Arquivo mensais:agosto 2011

Namoro entre PSDB e Força é embalado por repasse de verba

Jornal OTEMPO em 24/08/2011

O namoro entre o PSDB, partido do governador Antonio Anastasia e do senador Aécio Neves, e a Força Sindical foi oficializado no último fim de semana – com a criação do PSDB sindical -, mas o flerte acontece há pelo menos quatro anos. Desde 2007, a central é a única entidade representante dos trabalhadores em Minas que recebe repasse de recursos públicos por meio de convênios firmados com o governo do Estado. De março de 2010 até hoje, o Executivo mineiro repassou R$ 5,34 milhões para a manutenção de um serviço que já é oferecido pelo próprio poder público.

Trata-se do Centro de Solidariedade e Apoio ao Trabalhador (CSAT), uma espécie de “braço” do Sistema Nacional de Emprego (Sine), que faz a ponte entre os trabalhadores e as vagas disponíveis no mercado de trabalho. Somente no último convênio, assinado em março deste ano e com validade até janeiro de 2012, foram repassados R$ 2,42 milhões à central sindical, que coordena as três unidades do CSAT no Estado: Uberlândia, Contagem e Belo Horizonte.

Segundo o presidente da Força, Rogério Fernandes, o CSAT possui um total de 120 funcionários e salas equipadas com computadores. Além do encaminhamento para o mercado, as unidades oferecem cursos de capacitação com duração de 20 horas, como o de noções de informática e o que ensina a se comportar durante a entrevista de emprego e depois da contratação. “No CSAT, o trabalhador pode, também, tirar a carteira de trabalho e dar entrada no pedido de seguro-desemprego”, acrescenta Rogério. Todos esses serviços já estão disponíveis nos postos do Sine espalhados pelo Estado e mantidos com recursos do Ministério do Trabalho por meio do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT).

Para o deputado Rogério Correia (PT), líder do bloco de oposição na Assembleia, este tipo de atividade não compete a uma central sindical. “O convênio tem função carimbada de atrair o sindicalismo da Força, já que nenhuma outra central recebe recursos. É o aparelhamento do Estado para os companheiros tucanos”, critica.

Segundo o secretário de Trabalho e Emprego, Carlos Pimenta (PDT), os convênios com a Força são anteriores à criação do PSDB Sindical e não possuem conotação política. “Se o convênio não estivesse cumprindo suas finalidades, eu seria o primeiro a falar. Mas os resultados são muito expressivos em termos de reinserção do trabalhador no mercado. É um investimento que vale a pena”.

História. Em março de 2010, o governo já havia repassado R$ 2,92 milhões à Força. Cinco meses depois, a entidade formalizou apoio à candidatura de Anastasia à reeleição. Em 2011, após a renovação do contrato, os sindicalistas se aliaram definitivamente ao governador, liderando a fundação do braço sindical do PSDB em Minas.

O lançamento, que aconteceu no último sábado, na capital, contou com a presença do governador e de Aécio, promotor da aproximação tucana com os sindicalistas.

A Força realizou em 1º de maio a festa para o trabalhador na Via 240

Questionamento: Oposição quer explicações sobre Festa do Trabalhador

 

Deputados de oposição na Assembleia questionam a utilização dos recursos repassados pelo governo à Força Sindical. Segundo os parlamentares, há suspeitas de que parte do dinheiro seja utilizado para financiar a Festa do Trabalhador. “Os convênios são liberados em março, menos de dois meses antes do evento. E tanto em 2010 quanto em 2011, tinha palanque para o governador”, aponta o deputado petista Rogério Correia.

No dia 24 de maio, os deputados encaminharam requerimento ao secretário de Trabalho e Emprego, Carlos Pimenta, solicitando informações sobre os convênios, mas não tiveram resposta. Por meio da assessoria, a pasta afirmou que os recursos são usados apenas nos centros do trabalhador e que o contrato só é renovado após a comprovação dos gastos.

Segundo o presidente da Força, Rogério Fernandes, a Festa do Trabalhador é financiada com recursos do Estado por meio da Copasa ” com o fornecimento de água mineral”, além de verbas da União. (AL)

PT também usa recursos como estratégia de aproximação

A liberação de recursos por meio de convênios para entidades ligadas aos trabalhadores como forma de conquistar apoio político está longe de ser uma invenção tucana. Historicamente, o PT adota a estratégia junto a diversas centrais sindicais, principalmente a CUT, além do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

Para se ter uma ideia, nos três primeiros anos do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, entre 2003 e 2005, somente o MST recebeu quatro vezes mais recursos do governo federal do que nos três últimos anos do tucano Fernando Henrique Cardoso –repasse saltou de R$ 7 milhões para R$ 30 milhões. Os repasses para a CUT e a Força Sindical também aumentaram durante os oito anos da administração petista. A maior parte dos recursos sai do Ministério do Trabalho via Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), e não está isenta de questionamentos do Tribunal de Contas da União.

O dinheiro público também é tradicionalmente utilizado pela administração petista para financiar as festas em comemoração ao Dia do Trabalhador. No evento deste ano promovido pela CUT em São Paulo, R$ 300 mil dos R$ 1,5 milhão gastos vieram da Petrobras em troca de publicidade. Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e Eletrobras também “colaboraram” com os sindicalistas.

A Força Sindical não ficou de fora da distribuição do bolo. Com custo total de R$ 2,5 milhões, a festa para o trabalhador recebeu R$ 300 mil da Petrobras, além de patrocínio da Caixa. (AL)

Fonte:http://www.viomundo.com.br/politica/namoro-entre-psdb-e-forca-e-embalado-por-repasse-de-verba.html

Crise na Líbia tem pouco impacto na Petrobras e no mundo, diz Gabrielli

André Barrocal/Carta Maior

BRASÍLIA – A situação política na Líbia afetará “muito pouco” ou “quase nada” a Petrobras, cujos negócios no país são praticamente “imateriais”. Já o impacto no mercado internacional de petróleo tende a ser pequeno, desde que os líbios, controladores da oitava maior reserva do mundo, retomem logo a produção, o que depende do desfecho do caso. As avaliações são do presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli.

Segundo o executivo, a Petrobras mantinha um escritório alugado e apenas sete pessoas na Líbia, todas em atividades exploratórias e laboratoriais. A estatal não tem produção, nem está perfurando poços. Dos sete funcionários, os que eram brasileiros voltaram para casa. Os que eram líbios deixaram a terra natal e estão em lugar que a Petrobras mantém em segredo, por razões de segurança.

Os investimentos da empresa na Líbia eram de “poucos milhões de dólares”, nas palavras de Gabrielli. Volume que ele cassificou de “absolutamente imaterial”, diante do tamanho do plano de negócios da estatal, que prevê gastos de US$ 224 bilhões até 2015. “O impacto para nós é muito pouco ou quase nada”, disse Gabrielli à Carta Maior.

Em relação ao mercado internacional, o executivo também traça um cenário tranquilo. As duas maiores economias do mundo, Estados Unidos e China, importam pouco petróleo líbio. A Europa compra mais, dada a característica do petróleo líbio, mas tem hoje uma atividade econômica que não acelera.

O cenário vai mudar, porém, caso a Líbia venha a atravessar um prolongado período de indefinições políticas. “Não acredito que tenha grande impacto sobre preços nem na situação do mercado, se a Líbia voltar a produzir rápido. O que é uma interrogação. Depende do que vai fazer o novo governo ou o Kadafi. Ninguém sabe ainda”, disse.

