Arquivo mensais:agosto 2011

Potencial inaproveitado

Amir Khair (*)

Apesar de todo potencial que o Brasil possui, pouco foi aproveitado pelos sucessivos governos que conduziram o País. Temos posição estratégica em commodities, alimentos, matriz energética limpa, abundância de água, petróleo e imenso mercado interno a ser aproveitado.

O governo Lula se distinguiu do governo FHC por priorizar o crescimento econômico através da ampliação da classe C, ao praticar políticas de estímulo na base da pirâmide social e marcar seu segundo mandato com o Plano de Aceleração do Crescimento (PAC).

O governo FHC usou como estratégia a atração de investimentos do exterior ao priorizar a privatização das empresas estatais. Não deu certo, fragilizou os fundamentos macroeconômicos deixando as contas internas externas em má situação, além de praticamente esgotar as reservas externas do País, obrigando-o a recorrer ao FMI.

Vários analistas consideram, no entanto, que ambos usaram o tripé: superávit primário, câmbio flutuante e metas de inflação e, concluíram que não houve mudança de política econômica, como se esse tripé definisse a política econômica, que envolve principalmente o crescimento econômico, que está ausente do tripé.

A falha de ambos foi ter dado as rédeas da economia ao comando do Banco Central (BC), que tem forte dependência do mercado financeiro, que lucra com a Selic, a taxa básica de juros mais elevada do mundo. Além disso, não puseram nenhum limite às taxas de juros cobradas pelos bancos, também, as mais altas do mundo.

Já passou da hora de retomar as rédeas da economia para as mãos do governo e o que se impõe é reduzir imediatamente as taxas de juros que caracterizam o Brasil como o paraíso da agiotagem legalizada.

A pergunta que cabe é: será que Dilma irá romper com essa dependência e reduzir rapidamente a Selic? A oportunidade se apresenta agora. Neste momento em que a crise que se alastra no centro do capitalismo – EUA, Europa e Japão – a tendência é de queda nos preços das commodities, que têm influenciam sobre a inflação e, passou o primeiro quadrimestre quando sazonalmente ocorre cerca de 40% da inflação do ano.

Receio, no entanto, que essa oportunidade poderá, mais uma vez, ser jogada fora.

Lendo os jornais do dia 15, surgiram várias matérias de analistas, que avaliavam que as taxas de juros poderiam, face à crise, começar a cair. Mas, eis que leio a manchete do Valor Econômico:“Dilma pede austeridade e cautela para baixar juros”. Nessa matéria, segundo relato de um interlocutor, teria dito: “Ninguém mais do que eu quer baixar a taxa de juros, mas não é assim tão fácil. Não é uma questão de vontade”.

Aqui cabe, então, a indagação: não é uma questão de vontade manter durante mais de uma década o título de País com a maior taxa de juros do mundo, disparado na frente do segundo pior colocado? A resposta só pode ser afirmativa.

É a vontade do mercado financeiro, que predomina na condução da economia, em estreita aliança com o Banco Central (BC), que não têm independência operacional alguma, pois é uma grossa anomalia sob o pretexto de controlar a inflação praticar taxas de juros muito superiores ao que vigoram internacionalmente, mas que possuem inflação semelhante à nossa.

O BC já avisou que prefere esperar os dados de inflação do mês de agosto, que serão divulgados mês que vem, antes de decidir sobre cortes nos juros. Se ficar comprovado o recuo dos preços haverá, segundo o BC, espaço para redução da taxa Selic. Analistas acreditam que uma desaceleração da economia no segundo trimestre, cujo resultado sai no início de setembro, também pode levar o BC a cortar juros na reunião seguinte.

O Índice de Atividade Econômica do BC (IBC-Br), que serve como uma proxy mensal para o PIB apresentou queda de 0,26% em junho em relação a maio, em termos dessazonalizados. Em comparação com o mesmo mês do ano passado, o IBC-Br desacelerou de crescimento de 4,2% em maio para 2,9% em junho. Esses resultados confirmam a desaceleração da atividade doméstica no segundo trimestre deste ano, em linha com o que a produção industrial e as vendas do comércio varejista têm mostrado para este mesmo período.

Sempre é bom lembrar que ocorreu forte pressão no início do ano para o governo federal reduzir suas despesas, considerada fundamental pelos analistas conservadores como necessário para a queda da inflação. Como resposta o governo efetuou um corte no orçamento de R$ 50 bilhões, que atingiu diversos programas e investimentos.

