Arquivo mensais:agosto 2011

Como mudar o mundo, novo livro de Hobsbawm

Fernando Bogado – Página/12

Aos 94 anos, depois de publicar suas extraordinárias memórias (Tempos Interessantes), o grande historiador inglês Eric Hobsbawm – que dedicou sua vida à análise e explicação da era moderna, desde a Revolução Francesa até os estertores do século XX – tinha um livro a mais para escrever: Como mudar o mundo. Após se sentir parte da geração com a qual se extinguiria o marxismo da vida política e intelectual do ocidente, as crises financeiras, a espiral conflitiva do capitalismo e as mudanças na América Latina lhe deram a alegria de voltar ao seu querido Marx. No livro, refuta com sua habitual lucidez as más interpretações, arquiva os preceitos que envelheceram e utiliza as ferramentas oferecidas pelo autor de O Capital para entender o mundo no século XXI e fazê-lo um lugar melhor.

Imaginem a cena: Eric Hobsbawm, reconhecido historiador inglês de corte marxista, e George Soros, uma das mentes financeiras mais importantes do mundo, encontram-se para um jantar. Soros, talvez para iniciar a conversa, talvez com o objetivo de continuar alguma outra, pergunta a Hobsbawm sobre a opinião que este tem de Marx. Hobsbawm escolhe dar uma resposta ambígua para evitar o conflito, e respondendo em parte a esse culto à reflexão antes que ao confronto direto que caracteriza seus trabalhos. Soros, ao contrário, é conclusivo: “Há 150 anos esse homem descobriu algo sobre o capitalismo que devemos levar em conta”.

A estória parece quase seguir a estrutura de uma piada (“Soros e Hobsbawm se encontram em um bar…”), mas é o melhor exemplo que o historiador inglês encontra para mostrar, no começo do seu livro, essa ideia que está pairando no ar há tempos: o legado filosófico de Karl Marx (1818-1883) está longe de ter se esgotado e, muito pelo contrário, as publicações especializadas da atualidade, o discurso político cotidiano, a organização social de qualquer país não fazem outra coisa que invocar o seu fantasma para lidar com esse angustiante problema que tomou o nome histórico de “capitalismo”.

No livro, recentemente publicado em castelhano, que leva o sugestivo títuloComo mudar o mundo, Hobsbawm volta a oferecer seu indiscutível talento para colocar as proposições daquele filósofo alemão que seguem tendo uma vigência definidora para construir o presente.

Repassemos antes a presunção de morte que se pendurou no pescoço de Marx durante o último quartel do século XX: a crise do petróleo de 1973 desencadeou um processo político e econômico que organizou o que Hobsbawm qualificou como reductio ad absurdum das tendências da economia de mercado. A situação provocou o surgimento de governos conservadores nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha (com Ronald Reagan e Margaret Thatcher à frente de seus países), ao mesmo tempo que implicou em diversos territórios a implantação de economias de claro corte financeiro, situação que na América Latina trouxe aparelhado o surgimento de governos de fato que impuseram este tipo de organização pela força, suplantando as estratégias de desenvolvimento industrial e substituição das importações por facilidades para os capitais andorinha, a especulação e a desestruturação das organizações sindicais (somados, é claro, às estratégias de repressão dispostas há muito tempo antes dos golpes, como mostra a história nacional).

Aquela série de mudanças culminou com a queda do Muro de Berlim e do bloco soviético em 1989-1991: a URSS não podia resistir muito mais tempo com sua particular versão do marxismo e sua economia planejada. Francis Fukuyama, pensador norte-americano de corte neoliberal, se apropriou de algumas noções da filosofia hegeliana para dar a sentença final acerca desta sucessão de acontecimentos: estávamos diante do “fim da História”, o desaparecimento do mundo organizado em blocos opostos que havia marcado o destino de tudo o que conhecemos desde o final da Segunda Guerra Mundial em diante.

É neste panorama conciliador da economia globalizada e aparente pacificação social que, ao longo da década de 1990, todo o mundo deu por enterrado o pensamento marxista, inclusive, com certas justificativas de índole éticas: o nome de Karl Marx sempre vinha acompanhado de Joseph Stalin, entre muitos outros. Marx não era apenas uma má palavra para um guru econômico, mas também para um cidadão das zonas mais pobres da Rússia, que via com prazer a forma como caíam as estátuas de Lênin, Stalin e do próprio Marx.

Quem teria dito então que veríamos uma foto de Sarkozy lendo O Capital e o papa Bento XVI elogiando a capacidade analítica de seu autor?

Entre 2007 e 2009 (2001, para nós), uma série de crises do sistema capitalista financeiro (ou “capitalismo tardio” tal como o identificaram pensadores como Frederic Jameson ou Jürgen Habermas), demonstraram que o que se pensou como o começo de uma era de tranquilidade em termos políticos, sociais e, sobretudo, econômicos para depois de 1989, na verdade não era nada disso. O mercado entregue pura e exclusivamente à “mão invisível” de Adam Smith, amparado pela domesticação do Estado, começou a trincar sem necessidade de conflito com outro sistema econômico-político.

A revolução não é um sonho eterno
Disse-o muito bem a Times após a queda financeira de 2008: “Voltou”. Quem? Marx. Três anos depois, o panorama não melhorou e neste clima pouco promissor, muitos revisam sua figura para recuperar o que foi que disse e o que se pode extrair de sua análise com o objetivo de superar a crise que afeta por estes dias as principais economias do mundo globalizado (basta revisar como começamos cada semana com uma nova “segunda-feira negra”, por não somar mais dias ao calendário).

