Arquivo mensais:setembro 2011

A loucura explicitada ou BNDES-Tesouro, o retorno!

Helio Silveira – Diretor Institucional da AFBNDES

Em 7 de maio de 2011, publicamos, no Vínculo nº 978 , na Série BNDES (http://www.afbndes.org.br/seriebndes/index.htm) ,  o artigo “Ensaios sobre a loucura… econômica”, elaborado em meados de março. Nele mostrávamos toda  nossa estupefação diante de uma conjuntura bastante complexa que já indicava nítidos sinais de desagregação da situação político-econômica mundial e, mesmo assim, o noticiário especializado ainda assegurava para 2011/12  um ambiente “autista” de tranqüilidade e de crescimento.

Ao contrário, em nossa avaliação a conjuntura apresentava fortes indícios de uma nova recidiva da crise de 2008 e um segundo mergulho recessivo. Alertávamos sobre um mundo sofrido, lutando para sair de um forte desaquecimento com um quadro de desemprego e insatisfações sociais que se alastravam pelos países árabes e por alguns dos europeus; além da tragédia do terremoto no Japão. Explicávamos a situação contraditória na qual, diante da sofrida realidade, assistíamos os operadores financeiros globais especulando em commodities, moedas e títulos soberanos de países endividados. Ou seja, a situação se apresentava como estagflação – inflação com recessão – se nada fosse feito em torno de uma coordenação mundial.

De fato, desde antes da falência do Lehman Brothers, em setembro de 2008, estamos comentando, através dos artigos da Série BNDES – iniciados em 31-07-2008 com “ O BNDES sempre!” (http://www.afbndes.org.br/seriebndes/circulo/circulo.htm) –  que a liquidez adicional injetada no sistema financeiro mundial, diante de uma conjuntura recessiva, seria alavancadora de posições especulativas com maus presságios futuros.

Hoje, após o ocorrido, é nítido  que esse procedimento provocou o inchaço das cotações mundiais das commodities – alimentos, combustíveis e minérios -, provocando um acréscimo médio adicional de 2% no nível da inflação mundial.
Acreditamos que esse fato, ao empobrecer particularmente populações dos países não produtores desses insumos, foi o motivo principal da rebelião “Primavera Árabe”.
Sobre esse aspecto, indicamos a leitura de: “The Biggest Commodity Bubble of All Time: Response to Critics”, em: http://www.economonitor.com/lrwray/2011/09/23/the-biggest-commodity-bubble-of-all-time-response-to-critics/ , de Randall Wray, da escola de Finanças Funcionais –  teoria já apresentada em nosso artigo “BNDES-TESOURO por uma Política Monetária de Longo Prazo” (http://www.afbndes.org.br/seriebndes/circulo/circulo2.htm), de 21-08-2008.

No texto Wray explica que a maior bolha de commodity de todos os tempos, verificada desde 2004, não foi gerada só pelo aumento de consumo da China, mas, de forma relevante, pelos operadores financeiros e suas posições alavancadas nos mercados futuros.
Em resumo, o sistema financeiro internacional, após a invasão do Iraque e derrota de Saddan Hussein,  em 2003, livre dos receios de uma guerra que poderia se prolongar e ter reflexos nucleares, partiu para um rallye virtuoso de criação de crédito ilimitado financiando consumo, aquisições de imóveis e especulando com ativos e mercadorias.

2011, o segundo mergulho

O  primeiro ato desse “circuito virtuoso” termina, como vimos, em setembro de 2008, com a injeção de recursos oficiais pelos bancos centrais e Tesouros dos  governos soberanos no sistema financeiro privado em “estado de choque”. O mundo real da produção e comercialização, entretanto, fica em recessão até meados de 2010, quando apresenta alguns sinais de melhora, incentivando analistas precipitados a concluir que o pior já tinha passado, apesar da clara evidência dos sinais relevantes de aumento do desemprego e insatisfações sociais comentadas.

Eles não perceberam que os mesmos recursos – títulos públicos – que foram emitidos e trocados pelos ativos “tóxicos” privados para salvar os bancos, acabaram por endividar os países centrais. Hoje, os bancos privados salvos são credores de títulos soberanos insolventes, provocando, principalmente, na Europa uma paralisação do sistema financeiro, com risco de moratória e insolvência generalizada.
Ou seja, assistimos agora o segundo ato da crise de 2008, ou, o segundo mergulho recessivo, no qual os países soberanos se vêem diante de situações fiscais que diante de suas orientações políticas ortodoxas os mantêm presos em círculos de giz. Explicando melhor, diante dos dogmas ortodoxos esses países só podem sair da recessão mediante cortes fiscais em seus orçamentos, o que representa cortes de pessoal e gastos oficiais que retroalimentam a recessão pela redução da Renda.
Atordoados e reféns da ortodoxia, dirigentes mundiais, ainda, não “querem perceber” que a saída passa pela coordenação política e a troca da agenda de cortes fiscais pela do crescimento econômico urgente, a exemplo do New Deal de Roosevelt, nos anos 30. Por esse caminho, só o crescimento da renda poderá diluir a relação Dívida/PIB a médio prazo.

