Arquivo mensais:julho 2011

Analisando o Twitter de Hugo Chavez

Com as eleições de 2010 ficou evidente que a Internet aliada às redes sociais (Twitter, Orkut, Facebook, Youtube) e blogues conseguiu influenciar o jogo político pautando diversas vezes mídias tradicionais como TV, rádio e jornal e trazendo uma maior reflexão entre os internautas sobre seus candidatos, a ponto de alterar ou consolidar seu voto. Somente o Twitter alavancou mais de um bilhão de discussões sobre as eleições no primeiro turno no Brasil, o que demonstra a força que a ferramenta tem em influenciar o jogo eleitoral entre aqueles que utilizam essa rede social. Ao contrário de 2006, quando contávamos apenas com blogues, sites, Orkut, Youtube e uma parcela razoável da população incluída digitalmente, em 2010 esse cenário ampliou e podemos afirmar que a Internet hoje é um espaço a mais para a ação política. Não é a toa que Dilma, José Serra, Marina Silva e Plínio de Arruda estão presentes nas redes sociais especialmente no Twitter. Para termos ideia de como essa ferramenta hoje é essencial para a democracia, uma vez que o diálogo entre os cidadãos é imediato e as informações repassadas em primeira mão aos internautas, podemos analisar a performance do presidente da Venezuela, Hugo Chavez no Twitter a partir da ferramenta de monitoramento Tweet Level:

Presidente da Venezuela goza de grande influência no Twitter

Atualmente o presidente Hugo Chavez conta com 937,348 seguidores, isto é, quase um milhão de pessoas acompanham as informações divulgadas em seu perfil o que demonstra um altíssimo nível de popularidade, 89,6%. Mas não basta as pessoas acompanharem o seu perfil, é necessário engajamento do presidente, ou seja, dialogar e interagir com o seu público, o que reflete em 63,7% de engajamento. A porcentagem é boa, mas poderia ser melhor. Já a influência de Chavez é elevada, isto é, as informações passadas pelo presidente não são só replicadas pelos internautas, mas também geradas discussões a partir das informações divulgadas em seu perfil. Já o nível de confiança no presidente é também bastante alto, 82,8%, isto é, Chavez apresenta credibilidade para seu público, as informações publicadas por ele, além de serem confiáveis são propagadas também pelos seus seguidores.

A partir desse cenário, podemos perceber o quão essencial é para o jogo democrático ter uma figura pública no Twitter. Com essa ferramenta boatos podem ser desmentidos e repassados em primeira mão para seu público, além do mais, cada informação divulgada por um perfil influente e que apresenta confiança, gera ondas na rede que são replicadas por vários internautas provocando discussões entre os mesmos. Não podemos esquecer também do diálogo constante desse perfil com o seu público que é o mais irreverente do Twitter.

Fonte:http://www.viomundo.com.br/vida-digital/analisando-o-twitter-de-hugo-chavez-presidente-da-venezuela-politiza-o-debate.html

A vitória de Humala no Peru: derrota da América

Ollanta Humala foi eleito presidente do Peru

Immanuel Wallerstein(*)

Ollanta Humala foi eleito presidente do Peru em 5 de Junho de 2011. O único verdadeiro derrotado nestas eleições foram os Estados Unidos, cuja embaixadora, Rose Likins, mal conseguiu disfarçar o facto de ter feito campanha pela adversária de Humala no segundo turno, Keiko Fujimori. Que estava em jogo nestas cruciais eleições latino-americanas?

O Peru é um país-chave na geopolítica da América do Sul por várias razões: o seu tamanho, o seu legado do império Inca, a sua localização como uma das fontes do Rio Amazonas, os seus portos no Oceano Pacífico, e a sua história recente como o palco de uma importante luta entre forças nacionalistas e elites pró-americanas.

Em 1924, Vitor Raúl Haya de la Torre, um intelectual peruano e marxista – de um marxismo bastante heterodoxo – fundou a Aliança Revolucionária Popular Americana (APRA), com a intenção de a tornar numa organização anti-imperialista pan-americana. A APRA floresceu no Peru, apesar de ter sido severamente reprimida. O que a APRA tinha de original, e diferente da maior parte dos movimentos de esquerda nas Américas, era a sua compreensão de que a maioria do campesinato do Peru era composta de povos indígenas de fala quechua que tinham sido sistematicamente excluídos da participação política e dos direitos culturais. Depois de 1945, a APRA começou a perder um pouco do seu viés radical, mas manteve uma base popular forte. Só a morte de Haya de la Torre evitou a sua eleição como presidente em 1980.

Os governos de Peru permaneceram em mãos conservadoras até 1968, quando escândalos motivados pelos contratos de petróleo foram a faísca de um golpe militar desferido por oficiais nacionalistas dirigidos pelo General Juan Velasco Alvarado. Eles apoderaram-se do poder e instauraram um Governo Revolucionário das Forças Armadas.

O governo Velasco nacionalizou as jazidas de petróleo e múltiplos outros sectores da economia. Investiu pesadamente na educação. Mais do que isso, tornou-a bilingue, elevando o quechua a um estatuto de igualdade com o castelhano. O governo lançou programas de reforma agrária e de industrialização para substituir as importações.

A sua política externa virou acentuadamente à esquerda. O Peru cultivou boas relações com Cuba e comprou equipamento militar à União Soviética. Depois de Pinochet derrubar o governo Allende no Chile em 1973, as relações entre o Peru e o Chile tornaram-se tensas. Falou-se mesmo de guerra, até que, em 1975, Velasco Alvarado foi deposto por forças militares conservadoras. E o Peru pôs assim fim ao seu período de sete anos de nacionalismo liderado por militares, com um programa socioeconómico de esquerda.