Interessante, no entanto, observar que as despesas com juros nos últimos doze meses até junho atingiram R$ 223 bilhões. Parece brincadeira a maneira como se trata da questão fiscal no País. Até hoje, mesmo dentro do governo, os juros são um caso à parte. É como se não fizesse parte das despesas. Isso obriga a cortar despesas que deveriam ocorrer, especialmente, em investimentos e programas de transferência de renda, cujos resultados contribuem para o desenvolvimento do País.

De que adianta lançar o Programa Brasil Maior, quando o câmbio, afetado pela elevada Selic está contribuindo para acelerar o processo de desindustrialização do Brasil?

Com a enxurrada de dólares sobrando no mundo, manter a Selic nesse nível absurdo é permitir aos especuladores internacionais lucros elevados sem correr riscos, podendo repatriá-los sem maiores problemas em prazos curtos. Estão saqueando o País com a complacência do governo. O IOF de 6% para tentar frear esse saque não consegue conter a especulação e uma das formas que vem sendo usada é através do investimento direto de estrangeiros, isento do IOF de 6%, que não tem controle por parte do governo sobre a sua real aplicação.

As análises econômicas confluem cada dia mais para um quadro de estagnação nos impropriamente chamados de países desenvolvidos: EUA, Europa e Japão. Não conseguirão se livrar da crise que paralisou suas economias durante vários anos. São países cuja classificação deveria passar a ser de países estagnados ou em decadência. Isso poderá levar a uma queda nos preços das commodities e alimentos no mundo, o que contribui para reduzir a inflação, mas prejudica as contas externas do País.

Está dada oportunidade ímpar de reduzir a Selic. Caso isso não ocorra, os capitais internacionais irão continuar aproveitando de aplicações financeiras que dêem lucros fáceis e o Brasil continuará a funcionar como um ímã para atraí-los. Com isso o real se aprecia sem parar perante o dólar e fica cada vez mais difícil competir com o produto estrangeiro.

Essa é a política que vem sendo adotada desde o Plano Real para combater a inflação. É a denominada “âncora cambial”, que impede que haja remarcação de preços quando ocorre um aumento da demanda interna. Pode ser útil para evitar abusos das empresas que aumentam suas margens de lucro, elevando seus preços, causando inflação.

O produto importado é um regulador de preço. Essa função é importante para o controle inflacionário. Ocorre que o excesso de dólares injetado pelos EUA acabou por artificializar o câmbio em todos os países, à exceção da China que mantém a paridade cambial com o dólar praticamente inalterada, pois não quer perder sua posição de forte exportador mundial. Isso garante emprego aos chineses e, reduz desemprego nos países que têm seus produtos substituídos pela forte concorrência chinesa.

Para controlar esse processo, o governo tem à sua disposição vários instrumentos de proteção às empresas sediadas no País. Entre eles, o estabelecimento de preços mínimos e/ou quantitativos máximos para o produto importado, calibrar melhor os impostos de importação, etc.

Vamos aguardar os próximos passos do governo e verificar se quer ou não aproveitar o imenso potencial que o País possui, que está sendo desperdiçado pela ação nefasta do BC.

Fonte:http://cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=18277

Funcionará mesmo a nova política industrial?

Rodrigo L. Medeiros*

Pode-se dizer que é muito cedo para avaliar as chances de sucesso da nova política industrial lançada pelo governo brasileiro? Segundo Lionel Robbins (1898-1984), previsões quantitativas em economia, como todos sabem, não são confiáveis. Sistemas econômicos raramente funcionam na prática como previsto na teoria.

Em que pesem as incertezas do futuro próximo, alguns sinais apontam para o insucesso da nova política industrial brasileira. Afinal, alguém sensato acredita ser possível resolver questões macroeconômicas com medidas de estímulo no plano micro? O Plano Brasil Maior parece seguir essa crença.

Há dados apontando para os estragos do real sobrevalorizado – The Economist, Fundo Monetário Internacional (FMI), Confederação Nacional da Indústria (CNI) e o Banco para Compensações Internacionais (BIS).

No plano nacional, poucos industriais acreditam que seja possível absorver, com ganhos de produtividade e eficiência, a descida do câmbio abaixo dos R$ 2,30. Uma apreciação cambial do real superior a 30% nos últimos anos dificilmente pode ser compensada com medidas microeconômicas. A conta corrente do balanço de pagamentos brasileiro iniciou seu processo de deterioração para o saldo negativo em 2008 e quando eclodiu a crise, o Banco Central elevou rapidamente a taxa básica de juros por conta das incertezas globais.

Projeções do FMI apontam para um déficit de 3,62% do PIB nas transações correntes em 2014. O relatório Focus, do Banco Central, de 29 de julho, por sua vez, aponta para déficits nas transações correntes em 2011 e 2012 que não conseguirão ser cobertos pelo investimento estrangeiro direto. Para o câmbio médio dos períodos, as projeções de “mercado” são de R$ 1,59 (2011) e R$ 1,64 (2012).

