Diálogo Desenvolvimentista Nº 41: A crise financeira e a procura pelos culpados

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Gusthavo Santana

Agosto de 2011: o mundo segue em plena crise econômica. Mais uma. A atual é um desdobramento da crise de 2007/08, quando a bolha imobiliária americana estourou e o Lehman Brothers, então quarto maior banco de investimentos dos EUA, pediu concordata.

O fato é que hoje a zona do Euro vê um número considerável de seus integrantes com problemas para pagar as contas: os estímulos dados pelos governos para tentar salvar o sistema financeiro em 2008 – no velho processo de socialização dos prejuízos daqueles que produziam lucros privados – deixou países como a Grécia de cofres vazios. Do outro lado do Atlântico, os Estados Unidos não conseguem levantar sua economia cambaleante e os políticos de lá não ajudam muito: Republicanos e Democratas fizeram da votação do aumento do teto da dívida americana um verdadeiro campo de batalha pré-eleitoral com feridos (quiçá, mortos) de ambos os lados.

Provavelmente, o sintoma mais subjetivo de uma grande crise é o desespero. E, em meio ao desespero, o que não falta é a procura de vilões e salvadores da pátria. No momento, estão em pauta os candidatos a culpados: dos radicais do Tea Party ao indeciso Obama; dos Bancos Centrais europeus aos imigrantes no velho continente. A verdade é que nenhum bode-expiatório carrega a culpa sozinho: eles são apenas distrações frente à calamidade em que o mundo se meteu.

Como explica a economista Ceci Juruá, “Esta crise é uma crise sistêmica, do capitalismo financeirizado e globalizado.  É uma crise clássica, de superacumulação de capital e de altíssimo grau de concentração de renda”.  Para ela, o divórcio entre o ritmo de acumulação de capital e a expansão dos mercados consumidores criou primeiro a necessidade de crédito e, depois, de superendividamento.  “Enquanto esse processo ocorria na economia real, no mundo da produção, as finanças produziam bilionários por meio da especulação e do jogo no cassino global.   Mas quando a economia real pára o cassino não pode continuar, tem que fechar. Esta é a crise”.

Márcio Oliveira, afirma que na atual crise é difícil distinguir o que ele chama de “insanidade coletiva” do que é fruto natural do próprio sistema. “Considero válido nos perguntarmos se a perpetuação de economias monetárias é desejável. Desconfio que o problema esteja justamente aí”. Márcio afirma acreditar que, “mais do que criticar as mazelas do sistema monetário-capitalista, precisamos vislumbrar alternativas sistêmicas para além dos experimentos locais e transitórios. O outro mundo possível sempre adiado por falta de acordos mínimos sobre o que fazer na prática”.

Para Flavio Lyra, economista e ex-técnico do IPEA, “o problema não está nas economias monetárias e, por conseqüência, no endividamento, mas na impossibilidade de controlá-lo numa economia capitalista, com um sistema bancário privado. Não se tem notícias de crises de crédito em países com sistema de crédito estatal como, a antiga União Soviética e a China atual

Daniel Conceição, economista, também acredita que “A presença de instituições bancarias publicas capazes de absorver perdas quando necessário e dar acesso de credito a entidades que estejam engajadas em atividades desejáveis é uma solução interessante.” E acrescenta: “Aliado a isso, uma política de emprego garantido tornaria o orçamento público perfeitamente contra-cíclico”. Daniel explica que “Se mantivermos economias monetárias, não há como eliminar divida, posto que toda moeda é, em última instância, uma representação de dívida/crédito. A questão é que tipo de divida está sendo acumulada ao longo do ciclo econômico. Quando a divida acumulada durante a expansão não é soberana, o incentivo a liquidar os ganhos (que é justamente o é incentivo para trocar dividas denominadas em dívida soberana pela dívida soberana em si) vai crescendo, a fragilidade financeira vai crescendo até que o ciclo chega ao fim. Neste caso, cabe ao emissor da divida soberana aumentar a oferta de suas obrigações ou a renda agregada sofrerá retração. O mecanismo é simples assim.”

Rodrigo Medeiros, professor universitário e sócio da Associação Keynesiana Brasileira (AKB), reforça que o debate encontra-se na necessidade de estímulos anticíclicos. Alguns apontam que medias monetárias de relaxamento seriam suficientes para o Brasil enquanto outros apontam que estímulos fiscais também seriam necessários”. Segundo Rodrigo, “precisaremos combinar ambas as medidas. Os bancos públicos precisarão agir novamente e parece-me que o governo Dilma está consciente de tal fato. Felizmente”.


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