Marcos Coimbra (*)
Arquivo mensais:julho 2011
Articulações fisiológicas intensificam-se para eleição de 2012
A 15 meses das eleições municipais intensificam-se as articulações para a definição das candidaturas nos principais centros urbanos. Os grandes partidos põem na mesa ofertas de trocas de apoios nos municípios mais cobiçados. Até certo ponto, nada mais natural. Uma disputa eleitoral da envergadura do pleito municipal de 2012, que assume a feição de uma eleição intermediária, preparatória da correlação de forças que condicionará a corrida presidencial em 2014 sempre exigirá alianças.
No caso do Brasil, onde há diversidade de cenários, pode ser natural também que as alianças não sejam uniformes. Mas o espantoso é quando se perde toda a coerência e os parâmetros programáticos. Até mesmo a condição de ser governo e oposição no plano nacional é inteiramente posta à margem e o que passa a presidir as composições é o mais grosseiro e aberrante fisiologismo.
É o que se pode depreender das informações do jornal Valor desta quarta-feira (20), dando conta de que o DEM e o PMDB estão com conversas adiantadas para marcharem unidos nas eleições municipais em São Paulo e Salvador, em 2012. Segundo a estratégia que está a ser traçada nas conversações entre as cúpulas das duas formações, Gabriel Chalita (PMDB) seria o candidato à Prefeitura de São Paulo com apoio do DEM, que indicaria seu vice. Em troca, o PMDB apoiaria a candidatura de Antônio Carlos Magalhães Neto (DEM) na capital baiana, também podendo indicar o vice.
Como se sabe, o DEM é um partido da direita neoliberal e conservadora e faz uma oposição estridente ao governo da presidente Dilma, como fez ao ex-presidente Lula. O PMDB, que com muito favor poderia ser classificado como de centro, está bem instalado no governo e o seu dirigente é ninguém menos que Michel Temer, vice-presidente da República. Vale lembrar que Gabriel Chalita foi uma destacada liderança do PSDB e do governo também conservador e neoliberal de Geraldo Alckmin (PSDB). Teve uma efêmera passagem pelas fileiras do PSB, não por razões ideológicas, e recentemente se filiou ao PMDB, partido que considera mais adequado às suas ambições de conquistar a Prefeitura de São Paulo.
O jornal Valor reproduz declaração de um dirigente do DEM reveladoras de pensamento nada edificante para a grande política: “O PSDB está nessa zona de conforto, de achar que o DEM sempre irá com eles. Mas, até pela sobrevivência do partido, nosso jogo é nacional, precisa casar vários apoios pelo país”.
Em Salvador o DEM tem se articulado pela candidatura de ACM Neto, enquanto no PMDB a hipótese de lançar o radialista Mário Kertész, ex-prefeito da cidade por duas vezes, ganhou corpo nos últimos meses. Surge agora a hipótese de as duas siglas juntarem forças.
Enquanto isso, em São Paulo, os tucanos se engalfinham. O secretário estadual de Cultura, Andrea Matarazzo, reuniu-se na segunda-feira (18) com o governador Geraldo Alckmin para apresentar seu nome como candidato do PSDB à Prefeitura da capital paulista em 2012, acirrando a disputa interna pelo poder no partido. A decisão conta com apoio de parte da cúpula do PSDB paulista e altera a correlação de forças no partido na corrida municipal do ano que vem.
Apesar de deixar ainda mais distante a possibilidade de Serra disputar a Prefeitura, a indicação conta com o apoio do ex-governador e candidato derrotado na eleição presidencial. O nome de Matarazzo surge como uma alternativa da ala próxima a Serra em contraponto ao grupo do governador Alckmin, que flerta com alguns possíveis candidatos, mas sem ainda nenhuma definição oficial.
Os tucanos que defendem o nome do secretário o apontam como “novidade” na corrida eleitoral. Após revezamento entre Serra e Alckmin na disputa municipal pelo PSDB desde 1996, seria o momento de lançar um nome novo na eleição. “Acho que seria bom adiantar o relógio”, defende um dos caciques do partido, informa o jornal O Estado de S.Paulo.
Do Portal Vermelho com informações do Valor e de O Estado de S.Paulo
A luta para salvar a Primavera Árabe
Ghaith Abdul-Ahad, Jack Shenker, Nour Ali, Martin Chulov e Ian Black – The Guardian

As revoluções históricas que abalaram o mundo árabe ao longo deste ano estavam correndo o risco de colapsar quando, na noite de sexta-feira, os manifestantes voltaram às ruas para professar a sua repulsa à forma como o movimento está sendo bloqueado por regimes antigos e novos.
Seis meses após a primavera árabe derrubar o seu primeiro ditador, as principais praças do Cairo e de Túnis foram novamente palco de protestos, gás lacrimogêneo e fúria contra a resistência à mudança demonstrada pelas autoridades interinas nestes países. Na Síria, ativistas disseram que pelo menos 19 pessoas foram mortas na última repressão contra os protestos que têm convulsionado o país há mais de quatro meses. Pelo menos sete pessoas morreram no Iêmen em meio a um limbo político que parece não estar perto de uma solução. E na Jordânia um forte esquema de segurança policial acompanhou manifestações pró e anti-reforma que acabaram se tornando violentas.
