Arquivo mensais:agosto 2011

Vendedoras Natura ficam sem direitos e com riscos financeiros

Por: Cida de Oliveira, Rede Brasil Atual

 

Vendedoras Natura ficam sem direitos e com riscos financeiros

Fábrica da Natura, em São Paulo: faturamento e lucros baseado em relações sem vínculo empregatício (Foto: Natura/Divulgação)

São Paulo – Elas fazem o sucesso comercial da maior empresa brasileira de cosméticos, mas não têm qualquer vínculo empregatício ou direito trabalhista e ainda assumem diversos riscos financeiros. Estas são as principais constatações da pesquisa “Make up do trabalho: uma empresa e um milhão de revendedoras de cosméticos”, para o doutoramento da socióloga Ludmila Costhek Abílio pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Segundo o estudo, a empresa é um exemplo da exploração do trabalho e das injustiças que deixaram de ser discutidas diante da ameaça do desemprego. Ao mesmo tempo em que transmite a imagem de companhia moderna e comprometida com a preservação ambiental, explora o trabalho informal de aproximadamente 1 milhão de revendedoras, contingente equivalente à população de Campinas (SP), que se expõe a riscos inclusive financeiros numa atividade que raramente é reconhecida pela sociedade como um trabalho.

Procurada desde segunda-feira (15), a Natura não apresentou posição oficial sobre o tema, nem esclareceu a forma como as revendedoras são tratadas. Na página da empresa na internet, são apresentados 10 motivos para ser uma “consultora”, incluindo “alta lucratividade”, a flexibilidade de horário e compromissos socioambientais da companhia.

A pesquisa da Unicamp aborda aspectos relacionados à informalização e precarização do trabalho dentro de um segmento denominado Sistema de Vendas Diretas. A Natura foi escolhida por se se tratar de uma empresa brasileira multinacional líder de mercado e de reconhecido sucesso comercial. A marca está presente em sete países da América Latina e também na França.

A relação entre as chamadas consultoras e a empresa constitui um fenômeno social importante. Afinal são pessoas cujo trabalho, mesmo informal, contribui para o êxito da marca e a realização da distribuição dos produtos, inclusive internacionalmente.

Conforme a pesquisa, a relação entre a Natura e as consultoras é ambígua porque elas são tratadas igualmente como revendedoras e consumidoras. Muitas começam a vender os produtos para poder consumi-los. Ou seja, parte do que seria seu lucro é revertido em itens para uso próprio. Mas, para a empresa, o primordial é a relação de venda com as consultoras.

O que acontece entre elas e seus clientes não afeta de fato a acumulação da empresa, que determina uma pontuação mínima para os pedidos (cujo valor médio equivale a aproximadamente R$ 250), e formaliza a relação com as consultoras via boleto bancário. Novos pedidos só podem ser feitos quando a consultora tiver quitado as faturas anteriores. Para tornar-se uma “representante” da marca, a interessada precisa fazer um cadastro, ser maior de 18 anos e comprovar que não tem impedimentos financeiros em sistema de proteção ao crédito ligados ao seu CPF. Cumpridas as exigências, a candidata está liberada para comprar os produtos da empresa com 30% de desconto, o equivalente à comissão pelas vendas.

Como nem sempre essa revendedora consegue atingir a cota mínima para fechar o pedido, a alternativa quase sempre é vender os produtos que adquiriu para uso próprio para outras pessoas. O passo seguinte é aproveitar as promoções do tipo “compre um perfume e ganhe outro”. Quando se dá conta, ela começa a fazer um estoque em casa, até para ter itens de pronta entrega e não perder vendas. O aspecto é interessante, segundo a pesquisa, porque configura transferência de risco da empresa para a trabalhadora.

As vendas da empresa para a rede de consultoras é muito segura. Caso descumpram o compromisso assumido, podem ser protestadas. O índice de inadimplência é próximo a 1%, mas as revendedoras, ainda segundo o estudo, e elas não têm a mesma garantia em relação a sua clientela – estão sujeitas a calotes.