A loucura explicitada

Analistas heterodoxos alertam para o impasse que a ortodoxia está causando, clamam por uma solução negociada mediante coordenação política dos principais países desenvolvidos e a troca das agendas citada.
Entretanto, nesse momento o que vemos é uma total anemia política dos principais líderes mundiais, postergando encontros que se mostram urgentes. Agora, com os nítidos sinais de recessão mundial, os analistas otimistas do início do ano “caem na real” e, pessimistas, refazem suas opiniões, reduzindo projeções, a exemplo do crescimento de 4,5% que esperavam para o Brasil, e declaram que o “mundo está louco”.
Para nós, que nos sentíamos atordoados e achávamos “tudo louco” no início do ano, agora os vetores contraditórios se definiram e a situação se torna clara. Infelizmente é o segundo mergulho recessivo, e nosso país, por exemplo, infelizmente caminha para um medíocre crescimento em torno de 3,5%, como tínhamos especulado no artigo “Ensaios sobre a loucura…”.

O mundo econômico refém da ortodoxia

A partir de agosto, indicadores econômicos nos EUA revelam que a economia está em ritmo de desaceleração, evidenciada principalmente pelos níveis de solicitação de auxílio desemprego. O presidente Obama, do Partido Democrata e o Fed (Federal Reserve, o banco central dos EUA) apesar das tentativas de estímulos fiscais e monetárias, ficam limitados pelas restrições políticas impostas pelo Partido Republicano, atento à corrida presidencial de 2012.

Na Zona do Euro, apesar dos esforços dos líderes da Alemanha e da França com intuito de manter a união dos 17 países, sofrem oposição de seus próprios eleitores e daqueles países que ainda não sofreram problemas graves. Por outro lado, a falta de coordenação entre a Comissão Europeia e o Banco Central Europeu, com seu perfil conservador, postergam soluções urgentes de flexibilização de medidas que aliviariam a ansiedade dos desempregados gregos, portugueses, espanhóis, além dos jovens europeus que não vêem perspectivas de emprego.

Juntos, EUA e Europa representam mais da metade do PIB mundial, o peso de suas economias são balizadores do resto do mundo, daí o temor quanto aos sintomas recessivos e os problemas que vêm enfrentando. A semana de 19 a 23 de setembro foi significativa, pois mostrou toda a volatilidade dos mercados diante das notícias das dificuldades dos bancos europeus e da decepção com os anêmicos pacotes do Fed ante a grande expectativa gerada. As bolsas mundiais sofreram grande desvalorização, o petróleo, a principal commodity, liderou a queda das mercadorias e o enfraquecido dólar voltou a servir de porto seguro das economias mundiais.

Agora, os agentes se mantêm na expectativa aguardando as próximas reuniões dos líderes com alguma perspectiva relevante, ansiando que nenhum fato extemporâneo aconteça.
Ou seja, vivemos tempos de incerteza em que os mercados não oferecem saídas socialmente adequadas; ao contrário, se nenhum acordo político aparecer sabemos que a solução de ajuste, via mercado, a exemplo do que ocorre no Japão, é a recessão prolongada.

No Brasil

Aqui o real, que até 23 de julho se valorizava, a exemplo de 2008, atingindo R$ 1,537 por dólar, a partir de agosto inverteu a tendência e rapidamente alcança e se mantém na casa de R$ 1,80, depois de alcançar o pico de R$ 1,96, em 22 de setembro, seguindo a trajetória de outras moedas do mundo. Esperamos que não seja uma fuga permanente.
Nos  artigos anteriores: “BNDES-TESOURO X Selic Maravilha!”, de 19-11-2010, (http://www.afbndes.org.br/seriebndes/selic_11112010.htm); “Presidenta: planejar é preciso!”, de 16-12-2010 (http://www.afbndes.org.br/seriebndes/presnta_09062011.htm), além do “Ensaio sobre a loucura…econômica” já citado, alertávamos que a fuga dos capitais “corredores”, atraídos pela nossa tentadora e avantajada taxa de juros, poderia voltar a ocorrer, a exemplo de 2008. Portanto, era temerário manter uma taxa estratosférica..

Alerta Geral!

Carlos Thadeu de Freitas, economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio e ex diretor do Banco Central, no artigo  “O ajuste vai ser pela deflação”,  publicado no jornal O Globo, de 24-09-2011, conclui, a exemplo de nossos piores receios, que uma vez esgotada a munição fiscal e monetária nos EUA e Europa, restaria a opção da depreciação cambial. Entretanto, a guerra cambial competitiva, uma vez deflagrada, resultaria em soma zero. Assim, ele infere que o rebalanceamento global de longo prazo, caso as autoridades monetárias dos países não sejam proativas, poderá passar por uma espécie de espiral deflacionária depressiva nas economias centrais. Então,  um forte período deflacionário pode estar a caminho e, na medida que isso acontecer, a probabilidade de uma queda dos preços das commodities afetaria diretamente o Brasil, expondo a fragilidade da conta de transações correntes.