As cenas serviram como um lembrete de que, após a euforia da primavera árabe, poucos avanços concretos na direção das reformas pretendidas ocorreram. As eleições na Tunísia e no Egito foram adiadas. As propostas de reforma no Iêmen e na Síria têm sido rejeitadas como inadequadas.
Egito
Milhares de manifestantes foram para praças públicas de todo o país, em uma “sexta-feira de advertência final” para a junta militar, em meio a temores de que a revolução que derrubou Hosni Mubarak está sendo traída por forças conservadoras.
Manifestações e greves de fome foram registradas desde Alexandria, na costa do Mediterrâneo, até Luxor no sul e Suez, no leste, com o foco principal, mais uma vez na praça Tahrir, no Cairo, onde um grande acampamento já dura mais de uma semana e não mostra sinais de acabar.
Os manifestantes acusam o Conselho Supremo das Forças Armadas (SCAF), que assumiu o poder após a queda de Mubarak e prometeu abrir caminho para um governo civil democraticamente eleito no final deste ano, de sufocar as demandas revolucionárias, trabalhando para proteger os elementos do velho regime de uma mudança política.
“Como muitos têm dito no Facebook, a relação entre o população e o SCAF é o mesmo que o relacionamento entre uma mulher e um marido que ela sabe que está sendo infiel”, disse Alaa El Shady Din, um manifestante na praça Tahrir.
“Ela tolera a infidelidade em um primeiro momento, em um esforço para não destruir a família e machucar as crianças, mas logo percebe que o marido não se importa nem um pouco com a família”, acrescentou.
“No começo nós mentimos para nós mesmos, nós queríamos acreditar que eles estavam conosco. Mas agora as ruas estão acordando e dizendo ao conselho “nós somos os governantes e vocês seguem as nossas ordens; não o contrário. Nós somos a maldita linha vermelha e vocês não devem atravessá-la”.
Assim como a maioria dos manifestantes, El Din estava furioso esta semana por um comunicado do porta-voz da SCAF, Mohsen El-Fangari, que alertou contra aqueles que procuram “perturbar a ordem pública” e adotou um tom que lembrou Mubarak em seus discursos finais à nação. A pressão está aumentando sobre o primeiro-ministro interino, Essam Sharaf, que parece incapaz ou não quer forçar mudanças políticas significativas em face da intransigência dos generais. Muitos de seus apoiadores originais começam agora a pedir sua saída.
Tunísia
Alguém que estivesse visitando a capital da Tunísia pela primeira vez não diria que uma revolta popular ocorrera ali nos últimos seis meses. Policiais armados com cassetetes, gás lacrimogêneo e cães reprimiam uma pequena multidão de manifestantes que se reuniu para expressar um sentimento amplamente difundido na cidade: que a revolução foi construída em cima da areia e acabou bloqueada por um governo que tem feito pouco para implementar as exigências dos revolucionários.
A sede do governo central (Qasbah) foi cercada por rolos de arame farpado e veículos blindados, enquanto os manifestantes com bandeiras tunisinas gritavam “paz, paz”. Então o problema começou. A primeira granada de gás vomitou uma espessa fumaça branca e foi rapidamente seguida por muitas outras. Os manifestantes correram para se esconder nas sombras da noite em meio a uma espessa nuvem de fumaça branca.
Dois homens se lançaram ao chão, de joelhos e com o peito nu, enfrentando a polícia. Um terceiro aparou uma boma de gás que passou girando e jogou-a de volta contra os policiais. Assim que a fumaça se dispersou, os manifestantes retornaram com o reforço de algumas centenas de pessoas. Alguns começaram a atirar pequenas pedras contra a polícia.
“As pessoas que me torturaram ainda estão lá”, disse Malek Khudaira apontando para o ministério onde foi mantido por 10 dias durante o levante que derrubou o ex-ditador Zine al-Abidine Ben Ali.
“Como eu posso sentir que há mudanças ou que houve uma revolução total, se tudo está a mesma coisa; eu vejo os torturadores andando nas ruas todos os dias.”
Por horas, seguiu-se um jogo de ataque e contra-ataque entre manifestantes e policiais. Os manifestantes marchavam e a polícia lançava bombas de gás no meio deles. Um homem de calça preta, camisa branca e óculos de sol estava de frente para a polícia quando um projétil atingiu sua barriga. Ele caiu onde estava e foi socorrido por outros manifestantes.
Os organizadores da manifestação chamaram-na de “Qasbah 3″. A número 1 foi o levante que derrubou Ben Ali e forçou-o a fugir. A número 2 foi a mobilização que derrubou o primeiro governo provisório, um mês depois.
Síria
Ativistas relataram pelo menos 19 mortes em toda a Síria e dezenas de feridos quando as pessoas se reuniam para suas orações semanais, que têm sido usadas como um ponto de mobilização para a dissidência há mais de quatro meses.
Pesados conflitos foram relatados em pontos da capital, segundo relatos e contas amplamente divergentes de ativistas e da mídia estatal. Pelo menos sete manifestantes foram mortos a tiros em bairros de Damasco, em mobilizações que reuniram algumas das maiores multidões já registradas desde que os protestos iniciaram.
As forças de segurança têm usado cassetetes e gás lacrimogêneo em Damasco para reprimtir os protestos no coração do poder do regime. Dezenas de pessoas ficaram feridas nas cidades de Aleppo, Deraa, Idleb e Homs.