O pacote de medidas pode ao final se mostrar tímido e aquém dos desafios enfrentados pela indústria do país

John M. Keynes (1883-1946) foi o primeiro a reconhecer e afirmar claramente que uma moeda apreciada seria uma moeda fraca. Conforme ironizou Keynes (1936), “a sabedoria universal indica ser melhor para a reputação fracassar junto com o mercado do que vencer contra ele”. Será esse o caminho escolhido pelo Estado brasileiro e seus governantes?

A sondagem especial da CNI, edição de agosto, aponta para o fato de que quase a metade das empresas exportadoras perdeu participação no exterior. Essas empresas acumulam estoques indesejados, acima do usual, e estão menos otimistas do que as empresas não exportadoras. A participação das exportações no faturamento da indústria vem diminuindo e deve reduzir-se ainda mais em 2011.

Segundo a CNI, “as empresas exportadoras estão mais expostas à competição, tendem a ser mais inovadoras e disseminam ganhos de competitividade no mercado doméstico”. Entre 2000 e 2005, gastou-se no Brasil em pesquisa e desenvolvimento (P&D) o equivalente a 1% do PIB. Nos EUA, esse montante chegou aos 2,7% do PIB para o mesmo período. A China, por sua vez, investiu nesse mesmo período 1,4% do seu PIB, o Japão 3,1% do PIB e a Coreia do Sul, 2,6% do PIB.

Em 2010, gastou-se no Brasil 44% do Orçamento Geral da União com o pagamento de juros, amortizações e refinanciamento da dívida, enquanto setores-chave como saneamento básico, transportes, urbanismo e cultura não chegam a ter 1%. Gastos com as despesas financeiras ultrapassaram os 5% do PIB, valor superior ao gasto público com educação. O Brasil vem sendo desde 1994, invariavelmente, o campeão mundial de juros real e, segundo informações do Ministério do Desenvolvimento, entre 1994 e 2010 houve um salto de 24,88% para 44,58% na participação de produtos básicos (commodities) na pauta exportadora brasileira. Manufaturados tiveram sua participação reduzida de 57,86% para 39,40%.

Conforme apontou recentemente o professor Luiz C. Bresser-Pereira, cerca de 30% dos preços são formalmente indexados, gerando impactos difusos na inflação inercial. Ele se referiu basicamente aos preços dos contratos de concessão dos serviços públicos. Existe ambiente político e vontade para se trabalhar essa questão? Será possível iniciar nova rodada de desindexação da economia brasileira, que deve começar pelos títulos públicos, passar pelos preços administrados e só por último chegar aos reajustes de trabalhadores e aposentados, eliminando assim os resíduos de inflação inercial?

O governo brasileiro poderia combater a inflação de commodities a partir de estoques reguladores dos produtos que afetam a cesta básica? Por que não pensar também na possibilidade de extinção da Lei Kandir, incluindo a contrapartida dos estados do fim da cobrança de ICMS sobre alguns alimentos de primeira necessidade? Essa medida provavelmente seria muito positiva para as finanças dos estados; ela ainda teria efeitos positivos na reversão do processo de desindustrialização.

Há outra questão delicada e que vem sendo evitada pelo governo brasileiro. “A questão do controle de capitais é um problema técnico, e não uma visão ideológica”, afirmou Olivier Blanchard (2011), o economista-chefe do Fundo Monetário Internacional.

Afinal, funcionará a nova política industrial brasileira? Talvez em alguma medida, porém dificilmente ela terá os esperados e anunciados efeitos sistêmicos caso o quadro macroeconômico vigente seja mantido. O pacote de medidas do Plano Brasil Maior pode ao final se mostrar tímido e aquém dos desafios enfrentados pela indústria instalada no país.

Esse debate está apenas no começo. O Brasil está de fato no caminho certo? Segundo Keynes (1938), a economia “é uma ciência de pensar em termos de modelos aliada à arte de escolher modelos que sejam pertinentes ao mundo contemporâneo”. Pouco antes de falecer, Keynes fez um brinde aos economistas – “guardiões, não da civilização, mas das possibilidades da civilização”. As possibilidades brasileiras precisam ser objeto de melhor avaliação técnica e debate político.

*Rodrigo L. Medeiros integra a World Economics Association e é sócio da Associação Keynesiana Brasileira.

Fonte:http://www.valoronline.com.br/impresso/opiniao/98/475523/funcionara-mesmo-essa-nova-politica-industrial

Europa escava o fundo do abismo.Obama cogita um BNDES. Com arrocho Fiscal?