A pesquisadora entrevistou faxineiras, professoras, donas de casa, mulheres de altos executivos e até uma delegada da Polícia Federal (que vende os cosméticos no prédio da própria corporação), ao longo do expediente. Algumas disseram vender muito e alcançar bons ganhos, o que é minoria. Em 2009, a empresa divulgou que, para 22% das mulheres consultoras, esta é sua ocupação principal.

A pesquisa constatou ainda que, apesar de dedicar muito do seu tempo à venda dos cosméticos e de enfrentar uma série de dificuldades, essas mulheres dificilmente são vistas como trabalhadoras. A atividade é considerada algo lúdico, quase um lazer, ou no máximo, um bico. Mas a pesquisadora diz que que claramente essas mulheres são trabalhadoras. Tanto que a atividade assume um papel central no sucesso empresarial da Natura.

Fonte:http://www.redebrasilatual.com.br/temas/trabalho/2011/08/vendedoras-natura-sem-direitos-e-com-riscos-financeiros

O canto de sereia da direita é em vão

Fernando Brito/Tijolaço

Hoje, nos jornais, a direita se lambuza em festa.

“Em crise com base aliada, Dilma flerta com oposição”, diz a Folha.PT não gosta da faxina de Dilma…”, afirma O Globo, enquanto o Estadãodiz que “Petistas temem que “faxina” de Dilma carimbe gestão de Lula como “corrupta”.

Esse é o assunto dominante na mídia, não a crise, as ameaças e os desafios que ela nos traz.

A gente vem dizendo aqui que o Governo Dilma está sendo puxado para uma pauta que só o desgasta, porque o imobiliza.

Acho que vale a pena controlar o estômago e ler o que escreve hoje Merval Pereira.

“Não é nem preciso ser bom entendedor para compreender a razão da presença do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso na solenidade de lançamento da campanha Brasil Sem Miséria ontem, no Palácio Bandeirantes, em reunião da presidente Dilma com os governadores do Sudeste.E também basta não ser ingênuo para entender o sentido do apoio que senadores independentes de diversos partidos deram à sua ação saneadora na semana passada.

“A “faxina ética” tomou uma dinâmica própria que não é possível controlar, e ficou maior do que sua própria impulsionadora. (…)

“Quanto à imprensa, aí nem se discute. O Palácio do Planalto não tem condições de interferir, e nem quer fazê-lo, e já deixou de lado a tentativa anterior de controle dos órgãos de comunicação.”

Não se pode, infelizmente, deixar de reconhecer que, de fato, é esta a mecânica que está por trás das ações da mídia e do comportamento da comunicação do governo em relação à mídia. Ficamos dóceis.

Estamos permitindo que pareça ao povo brasileiro que o problema do país é o da corrupção no Governo. Corrupção é um problema, e sério, para qualquer governo e tem que ser enfrentado como uma questão permanente.

As “ondas” moralistas nada tem a ver com combate à corrupção, mas tem tudo a ver com uma tentativa de paralisar e desviar o governo Dilma daquilo que é seu rumo legítimo, em nome do qual recebeu a maioria dos votos do povo brasileiro: fazer o país continuar se desenvolvendo, tornando-se independente, elevando o emprego e a renda dos brasileiros, nos livrando da miséria e do atraso.

A legitimidade e o apoio do Governo Dilma vem daí, do Governo Lula, do papel que ela teve nele e de seu compromisso, garantido por uma história de vida combativa, de que o Brasil vai seguir mudando.

Dilma sabe disso, tanto que disse hoje que ” onde houver problema de corrupção, somos obrigados a tomar posição. Não faço disso o objetivo central do meu governo, o objetivo central é buscar a inclusão social.”

Mas isso fica de lado na percepção construída pela mídia. Nessa, valem mais a as imagens com a “turma da roda- presa”, que praticou a maior lesão já sofrida pelo patrimônio público brasileiro: a privatização.

Gente, portanto, que não tem estatura moral para falar em combate à corrupção, e que só o fazem para fazer cantos de sereia que à longa experiência da presidenta não vão encantar. Embora seduzam alguns aprendizes de feiticeiro.

