em uma fase repressiva que, às vezes, os leva a eliminar poucos adversários e a ter mais inimigos do que antes.

Os Estados se vêm tentados a recorrer a práticas condenáveis: prisões secretas, torturas, repressão, interrogatórios. Todos os Estados caem na tentação de responder à provocação terrorista com um terrorismo de Estado. É isso o que vemos com a reação dos EUA depois dos atentados de 11 de setembro: imagens de guerra terríveis, a prisão de Guantánamo e todo o dispositivo que foi posto em marcha com o Patriot Act. Com esse esquema, os EUA fizeram mais inimigos do que os que tinham no dia 10 de setembro à tarde. É um erro enorme do ponto de vista estratégico.

Tradução: Katarina Peixoto

Fonte:http://cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=18433

A conexão alemã no 11 de setembro

Flávio Aguiar/Carta Maior

Eles eram todos jovens, estudavam na maioria, e alguns tinham bolsas de estudo. Eram 11, e seu líder era o egípcio Mohammed Atta – o piloto que no dia 11 de setembro de 2011 jogou o avião que sequestrara com mais alguns companheiros contra a Torre Norte do World Trade Center. Eles formavam o que veio a ser conhecido como “A célula de Hamburgo”, cujos membros foram acusados de “terrorismo islâmico”, embora dois fossem inocentados.

A maior parte das informações que estão disponíveis sobre os membros desta “célula” vem do serviço de inteligência alemão, ou do norte-americano, e muitas delas, neste último caso, foram obtidas sob tortura na prisão de Guantânamo ou em outros locais do mundo (não há indícios nem provas da participação do serviço secreto alemão nessas operações da CIA, mas há indícios documentados de participação pelo menos do M16, o serviço secreto britânico).

Essa chamada “célula de Hamburgo” se estabeleceu nessa cidade do norte da Alemanha de 1998 a 1999. Outro de seus membros, Marwan Al Shehhi, foi o piloto do vôo 175, que explodiu de encontro à Torre Sul, alguns minutos depois da primeira explosão. Um outro piloto, Ziad Jarrah, também é citado como membro da “célula”, e seu avião, o do vôo 93, foi o que caiu na Pensilvânia, a caminho de Washington.

Há diferentes versões sobre essa queda: a oficial é a de que houve uma revolta dos passageiros, diante das notícias sobre o destino dos outros aviões (inclusive o que fora jogado contra o Pentágono), que eles receberam por celulares, e no tumulto o avião caiu. Há a versão também de que diante da possibilidade de que os passageiros tomassem o controle da aeronave, Jarrah a jogou contra o solo. E há ainda a versão, oficialmente negada, de que ele foi derrubado pela Força Aérea.

Dos outros membros da “célula”, um está condenado a 15 anos na Alemanha, um na Síria, um está preso em Guantânamo, junto com Khalid Sheikh Mohammed, acusado de ser o “pai intelectual” do ataque. Um é dado como morto no Paquistão, outro (Zakariya Essebar), que viajou ao Afeganistão para comunicar a Osama Bin laden o dia do ataque, está desaparecido, assim como Mamoun Darkazani. Finalmente Sahid Bahaji, hoje com 36 anos (26 em 2001), foi recentemente avistado no Paquistão, ainda depois da morte de Osama Bin Laden.

O papel deste no ataque teria sido, na verdade, o de autorizá-lo quando proposto por Khalid, que seguidamente afirma (e não há por que não acreditar) ter sido torturado naquela prisão infame. Além disso, teria escolhido os pilotos do plano, por terem desenvoltura no inglês e familiaridade com a cultura ocidental. Esse foi um dos problemas de Ramzi Binalshibh, que está preso em Guantânamo: por dificuldades com a língua, não foi bem no treinamento para pilotagem, e foi substituído. Atta, por sua vez, fez curso de piloto na Flórida e treinou depois do Afeganistão.

A descoberta posterior que alguns dos autores do atentado haviam se encontrado na Alemanha e dali partido para a execução do plano criou uma efervescência não só no serviço secreto e no governo alemães, mas na Europa inteira. Em parte, analistas apontam essa preocupação, que virou obsessão, pelas falhas que levaram ao ataque terrorista, dessa vez neonazista, que vitimou quase uma centena de jovens na Noruega.

Preocupados quase exclusivamente com o terrorismo islâmico, os serviços secretos se descuidaram de outras possibilidades. Agora mesmo, nesta quinta-feira (8) em que redijo esse artigo, está na mídia a notícia de que dois jovens de ascendência árabe, um de 24 e outro de 28 anos, foram detidos em Berlim suspeitos de planejar algum atentado terrorista.

O motivo da ação policial foi a suspeita deflagrada pela compra, nos últimos tempos, de produtos químicos que tanto podem ser usados como fertilizantes quanto para o preparo de explosivos. A mesma compra desses materiais ocorreu durante meses com o assassino norueguês (que tinha um sítio como disfarce); só que, no seu caso, apesar de seus notórios antecedentes neonazistas e de apologia da violência, inclusive na internet, ninguém prestou a devida atenção.

Na Alemanha, de todo modo, onde tem havido detenção regular de suspeitos de “terrorismo islâmico” (havendo inclusive a menção repetida a uma outra “célula”, dessa vez sediada em Düsseldorf), houve, desde 2001, apenas um caso concreto desse tipo de ataque. Foi o assassinato de dois militares norte-americanos no Aeroporto Internacional de Frankfurt, pelo jovem Arid U. (na Alemanha é proibida a divulgação do nome completo de suspeitos até seu julgamento), de 21 anos, em março de 2011, quando ele atirou contra um ônibus da Otan.

Quanto ao outro 11 de setembro, o da queda de Salvador Allende, a situação também envolveu, historicamente, controvérsias acirradas. Diga-se, antes de mais nada, que o ex-presidente chileno é devidamente venerado no país e em Berlim, em particular. É nome de rua, e objeto de várias manifestações favoráveis com freqüência, inclusive no aniversário de sua morte e do golpe que jogou o Chile no pior momento de sua história.

Mas há alguns anos um professor de filosofia e história do Instituto Latino-Americano de Berlim publicou um livro acusando Allende de ser anti-semita e partidário da eutanásia, com base em afirmações de sua dissertação de mestrado. Esse professor, Victor Farias, se exilou na Alemanha em conseqüência do golpe de 1973. Depois, publicou alguns livros com temas polêmicos, como a vinculação do filósofo Martin Heidegger ao nazismo, ou um suposto ocultamento por parte de Jorge Luis Borges, o escritor argentino sabidamente com opiniões políticas de direita, de alguns textos que escrevera.

O caso teve repercussão, embora mesmo na mídia alemã se lembrasse de que na época (ainda antes da Segunda Guerra Mundial) tais crenças – eutanásia no caso de portadores de deficiências mentais, ou mesmo o anti-semitismo – eram muito mais universais do que hoje se admite, e que, mesmo que isso constasse em algumas afirmações do ex-presidente, hoje mártir da democracia chilena, de sua juventude, nada autorizaria pensar que ele tivesse continuado pensando dessa maneira.

Partidários de Allende acusaram Farias de “manipulação de frases” e a família se recusou a comentar a acusação, que considerou “patética”. Farias sumiu durante algum tempo e recentemente reapareceu no Chile, dando aulas numa universidade particular. Suas acusações polêmicas caíram no esquecimento, a não ser, talvez, por parte de fanáticos de direita. Felizmente.