Flavio Lyra(*)
Certamente um dos traços marcantes do pensamento neoliberal é o desprezo pelas preocupações de longo prazo do processo de desenvolvimento econômico. A ênfase colocada no papel da empresa privada e do mercado, típicas dessa visão, relega a plano secundário a utilização de qualquer visão integrada do futuro, para o conjunto do país, como orientadora das decisões mais imediatas no plano governamental.
Por certo, que as grandes corporações privadas não descartam a necessidade de pensar estrategicamente seu desenvolvimento futuro. O que realmente não é admitido é que o Estado adote uma visão semelhante, no suposto equivocado de que o todo é sempre o somatório do comportamento das partes, representados pelas empresas e pelos indivíduos.
Nessa concepção, cujos expoentes são Hayek e Popper, conhecida com individualismo metodológico, a explicação dos fenômenos deriva-se do que ocorre com os indivíduos, desconsiderando qualquer tratamento holístico da realidade.
Desde que o pensamento neoliberal iniciou sua penetração no país, no início dos anos 90, os governos abandonaram o planejamento econômico, que havia sido uma prática dominante nas décadas de 60 e 70, com papel importante nas transformações ocorridas vinculadas ao processo de industrialização.
Na interpretação da profunda crise que afeta já há vários anos afeta as economias mais avançadas e da culminância que assume no momento atual que necessariamente vai se propagar por todo o mundo, alguns pensadores, como os filósofos marxistas István Mésáros (1) e Slavov Zizek (2), colocam em tela de juízo a própria sobrevivência do sistema capitalista, ao menos em sua forma liberal, trazendo à ordem do dia a necessidade da sociedade brasileira retomar as preocupações com o desenvolvimento a longo prazo.
Se for certo, como dizia o grande filosofo húngaro, Giorgy Luckács, que “não pode haver tática sem estratégia”, num momento de crise como o atual essa afirmação assume ares de verdade quase absoluta para um país, pleno de potencialidades, que dependendo do encaminhamento que dê às questões econômicas, sociais e políticas, poderá sair fortalecido da crise ou, pelo contrário, perder o bonde da história mais uma vez e permanecer na situação de subdesenvolvimento em que ainda se encontra.
Como é fácil concluir, é nas decisões do dia-a-dia que é construído o longo prazo desejável, que depende das escolhas adotadas em relação às decisões de curto-prazo. Lamentavelmente, ainda sob a forte influência do pensamento neoliberal, a sociedade brasileira não tem se mostrado capaz de romper com a inércia da fase neoliberal, que limita fortemente as possibilidades de avançar na direção de mudanças estruturais.
A aparente despreocupação keyneseana com o futuro, pois em suas palavras “no longo prazo estaremos todos mortos”, a meu ver, mais uma frase de efeito, não parece condizente com o momento atual, pois à falta de uma visão estratégica que permita reorientar as decisões atuais, poderemos estar caminhando na direção do abismo, empurrados pela racionalidade microeconômica predominante.
No contexto atual uma decisão do COPON sobre a redução da taxa da taxa básica de juros de 0,5 % absorve, muitas vezes, mais energia dos dirigentes do país do que a discussão sobre a validade de seguir adotando o mesmo modelo de política macroeconômica, tendo em vista os interesses do país a longo prazo.
Em realidade, vive-se um período de grande inércia, que impede o aparecimento de alternativas para condução, não só do processo econômico, mas também do político, não obstante as deficiências notórias dos modelos atuais.
A política macroeconômica atual, concentrada em objetivos de curtíssimo prazo, acaba estabelecendo os limites para o desenvolvimento de outras ações que levariam às transformações estruturais desejáveis no longo prazo. Se o país adotasse uma estratégia de longo prazo, a consolidação do processo de industrialização e a melhoria na distribuição renda seriam prioridades centrais para as decisões no curto-prazo.
Nesse caso, certamente não faria sentido manter elevado superávit fiscal para pagar juros da dívida pública, em favor de uma suposta redução da taxa de juros e em detrimento dos investimentos na infraestrutura econômica e do gasto público na área social. Tampouco, faria sentido uma política cambial que mantem o real apreciado e estimula a desindustrialização.
O Brasil possui uma serie de projetos importantes, alguns em execução, que precisam ser tratados de forma integrada no contexto de uma estratégia de longo prazo, que sirva de marco orientador, não só para as decisões da política macroeconômica, mas também para outras definições mais estruturais como o papel do Estado na economia, o papel do investimento estrangeiro, a política de defesa nacional, as relações internacionais, a reorganização do processo político etc. Todos esses elementos, decisivos para enfrentar o quadro de crise internacional, vencer as vulnerabilidade e aproveitar as potencialidades, de modo a solucionar os problemas internos e afirmar-se no contexto internacional.
Entres esses projetos, caberia mencionar: a exploração de petróleo e gás do Pre-sal, o desenvolvimento das indústrias e serviços de alta tecnologia, a integração dos países do continente sulamericano (UNASUL), o reaparelhamento das Forças Armadas, a construção de grandes hidroelétricas, o desenvolvimento da produção de etanol e o programa espacial.
Não cabe deixar de considerar as estreitas interrelações existentes entre os aspectos econômico, social e político de que dependerão o sucesso ou o fracasso do país diante dos grandes desafios que será necessário enfrentar, desde agora.
Sem o suporte político adequado da classe trabalhadora e de suas organizações, dificilmente o país conseguirá romper as amarras atuais da integração internacional dependente, que o subordinam ao processo de globalização comandado pelas grandes corporações privadas internacionais, especialmente, as financeiras. Isto, em função do funcionamento anárquico intimamente associado à natureza desarticulada e competitiva de seu funcionamento na atual etapa do desenvolvimento capitalista, exacerbados pela crise.
(*) Economista. Cursou doutorado de economia na UNICAMP. Ex-técnico do IPEA.
(1)“A Crise Estrutural do Capital”. Ed. Boitempo (2009-11), São Paulo, SP.
(2)“Primeiro como Tragédia, depois com Farsa”. Ed. Boitempo (2011). São Paulo, SP.