As autoridades sírias novamente culparam grupos armados pela violência – uma referência indireta aos ativistas islâmicos acusados de tentar inflamar o “caos sectário”. No entanto, ativistas disseram que manifestantes desarmados foram novamente atacados por soldados que dispararam rajadas contra a multidão.
Os atos de violência tem sido imprevisíveis, mudando de local o tempo todo. Em Homs, um morador do bairro abastado de Inshaat disse que as forças de segurança pareciam estar tentando evitar mortes. “Eles foram atirando, mas pareciam estar visando as pernas e não as cabeças”.
Dois dos maiores protestos ocorreram em Hama e Deir Ezzor, num dia em que ativistas estimaram que até 1 milhão de pessoas podem ter desafiado abertamente o regime em todo o país.
Jordânia
Dez pessoas, a maioria delas jornalistas, ficaram feridas em Fridaywhen quando a polícia jordaniana intervir em confrontos entre manifestantes pró-reforma e partidários do governo em Amã.
Centenas de manifestantes pedindo mudanças políticas e um fim à corrupção se reuniram no centro da capital. Não ficou claro se eles iriam ignorar os avisos oficiais contra a realização de concentrações do tipos das realizadas no Egito e no Bahrein.
A Jordânia vive tumultos esporádicos desde janeiro, mas apenas em pequena escala. As demandas da oposição – apoiada por grupos de jovens, organizações da sociedade civil e os islâmicos – são para mudanças no quadro da monarquia Hachemita. O rei Abdullah assumiu o compromisso de implementar reformas que permitiriam a formação de futuros governos com base em uma maioria parlamentar eleita, mas não fixou data para cumprir a promessa.
O slogan “o povo quer a reforma do regime” esteve em flagrante contraste com as demandas e revoltas em outros países que pediram a “derrubada” dos governantes.
O protesto em Amã foi realizado com uma forte presença de forças de segurança, com a polícia e forças especiais cercando a área, disse o site Amom News.
Atos em defesa da reforma e contra a “corrupção desenfreada” também atraíram centenas de manifestantes nas cidades do sul de Tafileh, Maan e Karak, e em Irbid e Jerash, no norte.
Tradução: Marco Aurélio Weissheime
Fonte:
Crise avança mais rápida e forte e favorece avanço do novo sitema
Amir Khair
O sistema capitalista sofre seu mais duro golpe, ao evidenciar que é inviável por ser incapaz de controlar os fluxos financeiros que caminham com vida própria, independente da produção de bens e serviços da chamada economia real.
Ao invés de se apoiar no atendimento das necessidades de acesso da maior parte da população mundial especialmente das marginalizadas dos países ditos em desenvolvimento aos bens e serviços, endereçou sua expansão artificializando o excesso de consumo da população dos países do centro do capitalismo, (Estados Unidos, Europa e Japão). Essa artificialização se manifestou via empréstimos sem controle, ampliando volumes crescentes de títulos podres, que se espalharam como um câncer em expansão exponencial sem possibilidade de ser contido.
Partiu do princípio que esse sistema se auto-regularia, o que ficou evidenciado ser impossível. Está sendo duramente vitimado pela sua própria contradição interna, qual seja, ser incapaz de se desenvolver distribuindo os benefícios criados pelos trabalhadores e, pelo descontrole dos fluxos financeiros internacionais em busca desenfreada de lucros nas movimentações, que ultrapassam em volume centenas de vezes a movimentação de mercadorias.
• Recidiva – Nessa sequência está ficando cada vez mais clara a recidiva da crise de 2008, só que de forma mais ampla e virulenta. As avaliações de vários analistas que enfocam os problemas da zona do euro e dos Estados Unidos pioram dia a dia. Os países mais frágeis do sul da Europa não têm condições de resolver seus elevados déficits fiscais e reduzir suas dívidas, pois as medidas a que tiveram de se submeter de aperto fiscal e redução de salários e direitos criam, em contrapartida, efeito maior em queda de arrecadação, devido à redução da atividade econômica e elevação da inadimplência, pois os contribuintes passam a ter piores condições financeiras, e a primeira decisão que tomam é não pagar ou protelar o pagamento de impostos.
Assim, vai ficando mais claro que esses países não conseguirão pagar as prestações das dívidas que assumiram e os calotes irão se suceder atingindo o sistema financeiro privado em operação dominó, cujos reflexos podem ser de contaminação do sistema bancário de outros países como França, Alemanha e, como existem relações entre sistemas financeiros fortes entre Europa e Estados Unidos, este último poderá sentir os impactos financeiros, o que debilitaria ainda mais sua economia. Ao lado desse processo intensifica-se a mobilização social e manifestações públicas de reação da população atingida ou ameaçada pelas decisões de agravamento das condições de vida que usufruíam. Esse processo só tende a crescer.
Nos EUA, às voltas com o desenlace da autorização do Congresso para a elevação do teto da dívida do governo, a disputa política e a visão fiscal entre democratas e republicanos pode causar um trauma de proporções inimagináveis caso o acordo não saia. Os títulos americanos já sofreram a ameaça de rebaixamento nas agências de classificação de risco e, a economia até agora não eu sinais de recuperação do golpe sofrido em 2008, com elevado nível de desemprego, fragilidade no consumo interno e pouca competitividade externa face ao mercado internacional mais concorrencial, especialmente devido à posição agressiva das exportações do leste asiático, com destaque para a China.