Enfim, só nos resta esperar que uma solução política coordenada, em nível mundial, seja encontrada, pela via do crescimento planejado e não pela atual onda de austeridade recessiva. Para tanto, não faltam instrumentos, instituições e exemplos na história do século XX.  Basta recuperar a trajetória dos Estados de bem estar social dos anos 60, como fizeram, na época, a Europa e os EUA.

Entretanto, devemos estar alerta, pois entendemos que a situação já alcança um nível de gravidade que o país, por motivo de segurança, já deveria antecipar medidas de salvaguarda para proteger nossa economia. Devemos estar preparados para a depreciação de nossa moeda, mantida valorizada por uma taxa de juros artificialmente elevada.
Neste momento, o câmbio livre é a melhor defesa para o real. Todavia isso vai liberar níveis inflacionários represados artificialmente por tantos anos de política de juros elevados. Então, é hora de pensar mecanismos de defesa salarial e, para tanto,  se faz necessária a utilização da metodologia preconizada pelo atual presidente da AFBNDESPAR – Claudio Braga de Abreu e Silva, no artigo  “Uma nova e derradeira indexação negociada”, publicada no Vínculo nº 967 de 02-12-2010  (http://www.afbndes.org.br/anteriores/vinculo/vinc967/opiniao.htm), para diluir os efeitos inflacionários represados.

Por outro lado, como destacamos nos artigos citados neste trabalho, é hora de resgatarmos o planejamento estratégico para desenvolvermos nossos potenciais em: energia elétrica, exploração soberana e planejada do pré-sal, recuperação de nossa infra estrutura viária social e urbana, além de organizarmos os eventos esportivos de 2014 e 2016. Para tanto estamos participando do Forum Nacional de Desenvolvimento junto com as Associações de Funcionários do BNB, do IPEA e dos Analistas de Planejamento e Orçamento do Ministério do Planejamento, que intentam apresentar um Plano de Desenvolvimento para o País.
Finalmente, é hora de “azeitar” o arranjo institucional BNDES-TESOURO para novamente  ser o financiador de todo o projeto nacional.

 

A gritaria contra o aviso prévio

Por Altamiro Borges

Após passar mais de duas décadas engavetado na Câmara dos Deputados, finalmente o projeto de lei que regulamenta o aviso prévio proporcional foi aprovado em Brasília. A nova regra estabelece que, além do mínimo de 30 dias, o trabalhador terá direito a três dias adicionais por ano trabalhado, até o máximo de 60 dias. Assim, o aviso prévio pode chegar a 90 dias.

A aprovação gerou críticas histéricas de uma parte do empresariado, imediatamente ampliadas pela mídia hegemônica – inclusive em capas e editoriais. Com recordes de lucros em vários setores da economia, algumas entidades patronais alegam que a medida “penaliza as empresas e prejudica a competitividade e o desenvolvimento nacional”. Haja cinismo e ambição!

STF acelerou a votação do projeto

O projeto, que agora deverá ser sancionado pela presidenta Dilma Rousseff, foi aprovado pelo Senado em 1989, ano seguinte ao da promulgação da Constituição. Enviado à Câmara, ele tramitou lentamente e só seis anos depois ficou pronto para sua votação. Mesmo assim, ele foi engavetado por pressão do lobby empresarial contrário à regulamentação do preceito constitucional.

Em junho passado, ao iniciar o julgamento de ações sobre o aviso prévio proporcional, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que, diante da omissão da Câmara dos Deputados, ele mesmo estabeleceria as novas regras. Este tranco apavorou os empresários e forçou o presidente da Câmara, deputado Marco Maia, a apressar a aprovação do projeto de lei.

“Não é o ideal, mas foi o possível”

A votação foi acompanhada com interesse pelo movimento sindical. Mesmo defendendo uma ampliação maior do aviso prévio, o sindicalismo considera que o projeto representa um avanço. Ele inibe a rotatividade no emprego e garante maior segurança ao trabalhador. “Não é o ideal, mas foi o possível”, afirma o deputado Paulo Pereira da Silva (PDT-SP), presidente da Força Sindical.

Sancionado o projeto, as centrais sindicais pretendem iniciar outra batalha: exigir que o pagamento do novo aviso prévio seja retroativo, beneficiando os trabalhadores que deixaram seus empregos nos últimos 24 meses. “No dia em que a Dilma sancionar, nós vamos meter processo na Justiça”, antecipa Paulo Pereira.

“O menor dos males”

Já no meio patronal, as reações foram distintas. Um setor avalia que o projeto é “um mal menor”. Ele fez de tudo para protelar a votação, mas temia que o tema fosse alvo de julgamentos no TSE e de projetos mais ousados. “A decisão de regulamentar o aviso prévio afasta a insegurança jurídica que assustava as empresas”, aponta o editorial do Estadão.