Quando Alan García, como líder da APRA, foi eleito presidente em 1985, retomou brevemente a tradição de esquerda propondo uma moratória na dívida externa. Mas este esforço foi bloqueado, e logo García virou à direita e abraçou o neoliberalismo. O Peru nesta época enfrentou várias insurreições, a mais famosa das quais foi a do Sendero Luminoso, que tinha a sua base nas regiões andinas dos camponeses Quechua e Aymara.

Nas eleições de 1990, um então já muito impopular García enfrentou o famoso escritor, pensador conservador e aristocrata Mario Vargas Llosa, que se candidatou apresentando uma plataforma económica puramente neoliberal. Inesperadamente, um peruano pouco conhecido de origem japonesa, Alberto Fujimori, derrotou as outras duas alternativas. A força de Fujimori derivava em grande parte da rejeição por parte do eleitorado do estilo aristocrático de Vargas Llosa.

Fujimori revelou um estilo duro e ditatorial, e usou com sucesso o exército para esmagar o Sendero Luminoso, assim como grupos insurreccionais urbanos. Para garantir o poder, Fujimori não hesitou em fechar o Congresso, interferir no poder judiciário, e ampliar o seu segundo mandato. Mas o elevado grau de corrupção e de poder arbitrário levaram ao seu derrube. Fujimori fugiu para o Japão. Mais tarde foi extraditado do Chile, julgado pelos seus crimes num tribunal peruano, e condenado a uma longa pena de prisão.

O seu sucessor em 2001, Alejandro Toledo, deu continuidade ao programa neoliberal. E, em 2006, Alan García candidatou-se novamente à Presidência. Enfrentou um ex-oficial militar, Ollanta Humala, que foi abertamente apoiado por Hugo Chávez, um apoio que prejudicou as suas perspectivas, bem como os ataques que sofreu à sua prática como oficial de exército no que dizia respeito aos direitos humanos. García ganhou, e prosseguiu e ampliou a via neoliberal. A economia floresceu devido ao boom mundial de exportações de energia e de minérios. Mas a massa da população ficou alheia aos benefícios. Tipicamente, o governo permitiu que corporações transnacionais se apoderassem de terras na região amazónica para explorar os seus recursos minerais. Os movimentos indígenas resistiram, e ocorreu um massacre em Junho de 2009, chamado o Baguazo.

Foi neste último período que o Peru se tornou o centro de duas disputas geopolíticas. Uma foi entre o Brasil e os Estados Unidos. Sob a presidência de Lula, o Brasil lutara com êxito considerável para promover a autonomia sul-americana, através da construção de estruturas regionais como a UNASUL e o Mercosul. Os Estados Unidos procuraram contrariar o programa do Brasil criando a Aliança do Pacífico do México, da Colômbia, do Chile e do Peru, baseada em acordos de livre-comércio com os Estados Unidos. Além disso, a Colômbia, o Peru, e o Chile promoveram um projecto de criação de uma bolsa de valores integrada, cuja sigla em espanhol é MILA. E as forças armadas do Peru ligaram-se activamente ao Comando Sul do Exército dos Estados Unidos.

A segunda disputa geopolítica foi entre a China e os Estados Unidos na busca de obter acesso privilegiado aos minérios e aos recursos energéticos da América do Sul. O Peru mais uma vez foi um país-chave.

Houve três factores que levaram à vitória de Humala nestas eleições de 2011. Por um lado, Humala virou-se aberta e publicamente para uma via social-democrata à brasileira. Não fez qualquer menção a Chávez. Humala encontrou-se muitas vezes com Lula e falou de o Peru se tornar “um parceiro estratégico” do Mercosul.

O segundo factor decisivo foi o apoio muito forte que recebeu de Vargas Llosa. O aristocrata conservador disse que para o Peru seria uma catástrofe eleger a filha de Fujimori, que libertaria o pai da prisão e daria continuidade aos seus métodos pouco recomendáveis. Vargas Llosa provocou uma séria divisão nas forças conservadoras.

O terceiro factor foi a atitude da esquerda peruana, que há muito tempo tinha reservas em relação a Humala. Como Oscar Ugarteche, um importante intelectual, escreveu para agência de imprensa latino-americana Alai-AmLatina, “para todos, Humala é uma interrogação, mas Fujimori é uma certeza.”

Ugarteche resumiu a eleição dizendo que “o que é mais significativo, contudo, é o regresso do Peru à América do Sul.” Veremos até que ponto Humala será capaz de chegar em termos de redistribuição de rendimentos e de restauração dos direitos da maioria indígena. Mas a contra-ofensiva geopolítica dos Estados Unidos, a Aliança do Pacífico, está desfeita.

Immanuel Wallerstein é sociólogo e professor universitário norte-americano.

Fonte: http://www.esquerda.net/opiniao/vit%C3%B3ria-de-humala-no-peru-derrota-da-am%C3%A9rica

Diálogos Desenvolvimentistas Nº 38 – Crise econômica, crise social, crise política: o ideário capitalista chegou à beira do abismo?

Gusthavo Santana

Na última semana, o teólogo Leonardo Boff escreveu um artigo para a Carta Maior com o sugestivo título de “A perda de confiança na ordem atual”. Ele descreve um cenário de crise profunda na economia mundial, que começou entre 2007 e 2008 com o estouro da bolha imobiliária nos Estados Unidos e agora se reverbera em crises fiscais na Europa e tensão política no próprio EUA – que podem estar à beira de um inédito calote da dívida. Boff, então, vai ao cerne dos problemas e afirma que a crise, a grande crise, está na própria ordem sócio-econômica do capitalismo. Para ele, a solução da economia não estaria na própria economia, mas no “‘refazimento’ das relações sociais destruídas pela economia de mercado, especialmente, a especulativa. Esta é sem compaixão e desprovida de qualquer projeto de mundo, de sociedade e de política”.