Para agravar ainda mais esse quadro, a agência de classificação de risco Moody”s anunciou dia 13 ter colocado em revisão para potencial rebaixamento o rating soberano dos Estados Unidos, devido à possibilidade de o limite de endividamento não ser elevado em momento oportuno e, dessa forma, levar o país a declarar calote em suas obrigações de dívidas.
A Moody”s também colocou os ratings de instituições financeiras diretamente ligadas ao governo dos EUA em revisão para potencial rebaixamento. Entre elas, estão a Fannie Mae e a Freddie Mac.
Em abril, a Standard & Poor”s reduziu a perspectiva da classificação de estável para negativa, pois “Mais de dois anos depois do começo da crise, os formadores de política dos EUA ainda não chegaram a um acordo sobre como reverter a recente deterioração fiscal ou solucionar as pressões fiscais de longo prazo”.
• Solução coordenada – Parece que não existe mais a possibilidade de uma solução coordenada de salvamento das economias dos países mais frágeis da zona do euro, nem perspectivas sólidas e duradouras de acordo para ampliar o limite de endividamento dos EUA. Há sérios riscos de empurrar o problema para frente tornando-o impossível de ser resolvido.
Esses países vão sentindo os golpes e o que prevalece é o salve-se quem puder. A crise de 2008 não conseguiu estabelecer regras para controlar os fluxos financeiros internacionais, que comandam o sistema capitalista e nem conseguirão agora, pois é da essência desse sistema ter vida própria, o que o vitimiza.
• Novo sistema - A China vem desenvolvendo, há mais de vinte anos, sistema próprio de um misto de capitalismo, abrindo espaços a iniciativas privadas e recebendo o ingresso de capitais e empresas de fora, mas sob controle do Estado e com plano estratégico de desenvolvimento. Como tem elevado exército de reserva no campo, os salários são baixos em relação à maioria dos países e seus trabalhadores não contam com a proteção da seguridade social. Com essa precarização do custo da mão de obra conseguem deslocar produtos de outros países no comércio internacional e continuam penetrando cada vez mais seus produtos em mercados que têm custos de mão de obra mais elevados. Seu calcanhar de Aquiles é que nesse processo os trabalhadores irão progressivamente reivindicar melhores condições salariais e de proteção do Estado, o que elevará gradualmente seus custos de produção. Temendo os reflexos de se apoiar em excesso no mercado externo o novo plano do Partido chinês é se voltar para buscar centrar sua expansão mais voltada para seu mercado interno, à semelhança do que já vem sendo feito por vários países emergentes.
• Trabalho x Trabalho – A lógica do sistema capitalista, em sua evolução, evidencia, com clareza, séria disputa entre trabalhadores no confronto internacional. Há deslocamentos de empregos e movimentos migratórios com ou sem controle na busca de oportunidades de trabalho. A tendência que parece natural, mas que precisa ser acompanhada e analisada é de um menor distanciamento entre custos de trabalho entre países, uma vez que a tecnologia pode se deslocar para sistemas produtivos sem maiores problemas, e essa tecnologia é mais diversificada e em forte processo de desenvolvimento. Não será surpresa se ocorrer gradualmente redução dos salários nos países hoje desenvolvidos e elevação nos emergentes dentro desse processo.
Em escala global isso pode ser um avanço, mas repito, é um processo a ser acompanhado e analisado, cabendo aos governos dos países adotarem estratégias de redução dos custos de reprodução da mão de obra, especialmente os relativos à alimentação, transporte, moradia, saúde, assistência social, bem como proteção ao emprego e preparo técnico da mão de obra. É a melhor forma de proteção de seus trabalhadores dentro dessa disputa internacional de custos de trabalho.
• Brasil – No caso desta recidiva da crise, o Brasil não pode titubear e continuar seguindo o que dita o mercado financeiro e os economistas ortodoxos e conservadores, com amplo espaço de expressão na mídia, criando um verdadeiro efeito manada, de sob o pretexto do risco da inflação – que depende mais de fora do que de dentro – pisar no freio da economia. Ao contrário, deve reforçar políticas de distribuição de renda para ampliar sua base interna de consumo, em doses bem mais acentuadas do que os programas de renda, miséria e habitação já anunciados. Representam apenas cerca de 1,1% do PIB. Deve imediatamente reduzir as taxas de juros bancários do governo (Selic) e dos bancos, as mais elevadas do mundo e causas centrais dos prejuízos que o País tem. O governo tem que botar limites e penalizações fortes sobre as taxas de juros e tarifas exorbitantes dos bancos. Tem poder para isso, mas não o exerce, pois está submisso e conivente ao poder do mercado financeiro.
Só de juros são jogados no lixo cerca de 6% do PIB todo o ano, o que obriga a se ter uma carga tributária onerosa, que causa informalização de empresas e empregos. Há que deslocar os benefícios da produção do sistema financeiro para a base da pirâmide social. Temos alto potencial de mercado interno disponível e elevados déficits sociais e de infraestrutura, que nos dificulta a concorrência com outros países e criam problemas sociais que poderiam não existir na magnitude atual.
Nesse sentido, o governo deveria tomar as rédeas da economia elevando as transferências de renda e reduzindo os custos com juros. Quanto mais demorar pior será para enfrentar os problemas existentes e os que virão importados, que são imprevisíveis em seus efeitos danosos ao País.