A íntegra da entrevista exclusiva concedida por Gabrielli à Carta Maior, na quala ela fala sobre o futuro e o gigantismo da empresa, o leitor poderá conferir na próxima sexta-feira (26/08).

Fonte:http://cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=18319

Dilma:mulher ou militante

Maria Rita Kehl/Carta Capital

Que diferença representa para o Brasil a eleição, pela primeira vez na nossa história, de uma presidente mulher? No plano simbólico, é evidente que a escolha de Dilma Rousseff para presidente ou presidenta do Brasil revela a ausência, ou pelo menos a irrelevância dos preconceitos sexistas na determinação do voto de grande parte dos brasileiros. Também não houve, em público, manifestações machistas em reação aos primeiros problemas enfrentados pela presidenta. Passados quase oito meses desde a posse, os recentes escândalos em alguns ministérios, os primeiros sinais de inflação e o risco de desaceleração econômica provocaram uma queda de 8 pontos na aprovação da presidenta, que ainda -assim continua mais alta do que a de todos os seus antecessores em início de governo-, desde a volta das eleições diretas.

Grosso modo, a escolha de Dilma parece ter sido mais pautada por razões políticas e interesses de classe do que pelo imaginário de gênero. Se assim foi, o mérito é todo dela. Durante os oito anos de seus dois governos, o presidente Lula perdeu grandes oportunidades de politizar os eleitores ao definir a relação necessariamente conflituosa entre a sociedade e seus governantes a partir de metáforas ligadas à vida familiar. Fiel ao seu estilo de “homem cordial”, na acepção de Ribeiro Couto e Sérgio Buarque de Hollanda, Lula desde o início se apresentou como pai dos brasileiros. Antes da campanha de 2010, já apresentava sua futura candidata como a “mãe do PAC”. Dilma comprou o rótulo por conveniência, mas teve o mérito de não encarnar o estereótipo maternal que faria par com o estilo carismático e paternalista de Lula.

Quanto à identificação de Dilma com as causas feministas, vale lembrar que a presidenta em toda sua longa trajetória política – se contarmos desde os anos de militância no grupo VAR-Palmares, na década de 1970 – nunca foi uma típica militante feminista. Como outras raras mulheres independentes de sua geração, as opções políticas da jovem Dilma Rousseff pautaram-se antes por causas universais – liberdade, igualdade, socialismo – do que pelas lutas de gênero, que, no Brasil, só se impuseram com mais força depois da derrota das organizações armadas. Quando as pioneiras das causas feministas começavam a levantar suas bandeiras, por aqui, a militante “Wanda” estava na cadeia.

Os preconceitos sexistas mais pesados contra ela surgiram durante a campanha, não por parte de eleitores, mas dos adversários políticos. O modo violento como a campanha de José Serra tentou explorar a polêmica sobre o aborto, a meu ver, não teria sido o mesmo com um candidato homem. Ao tentar caracterizar a possível simpatia de Dilma pela legalização do aborto como um grave delito de opinião, Serra apostou na convicção popular de que a mulher que não criminaliza o aborto é um monstro que mata criancinhas. Dilma não enfrentou a polêmica com a seriedade que o caso exigia, mas pelo menos não desceu tão baixo. Em todo caso, nunca saberemos até onde a oposição teria chegado se a notícia de um suposto aborto de Mônica Serra não tivesse vindo à baila.

Outro preconceito que se manifestou durante a campanha foi o de que, sendo mulher, a candidata não teria pulso- -firme para segurar os “radicais do PT”. Que saudades do tempo em que o PT contava com alguns radicais a incomodar a geleia geral do Congresso. No atual- estado da arte, o governo Dilma corre- mais risco de se descaracterizar em -razão do -excesso de aliados ao centro e à direita do que pela pressão de supostos radicais à esquerda.  Além do onipresente PMDB, com sua prática de toma lá dá cá que já se incorporou ao folclore político do jeitinho brasileiro, a barca do governo- terá- de acolher -agora os -intere-sses do novo- PSD, criado pelo prefeito de São Paulo para abocanhar cargos e supremacias junto ao governo federal.

Será mais difícil a uma mulher defender-se da sedução e da chantagem de tais aliados? Não parece. A recente “faxina” (trabalho de mulher?…) executada pela presidenta no Ministério dos Transportes, assim como o atual embate com a “banda podre” do PMDB, a fim de eliminar os cabides de emprego na Agricultura, a despeito das ameaças de perda de apoio por parte da base aliada – problema que só uma reforma política poderia -sanar –, demonstra que Dilma teve a lucidez de perceber que com amigos assim ninguém precisa de inimigos. O destemor da primeira mulher presidente do Brasil, para além de sua forte história de coragem política, pode também ser explicado pela consciência da desvantagem de seu estilo pessoal em comparação com o -carisma popular que permitiu ao presidente Lula ser leniente com a corrupção sem perder prestígio entre eleitores, nem (consequentemente) apoio entre a classe política.

Temas universais. Durante a ditadura, Dilma Rousseff defendeu a liberdade, a igualdade e o socialismo. Foto: AEsade

Na via oposta, penso que os preconceitos favoráveis a uma candidata mulher também não ajudam a politizar o debate. Seria uma presidenta mais apta a “cuidar com zelo materno” de seu povo? Escolho ao acaso exemplos brasileiros que contrariam tal premissa. Entre as poucas governadoras brasileiras, temos Roseana Sarney, filha de cacique político que governa o estado com o pior IDH do País. No Sul, a ex-governadora Yeda Crusius, em 2009, colocou o aparato militar da PM do estado para intimidar os participantes da festa dos 25 anos do MST. Maternais? Protetoras dos fracos e oprimidos? No Senado, basta mencionar o estilo fálico de Kátia Abreu, ativa defensora dos direitos do agronegócio contra os ambientalistas que tentam preservar o que restou das florestas de Mato Grosso e de outras regiões da Amazônia Legal.

A própria Dilma, se fosse mais “maternal”, teria defendido com maior firmeza a qualidade de vida dos operários da Usina de Jirau, submetidos a condições subumanas no canteiro de obras da Camargo Corrêa. Ou tentaria conciliar a brutal agenda desenvolvimentista com medidas efetivas de preservação da natureza, em prol da saúde das próximas gerações. O compromisso com as causas feministas poderia levar Dilma Rousseff a se manifestar de maneira mais clara no debate sobre a descriminalização do aborto, mas parece que o escândalo que se promoveu em torno do assunto, durante a campanha, contribuiu para transformar o aborto numa espécie de tabu político para a atual gestão.

Outras questões relativas à saúde das mulheres, no entanto, ainda podem ser contempladas no governo Dilma. Os casos mais óbvios seriam novas políticas de proteção à maternidade, com ênfase no amparo às mães adolescentes. Além disso, toda e qualquer melhora no atendimento à saúde de maneira geral beneficiaria as mulheres, acostumadas a cuidar não apenas da saúde dos filhos, mas também de pais, sogros e maridos. Ainda há tempo para esperar da primeira mulher presidente do Brasil medidas que diminuam a desigualdade de gênero no País, sobretudo nas classes mais baixas.

