Arquivo mensais:agosto 2011

Dilma não é Cardoso

Darío Pignotti – Página/12

A propósito do Pensamento Jornalístico Único. Em bloco, os três maiores jornais brasileiros ilustraram suas capas de sexta-feira com fotos da presidenta Dilma Rousseff, pertencente ao Partido dos Trabalhadores (PT), de esquerda ou centro-esquerda, junto ao ex-mandatário Fernando Henrique Cardoso, do Partido da Socialdemocracia Brasileira (PSDB), nascido na centro-esquerda, tornado centrista ou direitista.

Para o Pensamento Jornalístico Único abraçado com maior ou menor ortodoxia pelos jornais Folha, Estadão e O Globo, Cardoso é uma esfinge: sólido intelectual, símbolo e sempre defensor das privatizações dos anos 90, confiável tanto para Washington como para os banqueiros e
consequente antagonista de Luiz Inácio Lula da Silva e do “lulismo”.

Mas se ponderamos a atualidade com mais rigor que ideologia veremos que o referido Pensamento Jornalístico Único é pouco objetivo ao conceder tanta transcendência à foto de Dilma com Cardoso que, aos 80 anos, deixou de ser um personagem determinante do cenário brasileiro. Houve temas de igual ou maior importância, merecedores de um lugar mais destacado nas capas, mas que não tiveram esse destaque.

Por exemplo, no mesmo dia em que se encontrou com Cardoso, Dilma entregou 1.900 casas a famílias pobres de São Paulo, sob a promessa de construir mais dois milhões de casas como forma de enfrentar a crise, mediante uma fórmula distinta da “insensatez” dos Estados Unidos que, conforme disse, insiste em subsidiar os bancos. E declarou que a prioridade de seu governo é o social, muito mais do que “limpeza ética” que causou a renúncia de quatro ministros, a remoção de um quinto que agora comanda uma secretaria sem peso, e tem outros dois sob observação, os de Turismo e Cidades, segundo se informou neste final de semana.

O certo é que esses assuntos significativos, como o Programa Brasil Sem Miséria ou a recente cúpula da Unasul em Lima, passam quase em branco nas manchetes, pois o Pensamento Jornalístico Único (o chamaremos de PJU), antes de responder a critérios noticiosos, responde a um programa de ação política, dado que a imprensa desempenha o papel de principal força opositora, enquanto se reconstrói o Partido da Socialdemocracia, reduzido a escombros após ser derrotados nas eleições do ano passado pelo PT de Rousseff e Lula.

A cruzada de Dilma contra os funcionários desonestos tem a já mencionada aprovação do partido midiático, do líder socialdemocrata Cardoso e da opinião publica, que a premiou com 70% segundo uma pesquisa da semana passada. Em troca, Lula, seu conselheiro e criador político, sugeriu a Rousseff evitar a tentação ética.

Animal político de fino instinto, Lula percebe que o aplauso da imprensa às medidas moralizantes pode ser uma armadilha para que Rousseff acabe abraçando uma agenda exageradamente moralizante, mais própria dos conservadores do que de um governo de esquerda. Ao ex-sindicalista e presidente de honra do PT preocupa que sua companheira descuide o lado social, ainda mais quando começam a se ouvir algumas vozes descontentes.

A Central Única dos Trabalhadores desaprovou algumas reformas anunciadas pelo governo (como a desoneração da folha salarial para os empresários), assim como a vigência das taxas de juro mais altas do mundo que enchem de felicidade e lucro os especuladores. Os camponeses sem terra tampouco aprovam as medidas de austeridade previstas pelo governo para atacar a crise e anunciaram uma marcha de protesto esta semana em Brasília.

Os últimos dias possivelmente deixaram ensinamentos a Dilma, que começa a perceber que sua governabilidade é mais frágil do que supunha, pois depende de uma coalizão de partidos de duvidosa lealdade e de que o impacto da crise, até o momento sob controle, não atinja o apoio popular.
Rousseff sabe que o mapa político brasileiro, para além das instituições formais, está dominando por duas grandes correntes: o lulismo, que ultrapassa o PT e arrasta o espectro progressista, e o Partido do Pensamento Jornalístico Único, em torno do qual orbitam diferentes expressões mais ou menos conservadoras.

Tradução: Katarina Peixoto

Fonte:http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=18297

Chile, tensão nas grandes alamedas, tensão na memória

Eric Nepomuceno

Como se fosse preciso atualizar a contabilidade do horror, o governo chileno acaba de divulgar uma nova cifra oficial dos mortos e desaparecidos – um neologismo criado na América do Sul para se referir aos assassinados pelo terrorismo de Estado cujos cadáveres sumiram para sempre – durante a ditadura do general Augusto Pinochet, que durou de 1973 a 1990: 3.065. Com isso, o total de vítimas – entre presos, seqüestrados, torturados, executados e desaparecidos – chega a exatos 40.018. Não são contabilizados os exilados, nem os familiares das vítimas.

O número aparece no relatório de 60 páginas entregue ao presidente Sebastián Piñera na quinta-feira, 18 de agosto, por uma comissão integrada por advogados e especialistas em direitos humanos que trabalharam durante um ano e meio com rigor extremo. Tão extremo, que associações de vítimas e familiares protestaram de maneira contundente: dizem ser impossível que, de um total de 32 mil novas denúncias, apenas 9.800 tenham sido consideradas válidas.

O primeiro levantamento sobre vítimas da ditadura chilena começou a ser preparado em 1991, quando foi criada a primeira Comissão da Verdade e Reconciliação. O chamado “Relatório Rettig” limitou-se a contabilizar execuções e desaparições, e chegou a 2.279 pessoas. Em 2003 foi criada a Comissão Valech, que leva o nome do valioso bispo católico que moveu céus e terras para chegar à verdade sobre o terror dos tempos de Pinochet. O objetivo da comissão era ampliar o exame do horror. Num primeiro relatório, chegou-se a 28.459 casos de prisões ilegais, tortura, execuções e desaparecimentos. O religioso morreu durante o trabalho do grupo, que pediu mais prazo para chegar a um segundo relatório – esse, cujos resultados foram agora divulgados de maneira discretíssima pelo governo.