Fonte: http://cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=18073
O real pode ir para o ralo
Cesar Fonseca
A moeda, como todos sabem, é mero efeito reflexo, puro fetichismo. O que segura o poder de compra dela, nas economias monetárias? A crença do mercado na capacidade de endividamento dos governos que emitem as moedas sem lastro. O dólar e o euro estão dançando por quê?
O mercado e as agências classificadoras de crédito estão de olho, desconfiados. O dólar já foge dos EUA, como fugiu do Brasil, Argentina e outras praças, por que? Até quando o real desfrutará da confiança dos banqueiros? Até quando o governo brasileiro tiver fôlego para endividar.
Com esse juro que o Tombini insiste em manter elevado, podendo aumentá-lo, ainda mais, nessa quarta feira, num mundo onde o juro é zero ou negativo, nos países ricos, o fôlego do BC para enxugar gelo tem limite. A inflação que está na barriga da dívida, que cresce, dialeticamente, no lugar dela, pode virar hiperinflação, se o mercado financeiro começar a desconfiar que a jogada do BC, se o juro não cair, é suicida. Os economicidas estão no poder.
Vamos raciocinar. Parece loucura, dirão por aí, mas o real pode dançar, se perdurar a política louca de sustentação do juro alto, mantido pelo aliado de Barack Obama, presidente do BC, Alexandre Tombini, em nome do combate à inflação. Senão, vejamos.
Quanto mais Barack sustenta política monetária expansionista, de um lado, e Dilma Rousseff, de outro, avaliza política monetarista do BC, orientada pelo juro pós-fixado especulativo(jabuticada bancocrática) que financia o endividamento governamental, mais o real, diante do dólar sobredesvalorizado, sobrevaloriza, mais aumenta a dívida, que, sob impacto do juro alto, vira bola de neve.
Quem fica superassustado com isso? Aqueles que compram os títulos do governo. Não foi essa jogada que jogou a Grécia no buraco, também, a Itália, a Irlanda, a Espanha e, por que não, os Estados Unidos? Os banqueiros diante dos governos superendividados exigem juro mais alto, porque o risco fica alto. É a regra geral das crises. Suponhamos que o Congresso americano, depois de muito vai e vem, aprove o aumento do teto do endividamento.
Vocês acham que o dólar ficará mais valorizado por conta disso? Produzirá improvável, por enquanto, subida do juro nos Estados Unidos ou pode dar o contrário? Bernanke, o presidente do FED, já anunciou que a expansão monetária tende a continuar. Por que? Imagine se o governo sobe o juro para enxugar uma parte da enxurrada de dólar que lançou na circulação.
Para onde iria a dívida que Obama quer expandir para que seu governo possa continuar pagando suas contas? Para as nuvens, claro. Daria razão aos republicanos que estão pregando catastrofismo, se a dívida aumentar. Se Obama não puder aumentar o teto do endividamento, terá que dar calote. Será o Deus nos acuda. Se puder aumentar, a vulnerabilidade continuaria, a menos que eleve os juros. Mas, se fizer isso, a dívida sobe ainda mais e os compradores dos títulos de Tio Sam resistiriam em continuar estocando a papelada.
Quer dizer, se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Assim, não está de todo doida a análise de que Obama quer mesmo é continuar desvalorizando o dólar, via aumento do endividamento, para tirar os Estados Unidos da recessão, enquanto compromete a capacidade de endividamento dos aliados, como o Brasil, na medida em que valoriza o real brasileiro, promovendo a instabilidade monetária na terra dos outros. Está em jogo a sobrevivência dos bancos americanos.
Se o juro sobe depois do aumento do teto da dívida, o fôlego do tesouro de Tio Sam poderia ficar curtíssimo. Pintaria calote nos bancos. Se sobe o teto da dívida, mas mantem o juro baixo, os bancos se salvariam e o prejuízo seria transferido para quem mantém juro alto. Quem? Brasil. Por isso, ou o Governo Dilma cerca esse dólar doido varrido, que produzirá estragos gerais, ou o real pode ir para o buraco, embora tenha a avalizá-lo as reservas do pré-sal, as de minério, a extensão territorial que transforma o Brasil no maior produtor mundial de alimentos, as reservas bilionárias que continuarão se desvalorizando etc.
Afinal, não vai ser possível continuar suportando por muito tempo o endividamento movido a juro alto tombiniano para enxugar os dólares que Obama recusa a enxugar, na medida em que segura, nos Estados Unidos, a taxa de juro na casa dos zero ou negativa. A taxa de juro, no capitalismo tocado pela dívida do governo, está condenada a permanecer no chão.Se tem Tombini para fazer o serviço do lado de cá, por que Barack vai se preocupar do lado de lá? Nesse contexto, tanto se houver calote ou não, nos isteites, o destino do real nacional correrá risco.
Neodólar à vista?
Alguém duvida que possa acontecer com o dólar o que aconteceu com o cruzado brasileiro quando se viu diante de hiperinflação decorrente da falência financeira do governo?
Os Estados Unidos poderiam mudar a moeda? Não seria a primeira nem a última vez que essa jogada é feita pelos governos financeiramente falidos. Morreria o dólar, nasceria um superdólar, novinho em folha, depois de passar pela experiência da URV brasileira, que antecedeu ao real que substituiu o cruzeiro, lembram?
A moeda é puro fetichismo, expressão invertida do poder de compra fotográfico. Os americanos poderão dizer como disseram os brasileiros na véspera de lançamento do real: não é a economia que vai mal, mas, sim, as finanças do governo. Por isso, fazendo uma mágica, quem sabe?