Aos 94 anos, Hobsbawm observa acertadamente que Marx havia sentenciado qual seria o destino do capitalismo ao seguir a linha que em meados do século XIX insinuava com perfeita clareza: a concentração do capital em poucas mãos produziria um mundo onde apenas um número muito pequeno de pessoas teria o maior número de riquezas, ao passo que o sistema não poderia seguir o ritmo de seu próprio crescimento desproporcionado. A quantidade de riquezas produzidas e o contínuo aumento da população não permitiriam o desenvolvimento igualitário de todos os indivíduos, ao que se somava o fato de que o ritmo de crises cíclicas acabaria aumentando com o tempo até chegar ao ponto da inevitável queda do sistema.

Em 2002, o economista indiano Meghnad Desai já anunciava em um trabalho, “A vingança de Marx”, onde afirmava que muitos acreditaram que o pensamento do alemão se extinguiria com a queda dos estados socialistas, mas as teses e observações realizadas nos trabalhos iniciais vão muito além desses 70 anos de governos comunistas que constituíram apenas um “episódio” da virada para o socialismo: os marxismos não ofuscam as observações de Marx, e é esse núcleo básico que é preciso voltar a ler.

Hobsbawm concorda com Desai: uma coisa são os trabalhos originais e outra a maneira como esses livros (com seus avatares particulares, suas más traduções ou suas publicações tardias) formaram escolas ao longo de todo o mundo. Essa história da escola marxista é a que terminou com a queda do Muro, e não a força política e filosófica das primeiras explicações. Este renascer de Marx é o que entusiasma agora um Hobsbawm que se apresentava um tanto decepcionado com a ideia de que, durante a década de 1980 até finais de 2000, o “mundo marxista ficou reduzido a pouco mais que um conjunto de ideias de um corpo de sobreviventes anciãos e de média idade que lentamente se ia erodindo”.

Quais são essas ideias? Que coisas de Marx é preciso conservar? Em primeiro lugar, a natureza política de seu pensamento. Para ele, mudar o mundo é o mesmo que interpretá-lo (parafraseando uma das míticas “Teses de Feuerbach”); Hobsbawm considera que há um temor político em vários marxistas de se verem comprometidos com uma causa, sabendo de antemão que para entrar na leitura de Marx teve que haver primeiro um desejo de tipo político: a intenção de mudar o mundo.

Em segundo lugar, a grande descoberta científica de Marx, a mais-valia, também tem lugar neste ensaio histórico de erro e acerto. Reconhecer que há parte do salário do operário que o capitalista conserva para si com o objetivo de aumentar os lucros, com a passagem do tempo é encontrar a prova de uma opressão histórica, o primeiro passo para chegar a uma verdadeira sociedade sem classes, sem oprimidos. Os operários estão conscientes dessa injustiça e só mediante uma organização política coerente poderão “dar uma reviravolta”. Ao contrário do que acreditavam os gurus da globalização, nem os operários nem o Estado são conceitos em desuso: Hobsbawm esclarece que “os movimentos operários continuam existindo porque o Estado-nação não está em vias de extinção”.

Por último, a existência de uma economia globalizada demonstra aquilo que Marx reconheceu como a capacidade destruidora do capitalismo, mais um problema a resolver que um sistema histórico definitivo. Hobsbawm chama a atenção, a partir do filósofo alemão, para essa “irresistível dinâmica global do desenvolvimento econômico capitalista e sua capacidade de destruir todo o anterior, incluindo também aqueles aspectos da herança do passado humano dos quais o capitalismo se beneficiou, como, por exemplo, as estruturas familiares”. O capitalismo é selvagem por natureza e seu final – ao menos, o final da ideia clássica de capitalismo – é evidente para qualquer pessoa no mundo.

É muito difícil dizer que da análise de Marx se possa tirar um plano de ação “à prova de bala”. A teoria marxista clássica falou muito pouco sobre modelos de Estado ou do que aconteceria uma vez instalada a revolução, mas muito sobre análise econômica: pensando o que acontece é que se pode saber como agir. O que Marx deu foram ferramentas, não receitas dogmáticas. Como bem disse Hobsbawm, os livros de Marx “não formam um corpus acabado, mas são, como todo pensamento que merece este nome, um interminável trabalho em curso. Ninguém vai convertê-lo em dogma, e menos ainda em uma ortodoxia institucionalmente ancorada”.

Mas, claro, a vida oferece surpresas: embora haja colocações de Marx que se conservam, há muitas outras que o curso da História (e dos homens que a vivem) mudou. Por exemplo, um dos paradoxos do século é que, embora Marx acreditasse que a revolução acabaria se dando em todo o mundo (“Trabalhadores do mundo, uni-vos!”), os levantamentos que terminaram com o marxismo no poder durante o século XX se deram em países bem diferentes da Alemanha, Inglaterra e França, o triângulo em que, para Marx, tudo começaria.

Por sua vez, o marxismo se misturaria com movimentos de mudança ou grupos que reconheciam diferentes injustiças sociais em territórios insuspeitados. Na Rússia, por exemplo, a filosofia marxista se mesclou com o nacionalismo agrário narodnik, ao menos, em um primeiro momento. Na China, a revolução se deu em uma cultura agrícola não ocidental, imperial e milenar. Por sua vez, todos esses modelos de país tinham muito pouco com a ideia original: assim como afirma Hobsbawm, “no período posterior a 1956, uma grande maioria de marxistas se viu obrigado a concluir que os regimes socialistas existentes, desde a URSS até Cuba e Vietnã, estavam longe daquilo que eles mesmos teriam desejado que fosse uma sociedade socialista, ou uma sociedade encaminhada ao socialismo”.