A economia do euro está parando. Mergulhado numa tempestade perfeita de asfixia fiscal, desemprego e vazio assustador de liderança, o continente alterna dias de falso alívio com outros de puro desespero. A quinta-feira é do desespero. Carteiras de ações queimam nas mãos de fundos e investidores. Pregões despencam. Ventos frios transformam temores em confirmações: França e Alemanha estagnadas; dos EUA chegam números da mesma cepa. Vendas de imóveis usados caíram ao nível mais baixo desde 2009; pedidos de seguro desemprego crescem; atividade industrial tombou em Nova Iorque, embicou na Filadelfia.

Há coisas piores no cardápio dos próximos dias: em setembro a Itália terá que levantar 50 bilhões de euros para girar sua dívida pública da ordem de 120% do PIB. Centuriões do euro, Sarkosy e Merkel, jogaram água fria na expectativa de um reforço no fundo europeu de estabilização que pudesse prefigurar uma unificação fiscal solidária. Não por acaso a bolsa de Milão caía 5,7% na tarde desta 5º feira. As portas vão se fechando. A esperança de que o mundo possa evitar um rastejante ciclo de crise longa e dissolvente, como diz Maria da Conceição Tavares, esfarelam-se. Cada vez que as lideranças conservadoras abrem a boca a bradar por mais ortodoxia para acudir  seus efeitos, manadas pró-cíclicas escavam o fundo do abismo.

Uma luz tardia vem das palavras de Obama, em caravana pré-eleitoral no Meio-Oeste americano. Acuado por críticas, o democrata fala em relançar o emprego com incentivos a pequenos e médios negócios. Num vislumbre de ativismo fiscal algo anacrônico depois da derrota para o arrocho do Tea Party, chega a acenar com a criação de um banco de desenvolvimento para infraestrutura. Se decidir peitar seus ortodoxos, Obama poderá buscar experiência no maior banco desenvolvimento estatal do mundo: o BNDES. Três vezes maior que o Banco Mundial, ele ancora outra ferramenta anti-cíclica de que se ressentem os EUA e demais redutos da autossuficiencia dos mercados:o PAC, plano de aceleração do crescimento, alavanca keynesiana que reúne R$ 1,5 trilhão em obras nos próximos anos, sendo R$ 960 bi até 2014. Números de causar urticária em Sarah Palim e congêneres tropicais, cuja agenda em meio à hecatombe é a ambígua ‘caça aos corruptos’, os da base do governo,bem entendido.

(Carta Maior; 5º feira, 18/08/ 2011)

O fim dos modelos

Cynara Menezes/CartaCapital

“O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”. Como se grande coisa fosse, a frase saiu da boca do general Juracy Magalhães, então ministro da Justiça, no início da ditadura militar. Com a sinceridade típica de direitista bem à vontade em sua própria pele, Juracy desnudava não só a subserviência do regime a Washington como a adoção de um modelo pelo Brasil: era preciso macaquear o grande irmão do Norte, a Nação mais poderosa do planeta. Econômica ou mesmo cotidianamente, os Estados Unidos eram o exemplo a seguir. O “american way of life” era tudo o que poderíamos pretender para nós no mundo.

À esquerda, o modelo não era muito melhor. Devíamos emular a opção estatizante e nacionalista da União Soviética, de Cuba ou da China, sem dar a devida importância ao nefasto desrespeito às liberdades individuais, à falta de democracia e à perseguição e execução de dissidentes pelos regimes comunistas. Houve, inclusive, quem se pautasse pelo ridículo modelo albanês de Enver Hoxha, que chegou a proibir até o uso de barba no país. Sem falar em outros tiranos sanguinários como o cambojano Pol Pot e sua amalucada estratégia das transferências forçadas para o campo.

Pouco antes da queda do Muro de Berlim, o Brasil, tal qual a formiguinha tonta da fábula, volta-se para a social democracia europeia, sempre em busca do modelo ideal, capaz de tirá-lo do atoleiro dos países subdesenvolvidos e levá-lo, se não ao primeiro, ao mundo dito “civilizado”. A social democracia era um capitalismo edulcorado que poderia angariar simpatias também à esquerda, mas não chegou a se estabelecer por aqui, a não ser em termos de papo furado. Neste período, o mais próximo que chegamos de uma concepção de esquerda genuinamente brasileira foi o “socialismo moreno” de Darcy Ribeiro, a quem ninguém deu bola e, talvez por isso mesmo, nem ele levou adiante teoricamente.