O que o BC fará com suas reservas de 207 bilhões de dólares aplicados nos títulos da dívida pública de Tio Sam que poderão virar pó, se o tesouro americano não puder resgatá-los, já que perderá a confiança do mercado diante da impossibilidade de continuar emitindo novos títulos?
Não teria sido melhor jogar uma parte dessas reservas no PAC a fim de promover o desenvolvimento dilmista? Não tem aquela estória de distribuir os ovos? Por que numa cesta, só, na de Tio Sam? Não seria, também, mais interessante utilizar essa grana preta para liquidar os créditos dos governos estaduais junto ao governo federal garantidos pela Lei Kandir?
Os governadores, que estão querendo desobedecer a Lei de Responsabilidade Fiscal, para ampliarem o limite de endividamento estadual contraídos com o tesouro nacional, desistiriam dessa empreitada, porque teriam amplos recursos para tocarem o desenvolvimento regional.
O retorno dos investimentos nesse sentido não geraria mais lucros do que a merreca que o BC arrecada aplicando as reservas nos juros negativos mantidos pelo tesouro dos Estados Unidos? Os executivos estaduais, ao jogarem o dinheiro na circulação, baixariam seu custo, elevariam os investimentos, a renda, o emprego, o consumo, a arrecadação e, claro, os investimentos etc.
Certamente, esse movimento econômico financeiro, jogado no desenvolvimento, daria mais retorno ao capital aplicado do que ficar trabalhando de graça para Tio Sam, que está se transformando no maior caloteiro do planeta terra. Já, se não houver calote, o Real poderia ou não dançar, correndo o risco de a moeda brasileira sofrer ataques cambiais, overshooting, etc?
Tudo está na dependência da capacidade de endividamento do governo. Se a dívida não subir demais, tudo bem. Os credores continuarão acreditando… Mas, se ela subir, descontroladamente, babau. Isso pode acontecer? Claro. Basta Tombini manter o juro nas alturas celestiais, prometendo subir mais. Até quando?
Itamar Franco , o criador do real, exibe o fetichismo das mercadorias, ou seja, a moeda nacional que nasceu dos escombros da hiperinflação. Mas, teria vida eterna essa criatura ou iria até onde pudesse ser levado o endividamento do governo, que, nas economias monetárias, emitem os papéis que ganham os mercados, são comprados pelos bancos, que neles acreditam até que desconfiam da capacidade de endividamento desse cliente duvidoso, como demonstram ser, nesse momento, os governos dos países mais ricos do mundo?
“Tudo muda, só não muda a lei do movimento, segundo a qual tudo muda”(Hegel).
Não se deve esquecer que, no final da Era FHC, o real abriu o bico. Os gênios, que bolaram o programa, quiseram desindustrializar o País, como fez Gustavo Frango, jogando o dólar para ser cotado em R$ 0,80, enquanto subiram os juros, que alcançaram a casa dos 45%. Lembram? Loucura total! Até os especuladores assustaram com tanto milagre. Fugiram com medo.
A esmola quando é demais o santo desconfia. Fuga cambial. A inflação estava voltando braba no final de 2002. Os tucanos, espertos, disseram que os preços estavam subindo porque os credores estavam com medo de que os petistas dessem calote na dívida pública.
Obrigaram Lula a assinar a Carta aos Brasileiros, como passaporte para chegarem ao poder, já que a vitória do PT seria certa. Inverteram a realidade. Eles quebraram o país, promovendo endividamento, graças ao populismo cambial, que garantiu a reeleição de FHC, mas, espertamente, tentaram fazer a sociedade acreditar que a ameaça real não era eles, mas o PT! Então, é isso, minha gente. O Plano Real só não foi para o ralo porque, na ocasião, Bill Clinton, então, presidente dos EUA, mandou o FMI emprestar o dinheiro para os tucanos que haviam metido os pés pelas mãos. Na sequência do socorro clintoniano, quem salvou o plano foram os petistas.
Promoveram, depois do ajuste na economia, em 2003, a melhor distribuição da renda, desovando os estoques e impedindo desvalorizações cambiais radicais, a fim de exportar o produto nacional a qualquer custo, colhendo, como resultado a inflação incontrolável, como ocorria antigamente, quando a oferta não era realizada por falta de consumo da população mais pobre esfomeada.
Foi a distribuição da renda que controlou a inflação. Maiores gastos públicos com os programas sociais incrementaram o consumo, a produção, o emprego, a renda e, consequentemente, a arrecadação, que garantiu o PAC. As pressões inflacionárias, agora de volta, decorrem não dos gastos do governo para acabar com a fome do povo, sabendo que esses investimentos sociais dão retorno seguro ao capital estatal investido, mas da especulação financeira que acelerou com a sobredesvalorização do dólar sob impacto do juro alto. Este elevou o endividamento e o risco que, claro, traduz-se em juro alto. O FMI está certíssimo.
É o juro que eleva a inflação na medida em que bombeia o deficit que eleva o juro. Assim, a expansão da dívida pública interna brasileira no compasso da política monetária praticada por Obama, cuja continuidade está escrita nas estrelas, para tentar salvar o colosso imperialista que abriu o bico, representa a maior ameaça ao real, dado o risco cambial produzido pela continuidade do juro alto mantido pelo BC em nome do (falso) combate à inflação. Cuidado com o Tombini, Dilma.
