Arquivo mensais:agosto 2011

A conta do Papa

Ricardo Carvalho/Carta Capital

A visita de Bento XVI gera polêmicas sobre quem vai arcar com os gastos da jornada católica. Também surgem debates sobre a interferência da igreja num estado laico. Foto:Rafa Rivas/AFP

Ao meio-dia (hora local) desta quinta-feira 18, precisamente no horário previsto pelo protocolo, Joseph Ratzinger acenou da porta do avião que o levou ao aeroporto madrilenho de Barajas. Ainda na pista, ele foi recebido com honras de estado pelo monarca Juan Carlos I, o chefe do executivo José Luis Rodríguez Zapatero e por cerca de dois mil peregrinos da Jornada Mundial da Juventude (JMC), encontro periódico do pontífice com jovens católicos criado por seu antecessor, o polonês Karol Wojtyla.

No primeiro de seus nove discursos em quatro dias – maratona que promete testar a fé e a paciência dos mais fervorosos peregrinos – o Papa Bento XVI pediu respeito aos católicos: “Não são poucos os jovens que, por causa de sua fé em Cristo, sofrem discriminação. Querem afastá-los Dele, privando-os dos sinais de Sua presença na vida pública”. A fala do pontífice foi um sinal de que sua visita à Espanha será, de fato, o ápice de uma semana marcada por conflitos entre os peregrinos da JMC e manifestantes que denunciam pouca laicidade no tratamento dado a Bento XVI pelo estado espanhol.

Na noite da quarta-feira 17, um protesto organizado por diversas organizações laicas sob o lema de De mis impuestos, al Papa cero (Dos meus impostos, ao Papa zero) percorreu as ruas do centro da capital e encontrou-se na Praça do Sol – a mesma que albergou os protestos dos “indignados” – com diversos integrantes da JMC. Os dois grupos, isolados por um cordão de policiais, trocaram ofensas e houve confrontos entre os críticos à visita do Papa e as forças de segurança. No total, oito pessoas foram detidas e 11 ficaram feridas.

Numa primeira análise, a polêmica da visita do pontífice centra-se no quanto vai custar e quem vai pagar a conta do evento. As fileiras de jovens dos movimentos laicos veem com indignação o estado aportar recursos para receber um líder religioso quando o país amarga uma dura crise econômica, com níveis de desemprego superiores a 20%. A JMC repete exaustivamente que não sairá um centavo dos cofres públicos, uma vez que os mais de 450 mil peregrinos e 30 mil voluntários pagaram inscrições que geraram 31,5 milhões de euros. Ainda, algumas grandes empresas espanholas, como a Telefonica, o banco Santander e a transportadora aérea Iberia, deram 16,5 milhões de euros ao encontro, além de doações individuais que somaram 2,5 milhões de euros.

Na ponta do lápis, entretanto, a realidade é um pouco distinta. A organização Europa Laica diz que o governo gastará 20 milhões de euros com o Papa. Todos os peregrinos têm um desconto de 80% nas tarifas dos transportes públicos, as empresas doadoras obtiveram deduções de impostos e o metrô precisará de ao menos 100 funcionários a mais diariamente para suportar a demanda dos visitantes que chegam à cidade. Além do mais, o jornal El País noticiou que a prefeitura de Madrid instruiu seus centros de saúde públicos a não cobrar pelo atendimento médico aos peregrinos, mesmo quando se trate de pessoas de fora da União Europeia (nestes casos, costuma-se cobrar uma taxa que varia de 39 a 71 euros).

Mais do que a questão financeira, a visita do Papa gera discussões sobre a ingerência da igreja católica no estado espanhol. Nos mandatos de Zapatero, do Partido Socialista Obreiro Espanhol, a Santa Sé assistiu com desgosto a aprovação de leis que reconhecem o casamento homossexual e regulamentam o aborto.