Talvez o artigo mais determinante seja aquele dedicado à redação do Manifesto do Partido Comunista, o texto breve de 1848 onde Marx e Engels declaravam a inevitável presença de um partido que não era, nessa época, o mesmo tipo de organização que o século XX conhecerá depois das propostas operativas de Lênin. O objetivo fundamental da criação de um PC era distinguir sua proposta da de toda outra forma de avatar socialista, sobretudo em suas variáveis utópicas: de Saint-Simon aos falanstérios de Fourier, onde a liberdade sexual (e as correspondentes “orgias coreografadas”) se equiparavam a uma liberdade de trabalho. Um século e pouco depois, talvez esse PC tenha sido mal entendido.

Pensar a transição de sociedades agrárias para sociedades socialistas, ou revisar a mudança histórica do feudalismo ao capitalismo, foi um dos pontos que mais preocuparam o último Marx: ali se encontra a possibilidade de entender desde o presente os movimentos revolucionários em países com estruturas agrárias como as presentes na América Latina, África ou algumas zonas do Oriente. Para além das condições para que se dê a mudança (descontentamento social, consciência do conflito, etc.), o marxismo clássico do século XIX defendia a necessidade de certas condições objetivas para a revolução: desenvolvimento industrial e comercial em grande escala (longe do artesanato e do comércio “cara a cara”). A América Latina conheceu a refutação destas condições no Che Guevara: onde havia uma necessidade, não havia apenas um direito, mas também uma possível revolução. Hobsbawm, atento a este tipo de experiência, demonstra o interesse particular que existe para revisar a mudança ao socialismo fora dos limites da Europa.

A cintura cósmica de Marx
Em uma entrevista concedida ao jornal The Guardian, e realizada por Tristram Hunt – que acaba de publicar, oh casualidade, a biografia de Engels também resenhada nestas páginas – e publicada em janeiro deste ano, Eric Hobsbawm falou com entusiasmo da recuperação de certa linguagem econômica e política que se acreditava esgotada depois do auge liberal das últimas décadas do século XX: “Atualmente, ideologicamente, sinto-se mais em casa na América Latina porque segue sendo a única parte do mundo onde as pessoas ainda falam e conduzem sua política na velha linguagem, na linguagem do século XIX e do século XX do socialismo, do comunismo e do marxismo”. Embora a pergunta apontasse para a saída de Lula do governo e a localização do Brasil dentro do grupo de países com perspectivas de liderança mundial (o BRIC, junto com a Rússia, a Índia e a China), a resposta renova a repercussão da conjuntura política latino-americana dentro do panorama mundial e a presença de diversos governos de esquerda e centro-esquerda no continente.

Um dos últimos artigos do livro, “Marx e o trabalho: o longo século”, assinala precisamente que as organizações proletárias com fins políticos não necessariamente vão de mãos dadas com a teoria marxista. O melhor caso para explicar seu ponto de vista o encontra em nosso intrigante país: “Os socialistas e comunistas, frustrados há tempo na Argentina, não podiam compreender como um movimento operário radical e politicamente independente podia desenvolver-se, na década de 1940, naquele país, cuja ideologia (o peronismo) consistia basicamente na lealdade a um general demagogo”.

A vitória de partidos operários no continente, alimentados pela perspectiva marxista de justiça e progresso igualitário, mas não ligados a organizações de claro corte comunista, apresenta a possibilidade de uma transição a um Estado socialista não mediada por uma revolução, assim como se colocou nos termos da URSS e da histórica Revolução de 1917, ou como o imaginário atual lê o futuro da revolução cubana de 1959. Em definitiva, há coisas que a própria História, não Marx ou suas muitas interpretações, demonstraram que são inviáveis: o socialismo russo fracassou por manter uma economia de guerra a curto prazo que se propunha objetivos difíceis que implicavam esforços e sacrifícios excessivos (desde concentrar todo o excedente e o esforço produtivo com a finalidade de conquistar o espaço exterior a mudar as práticas de produção agrária). Distinguir Lênin e Stalin do pensamento de Marx é um acontecimento dado nos últimos anos que pode mostrar as facetas mais interessantes para uma teoria do presente. Ou seja, algo necessário que permite pensar as circunstâncias atuais para escorar a mudança dentro da complexa geografia latino-americana.

O marxismo teve várias crises ao longo de sua história. Desde que se propôs colocar Hegel “de pernas para o ar” e transformar todo o discurso do espiritual em atenção ao material, já em 1890 apareceram os primeiros críticos às formulações básicas desta filosofia. Contudo, há algo nas ideias de Marx que segue interpelando o homem contemporâneo, que segue falando de uma mudança não considerada como mero desejo existencial ou aspiração utópica, mas como situação possível de levar a cabo na atualidade, sobretudo, pela via democrática e partidária.

Como bem pergunta Soros, e como escreve Hobsbawm: “Não podemos prever as soluções para os problemas que o mundo enfrentará no século XXI, mas para que haja alguma possibilidade de êxito devemos fazer-nos as perguntas de Marx”.

(*) Publicado originalmente em português por IHU Online. A tradução é do Cepat.

Fonte:http://cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=18302

A “queda” de Kadafi e a disputa pelos recursos da África

Luiz Carlos Azenha/Vi o Mundo

Parte da esquerda descobriu que morre de amores por Kadafi. Outra parte — ou será a mesma? — descobriu que ama o Assad, da Síria. Dois ditadores repugnantes. Não menos repugnantes, no entanto, que alguns democratas do Ocidente. George W. Bush, por exemplo, que matou milhares de pessoas sob o falso argumento de que pretendia conter a proliferação de armas de destruição em massa no Iraque.