Fonte:http://www.tijolaco.com/o-canto-de-sereia-da-direita-e-em-vao/

Boaventura de Sousa Santos: Os limites da ordem

Boaventura de Sousa Santos – Página/12

Os violentos distúrbios ocorridos na Inglaterra não devem ser vistos como um fenômeno isolado. Eles representam um perturbador sinal dos tempos. Sem se dar conta, as sociedades contemporâneas estão gerando um combustível altamente inflamável que flui nos subsolos da vida coletiva. Quando chegam à superfície, podem provocar um incêndio social de proporções inimagináveis.

Trata-se de um combustível constituído pela mistura de quatro componentes: a promoção conjunta da desigualdade social e do individualismo, a mercantilização da vida individual e coletiva, a prática do racismo em nome da tolerância e o sequestro da democracia por elites privilegiadas, com a consequente transformação da política na administração do roubo “legal” dos cidadãos e do mal estar que provoca.

Cada um destes componentes têm uma contradição interna: quando se superpõem, qualquer incidente pode provocar uma explosão.

- Desigualdade e individualismo. Com o neoliberalismo, o aumento brutal da desigualdade social deixou de ser um problema para passar a ser uma solução. A ostentação dos ricos e dos multimilionários transformou-se na prova do êxito de um modelo social que só deixa miséria para a imensa maioria dos cidadãos, supostamente porque estes não esforçam o suficiente para ter sucesso na vida. Isso só foi possível com a conversão do individualismo em um valor absoluto, o qual, paradoxalmente, só pode ser experimentado como uma utopia da igualdade, a possibilidade de que todos prescindam igualmente da solidariedade social, seja como seus agentes, seja como seus beneficiários. Para o indivíduo assim concebido, a desigualdade unicamente é um problema quando ela é adversa a ele e, quando isso ocorre, nunca é reconhecida como merecida.

- Mercantilização da vida. A sociedade de consumo consiste na substituição das relações entre pessoas pelas relações entre pessoas e coisas. Os objetos de consumo deixam de satisfazer necessidades para criá-las incessantemente e o investimento pessoal neles é tão intenso quando se tem como quando não se tem. Os centros comerciais são a visão espectral de uma rede de relações sociais que começa e termina nos objetos. O capital, com sua sede infinita de lucros, submeteu à lógica mercantil bens que sempre pensamos que eram demasiado comuns (como a água e o ar) ou demasiado pessoais (a intimidade e as convicções políticas) para serem comercializados no mercado. Entre acreditar que o dinheiro media tudo e acreditar que se pode fazer tudo para obtê-lo há um passo muito menor do que se pensa. Os poderosos dão esse passo todos os dias sem que nada ocorra a eles. Os despossuídos, que pensam que podem fazer o mesmo, terminam nas prisões.

- O racismo da tolerância. Os distúrbios na Inglaterra começaram com uma dimensão racial. O mesmo ocorreu em 1981 e nos distúrbios que sacudiram a França em 2005. Não é uma coincidência: são irrupções da sociabilidade colonial que continua dominando nossas sociedades, décadas depois do fim do colonialismo político. O racismo é apenas um componente, já que em todos os distúrbios mencionados participaram jovens de diversos grupos étnicos. Mas é importante, porque reúne a exclusão social com um elemento de insondável corrosão da autoestima, a inferioridade do ser agravada pela inferioridade do ter. Em nossas cidades, um jovem negro vive cotidianamente sob uma suspeita social que existe independentemente do que ele ou ela seja ou faça. E esta suspeita é muito mais virulenta quando se produz em uma sociedade distraída pelas políticas oficiais de luta contra a discriminação e pela fachada do multiculturalismo e da benevolência da tolerância.

- O sequestro da democracia. O que há em comum entre os distúrbios na Inglaterra e a destruição do bem estar dos cidadãos provocada pelas políticas de austeridade dirigidas pelas agências classificadoras e os mercados financeiros? Ambos são sinais das extremas limitações da ordem democrática. Os jovens rebeldes cometeram delitos, mas não estamos frente a uma “pura e simples” delinquência, como afirmou o primeiro ministro David Cameron. Estamos frente a uma denúncia política violenta de um modelo social e político que tem recursos para resgatar os bancos, mas não para resgatar os jovens de uma vida de espera sem esperança, do pesadelo de uma educação cada vez mais cara e irrelevante dado o aumento do desemprego, do completo abandono em comunidades que as políticas públicas antissociais transformaram em campos de treinamento da raiva, da anomia e da rebelião.