Para o economista Flávio Lyra, Leonardo Boff é lúcido ao constatar que a ordem sócio-econômica do capitalismo está em profunda crise e não mostra possuir forças para dela se afastar. Lyra traz a discussão para o âmbito nacional e afirma que “nesse quadro desolador, o Brasil é um dos poucos países que, por suas potencialidades, teria condições de não sofrer suas consequências e, além disto, afirmar-se como exemplo para o mundo em desenvolvimento. Lamentavelmente, estamos submetidos a uma prisão ideológica que bloqueia a imaginação de nossa classe dominante e nos impede de romper com o paradigma neoliberal que nos acorrenta”, e finaliza: “O Brasil atual assemelha-se a uma pessoa com um ferimento grave que vem perdendo sangue e não sabe como estancar a sangria. Acha-se numa armadilha ideológica da qual não consegue livrar-se”.

Márcio Oliveira, analista político, concorda com a idéia de que podemos estar presos a uma espécie de cárcere ideológico, como sugere Flávio. Todavia, também acredita que parte dos problemas econômicos e sociais atuais podem ser frutos da inação de grande parte dos indivíduos comuns. Segundo Márcio, “A impressão que tenho é que esbarramos em vaidades e preciosismos teóricos que nos impedem de passar dos lamentos e diagnósticos para as proposições concretas do que fazer, incluindo aí as articulações políticas necessárias.” Ele salienta que “temos no Brasil, uma abundância de pessoas que se propõem a fazer o papel de críticos e fiscais dos desvios alheios, mas sofrível carência de pessoas dispostas a botar a mão na massa, incluindo aí a necessidade de se expor ao contraditório e abrir mão de convicções ideológicas e teóricas”.

Gustavo Santos, economista, acredita que a solução dos problemas econômicos e sociais que enfrentamos todos os dias passa mudanças no nosso modo de fazer política que, para ele, “precisa ser completamente reformulada, mas não pelas ‘reformas políticas’ que falam por aí” e acrescenta: “só uma liderança corajosa e que fale diretamente às massas ou um movimento social massivo pode inverter a lógica da política guiada pelo dinheiro (que na política é quase sempre sujo)”.

Carlos Ferreira, no entanto, acredita que não há mais caldo gerador de líderes ou movimentos sociais massivos, seja dentro de quadros empresariais, partidários, estudantis ou sindicais. Segundo Carlos, “A chamada sociedade civil organizada está mais para marchas ou manifestações buscando mídia no Fantástico ou JN. Entretanto, temos uma ferramenta atual poderosa, a qual já estamos procurando usar. Falo da Internet, da blogosfera. O poder mobilizador desta tribuna é ilimitado, haja vista a Primavera Árabe, manifestações na Europa  Ibérica e, aqui entre nós, a detonação do caso BNDES & Pão de Açúcar.”

A covardia do BC e dos banqueiros contra a Nação Brasileira e seu Povo

Miguel Manso

Na última edição da Hora do Povo, o companheiro Carlos Lopes publicou uma excelente matéria sobre os Juros e Amortizações da dívida pública paga pela União ao cartel de bancos, e eu disse a ele, que para mim. aquele número era tão gigantesco e a violência contra o povo e a Nação era de tal tamanho, que eu estava com dificuldade de absorvê-lo, de pensar nas consequências daquela inominável ganância e covardia contra o Brasil, pois o que ali sobrava e muito, ao povo faltava em hospitais, escolas, moradia, saneamento, emprego, salário, alimentos, remédio, tudo enfim…

Disse o Carlos Lopes nesta matéria:

“Em dinheiro, isso significa que os bancos receberam do governo, em oito anos, R$ 1.858.679.200.827,38 (1 trilhão, 858 bilhões, 679 milhões, 200 mil, 827 reais e 38 centavos), sem incluir o refinanciamento da dívida (“rolagem”).

No mesmo período, foi destinado à educação R$ 169.819.375.194,80, ou seja, 1/11 do que foi passado aos bancos.”

Gentilmente, e com o compromisso que o Carlos tem com todos, escreveu-me um email que tomo a liberdade de compartilhar, alguns trechos, com os amigos, pois talvez a dificuldade que ele e eu tivemos de absorver essa violência e covardia praticada pelas elites e seus capachos dentro do Banco Central e do Tesouro Nacional, tão comprometidos com seus amos e com o futuro de financistas que os espera, possa ajudar também a outros companheiros a absorver e poder combater esse estupro contra a Nação.

É comum, quando somos vítimas de tamanha violência, a vergonha que sentimos por não termos conseguido nos defender da truculência cometida, reagir ignorando-a e fingindo que ela não aconteceu, ou não modificou nossas vidas, nos culparmos ao invés de culpar o agressor como ele merece e condena-lo pelo crime cometido, mas apesar de tudo o que temos que fazer é superar este sentimento e buscar com toda a nossa força colocar atrás das grades os que cometem tal abuso contra todos nós e contra os que nada tem e tiveram poucas condições de se defender.

Eles não perdem por esperar.

Grato Carlos, por sua imensa dedicação.

Aqui vai o que o Carlos Lopes me enviou…

“Miguel, como fiquei a maior parte da noite acordado … andei pensando no nosso papo sobre os números do que o governo repassa aos bancos. …
Mas tem uma coisa – aqueles valores são menores que os reais, ou, melhor, menores que o total. Ou seja, apesar de impressionantes, eles não são tudo o que é passado aos bancos.