Fonte: http://www.patrialatina.com.br/colunaconteudo.php?idprog=100d9f30ca54b18d14821dc88fea0631&cod=2181
Dívida dos EUA: há blefes, mas crise é profunda
Brizola Neto (*)
Embora, como já se afirmou diversas vezes aqui, exista um jogo político-eleitoral envolvido nesta questão da autorização do Congresso para que os EUA aumentem o seu limite de endividamento e não caiam em moratória, não é apenas isso que está motivando esta crise que ameaça lançar a economia mundial no torvelinho de uma nova crise.
Os Estados Unidos, que já há muito tempo vinham em decadência econômica, parecem mesmo ter entrado em outro patamar e não responde mesmo aos generosos pacotes de expansão monetária lançados pelo Federal Reserve – o BC deles - e que ficaram conhecidos como “Quantitative Easing”.
Tudo indica que, pelas dificuldades que tem sido encontradas em estabelecer um acordo, que este, quando sair, seja apenas um remendo provisório.
E que vão se fixar mais em cortes de programas sociais e militares do Governo – com efeitos de “esfriar” a economia americana, o que vão obrigar a uma nova política de emissões de dinheiro novo.
Os capitais passaram a tratar os EUA como um lugar perigoso para viver. O país, que tem saldo comercial negativo, historicamente, e que prospera com o fluxo de capitais em sua direção, anunciou hoje que houve uma perda líquida de US$ 67 bilhões em suas trocas financeiras com o exterior. O investimento em títulos do Tesouro americano caiu 23% em maio, com compras de US $ 23,6 bilhões contra US$ 30,6 bilhões em abril. Deus sabe o que serão os números de junho e julho.
E quase um terço destas compras foram feitas pela China – US$ 7,3 bi – e o saldo chinês em títulos – o maior do mundo – já chega perto de 10% de toda a dívida pública americana.
Por isso, não soa tão estranho o que há algum tempo pareceria simples loucura. O economista Michael Etllinger, vice-presidente do Centro para o Progresso Americano – uma instituição liderada por John Podesta, ex-chefe do staff de Bill Clinton na casa branca – já prevê que os EUA entrem em novo ciclo recessivo e que dependa da “generosidade” de países com amplas reservas internacionais e/ou fundos soberanos para sanear suas finanças. “A China seria uma óbvia fonte de ajuda. Mas o economista também considera possível uma iniciativa do Brasil”.
E ajudariam, porque? Porque, segundo ele, “não interessa a nenhuma economia, especialmente às emergentes, conviver de novo com a queda das importações americanas e dos preços das commodities, com outro risco de colapso no sistema financeiro e com uma segunda queda na atividade mundial em apenas três anos.”
Os brasileiros, não, sei, têm fama de “bonzinhos”. Mas os chineses, pode crer, vão cobrar caríssimo por essa “ajuda”, nada desinteressada.
Fonte: http://www.tijolaco.com/divida-dos-eua-ha-blefes-mas-crise-e-profunda/
Os senadores mais baratos da república
Um carro com motorista e tanque cheio para circular à vontade por Brasília. Moradia, passagens aéreas e conta telefônica residencial pagas, assim como o celular, de uso ilimitado. Plano de saúde gratuito e vitalício. Gráfica para imprimir suas publicações. Um qualificado corpo de 170 consultores legislativos e toda uma estrutura de radiodifusão ao seu dispor. Verba de R$ 82 mil para contratar funcionários, além do salário de R$ 26,7 mil. Apesar desses e outros benefícios, apenas oito senadores abriram mão de pedir ao Senado reembolso de despesas no primeiro semestre.
Cristovam Buarque (PDT-DF), Eduardo Braga (PMDB-AM), Eunício Oliveira (PMDB-CE), José Sarney (PMDB-AP), Lobão Filho (PMDB-MA), Pedro Simon (PMDB-RS) e Rodrigo Rollemberg (PSB-DF), além de Itamar Franco (PPS-MG), recentemente falecido, são os únicos senadores que ainda não tocaram na chamada verba indenizatória – benefício anual de até R$ 180 mil a que os parlamentares têm direito para cobrir despesas com aluguel de imóvel e veículos, inclusive combustíveis, alimentação, hospedagem, consultoria e publicidade das atividades relacionadas ao mandato.
Mas essa situação deve mudar com a decisão da Mesa Diretora de unificar a verba para ressarcimento de gastos com a verba para passagens aéreas e criar o chamado “cotão”, a Cota para o Exercício da Atividade Parlamentar dos Senadores (Ceaps). Uma mudança que tem desagrado aos senadores que se recusam a usar a verba indenizatória, alegando que a estrutura oferecida pela Casa já é suficiente para garantir ao parlamentar todas as condições para exercer seu mandato na plenitude.
“Nunca utilizei nem quero usar a verba indenizatória. Mas estão unificando com a cota de passagens para obrigar todo mundo a usar”, reclama Pedro Simon, que nunca fez uso do benefício em seus 28 anos de Senado. “Não utilizei este ano. Mas vai ser difícil não usar daqui pra frente por causa das passagens”, reconhece Cristovam Buarque. O peemedebista e o pedetista dizem que tiraram do próprio bolso dinheiro para custear as passagens aéreas utilizadas em junho e julho para evitar recorrer à recém-criada Cota para o Exercício da Atividade Parlamentar, que unificou os dois benefícios.