Entre o poder neoliberal instalado e os rebeldes urbanos há uma simetria perturbadora. A indiferença social, a arrogância, a distribuição injusta dos sacrifícios estão semeando o caos, a violência e o medo, e aqueles que estão realizando essa semeadura vão dizer amanhã, genuinamente ofendidos, que o que eles semearam nada tinha a ver com o caos, a violência e o medo instalados nas ruas de nossas cidades. Os que promovem a desordem estão no poder e poderiam ser imitados por aqueles que não têm poder para colocá-los em ordem.

(*) Doutor em Sociologia do Direito; professor nas universidades de Coimbra (Portugal) e Wisconsin (EUA).

(**) Traduzido por Katarina Peixoto da versão em espanhol publicada no jornal Página/12

Teixeira se diz traído e que levou “cacetada” da Globo

Em conversas reservadas esta semana, o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, se disse perplexo e “revoltado” com o que considerou “cacetada da Globo”. Para o dirigente, a reportagem do “JN” exibida no último sábado foi “uma porrada” e “pesada demais”, nas palavras de Teixeira. O F5 teve acesso ao desabafo do dirigente por meio de pessoa próxima, que fez o relato sob a condição de anonimato.

CBF ameaça divulgar gravações contra diretor da Globo
Em reportagem, Globo esconde marca de carro com ‘esparadrapo’
Conheça o programa Ooops! na TV UOL

No último dia 13, o “JN” utilizou três minutos para falar das investigações sobre supostas irregularidades em contrato da seleção brasileira para a realização de um amistoso ( Brasil 6 x 2 Portugal, em 2008). Foi a primeira vez que o telejornal da Globo entrou nas denúncias contra o comandante da CBF e até então um aliado histórico da emissora.

Aos amigos, Teixeira se disse traído por Marcelo Campos Pinto, diretor da Globo Esportes. Segundo informação exclusiva publicada ontem no F5 , aliados de Teixeira ameaçam retaliar divulgando gravações de diálogos supostamente comprometedores de Campos Pinto, durante negociações feitas quando a Globo ainda tinha portas abertas na CBF.

“Eles soltam esse tal princípio editorial para me dar a cacetada?”, desabafou Teixeira, vinculando o “ataque” sofrido à carta de princípios divulgada por todos os veículos das Organizações Globo, no último dia 6. O documento reafirma posições da Globo a respeito de isenção, correção jornalística etc. Sete dias depois do manifesto, veio a reportagem do “JN”. Nesse mesmo dia também houve protesto na av. Paulista pedindo investigações sobre as denúncias e a saída de Teixeira da CBF.

Procurada, a Confederação não se manifestou. A emissora não quis manifestar por considerar que “só há suposição” (das gravações)

Eduardo Knapp/Folhapress

Para Teixeira, a “traição” é maior porque Campos Pinto lhe pediu pessoalmente ajuda para a Globo solapar as pretensões da Record, que tentava lhe tirar a exclusividade de transmissão do Campeonato Brasileir. A Globo derrotou a Record, mas graças ao apoio da CBF.

Bola da Fortuna

Só em publicidade e outros contratos relacionados ao futebol, na Globo movimenta cerca de R$ 1 bilhão por ano. Como manobrou para implodir o Clube dos 13, a emissora teve de negociar individualmente com os times a realização dos próximos campeonatos. Estima-se que, só para cobrir o que gastou nessa guerra, a Globo Esportes terá de faturar cerca de R$ 840 milhões em 2012. O contrato dá direito à Globo de explorar o futebol também em outras mídias, como internet, tablets e celulares.

No ano passado, a Globo faturou com o futebol, tirando jogos da seleção, R$ 616 milhões em cotas de patrocínio, segundo informação da coluna Radar On-line, de Lauro Jardim.