O tema é perigoso porque ainda paira entre os militares chilenos um incômodo mal-estar provocado por esse mergulho no passado sombrio do país. E também porque o anúncio coincide com um período de profundas turbulências enfrentadas pelo primeiro presidente de direita eleito desde o fim da ditadura. Os protestos dos estudantes que se repetem há quase quatro meses desgastaram de maneira cruel a imagem de Piñera. Não há solução à vista, e cresce a cada semana o apoio de amplos setores da população às reivindicações dos jovens, que agora marcham acompanhados por professores, funcionários públicos, donas de casa, profissionais liberais e trabalhadores.

Exigem educação pública gratuita (no Chile, as universidades públicas passaram a cobrar mensalidade na ditadura, e ninguém conseguiu reverter esse quadro; além disso, as universidades privadas, proibidas de ter lucro, ganham milhões graças à subvenção que recebem do Estado), e Piñera não teve idéia melhor que responder a eles dizendo ‘isso, todo mundo quer, mas nada é de graça nessa vida’.

Tudo isso acontece no momento em que se torna cada vez mais claro que o tão decantado modelo chileno, que deveria ser modelo para toda a América Latina – louvado pelos grandes organismos financeiros internacionais, pela direita em geral e pelos defensores do neoliberalismo em particular – revela sua verdadeira face.

Que o Chile vive um auge econômico, ninguém duvida. Mas os que se beneficiam dele estão longe de ser uma parcela ampla da população. Ao contrário: as desigualdades sociais são mais altas que a cordilheira dos Andes, mais evidentes que as montanhas nevadas e mais amplas que as grandes alamedas de Santiago.

De toda a riqueza produzida pelo Chile, 55% ficam nas mãos dos 20% mais ricos da população. Entre 2006 e 2009, a renda dos trabalhadores cresceu 1%. A dos mais ricos, 9%. Em 2006, 13,7% da população vivia na pobreza. Três anos depois, os pobres passaram a ser 15,1% – justamente no período em que a economia mais cresceu.

A estabilidade política fez do Chile o paraíso e a alegria dos investidores estrangeiros. Durante anos, o país foi considerado o mais perfeito modelo das bondades do neoliberalismo.

Ninguém parecia notar os casos de jovens que terminam a faculdade pública e depois levam dez anos pagando o financiamento que receberam para estudar. Ninguém notou o aumento da pobreza, os abismos sociais se abrindo cada vez mais.

É contra isso que os chilenos protestam. E também contra os engodos e miragens de um modelo que começou a ser desmascarado.

Por trás do louvado milagre existe uma verdade: a de uma segregação social perversa e persistente, que agora explodiu e chega às ruas e alamedas de Santiago.

Fonte: http://cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=18299

Os distúrbios, o pensamento único e a esquerda

Marcelo Justo – Correspondente da Carta Maior em Londres

Os saques e distúrbios que comoveram a Inglaterra em agosto mostraram uma clara fratura social. Nem sequer o primeiro ministro David Cameron, que em um primeiro momento procurou desqualificá-los como “um fato puramente criminoso”, pode escapar de seu significado. Em uma tentativa de ganhar a batalha discursiva, Cameron mudou de tom rapidamente e começou a falar de uma “desintegração moral” provocada pela passiva dependência do Estado de bem-estar e pela falta de responsabilidade individual por um “uso abusivo dos direitos humanos”. Em uma sociedade reticente às mudanças e dominada pelos braços midiáticos conservadores, o grande enigma é que espaço tem uma visão de esquerda para construir um relato que impeça a direita de capitalizar os saques com uma agenda de linha dura.

O Reino Unido é uma sociedade basicamente conservadora que contribuiu para a construção do pensamento único com o thatcherismo e que não saiu da miragem produzida pelo crescimento do consumo nos últimos 30 anos. Como um aristocrata em decadência que vive de seu título de nobreza, os dias de glória do império seguem sobrevoando sua identidade presente.

Ninguém pensa que o Reino Unido tenha alguma possibilidade de voltar a ser a primeira potência, mas muitos não esquecem que ele já ocupou essa posição: os britânicos sentem um direito intrínseco a fazer parte da mesa do poder. Neste contexto, o espaço da esquerda tem claros limites. A necessidade de aproximar-se do consenso conservador dominante para poder chegar ao governo produziu o fenômeno do “Novo Trabalhismo” que manteve, entre 1997 e 2010, as reformas thatcheristas enquanto tentava suavizar suas arestas mais afiadas com políticas como a introdução do salário mínimo.

Este consenso trabalhista-conservador pós-thatcherista foi questionado pela primeira vez com a queda do Lehman Brothers e a crise de 2008. O questionamento não durou muito. Uma clara mostra do quão enraizado está o pensamento único no Reino Unido é que, um ano e meio depois da crise, os conservadores ganharam as eleições de maio de 2010, invocando o fantasma grego e dizendo que a culpa pelos problemas econômicos britânicos era do trabalhismo que havia aumentado o déficit fiscal. Do resgate estatal que havia impedido uma debacle total, nem uma palavra.

Londres em chamas
Quinze meses mais tarde, os distúrbios mostram similares atos reflexos da população em meio à crise econômica. Práticos, pouco dados à “conceitualização”, com séculos de empirismo nas costas, o comentários de muita gente na rua era que, no melhor dos casos, tratava-se de uma destruição sem sentido. Como disse a este correspondente um casal de aproximadamente 24 anos, a mesma idade que a média dos participantes nos distúrbios: “nós também estivemos desempregados e é difícil, mas nem por isso saímos para as ruas para destruir os mesmos negócios locais que vão nos dar trabalho”.

Nos sindicatos de servidores públicos, particularmente afetados pelos cortes orçamentários da coalizão, a reação tipificou esta necessidade de levar em conta a opinião pública, marcar uma distância em relação aos roubos e, ao mesmo tempo, tentar lançar uma análise diferente no debate. “Temos que compreender que isso não ocorre no vazo. Não estamos aceitando a violência, mas não podemos apagar o que aconteceu dizendo que é uma violência de descerebrados. O desemprego juvenil está em seu nível histórico mais alto. O custo da educação vai subir às nuvens. A desigualdade é a pior desde os anos 30”, pontua Mark Serwotka, secretário geral do sindicato de funcionários públicos, o PCS.