Essa esperança se deve ao fato de Dilma, em sua trajetória pessoal e política, ter escolhido as alternativas progressistas que se apresentaram à sua geração. Afinal, a característica mais marcante da presidenta é sua longa trajetória como militante radical de esquerda. Esse segundo aspecto de sua biografia coloca o País diante de um fato espantoso, bem menos alardeado na imprensa: o de que há menos de quatro décadas a atual chefe das Forças Armadas estava pendurada no pau de arara em uma dependência clandestina desse mesmo Exército, seminua, a levar choques elétricos, pancadas e socos até o limite da exaustão, em consequência de sua participação na luta contra a ditadura.  Ali, segundo entrevista concedida em 2009 para o blog do Luis Nassif, a militante “Wanda” aprendeu a “mentir adoidado” para defender os companheiros que ainda estavam em liberdade. Ali, frequentemente perdeu a noção de tempo entre uma sessão e outra, jogada sem roupas no chão de um banheiro frio para refletir melhor se não seria o caso de “tomar juízo” e delatar alguém. O pior da vida no presídio, disse Dilma na entrevista, eram os períodos de espera, sem saber quando e como seria o próximo round com os torturadores.

Por conta desse episódio, Dilma Rousseff conhece o valor inestimável da solidariedade entre companheiras de prisão, homenageadas por ela em um dos momentos mais emocionantes da festa da posse. “Devo grande parte de ter superado (…) e aguentado (a tortura) às minhas companheiras de cela”, declarou Dilma a Nassif na entrevista de 2009, ao mencionar o recurso inteligente e corajoso inventado por elas para “dessolenizar” o medo da tortura através do humor. Cada vez que uma prisioneira era levada para o interrogatório, as outras piscavam um olho cúmplice e ironizavam: “Não se preocupe, companheira. Se você for torturada, a gente denuncia…”

Graças ao que aprendeu com essa experiência, se é que se pode escrever “graças” num caso assim, Dilma teria desenvolvido a capacidade de manter sangue frio diante do torturador, a calcular o que podia ser dito, porque já era sabido, e o que deveria ser calado com falsa tranquilidade, sem nunca afrontar o inimigo para não aumentar sua fúria. Por ironia, não do destino, mas da política, é possível que o exercício democrático do poder venha a exigir que a presidenta recorra, no presente, aos mesmos recursos de resistência que soube desenvolver em sua sinistra temporada nos porões da ditadura. Astúcia e sangue frio podem lhe valer mais do que a força, nas inúmeras vezes em que for encostada contra a parede pelos aliados do governo, caso decida permanecer menos leniente com a corrupção e com o cinismo palaciano do que seu antecessor cordial.

Muito mais significativo diante do profundo conservadorismo brasileiro do que ser governado por uma mulher é ter uma presidenta que conheceu, por dentro e na pele, a violência e o arbítrio da ditadura militar. Nesse quesito, a posição tíbia dos sucessivos governos brasileiros diante da ala conservadora do Exército envergonha o País diante do mundo, em particular a América Latina. De Dilma, que afinal se decidiu a substituir o sinistro Nelson Jobim no Ministério da Defesa, espera-se uma posição decisiva a favor da abertura da investigação sobre os desaparecidos políticos do governo militar, assim como a decisão de tornar públicos os nomes dos assassinos e torturadores, praticantes de crimes de Estado não contemplados pela Lei da Anistia.

Ao fazer valer o direito das famílias dos militantes assassinados e desaparecidos, a presidenta alcançaria também o efeito de prevenir a perpetuação dos assassinatos de jovens das periferias brasileiras por policiais militares, a quem, até hoje, nenhum governante disse com firmeza que tais práticas não seriam mais admitidas por aqui. O Brasil foi o único país da América Latina que encerrou uma ditadura sem julgar publicamente nem punir seus torturadores. Indiretamente, os termos em que se negociou a Lei da Anistia por aqui funcionaram como um aval para a perpetuação da violência do Estado.

No livro O Que Resta da Ditadura: A exceção brasileira (Edson Teles e Vladimir Safatle orgs., Ed. Boitempo), a procuradora Flávia Piovesan cita pesquisa feita pela norte-americana Kathryn Sikkink em que se revela que o julgamento dos crimes contra direitos humanos serve para fortalecer, e não para enfraquecer, o Estado de Direito. A pesquisa de Sikking revela que, depois do fim do período militar no Brasil, a violência policial tornou-se maior do que a da Argentina durante a ditadura. De uma presidenta que foi presa política por ter lutado em favor das liberdades democráticas se espera que atue decisivamente para condenar, no passado, e eliminar, no presente, a violência dos agentes do Estado que a sociedade, envergonhada, acostumou-se a considerar como um traço indelével da “cultura” brasileira.

*Maria Rita Kehl é psicanalista

Fontehttp://www.cartacapital.com.br/destaques_carta_capital/mulher-ou-militante

O quadro político brasileiro, por Marcos Nobre

Ricardo Mendonça

Há algumas semanas, o cientista político e filósofo Marcos Nobre cunhou a expressão “tática de queda de braço” para definir o papel que vem sendo exercido pela presidente Dilma Rousseff no campo político. A forma como Dilma reage às denúncias de corrupção, as quase 30 demissões no Ministério dos Transportes ou o enfrentamento político na discussão do Código Florestal seriam, segundo ele, algumas amostras dessa tática. Para Nobre, Dilma estaria moldando sua imagem a partir disso: alguém que, de dentro, enfrenta o sistema político e mantém suas posições, mesmo quando percebe que irá perder.

A tática, que teria sido intensificada após o Planalto perceber sinais positivos nas pesquisas de popularidade, também tem seus limites, segundo Nobre. O prazo, estima, são as eleições de 2012, quando o PT e os outros partidos da base terão de se entender na confecção de alianças pelo país: “Quando chegar lá, pode ser que o Lula queira que a Dilma chancele uma aliança e aí ela pode não topar. Como vai ser isso? Ela será harmoniosa em 2012?”

Sintetizar o momento político de qualquer país é um desafio sempre ambicioso e arriscado. Nesta entrevista, Nobre procura fazer isso. E ninguém pode acusá-lo de ficar em cima do muro. Entre outras coisas, ele classifica o vice-presidente da República, Michel Temer (PMDB), como “líder da oposição”; prevê que o mesmo Temer irá “deitar e rolar” em 2012, crescendo sobretudo em cima do PSDB; afirma que o senador Aécio Neves (PSDB) é “símbolo da peemedebização” do sistema político brasileiro; avalia que o ex-governador de São Paulo José Serra (PSDB) está desesperado; e ainda celebra a militância ativa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, “uma novidade ótima para o Brasil”.

ÉPOCA – O que é isso que o senhor chama de “tática de queda de braço” da presidente Dilma Rousseff?
Marcos Nobre – Uma das dificuldades da Dilma é estabelecer qual é a sua imagem. Então ela encontrou o lugar dela nesse confronto constante. É como se ela fosse uma representante da moralização, do republicanismo, que combate o sistema. É como se ela não fosse política. É como se não fosse do meio. No entanto, ela é sustentada justamente por essa mesma base de apoio. É interessante, pois é tudo muito diferente do Lula.

ÉPOCA – Uma hora pode perder, não?
Nobre – Quando ela vê que vai perder, ela aceita. E é engraçado isso. A tática consiste em saber escolher as brigas que vai perder, mas tirar proveito de todas. Aí, mesmo quando ela perde, é uma vitória moral: “Perdi, mas estava certa, do lado certo”. Foi o caso do Código Florestal. Também é preciso distinguir quedas de braço que dizem respeito ao que é fundamental para o governo Dilma e ao que é, digamos, não tão fundamental. No salário mínimo ela não admitia perder, pois colocaria em risco esse pacto criado pelo Lula, que é o crescimento em torno de 4% e inflação controlada. Já no Código Florestal, ela poderia perder porque não era essencial para a garantia do pacto.