Primeiro porque, como o meu objetivo era tentar ajudar o pessoal no Congresso da UNE, me ative somente ao que sai do caixa do Tesouro Nacional. Porém, não é somente desse caixa que sai dinheiro público para os bancos, pois também tem o dinheiro pago pelos outros níveis do setor público – além de Estados e municípios, as estatais de cada nível. Tudo isso está incluído no que deveria ser pago com o superávit primário, isto é, espremendo as demais despesas, mas sempre vai muito além da “meta” de superávit primário – portanto, espreme as outras despesas muito mais ainda que o supostamente “previsto”. A meta do superávit primário é a única que pode estourar à vontade. Aliás, esses bandidos até consideram um mérito quando ela estoura, vide Mantega.

Mas, voltando, a diferença entre o que sai do Tesouro e o que sai de todos os caixas públicos para os bancos é grande. Só considerando os juros, sem as amortizações:

JUROS NOMINAIS PAGOS PELO SETOR PÚBLICO
ANO TOTAL TESOURO
2003 R$ 144.594.827.872,60 R$ 65.706.834.037,86
2004 R$ 128.524.319.925,78 R$ 74.373.387.099,76
2005 R$ 158.093.962.113,64 R$ 89.839.644.291,51
2006 R$ 161.925.167.310,37 R$ 151.151.879.811,90
2007 R$ 162.538.468.829,50 R$ 140.078.869.860,18
2008 R$ 165.510.835.389,99 R$ 110.168.275.749,73
2009 R$ 171.010.923.815,89 R$ 124.180.424.433,10
2010 R$ 195.369.259.184,23 R$ 122.018.856.725,69
TOTAL R$ 1.287.567.764.442,00 R$ 877.518.172.009,73
Fontes: Banco Central – Relatório Fiscal (estatísticas consolidadas) Secretaria do Tesouro Nacional – Execução orçamentária

Portanto, só nos juros há uma diferença de mais de R$ 410 bilhões.

Segunda questão: o que publiquei eram valores correntes de cada ano. Isto é, sem atualizar os valores. No entanto, o real de 2003 não tem o mesmo “valor” do real de 2010.

Os números a seguir (que são somente do Tesouro) eu não publiquei, apesar de ter planejado fazê-lo, pois me pareceu que era realidade demais para o leitor. Uma vez dei de presente ao Cláudio uma tradução de “O Vigário”, uma peça de um alemão, Rolf Hochhut, publicada em 1963, porque o posfácio do autor trazia alguns números pavorosos sobre as vítimas do nazismo – e o Cláudio queria citá-los na tese que pretendia escrever para o IV Congresso do MR8. Mas, nesse mesmo posfácio, o cara dizia que, na peça, ele diminuíra os números porque, na época, para o público (devia, evidentemente, estar pensando nos alemães ocidentais), esses números, apesar de rigorosamente verdadeiros, pareciam inverossímeis, tirando a credibilidade da denúncia do nazismo.

Esse é um problema quando a gente escreve sobre grandes aberrações.

Veja abaixo: são os mesmos pagamentos de juros e amortizações que saíram no HP (no jornal está a soma dos dois), somente que atualizados pelo IGP-DI de janeiro de 2011 para mostrar o que valeria hoje o dinheiro dos anos anteriores. A atualização foi feita pela própria Secretaria do Tesouro (toda a dívida do setor público, seja lá qual for a instância, usa como índice de atualização o IGP-DI, provavelmente, acredito eu, porque esses canalhas só vêem dólar na frente, e o IGP-DI é o índice que mais reflete a variação cambial – o problema, como disseram os governadores, é que ele é superior à inflação oficial, isto é, ao IPCA).

Os valores são referentes às despesas liquidadas, isto é, ao que realmente saiu do caixa do Tesouro, em dinheiro, a cada ano. E… em vez de R$ 1,8 trilhão, o roubo vai para R$ 2,16 trilhões. E só o que saiu do Tesouro, isto é, do orçamento federal.

Acho que o leitor não ia acreditar. Até eu, que conferi ano por ano, número por número, tenho dificuldade. Por isso, fiquei nos R$ 1,8 trilhão, que já era coisa como não acaba mais para o leitor absorver.

PAGAMENTOS DE JUROS E AMORTIZAÇÃO EM VALORES ATUALIZADOS
ANO JUROS AMORTIZAÇÃO (não inclui rolagem) TOTAL (juros + amortização)
2003 R$ 95.992.181.071,56 R$ 116.217.227.811,95 R$ 212.209.408.883,51
2004 R$ 99.319.027.891,29 R$ 95.618.507.342,96 R$ 194.937.535.234,25
2005 R$ 113.217.391.045,18 R$ 62.067.197.670,89 R$ 175.284.588.716,07
2006 R$ 187.244.311.117,84 R$ 149.805.302.510,07 R$ 337.049.613.627,91
2007 R$ 165.120.987.251,68 R$ 114.173.455.148,98 R$ 279.294.442.400,66
2008 R$ 116.741.826.215,53 R$ 181.184.255.650,09 R$ 297.926.081.865,62
2009 R$ 129.284.233.251,05 R$ 262.448.866.093,94 R$ 391.733.099.344,99
2010 R$ 127.997.014.001,01 R$ 146.753.175.294,32 R$ 274.750.189.295,33
TOTAL R$ 1.034.916.971.845,14 R$ 1.128.267.987.523,20 R$ 2.163.184.959.368,34
INDICE DE CORREÇÃO: IGP-DI
FONTE: MINISTÉRIO DA FAZENDA – SECRETARIA DO TESOURO NACIONAL – ORÇAMENTO FISCAL E DA SEGURIDADE SOCIAL – DESPESA POR GRUPO 1980/janeiro 2011

Fonte: http://mobilizacaobr.ning.com/profiles/blog/show?id=3496405%3ABlogPost%3A141739&xgs=1&xg_source=msg_share_post

A urgência do controle dos capitais externos

Paulo Kliass (*)

Ultimamente, a realidade tem dado uma verdadeira chacoalhada nos dogmas da ortodoxia monetária e econômica. A recentíssima tempestade na chamada “zona do euro”, em que a Itália foi elevada à bola da vez dos responsáveis pela especulação das finanças no plano internacional. E os integrantes da Comissão Européia começam a considerar também a adoção medidas de controle de capital, além das já conhecidas práticas de ajuda aos bancos e instituições financeiras.