Caído o muro, mais uma vez o modelo americano triunfa e mergulhamos no neoliberalismo na década de 1990. Era preciso fazer o oposto dos regimes comunistas: privatizar e “globalizar”. Não é à toa que a solução econômica para os países atormentados pela inflação foi a dolarização da economia (entre nós, camuflada). Passou a ser considerado imprescindível ganhar dinheiro, e dinheiro fácil. O tal deus mercado iniciava seu reinado. Na América do Sul, os bem-sucedidos estavam ao lado. O Brasil precisava ser “como a Argentina” ou “como o Chile” –deste último, de tão bem que andava, passou-se a dizer que era “uma casa boa numa vizinhança ruim”.

Com a vitória de Lula, em 2002, temeu-se a “venezuelização” do Brasil. Ou seja, o País, sob o PT, copiaria a Venezuela de Hugo Chávez. De novo a busca pelo modelo de Nação, desta vez mais imaginada pela imprensa do que real. O que aconteceu foi o  contrário: nos últimos nove anos, com tudo que ainda falta fazer, é inegável que finalmente nos colocamos em nossa própria trilha. Estamos a anos-luz do país que queremos, mas paramos de tentar copiar o modelo alheio. Somos um país mestiço, desigual e rico, um gigante tropical cheio de contradições. Únicos. Não cabemos em nenhum figurino.

Agora, a absoluta falência dos Estados Unidos e da Europa, vem comprovar que, ainda que quiséssemos seguir algum, os modelos acabaram. O ideal de país a perseguir não existe mais. Referências, sim. Idéias que deram certo lá fora podem e devem ser replicadas. Replicar modelos, não. Se continuarmos acertando, quem sabe algum dia chegue a haver um “modelo brasileiro”? Para ser seguido por países que ainda precisam percorrer um longo caminho, mas que acreditam que é possível crescer sem abrir mão de ser fiéis a si próprios.

Fonte:http://www.cartacapital.com.br/politica/o-fim-dos-modelos

Governar é resistir, por Mauro Santayana

 

Se os suspeitos de desvio de recursos públicos do Ministério do Turismo são criminosos, ou não, cabe à Justiça decidir. Se o uso de algemas foi exagerado, ou não, os policiais envolvidos na operação podem esclarecer. Podemos, no entanto, e mesmo sem pesquisas de opinião, presumir: em sua maioria, as pessoas se sentem aliviadas quando vêem gente bem vestida e de posição social reconhecida, sendo tratada como normalmente se tratam os pobres. Se a lei é igual para todos, todos devem ser tratados da mesma maneira: suspeitos ricos e miseráveis, tenham assaltado com a mão armada ou com a caneta que libera recursos para sócios ocultos.

 

Há sinais de pressões contra a Chefe de governo e de Estado, a fim de que se esfriem as medidas saneadoras que ela vem tomando, a partir do grande escândalo do Ministério dos Transportes. Há articulações, no Congresso, que visam a emparedar o governo, a fim de que se interrompa a ação da Polícia Federal. Ora, a Polícia Federal atuou, nesse caso e em casos semelhantes, conforme a determinação da Justiça. E a Justiça, nesses casos, só se pronuncia quando provocada, seja pelos órgãos do Poder Executivo, seja pelo Ministério Público. Há que se registrar, também, que, mesmo com as falhas e desvios de seus integrantes – que ela mesma investiga e toma as medidas necessárias – a Polícia Federal, nesses nossos tempos de poder civil, é vista com respeito e admiração pelos brasileiros. Enfim, conforme constatava Tancredo, governar é resistir às pressões.

 

Muitos parlamentares – entre eles líderes partidários – atuam como se estivessem fora do mundo. Não analisam os casos patentes de corrupção, nem as suspeitas muito bem fundadas. É difícil aceitar que sejam treinados (e à distância) quase dois mil “agentes de turismo” para atuar em Macapá, cidade de 400.000 habitantes e escassas atrações turísticas – e sem ligação rodoviária com o resto do país. Não parece sério. Os cidadãos começam a perceber que os tributos produzidos pelo seu trabalho se destinam, em grande parte, a custear serviços desnecessários, quando não são desviados para enriquecer empresários e servidores públicosdesonestos. Fala-se muito em reforma política, mas o Estado deve estar sempre em aprimoramento, com a eliminação de contratos de terceirização de serviços com organizações privadas, como as abomináveis Ongs que surgem para tudo e para nada. Os deputados não entendem que representam a nação e o seu primeiro dever é o de se contrapor ao poder executivo, principalmente no que se refere ao orçamento. Em lugar de exigir a boa distribuição dos recursos, de forma a atender ao bem-estar da população e aos investimentos que tragam resultados econômicos gerais, eles se empenham em obter, mediante as famosas emendas orçamentárias, verbas que beneficiem seus redutos eleitorais. Como a experiência demonstra, muitas vezes tais recursos terminam em contas pessoais.