Há sinais, porém, de que uma maioria da população não está disposta a aceitar uma visão reacionária que contribua para redimensionar o estado de bem estar significativamente, ambição do primeiro ministro David Cameron. Uma recente pesquisa do site Yougov mostrou que mesmo os eleitores conservadores pensam que os cortes no Estado de bem estar são temporários e deveriam ser revertidos uma vez que se saia da situação de emergência econômica. No total, cerca de 69% dos pesquisados indicaram que os cortes deveriam ser transitórios. “A metade dos eleitores conservadores não são thatcheristas e valorizam os serviços públicos e seus direitos adquiridos. Estes eleitores são uma oportunidade para o líder trabalhista Ed Miliband porque os conservadores nunca são convincentes quando falam de proteger os serviços públicos. Mas o trabalhismo precisa convencer a maioria de que o Estado vai estar a serviço de todos. Nossa pesquisa mostra ao mesmo tempo que “estado” e “governo” não são palavras populares, o que não quer dizer que as pessoas querem um estado dizimado”, assinala Tim Hurton, do Yougov.

Ed Miliband abordou o tema cautelosamente, equiparando a conduta dos bancos com os problemas que os distúrbios mostraram. No momento, o debate é defensivo e se concentrará em manter o estado de bem estar, a saúde nas mãos do Estado e a necessidade de maior igualdade. Uma investigação publicada esta semana mostra que duas quintas partes da população está pior agora que durante a recessão de 2009. Outra mais dramática, publicada recentemente, assinalava que a queda do nível de vida dos britânicos é a mais pronunciada desde a Segunda Guerra Mundial. As condições objetivas estão mais presentes do que nunca para uma mudança de paradigma. O problema é a subjetividade.

O lento despertar
As últimas lutas coletivas foram travadas com o thatcherismo nos anos 80: a greve dos mineiros, a dos trabalhadores gráficos contra o grupo Murdoch, o protesto contra a “Poll Tax” [N.T. imposto regressivo criado pelo governo de Margaret Thatcher em 1989 na Escócia, e em 1990 no restante do Reino Unido]. Com a exceção das manifestações contra a guerra no Iraque e alguns protestos antiglobalização durante eventos internacionais em Londres, o Reino Unido vinha parecendo um lugar virtualmente apolítico. A coalizão pode mudar este panorama. No ano passado, os estudantes enfrentaram o governo com protestos que seguramente vão se repetir nos próximos 12 meses porque a triplicação do valor das matrículas entrará em vigor em 2012. Em março, cerca de 500 mil pessoas se manifestaram contra os cortes orçamentários. No momento, o dique é uma maioria silenciosa que aceita tudo como uma mistura de estoico conformismo, moderação até a morte (um paradoxo) e ceticismo.

O aumento do desemprego, as demissões massivas de centenas de milhares de funcionários públicos nos próximos anos, caso se cumpra o programa da coalizão, a perversa combinação de alta inflação e salários congelados, estão começando a abalar essa apatia pública. É preciso não esquecer que, se levamos em conta que cerca de 30% não se dignaram a votar em 2010, os conservadores só obtiveram 23% da massa total de eleitores. O atual vice-primeiro-ministro Nick Clegg disse com clareza antes das eleições do ano passado, quando nem lhe passava pela cabeça formar uma coalizão com os conservadores. “Imaginem que os conservadores vençam as eleições e digam em uma ou duas semanas que vamos elevar o VAT para 20%, vamos cortar o orçamento da educação, da polícia e dos salários públicos. Creio que, se não tomarmos cuidados, em dias teremos distúrbios como os que estão ocorrendo na Grécia”, disse Clegg.

É uma pena que o ingresso no governo tenha feito com que esquecesse essas palavras: no espelho poderia ter visto o que acabou ocorrendo em agosto.

Tradução: Katarina Peixoto

Fonte:http://cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=18301

O que há de novo

Marcos Coimbra/Carta Capital

Este é de fato o primeiro governo de continuidade na nossa história moderna. Em geral, sempre tivemos sucessões de ruptures. Por Marcos Coimbra. Foto: Celso Junior/AE

Como toda coisa nova, não é fácil entender o governo Dilma Rousseff. Mais difícil ainda é enxergar para onde está indo.

Ele é novo por três razões principais. Todas são importantes e produzem efeitos significativos em nosso sistema político.

É novo por ser nosso primeiro governo genuinamente de continuidade. Desconsiderando aqueles da República Velha, diferentes demais para comparar com os subsequentes e nos quais tampouco houve algum que se pudesse dizer que era de continuidade nítida, sempre tivemos sucessões de ruptura.

Assim foi de Eurico Gaspar Dutra para Getúlio Vargas, de Café Filho para Juscelino Kubitschek, dele para Jânio Quadros e daí para João Goulart. Até a eleição de Fernando Collor, foram longos anos de anormalidade e improvisações, a maior parte delas discricionárias. Não faria sentido falar em continuidade ao longo desses 30 anos, a não ser do autoritarismo (a rigor, sequer na época dos generais houve sucessões pacíficas).

 

Dilma é a primeira presidenta eleita para dar continuidade ao governo que a antecedeu. Collor não era isso para José Sarney, Fernando Henrique se sentia maior que Itamar Franco (e era), e Lula e ele haviam sido adversários (quase) a vida inteira. A continuidade propiciada por sua reeleição em 2006, assim como pela de FHC em 1998, é diferente. O que ambos tiveram foram mandatos longos, renovados no meio do caminho.

Em quase 125 anos de vida republicana, estamos vivendo algo que é comum na maior parte dos países democráticos, mas que é inusitado para nós. Ao menos no plano federal, pois nos estados e municípios já tivemos muitos casos de largos períodos de continuidade administrativa e política.

Embora nossos costumes não estranhem situações como os 20 anos de governos peessedebistas em São Paulo, não sabemos o que acontece quando o que está em questão é a Presidência da República, muito mais relevante em termos simbólicos e concretos. Será, por exemplo, que a chamada fadiga de materiais, o desgaste causado pela passagem do tempo, se torna problema mais cedo que no nível estadual?

A segunda novidade está em Dilma não se encaixar no “tipo ideal” de presidente que existe em nossa cultura política. Ela nada tem de extraordinário ou de excepcional, elementos fundamentais na construção das imagens de seus antecessores. Não foi percebida como “salvadora”, predestinada a promover mudanças. Ninguém a viu como “intelectual brilhante”, capaz de derrotar a inflação com golpes de genialidade. Não foi eleita em razão de sua biografia de maior liderança popular de nossa história.