O jornal observa que “a regra não satisfez inteiramente o empresariado, parte do qual defendia o acréscimo, aos 30 dias, de um dia por ano trabalhado. Mas havia o risco de, se o Congresso não definisse com presteza a nova fórmula, o STF decidir por regras ainda mais onerosas para os empregadores. Por essa razão, dirigentes empresariais consideraram a decisão “o menor dos males”.

Histeria de setores patronais

Outros setores, porém, estão raivosos com a decisão. A Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan), que recentemente fez onda com as tais “marchas contra a corrupção”, avalia que a medida é uma desgraça. Ela calcula em R$ 1,9 bilhão o gasto extra que as empresas terão com o aviso prévio proporcional, o que representaria 21% do custo atual com essa “despesa trabalhista”.

Na mesma toada, o “ex-socialista” Paulo Skaf, presidente da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), faz terrorismo contra o projeto. Para ele, “a regra desestimulará a geração de empregos formais e reduzirá a competitividade brasileira”. Maroto, ele afirma que a medida estimula a rotatividade no emprego e o trabalho informal – como se isso já não fosse prática das empresas.

A “direção errada” da Folha

Na mídia hegemônica, a Folha foi o jornal que mais refletiu esta histeria contra o projeto aprovado. No editorial intitulado “Na direção errada”, o jornal afirma que “as novas regras do aviso prévio, sobretudo por não virem acompanhadas por redução da contribuição patronal sobre a folha salarial, encarecem a contratação formal e, portanto, incentivam a informalidade”.

Já nas emissoras de rádio e televisão, os tais “comentaristas de economia”, como o direitista Carlos Alberto Sardenberg, da rádio CBN e da TV Globo, também detonaram o projeto. Como porta-vozes do capital, eles insistem que a medida é contraproducente, penaliza as empresas e “prejudica a competitividade e a produtividade”. Para eles, o projeto representa um grave retrocesso.

Os impactos da nova medida

Ao contrário do que esbravejam, a ampliação do aviso prévio não representa nenhuma drástica mudança na economia. Segundo estudos, dos 17 milhões de trabalhadores do mercado formal demitidos em 2010, 21% tinham menos de três meses de emprego e, por isso, nem tiveram direito a aviso prévio. Do total dos ocupados, somente 23% tinham mais de dois anos de trabalho.

O projeto aprovado na Câmara Federal, após quase duas décadas de embromação e de desrespeito aos preceitos constitucionais, representa apenas um tímido passo numa relação mais civilizada no chamado mundo do trabalho – coisa que é impossível no capitalismo. O problema é que o patronato e sua mídia ainda mantêm a mentalidade dos senhores de escravo.

Fonte: http://altamiroborges.blogspot.com/2011/09/gritaria-contra-o-aviso-previo.html

Presidente do FED indica “lições dos emergentes”

Ben Bernanke – Lições das Economias Emergentes sobre Fontes de Crescimento Sustentado

O presidente do FED proferiu uma palestra ontem no seminário “Idéias para o Futuro” da Cleveland Clinic em Ohio com o título “Lições das Economias Emergentes sobre Fontes de Crescimento Sustentado”.

O texto integral da palestra (em inglês) está disponível em:
http://www.ibtimes.com/articles/221597/20110928/bernanke-federal-reserve-fed-ben-bernanke-monetary-policy-economy.htm

O jornal Le Figaro traz hoje uma matéria sobre a palestra onde diz que:

“O influente presidente do FED disse ontem que os Estados Unidos e os outros países avançados fariam bem em se inpirar nas receitas que fizeram o sucesso dos países emergentes. Agora que o crescimento das economias avançadas estagnou e que algumas já entraram inclusive em recessão, de acordo com Nouriel Roubini, Bem Bernanke aconselha “reaprender as lições das experiências dos países emergentes”.
(http://www.lefigaro.fr/conjoncture/2011/09/29/04016-20110929ARTFIG00494-les-pays-riches-feraient-bien-de-s-inspirer-des-emergents.php )

Na palestra, Bernanke cita até o programa de Bolsa Família que está sendo aplicado no Brasil e no México.

PSDB trabalha para isolar Serra

POR RUDOLFO LAGO 

Do limão, uma limonada. É o que o PSDB pretende fazer com os dados da pesquisa que encomendou ao instituto do consultor de marketing político Antônio Lavareda. À primeira vista, os dados da pesquisa não são nada bons para o PSDB. Eles mostram uma imensa popularidade da presidenta Dilma Rousseff e, especialmente, do ex-presidente Lula. Mostram também que, hoje, os tucanos não teriam a menor chance numa disputa com qualquer um dos dois. Mas a pesquisa mostra também em que pontos o PSDB e a oposição erram, e o que é preciso fazer para que o partido se mostre competitivo nas eleições municipais do ano que vem e na eleição presidencial de 2014.