Não menos repugnantes, Kadafi e Assad, que alguns ditadores que o Ocidente ama apoiar. Não é preciso ir longe para descobrir a hipocrisia: ditaduras do Golfo Pérsico “promovem” a democracia na Líbia, ao mesmo tempo em que massacram, silenciam ou desconhecem a oposição em casa (a escolha é sua). O mesmo vale para a Arábia Saudita, que invadiu um vizinho para “promover” a estabilidade que interessa a Washington, Paris e Londres.

Assim é a realpolitik, para além das belíssimas declarações de intenções publicadas nos jornais.

Não podemos deixar de notar, no entanto, especialmente no caso da Líbia, que foram abertos alguns precedentes preocupantes:

1. A autorização dada pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas foi utilizada para promover a troca de regime.

2. A Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) deu mais um passo para se tornar uma espécie de polícia da globalização.

A cobertura que a mídia brasileira faz da África é tão bisonhamente fraca que nossos jornalistas e comentaristas acabam simplesmente reproduzindo a opinião alheia, de matriz estadunidense ou europeia, como se fosse verdade absoluta, justamente no momento em que o Brasil busca e precisa de uma política externa soberana e independente, que expresse seu novo papel na economia mundial.

Isso está na raiz, inclusive, da incompreensão que a política do Itamaraty desperta em alguns setores da sociedade brasileira. São setores que não conseguem dissociar os interesses do Brasil daqueles de nossas metrópoles. É a turma da genuflexão automática.

Kadafi era um ator importante nos negócios africanos. A Líbia era um dos grandes investidores no continente, derivando daí o apoio obtido por Kadafi dentro da União Africana. No contexto regional, as posições do ditador líbio eram, vamos dizer, “nacionalistas”. O projeto de Kadafi, montado em seus bilhões de dólares do petróleo, era ancorar a Líbia firmemente nas instituições africanas, apesar das óbvias diferenças históricas, étnicas e culturais entre o norte árabe do continente e a África subsaariana.

Pobre México, tão longe de Deus, tão perto dos Estados Unidos, diz o ditado. Pobre Líbia, tão longe de Deus, tão perto do Mediterrâneo.

Qualquer regime que suceder Kadafi não tem chance de durar alguns meses se for carimbado como abertamente entreguista dos recursos naturais do país, ou seja, do petróleo. A dinâmica política interna não permitirá isso, a não ser que tropas da OTAN sejam despachadas para “pacificar” os líbios.

Não duvido que, nos próximos dias, uma “força de estabilização” seja convocada para atuar na Líbia, composta por soldados árabes e/ou africanos. A Líbia é muito importante para ser entregue aos líbios, diriam nos bastidores os europeus.

A disputa pelos recursos naturais do país se dá em um contexto mais amplo, o da valorização dos recursos naturais do continente.

A diplomacia chinesa é a mais atuante na África. Beijing não faz qualquer exigência a seus aliados locais, nem em termos econômicos, nem políticos, muito menos diplomáticos.

A China pode arguir que, diferentemente dos países ocidentais, nunca invadiu a África, nem promoveu a escravidão, nem provocou matanças ou graves violações dos direitos dos africanos comparáveis às cometidas por ingleses, franceses, alemães, belgas, portugueses, etc.

Além disso, os chineses lembram o apoio que deram à luta anticolonial.

A China troca os recursos minerais que obtém na África por importantes obras locais.

A China ofereceu às elites locais uma alternativa às fórmulas do FMI e do Banco Mundial que, nos anos 90, resultaram apenas no enfraquecimento de estados que já eram mínimos.

Não é por acaso, portanto, que outro engajamento recente do Ocidente tenha se dado justamente na partilha do Sudão, um dos grandes aliados da China no continente e também produtor de petróleo.

Vocês não acham curioso que ninguém se importe com as areias do Mali ou com a democracia na República Centro-Africana?

Fonte:http://www.viomundo.com.br/opiniao-do-blog/a-queda-de-kadafi-e-a-disputa-pelos-recursos-da-africa.html

New York Times: A “mão livre” das companhias de petróleo na Líbia

By CLIFFORD KRAUSS, em 22.08.2011, no New York Times

Houston — A luta ainda não acabou em Trípoli, mas a disputa para assegurar acesso à riqueza do petróleo da Líbia já começou.

Antes da rebelião começar, em fevereiro, a Líbia exportava 1,3 milhão de barris de petróleo por dia. Embora isso represente menos de 2% das necessidades globais, apenas um pequeno número de países pode fornecer o equivalente do mesmo tipo de petróleo do qual muitas refinarias do mundo dependem. O retorno da produção líbia ajudaria a derrubar os preços de petróleo na Europa e, indiretamente, os preços da gasolina na costa Leste dos Estados Unidos.

Nações ocidentais — especialmente os países da OTAN, que deram apoio aéreo crucial aos rebeldes — querem ter certeza de que suas companhias ficarão em posição destacada para bombear o petróleo líbio.

O ministro das Relações Exteriores da Itália, Franco Frattini, disse na TV estatal segunda-feira que a companhia petrolífera italiana Eni “terá o papel número um no futuro” no país norte-africano. O sr. Frattini chegou a afirmar que técnicos da Eni já estavam a caminho do leste da Líbia para reiniciar a produção. (A Eni rapidamente desmentiu que tinha mandado pessoal para a região ainda em disputa, que é a maior fonte do petróleo importado pela Itália).