ÉPOCA – O fato de ela ser neófita em cargo eletivo a ajuda na construção dessa imagem?
Nobre – Exatamente. O crédito que ela tem é por ser neófita. Ajuda porque ela não tem um passado fora do governo Lula ou um passado no parlamento que possa atrapalhar essa posição da moralizadora do circo. Ela está usando muito essa posição dela. É muito bem feito.

ÉPOCA – O senhor acha que a presidente e seus assessores formulam isso e então executam? Ou é algo que vão respondendo conforme a demanda, no improviso, até chegar a esse modelo de atuação?
Nobre – Acho que é no improviso. Há um objetivo que vai sendo perseguido e vai se ajustando conforme as respostas da sociedade e do sistema político. Por exemplo: agora a Dilma tem um problema sério, que é convencer os partidos que ela não irá fazer uma faxina generalizada. Porque todos os partidos da base estão em pânico. Pânico. Então a questão é: você tem de um lado a sociedade apoiando essas medidas (demissões, apurações), pedindo mais, e tem o sistema político dizendo “hei, calma!”. Isso não está decidido ainda para onde vai. É uma das coisas que vai ser definida agora, no segundo semestre.

ÉPOCA – O senhor escreveu recentemente que o ex-presidente Lula poderia estar preocupado com essa tática da Dilma. A presidente não corre o risco de ficar isolada se insistir muito nisso?
Nobre – Esse risco existe, claro. Acho que o que o Lula está dizendo é o seguinte: “A Dilma tem uma tática que é diferente da minha. Eu não iria nunca pra queda de braço.” Ele sempre contornava o veto, fazia o acordo. E ele deve estar dizendo para ela: “Olha, é perigosa essa tática, tem certos limites”. O Gilberto Carvalho, que é o grande porta-voz do Lula, diz assim: “Não haverá caça às bruxas”. Depois ele mesmo diz: “Vamos caçar todos os corruptos”. É um problema. É o que vai marcar o segundo semestre? Abriu a caixa de pandora. Vai fechar? Vai fechar um pouquinho, deixar meio aberta? É controlável? Qual será a pressão da sociedade? E do sistema político?

ÉPOCA – O senhor acha que vai ter troco dos partidos?
Nobre – É possível. Isso não está revolvido. Acho que o sistema político já entendeu como a Dilma funciona. Porque no começo estava todo mundo perdido. Inclusive na questão da política econômica. Acho que agora as coisas estão mais claras: ela vai ficar em queda de braço em por pelo menos mais um ano.

ÉPOCA – O senhor diria então que, por enquanto, ela está levando a melhor?
Nobre – Por enquanto ela está faturando.

ÉPOCA – O senhor classificou Gilberto Carvalho como o porta-voz do Lula no governo. Alguns dizem que, sem Palocci, só sobrou ele como “representante de Lula”. Essas afirmações partem do pressuposto que Lula não poderia confiar na Dilma. Sugerem que Dilma sonegaria algo importante para Lula. Não é precipitado supor essa distância entre Dilma e Lula?
Nobre – Quando falo isso, não estou pressupondo em nenhuma hipótese essa ideia de que haveria sonegação de informação. Quero dizer o contrário: o que o Lula fez foi dizer para Dilma que iria ajudá-la no começo. É claro para ele que seria um período de transição e precisaria de uma certa adaptação do sistema político e do governo às novas diretrizes. Em nenhum momento acho que o Lula pensou que pudesse mandar no governo da Dilma. Ele conhece a Dilma, sabe que isso nem seria possível. O (ex-ministro Antônio) Palocci era uma figura curiosa. Ele era representante do Lula no sentido que ele era o intérprete da Dilma para o sistema político. A Dilma vinha para a queda de braço e ele traduzia para uma maneira mais delicada, vamos dizer. Quando ele sai, fica só a queda de braço. Para o Lula é um susto, pois ele não sabe se mexer dessa maneira. Não é o estilo dele. Ele sabe que é o estilo da Dilma. Mas ele queria que a transição fosse mais suave. Outra coisa sobre o Lula: foi desastrosa a tentativa dele de ajudar na crise do Palocci. Isso porque, na verdade, ele estava tentando sustentar o Palocci, não ajudar a Dilma. Tanto que ele se recolheu.

ÉPOCA – Qual é o papel do Lula hoje, então?
Nobre – Existia uma certa divisão de tarefas na campanha. Lula foi cuidar de alianças eleitorais, principalmente para derrotar o que restava da oposição. Então agora o Lula vai se dedicar a manter as alianças e tentar tirar as bases da oposição onde elas ainda existem. Tanto para 2012 quanto para 2014. O problema é que quando chegar na hora H, eles (os partidos) vão querer saber o que a presidenta pensa. E aí sim eu acho que vai ter atrito. Não entre Lula e Dilma, mas entre as forças que irão se alinhar em cada um desses momentos. Repare que hoje o Lula já está indo contra a maioria do PT em vários casos, em alianças. Mas note que a Dilma está fora disso. É interessante: eles fizeram um acordo, uma divisão de tarefas. A dúvida é 2012. Quando chegar lá, pode ser que o Lula queira que a Dilma chancele uma aliança e aí ela pode não topar. Como vai ser isso? Ela será harmoniosa em 2012?

ÉPOCA – Há um certo encantamento da classe média tradicional com Dilma. Isso pode colocar em risco a simpatia que foi construída entre as classes C, D e E com o PT?
Nobre – Não. É uma agregação. É a mais. E se deve a essa política dela de queda de braço.

ÉPOCA – E o que resta para a oposição?
Nobre – Nada. A oposição só pode fazer o seguinte: ficar sentada esperando que alguma coisa dê errado para ver o poder cair em seu colo. Da maneira como está organizado o sistema, isso que eu chamo de peemedebismo de todo o sistema político, não há oposição. A oposição no Brasil existiu enquanto o PT estava na oposição. Depois que o PT virou governo, acabou a oposição. Repare: as duas primeiras pessoas que saíram em defesa do ministro Antonio Palocci foram Aécio Neves e José Serra. É inacreditável. Isso é expressão do peemedebismo da política brasileira. Você não tem situação e oposição. Só tem um sistema político e um Estado feudalizado. Tem feudos: Grupos de interesse que pegam uma determinada posição e se organizam de tal maneira que, quando você vai fazer alguma política que lhes digam respeito, tem de consultá-los, pois eles têm poder de veto. Então a política no Brasil é ficar contornando vetos. Lula só contornava esses vetos.

ÉPOCA – Explique melhor essa posição de Aécio e de Serra.
Nobre – O que eu quero dizer é que não tem diferença entre eles e o sistema. A Dilma mostra que tem uma diferença entre ela e o sistema. Eles não. Eles fazem parte desse sistema. A única coisa que podem dizer é: “Olha, nós seremos síndicos melhores que esses que estão aí”. Mas síndicos da mesma coisa. Não é para mudar nada.

ÉPOCA – Serra está mais agressivo, não?
Nobre – O Serra não fez uma campanha de oposição. O que ele disse foi: “Vou continuar tudo o que o Lula fez, o Lula estava correto, só que vou fazer melhor que a Dilma”. Aí depois ele começou a pegar nas questões de valor, religião, aborto. Em nenhum momento fez uma campanha de oposição digna do nome. Ele virou de oposição depois que perdeu. Mas agora é porque está isolado. É tática para tentar reconquistar uma liderança dentro do PSDB. Só que agora ele não conta mais. Essa radicalização dele é desespero.