 

Mais grave, no caso brasileiro – e disso já tratamos muitas vezes neste espaço – é a promiscuidade entre o Parlamento e o Poder Executivo, que deviam ser bem separados, como é da boa norma nas repúblicas presidencialistas. Nenhum deputado ou senador poderia exercer um cargo executivo, a menos que renunciasse definitivamente ao mandato – como ocorre, por exemplo, nos Estados Unidos.

 

Os líderes políticos brasileiros não percebem que a grande crise dos estados contemporâneos é decorrente de uma globalização da economia imposta aos paises periféricos pelos centros financeiros internacionais, e que as suas consequências podem atingir-nos, como nos ocorreu no passado, se não construirmos a coesão interna, em torno de atos decisivos contra esses especuladores, dentro de um projeto estratégico e autônomo de desenvolvimento. A população só estará unida ao Estado, para enfrentar a tormenta internacional que se prevê, se confiar plenamente em suas instituições, que, ao livrar-se dos corruptores e peculatários,recuperarão a confiança nacional.

 

A Europa e os congressistas norte-americanos estão interessados em salvar o capitalismo neoliberal e voltam ao receituário do Consenso de Washington. A Grécia está sendo forçada pelo Banco Central Europeu a privatizar tudo – e até mesmo a vender algumas de suas ilhas. Na Itália, o ministro das Finanças de Berlusconi anuncia a privatização do que sobrou do patrimônio público.

 

Um bem humorado blogueiro francês, Henry Moreigne, registrou ontem que os povos procuram por homens políticos “desesperadamente”. Ao analisar a crise econômica européia, ele conclui que os governos salvaram os banqueiros com dinheiro público e agora culpam os povos pela bancarrota. “Transferiram para o déficit público as dívidas privadas” – ele resume. E termina: “quando se quer matar um cão, dizem que ele está com raiva. Quando querem matar os estados, dizem que eles estão endividados”.

Fonte: http://www.maurosantayana.com/2011/08/governar-e-resistir.html

 

Loucos para entregar nosso petróleo?

 

O velho Brizola dizia que as agências reguladoras criadas por Fernando Henrique era como um menino rodando uma marimba – para quem não sabe, marimba é aquela linha com uma pedra amarrada na ponta . Só que o menino é franzino e a pedra, enorme. E aí, é a pedra que roda o menino.

É assim no caso da ANP. Com as devidas ressalvas em relação a seu corpo técnico, o espírito político da autarquia foi “possuído” pelas grandes petroleiras de quem ela, como o menino, acaba entrando em órbita. E o pensamento de lucro rápido, que é natural nas empresas, mas não numa instituição pública, “toma conta deste corpo que não lhe pertence”.

Hoje, no jornal O Globo, o diretor da Agência Nacional do Petróleo, Helder Queiroz diz que tanto a agência reguladora como as empresas estão “loucas” pela realização da rodada, que a Presidenta Dilma, felizmente, segurou.

A turma da ANP, que sai em dezembro, deve mesmo estar louca. Com a descoberta do pré-sal, Lula e Dilma disseram: “opa, muita calma nessa hora”. Claro, se temos um mar de petróleo na nossa costa – dentro e fora do pré-sal, como são as áreas desta rodada ansiada pela ANP – não podemos sair entregando a qualquer um, a qualquer preço, como quem está morto de fome.

Ainda mais que a grande empresa nacional está diante de imensos desafios e compromissos para extrair aquilo que já foi descoberto e refinar em quantidade suficiente para acabar com a nossa necessidade de importação de derivados. E mais ainda com os sinais de agravamento da crise mundial, que espalhou pelo mundo lobos de capital salivando por oportunidades.

Mas o Dr. Hélder, que se confessa tão louco quanto as petroleiras para fazer logo a licitação, nem liga. Diz que não, que a ANP fez a segunda rodada de licitações – no governo FHC – e que correu tudo bem.

A indústria de petróleo trabalha sempre com o longo prazo. Quando teve a primeira rodada da agência, o preço do petróleo tinha caído para US$ 11, e todo mundo falava em adiar a rodada. A agência acabou fazendo. Em 2000, o preço do petróleo também estava baixo, e teve a rodada de Tupi. Então, o ciclo desde o leilão até a entrada em produção é muito longo”.

Na “rodada de Tupi”, Dr. Hélder, a sua agência colocou como valor mínimo para o Bloco BM-S-11, onde hoje é o megacampo de Tupi (estimado entre cinco e oito bilhões de petróleo de alta qualidade) a quantia de R$ 300 mil. O senhor esqueceu? Pode ir conferir lá no documento oficial da ANP, nas páginas 24 e 33, que a gente já reproduz aqui para facilitar.