A produção líbia foi praticamente suspensa durante o longo conflito entre as forças rebeldes e as tropas leais ao líder da Líbia, coronel Muammar el-Qaddafi.

A Eni, com a britânica BP, a Total da França, a Repsol YPF da Espanha e a OMV da Áustria, foram todas grandes produtoras na Líbia antes da guerra civil, e estão em posição para ganhar mais assim que o conflito terminar. As companhias americanas Hess, ConocoPhillips e Marathon também fizeram acordos com o regime de Qaddafi, embora os Estados Unidos dependam em menos de 1% das importações da Líbia para seu consumo.

Mas permanece incerto se um governo rebelde honraria os contratos fechados pelo regime de Qaddafi ou que tipo de postura assumiria nas negociações para acordos de produção com as companhias dispostas a investir nos poços existentes ou na exploração de novos.

Mesmo antes de assumir, os rebeldes sugeriram que relembrarão seus amigos e inimigos e negociarão levando isso em conta.

“Não temos problemas com países ocidentais como os italianos, franceses e companhias britânicas”, disse o porta-voz da companhia de petróleo dos rebeldes, Agoco, Abdeljalil Mayouf, segundo a Reuters. “Mas teremos algumas questões políticas com a Rússia, China e Brasil”.

A Rússia, a China e o Brasil não deram apoio a fortes sanções contra o regime de Qaddafi, e em geral apoiaram uma solução negociada para por fim ao conflito. Todos os três países têm grandes companhias de petróleo que tentam negócios na África.

O preço básico do petróleo na Europa caiu moderadamente na segunda-feira, com a especulação de que a produção líbia de petróleo seria rapidamente retomada. Os preços do petróleo Brent inicialmente cairam mais de 3%, mas terminaram o dia basicamente com o mesmo valor em Nova York, U$ 108,42 o barril. O preço básico dos Estados Unidos, que é menos sensível a eventos no Oriente Médio, subiu U$ 2,01, para U$ 84,42.

O coronel Qaddafi provou ser um parceiro problemático para as companhias de petróleo internacionais, frequentemente aumentando impostos e taxas e fazendo outras exigências. Um novo governo com relações próximas com a OTAN poderia ser um parceiro mais fácil para as nações ocidentais. Alguns especialistas dizem que, com a mão mais livre, as companhias de petróleo poderiam encontrar consideravelmente mais petróleo na Líbia do que foram capazes sob as restrições impostas pelo governo Qaddafi.

Analistas de petróleo dizem que é provável que as companhias de petróleo, particularmente a Total e a Eni, compitam ferozmente por contratos para explorar as melhores propriedades, com os respectivos governos fazendo lobby em nome delas. Mas primeiro os rebeldes deverão consolidar seu controle sobre o país.

“Se você não tem um ambiente de segurança estável, quem vai colocar os trabalhadores de volta no país?”, disse Helima Croft, estrategista geopolítica da Barclays Capital.

A guerra civil forçou grandes companhias de petróleo a retirar seu pessoal da Líbia e a produção despencou nos últimos meses para minúsculos 60 mil barris por dia, de acordo com a Agência Internacional de Energia. Isso seria suficiente para atender 20% das necessidades domésticas de petróleo da Líbia. Os rebeldes foram capazes de exportar pequenas quantidades de petróleo que estavam estocadas em portos e venderam o produto a dinheiro nos mercados internacionais através do [emirado do] Qatar.

Especialistas em petróleo alertam que a Líbia poderia levar mais de um ano para fazer os reparos e colocar seus poços em produção total, embora as exportações possam ser retomadas em alguns meses.

Como o petróleo é o recurso econômico mais importante da Líbia, qualquer novo governo seria obrigado a fazer da produção sua mais alta prioridade. Isso significa ter segurança nos maiores campos de petróleo, nos oleodutos, refinarias e portos. O governo também precisaria rapidamente estabelecer relações com as companhias de petróleo estrangeiras, algumas das quais consultaram tanto os rebeldes quanto o coronel Qaddafi durante o conflito, visando garantir suas apostas.

As companhias de petróleo envolvidas na Líbia evitaram comentários a respeito da situação no país ou disseram que pretendem avaliar a evolução da segurança antes de mandar seu pessoal de volta ao país.

“Claramente, estamos monitorando a situação como todos”, disse Jon Pepper, um vice-presidente da Hess. “Obviamente a situação precisa estabilizar antes que as pessoas comecem a pensar em retomar a produção”.

Em anos recentes, a Itália depende da Líbia para mais de 20% de suas importações de petróleo. A França, a Suiça, a Irlanda e a Áustria todas dependiam da Líbia para mais de 15% de suas importações antes do início da guerra civil.

A importância da Líbia para a França foi sublinhada na segunda-feira, quando o presidente Nicolas Sarkozy convidou o chefe do conselho de transição nacional, Mustafa Abdel-Jalil, para consultas em Paris.

Apesar de os Estados Unidos dependerem muito pouco da Líbia, a redução da quantidade de petróleo de alta qualidade nos mercados mundiais empurrou para cima os preços do petróleo e da gasolina também para os norte-americanos.

Analistas da indústria dizem que a maior parte das empresas de serviço do setor continou a pagar salários a suas equipes líbias durante a guerra, indicando que houve danos relativamente pequenos à maioria das instalações. Isso sugere que a produção poderia ser retomada em questão de semanas.

Mas as exportações dependem em grande escala da rapidez dos reparos a serem feitos nos terminas de exportação de Ras Lanuf, Melitah e Es Sider e do quanto o novo governo será capaz de dar segurança aos campos e oleodutos que ficam em áreas que tradicionalmente apoiavam o antigo regime.