ÉPOCA – O senhor escreveu que o Brasil passou por duas revoluções no período recente, uma econômica e outra social, mas faltaria agora uma revolução política. O que seria isso?
Nobre – Quando falam em reforma política, as propostas são sempre de mudanças das regras eleitorais. Isso não vai mudar muita coisa. Não é esse o ponto. O que tem de mudar é a estrutura da relação entre o Estado brasileiro e o sistema político. Essa cultura feudalizada, esses interesses encastelados, que você não consegue nem tirar, nem enfrentar, tem de ficar contornando o tempo todo. De tal maneira que o limite disso, quando todos estão com seus interesses encastelados, você chega à paralisia.

ÉPOCA – Mas, objetivamente, o que poderia ser feito?
Nobre – Por exemplo: como você classifica uma medida que reduza os cargos comissionados ao mínimo necessário? Fazer isso é uma pequena revolução. Alguém fará, tenho certeza. Vai ter de ter apoio da sociedade. Se não tiver, não acontece. Mas você também precisa ter descentralização, maior poder para os Estados e municípios… É o conjunto de reformas como essas que eu chamo de pequena revolução política. Senão não altera a estrutura disso que eu chamo de peemedebismo. O problema de fato é você conseguir atacar o cerne dessa ideia de que política é feita a partir de grupos de interesse que se organizam, que se encastelam no Estado, não saem dali, e têm poder de veto. Isso não dá mais. Aliás, isso impede que haja polarizações reais.

ÉPOCA – O PMDB parece desorganizado internamente, agrupa políticos com diferentes interesses, não costuma nem lançar candidato próprio à Presidência. Não é um mistério? Como consegue sobreviver e ser sempre grande?
Nobre – Eu não acho. Há um grande acordo que compõe o peemedebismo. Funciona assim: é um partido-ônibus. O que significa? Todo mundo que paga passagem pode entrar. Aliás, um parêntese: o Kassab fez uma inovação agora na política brasileira ao inventar o partido-ponto-de-ônibus: “Qualquer um que passar a gente pega” (risos). Mas voltando ao PMDB. Qual é a lógica? Se você conseguir entrar e se organizar como grupo de pressão, você ganha duas coisas: será consultado sobre tudo o que diz respeito a seu interesse e terá poder de veto no tema. É assim que funciona. Então não é nada desorganizado. Aí tem as repartições regionais, a nacional, sempre com esse pacto básico. Isso, no limite, leva a paralisia. Quando juntou os dois, o que aconteceu?

ÉPOCA – Os dois quem?
Nobre – O PMDB e o Brasil.

ÉPOCA – O que aconteceu?
Nobre – Deu paralisia. Foi o governo Sarney. É por isso que o PMDB nunca tem candidato próprio à Presidência, esse grande mistério da política brasileira. É isso. O PMDB não pode ser síndico. Se o PMDB for síndico, paralisa tudo. E digo mais: todos os outros partidos se organizam exatamente da mesma maneira. É um modelo. Pegue o PSB, é assim. Kassab? A mesma coisa. A lógica é essa.

ÉPOCA – O PSDB é a mesma coisa?
Nobre – O PSDB é quase a mesma coisa. O único partido, de fato, que não é peemedebizado é o PT. Bom, e o PCdoB, que é pequeno. O PSDB, com Aécio, é peemedebizado.

ÉPOCA – Por que com Aécio?
Nobre – O Aécio é o representante disso. Perceba: o PMDB nunca tem um discurso claro sobre coisa alguma. São sempre genéricos, sempre a favor do amor, do progresso. E o Aécio é esse cara. É o sujeito que não tem nada a dizer, não tem proposta, nenhum discurso, nada. É aquele cara que abraça todos os prefeitos. É aquele que acomoda todos os interesses. Olha o que ele fez em Minas Gerais. Não vou chegar no limite do Espírito Santo, que é o caso ideal, né?

ÉPOCA – Caso ideal de peemedebização?
Nobre – É. Estou falando do (governador Renato) Casagrande (PSB). Você sabe quantos deputados tem na Assembléia Legislativa do Espírito Santo? Trinta. Quantos apóiam o governo? Trinta. Esse é o caso do peemedebismo no seu estado perfeito. O Aécio é a mesma coisa.

ÉPOCA – E o Aécio é o melhor que a oposição tem a oferecer no momento?
Nobre – O melhor, não. O único. Hoje o Aécio é o candidato do PSDB. É o que consegue reunir aquilo que se chama de oposição.

ÉPOCA – O PSDB perdeu o Gabriel Chalita, que depois foi o segundo mais votado de São Paulo e agora desponta como candidato importante na capital. Perdeu o Eduardo Paes, que depois virou prefeito Rio. Agora, mais recentemente, perdeu o Gustavo Fruet, no Paraná. Tem um problema sério aí, não?
Nobre – Você tem razão. O problema é o seguinte: ninguém consegue sobreviver fora do governo. O PSDB tenta sobreviver nos bastiões que conquistou nos Estados. Do ponto de vista do sistema, é muito difícil ser oposição. O que você listou são migrações para partidos que são da base do governo. O segundo aspecto é: quando você está isolado, a tendência de fragmentação é maior. Então começa a ter briga interna. O Serra quer ser o representante da oposição que ele nunca foi em oito anos, o PSDB tem quatro pré-candidatos á prefeitura (de São Paulo), o Alckmin não consegue mais controlar, o Aécio entra mas não quer brigar com ninguém. Então é muito difícil. O sistema, como está organizado, mata a oposição em todos os sentidos.

ÉPOCA – E como o PT sobreviveu na oposição? E ainda triunfou?
Nobre – Ah, o PT tinha uma ligação com os movimentos sociais, uma ligação com a base da sociedade que era muito viva. Sobreviveu por isso. Colocava gente na rua, tinha central sindical, tinha movimento social. Nenhum outro partido tem essa base. O PT é um raio em céu azul nesses últimos 30 anos da política brasileira. É um caso único.

ÉPOCA – Então, pelo que o senhor diz, não há oposição real alguma no país?
Nobre – Tem. Quando o sistema está peemedebizado, como está, a oposição migra para dentro do governo. Então qual é o líder da oposição hoje? É o Michel Temer, claro. Temer, hoje, é o líder da oposição. O que ele faz? Ele vem para São Paulo e faz um ato junto com o governador Geraldo Alckmin (PSDB), na inauguração da ponte Orestes Quércia. Depois acena para o DEM. O que ele quer dizer com isso? Está dizendo: “eu posso fazer aliança com a oposição em qualquer outro lugar”. O que ele está querendo fazer é subir o preço do PMDB. E essa candidatura do Gabriel Chalita, em São Paulo? O que ele quer? Está tentando levantar o cacife. Eu acho que quer o posto de vice na chapa do PT. Se não derem, ele sai com o Chalita ou com qualquer outro partido.

ÉPOCA – Essa unidade do PMDB não é a grande novidade da política brasileira? Antes tinha uma disputa entre o PMDB da Câmara e o PMDB do Senado. O Temer aparentemente pacificou isso. No Congresso, agora, o partido vota unido. Em São Paulo tinha a divisão do Temer com o Quércia, um atuando só na esfera nacional, outro só na estadual. Não tem mais. Agora, essa iniciativa forte de colocar o Chalita.
Nobre – O Temer não tinha o PMDB de São Paulo. O que ele fez no passado foi: “No Estado de São Paulo eu estou morto. Mas faço um acordo com o Quércia para sobreviver e vou para o plano federal”. Agora que o Quércia morreu, ele toma o espólio todo. Sobre a pacificação, havia um desequilíbrio entre situação e oposição no Senado. No Senado, o governo ia pior. Então a dependência (do governo) do Senado era maior que na Câmara. O PMDB lá era mais importante. Agora está começando a se equilibrar de novo. Então essa pacificação entre PMDB da Câmara e PMDB do Senado não é por ele, Temer. É pelas circunstâncias.