Pouco antes da visita do Papa, dezenas de prelados, liderados pelo cardeal arcebispo de Madri, Antonio María Rouco, vieram a público criticar essas leis, o que irritou o poder executivo. O palácio de La Moncloa preferiria que Bento XVI ativesse seus discursos e atividades unicamente aos aspectos evangelizadores, mesmo porque não é segredo que as ideias defendidas pelo Vaticano são muito mais próximas dos conservadores do Partido Popular, opositores de Zapatero. Pelo tom da primeira manifestação do Papa, não causará surpresa se, para além de críticas de uma Espanha (e Europa) cada vez mais ateia e agnóstica, respigarem condenações diretas as leis pelos direitos dos homossexuais e do aborto.

As rusgas entre o Vaticano e o atual governo espanhol não são de hoje. Quando visitou a Espanha pela segunda vez como Papa, em novembro de 2010, Bento XVI disse no avião que a Espanha vivia um ambiente “anticlerical agressivo”, chegando a comparar a situação com o vivido durante a II República (1931-1936). Faltou a Ratzinger lembrar que a atitude da igreja católica na época, que classificou de “cruzada” a guerra promovida por Franco contra os republicanos, ajudou a criar a ditadura vista como a maior chaga da história recente espanhola.

Fonte:http://www.cartacapital.com.br/destaques_carta_capital/o-banheiro-espanhol-do-papa

Análise de discurso do setor do petróleo

Paulo Metri*

A análise de discurso, relacionada com a lingüística, identifica construções ideológicas presentes em textos e pode, dentre outras utilidades, se transformar em uma arma do cidadão para se defender da manipulação de poderosos. Seria utilizada para analisar textos da mídia e de políticos, buscando encontrar interesses que os conformam e um melhor entendimento das forças políticas que nos cercam.

Na maioria das vezes, um órgão ou um indivíduo faz um discurso inconsistente porque quer enganar o público, buscando usufruir, com isto, de algum benefício. A pessoa enganada não acataria a imposição a que a estão induzindo a aceitar se fosse informada corretamente. Para poder convencer, a mentira e o cerceamento de informações exatas são praticados livremente. Enfim, a análise de discurso verifica o nexo de afirmações e propostas existentes em um texto e busca identificar os reais princípios nos quais ele se baseia.

Dentre os inúmeros materiais de trabalho para a análise de discurso, estão os atos falhos, as faltas de coerência do discurso em diferentes épocas, além das incoerências lógicas deste. Desta forma, alguns políticos podem ser desnudados e em alguns casos são descobertos facilmente por total desinteresse em se esconder. Quanto maior o menosprezo pela opinião pública, maior o desleixo nas ações de subterfúgio.

Como complemento a tudo isso, faz bastante sentido buscar-se, após a identificação da peça de teatro que está sendo representada com objetivos não verdadeiros, as reais razões que estão justificando as dissimulações. É imperioso deixar a população informada de tudo, para ela poder entender o mundo de falsidades e procurar se precaver com relação ao futuro.

O ministro das Minas e Energia (MME), senhor Edison Lobão, disse, logo após a descoberta do pré-sal pela Petrobrás, que a recém-descoberta reserva não poderia ser entregue a esta empresa para produzi-la “porque ela não pertencia mais ao Estado, por ter cerca de 60% de seu capital em mãos privadas”.

Para um leigo, o ministro estava dizendo que, se a riqueza do pré-sal fosse entregue à Petrobrás, uma parte desta riqueza, especificamente 60% dela, iria ser entregue graciosamente para grupos privados. Este é um raciocínio errado, mas que faz sentido para o leigo. Contudo, sabe-se que os controladores de qualquer empresa entregam, para o conjunto dos acionistas, dividendos, bonificações e direitos de subscrição, e nunca entregam uma parcela do patrimônio, proporcional à participação do acionista no capital.

Portanto, o que o ministro disse de forma imprecisa resultou em repulsa por parte da sociedade da tese da entrega direta do pré-sal para a Petrobrás. Desta forma, foi descartada, sem maior análise, a mais atrativa alternativa para a sociedade brasileira, que acarretaria maiores compras e desenvolvimentos tecnológicos locais, faria restar maior parcela do lucro aqui para ativar nossa economia e permitiria ao Estado brasileiro realizar negociações estratégicas na comercialização do petróleo.

