Danielle Assalve
O cenário incerto para a recuperação da economia global tem motivado bancos centrais – em especial nos países emergentes – a ampliar as compras de ouro em busca de proteção para suas reservas. Segundo dados do Conselho Mundial de Ouro (World Gold Council), a quantidade de metal adquirida no primeiro semestre já supera o total negociado durante todo o ano de 2010. Enquanto isso, o volume de ouro que o Brasil possui em estoque é o mesmo desde 2002. São 33,6 toneladas do metal, que representam apenas 0,5% do total das reservas internacionais do País.
“O ouro se transforma em ativo da crise. Os países correm para ele em momentos de insegurança como o que vemos hoje”, diz Nathan Blanche, sócio da Tendências Consultoria. Mas o Brasil faz bem em não comprar o metal, em sua avaliação. “É muito bom para o País não ter mais ouro. A administração das reservas é tão conservadora quanto deve ser. Não temos tradição nisso e nem devemos ter”, diz Blanche. Ele afirma que, historicamente, a volatilidade do ouro é muito elevada e o metal possui rentabilidade negativa. “Quem comprou ouro em 1980 e guardou está perdendo uma fortuna hoje.” Se não for decretado default americano na próxima semana – cenário que Blanche considera praticamente certo – e as tensões na Europa diminuam, a cotação do ouro deve sair do atual patamar recorde de mais de US$ 1.600 por onça troy e voltar para a casa dos US$ 1.300.
Para Eduardo Coutinho, professor do Ibmec-MG, a estratégia de comprar ouro não faz muito sentido no Brasil quando se considera a participação relativa do metal no total das reservas internacionais do País. “Mesmo que o Banco Central triplique as compras de ouro, ainda assim o percentual seria muito pequeno e não seria suficiente para proteger as reservas de uma desvalorização mais acentuada do dólar”, diz Coutinho. Com o atual nível e composição de reservas internacionais, ele acredita que o País “já está bem calçado para sustentar o crescimento e possui economia sólida”. A maior parte das reservas brasileiras está alocada em dólar e títulos do governo americano – o País é o quinto maior detentor desses papéis entre os investidores estrangeiros. Já o estoque de ouro do Brasil fica em 50º lugar, segundo o Conselho Mundial do Ouro.
Enquanto o volume de ouro permanece estável no País, o Banco Central continua a ampliar as compras em moeda estrangeira – em junho, essas reservas estavam em US$ 327 bilhões, 18,4% a mais que em 2010. Segundo analistas, esse movimento pode ser entendido, em parte, como mais uma tentativa do governo de frear a desvalorização do dólar frente ao real – até o último dia 28, a moeda acumula queda de 5,7% no ano.
Custo elevado
Considerando a perda de valor do dólar frente ao real e a valorização do ouro nos últimos meses, “teria sido mais eficiente se o País tivesse alocado mais reservas em ouro”, diz André Nunes, diretor da Reserva Metais, empresa que atua no mercado formal de câmbio e metais preciosos no Brasil. “Mas não dá para ser profeta do passado, não se podia prever isso antes. Daqui para a frente, a chance de o Banco Central vir a comprar ouro é muito baixa, dado o perfil conservador da equipe econômica”, afirma.
No entanto, o custo para manter as reservas em dólar, segundo ele, “está começando a ficar muito caro e já pesa até no esforço de superávit fiscal que o governo precisa fazer”. No ano passado, o custo de carregamento das reservas internacionais foi de R$ 26,6 bilhões. Até o momento, Nunes estima que esse valor esteja próximo de R$ 30 bilhões.
Um dos fatores que pesa nessa conta é o diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos – enquanto a Selic está em 12,5% ao ano aqui, para conter a demanda de consumo e frear a inflação, nos EUA a taxa de juros segue próxima de zero para tentar estimular a recuperação econômica.
Entenda a corrida do ouro
A corrida para o ouro tem como pano de fundo a insegurança dos bancos centrais e dos investidores no mundo todo sobre qual será o novo padrão monetário internacional, afirma Daniel Motta, professor de economia e finanças do Insper. “Já vivemos o padrão ouro, o padrão dólar e hoje, diante do enfraquecimento da moeda americana, nos perguntamos qual será a referência para as transações internacionais”, diz o economista.
Atualmente, cerca de 60% das reservas internacionais estão em títulos do governo americano, atreladas ao movimento do dólar. Com a desvalorização da moeda – em meio à lenta recuperação da economia americana e ao impasse sobre o endividamento público no país –, a alternativa é procurar proteção por diversificar os investimentos. “O normal seria ir para o euro, mas com a crise da dívida na Grécia e em outros países da região, também não é uma boa ideia. Então acabamos nos voltando para o ouro até saber o que acontecerá daqui para frente”, avalia o professor do Insper.
De acordo com o Conselho Mundial do Ouro, o banco central do México lidera o movimento de busca pelo metal no ano – o país saiu do patamar de 7 toneladas de reservas de ouro no final de 2010 para 106 toneladas em julho. A Rússia também tem feito compras mensais do metal e já adquiriu 41,8 toneladas desde o início do ano, chegando ao total de 830,5 toneladas de ouro em reserva.
Fonte:http://economia.ig.com.br/brasil+ignora+corrida+do+ouro/n1597105915442.html