E o poço saiu, com o ágio obtido no leilão, a R$ 15 milhões. Graças a Deus (e ao conhecimento técnico da empresa) a Petrobras ficou com 65% da área. BG Group (25%) e Galp Energia (10%) ficaram com o resto. É só fazer a conta: R$ 15 milhões, divididos por 5 bilhões de barris, dá tres milésimos de centavo (R$ 0,0003) como valor de bônus de assinatura.

Que as petroleiras estejam loucas po um negócio assim, é compreensível. Mas que a ANP, que deveria cuidar dos interesses do país, esteja “louquinha” para fazer o leilão até o fim do ano, quando muda sua direção, não dá para compreender.

Por: Fernando Brito

Fonte: http://blogprojetonacional.com.br/loucos-para-entregar-nosso-petroleo/

Os protestos em Londres, por Naomi Klein

Os saqueadores do dia contra os saqueadores da noite

Claro que os tumultos de rua em Londres não foram protesto político. Mas o pessoal dos saques noturnos com certeza absoluta sabe que suas elites passaram o dia dedicadas aos saques diários. Saques são contagiosos. Alimentados por um sentido patológico de ‘direitos adquiridos’ pelos ricos, o grande saque global está em andamento à luz do dia, como se nada houvesse a esconder. Mas há, sim, temores ocultados. No início de julho, o Wall Street Journal, citando pesquisa recente, noticiava que 94% dos milionários temiam “a violência nas ruas”. O artigo é de Naomi Klein.

Naomi Klein – The Nation

Leio comparações entre os tumultos em Londres e em outras cidades europeias – vitrines quebradas em Atenas, carros incendiados em Paris. E há paralelos, sem dúvida: uma fagulha lançada pela violência policial, um geração que se sente esquecida. Esses eventos foram marcados por destruição em massa, com poucos saques.

Mas tem havido saques em massa em anos recentes e acho que temos de falar também deles. Houve em Bagdá, logo depois da invasão norte-americana – um frenesi de destruição e saques que esvaziou bibliotecas e museus. Também em fábricas. Em 2004, visitei uma fábrica de refrigeradores. Os trabalhadores tinham saqueado tudo que havia ali de aproveitável, empilharam e incendiaram. No armazém ainda havia uma escultura gigantesca de placas de metal retorcido.

Naquela ocasião, os noticiários entenderam que teria sido saque altamente político. Diziam que aquilo exatamente seria o que aconteceria sempre que um governo não é considerado legítimo pelos cidadãos. Depois de ter assistido durante tanto tempo ao espetáculo de Saddam e filhos roubarem o que conseguissem e de quem conseguissem roubar, os iraquianos comuns sentir-se-iam, então, merecedores do direito de também roubar um pouco. Mas Londres não é Bagdá e o primeiro-ministro britânico David Cameron não é Saddam. Assim sendo, nada haveria a aprender dos saques em Londres.

Mas há exemplos no mundo democrático. A Argentina, em 2001. A economia em queda livre e milhares de pessoas vivendo em periferias destruídas (que haviam sido prósperas zonas fabris, antes da era neoliberal) invadiram e saquearam supermercados de propriedade de empresas estrangeiras. Saíam empurrando carrinhos abarrotados dos produtos que perderam condições para comprar – roupas, aparelhos eletrônicos, carne. O governo implantou “estado de sítio” para restaurar a ordem; a população não gostou e derrubou o governo.

Na Argentina, o episódio ficou conhecido como El Saqueo – o saque[1]. É exemplo politicamente significativo, porque a palavra aplica-se, na Argentina, também ao que as elites do país fizeram, ao vender patrimônio da nação à guisa de ‘privatizar’, em negócios de corrupção flagrante e enviando para o exterior o produto das ‘privatizações’, para, em seguida, cobrar do povo obediência a um brutal pacote de ‘austeridade’. Os argentinos entenderam que o saque dos supermercados jamais teria acontecido sem o saque anterior, muito maior, do próprio país; e que os reais gângsteres estavam no governo.

Mas a Inglaterra não é a América Latina e, na Inglaterra, não há tumultos políticos – ou, pelo menos, é o que nunca se cansam de repetir. Os jovens que devastaram ruas em Londres são crianças sem lei, que se aproveitam de uma situação, para roubar o que não lhes pertence. E a sociedade britânica, diz-nos Cameron, tem ojeriza a esse tipo de gente mal comportada.