Apesar do grande faturamento, o futebol não é mais lucrativo como no passado para a Globo.

Histórico de guerras

Além da briga com a Globo, Teixeira vem sendo alvo da TV Record, empresa que o detesta e lhe declarou guerra por causa do “imbróglio” do Clube dos 13. C13 e a Record estavam associados e a emissora já dava como certa a vitória na licitação pelo Brasileiro. Só que a Globo conspirou nos bastidores com auxílio da CBF e acabou com as pretensões da TV de Edir Macedo.

Quando o processo licitatório foi finalmente aberto pelo C13, Corinthians e Flamengo já estavam fechados com Globo, a Record teve de desistir sem apresentar proposta. Aproveitando uma brecha, a RedeTV! então surgiu (do nada) e ofereceu R$ 1,5 bilhão pelos direitos. Só que a proposta da RedeTV! estava vinculada a uma série de outras “condições”, de forma que, dinheiro propriamente dito, concreto, quase não havia nessa proposta. Acabou descartada por todos os clubes.

O fato é que Ricardo Terra Teixeira, 64, aparentemente não contava com a reação da Globo, após sua entrevista à revista “Piauí” –entrevista que agora ele considera “um erro”.

Na entrevista, o dirigente humilhou emissora, portais e jornalistas, e chegou a dizer “Caguei um montão”, a respeito das denúncias que vinha sendo alvo, uma vez que era poupado de ataques na Globo e, em especial, no “Jornal Nacional”. Dias depois, a Globo divulgou a lista de “princípios editoriais”.

F5 procurou a assessoria da CBF e da Globo. Ninguém quis se manifestar.

Fonte:http://f5.folha.uol.com.br/colunistas/ricardofeltrin/961613-teixeira-se-diz-traido-e-que-levou-cacetada-da-globo.shtml

Golpe de Estado nos Estados Unidos

Norman Birnbaum (*) – El País

Publicado em português na página do IHU Online/Unisinos. A tradução é do Cepat.

Já se escreveu muito sobre a crise dos Estados Unidos. Aludiu-se à complacência e ao fracasso de nossas elites, à ignorante fúria de um segmento de cidadãos espiritualmente plebeus, à importância intelectual e política de boa parte do resto, à ausência de uma conexão entre uma intelligentsia crítica e os movimentos sociais que no passado deram suas ideias à esfera pública, à fragilização da própria esfera pública e à consequente atomização do país. Esses diagnósticos são corretos. O que às vezes se passa por alto em nossa situação é o fator propósito: a democracia norte-americana sofreu um golpe de Estado encoberto. Seus autores ocupam os postos mais altos dos negócios e das finanças, seus leais servidores dirigem as universidades, os meios de comunicação e grande parte da cultura, e igualmente monopolizam o conhecimento profissional científico e técnico.

Seus dispostos seguidores se encontram em toda parte, especialmente entre aqueles que sentem que são ignorados, inclusive desprezados, e experimentam uma desesperada necessidade de compensação íntima. Incapazes de atuar de forma autônoma, negam em voz alta que sejam dominados e explorados. Identificam como inimigos os grupos sociais a serviço do bem público, cuja existência rechaçam como princípio. Sua hostilidade ao Governo é tão grande quanto sua falta de conhecimento de como este realmente funciona, ou a história de seu próprio país.

Evidentemente, há uma substancial coincidência entre aqueles que deram sua aquiescência ao golpe de Estado e os muitos que pretendem a recristianização do país, que acreditam que o aborto e a homossexualidade são ao mesmo tempo crimes civis e pecados religiosos, que respondem à imigração com xenofobia. Esses são os brancos, principalmente no sul e no oeste, e nas cidades menores, que ficaram escandalizados pela eleição de um presidente afro-americano e que se criaram (e ainda se criam) muitas das falsidades sobre sua pessoa, desde o seu nascimento no Quênia até sua adesão ao islamismo.