É essa a leitura que está sendo feita pelo presidente do PSDB, Sérgio Guerra. Hoje (29), ele estará em Goiânia apresentando a pesquisa aos oitos governadores do partido. Desde que os dados foram apresentados a ele por Lavareda, é o que Sérgio Guerra vem fazendo em encontros internos do PSDB. Os números da pesquisa são apresentados aos interlocutores de Guerra e, sobre eles, a cúpula do partido discute o que deve fazer.

“A pesquisa indica uma estrada a percorrer. Mas indica também que é preciso, na saída, remover um obstáculo”, diz um dos tucanos que já viu e discutiu os dados da pesquisa. O problema para o PSDB é que esse obstáculo foi o nome escolhido em duas das últimas três eleições presidenciais para representar o partido na disputa: José Serra. A leitura feita pela pesquisa é que as chances do PSDB residem em resgatar suas bandeiras originais, de defesa da social-democracia como partido de centro-esquerda, mas renovando essas bandeiras diante de um país que mudou. Essa renovação, avalia-se, não pode se dar com a insistência de uma cara identificada ao que não funcionou nos últimos anos.

Daí, a necessidade de deixar claro desde já que a próxima opção eleitoral do PSDB não será de novo Serra. Nem nenhum outro político de origem paulista (casos de Serra, Geraldo Alckmin e Fernando Henrique Cardoso – que é carioca de nascimento, mas construiu sua carreira em São Paulo). A pesquisa identifica ainda que não há hoje um discurso alternativo identificado com o PSDB na sociedade. Por isso, Sérgio Guerra já declarou que sua intenção é antecipar o lançamento da próxima candidatura do PSDB à Presidência, definindo-a logo depois das eleições municipais do ano que vem. Como, por enquanto, a única alternativa posta é o senador Aécio Neves (PSDB-MG), o quadro apresentado pela pesquisa o favorece. A intenção é abrir o caminho, até depois das eleições, para diminuir a influência atual de Serra e do grupo paulista e criar as condições para construir a candidatura de Aécio em 2014. É por essa razão que as maiores reações à divulgação de dados da pesquisa vieram justamente de políticos ligados ao grupo de Serra, como o ex-deputado Jutahy Magalhães (BA).

Hoje, não daria para ganhar

A pesquisa de Lavareda mostra que o PSDB teve, nas três últimas eleições presidenciais, uma votação sempre ascendente. É um sinal de que ela, provavelmente, poderia crescer mais em 2014. Mas também revela que, mantido o mesmo ritmo de crescimento, o candidato tucano não seria capaz de vencer seu adversário do grupo governista. Ou seja: o PSDB precisa encontrar meios de crescer em outros nichos do eleitorado que hoje não fecham com o governo. Os que foram eleitores de Marina Silva, candidata do PV em 2010, por exemplo.

O que espanta fundadores do PSDB é que os dados mostram que, hoje, o partido aparece para boa parte dos eleitores como uma alternativa conservadora, de direita, por conta das opções que fez desde que chegou ao poder com Fernando Henrique Cardoso. Quando surgiu, o PSDB era uma reação ao fato de que o PMDB, no poder com o então presidente José Sarney, dava uma guinada para a direita. Os que deixaram o partido para fundar o PSDB apresentavam-se como defensores da social-democracia, de centro-esquerda. Ocorre que o PSDB, ao chegar ao poder, aliou-se ao PFL (hoje DEM) e também deu uma guinada à direita.

O que o partido pretende buscar é resgatar suas bandeiras originais renovando-as, diante do fato de que o país e o mundo mudaram muito da fundação do PSDB em 1988 para cá. A pesquisa mostra que as duas palavras que estão na sigla do partido, social e democracia, têm forte apelo junto à sociedade. O problema é que o eleitor nem lembra muito que elas estão na sigla do PSDB. Há, avalia a cúpula tucana, um grande problema de comunicação no partido. Nas campanhas de Alckmin e de Serra, o PSDB ao mesmo tempo escondeu o que fizera de bom no governo Fernando Henrique e não foi capaz de construir um discurso alternativo ao que fez o governo Lula.

O problema de comunicação começa na própria estrutura. Enquanto a campanha de Dilma tinha, por exemplo, 50 pessoas trabalhando diretamente na comunicação junto às redes sociais da internet, a campanha de Serra teve apenas 15. E temas que eram importantes na campanha, como os programas sociais, estavam identificados apenas com o governo Lula. Não se conseguia passar a mensagem de que o Bolsa-Escola e o Vale-gás, por exemplo, que hoje estão na composição do Bolsa-Família, já existiam no governo Fernando Henrique. Muito em função da própria estratégia adotada. Como na época as pesquisas mostravam que uma eventual associação com o governo Fernando Henrique, na comparação com Lula, tirava votos, Serra tratou de esconder o ex-presidente tucano e valorizar apenas o que ele mesmo fez. Mas mesmo nisso, Serra falhou. Se 70% dos ouvidos por Lavareda na pesquisa não têm dúvida de que foi Fernando Henrique quem fez o Plano Real, 40% acham que foi Lula quem criou o medicamento genérico.