Ela é uma pessoa “normal” (tão normal quanto pode ser alguém que chega aonde ela chegou). Uma boa gestora, atributo quase irrelevante na escolha dos que a antecederam. Uma profissional da administração pública, sem experiência parlamentar e sem muitos anos de convivência com as raposas e os outros animais que habitam o Congresso Nacional.

De novo, esse não é um perfil inédito nos governos estaduais e nas prefeituras, mas é a primeira vez que temos alguém assim no Palácio do Planalto. Nossa cultura está madura o suficiente para não se frustrar à medida que ficar mais claro que Dilma é o que é? Que sua vida não a preparou para tirar coelhos da cartola nos momentos de dificuldade?

A terceira novidade é que Dilma mostra ter menos disposição de considerar natural o que os outros achavam inevitável. Talvez em razão de sua pequena familiaridade com o modo de ser dos políticos, está sendo diferente do que se esperava.

Qual foi a última vez em que um presidente disse, sem papas na língua, que ia fazer “uma faxina” nas burocracias mais famosas por sua aparente blindagem? Quem arregaçou as mangas e trocou ministros e assessores com a mesma rapidez?

É claro que isso provoca surpresas e desconfortos, pois representa uma -ruptura com as regras íntimas de nosso sistema político. Enfim, é “dando que se recebe” que, desde a redemocratização, os governos conseguiram suas frágeis maiorias parlamentares.

Pena que Dilma não esteja recebendo o apoio que merece nesse processo. Seus aliados no Congresso estão assustados, a parte moderna das oposições se cala para não legitimá-la, a grande mídia prefere se omitir. (Alguém duvida que se José Serra tivesse sido eleito e possuísse a coragem de Dilma, fazendo o que ela faz, não estaria sendo endeusado?)

Com suas novidades e diferenças, Dilma tem um nível de aprovação popular superior aos presidentes que vieram antes dela. Está melhor que Lula em momento parecido de seu primeiro governo e bem acima dos outros.

Para reduzir o perigo da obsolescência, Dilma investiu em programas novos, seja na área social, seja na política econômica. Se considerarmos que seus responsáveis já enfrentaram, com sucesso, desafios semelhantes, é razoável acreditar que, até 2014, trarão resultados.

Por mais que exista uma torcida favorável para que o agravamento da crise internacional prejudique o desempenho do governo e crie insatisfações na sociedade, os riscos de que ela mude radicalmente os sentimentos são pequenos.

O calendário vai ajudá-la na preservação de uma base parlamentar adequada a governar, apesar das faxinas em curso (e das novas que, muito provavelmente, virão). É que as eleições municipais, já iniciadas nos bastidores, tornam deputados e senadores, especialmente do chamado “baixo clero”, mais acessíveis aos argumentos do governo federal. Para quem precisa garantir a eleição de aliados nos municípios, nada melhor que contar com sua boa vontade.

O futuro do governo em nada depende do sucesso do PT nas eleições do ano que vem. Para o partido, elas são muito mais importantes que para Dilma.

E 2014? Se Dilma fizer, como tudo indica, um bom governo, ela se torna, automaticamente, candidata à reeleição (pois ninguém acredita que as regras mudarão até lá). E será uma candidata com grandes chances, como é natural em nosso sistema político.

Se isso vai ocorrer ou não, dependerá dela. Como diz Lula, será candidata “se quiser”. (A pergunta é por que ele precisava afirmar uma coisa tão óbvia.)

(*)Marcos Coimbra é sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi. Também é colunista do Correio Braziliense.

“Keynes sofre o mesmo destino de Marx”

Carta Capital

Na manhã da quarta-feira 17, CartaCapital reuniu Delfim Netto e Luiz Gonzaga Belluzzo para um debate sobre a crise financeira mundial e os impactos no Brasil. Parte da conversa é publicada na edição especial de aniversário que chega às bancas na sexta-feira 19. No site, a íntegra será publicada em três partes.

Confira abaixo o primeiro trecho da conversa, em que são abordadas questões como os erros em relação à crise de 2008, a desregulamentação do sistema financeiro e a releitura dos clássicos da economia nos tempos atuais.

Luiz Gonzaga Belluzzo: Seria bom ter como ponto de partida o seu artigo de hoje na Folha. Você fala do ambiente político criado quando são tomadas as decisões econômicas e conclui que, na verdade, vivemos no mundo, ou ao menos nos Estados Unidos, mais uma questão de descoordenação política e miopia do que propriamente econômica.

Delfim Netto: Os Estados Unidos introduziram uma disfuncionalidade no sistema que não tem como decidir. O que acontece? Não adianta dar incentivos, que são necessários, mas insuficientes, se o sujeito que recebe os incentivos não acredita neles. Se o pessoal da produção não acredita que terá demanda lá na frente e se o pessoal do trabalho não se vê empregado no futuro. Nestes casos, o sujeito recebe um benefício e senta sobre ele, que é o que se passa neste momento. As empresas americanas têm um trilhão e meio de dólares em caixa e não investem…

LGB: …E os bancos têm um trilhão e quatrocentos de reservas e não emprestam.

DN: Por quê? Porque falta confiança. O circuito econômico foi interrompido e está difícil fazer pegar outra vez. A sorte do Brasil foi ter conseguido engrenar com maior rapidez, mas, agora que estamos aqui nós dois, podemos contar até alguns fatos interessantes. Lembra daquela reunião que o Lula providenciou na segunda-feira trágica após a quebra do Lehman Brothers. Estávamos eu, você, o Guido, o Lima, do Banco do Brasil, o Meirelles… Quem mais?

LGB: Eram estes. Foi na sede do Banco do Brasil.

DN: Naquele instante foi decidido que era preciso baixar a taxa de juros… Mas o governo depois afrouxou.

LGB: Foi decidido com a anuência do Meirelles.

 

O economista Antônio Delfim Netto, colunista de CartaCapital Foto: Masao Goto Filho

DN: Juntamente com o Meirelles. Mas até entendo. Ele andava muito assustado com o que aconteceu com o pessoal que tinha feito o Proer. Estavam todos com os bens interditados. Ele, na verdade, não se sentia em condições de fazer o que tinha de ser feito. Para mim, Belluzzo, está claro que poderíamos ter reduzido os efeitos da crise no Brasil a quase nada. O País tinha musculatura para substituir o problema externo de financiamento, pois sabíamos que iria durar pouco. Se as medidas tivessem sido tomadas, hoje a gente ia discutir se a taxa de juros seria de 6,75% ou 7%, não 12,5%. Isso mostra como são falsas todas as teorias para explicar porque temos essa taxa de juros teratológica. Ela é resultado de equívocos que acumulamos ao longo do tempo.