Os iniciadores do golpe de Estado são, geralmente, muito sofisticados para essas vulgaridades, embora indubitavelmente não sejam muito escrupulosos na hora de utilizá-las para conseguir o apoio para os seus objetivos primários. Que não são outros senão reduzir as funções e poderes redistributivos e reguladores do Estado norte-americano, revogando, privatizando ou, ao menos, limitando importantes componentes do nosso Estado de bem-estar: Seguridade Social (pensões universais), Medicare (seguro público de saúde para os maiores de 65) e todo um espectro de benefícios e serviços nos campos da educação, emprego, saúde e na manutenção de ingressos. A possibilidade de uma regulação ambiental em grande escala, ou de um projeto para reconstruir toda a infra-estrutura de modo que seja mais compatível com um futuro benévolo com o meio ambiente, provoca igualmente sua sistemática oposição. Os obstáculos administrativos e legais à atividade sindical são outra parte do programa.

Os esforços do capital politicamente organizado para manter o controle do sistema político são tão velhos quanto a república norte-americana. De modo algum excluíram a utilização do Governo em muitas ocasiões em todas as épocas da nossa história. O que distingue a recente situação é a propagação explícita e resoluta de uma ideologia que declara o mercado como superior ao Estado, que busca transferir para o setor privado funções governamentais até agora reservadas ao Estado, e que não permite que a consideração de um maior interesse nacional (como no comércio com outros países) interfira nos interesses imediatos do capital.

A obra de inumeráveis economistas, as simplificações de um grande número de comentaristas e jornalistas, a intromissão nos sistemas escolares e sua manipulação, e, sobretudo, o fato de que os meios de comunicação e o que temos de discurso público fiquem excluídos da discussão séria de alternativas, culminaram na fervorosa obsessão com que os congressistas republicanos fizeram sua a crença de que os déficits orçamentários são uma ameaça para o país.

Em 1952, John Kenneth Galbraith publicou sua primeira obra-prima Capitalismo americano: o conceito do poder compensatório (Novo Século Editora). Nela sustentava que a busca do benefício sem limite, a cegueira de curto prazo do capitalismo, havia sido corrigida pelo Governo, apoiado por uma cidadania consciente de seus diferentes interesses, por grupos de interesse público, por sindicatos e por um Congresso (e Governos estatais) com um grau notável de independência política.

Em 1961, Galbraith pediu ao presidente Kennedy que não o nomeasse chefe do Conselho de Assessores Econômicos: era um alvo muito visível. Durante alguns anos o ponto de vista de Galbraith seguiu sendo convincente. No entanto, também foi se produzindo um gradual enfraquecimento das forças compensatórias com as quais Galbraith contava para tornar permanente o new deal; e um enfraquecimento, assim mesmo, das elites capitalistas com maior formação e visão de longo prazo, dispostas a aceitar um contrato social.

As razões deste duplo declive seguem sendo objeto de discussão para os historiadores. A absorção dos recursos materiais e morais do país pela guerra fria, que se converteu em um fim em si mesma, desempenhou certamente um papel. Tornou-se muito mais difícil desenvolver programas de reconstrução social em grande escala pela composição racial dos pobres nos Estados Unidos, embora os brancos – de modo geral, brancos do sul – fossem uma maioria entre eles. A própria prosperidade proporcionada pelo contrato social do pós-guerra socavou a combatividade e a militância da força de trabalho sindicalizada, que ficou relativamente indefesa diante da competição da indústria estrangeira e da fuga do capital norte-americano para outros países.

Os efeitos que essas mudanças estruturais tiveram foram magnificados à medida que o capital financeiro (o reino da pilhagem e a liquidação de empresas produtivas, dos derivados, dos hedge funds e da especulação arcana) se fez quantitativa e qualitativamente dominante.

Este tipo de capitalismo, especialmente, requeria a abstinência política do Estado, que somente se poderia obter se pouco a pouco se comprasse o Estado. O novo capitalismo fez sérios avanços no Partido Democrata, reduzindo a uma insistente atitude defensiva os herdeiros do new deal que havia em seu interior. Quando, em 2008, o presidente Obama mobilizou milhões de afro-americanos, latinos, jovens e velhos, mulheres e os restos do movimento sindical, não foi menos solícito com o novo capitalismo, que tinha muito menos votos, mas muito mais dinheiro. A singular insignificância das iniciativas da Casa Branca em 2009, 2010 e este ano em matéria de estímulo econômico, emprego e reconstrução nacional poderiam ser explicadas como um reflexo do real equilíbrio de forças políticas do país.