Recentemente, o diretor geral da Agência Nacional do Petróleo (ANP), senhor Haroldo Lima, na ansiedade de ver confirmada pela presidente Dilma a 11a rodada de leilões de áreas do território nacional para exploração de petróleo, declarou que não sabia o por que de a presidente estar demorando a aprovar o edital desta rodada. Deu a entender, durante uma entrevista à agência Reuters, que a presidente não precisaria conferir o edital e outros documentos relativos à rodada. Este fato, motivado pela angústia pela qual passa o diretor geral, consistiu em um vazamento de seus pensamentos mais íntimos, que nunca seriam ditos, em momentos sem estresse, quando atua o bloqueio da racionalidade. O desbloqueio foi tanto que ele chegou a ponto de ser ligeiramente indelicado com a presidente.

Deste fato, podem ser retiradas duas conclusões. A primeira é que o diretor geral da ANP tem pressa, sem deixar a mínima dúvida, em realizar a 11a rodada de leilões, além de querer realizar várias outras rodadas. A segunda conclusão é que a presidente Dilma não tem pressa e, talvez, até relute com relação à atratividade de novas rodadas pela lei das concessões (n9.478). A análise de discurso pode ajudar à presidente Dilma, se ela está com dúvida. Para tal, é preciso responder à pergunta que brota na cabeça de todos: quem se beneficia com a pressa desmedida?

Os maiores beneficiários são as empresas de petróleo estrangeiras, pois elas não têm grandes reservas que abasteçam, durante muito tempo, seus parques de refino, que estão em seus países de origem. Elas têm certeza que o preço do barril irá subir muito nos próximos anos e, assim, querem se livrar de ter de comprar petróleo no mercado no futuro, o que comprometeria a lucratividade. Portanto, precisam desesperadamente firmar contratos hoje, com países produtores, por coincidência todos do mundo em desenvolvimento, que lhes dêem a possibilidade de encontrar reservas.

Por outro lado, o único e grande perdedor graças à pressa desmedida é a sociedade brasileira. Primeiramente, não há razão para se ter pressa. Nossa sociedade já tinha a garantia que a necessidade de seus próximos 17 anos seria suprida com as reservas da Petrobrás antes da descoberta do pré-sal. Notar que, na hora de se verificar a garantia de suprimento interno, o petróleo brasileiro entregue a empresas privadas não pode ser considerado como necessariamente direcionado ao país, pois a lei vigente e o contrato não obrigam.

Além disso, a pressa significa, quando a Petrobrás não consegue arrematar a área, as perdas já citadas, quais sejam, menos compras e desenvolvimentos tecnológicos no país, menos permanência de lucro para ativar nossa economia e menos petróleo na posse do Estado para servir como elemento de barganha em negociações internacionais. Contudo, o ato mais criminoso de todos que os dissimuladores estão escondendo do povo é que o acúmulo de rodadas em relativamente pequeno espaço de tempo visa exaurir a capacidade do Brasil de explorar sua riqueza soberanamente. Pretende-se atingir o máximo da capacidade financeira e gerencial da Petrobrás, para, a partir daí, áreas do nosso território ficarem à disposição das empresas estrangeiras.

No trajeto alternativo da economia brasileira, caracterizado por muitas áreas do nosso território estarem com empresas estrangeiras que as arremataram, a sociedade pode esquecer a utilização do setor do petróleo como alavanca para uma boa fase do desenvolvimento nacional. O que acontecerá será a expansão da fase do Brasil exportador de commodities, inclusive com alta exportação de petróleo por empresas estrangeiras e altas importações de equipamentos para este setor, e com o parque industrial e o estágio tecnológico estagnados em níveis baixos.

Por tudo que foi exposto, as rodadas de leilões pela lei n9.478 precisam ser banidas em definitivo, o pré-sal deve ser entregue à Petrobrás, atendendo ao artigo 12 da nova lei (no12.351), em velocidade tal que induza ao máximo os desenvolvimentos fabril e tecnológico, e que se abasteça bastante o Fundo Social.