No nosso Brasil, os dados com gastos no exterior nos últimos meses têm revelado um salto preocupante – em maio subiram quase 50% em relação ao ano passado. Por essa e por outras, o quadro das contas do nosso setor externo dão sinais de intranqüilidade. Afinal, com o real assim tão valorizado frente ao dólar norte-americano e às demais moedas internacionais, a situação fica típica de um mundo de fantasia ou de uma conjuntura periclitante – a escolha fica por conta do freguês. A taxa de câmbio atual remonta aos valores de 1999! A classe média se esbalda em viagens ao exterior como nunca antes. As classes de menor renda se incorporam às fileiras dos que se empanturram na qualidade duvidosa dos produtos “made in China”. Até mesmo algumas lideranças sindicais dos metalúrgicos se vêem compelidas a saírem do estado de letargia e denunciam o crescimento recorde da importação de veículos, com participação de 23% no total das vendas. E enquanto isso, a turminha das finanças continua enchendo os tubos de dinheiro fácil, graças à política de juros altos e câmbio valorizado patrocinada pelas autoridades econômicas. O Brasil parece ir cada vez mais direto, feliz e contente, no rumo da desindustralização.

Porém, ao que tudo indica, a questão do controle de capitais vai sendo cada vez mais debatida e os preconceitos tendem a ser menos efetivos para a sua aceitação. Desde documentos oficiais do Fundo Monetário Internacional (FMI) até economistas brasileiros de renome, passando por integrantes da equipe do próprio Ministério da Fazenda, muitos já falam mais aberta e tranqüilamente a respeito da necessidade de implantarmos mecanismos de controle desse tipo de recurso em nosso País.

O ponto a reter a partir de agora é relativo às formas possíveis para alcançar tal objetivo, bem como à intensidade do controle a ser estabelecido. Afinal, todos se recordam de que o Ministério da Fazenda chegou a anunciar e publicar há poucos meses uma medida nesse sentido. Antes mesmo da posse da nova Presidenta da República, o problema da contínua valorização cambial de nossa moeda já dava muitos sinais de preocupação. Assim, os responsáveis pela área econômica se viram constrangidos a anunciar a adoção de tributos para o capital estrangeiro, que para cá se dirigisse com fins meramente especulativos.

Foi estabelecida a incidência de Imposto de Renda (IR) – até então isento – e foi introduzido o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) sobre as aplicações supostamente de natureza especulativa, sem vínculo com qualquer operação produtiva e sem prazo para voltar ao seu porto de origem. No entanto, uma das dificuldades é que tais medidas iam contra tudo aquilo que os preceitos estabelecidos pelo próprio neoliberalismo haviam preconizado até então. E os agentes encarregados de preparar as decisões normativas, até anteontem, consideravam tais alternativas como uma verdadeira heresia contra o funcionamento do suposto “livre mercado”. Esses indivíduos reagiam aqui exatamente como o fizeram Alan Greenspan e tantos outros ocupantes de postos-chave na área econômica nos Estados Unidos, à época em que os primeiros críticos sugeriam o estabelecimento de medidas de regulação para os produtos financeiros inovadores e especulativos, do tipo “derivativos” e similares. Em nome do espírito liberal, nada foi feito por lá. A crise que veio logo a seguir, em 2008, evidenciou a irresponsabilidade de tal conivência passiva com a especulação!

Em nossas terras, o resultado foi, prá variar, o surgimento de um grande medo por parte dos responsáveis pelo governo em adotar tais medidas. Aquele conhecido temor em contrariar os interesses do capital financeiro, comportamento esse que tem imobilizado há décadas toda e qualquer ação pública que viesse a romper com essa lógica e passasse a privilegiar o setor produtivo e os agentes nacionais. As conseqüências foram pífias. Apesar do anúncio em grande pompa, os operadores do mercado financeiro praticamente ignoraram a medida e continuaram seu trabalho tranqüilos e felizes. Afinal, tratava-se de um IOF de apenas 2% para quem aplicasse na Bolsa de Valores e de 6% para quem aplicasse em outros títulos do mercado financeiro. O fluxo de ingressos estrangeiros continuou na mesma toada.

Assim, as entradas de capital especulativo seguiram seu ritmo sem nenhum constrangimento. E isso deu-se por várias razões. A mais importante delas, sem sombra de dúvida, refere-se ao abissal diferencial da taxa de juros oferecida pelo nosso generoso Banco Central, em comparação às demais autoridades econômicas do mundo. Como a nossa SELIC continua sendo catastroficamente mais elevada do que todas as outras taxas do mundo, os operadores do mercado financeiro incluíram a reduzida alíquota sugerida em seus cálculos e perceberam que a rentabilidade continuava bem mais elevada do que alhures. “No problem!”, é óbvio. E vamo-que-vamo! Além de continuarem a inundar nossas praças com recursos externos e abocanhar os vultosos ganhos financeiros, ainda aproveitavam a deixa para tirar uma casquinha pela grande imprensa e desqualificar as tímidas propostas de regulação. Afinal, diziam, estaria provado que não funciona mesmo!