LGB: Isso nos leva a questionar a forma como é exercida a independência do Banco Central. Você vive a dizer que é preciso estatizar o BC.

DN: Acho que está em processo agora (risos).

LGB: Quando se lê sobre as reuniões de diretores do Banco Central com os economistas de mercados, fica clara a capacidade destes economistas, não tenho nada contra eles, de submeter o BC a um consenso construído a partir de uma certa perspectiva, uma certa visão das coisas. Na verdade, no mundo todo, os bancos centrais são capturados pelos mercados financeiros. Esse é um dos componentes da crise.

CartaCapital: Façamos um paralelo entre a crise dos anos 1930 e a atual. Por que ninguém parece propenso neste momento a tomar as decisões corretas?

DN: É uma questão interessante. Seria ótimo que as pessoas pudessem ler o relatório Pecora. Como de costume, no meio da crise financeira, corria um inquérito no governo dos Estados Unidos. Passaram-se dois anos sem conclusão alguma. Para não ficar muito feio, pegaram um pobre de um procurador de Nova York, o (Ferdinand) Pecora e lhe deram três meses para chegar a uma conclusão. Ele reuniu alguns procuradores e os mandou para os bancos, coisa que ninguém fazia naquela época porque o negócio antes era sentar e conversar. E, obviamente, ser enrolado pelos banqueiros. Depois de todo o material reunido, ele chamou a turma. Resultado: um banqueiro saiu preso, o então presidente do Citibank. O JP Morgan saiu sem cuecas. O Pecora expôs toda a patifaria que tinha sido feita. E o mais inacreditável é que se a gente lê o relatório do Congresso americano sobre a crise de 2008, feito quase 80 anos depois…

LGB: …Que é uma beleza…

DN: … É no fundo a reprodução do relatório Pecora. Ou seja, os bancos tinham feito uma patifaria gigantesca, produziram a crise de 1929. Criou-se então uma legislação que os controlou durante 50 anos, praticamente sem que ocorresse nenhuma grave crise, tinha crises normais…

LGB: … Teve a crise de 66, 82

DN: Mas já estava diminuindo. E aí começou a ser desmontada lentamente, até que em 1999, no governo Clinton, um democrata por sinal, chegou-se à conclusão de que aquelas leis estavam mortas, que o mercado é perfeito, se autoregula, e que o Kant tinha razão, existe um imperativo categórico aos banqueiros que os impede de roubar (risos). O que fica claro? Que o mercado precisa de regulação. O velho Adam Smith já avisava: não se pode juntar essa gente, senão eles casam os filhos entre si, fazem cartéis.

CartaCapital: Mas por que a política não consegue reagir?

 

‘A política foi capturada pelo sistema financeiro’, diz Belluzzo. Foto: Agência Brasil

LGB: Porque na verdade ela foi capturada pelo sistema financeiro. Veja no Congresso dos Estados Unidos. Quase todos tiveram suas eleições financiadas pelo setor. Então criaram uma lei ineficaz…

DN: A lei (Dodd-Frank) é tão extensa que ninguém tem a menor esperança que ela venha a ser posta em prática…

LGB: … Parece as Ordenações Afonsinas …

DN: É um processo muito grave, com consequências funestas até para o sistema de economia de mercado. Para funcionar, a economia de mercado precisa de um Estado indutor forte e suficientemente independente para controlá-la. Se, por esse mecanismo, que é visível, o sistema financeiro em um primeiro momento se apropria da economia real e depois do Legislativo, a democracia fica em risco.

LGB: A democracia e a estabilidade do sistema também.

DN: O sistema perdeu a estabilidade e a funcionalidade.

LGB: Virou uma obsessão explicar para todo mundo, explicar não, pois seria uma pretensão, ao menos expor meu ponto de vista sobre as políticas keynesianas.

DN: Pobre do Keynes, está sofrendo o mesmo destino do Marx. Está sendo perseguido pelos keynesianos como Marx foi perseguido pelos marxistas (risos).

LGB: Ontem dei uma aula sobre Keynes. Disse aos meus alunos, todos meninos: “vamos começar pelo fim”. E falei da teoria geral. O primeiro ponto, que o Delfim fala, é preciso que o Estado e seus corpos intermediários tenham um papel indutor e regulador. Isso está expresso na ideia de socialização do investimento. Como o Keynes usou a expressão socialização, a maioria das pessoas começa a ter erisipela. O cara fica nervoso e não consegue entender o que ele queria dizer. E o que o Keynes queria dizer? É preciso uma coordenação para guiar o principal elemento da demanda efetiva, a economia real, em uma trajetória de crescimento e de relativo equilíbrio. Ele não acreditava no equilíbrio.

DN: O equilíbrio não existe. O equilíbrio é a morte.

LGB: O segundo ponto era evitar a eutanásia do rentista. Ou seja, dirigir o sistema financeiro, impedir que ele produza a escassez de capital. O terceiro é ter um sistema fiscal progressivo, de modo que se mantenha as classes com maior propensão ao consumo menos oneradas do que aqueles de topo, que recebem renda não decorrente do trabalho. E o quarto, que ele esboça na teoria geral e viria a desenvolver mais profundamente em Bretton Woods, é a necessidade de coordenação internacional acertada entre os países.