ÉPOCA – O PMDB chegou a ter metade dos deputados federais paulistas no fim dos anos 80. Agora, em 2010, só elegeu um. Definhou. Quem se beneficiou dessa queda foi o PSDB. E agora, com o PMDB unido e o PSBD em briga, o que pode ocorrer? O PMDB vai crescer em cima do PSDB?
Nobre – Não tenho dúvida. Se você olhar as cadeiras, o PMDB se mantém mais ou menos estável no Congresso ao longo dos anos. Mas muda conforme o Estado. O que aconteceu é que o Quércia era oposição ao Lula. Isso enfraquecia o PMDB de São Paulo. Nos Estados em que o PMDB era oposição, caiu. Olha o que ocorreu em Pernambuco. Onde era oposição, o PMDB caiu. Agora, com o Temer na situação, fazendo alianças, a tendência é o PMDB crescer em São Paulo. Nessas eleições de 2012, o Temer vai deitar e rolar.

ÉPOCA – Nos Estados Unidos tivemos recentemente uma polarização real entre o presidente Barack Obama e os republicanos. E isso deixou muita gente apavorada. Tem até uma provocação engraçada sobre o episódio: dizem que se os Estados Unidos tivesse um grande PMDB, nada daquilo teria ocorrido.
Nobre – Ninguém xingou mais os republicanos que eu. Mas eu olho para aquilo e digo: eles estão fazendo política. Essa história de ficar demonizando a democracia porque eles estão fazendo o que acham que deve fazer é um equívoco. Já aconteceu antes, em 2008, quando o Congresso americano não passou o pacote do governo (George W.) Bush. E também falavam: “o que vai acontecer?”, “o país vai pro buraco”… É importante saber o seguinte: não existe um acordo previamente estabelecido entre democracia e capitalismo. De fato, nos últimos 30 anos, todos os partidos caminharam para o centro. Do ponto de vista do mercado financeiro, foi excelente. Agora, do ponto de vista do sistema democrático, não. Então alguém diz assim: “nós não queremos uma polarização igual à dos Estados Unidos”. Por que não? O que é que tem de ruim? Claro: se os republicanos levassem isso até o ponto em que os Estados Unidos chegassem de fato ao calote, você poderia dizer que chegou num limite. Mas não. Foi tudo calculado. Foram irresponsáveis no limite, pois queriam dobrar o Obama. E dobraram. Tenho que dizer: isso é um sistema democrático.

ÉPOCA – Não foi um pouco daquilo que o PT fazia quando era oposição?
Nobre – Exato. Era oposição de verdade. É assim que é oposição. Dizem que tem de ser oposição responsável. Por que responsável? Nada. Oposição tem de fazer aquilo que acha que deve ser a política. Se for irresponsável, o que vai acontecer é o que o eleitorado vai abandoná-la. Mas nada disso ocorre no Brasil. O sistema político brasileiro é peemedebizado. Não tem oposição.

ÉPOCA – Queria que o senhor fizesse uma reflexão sobre o papel do ex-presidente Lula, que está ativo. Como o senhor tem visto? É a primeira vez na história recente que há um ex-presidente com enorme popularidade livre por aí, não?
Nobre – Uma coisa muito boa é o Brasil começar a ter ex-presidentes muito ativos, como você diz. A figura de ex-presidente é o melhor quadro político que o país produz. Ele não tem de se retirar da vida política coisa nenhuma. Tem mais é que fazer política. De preferência sem atrapalhar quem está no governo. Fazer política tem muitos sentidos. Fernando Henrique continua fazendo ativamente, abraçou a questão da descriminalização (da maconha). O Lula está fazendo política partidária até muito forte, com articulação para 2012.

ÉPOCA – Alguns comentaristas parecem incomodados com as movimentações de Lula.
Nobre – Não me incomoda. Nada. A opinião dele conta para fazer diferença no debate público. É uma novidade ótima para o Brasil. Que os ex-presidentes façam política cada vez mais livres, como você falou. São quadros ótimos. Por que vamos perder esses quadros?

Governo Dilma e a esfinge do consumo e dos direitos

Renato Rovai/Revista Fórum

O governo de Lula não é um “case” mundial à toa. Nos seus oito anos a frente da presidência se avançou em muitas áreas, fundamentalmente na social. Aproximadamente 35 milhões de brasileiros migraram das classes D e E para a C. Ou seja, melhoraram de vida.

Isso foi feito expandindo direitos via Estado, mas sem desconcentrar riquezas no topo da pirâmide. As pessoas passaram a consumir um pouco mais e ganharam cidadania. É fato.

Mas os milionários e bilionários também ganharam muita grana.

E quem costuma repetir isso não é este ingênuo blogueiro, mas o próprio ex-presidente.

Esse processo ainda pode continuar por mais um período, mas parece estar naquele momento da curva, onde já começa a entrar em vias de esgotamento.

Dilma só vai fazer um bom governo se iniciar um processo de realinhamento de forças no Congresso e na sociedade que lhe permita avançar para realizar algumas mudanças mais profundas que as já lideradas por Lula. Que não foram poucas, mas insuficientes para tornar o Brasil um país de direitos.

E não há o que temer. Cristina Kirchner não temeu e amealhou 58% dos votos nas prévias realizadas na Argentina no fim de semana passado.

No último post falei da reforma política. Não tenho dúvida de que essa era a primeira das reformas deste governo. E que era possível ter trabalhado para realizá-la no primeiro semestre deste ano, fazendo com que o debate andasse de forma célere no Congresso. O governo se perdeu em dar respostas para a mídia comercial e talvez tenha perdido o time.

Agora vai ter de aceitar um reforma meia-boca ou ruim mesmo. Com o PMDB liderando o processo e aprovando o tal do distritão, onde os mais votados de cada estado se elegem independente da votação do partido.

Mas por que o atual processo de melhorar a vida do povo via ações do Estado talvez esteja chegando naquela curva que indica o esgotamento da iniciativa. Por dois motivos. O primeiro é que aqueles que melhoraram um pouco de vida, querem, com razão, mais. O segundo, é que o pessoal que está ainda no sótão da pirâmide não está com muita vontade de ficar esperando o seu dia chegar.

E não vai ser possível melhorar a vida de todos ao mesmo tempo sem mexer estruturalmente na distribuição de renda.

Ou seja, vai ser preciso criar o imposto sobre fortunas e aumentar o imposto rural, principalmente das áreas improdutivas. E também vai ter de ser criar uma nova distribuição das faixas do Imposto de Renda, mexendo em algo estrutural, ou seja, cobrar menos impostos do consumo e mais da renda.

Já há gente no governo discutindo isso e na semana passada estive em Brasília num seminário do Conselho Econômico e Social onde o tema da justiça fiscal foi debatido.

E isso seria feito para garantir o quê?

Que o Brasil construísse uma sociedade de direitos, diferente da de uma sociedade de consumo.

Dilma tem de buscar tirar da classe a C a concepção reforçada midiaticamente de que a melhora de vida está associada a comprar roupas de marca e conseguir pagar um bom plano de saúde e uma boa escola para o filho.

Isso só será obtido se o governo começar a fazer um discurso a favor do público e se associar a movimentos que lutam por conquistas em diversas áreas.