Mas não se diga que foi por falta de alerta. O fato é que o governo deveria ter, desde o início, adotado alíquotas mais altas para tais impostos, para que no cálculo do retorno financeiro, o operador especulativo pensasse bem antes de enviar o recurso para cá. Isso porque é necessário que se diga com todas as letras: esse tipo de aplicação não é bem vinda! Esse tipo de recurso externo não nos aporta nenhum tipo de benefício, antes pelo contrário. Ele entra na esfera especulativa, pressiona a taxa de câmbio em um movimento de valorização do nosso real e suga recursos orçamentários destinados a pagar juros pelo serviço da dívida pública.

Geração de emprego aqui dentro? Geração de investimento produtivo interno para aumentar o nosso Produto Interno? Nada, nem de longe. Assim, não devemos nos preocupar se eles se interessaem mais por outros ganhos alhures. Boa sorte nos próximos cassinos, my boys! Aqui, queremos investimento direto, empreendimentos visíveis, intervenções que contribuam para o desenvolvimento social e econômico de nosso País.

E um dos aspectos mais graves é que o especulador introduz um perigoso elemento de instabilidade econômico-financeira. Sim, exatamente pela recusa de nossas autoridades em estabelecer algum tipo de controle sobre as entradas e saídas desse tipo de fluxo de capital. É bastante conhecido aquilo que o “economês” chama de “efeito manada” no movimento de capitais, em especial o especulativo. Em algumas circunstâncias de incerteza, bastam algumas informações e ações coordenadas do tipo “salve-se quem puder” para que a economia do país considerado fique absolutamente refém desse tipo de descontrole. Os capitais saem como entraram – e, às vezes, até mais rapidamente – provocando toda sorte de dano no equilíbrio macroeconômico.

Essa é uma das principais razões para que se adotem medidas, além da tributação acima mencionada, de controle administrativo da entrada e saída dos recursos externos. Os capitais que desejarem vir para cá deverão manifestar a pré-disposição de permanecer um tempo mínimo nas praças financeiras brasileiras. E a remuneração será proporcional ao tempo da aplicação, como acontece em qualquer país. Ou seja, a prazos menores deverá corresponder remuneração mais baixa. Para prazos mais longos, as taxas poderão ser mais elevadas. Regras essas, aliás, que vigem em qualquer mercado financeiro dos próprios países industrializados.

Por outro lado, isso significa também que devemos dosar bem as comemorações de alta de nossa cotação pelas agências internacionais de “rating”. Ao invés de elevar a SELIC, como gosta de fazer o BC, esses momentos deveram sim é servir para reduzi-la! Afinal, se o Brasil está sendo bem visto, que o seja pela sua perspectiva de retorno futuro e não pela taxa de juros de curtíssimo prazo. Ou alguém tem alguma ilusão de que realmente as aplicações em títulos do governo norte-americano sejam menos seguras do que as do governo brasileiro? Talvez fosse aconselhável refletir um pouco melhor, antes de bater de forma tão ufanista no peito…

Afinal, trata-se de agências privadas e com elevado grau de promiscuidade com as instituições que operam no mercado financeiro. As mesmas Standard & Poors, Merril Lynch, Goldman & Sachs e tantas outras que, até às vésperas da eclosão da crise de 2008, conferiam solidez e davam as notas mais elevadas para os bancos, seguradoras e demais instituições que passaram a quebrar em seqüência no mercado financeiro.

Para o Brasil, o caminho que apresenta menos risco é, portanto, o da implementação de mecanismos de controle de capitais. Por um lado, elevando as alíquotas do IOF e do IR, de maneira a tornar as ações especulativas menos atraentes. Por outro lado, por meio da adoção de controle de prazos de permanência para tais recursos. E tudo isso, obviamente, acompanhado de medidas que impeçam a fraude, tal como já foi detectado pelos próprios operadores no mercado financeiro. O sujeito cria uma empresa laranja para supostamente fazer investimentos produtivos no Brasil. Traz recursos como se fosse para esse fim, obtém todos os benefícios de tal operação e depois sai tranqüilamente tendo atuado apenas na área da especulação financeira, como se nada tivesse acontecido. O Banco Central e demais órgãos públicos têm todos os meios de evitar esse tipo de ação criminosa.

O que parece faltar é a coragem política de fazer valer a vontade nacional e a compreensão de que, para tanto, será necessário algum tipo de enfrentamento com os interesses do capital financeiro. Seja por contrariar os agentes operando pelo resto mundo, ou aqueles que atuam internamente no País e estão muito satisfeitos com a política monetária praticada até agora. Afinal, com a mudança que a maioria deseja, seus rendimentos deverão cair substancialmente e a farra será menos atrativa. Todo o restante do País, porém, será bastante agradecido!

(*) Paulo Kliass é Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental, carreira do governo federal e doutor em Economia pela Universidade de Paris 10.

Fonte: http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=5120

Nos bastidores, o lobby pelo pré-sal

“A indústria de petróleo vai conseguir combater a lei do pré-sal?”. Este é o título de um extenso telegrama enviado pelo consulado americano no Rio de Janeiro a Washington em 2 de dezembro do ano passado.

Como ele, outros cinco telegramas a serem publicados hoje pelo WikiLeaks mostram como a missão americana no Brasil tem acompanhado desde os primeiros rumores até a elaboração das regras para a exploração do pré-sal – e como fazem lobby pelos interesses das petroleiras.

Os documento revelam a insatisfação das pretroleiras com a lei de exploração aprovada pelo Congresso – em especial, com o fato de que a Petrobras será a única operadora – e como elas atuaram fortemente no Senado para mudar a lei.

“Eles são os profissionais e nós somos os amadores”, teria afirmado Patrícia Padral, diretora da americana Chevron no Brasil, sobre a lei proposta pelo governo . Segundo ela, o tucano José Serra teria prometido mudar as regras se fosse eleito presidente.