Dados positivos

Há, porém, dados positivos para o PSDB mostrados pela pesquisa. E a estratégia a ser adotada pretende reforçá-los. O partido já teve mais de 900 prefeitos, e hoje tem pouco menos de 800. Mas elegeu oito governadores (São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Tocantins, Paraíba, Roraima, Pará e Alagoas). Os governadores têm forte influência nas eleições municipais, e os dados mostram que o PSDB hoje é forte no Centro-Oeste e no Sudeste. A meta do partido é eleger no ano que vem mil prefeitos.

Outro dado considerado positivo é a informação de que Serra, no ano passado, venceu as eleições em 40 dos 80 municípios que têm mais de 200 mil eleitores. Desses, 30 têm prefeitos do partido. A ideia é reforçar tais posições, passando a ideia de que o PSDB é o partido das grandes cidades.

Há também uma percepção de parte do eleitorado de que o PSDB tem quadro mais competentes do que o PT. Dezoito por cento dos entrevistados disseram que os tucanos são mais competentes que os petistas, contra 15% que disseram que o PT tem quadros mais capazes que o PSDB. O dado faz com que a cúpula do partido considere que pode ser eficaz continuar batendo na tecla de que o PT aparelhou o Estado.

Os ouvidos consideram que o governo de Fernando Henrique Cardoso foi mais corrupto do que o de Lula. Mas 21% já consideram que o PT é o partido mais corrupto. Na leitura que faz a cúpula do PSDB, o PT ainda se beneficia de uma impressão que consolidou ao longo do tempo de que era um partido diferenciado no que diz respeito à moralidade pública. Mas já começa a perder um pouco tal característica. Pode perder mais se isso for bem explorado, muito embora o tema da corrupção não apareça como algo de muito apelo junto ao eleitorado. A pesquisa foi feita no auge das denúncias contra os Ministérios dos Transportes e do Turismo. Mesmo assim, a corrupção aparece apenas como o quarto item na preocupação dos eleitores, perdendo para saúde, educação e violência urbana.

Renovação

Uma avaliação que emerge da leitura da pesquisa é de que hoje não se enxerga de forma clara o que o PSDB poderia oferecer de alternativa ao PT caso o substituísse no governo. Por isso, há hoje a intenção de Sérgio Guerra de antecipar a entrada do partido na disputa sucessória, definindo o seu candidato à Presidência logo depois das eleições municipais do ano que vem. Ele acredita que, definido o nome, o partido começaria a demarcar um território de diferenciação do atual governo. Fica cada vez mais claro que o nome para isso é Aécio Neves.

Há, porém, hoje uma insatisfação com uma certa apatia de Aécio como senador. A cúpula tucana avalia que Aécio não está aproveitando as oportunidades do Parlamento como poderia. Até agora, por exemplo, ele mal se posicionou no debate posto nas ruas sobre a corrupção pública. Aécio precisa aparecer mais, e isso será cobrado dele.

Ao mesmo tempo em que busca acertar sua agenda política, o PSDB trabalha para apresentar alternativas concretas às ações do atual governo. Um grupo coordenado pelo economista Edmar Bacha trabalha nisso. A ideia é que o grupo apresente esse conjunto de propostas do partido para o país num evento no dia 28 de outubro, no Rio de Janeiro.

Fonte: http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/psdb-trabalha-para-isolar-serra

Dia de glória da ortodoxia

O Banco Central oficialmente admitiu que o IPCA, índice oficial de preços, não atingirá o centro da meta em 2012. No relatório de inflação do terceiro trimestre, divulgado hoje, o BC reviu para cima suas projeções. A inflação em 2011 será de 6,4% (antes, a previsão era de 5,8%), bem perto do teto de 6,5%. No ano que vem, atingirá 4,7% (o centro é 4,5%). O índice só convergiria para o centro da meta no primeiro trimestre de 2013.

O BC reduziu o crescimento do PIB previsto para este ano de 4% para 3,5%.

É um dia de glória para os ortodoxos, críticos do recente corte de juros e que gostam de repetir um mantra: a “tolerância” com a inflação costuma resultar em menos crescimento e mais alta dos preços.

Manifesto mostra PSD à direita com pitadas de retórica social

André Barrocal/Carta Maior

BRASÍLIA – O Partido Social Democrático (PSD) lançou nesta quarta-feira (28), horas depois de a justiça eleitoral ter aprovado sua criação, um “Manifesto à Nação”, na primeira reunião oficial de suas lideranças. O texto apresenta as linhas gerais que serão defendidas pela legenda, potencialmente uma das maiores do Congresso.

O que se vê no documento é um partido inclinado à direita, mas que se esforça por atenuar a vocação – inevitável pela origem de seus dirigentes – com pitadas de retórica social. Assim, tenta se encaixar no “centro” da política, como agora é classificado pelo seu primeiro presidente nacional, o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab.