DN: Para o Keynes, a economia era uma ciência moral. É algo importante que se perdeu, tudo foi mecanizado, como se uma ciência pudesse ter totalmente matematizada. A matemática é instrumento importantíssimo, mas terrível, pois se apropria das pessoas. Você pensa que está fazendo matemática, mas não, a matemática é que está fazendo você. É tão apaixonante… O que não se pode é acreditar ser possível tirar recomendações concretas de um modelo abstrato. Agora mesmo, volta e meia ouço a respeito das distorções que a política econômica no Brasil produz na economia. Quais distorções? Até a Suíça está intervindo, quer atrelar o seu franco ao euro. A Inglaterra, quando estourou a crise, interviu brutalmente. A Bélgica, exemplo de liberalismo, está até hoje com as mãos sujas, juntamente com a Itália e a França. Essa rapaziada no Brasil vê a Vênus de Milo e acha que aquilo é o padrão de beleza. Aí, encontram uma mulher na rua com um nariz um pouco torto e acusa: é uma distorção. A distorção está na cabeça deles.“Virou uma obsessão explicar para todo mundo as políticas keynesianas”, diz Beluzzo sobre os que buscam a teoria de John Maynard Keynes (1883-1946) uma solução para a crise

DN: Para o Keynes, a economia era uma ciência moral. É algo importante que se perdeu, tudo foi mecanizado, como se uma ciência pudesse ter totalmente matematizada. A matemática é instrumento importantíssimo, mas terrível, pois se apropria das pessoas. Você pensa que está fazendo matemática, mas não, a matemática é que está fazendo você. É tão apaixonante… O que não se pode é acreditar ser possível tirar recomendações concretas de um modelo abstrato. Agora mesmo, volta e meia ouço a respeito das distorções que a política econômica no Brasil produz na economia. Quais distorções? Até a Suíça está intervindo, quer atrelar o seu franco ao euro. A Inglaterra, quando estourou a crise, interviu brutalmente. A Bélgica, exemplo de liberalismo, está até hoje com as mãos sujas, juntamente com a Itália e a França. Essa rapaziada no Brasil vê a Vênus de Milo e acha que aquilo é o padrão de beleza. Aí, encontram uma mulher na rua com um nariz um pouco torto e acusa: é uma distorção. A distorção está na cabeça deles.

CC: É crença pura e simples ou cinismo?

DN: Pura religião. Eles se reúnem, tem centros inclusive. O templo maior é o Banco Central (risos).

LGB: A crença elimina a possibilidade da crítica. O que se tem frequentemente são essas convicções que viram força material, como diria o Marx. E tudo pesa na definição dos modelos de risco e precificação de ativos, pois construíram esses modelos a partir de pressupostos que acabaram afetando o comportamento dos mercados. O (investidor George) Soros tem razão. Na economia, sobretudo nas finanças, os comportamentos são reflexivos e há uma interação entre as concepções e o funcionamento efetivo dos mercados.

DN: Isso tudo nasceu de uma tese do (matemático Louis) Bachelier que analisava o funcionamento da Bolsa de Paris. Ele fez um modelo matemático a partir da ideia de que nós, seres humanos, somos partículas que, quando reunidas, produzem aquela distribuição normal. A tese foi analisada pelo maior matemático do século XIX, o (Henri) Poincaré. Ele não deu a nota máxima ao Bachelier e este não pode ser professor em Paris, teve de lecionar em outro lugar, sei lá, Lyon. E por quê? O Poincaré disse o seguinte: os homens são como os carneiros de Panúrgio. Se um se joga no mar, os outros vão atrás. Quer dizer, a imitação é mais forte. Poincaré, no fundo, concluiu que a tese do Bachelier era brilhante, mas não valia nada. Foi o (economista Paul) Samuelson quem redescobriu o Bachelier. E aí se matematizou tudo de novo, esquecendo o fundamental, a crítica do Poincaré. Todos esses são pequenos matemáticos metidos a grandes economistas. O Poincaré era um grande matemático e um pequeno economista.

LGB: As convenções se formam pela interpretação que um faz da ação do outro. O Keynes usou o exemplo de um concurso de beleza. Segundo ele, os julgadores provavelmente não vão escolher o rosto mais bonito, mas aquele que eles acham que os outros consideram mais bonito. Estava outro dia em uma reunião e um dos participantes, que era um economista de mercado, estava revoltado com a proibição da venda a descoberto determinada pelo governo. Segundo ele, isso denotava uma falta de massa cinzenta por parte dos que decidiram. Agora, qual é a lógica da proibição: isso vai tirar liquidez do mercado. Vamos voltar ao velho Keynes. Ele diz com muita simplicidade: o mercado só pode estar em equilíbrio quando os baixistas e os altistas estão situação de polarização. Aí é possível que os preços se movam numa direção razoável. Mas, quando todos são baixistas, vender a descoberto significa empurrar mais para baixo os preços. É desestabilizador. E os reguladores brasileiros perceberam.

DN: São instrumentos que podem eventualmente ser úteis, mas que contém em sim um potencial desruptivo da economia real, porque o que interessa é quem dá emprego, o resto é farofa. Precisa saber quais são os instrumentos para eu poder dar emprego de boa qualidade.

Fonte:http://www.cartacapital.com.br/economia/%E2%80%98keynes-sofre-o-mesmo-destino-de-marx%E2%80%99

A necessidade de uma alternativa ideológica

Flavio Lyra (*).  Brasília, 19 de agosto de 2011

(“A guerra das idéias é uma invenção grega- uma das invenções mais importantes de toda a história. De fato, a possibilidade de lutar com palavras, em vez de lutar com armas, constitui o fundamento de nossa civilização…”. Karl Popper, 1956).

A ideologia neoliberal é sem sombra de dúvida um dos produtos mais notáveis do capitalismo globalizado sob o comando das grandes corporações privadas internacionais.  A difusão de sua visão de um mundo governado pelas forças do mercado e pela eficiência produtiva, supostamente inerente, penetrou profundamente em nossas mentes e passou a orientar ação de governos, de partidos políticos, de universidades e de indivíduos.

A falência do socialismo real deixou o espaço livre para o pensamento único. Até mesmo os partidos socialistas que chegaram ao poder em vários países deixaram-se dominar pelo credo neoliberal, frustrando seus eleitores. Não sem razão, pois, difundiu-se a falsa idéia de que as ideologias estavam mortas, quando na realidade, o que ocorreu foi o domínio deliberado crescente de uma ideologia sobre as outras.

Se não por outros motivos, a crise das economias desenvolvidas, iniciada em 2008, serviu para despertar o mundo ocidental de seu sono aideológico e colocar luz nos graves problemas sociais, ambientais e de violação da paz que, desde há muito, vinham agravando-se. Ideologias contestatórias da ordem vigente começam a voltar ao palco.

O fato de somente em 1801, o pensador francês Destutt de Tracy, ter trazido a público o termo ideologia, não significa de modo algum que os homens, como serem sociais, tenham em alguma fase de sua existência deixado de estar submetidos a ideologias, pois estas nada mais são do que o conjunto de idéias sistematizadas que conformam sua visão de mundo e orientam suas condutas.