Deixando de lado o furor provocado pelo Tea Party e pelo limite da dívida, a explicação também poderia estar nessa quinta coluna constituída pelos agentes ideológicos e políticos do novo capitalismo, que está ocupando a própria Casa Branca. Deste ponto de vista, a extraordinária boa disposição do presidente ao acordo mútuo não é o resultado de um novo alinhamento da política norte-americana, mas uma parte previsível do mesmo

(*) Norman Birnbaum é professor emérito na Faculdade de Direito da Universidade de Georgetown.

Fonte:http://cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=18284

Os “ossos” do ofício

Ao subir a rampa interna do Palácio do Planalto na chegada ao trabalho na terça-feira 16, a presidenta Dilma Rousseff respondeu à pergunta se o combate à corrupção era o maior desafio do governo. Ela não vacilou. Deu à velha pergunta uma velha resposta: “O grande desafio deste país é desenvolver e distribuir renda”.

Sobre o combate à corrupção ela deixou o tema, como das outras vezes, à margem da resposta: “São ossos do ofício”.

Há razões de ordem filosófica contra as cruzadas moralistas que sempre têm o sabor de engodo. Relembre-se Jânio Quadros. Isso porque, como é sabido, nenhum sistema de normas suporta o conhecimento de todas as violações que sofre.

Para quem está no poder há também problemas práticos como o que me foi apontado, certa vez, pelo general Golbery do Couto e Silva. Ele estava no Rio de Janeiro, após deixar a chefia da Casa Civil no governo Figueiredo, na sequên-cia da bomba do Riocentro, o mais dramático episódio político no ocaso da ditadura.

Foi a segunda e última vez que estive com ele. Naquele momento, Golbery relançava o livro Planejamento Estratégico. Era março de 1982, conforme registra a arguta dedicatória feita por ele no exemplar que me ofereceu. A mesma argúcia, por sinal, usada para responder à pergunta que fiz apoiada na versão que prevalece até hoje, segundo a qual ele teria saído por exigir a punição dos autores do atentado.

“Você me considera burro?”, perguntou com a voz macia.

“De jeito nenhum”, respondi meio perturbado.

“Você sabe de onde partiu a ordem para o atentado?”, insinuou.

“Penso que sim…”

E antes que eu fizesse qualquer referência explícita, ele me atalhou e perguntou: “Era possível apurar e punir?”

“Claro que não”, foi a resposta automática.

Golbery, na versão de Golbery, deixou o governo não porque queria apurar, mas, sim, porque queria aproveitar o enfraquecimento dos organismos de repressão da ditadura e desarticulá–los- de vez. Àquela altura, quase um ano após o atentado, já se falava que a ordem teria partido de um dos gabinetes próximos ao núcleo do poder.

Violência e corrupção são razões bem distintas. Mas essa história mostra que nem tudo é possível no ambiente político do poder. Principalmente quando se trata de punir aliados.

Dilma foi eleita nesse ambiente político. Reagiu a ele e paga o preço pela faxina que fez no Ministério dos Transportes/Dnit, controlado pelo Partido da República. Na terça-feira 16, o senador Alfredo Nascimento, presidente do PR, defenestrado do Ministério dos Transportes, anunciou a retirada do partido da base governista.

Além de agir em causa própria, Nascimento reagiu às 30 demissões nos Transportes que atingiram em cheio o PR. Em tese, saíram 41 deputados e 6 senadores da base de apoio a Dilma. Em termos absolutos, é muita gente. Porcentualmente, não preocupa tanto: quase 10% de parlamentares na Câmara e menos de 8% no Senado. A expressão numérica da base governista, já sem o PR, ainda impressiona: 360 deputados e 46 senadores. Mas números absolutos nem sempre governam o mundo político.