O fechamento às pressas de poços quando a guerra se espraiou, em fevereiro, além da falta de manutenção nos últimos meses, podem significar que os consertos necessários vão levar meses, particularmente nos campos mais antigos.

As experiências de outros países da região oferecem razões para cautela. Analistas dizem que disputas políticas no Irã reduziram a produção do país por décadas e foram necessários oito anos para a produção do Iraque se recuperar depois da invasão liderada pelos Estados Unidos para derrubar Saddam Hussein.

O presidente da Eni, Giuseppe Recchi, disse recentemente a analistas que provavelmente levaria um ano para a Líbia voltar aos níveis normais de exportação. Na segunda-feira, ele negou que sua companhia fosse enviar imediatamente pessoal para a Líbia, mas disse a repórteres que espera que o novo governo líbio respeite os contratos fechados previamente pela companhia.

Elisabetta Povoledo
 contributed reporting from Rome.

http://www.nytimes.com/2011/08/23/business/global/the-scramble-for-access-to-libyas-oil-wealth-begins.html?pagewanted=all

Novidade: Prefeitura de São Paulo a serviço da especulação imobiliária

por Jorge Eduardo Rubies*, na Folha de S. Paulo

Com a venda do “quarteirão da cultura”, os políticos de nosso município perderam mais uma chance de mostrar que estão realmente a serviço do cidadão

Em meio ao festival de leis absurdas, inconsequentes e patéticas de autoria do Executivo, aprovadas a toque de caixa pela Câmara Municipal de São Paulo às vésperas do recesso de julho, é difícil apontar qual é a mais contrária ao interesse público, mas a venda do “quarteirão da cultura” do Itaim Bibi desponta como uma das favoritas.

Votada na calada da noite (às 23h30!), essa lei oferece de repasto à farra imobiliária -que dá sinais de iminente colapso- um oásis de beleza e paz num dos bairros mais áridos e congestionados da cidade.

Concebido nos anos 50 de acordo com o conceito de escola-parque, revolucionário até hoje, o “quarteirão da cultura” é um terreno municipal de 20 mil m2 com a maior densidade arbórea do Itaim.

Ele congrega quase todos os serviços públicos da região -duas escolas, teatro, biblioteca, creche, unidade da Apae, posto de saúde e Centro de Atenção Psicossocial-, reconhecidos por sua excelência e que atendem diariamente a milhares de usuários, sendo que alguns dos prédios foram recentemente reformados e reinaugurados com fanfarra pelo próprio prefeito.

O pretexto para sua venda e consequente destruição é a construção de 200 creches, o que não passa de uma farsa pessimamente encenada, pois dinheiro é o que não falta para tanto, a começar por verbas federais e estaduais disponibilizadas para a prefeitura e não utilizadas.

Sem falar no fabuloso Orçamento municipal de R$ 35 bilhões, suficiente para cumprir essa e todas as outras promessas de campanha do prefeito, desde que utilizado com um mínimo de eficiência.

De fato, é inacreditável que a prioridade da prefeitura seja a venda do quarteirão, e não o corte de parte das cerca de 30 secretarias municipais, das centenas de cargos em comissão, da verba para propaganda oficial (superior a R$ 100 milhões em 2010) ou dos R$ 191 milhões gastos em consultorias (que a Folha noticiou nesta semana)…

A pá de cal na farsa foi dada pelo Tribunal de Justiça de São Paulo, que esclareceu que a eventual venda desse e de outros nove terrenos municipais só pode servir ao pagamento de precatórios.

E apesar disso, da abertura de processo de tombamento do quarteirão pelo Condephaat -que reconheceu o relevante valor histórico, urbanístico, paisagístico, ambiental e social do local-, do repúdio de grande parte da população do bairro e da sociedade à iniciativa, expresso em abaixo-assinado com 12 mil assinaturas, de um abraço no quarteirão que reuniu mais de mil pessoas e de diversos atos e manifestações, a prefeitura e a Câmara insistem na ideia.

Enfim, estamos sempre prontos a debater com as autoridades municipais acerca de nossa convicção da lesividade da venda do quarteirão, convite por elas declinado nas duas audiências públicas convocadas para discutir o assunto.

Não entrarei nos detalhes sórdidos, como a pressão a funcionários municipais que aderiram ao Movimento SOS Quarteirão do Itaim, mas vale sempre lembrar que o prefeito e mais de 20 vereadores da cidade chegaram a ser cassados em primeira instância pelo recebimento de doações ilegais provenientes de uma entidade de fachada do setor imobiliário.

Com a aprovação desse e dos outros projetos, os políticos do município perderam mais uma oportunidade de mostrar que estão realmente a serviço do cidadão, e não dos doadores de campanha.

Isso num momento em que, no mundo inteiro, a paciência do povo com seus supostos representantes começa a se esgotar. Afinal, a Grécia, a Espanha e o Egito também são, ou haverão de ser, aqui.

Jorge Eduardo Rubies é presidente da Associação Preserva São Paulo, coordenador do Movimento SOS Quarteirão do Itaim e coordenador-geral da União de Movimentos contra a Especulação Imobiliária e pela Ética na Política.

“Estadão” crava a espada em Dilma, pelas costas

por Rodrigo Vianna

A foto está na página A-7, na edição impressa do Estadão. Dilma surge levemente arqueada, e a espada de um cadete parece trespassar o corpo da presidenta. Abaixo da foto, o título “Honras Militares” – e um texto anódino, sobre a participação de Dilma numa cerimônia militar.