Conscientes de que as ideologias são um produto das condições sócio-econômicas que conformam a base material das sociedades, cabe não desconhecer que elas interagem com essa base e têm o poder de modificá-la. O famoso conceito gramisciano de hegemonia assenta-se na compreensão de que as idéias que conformam a superestrutura da sociedade são determinantes para a ação política que conduz à mudança social.

Por certo, que o desenvolvimento do conhecimento científico e sua sistematização, a partir do Renascimento, cumpriu o papel de valorizar a racionalidade humana e afastar as crenças e superstições mais rústicas. Mas, sem que isso significasse que as crenças tenham deixado de ocupar papel importante nas condutas humanas. O próprio conhecimento científico tem sido definido como uma crença verdadeira justificada(Grayling, 1996), ou mesmo como uma ideologia científica.

A ideologia nacional-desenvolvimentista no Brasil, intimamente vinculada à Revolução de 30, que não por simples coincidência ocorreu durante no início da Grande Depressão Mundial, apareceu como alternativa à visão liberal que defendia a posição do país como fornecedor de produtos primários ao mercado internacional, alicerçada na teoria das vantagens comparativas que nos caracterizava como um país “essencialmente agrícola”.

Com o pensamento da CEPAL a partir de 1949, sob a liderança de Raul Prebisch, a ideologia nacional-desenvolvimentista assumiu sua forma mais completa e passou a orientar as políticas de industrialização do Brasil e de outros países da America Latina, em confronto direto com a ideologia liberal do livre comércio internacional. A idéia de um Estado forte e promotor da industrialização com base no mercado interno é elemento central da ideologia nacional-desenvolvimentista.

A penetração da ideologia nacional-desenvolvimentista no Brasil foi tão profunda que os governos militares pós-64, a ela se mantiveram fiéis, exceto no que corresponde ao tratamento que deram ao movimento trabalhista e à política social, que passaram a ser considerados obstáculos ao processo de desenvolvimento e ameaça à ordem econômica e social. Por isto, O chamado “Milagre Brasileiro”, que se estendeu entre os anos 67 e 79, apoiou-se em intenso processo de concentração da renda.

Faltou aos militares daquela época, sob forte influência de uma doutrina que refletia principalmente os interesses das grandes potências ocidentais, a compreensão de que a classe trabalhadora brasileira e suas organizações eram seus melhores aliados para levar adiante o processo de desenvolvimento apoiado no mercado interno. Assim sendo, o milagre acabou no desastre da “Década Perdida” dos anos 80, com o país altamente endividado externamente e diante de uma grave crise social.

Sob a influência nas relações econômicas internacionais da visão neoliberal, que começou a dominar o cenário mundial com os governos de Reagan nos EUA e Thatcher no Reino Unido, a partir do início dos anos 80, o Brasil atravessou mais uma década de estagnação econômica e de fortes pressões inflacionárias.

Só no ano de 1989, com base num texto produzido pelo economista John Williamson, os economistas do Fundo Monetário Internacional, do Banco Mundial e da Secretaria do Tesouro dos Estados, fariam a sistematização do pensamento neoliberal, sob a denominação de “Consenso de Washington”, transformando-o em regras a serem aplicadas anos países que demandavam ajuda dessas instituições.

No governo Collor em 1990, as idéias neoliberais começam a penetrar fortemente no Brasil e passaram a determinar a política econômica, situação que se acentuou nos oito anos do governo FHC, quando a busca da inserção na economia globalizada comandada pelas grandes corporações privadas, toma conta da cena da política econômica do país

As idéias dominantes, desde então, passaram a ser a abertura comercial ao exterior, a privatização das empresas estatais, a desregulamentação dos mercados, a redução do peso do Estado na economia, a flexibilização dos salários etc.

As portas foram abertas para as grandes corporações privadas internacionais, mas ironicamente elas preferiram deslocarem-se para países asiáticos, especialmente a China. Ali, o mercado controlado por um governo autoritário e exigente no que toca ao cumprimento de obrigações com o desenvolvimento nacional, mostrava-se mais atraente do que nosso mercado desregulado, no qual muitas delas já estavam instaladas.  Da nova política comercial, resultou a crise cambial de 1999, que nos deixou insolventes e nos jogou, mais uma vez, nos braços do Fundo Monetário Internacional.

Com a chegada ao governo de Lula, em 2003, tornou-se cada vez mais evidente que era necessário introduzir mudanças no receituário neoliberal  para que o país pudesse avançar economicamente e reduzir as desigualdades sociais, o que foi feito e produziu muito bons resultados. Destaque-se, a retomada dos investimentos das empresas estatais, a recuperação do BNDES como banco de desenvolvimento e a adoção de políticas na área social que contribuíram para melhorar significativamente a distribuição da renda. Estas mudanças, simultâneas ao aumento da demanda chinesa e de outros países em desenvolvimento de produtos primários, possibilitaram acumular reservas internacionais e acelerar o crescimento da economia e do emprego.

No momento, com o agravamento da crise internacional, voltam a aparecer ameaças ao prosseguimento do processo de desenvolvimento, com o aumento da inflação, o aparecimento de déficits nas transações correntes e dificuldades da indústria para competir nos mercados internacional e nacional, configurando riscos de desindustrialização.

Em que pese a desmoralização crescente da ideologia neoliberal no mundo, evidenciada pela profunda crise que atravessam os países europeus e os Estados Unidos, esta continua sendo a visão dominante. No Brasil, repete-se o quadro, pois os meios de comunicação continuam dominados pelo poder das grandes corporações privadas, realizando um trabalho permanente de desestabilização do governo.

A gravidade da situação mundial atual evidencia-se nas várias formas em que os países e populações marginalizadas pelo desenvolvimento capitalista nos termos do pensamento neoliberal, vêm reagindo contra a ordem econômica e social vigente.

Os fundamentalismos religiosos cada vez mais radicais, a exemplo, do que ocorre em países que seguem o islamismo, são manifestações que se afastam dos canais da política e têm confluído para a prática de atos terroristas.

O movimento “tea party”, nos Estados Unidos, munido de uma ideologia que prima pelo irracionalismo e atraso das idéias em relação ao mundo atual, já representa um percentual importante da população e vem conseguindo dificultar a ação do parlamento na negociação política para o encaminhamento de providências que visem minorar a crise econômica.