*Paulo Metri é conselheiro da Federação Brasileira de Associações de Engenheiros

Dilma: não conseguirão implodir a base aliada do governo

Em reunião realizada na noite de terça-feira (16) com os líderes do PSB, do PCdoB e do PDT, partidos da base do governo, a presidente Dilma Rousseff disse que não será pautada pela mídia e que para ela o principal é executar a política voltada para o desenvolvimento e a distribuição de renda.

O encontro realizou-se no quadro das consultas iniciadas desde a última segunda-feira (15), quando a presidente se reuniu com as lideranças do PT e o PMDB. A palavra-chave na reunião com os comunistas, socialistas e trabalhistas foi diálogo, com a base do governo e para fora, com o Congresso, os prefeitos, os governadores e a sociedade. O desafio é unir forças políticas para enfrentar as grandes questões nacionais.

A determinação da presidente é manter a base unida e para isso ela está decidida a manter sistemáticas consultas com os partidos aliados.

A presidente disse que precisará dos aliados para aprovar as medidas macroeconômicas enviadas ao Congresso e que é fundamental que eles estejam unidos nesse momento. Por isso, é cada vez mais necessário unir a base política.

Dilma avalia que há uma luta pela agenda política, na qual a mídia pretende impor uma agenda ao país. Ela reafirmou perante os aliados que não se deixará pautar pela mídia. Dilma está percebendo o jogo da oposição e da mídia golpista. Está consciente de que primeiro tentaram jogar o ex-presidente Lula contra ela e agora fazem de tudo para implodir a sua base de sustentação política. Mas não conseguirão. Reafirmou que não será conivente com denúncias de corrupção, mas que dará amplo direito de defesa aos aliados. Disse também que não se transformará numa Joana D’arc, que corta a cabeça das pessoas, porque sabe que depois podem cortar a dela.

O presidente do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), Renato Rabelo, afirmou que esta luta pela agenda “é uma luta política e ideológica”. Ele defendeu a união da base de sustentação do governo e o exercício da autoridade política pela presidente, que é a líder de toda a nação, cuja palavra deve servir como uma voz de comando e união.

Ao externar seu ponto de vista perante a presidente e os aliados, o líder dos comunistas brasileiros afirmou que o momento de crise econômica global é também aquele em que se abre uma “janela de oportunidades” para o Brasil mudar a política macroeconômica e tomar medidas audaciosas pelo desenvolvimento nacional e o progresso social.

Nesta quarta (17), a presidente deve concluir as reuniões com os aliados do PP, PTB, PRB e PSC.

Fonte:http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=161626&id_secao=1

Depois do fim da civilização cristã no Brasil

por Leandro Fortes, no Brasília eu vi

O movimento era previsível e as razões óbvias, mas não deixa de ser perturbadora a investida dos grandes grupos midiáticos ao governo da presidenta Dilma Rousseff, depois de um curto período de risível persistência de elogios e salamaleques cujo único objetivo era o de indispô-la – e a seu eleitorado – com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Digo que era um movimento previsível não apenas por conta do caráter ideologicamente hostil dos blocos de mídia com relação a Dilma, Lula, PT ou qualquer coisa que abrigue, ainda que de forma distante, relações positivas com movimentos sociais, populares e de esquerda. A previsibilidade da onda de fúria contra o governo também se explica pela transição capenga feita depois das eleições, um legado de ministros e partidos de quinta categoria baseado numa composição política tão ampla quanto rasa, e que, agora, se desmancha no ar.

Assim, pode-se reclamar da precariedade intelectual da atual imprensa brasileira, da sua composição cada vez mais inflada de jornalistas conservadores, repórteres raivosos e despolitizados, quando não robotizados por manuais de redação que os ensina desde a usar corretamente o hífen, mas também como se comportar num coquetel do Itamaraty. Mas sobre a indigência do comportamento da base aliada, é tudo verdade, como também é verdade que, ao herdar de Lula essa miríade de ministros-jabutis colocados na Esplanada dos Ministérios, Dilma aceitou iniciar o governo com diversos flancos abertos, a maioria resultado da aliança com o PMDB, e se viu obrigada a fazer essa tal “faxina” pela mídia, embora se negue a admiti-lo, inclusive em recente entrevista à CartaCapital.