O governo e seus integrantes mais comprometidos com propostas anti-neoliberais precisam começar a defender as bandeiras do público e ao mesmo tempo precisam mostrar que isso só será possível se ao invés de ficar financiando, por exemplo, planos privados e escolas privadas com subsídios, o Estado brasileiro vier a investir, entre outras coisas, esses recursos diretamente na ponta.

Essa guinada, num primeiro momento simbólica, tem o potencial de construir uma nova agenda. Que para se concretizar terá de desembocar num enfrentamento por mudanças na arrecadação e na distribuição dos recursos nacionais. Num movimento que viesse de baixo para cima, mas também de cima para baixo. Ou seja, com os movimentos sociais pressionando, mas o governo construindo espaço para atender essas novas demandas.

Parece loucura o movimento da galera do catraca livre ou do passe livre, que prega o transporte público e gratuito na cidade. Mas por que não parece loucura dar subsídios em forma de isenção tributária para a indústria automobilística?

A questão que está colocada é como o governo pode avançar olhando para as novas demandas do movimento social. E, especialmente, olhando para os novos movimentos sociais.

Há muitos recados de várias partes do mundo. O crescimento esperado para o Chile neste ano é de 7%, mas há milhares de jovens nas ruas reivindicando educação pública e levando a popularidade de Piñera a números pífios.

A Inglaterra parecia estar levando a crise na maciota, se comparada à Itália, Espanha, Portugal, Irlanda e Grécia. Mas de repente os jovens explodiram, literalmente, Londres.

Há uma luta por direitos, mas que pode descambar para uma revolta por consumo.

Se o governo não estiver atento, vai levar bola nas costas.

E aí pode ser tarde.

Fonte:http://www.revistaforum.com.br/blog/2011/08/16/governo-dilma-e-a-esfinge-do-consumo-e-dos-direitos/

A “guerra ao terror”, 10 anos depois

Emir Sader/Carta Maior

“Os EUA, como o mundo sabe, nunca começam uma guerra”, dizia John Kennedy em 1963. Vinte anos depois, Ronald Reagan reiterava: “A politica de defesa dos EUA está baseada numa única premissa: os EUA nunca começam um enfrentamento. Nós nunca seremos um agressor.”

A reação aos atentados de setembro de 2001 fizeram com que os EUA mudassem formalmente sua doutrina. Richard Armitage, Secretário de Estado naquele momento, anunciou o que mudava: “A História começa hoje. Decretava-se o fim da doutrina da contenção, enunciada quando os EUA anunciavam o começo da “guerra fria”, recém terminados os armistícios da Segunda Guerra. O Secretario de Defesa, Donald Rumsfeld dizia: “a melhor, e em alguns casos, a única defesa, é uma boa ofensiva”. Indo mais longe na sua nova doutrina de guerra, os EUA passaram a reivindicar o direito ao ataque preventivo, alegando o caráter da guerra informal, contra um inimigo sem território definido.

No marco de um mundo unipolar, com o triunfo absoluto na “guerra fria” e a desaparição da outra super-potência, a Pax Americana já reinava uma década antes. A primeira guerra do Iraque, a guerra da Iugoslávia e outras ações militares – como a fracassada na Somália – prenunciavam que a inquestionável superioridade militar norteamericana reordenaria o mundo conforme seus desígnios.

Dez anos depois, os EUA demonstram que não estão em condições de desenvolver duas guerras simultaneamente, mesmo com uma brutal superioridade militar, contra países virtualmente ocupados. Tanto no Iraque quanto no Afeganistão, a retirada das tropas não dá garantias de controle militar da situação, mesmo ainda com a presença dos EUA, fazendo prever novos adiamentos da retirada do Iraque.

O mundo sob hegemonia imperial norteamericana não é um mundo mais seguro do que antes. A superioridade militar não é garantia de ordem política, como já indicava o velho preceito: Se pode fazer tudo com as baionetas, menos sentar em cima. Essa ilusão tiveram os Estados Unidos. Acreditavam que poderiam envolver o mundo inteiro na sua lógica de represálias contra “o terror” e que a ideologia de militarização dos conflitos seria hegemônica, a ponto de permitir um tranquilo bloco político de apoio.

Se isso se deu no impacto imediato das ações, ainda em 2001, com a invasão do Afeganistão – mesmo sem provas alguma de que dali tinham sido articuladas as ações nos EUA -, a coalizão não resistiu à invasão do Iraque, sem provas e sem a aprovação do Conselho de Segurança. Mas o enfraquecimento das alianças foi efetivamente se dando conforme a guerra se prolongava e os desgastes – financeiros e de baixas – foram se avolumando, incluindo Abu Graieb e Guantanamo.

A estratégia da “guerra ao terror” teve seus ganhos, serviu de álibi para que os EUA consolidassem sua liderança no mundo, ao privilegiar a esfera em que é mais forte – a militar. Mas chegam aos 10 anos desgastados militarmente, enfraquecidos na sua capacidade de liderança política e fragilizados economicamente.

Um balanço duro para quem se erigia como senhor do mundo há uma década. A hegemonia norteamericana entrou em crise, sem que apareça outra força que possa substituí-la. O que se pode vislumbrar no horizonte é um mundo multipolar, que possibilite resolver os conflitos não pelo predomínio militar, mas pelas negociações politicas, em que a “guerra ao terror” possa ser substituída pelo terror à guerra.

Fonte:http://www.cartamaior.com.br/templates/postMostrar.cfm?blog_id=1&post_id=737

Diante da (des)ordem mundial, por Celso Amorim

“Tudo que é sólido desmancha no ar”, a célebre frase do Manifesto Comunista de Marx, utilizada como título de um dos raros best sellers de filosofia, de autoria do norte-americano- Marshall Berman, bem poderia descrever a realidade do mundo em que vivemos. Logo depois do espetáculo circense – com malabarismos algo pobres, é verdade – oferecido pelo Congresso norte-americano, uma agência chinesa de avaliação de risco e depois uma norte-americana decretaram o rebaixamento dos títulos dos Estados Unidos. O fato, noticiado quase com naturalidade por boa parte da mídia, se ocorrido 20 anos atrás, no auge da euforia com o “Fim da História”, teria soado como um exercício de ficção científica, um daqueles filmes de apocalipse político dos anos 1950.

Quem poderia prever, logo após a queda do Muro de Berlim, quando o Ocidente celebrava o fim do comunismo e a vitória final do capitalismo e da democracia liberal? E que, em duas décadas, o mundo estaria envolto em incertezas, que os pressupostos que haviam embasado todas as crenças e convicções teriam caído por terra, que o recém-expandido (para acomodar a Rússia) G-8 teria sido substituído por um (então) inimaginável G-20 como o principal fórum para coordenação de política econômica global?

E, para passar do terreno da economia política para o da paz e da segurança, quem imaginaria, não há 20 anos, mas há dois ou três, que Washington assistiria, impassível, ao julgamento, com possível condenação à morte, do seu grande aliado no mundo árabe, o exemplo de “líder moderado” egípcio, Hosni Mubarak? Enquanto a Líbia em chamas (não só pelas atrocidades de Muamar Kadaffi, mas também pelos bombardeios da Otan) aguarda que um lampejo de coragem e sensatez ajude a encontrar uma saída negociada para a guerra civil em que está submersa.

Ao mesmo tempo, conceitos que nos acostumamos a considerar como inabaláveis – mas nem por isso menos sujeitos à manipulação – como o de “ocidente”, passam a inspirar ações terroristas, levianamente atribuídas (e de certa forma descartadas) à loucura de um indivíduo.  Seria preciso recordar o nosso Euclides da Cunha, que, ao comentar as medições feitas no crânio de Antônio Conselheiro, após o massacre de Canudos, recordava que ainda não havia um método para medir as “loucuras das civilizações”. É que, na nossa visão particularista do mundo, somente a religião do “outro” poderia conduzir a atos de barbárie.