Embora a baixa dificulte, não inviabiliza as ações do governo. No Senado, entretanto, pode favorecer a criação da CPI da Corrupção que a oposição tanto busca.

Fonte:http://www.cartacapital.com.br/politica/os-ossos-do-oficio

É possível compreender o caos?

Blog de Theotonio dos Santos

Venho discutindo com Immanuel (Wallerstein) e um grupo de colegas há muitos anos sobre esta situação que prevíamos, baseados não somente nos ciclos longos de Kondratiev. Temos contudo que ter claro alguns pontos que ainda resultam polêmicos, mesmo dentro do nosso grupo de estudiosos do sistema mundial. É necessário destacar duas coisas.

Primeiro, não estamos numa fase desfavorável do ciclo longo, estamos no meio de um período de crescimento. Isto explica que apesar das dimensões colossais da crise da especulação financeira internacional, continua havendo crescimento da economia mundial. Este ciclo positivo deverá esgotar-se em aproximadamente 10 anos quando deveremos substituir o atual padrão tecnológico mundial por um novo paradigma cuja introdução exigirá uma destruição massiva de grande parte da estrutura econômica mundial e das várias estruturas nacionais. Neste momento, a crise atual parecerá uma brincadeira e a idéia de caos que maneja Immanuel se aproximará bastante da realidade deste novo período.

Segundo, a desproporcional intervenção fiscal do governo estadunidense para salvar o sistema financeiro atual é similar à intervenção do Japão no começo da década de 1990 para salvar os absolutamente inúteis bancos japoneses. Ela é pior ainda porque os Estados Unidos, além de transferir recursos colossais para o sistema financeiro quase tão inútil como o japonês, tem gastos insustentáveis como as guerras sucessivas e como as “prevenções” de guerras megalomaníacas que pretendem submeter todo o planeta ao seu domínio.

Logo, os Estados Unidos não podem mais situar-se como o grande “puxador da economia mundial”, como vem ocorrendo já nos últimos 10 anos. Deverá ter um crescimento medíocre junto com a Europa. Apesar de que esta poderia ter melhor situação se assumisse seu destino euro-asiático e abrisse suas economias,sociedades e cultura para uma audaz aproximação com a Rússia, a China e a Índia. E ao mesmo tempo, apoiasse o sul da Europa para ligar-se fortemente com a Turquia, com todo o Oriente Médio, a África e a América Latina. Abaixo o Atlantismo que destrói a Europa!

Quanto aos chineses, não têm outro caminho que usar seus dólares e mesmo seus títulos da dívida norteamericana para adquirir empresas em toda a economia ocidental utilizando os fundos soberanos que já têm e os novos que pensam criar. Seu destino é converter-se na principal força econômica ( e financeira) do capitalismo mundial.

Valha capacidade de teoria econômica não ortodoxa para compreender estas realidades e atuar sobre elas. Feliz ou infelizmente o capitalismo de estado da China e de grande parte do chamado Terceiro Mundo deverão dirigir a economia mundial a partir de um período muito curto. Estamos em plena transição para esta nova fase.

Lutemos para que esse capitalismo de Estado esteja submetido a forças democráticas (isto é, as maiorias sociais e não as “elites” antidemocráticas ocidentais, apesar de seus discursos liberais).

Lutemos para encontrar regimes políticos que permitam este diálogo constante entre os Estados e os povos. As formas de representação eleitoral usadas no Ocidente estão em plena degradação com um descontentamento de massas colossal, pois os grandes movimentos de massa do momento não são as rebeliões árabes e sim a ocupação das ruas européias pelos grandes protestos populares.

Não estranhem o fato de que as notícias monitoradas pela grande imprensa internacional não lhes deixem visualizar esta imagem. Há toda uma nova agenda a ser desenvolvida nesta nova situação histórica. A América Latina está fazendo um esforço muito positivo nesta direção. Ela inclui uma drástica reforma dos meios de comunicação e uma maior comunicação Sul/Sul. Temos que pensar com energia, audácia e criatividade. Inmanuel Wallerstein é um dos poucos que está nesta trincheira.

(1) Wallerstein: Se vienen años de incertidumbre y caos mundial