Dilma caminha, assim, sobre a mesma estrada tortuosa do primeiro ano do primeiro mandato de Lula, quando o ex-operário chegou a crer, cegado pela venda de inacreditável ingenuidade, que as grandes corporações de mídia nacionais, as mesmas que fizeram Fernando Collor derrotá-lo, em 1989, poderiam ser cooptadas somente na base do amor e do carinho. Dessa singela percepção infantil adveio a crise do “mensalão”, a adoção sem máscaras do jornalismo de esgoto nas redações brasileiras, a volta do golpismo como pauta de reportagem e a degeneração quase que absoluta das relações entre o poder público e a imprensa.

Em 2010, agregados ao projeto de poder do PSDB e de seu cruzado José Serra, os grupos de mídia formaram um único e poderoso bloco de oposição e montaram um monolítico aríete com o qual tentaram derrubar, diuturnamente, a candidatura de Dilma Rousseff. Não fosse a capacidade de comunicação de Lula com as massas e a conseqüente transferência de votos para Dilma, essa ação, inconseqüente e, não raras vezes, imoral, teria sido vitoriosa. Perdeu-se, contudo, na inconsistência política de seus líderes, na impossibilidade de comparação entre os dois projetos de País em jogo e, principalmente, na transfiguração final – triste e patética – de Serra num fundamentalista religioso, homofóbico e direitista, cuja carreira política se encerrou na melancólica e risível farsa da bolinha de papel na careca.

Ainda assim, Dilma Rousseff foi comemorar os 90 anos da Folha de S.Paulo, sob alegada conduta de chefe de Estado, como se não tivesse sido o jornalão da Barão de Limeira o primeiro condutor do circo de mídia montado, em 2010, para evitar que ela chegasse à Presidência. Foi a Folha que publicou, na primeira página, uma ficha falsa da então candidata, com o intuito de vendê-la como fria guerrilheira de outrora, disposta a matar e seqüestrar inocentes, sequer para lutar contra a ditadura, mas para implantar no Brasil uma ditadura comunista, atéia e, provavelmente, abortista. O fim da civilização cristã no Brasil. Dilma sobreviveu à tortura e à prisão, mas não conseguiu escapar dessa armadilha, e foi lá, comemorar os 90 anos da Folha. Agora, instada a fazer a tal “faxina”, talvez esteja recebendo um salutar choque de realidade.

O fato é que o embate entre as partes, haja ou não uma Lei dos Meios, nos moldes da legislação argentina, não é só inevitável, mas também inadiável. A presidenta reluta, naturalmente, em iniciar um conflito entre a lei e os meios de comunicação, não é por menos. Ela sabe o quanto foi dura e a ainda é a vida dos colegas vizinhos da Venezuela, Argentina, Bolívia, Equador e Paraguai com os oligopólios locais. Faz poucos dias, um jornalista brasileiro, encastelado numa dessas colunas de horror da imprensa nativa, chamou a presidenta da Argentina, Cristina Kirchner, de “perua autoritária”, em resposta a leitores que lhe enviaram comentários indignados com um texto no qual ele a acusava, Cristina, de usar o próprio luto (o marido, o ex-presidente Néstor Kirchner, morreu em outubro do ano passado) para fins eleitorais. Implícito está, ainda, a questão do machismo (a “faxina” da nossa presidenta), ou melhor, a desenvoltura do chauvinismo, ainda isento de freios sociais eficazes.