Partilha

Pouco depois das primeiras propostas para a regulação do pré-sal, o consulado do Rio de Janeiro enviou um telegrama confidencial reunindo as impressões de executivos das petroleiras.

O telegrama de  27 de agosto de 2009 mostra que a exclusividade da Petrobras na exploração é vista como um “anátema” pela indústria.

É que, para o pré-sal, o governo brasileiro mudou o sistema de exploração. As exploradoras não terão, como em outros locais, a concessão dos campos de petróleo, sendo “donas” do petróleo por um deteminado tempo. No pré-sal elas terão que seguir um modelo de partilha, entregando pelo menos 30% à União. Além disso, a Petrobras será a operadora exclusiva.

Para a diretora de relações internacionais da Exxon Mobile, Carla Lacerda, a Petrobras terá todo controle sobre  a compra  de equipamentos, tecnologia e a contratação de pessoal, o que poderia prejudicar os fornecedores americanos.

A diretora de relações governamentais da Chevron, Patrícia Padral, vai mais longe, acusando o governo de fazer uso “político” do modelo.

Outra decisão bastante criticada é a criação da estatal PetroSal para administrar as novas reservas.

Fernando José Cunha, diretor-geral da Petrobras para África, Ásia, e Eurásia,  chega a dizer ao representante econômico do consulado que a nova empresa iria acabar minando recursos da Petrobrás. O único fim, para ele, seria político: “O PMDB precisa da sua própria empresa”.

Mesmo com tanta reclamação, o telegrama deixa claro que as empresas americanas querem ficar no Brasil para explorar o pré-sal.

Para a Exxon Mobile, o mercado brasileiro é atraente em especial considerando o acesso cada vez mais limitado às reservas no mundo todo.

“As regras sempre podem mudar depois”, teria afirmado Patrícia Padral, da Chevron.

Combatendo a lei

Essa mesma a postura teria sido transmitida pelo pré-candidtao do PSDB a presidência José Serra, segundo outro telegrama enviado a Washington em 2 de dezembro de 2009.

O telegrama intitulado “A indústria de petróleo vai conseguir combater a lei do pré-sal?” detalha a estratégia de lobby adotada pela indústria no Congresso.

Uma das maiores preocupações dos americanos era que o modelo favorecesse a competição chinesa, já que a empresa estatal da China, poderia oferecer mais lucros ao governo brasileiro.

Patrícia Padral teria reclamado da apatia da oposição: “O PSDB não apareceu neste debate”.

Segundo ela, José Serra se opunha à lei, mas não demonstrava “senso de urgência”. “Deixa esses caras (do PT) fazerem o que eles quiserem. As rodadas de licitações não vão acontecer, e aí nós vamos mostrar a todos que o modelo antigo funcionava… E nós mudaremos de volta”, teria dito o pré-candidato.

O jeito, segundo Padral, era se resignar. “Eles são os profissionais e nós somos os amadores”, teria dito sobre o assessor da presidência Marco Aurelio Garcia e o secretário de comunicação Franklin Martins, grandes articuladores da legislação.

“Com a indústria resignada com a aprovação da lei na Câmara dos Deputados, a estratégia agora é recrutar novos parceiros para trabalhar no Senado, buscando aprovar emendas essenciais na lei, assim como empurrar a decisão para depois das eleições de outubro”, conclui o telegrama do consulado.

Entre os parceiros, o OGX, do empresário Eike Batista, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) e a Confederação Naiconal das Indústrias (CNI).

“Lacerda, da Exxon, disse que a indústria planeja fazer um ‘marcação cerrada’ no Senado, mas, em todos os casos, a Exxon também iria trabalhar por conta própria para fazer lobby”.

Já a Chevron afirmou que o futuro embaixador, Thomas Shannon, poderia ter grande influência nesse debate – e pressionou pela confirmação do seu nome no Congresso americano.

“As empresas vão ter que ser cuidadosas”, conclui o documento. “Diversos contatos no Congresso (brasileiro) avaliam que, ao falar mais abertamente sobre o assunto, as empresas de petróleo estrangeiras correm o risco de galvanizar o sentimento nacionalista sobre o tema e prejudicar a sua causa”.

Fonte:http://cartacapitalwikileaks.wordpress.com/2010/12/13/nos-bastidores-o-lobby-pelo-pre-sal/

Por um juramento de Hipócrates para jornalistas

Por George Monbiot, do The Guardian, via Carta Maior

Estaria Murdoch acabado na Grã Bretanha? Com a perseguição de Gordon Brown pelo Sunday Times e The Sun levando o escândalo a novos cantos do império do velho Murdoch, essa história começa a se parecer como a da queda do Muro de Berlim. A tentativa de destruir Brown sob qualquer meio, incluindo as invasões dos prontuários de seu filho pequeno doente, significa que não há nenhum limite óbvio para ramificações da história.

O escândalo muda radicalmente a percepção pública de como funciona a política, o perigo que o poder corporativo representa para a democracia, e as medidas em que tem comprometido e corrompido a polícia, afundados a ponto de parecer um exército privado de Murdoch. A crise foi uma descarga eletrica para um parlamento sonolento e submeteu a profissão menos cobrada e mais corrupta da Grã-Bretanha – o jornalismo – a um escrutínio público tardio.

