Gusthavo Santana
Ontem, dia 29, o Governo Federal anunciou que vai aumentar a meta de superávit primário para este ano em cerca de 10 bilhões. A justificativa dada pelo Ministro da Fazenda, em entrevista coletiva, é a consolidação da situação fiscal do país a fim de evitar impactos da crise financeira mundial na economia brasileira.
Momento de crise é momento de cautela. Os problemas fiscais na Europa e a estagnação econômica nos EUA não só persistem como aparentam não encontrar solução a curto e médio prazo. É justo que o governo procure medidas para blindar o país da crise global e longa que se anuncia. Mas é preciso ter a consciência de que momentos de crise também são ideais para ajustes e mudanças de direção.
Nesse contexto, o aumento da meta de superávit pode ser visto como o primeiro sinal de que governo está disposto a economizar para atender, entre outras coisas, uma demanda dos mais diferenciados atores da sociedade brasileira: a redução consistente da taxa básica de juros. O Copom, Comitê de Política Monetária, se reune ainda hoje. Crescem as apostas (e esperanças) de que ele decida pela redução da Selic, hoje em 12,5% ao ano.
Ceci Juruá, economista, vem defendendo a tese da redução da taxa Selic há tempos. Para ela, “Agora é a hora, o momento de forçar a redução dos juros. Porque o capital voador não tem muito para onde ir. Porque precisarmos zerar o déficit nominal. Porque há reservas para garantir qualquer eventual saída de capital – saída bem vista, aliás”. A economista alerta, entretanto, que a queda da taxa básica de juros deve ser acompanhada de outras medidas para conter o princípio de desindustrialização do país, como a recuperação do câmbio (“para cima, em direção à R$ 1,80 ou R$ 2,00”) e o controle do déficit da balança de serviços.
Márcio Oliveira concorda que quarta-feira é o dia para o país iniciar a redução dos juros de forma consistente, buscando uma taxa real anual de 2% em 2014. Ela afirma que, “Se o Copom não reduzir a Selic de 12,5 para 12% ao ano nesta quarta-feira estará sinalizando resistência suicida a qualquer bom senso e convívio harmônico com a presidente e o ministro da fazenda”. Márcio ainda salienta: “Talvez falte um pouco de ousadia e celeridade à presidente e ao ministro da fazenda, mas acredito que eles estão no caminho certo. Estão preservando os aumentos de receitas para utilizar em seguida, de forma contra-cíclica, caso a recessão mundial seja profunda e prolongada”.
Rodrigo Medeiros, professor universitário que integra a World Economics Association e é sócio da Associação Keynesiana Brasileira, também acredita que há um contexto favorável para a redução imediata da taxa de juros. Ele aponta que até o “mercado”, sempre focado nas eternas incertezas econômicas e em um improvável descontrole inflacionário nacional, especula que a probabilidade de redução da Selic é de 70%. Segundo Rodrigo, “Caso o BC brasileiro opte por maiores cuidados com a inflação, ele pode utilizar medidas prudenciais como redução do prazo dos novos financiamentos de bens de consumo. Só se for necessário”.
Flavio Lyra, economista e ex-técnico do IPEA, se diz mais pessimista em relação ao aumento da meta de superávit primário. “Vejo a mudança, mais como uma derrota do governo diante do sistema financeiro. Aumentar o superavit vai contrair a demanda, aumentar a taxa de desemprego e tirar poder de barganha da classe trabalhadora para disputar participação nos aumentos de produtividade. No quadro de incertezas atual, se houver queda na taxa de juros não vai influenciar as decisões de investimento privado”. Ele finaliza, “Em síntese, o preço a ser pago é muito alto para justificar uma incerta redução na taxa de juros.”