No manifesto, o PSD ergue como bandeira principal a convocação de uma nova Assembléia Nacional Constituinte, para revisar a Carta de 1988. Sua realização será proposta no Senado, provavelmente pela senadora Katia Abreu (TO), presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e filiada ao partido.

“Há tempos o Brasil está amarrado, travado, perdido em discussões que não prosperam, viciadas ora pelo fisiologismo, ora pelo corporativismo, radicalismo ou problemas menores. Sabemos que mínirreformas ou remendos não resolvem mais”, diz o manifesto, a pregar reformas política e triutária – mas também penal e trabalhista.

A idéia de uma ampla revisão da Constituição costuma causar arrepios em partidos e militantes de esquerda, porque muitas das críticas dirigidas à Carta referem-se a uma suposta ingovernabilidade que ela teria produzido com seus inúmeros dispostivos de proteção social.

Talvez por isso, o documento do PSD diga ser necessário rever a Constituição inclusive para contornar a “falta de recursos para dar aos brasileiros serviços dignos de saúde, educação, segurança, justiça e oportunidade igual para todos”.

Dois pra lá, um pra cá


Essa tipo de dubiedade percorre quase todo o manifesto. De um lado, o PSD defende a propriedade privada, a economia de mercado, a divulgação do valor dos impostos no preço de cada produto, idéia antiga de um dos caciques do PSD, o empresário Guilherme Afif Domingos, vice-governador de São Paulo e ex-presidente da Associação Comercial de São Paulo .

“Somos, por convicção e princípio, contra qualquer tipo de censura, controle, restrição ou regulamentação da mídia”, diz o texto, sem mencionar proposta em estudo no governo que é uma das maiores bandeiras atuais do PT, partido que, em Congresso, recente deixou aberta a porta para alianças com o PSD nas eleições municipais do ano que vem.

No manifesto, o PSD afirma ainda ser defensor da agricultura e pecuária, representada organicamente na legenda na figura da senadora-ruralista Katia Abreu.

Por outro lado, o texto diz que o PSD faz “questão de lembrar e valorizar a multidão de pequenos produtores, uma classe batalhadora que carrega o Brasil nas costas”, num aceno ao segmento familiar da agricultura, não raro em polo oposto aos dos grandes ruralistas em questões campesinas. E que o partido “defende a preservação do meio ambiente como fator de sobrevivência do homem e da própria vida do planeta. É possível alargar as fronteiras da produção, de maneira sustentável e responsável.”

São dois exemplos de pitadas de retórica social, mais à esquerda, presentes no texto. Em outros trechos, o documento afirma, por exemplo, que o PSD apoia “as políticas sociais aos que mais precisam do amparo do estado, e a necessidade de abrir as portas de entrada do emprego digno para esses cidadãos”. E que acredita num “Estado forte” e “regulador”, embora ressalve que isso não signifique um Estado “obeso”.

O esforço do PSD para se mostrar mais “social” e popular também incluiu a filiação em massa de dirigentes de uma das seis centrais sindicais oficiais do país, a União Geral dos Trabalhadores (UGT). A entidade é presidida por Ricardo Patah, que é presidente do Sindicato dos Comerciários de São Paulo, daí a proximidade dele com Afif, antigo interlocutor patronal do sindicalista.

A missão principal dos sindicalistas da UGT, segundo o manifesto, será ajudar a formatar as posições do PSD no dia a dia, em diálogo no Espaço Democrático, o órgão de formulação política do partido. A instância partidária será comandada justamente por Afif.

Em relação ao governo federal, o partido sugere no manifesto que quer ter boas relações com o governo Dilma Rousseff. “O PSD afirma que não fará oposição pela oposição. Faremos política para ajudar o Brasil. Nossos adversários não são inimigos a eliminar, mas cidadãos com os quais vamos dialogar, sem violências ou radicalismos.”

Em um vídeo sobre o nascimento da lgenda colocado na página do PSD na internet, Kassab reforça a mensagem de que espera colaborar com o governo Dilma. “Reconhecemos a luta do governo federal e tudo que foi feito nas última décadas”, afirmou. “Não faremos oposição pela oposição. Não viemos para dividir, mas para somar.”

Fonte: http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=18577

Os próximos passos da revolução egípcia

Eduardo Febbro – Direto do Cairo

A revolução da Praça Tahrir já tem o primeiro horizonte democrático aberto. Após meses de protestos e bloqueios contra a demora com que a junta militar no poder organizou os passos legais da transição democrática logo após a derrubada do presidente Hosni Mubarak em 11 de fevereiro, o Conselho Supremo da Forças Armadas (CSFA) colocou o calendário eleitoral sobre a mesa com um processo que terá quatro etapas. A primeira foi fixada para o próximo dia 28 de novembro. Nesse momento, serão eleitos os representantes da Assembleia do Povo (Câmara baixa), dois terços dos quais virão de listas fechadas e o restante de listas abertas. A segunda etapa ocorrerá com a eleição da Shura, a Câmara Alta, no dia 29 de janeiro. Depois, ocorrerá a redação de uma nova Constituição e, até o final de 2012, as eleições presidenciais.

