Um seguidor de Sócrates

0 Flares Twitter 0 Facebook 0 Filament.io 0 Flares ×

 “A lógica e os dados servem para questionar. O que produz é a imaginação”

                               Antônio Barros de Castro

A ausência de Antônio Barros de Castro será sempre sentida por todos que com ele conviveram: sua família, seus amigos, seus inúmeros alunos e todos os que procuram alimentar a discussão sobre a economia brasileira sem os chavões, sem as fórmulas e os modelos simplórios, sem a ortodoxia que limita e restringe a discussão e a complexidade da realidade social. Os livros, artigos e aulas de Castro sempre se pautaram pela busca do conhecimento que não se restringisse às interpretações comuns e tradicionais dos manuais de economia e das ciências sociais e que não repetissem as fáceis explicações dos economistas ou pensadores que estivessem na moda ou entre as lista dos mais vendidos no mercado editorial.

Tendo iniciado sua vida profissional na CEPAL (Comissão Econômica para América Latina e Caribe) viveu e contribuiu para a originalidade da forma de pensar a economia dessa instituição que influiu não só teoricamente na formação dos economistas latino-americano como na formulação de políticas e estratégias de desenvolvimento. É certamente difícil entender o processo de industrialização latino-americano e brasileiro, em particular, sem conhecer o pensamento da CEPAL. Foi nessa escola que Castro deu um passo relevante. De fato, ele e Carlos Lessa, estimulados por Aníbal Pinto, conceberam a Introdução à Economia – Uma Abordagem Estruturalista, que foi um sucesso editorial em toda América Latina, e que fugia da abstração dos manuais da economia tradicional e, ao mesmo tempo evitava a simplificação ou a “mastigação” dos conceitos marxistas, como diria o próprio Castro. Foi este o começo do que viria a ser sua postura crítica e original, nos anos seguintes.

Anos depois, em Sete Ensaios sobre a Economia Brasileira (dois volumes), o embate continua. O ensaio “Agricultura e Desenvolvimento no Brasil” do primeiro volume constituiu um bom exemplo e as próprias palavras de Castro em entrevista (Conversas com Economistas Brasileiros II, Editora 34) resumem bem uma de suas características marcante: “Sempre tive enorme interesse em discutir interpretações. Em “Agricultura e Desenvolvimento no Brasil”, reconstituo sucessivas teses relativas à agricultura como um possível entrave ao desenvolvimento econômico e, muito particularmente, ao avanço da industrialização no Brasil. Vou negando uma por uma e, a partir dessas refutações procuro entender como a agricultura se coloca numa industrialização como a que ocorreu aqui… Procuro então demonstrar que, no nosso caso, o não-cumprimento de funções clássicas não tende a bloquear o desenvolvimento industrial” (p. 161).

Vale, neste sentido, fazer referência, também a dois outros trabalhos para ilustrar essa busca de Castro na compreensão da realidade na sua totalidade e complexidade. O primeiro refere-se ao conjunto de ensaios que integram o livro O Capitalismo Ainda é Aquele. Neste caso, o embate ocorre em relação à ênfase, à época, dada a noção da existência de um novo capitalismo, imune às flutuações e crises econômicas. O que Castro ressaltava era não somente a presença de diferentes capitalismos com distintos padrões de políticas públicas e o fato de que contrariamente ao que assinalava o pensamento hegemônico, à época, o capitalismo continuava sujeito a crises e auges, com flutuações como nos velhos tempos, era, ainda, aquele capitalismo com o mesmo grau de instabilidade de sempre. Castro diria que, neste caso e nesta época, estava “brigando com um certo monoteísmo”.

Outro momento em que ficou evidente a originalidade e a coragem intelectual de Castro foi o da publicação, tendo como co-autor Francisco Eduardo Pires de Souza, do livro A Economia Brasileira em Marcha Forçada. Nesta ocasião, a discussão ocorreu com os que consideravam um fracasso o II PND, durante o governo Geisel, e o livro evidenciava a presença de avanços  em alguns aspectos da realidade econômica do país: no crescimento da economia; na industrialização com base na substituição de importações; na produção de energia, tanto hidrelétrica quanto com o programa do álcool. Embora o autor não deixe de reconhecer o endividamento e suas conseqüências perversas, associados a este processo, não poderia negar as transformações em curso no período.

Muitas outras questões relevantes foram discutidas por Castro. Os exemplos mais marcantes, além dos já referidos, foram o da fragilidade da teoria da dependência e os relacionados com as abordagens disseminadas, a partir dos anos 60, do bloqueio ao avanço econômico dos países latino-americanos, idéia presente em pensadores do peso, inclusive egressos da CEPAL.

Não se trata, evidentemente, de se envolver no debate pelo debate, mas no reconhecimento de que aspectos fundamentais para a compreensão da realidade econômica e para a formulação de estratégias de desenvolvimento e de industrialização não podem ser desconsiderados. Castro esteve sempre presente na concepção de estratégias de desenvolvimento industrial, foi professor da UFRJ e da UNICAMP, assumiu a presidência do BNDES e, mais recentemente, dedicou parte relevante do seu tempo em um tema que os estudiosos do país vão ter que retomar nos próximos anos dada a sua importância e significação: a presença da China no cenário mundial e as suas relações com a economia brasileira, neste contexto.

Provavelmente o anjo torto que apareceu diante de Carlos Drummond de Andrade e disse-lhe para ser gauche na vida deve ter aparecido a Antônio Barros de Castro e lhe atribuído a missão de disseminar o método socrático entre os economistas e os cientistas sociais brasileiros. Missão cumprida, Castro!

Leonardo Guimarães Neto

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>