E mesmo que se diga, talvez com razão, que se trata de um ato isolado, que não faz parte de uma conspiração ou de um movimento organizado, como separar tal ação do crescimento da extrema-direita- europeia-, fomentado por uma cultura de exclusão do “estrangeiro”, visto como bárbaro invasor. E a mesma atitude de desprezo – que facilmente se transforma em ódio – diante do mundo, revela-se na irresponsabilidade com que o Congresso dos Estados Unidos tratou da questão da dívida, pouco se importando que, em consequência da batalha por ganhos eleitorais, a incerteza sobre a economia mundial pudesse se transformar em crise profunda, que levaria à bancarrota o sistema financeiro internacional, mas, sobretudo, espalharia a fome e a pobreza pelo mundo, em uma escala provavelmente muito maior do que ocorreu durante a Grande Depressão, por causa mesmo da interdependência gerada pela globalização.

Tudo isso faz pensar em uma crise de valores, que vai muito além de um fenômeno puramente econômico ou político e que nos obriga a uma reflexão profunda. Minha geração, que cresceu no pós-Guerra, foi formada em torno de certezas que não mais se sustentam. A esquerda via no socialismo a esperança de salvação não só do proletariado, mas de toda a humanidade. Teve de ajustar seu discurso e, mais que isso, sua visão do mundo a uma realidade sem paradigmas concretos a serem seguidos. De alguma maneira, reinventou-se com base em movimentos de trabalhadores e na defesa de outras causas nobres, como a igualdade de raça e de gênero, a defesa de padrões sustentáveis de vida e o exercício de uma práxis solidária, tida por muitos como irrealista.

Essa atitude teve impacto nos sistemas políticos internos e, de alguma forma, chegou ao cenário internacional, em que pese à resistência conservadora. Não é uma adaptação fácil. Como manter o idea-lismo transformador sem ter mais no horizonte o “socialismo científico” ou outra forma semelhante de utopia? E o que fazer, no mundo de hoje, de conceitos como o de “Ocidente”, que, de Voltaire a Marx, de Bertrand Russel a Sartre, serviram de inspiração para os jovens das décadas de 1950 e 1960, que, já na idade madura, veriam esboroar, juntamente com o Muro de Berlim e a certeza na força do capitalismo norte-americano, os “tijolos” da construção de um novo mundo.  Não é uma coincidência talvez que analistas políticos hoje estejam em busca de novos BRICS.

Essas reflexões aparentemente abstratas não são irrelevantes quando se considera o lugar do Brasil no mundo. Acostumamos a nos ver como um país ocidental, parte de uma civilização que alguns dentre nós queriam transformar e outros conservar, mas cujos alicerces não contestávamos. Hoje, quando assistimos às consequências desastrosas do particularismo, seja muçulmano, cristão ou judeu, seja de qualquer outra índole, devemos nos perguntar se a ideia do não alinhamento, surgida durante a Guerra Fria, como resposta à bipolaridade, não deve ser aprofundada e levada às suas consequências lógicas.

Essencialmente, trata-se de encarar o mundo como ele é, sem os confortos de uma inserção automática, de um lado ou de outro do espectro político. Àquela época, feita a escolha inicial (ou, na maioria das vezes, aceita a condição que decorria de nossa situação no centro ou na periferia), éramos “poupados” de escolhas subsequentes. Nesse “admirável mundo novo”, que sucedeu não só a Guerra Fria, mas de certa forma o “pós-Guerra Fria”, não há agendas prefixadas nem opções predefinidas.  Em política externa, como queria Sartre para os indivíduos, estamos “condenados” a ser livres. Há algo de muito positivo nisso, como vimos no caso das negociações da Alca ou mesmo do Acordo -Mercosul-União -Europeia, em que nossa atitude firme impediu, de forma surpreendente para muitos, que embarcássemos  em arranjos comerciais que teriam, no mínimo, agravado os efeitos da crise financeira de 2008. Naqueles dois casos e na ênfase na integração da América do Sul e na busca de diversificação de parcerias, ficou claro que nosso País tinha não só a capacidade de posicionar-se sobre os temas de uma agenda imposta de fora, como também de – algo novo para nós, pelo menos nessa escala – de “criar” nossa própria agenda.

O que tem ocorrido recentemente no mundo corrobora essa reflexão. Do Irã à Síria, da Primavera Árabe à tragédia líbia, passando pelo reconhecimento do Estado Palestino, nosso País tem sido “obrigado” a posicionar-se de forma independente, frequentemente “inventando” soluções e criando novas coligações, como o IBAS e os BRICS.  Até porque não há mais um ou outro “lado” com o qual possamos ou queiramos nos alinhar. Nossa recente atitude no Conselho de Segurança em relação ao caso da Síria, de cautela em apoiar uma resolução que abrisse caminho para o eventual- uso da força, seguida de uma construtiva busca de consenso em torno da condenação do ataque indiscriminado a civis, é um exemplo desse “exercício da liberdade”, como antes, a nossa busca de um acordo que abrisse caminho para a solução do impasse em torno do programa nuclear iraniano, certamente teve um custo em termos de opinião pública, em geral vítima da desinformação imposta pelo simplismo direcionado da grande mídia. Mas ele é uma consequência inescapável da nossa por fim assumida grandeza, de um lado, e da fluidez da realidade internacional, de outro.

O mesmo, mutatis mutandis, se passará na esfera econômica. Não tenho a

Mubarak, o grande aliado do Ocidente, é julgado por seus crimes. Foto: Kaled Desouki/AFP

pretensão de sugerir saídas mágicas, como uma nova moeda ou a utilização mais intensa dos Direitos Especiais de Saque, como meios de troca e reserva de valor. -Falecem-me conhecimentos para isso. Mas se a força da moeda repousa, nesta era pós-padrão ouro, na “confiança” (não é outro, como é óbvio, o sentido da palavra “crédito”), alguma solução deve ser buscada para a irreversível perda de credibilidade dos que decidem sobre o futuro da maior economia do mundo (e, em certo grau, também sobre a economia europeia).

Não devemos rejeitar o que a tradição ocidental nos legou: a força da razão e a busca da justiça com liberdade.  Mas o Brasil é um país plural.  É sul-americano- (e não nos esqueçamos que a América do Sul é tão indígena e afrodescendente quanto europeia). É, também, parte do mundo em desenvolvimento, da mesma forma que nações de outros continentes, como a Índia e a África do Sul, com as quais temos interesses comuns e afinidades, como tem sido demonstrado em -foros econômico-comerciais (como o G-20 e a OMC) e políticos (como o Conselho de Segurança). Não podemos nos limitar a opções únicas. Ou, muito menos, deixarmo-nos cercear pelo pensamento único. Temos de nos relacionar de maneira diversificada, não só na economia, mas também na política. Temos de enfrentar a “angústia” sartriana da escolha e deixar para trás os preconceitos, que, além de eticamente duvidosos, já não são operacionais para atuar no mundo de hoje, em que, mais do que nunca, a evolução dos fatos varre velhas certezas.

*O novo ministro da Defesa com este texto despede-se dos leitores de CartaCapital depois de ter sido titular de uma coluna, Radical Livre, por cinco meses

Fonte:http://www.cartacapital.com.br/destaques_carta_capital/diante-da-desordem-mundial-2