As rachaduras estão aparecendo nos lugares mais inesperados. Olhe para a admissão notável da colunista conservadora Janet Daley, nesta semana no Sunday Telegraph. “Jornalismo político britânico é basicamente um clube do qual políticos e jornalistas pertencem”, escreveu ela. “É essa familiaridade, essa intimidade, esse conjunto de pressupostos compartilhados… que é o corruptor verdadeiro da vida política. O espectro de auto-limitação do que pode e não pode ser dito… a covardia auto-reforçada, que toma como certo que determinados interesses são poderosos demais para valer a pena confrontar. Todas estas coisas são perigos constantes na vida política de qualquer democracia. ”

A maioria dos jornalistas nacionais está incorporada, imersa na sociedade, no conjunto de crenças e cultura das pessoas que eles deveriam manter sob escrutínio com o seu trabalho. Eles são fascinados pelas lutas de poder entre a elite, mas têm pouco interesse no conflito entre a elite e aqueles que por ela são dominados. Eles celebram os com agência [de relações públicas] e ignoram os sem.

Mas isto é apenas parte do problema. Daley parou antes de dar nome à força mais convincente: os interesses do dono e da classe empresarial a que pertence. O proprietário nomeia os editores à sua própria imagem – que costumam fazer valer seus pontos de vista sobre a sua equipe. Os editores de Murdoch, como aqueles que trabalham para outros proprietários, insistem que eles pensam e agem de forma independente.

É uma mentira exposta pela concordância de suas opiniões (quer dizer que foi coincidência que todos os 247 editores News Corp apoiassem a invasão do Iraque?), e pelo depoimento explosivo de Andrew Neil em 2008 no Parlamento, no comitê de comunicações.

Os jornais não podem anunciar que seu objetivo é serem os ventríloquos das preocupações dos multimilionários. Eles devem apresentar-se como a voz do povo. O The Sun, o Mail e o Express alegam representar os interesses dos trabalhadores. Esses interesses acabam por ser idênticos aos dos donos dos jornais.

Assim, os jornais de direita fazem dezenas de matérias tentando expôr fraudadores de benefícios, ainda que digam quase nada sobre as fraudes fiscais das corporações. Eles atacam sindicatos e a BBC. Eles censuram as regulamentações que restringem o poder corporativo. Eles nos vendem seus valores – o culto ao poder, ao dinheiro, à imagem e à fama – que os anunciantes amam, mas que fazem deste um país mais raso e egoísta. A maioria deles enganam seus leitores sobre as causas das mudanças climáticas. Estas não são os valores dos trabalhadores. Estes são os valores impostos a eles pelos multimilionários que possuem esses jornais.

A mídia corporativa é uma operação gigantesca “astroturfing”: uma cruzada popular falsa para servir aos interesses da elite. Neste contexto, as empresas de mídia se assemelham ao movimento Tea Party, que alega ser um espontânea manifestação operária contra a elite, mas foi fundada com a ajuda do bilionário Koch irmãos e promovido pela News de Murdoch Fox.

O principal objetivo do jornalismo é manter o poder sob escrutínio. Este propósito foi perfeitamente invertido. Colunistas e blogueiros são executores do poder corporativo, denunciando as pessoas que criticam seus interesses, atacando as novas ideias e os impotentes. Os barões da imprensa permitem aos governos ocasionalmente promover os interesses dos pobres, mas nunca para prejudicar os interesses dos ricos. Eles também tentam disciplinar o resto da mídia. A BBC, ao longo dos últimos 30 anos, tornou-se uma sombra da emissora que era, e agora tratam os grandes negócios com deferência. Todas as manhãs às 6h15 grandes executivos tem acesso na grande de programação que antes era reservado a Deus, em Pensamento do Dia.

Então, o que pode ser feito? Por causa da ameaça peculiar que eles representam para a democracia há um caso a ser feito para compreender a maioria dos interesses nas empresas de comunicação, e para a criação de um conselho público, nomeados talvez pelo parlamento, para atuar como um contrapeso aos interesses dos acionistas do ramo.

Mas mesmo que isso seja uma ideia viável, ainda é muito distante. Por enquanto, a melhor esperança é mobilizar os leitores para fazer com que os jornalistas respondam a eles, e não apenas a seus proprietários. Um meio de fazer isso é fazer uma pressão para que jornalistas se comprometam com uma espécie de juramento de Hipócrates. Aqui está um primeiro esboço. Espero que outros possam melhorá-lo. Idealmente, eu gostaria de ver a União Nacional de Jornalistas construir sobre ele e incentivar seus membros a assinar.

“Nossa tarefa principal é manter o poder sob escrutínio. Vamos priorizar aquelas histórias e questões que expõem os interesses do poder. Vamos ter cuidado com as relações que formamos com os ricos e poderosos, e garantir que nós não incorporaremos a sua sociedade. Nós não vamos agradar políticos, empresas ou outros grupos dominantes ao evitar reportagens que possam ser maléficas aos seus negócios, ou distorcer uma história para satisfazer seus interesses.

“Vamos enfrentar os interesses das empresas, e os anunciantes que as financiam. Nós nunca vamos receber para promover uma opinião em particular, e nós vamos resistir às tentativas de obrigar-nos a adotar uma.

“Vamos conhecer e compreender o poder que exercemos e como ele se origina. Vamos desafiar a nós mesmos e nossa percepção do mundo, tanto quanto desafiamos outras pessoas. Quando nós revelarmos errados, vamos reconhecer.”

Reconheço que isso não aborda diretamente as relações de poder que dirigem os jornais. Mas pode ajudar os jornalistas a determinar uma certa medida de independência, e os leitores a mantê-los nela. Assim como os eleitores devem pressionar seus deputados para representá-los, os leitores devem procurar levar os jornalistas para longe das demandas de seus editores. O juramento é uma ferramenta que poderia aumentar o poder dos leitores.

Se você não gostar, sugira uma ideia melhor. Algo tem que mudar: nunca mais uma meia dúzia de oligarcas pode a dominar e corromper a vida deste país.

Fonte: http://cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=18066