Disse, e com ar sério. Como se os ‘resgates’ massivos dos bancos jamais tivessem acontecido, seguidos imediatamente do pagamento de escandalosos bônus recordes aos altos executivos. Depois, as reuniões de emergência do G-8 e do G-20, mas quais os líderes decidiram, coletivamente, nada fazer para punir os banqueiros por esse ou aquele crime, além de também nada fazer para impedir que crises semelhantes voltem a acontecer. Em vez disso, cada um daqueles líderes nacionais voltou aos seus respectivos países para impor sacrifícios ainda maiores aos mais vulneráveis. Como? A receita é sempre a mesma: despedir trabalhadores do setor público, fazer dos professores bodes expiatórios, cancelar acordos previamente firmados com sindicatos, aumentar as mensalidades escolares, promover rápida privatização de patrimônio público e reduzir aposentadorias e pensões. – Cada um que prepare a mistura específica para o país onde viva. E quem lá está, na televisão, pontificando sobre a necessidade de abrir mãos desses “benefícios”? Os banqueiros e gerentes de empresas de hedge-fund, claro.

É o Saqueo global, tempo de saques imensos! Alimentados por um sentido patológico de ‘direitos adquiridos’ pelos ricos, o grande saque global está em andamento à luz do dia, como se nada houvesse a esconder. Mas há, sim, temores ocultados. No início de julho, o Wall Street Journal, citando pesquisa recente, noticiava que 94% dos milionários temiam “a violência nas ruas”. Aí, afinal, um medo compreensível.

Claro que os tumultos de rua em Londres não foram protesto político. Mas o pessoal dos saques noturnos com certeza absoluta sabe que suas elites passaram o dia dedicadas aos saques diários. Saqueos são contagiosos.

Os Conservadores acertam quando dizem que os tumultos nada têm a ver com os cortes. Mas, sim, têm muito a ver com os cortados que os cortes cortaram. Presos longe, numa subclasse que infla dia a dia e sem as vias de escape que antes havia – um emprego no sindicato, educação barata e de boa qualidade –, eles estão sendo descartados. Os cortes são um sinal: dizem a todos os setores da sociedade que os pobres estão fixados onde estão – como dizem também aos imigrantes e refugiados impedidos de ultrapassar fronteiras nacionais cada dia mais militarizadas e fechadas.

A resposta de David Cameron às agitações de rua é tornar literal e completo o descarte dos mais pobres: fim dos abrigos públicos, ameaças de censura e corte das ferramentas de comunicação social e penas de prisão absolutamente inadmissíveis; uma mulher foi condenada a cinco meses de cadeia, por ter recebido um short roubado [e hoje, 17/8/2011, dois homens foram condenados a quatro anos de prisão, por incitarem tumultos pela internet, apesar de não se ter provado que sua ‘incitação’ levou a alguma consequência (NTs, com informações de Guardian emhttp://www.guardian.co.uk/uk/2011/aug/17/facebook-cases-criticism-riot-sentences)]. Mais uma vez a mensagem é clara contra os pobres que incomodam: sumam. E sumam em silêncio.

Na reunião “de austeridade” do G-20 em Toronto, os protestos viraram tumultos e vários carros da polícia foram incendiados. Nada que se compare a Londres 2011, mas o suficiente para deixar-nos, os canadenses, muito chocados. A grande discussão naquela ocasião era que o governo havia consumido $675 milhões de dólares na “segurança” da reunião (e ninguém conseguia sequer impedir o incêndio de carros da polícia). Naquele momento, muitos dissemos que o novo e caríssimo novo armamento que a polícia havia comprado – canhões de água, canhões de som, granadas de gás lacrimogêneo e munição revestida de borracha – não havia sido comprado para ser usado contra os manifestantes nas ruas; que, no longo prazo, aquele equipamento seria usado para disciplinar os pobres que, na nova era de ‘austeridade’, seriam empurrados para a perigosa posição de pouco terem a perder.

Isso, precisamente, é o que David Cameron absolutamente não entende: é impossível cortar orçamentos militares ou policiais, no mesmo momento em que você corta todos os gastos públicos. Porque, se o estado rouba os cidadãos, tirando deles o pouco que ainda têm, pensando em proteger os interesses dos que acumulam muito mais do que qualquer ser humano precisa para viver, é claro que deve esperar o troco ou, pelo menos, deve esperar resistência – seja a resistência de protestos organizados, seja a resistência das ondas de saques. Não é propriamente problema político: é problema matemático, físico.

[1] Ver, sobre esse período, Memoria del Saqueo, filme de Fernando “Pino” Solanas, Argentina, 2004. Pode ser baixado de http://docverdade.blogspot.com/2009/03/memorias-do-saque-memoria-del-saqueo.html [NTs].

Fonte:
http://www.thenation.com/article/162809/daylight-robbery-meet-nighttime-robbery?rel=emailNation