Faço a descrição minuciosa da foto porque a princípio só contava com uma reprodução de má qualidade (tive que fotografar a página do jornal com uma máquina amadora). Mas um amigo acaba de me mandar a imagem por email – e essa está um pouco mais nítida. Estranhamente, não encontro a foto no site do Estadão. Talvez apareça naquela versão digital para assinantes…

O editor deve ter achado genial mostrar a presidenta como se estivese sendo golpeada pelas costas. É a chamada metáfora de imagem. Mas, expliquem-me: qual a metáfora nesse caso? O que a foto tinha a ver com a solenidade de que fala o jornal? Há, no meio militar, quem queira golpear Dilma pelas costas? O jornal sabe e não vai dizer?

Ou, quem sabe, a turma do “Estadão” tenha achado graça em “brincar” com a imagem. No mínimo, um tremendo mau gosto com uma mulher que já passou por tortura na mão de militares, e hoje é a presidenta de todos os brasileiros.

Sintomático que a foto não apareça ao lado da mesma notícia na edição digital. Alguém deve ter pensado melhor e concluído: não vai pegar bem.

Por isso tudo, sou levado a pensar que Freud talvez explique a escolha da foto: a mão militar, na imagem, cumpre a função de eliminar a presidenta. E, com isso, talvez agrade a certa parcela dos leitores do jornal. Passeando pelo site do Estadão, é comum ver a presidenta chamada de “terrorista”. Exemplo, aqui:

20 de Agosto de 2011 | 20h52

A Dilminha tá fazendo certinho, adulando um pouco os milicos, ai eles se derretem todos e se dobram ficando de quatro para a ex-terrorista.

Volto eu. Para essa gente, terroristas não foram os que mataram, torturaram e impediram o país de viver em regime democrático. Não. Para eles, “terroristas” são os que lutaram contra a ditadura.

A foto da página A-7  cumpre o papel de agradar essa gente.

Fonte:http://www.rodrigovianna.com.br/radar-da-midia/estadao-crava-a-espada-em-dilma.html

Um choque de gestão para a candidatura Aécio

 

Por Raymundo Costa

Do Valor Econômico:

 

O presidenciável tucano Aécio Neves tem um Plano B, para o caso de não concorrer à Presidência: disputar o governo de Minas Gerais, pois Antonio Anastasia não tem mais direito à reeleição e o grupo hoje no poder não vê outra opção para vencer em 2014. O Plano B de Aécio é a cada dia um Plano B+, que pode se transformarem Plano A, sobretudo se Luiz Inácio Lula da Silva for o candidato do PT à sucessão de Dilma Rousseff. De certa forma, Aécio tem frustrado as expectativas que os tucanos depositavam na sua liderança para voltar ao poder daqui a quatro anos.

 

A perspectiva de poder, às vezes, é mais forte que o poderem si. Senão esperava tanto de Aécio, o PSDB, após as eleições de 2010, contava ao menos que o ex-governador de Minas, a esta altura, já tivesse se firmado como alternativa incontestável a Dilma, Lula e ao PT. Mas paira no ninho uma reversão de expectativas – real e que ainda pode ser contida, mas que deixa perplexo o partido.

 

A atuação de Aécio, em cinco meses de Senado, é talvez o melhor exemplo do anticlímax. Demorou a falar. Quando subiu à tribuna, pronunciou um discurso vazio. Evidentemente, com a fama que o precedia, foi prestigiado com um plenário cheio e muitos apartes. Mas de concreto sobraram apenas os elogios dos governistas – que o proclamaram líder da oposição e o candidato presidencial do PSDB em 2014 -, e a sensação dos oposicionistas de que Aécio não se preparou para se apresentar como uma opção aos 12 anos de governo que o PT estará por completar nas próximas eleições presidenciais.

 

Tucanos começam a ter dúvidas sobre candidato em 2014

 

Faltaram, ao discurso, brilho intelectual e uma visão de Brasil como tinha, por exemplo, o avô do senador, o presidente Tancredo Neves, morto antes de tomar posse no cargo, em 1985. Mesmo alguns improvisos de Tancredo tinham estilo e conteúdo. Se falta um projeto e uma ação legislativa mais firme, qual será a arma de Aécio em 2014? A simpatia, a média com os companheiros, o chamado estilo mineiro de fazer política?

 

No Senado, Aécio se destacou por duas proposições: a emenda à Lei de Diretrizes Orçamentárias para o governo incluir no Orçamento Geral da União as emissões do Tesouro para o BNDES, algo hoje em torno dos R$ 240 bilhões, e um projeto de mudanças radicais no processo de edição de medidas provisórias.

 

A emenda para tornar mais transparentes as emissões do Tesouro passou no Congresso, teve sucesso de parte da crítica especializada, mas foi impiedosamente vetada pela presidente Dilma Rousseff nos seguintes termos: “A inclusão de todas as emissões na peça orçamentária representaria uma sinalização prévia de emissões estratégicas a serem feitas pelo Tesouro Nacional ao longo de cada exercício, possibilitando aos agentes econômicos anteciparem seus movimentos no mercado de títulos públicos, com impactos e riscos à gestão da dívida pública federal”. Só faltou chamar Aécio de ingênuo.

 

No caso das medidas provisórias Aécio tomou carona na onda de protestos dos senadores pelo pouco tempo de que dispõem para analisar as MPs, depois que elas são aprovadas na Câmara – houve casos já de a Câmara aprovar um texto pela manhã e o Senado ser obrigado a referendá-lo à tarde, para não perder prazos regimentais. O ambiente era tão ruim que o próprio presidente do Senado, José Sarney, tomou a iniciativa de apresentar um projeto regulamentando a tramitação e a emissão de MPs.