A junta terminou por ceder à pressão da rua pela demora em tornar tangíveis as conquistas da revolução que estourou no dia 25 de janeiro deste ano. « Queriam nos anestesiar com promessas, divagações e, além disso, nos furtar a Revolução com uma agenda eleitoral totalmente inadeaquada para o Egito de hoje. Esta é só uma primeira greve, ainda falta muita coisa », diz Ibrahim Ahlal, um dos muitos professores que participa da greve que paralisou a educação egípcia. O « falta muita coisa » é muito mesmo e levará semanas para que a Praça Tahrir seja de novo a caixa de ressonância da contestação. Ainda que os meuios de comunicação internacionais tenha relegado o Egito a um quarto plano, a sociedade que se levantou no início do ano segue em pé. O Egito pós-Mubarak é um comovedor conjunto de iniciativas cidadãs, de movimentos sociais, de grupos de jovens, de sindicalistas independentes, de blogueiros e de comitês populares que vão desenhando um país distinto contra uma classe política que busca recuperar uma revolução em seu próprio benefício.

Um grafite pintado há uma semana em uma das ruas que conduz à Praça Tahrir revela o espírito de desconfiança que há entre a juventude revolucionária : « O povo quer que o próximo presidente da República se vá ».

Os setores em greve são numerosos. Empregados da companhia de transporte público do Cairo e de Alexandria, médicos dos hospitais públicos, trabalhadores dos portos do Mar Vermelho, bancários, todos lutam por melhorias nas condições de trabalho e aumentos de salário em um contexto de gargalo financeiro para o Estado. O governo enfrenta um dos maiores déficits da história e enfrenta as consequências de um crescimento que passou de 6% para 2%.

As organizações laicas de esquerda e os movimentos de jovens militantes reclamam, por sua vez, um panorama eleitoral equitativo e o cumprimento das promessas mais substancisias feitas pelos dirigentes da transição, ou seja, as medidas que o povo reivindicou na Praça Tahrir durante a revolução, em especial as de ordem social, salário mínimo decente, e as que dizem respeito aos ideais mais genuínos da revolução de janeiro, em especial o ideal da justiça : prisão dos policiais implicados na violência sem limites contra os manifestantes, fim dos julgamentos de civis em tribunais militares, eliminação do dispositivo jurídico herdado do antigo regime que fecha o caminho para a liberdade política, a criação de partidos políticos, a liberdade de expressão, assim como a promulgação de uma lei contra a traição a fim de purgar a administração pública. A estes anseios soma-se outro, expresso de maneira forte pela opinião pública : o reexame dos acordos de paz de Camp David firmados entre Egito e Israel em setembro de 1978.

Esse novo Egito ainda espera por nascer. « A única coisa realmente concreta até agora são os julgamentos dos caciques do antigo regime, o resto está em estágio de espera », diz Ahmed Ezzat, o coordenador dos comitês populares para a defesa da Revolução, que promete sem ambiguidades que, se o espírito da revolução não se configurar, « cada bairro do país será uma nova Praça Tahrir ».

O principal problema que a geração revolucionária tem hoje é o papel da Irmandade Muçulmana. Os islamistas estão muito mais organizados e muito mais presentes que os movimentos laicos que já existiam – Wafd, Ghad ou a Frente Democrática – e inclusive que o Movimento 6 de abril que nasceu no Facebook e esteve a frente dos protestos de 2008 . A Irmandade está muito bem estruturada, tem o acúmulo de 60 anos de uma sólida rede ação social da qual carecem os movimentos revolucionários. Nos subúrbios do Cairo, o grupo exibe uma presenaça eficaz : a Irmandade Muçulmana dirige bancos, hospitais, consultórios médicos, oferece escolas grátis e está a frente de numerosas associações de caridade.

O governo estima que a Irmandade soma engtre 3 e 4 milhões de pessoas. O cálculo do número dois da Irmandade, Rashad al-Bayoumi, talvez seja o mais realista : não sabemos quantos somos, não contamos. Sabemos que estamos em todas as partes, em cada povoado, em cada cidade, em cada rua ».

Os dados da segunda fase do processo estão lançados. Partidos políticos tradicionais, novos movimentos, partidos marginalizados pelo regime deposto, grupos e alianças em criação. O Egito é hoje um laboratório de ideias e de ação social. Há, na jovem sociedade egípcia, algo muito denso, estremecedor, uma espécie de fé coletiva na ação comum, na iniciativa. Persiste uma lúcida desconfiança em relação ao sistema político, mas, aqui, cada voz é uma idéia, cada dia um sonho distinto, cada mão uma vontade irrevogável de defender o que foi conquistado mediante a ação coletiva com um único fim: a liberdade.

Tradução: Katarina Peixoto

Fonte: http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=18580