Tenho cá minhas dúvidas se o mesmo jornalista, profissional admirado e reconhecido por muitos, teria coragem de se referir ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso como “pavão engabelado”, apenas para ficar na mesma alegoria do mundo animal atribuída a Cristina Kirchner, por ter posado de pai amantíssimo ao assumir, 18 anos depois, a paternidade de um filho da jornalista Miriam Dutra, da TV Globo – e, aos 80 anos, descobrir que caiu no golpe da barriga. Passou dois mandatos refém da família Marinho por conta de um menino que não era dele. Algum comentário sarcástico nas colunas e blogs da “grande imprensa” a respeito? Necas de pitibiriba. Com a presidenta argentina, mulher que enfiou o dedo na cara de um grupo midiático “independente” que sustentou uma ditadura nazista, responsável pelo assassinato de 20 mil pessoas, o colunista, contudo, se solta e se credencia a nos fazer rir.

Duvido que Cristina Kirchner fosse ao aniversário do Clarín.

Via Vi o Mundo

Sigilo para privados

Brizola Neto/Tijolaço

A Polícia Federal desfechou uma megaoperação contra a sonegação fiscal,  por suposto desvio de R$ 1 bilhão, envolvendo 300 empresas, 30 delas situadas em paraísos fiscais.  Carros, dinheiro, barcos de luxo e até uma ilha de 20 mil metros quadrados nas proximidades de Salvador foram apreendidos ou bloqueados (até porque não se pode apreender ilhas, não é?).

Não vazou um nome, nem mesmo das empresas, uma imagem, nada.

O roubo também é de dinheiro público, que deveria ter sido recolhido como imposto.

A pergunta é: se assim se age corretamente – e está correto não misturar ação policial e espetáculo – isso deve ser privilégio?

Até para preservar a investigação, evitar sumiço ou destruição de provas, é assim que se deve fazer.

No final da operação, certamente, serão divulgados os dados da ação, judicialmente autorizada. Como tudo deve ser, dentro da normalidade jurídica. Fotografia sem camisa, segurando plaquinha não é garantia de punição, é garantia de marketing.

Fonte: http://www.tijolaco.com/sigilo-para-privados/

A conversa de Nelson Jobim com Dilma – Muito engraçado!

Muito engraçado: A conversa do Nelson Jobim com a Dilma

Há alguns dias, um amigo estrangeiro me disse que viu, em uma viagem de avião, homem alto e com jeito arrogante sentado em um banco próximo. Estava ao lado uma mulher de cabelos curtos e jeito discreto. Certo momento, o cara olhou ela e lhe disse:

- Vamos conversar? Tenho certeza que a viagem parecerá mais rápida. O que você acha?

A mulher, que acabava de abrir um livro para ler, o fechou lentamente e respondeu com voz suave:

- Sobre o que gostaria de conversar?

- Bom, não sei, tem tanta coisa… – disse o homem. – Pode ser sobre física nuclear? Que tal? – e mostrou um sorriso largo e intimidador.

- Bem, – disse a mulher – Esse parece ser um tema interessante. Mas antes, gostaria de lhe fazer uma pergunta: o cavalo, a vaca e a cabra comem a mesma coisa: capim, não é mesmo? Porém, o excremento da cabra é um monte de pequenas bolinhas, o da vaca é uma pasta e o do cavalo é um monte de pelotas secas. Por que o senhor acha que isto acontece?

O cara, visivelmente surpreso com a inusitada pergunta, pensou durante uns momentos e respondeu:

- Hummm, não faço a menor idéia…

E então, a mulher disse:

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PR: de encosto aliado a ressentido “independente”

O cinismo como componente fundamental da prática política no Brasil seria ótimo tema para teses acadêmicas que aprofundam a história do País. Um capítulo exemplar para esta tese seria a saída do PR, o Partido da República, da base aliada do governo Dilma Rousseff. O PR parece ter o cinismo como uma espécie de mantra particular subentendido a cada movimento político que o próprio partido faz. Os argumentos utilizados pelos integrantes do PR para deixar a base governista na terça-feira 16, após meses em que a opinião pública ainda digere os fatos, são, antes de qualquer coisa, cínicos.