As regras da Ceap foram assinadas pelo primeiro-secretário da Mesa, Cícero Lucena (PSDB-PB), e publicadas no Boletim Administrativo do Senado no último dia 3 de junho. A unificação já havia sido aprovada pelos demais integrantes da Mesa Diretora no final de maio. Com a mudança, segundo o Senado, cada parlamentar passa a ser responsável pela compra de suas passagens, sem precisar recorrer a uma agência de turismo, contratada pelo Senado ao custo anual de R$ 22 milhões.
“Por um lado, eles dizem que isso vai baratear o preço da passagem, já que não haverá mais a agência de turismo intermediando. Mas, por outro, isso vai dar a impressão de que os senadores estão usando a verba da passagem em outras coisas”, avalia Cristovam.
Mesmo já morando em Brasília, os senadores do Distrito Federal têm direito a R$ 6 mil em passagens aéreas por mês, mesmo valor disponível para seus colegas goianos. Cristovam diz que o benefício é necessário para o mandato. “Não somos senadores do DF, mas da República. Minha luta pela educação não é brasiliense, é nacional. Tenho de debater em todo o país. E não vou viajar com dinheiro pago por empresa”, afirma o senador, que foi ministro da Educação no primeiro ano do governo Lula.
Não há necessidade da verba
Também senador pelo Distrito Federal, Rodrigo Rollemberg diz que a estrutura oferecida pelo Senado é muito melhor que a da Câmara, onde ele atuou na legislatura passada, e que não viu, ainda, necessidade de usar a verba indenizatória.
“Sempre fui muito rigoroso com o uso da verba. Usava pouco na Câmara. Mas no Senado não vi necessidade de usar porque a Casa oferece melhores condições. Aqui nós temos a gráfica para imprimir nossas publicações. Quando tenho de viajar, vou com passagens no âmbito da comissão que presido”, diz o presidente da Comissão de Meio Ambiente, Defesa do Consumidor e Fiscalização e Controle.
Pedro Simon é outro que se diz satisfeito com o que o Senado oferece. Ele critica o uso feito pelos colegas. “Acho ridículo um senador alugar um carro ou jantar num restaurante e depois mandar a conta para o Senado. O senador já ganha o dinheiro que tinha de ganhar”, afirma o peemedebista.
O senador conta que não mantém escritório de apoio no estado, ao contrário da maioria de seus colegas. Simon diz que usa a estrutura do próprio PMDB para receber, em audiência, eleitores e representantes de entidade que o procuram em sua base eleitoral. E que também recorre aos correligionários para se deslocar pelo interior gaúcho, por meio de carona. “Para divulgar meu mandato, a gráfica do Senado imprime duas publicações minhas por ano, uma com discursos e outra com artigos”, explica. A divulgação das ações do mandato também pode ser ressarcida pelos parlamentares. O interesse por esse tipo de publicidade é maior em ano eleitoral.
Mas a opinião de Simon de que a verba é desnecessária está longe de ser consensual. Mesmo alguns dos senadores que ainda não pediram reembolso à Casa este ano consideram o benefício útil para o exercício do mandato. “Acho importante e vou usar a verba no segundo semestre. Apenas estamos fazendo um plano para melhor utilizá-la, com eficiência e racionalidade”, adianta Eduardo Braga (PMDB-AM), em seu primeiro mandato na Casa.
Mal compreendido
Cristovam Buarque reconhece que já usou a verba e que deixou de utilizá-la porque o benefício é mal compreendido pela sociedade de maneira geral. “A população não entende isso como um trabalho. Sempre fui cuidadoso no uso. Eu gastava para publicar um jornal para distribuir minhas idéias. Não usá-la sacrifica um pouco o mandato”, avalia.
Rodrigo Rollemberg também vai pelo mesmo raciocínio. “A questão é usá-la estritamente dentro do mandato. Por isso, é importante que a gente aumente os instrumentos de controle e fiscalização para evitar abusos”, diz o senador.
Ele entende que o Senado deveria dar mais transparência aos benefícios dos parlamentares. Para Rollemberg, seria necessário que a Casa divulgasse a íntegra das notas fiscais apresentadas pelos senadores e verificasse se aquelas empresas realmente existem.
Convento
Até o ano passado, o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), usou parte de sua verba indenizatória para custear o Memorial no Convento das Mercês, que reúne seu acervo particular em São Luís (MA). Em 2011, porém, o senador abriu mão do benefício. Como presidente do Senado, porém, Sarney dispõe de algumas benesses que os demais não têm, como a estrutura da residência oficial da presidência, por exemplo, que ele usa para reuniões e outras atividades.
A assessoria do senador Eunício de Oliveira, que também não fez uso da cota, informou que ele não pretende pedir reembolso de suas despesas ao Senado. O gabinete de Lobão Filho disse que o senador só poderia retornar o contato da reportagem nesta segunda-feira.
A cota não utilizada num mês é acumulada para o mês seguinte, o que permite ao parlamentar extrapolar o limite mensal sempre que quiser, desde que tenha economizado em outro período. Eles têm até 90 dias, terminado o exercício fiscal (31 de março de cada ano), para pedir o ressarcimento de suas despesas.
Fonte: http://congressoemfoco.uol.com.br/noticias/conheca-os-oito-senadores-mais-baratos-da-republica/