Em vários países da Europa, movimentos de extrema direita começam a atrair seguidores e simpatizantes provenientes da classe trabalhadora, que marginalizados do mercado de trabalho e da assistência social, transformam-se em contestadores, muitas vezes violentos, da ordem existente e perseguidores de imigrantes.

O episódio recente em Londres, no qual milhares de jovens destruiriam e incendiariam prédios e veículos nas ruas, sem qualquer propósito claro, também é indicativo de desapreço à ideologia dominante e da falta de alternativa ideológica para canalizar suas aspirações de mudança.

No Brasil, a falta de substância pelo lado da visão neoliberal para atacar o governo leva à concentração do poder de fogo da oposição no problema da corrupção na administração pública, buscando atribuir ao governante atual toda a responsabilidade pelos casos constatados, desconhecendo que a ação do governo tem sido fundamental para que venham à tona e sejam combatidos.

Desconhecem, por outro lado, que a exacerbação da corrupção está intimamente ligada à crise vivida pela democracia representativa, que é um problema da atualidade no mundo ocidental.

A tarefa de consubstanciar uma ideologia adequada ao momento atual, apta a mobilizar a opinião pública em favor da consolidação de uma nova política de desenvolvimento para o país, até agora não tem sido cumprida, especialmente pelo principal partido que dá sustentação ao governo, o Partido do Trabalhadores.

À luz da crise internacional, da necessidade do país de levar adiante uma política econômica que lhe permita seguir avançando em seu processo de desenvolvimento, e da correlação de forças na sociedade brasileira, dá para supor que uma alternativa ideológica ao neoliberalismo teria que apoiar-se num nacionalismo popular e democrático, que defenderia forte presença do Estado na atividade econômica, crescente participação das forças populares nas decisões políticas, inclusive com maior controle da representação política por organizações populares; aperfeiçoamento do processo democrático na escolha dos dirigentes públicos e no controle de suas ações; redução da influência do poder econômico no processo eleitoral; e preservação das liberdades democráticas.

Essa carência traduz-se em desorientação crescente da população, especialmente da classe média, que acaba por dirigir suas frustrações para manifestações inconsistentes e manipuladas por elites conservadoras não simpatizantes de mudanças em favor da maioria da população ou que contrariam os interesses de oligarquias nacionais e estrangeiras.

Uma simples pesquisa na INTERNET permite constatar que é crescente o número de pessoas bem intencionadas, porém desorientadas, e de organizações, que gastam muita energia na defesa de idéias que o tempo já deixou para trás, concebidas no tempo da “Guerra Fria” para combater o perigo comunista.

(*) Economista. Cursou doutorado de economia na UNICAMP. Ex-técnico do IPEA


 

Deixou-nos o professor Antonio de Barros Castro

Flavio Lyra. Brasília, 22 de Agosto de 2011.

O mínimo que se pode dizer de Antonio de Barros Castro, que vítima de um trágico acidente faleceu ontem, é que foi uma vida dedicada ao pensamento econômico e a formação de profissionais na área econômica.

Várias centenas de alunos passaram pelas aulas de economia que ministrou na URFJ e nos cursos da CEPAL a partir dos anos 60, em muitos recantos do país e da América Latina. O texto “Introdução à Economia”, que produziu, juntamente com Carlos Lessa, é uma obra notável pela difusão que teve e pela inovação que realizou no ensino,  no Brasil e na América Latina, ao possibilitar ao alunos uma visão sistêmica da economia.

A partir de então, foi permitido aos alunos formarem uma visão de conjunto da realidade econômica. Anteriormente, os cursos de economia eram um amontoado de matérias, que somente com muito esforço era possível dar um sentido de conjunto. Muitos, que iniciavam os cursos de economia, desistiam no meio do caminho por não conseguirem se situar no contexto mais geral da disciplina. Era a época em que não se sabia muito bem o que realmente fazia um economista, muitas vezes confundido com um Contabilista.

Homem de excelente caráter, sempre afável e atencioso para com os amigos, professor de uma didática excelente. Destacou-se por sua visão crítica aguda da realidade econômica, que não se comprazia em aceitar facilmente as idéias de sentido comum. Estava sempre descobrindo novos ângulos e enfoques para os temas do dia-a-dia da vida econômica.

Nunca esqueço de sua imagem, até certo ponto excêntrica, nas manhãs geladas do inverno de Santiago do Chile, com um livro de economia aberto nas mãos, ruminando idéias, ao caminhar de um lado para o outro no jardim fronteiriço de sua casa, quase que ignorando o desconforto do frio.

No Instituto Latinoamericano de Planificação, em Santiago do Chile, quantas e quantas vezes, nos sentámos no restaurante para tomar um cafezinho e trocar idéias sobre os temas de economia, com que vivia verdadeiramente obsecado. Ali, também, nos bares da Avenida Providência, nas belas tardes da primavera chilena, no início dos anos 70, ficávamos tomando uma cerveja Escudo e assistindo o desfile das belas “cocotas” chilenas.

Nos idos dos primeiros anos da década de 1960, quando Celso Furtado à frente da SUDENE despertava o Nordeste de seu profundo sono do atraso econômico, Castro sempre estava presente como professor dos cursos CEPAL/BNDES, que depois mudaram para CEPAL/SUDENE. Certa vez, ouvi da boca de Celso Furtado que Castro, como o chamávamos, era um dos talentos mais promissores na nova geração de economistas do país.

Não poderia deixar de mencionar a notável parceria, na vida matrimonial e no ensino de economia, que construiu com sua mulher Ana Célia, a quem conheceu muito jovem, como aluna de um de seus cursos.

Deixou vários textos sobre economia, especialmente artigos, que estavam sempre na vanguarda dos assuntos relevantes para a política econômica do país. Chamado pelo Presidente Itamar Franco para dirigir o BNDES, no início dos anos 90, realizou uma gestão digna dos maiores elogios.

Caro amigo Castro, você deixa muitas saudades e uma grande lição de vida, como pai, marido, mestre e, especialmente, exemplo de dedicação diuturna às questões do desenvolvimento econômico. Reconheço-lhe o mérito de atravessar todo o período recente de abastardamento do pensamento econômico pelo neoliberalismo, sem fazer-lhe qualquer concessão.

Bom descanso, grande Castro!