Pincemos algumas frases. O senador Alfredo Nascimento (AM), um dos cabeças do partido e ex-ministro dos Transportes que caiu após o escândalo, declarou o seguinte: “Não fazemos política cultivando ressentimentos, mas também não abrimos mão da construção e manutenção de relações de confiança, respeito e lealdade junto àqueles a quem prestamos nosso apoio”. Ou seja: ele diz que não está ressentido para, logo depois, dizer que o governo não lhe é leal e que, por isso, deixa a base aliada. Portanto, está ressentido.

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Mas o ressentimento é o de menos nesta história toda. Prosseguiu o senador Nascimento. “No momento que tais condições (a lealdade do governo) não mais se colocam como base do nosso relacionamento, entendemos ter chegado o momento de atuar com mais autonomia”.

Recapitulemos. A revista Veja publicou, em 2 de julho, uma denúncia de que funcionários graúdos do Ministério dos Transportes, então comandado por Alfredo Nascimento, cobravam propinas a empresas prestadoras de serviço, como empreiteiras e consultorias, para que tivessem uma ajuda na hora de disputar uma licitação. Segundo a denúncia, este dinheiro iria para o próprio PR nas mãos do secretário-geral do partido, o deputado Valdemar da Costa Neto (SP).

A presidenta confiou a um partido aliado um ministério importante para o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), de grande orçamento e também com grandes problemas para resolver. Na melhor das hipóteses, Alfredo Nascimento tinha um vasto esquema de corrupção sob o próprio nariz e não viu. Seu partido não foi leal ao governo que o colocou lá. Mas agora conclama a suposta ausência de lealdade do governo para deixar a base aliada.

As melhores declarações ainda estavam por vir. Alfredo Nascimento afirmou que o partido não aceita ser tratado como “aliado de pouca categoria” ou “fisiológico.” E que por isso deixa a base aliada do governo. Aqui o ex-ministro recorre novamente à inversão de valores: se o partido fosse ideológico, certamente se manteria na base aliada, emitiria um pedido de desculpas e assumiria o compromisso de expurgar seus componentes supostamente envolvidos nas propinas dos Transportes. Perder as tetas de um ministério e sair reclamando por conta disso é um comportamento clássico de fisiologismo político. O PR agiu como um cunhado chato que teve que dividir a mesma casa com o governo federal e, após aprontar todas, é convidado a se retirar e ainda sai reclamando que o governo não teve espírito de família.

A relação do PR com o Ministério dos Transportes não tinha nada de ideológica. Nem sequer é conhecida alguma estratégia do partido para este setor fundamental para o desenvolvimento do País – e aqui cabe uma crítica aos governos do PT, que raramente hesitam em alimentar a sanha voraz de aliados por cargos estratégicos importantes em nome da governabilidade.

Mas não podemos dizer que o PR, partido que surgiu da junção do PL e do Prona, seja um partido sem ideologia. Como boa parte de seus integrantes são da bancada evangélica neopentecostal radical, o partido adora destilar seu preconceito contra os direitos das minorias homossexuais.

O senador Magno Malta (ES) já declarou que a leia de criminalização da homofobia iria criar um “império homossexual” no Brasil. Seu colega Anthony Garotinho já fez chantagem contra o governo para que tirasse de pauta o kit homofobia, que buscava a conscientização escolar sobre os direitos homossexuais. Disse ele, no meio da crise envolvendo Antonio Palocci, em maio:  “Hoje em dia, o governo tem medo de convocar o ministro Antonio Palocci (então chefe da Casa Civil). Temos de sair daqui e dizer que, caso o ministro da Educação não retire esse material (kit de combate à homofobia nas escolas) de circulação, todos os deputados católicos e evangélicos vão assinar um documento para trazer o Palocci à Câmara“.

Como se vê, se a saída do Partido da República da base governista torna mais difícil a negociação dos projetos de Dilma no Congresso, também é verdade que o PR era um encosto moral na vida da administração federal. Longe das tetas do governo, é possível que o partido perca ainda mais relevância. O que, vamos combinar, não seria exatamente um desserviço à política do Brasil.

Fonte:http://www.cartacapital.com.br/destaques_carta_capital/pr-de-encosto-aliado-a-ressentido-independente