 

Aécio percebeu na situação uma oportunidade e apresentou um projeto bem mais ousado que, entre outras coisas, previa a criação da uma supercomissão para analisar a admissibilidade das MPs enviadas pelo Executivo ao Congresso. Prevaleceu o projeto de Sarney, que atendia o principal: a garantia de que os senadores terão mais tempo para estudar as medidas (80 dias, a Câmara, 30, o Senado e mais dez a Câmara, se os senadores fizerem mudanças no texto dos deputados). Relator do acordo que permitiu a aprovação do projeto, Aécio pode posar de pai da mudança do processo atual, resultado de uma mudança feita quando o senador, então deputado, presidia a Câmara.

 

Politicamente, Aécio mantém uma relação amena com o governo. Para os governadores do PSDB, “função de governador não é fazer oposição”, como fizeram questão de deixar bem claro já em duas reuniões. Mas também ficou claro que essa seria a tarefa das bancadas. A elas caberia realçar as diferenças entre os projetos do PSDB e do PT. Em sua maioria, senadores e deputados gostariam de ver seu eventual candidato em 2014 com uma postura mais crítica em relação ao governo, principalmente agora com a aproximação das eleições municipais.

 

Na prática, a aproximação de Aécio do governo Dilma parece a muitos tucanos mais um capítulo da guerra com José Serra. Uma estratégia destinada a identificar Serra como oposição radical, enquanto mantém abertos os canais administrativos com o governo federal. O discurso replicado em Minas é de que “todos os problemas do Estado são de responsabilidade do governo federal”. Belo Horizonte, diga-se, é a única grande capital brasileira que não tem um metro de linha de metrô (tem um trem de subúrbio que é chamado de metrô).

 

Apesar das dificuldades políticas do semestre de Dilma, o PSDB é o mesmo partido dividido que perdeu as três últimas eleições para o PT. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso foi o único até agora a apresentar um comando conceitual para a sigla, mas não foi ouvido e até mesmo criticado. A cúpula tucana ridicularizou um documentoem que Serratentou alinhavar algumas ideias para a discussão. FHC aceita feliz o reconhecimento de Dilma pois acha que passou a ser detestado pela maioria da população por causa de Lula e do PT. A campanha deixou sequela na relação de Serra com Dilma, que já foi melhor.

 

Agora, há quem lembre que em 2002 Aécio hesitou em sair candidato ao governo de Minas. É menor a figura do messias tucano. O pior é que começa a crescer no PSDB a sensação de que Aécio teme o enfrentamento com Lula, mesmo que seja para acumular capital para 2018. Na cúpula tucana já se avalia que candidatura presidencial de Aécio precisa de um bom “choque de gestão”. Ou Serra pode outra vez “fazer acontecer”.

 

Raymundo Costa é repórter especial de Política, em Brasília.

 

Cantanhêde: Cuidado, tucanos, Dilma é Lula!

Fernando Brito/Tijolaço

Hoje, na Folha, antes de dar a maravilhosa notícia de que vai tirar férias até 13 de setembro, a inefável Eliane Cantanhêde nos brinda com uma mensagem que, certamente, poderia receber a assinatura de José Serra, ou mesmo de Nélson Jobim, de quem ela é a mais autorizada psicógrafa.

O título é ótimo e resume toda a essência da visão serro-jobinista da situação: “Tucanos caem como patinhos”.

E aí, com a mesquinhez eleitoreira que marca o pensamento do xiismo tucano, ela discorre sobre o que seria uma maquiavélica manobra da presidenta para, na visão dela, virar “estrela de uma frente pluripartidária contra a corrupção e contra a miséria”.

A Cantanhêde acha – qualquer um pode achar qualquer coisa na democracia – que a presidenta está se pendurando, como papagaio de pirata, na foto com Fernando Henrique, o Amado e Inesquecível, e os campeões de simpatia Geraldo Alckmim e Antonio Anastasia.

“O aparato marqueteiro que Dilma herdou de Lula não dá ponto sem nó: a solenidade do Brasil sem Miséria com o tucanato foi justamente em São Paulo, coração do PSDB e do seu eleitorado.”

Claro, se Dilma não se reúne com o governo paulista e mineiro, é partidária, se o faz, é oportunista. E o que dizer de aparecer na foto com FHC? Com o prestígio transbordante do ex-presidente, uma foto com ele quase chega a ser um problema.

Mas ela lança o alerta dos bolsões serristas: “assim ela vence resistências entre os 40 milhões que votaram na oposição, contra Lula e o lulismo. Por trás do discurso de que o Brasil sai ganhando, a oposição não lucra nada, Dilma fica com tudo”.

Como qualquer pessoa que encare o exercício do poder de forma mesquinha, sem se dar conta que o Presidente ou a Presidenta é chefe de toda a Nação, inclusive daqueles 40 milhões que votaram no “coiso”, esquece daquele papo “republicano” que gostam de invocar quando é para criticar.

Mas Cantanhêde e os espíritos desencarnados que inspiraram seu raciocínio acerta numa coisa, na frase final, definitiva:

“Dilma é Lula”.

É essa a verdade e é isso que tem de ficar claro para a população, em meio a todos estes rapapés da turma que perdeu o único discurso que tinha – o (falso) moralismo – e das fotografias com o Brasil que já era.

Que os tucanos caiam como patinhos, problema deles. Mas não deixemos o povo brasileiro pensar que é verdade algo diferente do que é verdade: “Dilma é Lula”.

Fonte:http://www.tijolaco.com/cantanhede-cuidado-tucanos-dilma-e-lula/