Arquivo mensais:julho 2011

Para refletir sobre a ex-compra do Carrefour

Por Brizola Neto

Sei que muitas pessoas se opuseram, de boa-fé, à operação do BNDES que visava abocanhar, com a associação ao Paão de Açúcar, um naco da rede francesa Carrefour, a segunda maior do mundo.

Também a mim, como à grande maioria das pessoas, donos de supermercados não são exatamente as pessoas mais simpáticas do planeta.

E houve uma falha gravíssima de comunicação que fez com que muitos entendessem que isso era “uma ajuda” a Abílio Diniz e um desperdício de recursos do BNDES que, muitos pensam, devem ser aplicados apenas onde a iniciativa privada não quer por dinheiro. E não em oportunidades de negócio que afirmem o país e abram, senão diretamente mercados, as portas para os mercados no exterior.

Tinha tudo para ser um negócio altamente lucrativo para a subsidiária do BNDES que opera as participações acionárias do banco, captando dinheiro no mercado e reinjetando seus lucros no próprio BNDES, até para financiar seus empréstimos a baixo custo para aqueles setores menos ou nada lucrativos.

Agora, não vai passar muito tempo até que o Walmart compre a rede francesa, ficando com 25% do mercado, além dos 18% do Pão de Açúcar ficarem com os franceses do grupo Casino, que deve expelir Diniz do comendo da empresa ano que vem.

Com toda a humildade e sem querer ser dono da verdade, transcrevo um trecho da coluna de Patrícia Campos Mello, da Folha, especialista em política e economia internacional e estudiosa dos fenômenos da China e da Índia, publicada hoje.

E reflitam sobre aquela frustrada operação à luz do que ela informa. Chineses e hindus não chegaram aonde chegaram rezando na cartilha do liberalismo econômico, onde o Estado não entra senão em maus negócios.

Tal como a UE (União Europeia), os EUA encaram o Brasil como alvo prioritário no programa “exportar para sair da crise”. Quando veio ao Brasil, em março, o presidente Barack Obama deixou claro que aumentar as vendas de produtos americanos para o Brasil era um dos principais objetivos dos EUA. Autoridades americanas chegaram a ser pouco diplomáticas ao declarar que a viagem era “fundamentalmente a respeito da recuperação econômica e exportações americanas”, como disse o vice-conselheiro de segurança nacional Mike Froman, responsável por assuntos econômicos internacionais.

“As exportações para o Brasil geram 250 mil empregos nos EUA; metade da população do Brasil é hoje considerada classe média e isso cria grande oportunidade.”

Enquanto as duas combalidas velhas potências lutam por um naco do saboroso mercado interno brasileiro, o Brasil vai às compras na UE em liquidação. A Comissão Europeia acaba de aprovar a compra de quatros empresas espanholas e uma alemã pela CSN. A CSN comprou a siderúrgica alemã Stahlwerk Thüringen GmbH e quatro companhias que pertencem ao grupo espanhol Alfonso Gallardo: Cementos Balboa, Corrigados Azpeitia e Corrugados Lasao.

O BNDES financiou a aquisição da CSN, perdeu dinheiro no processo de descruzamento de ações que a tirou da também financiada compra da Vale, tudo no luminoso governo neoliberal de Fernando Henrique.  E  muitos dos que achavam “imoral” o negócio da compra de parte do Carrefour na França acharam bonito usar o mesmo dinheiro para os doar as estatais.

Os “anjinhos” não são sempre tão angelicais, não.

Fonte: http://www.tijolaco.com/para-refletir-sobre-a-ex-compra-do-carrefour/

Mídia golpista convoca protestos de rua

Por Altamiro Borges

Testando o clima político, a mídia demotucana tem atiçado os seus leitores, telespectadores e ouvintes para sentir se há condições para a convocação de protestos de rua contra o governo Dilma. O mote dos filhotes de Murdoch seria o do combate à corrupção, o da “ética”. A experiência a copiar seria a da “revolução dos indignados” na Espanha.

Na prática, o objetivo seria o de reeditar as “Marchas com Deus”, que prepararam o clima para o golpe de 1964, ou o finado movimento Cansei, de meados de 2007, que reuniu a direita paulistana, os barões da mídia e alguns artistas globais no coro do “Fora Lula”. Até agora, o teste não rendeu os frutos desejados. Mas a mídia golpista insiste!

Visão conspirativa?

A idéia acima exposta pode até parecer conspirativa, amalucada. Mas é bom ficar esperto. Nos últimos dias, vários “calunistas” da imprensa têm conclamado a sociedade, em especial a manipulável “classe média”, a se rebelar contra os rumos do país. Parece algo articulado – “una solo voz”, como se diz na Venezuela sobre a ação golpista da mídia.

O primeiro a insuflar a revolta foi Juan Arias, correspondente do jornal espanhol El País, num artigo de 11 de julho. O repórter, que adora falar besteiras sobre o Brasil, criticou a passividade dos nativos, chegando a insinuar que impera no país a cultura de que “todos são ladrões”. Clamando pela realização de protestos de rua, ele provocou: “Será que os brasileiros não sabem reagir à hipocrisia e à falta de ética de muitos dos que os governam”.

O Globo e Folha

Logo na sequência, dia 17, O Globo publicou reportagem com o mesmo tom incendiário. O jornal quis saber por que o povo não sai às ruas contra a corrupção no governo Dilma. Curiosamente, o que prova as péssimas intenções da famiglia Marinho, o diário só não publicou as respostas do MST, que desmascaram as tramas das elites (leia aqui).

Já nesta semana, o jornal FSP (Folha Serra Presidente) entrou em campo para reforçar o coro dos “indignados”. No artigo “Por que não reagimos”, de terça-feira (19), o colunista Fernando de Barros e Silva, que nunca escondeu a sua aversão às forças de esquerda, relembrou a falsa retórica udenista do falecido Cansei:

O resmungo dos “calunistas”

“Por que os brasileiros não reagem à corrupção? Por que a indignação resulta apenas numa carta enviada à redação ou numa coluna de jornal. Por que ela não se transforma em revolta, não mobiliza as pessoas, não toma as ruas? Por que tudo, no Brasil, termina em Carnaval ou em resmungo?”.

Hoje, 21, foi a vez de Eliane Cantanhêde, a da “massa cheirosa do PSDB”. Após exigir que Dilma seja mais dura contra a corrupção, ela cobra uma reação da sociedade. “A corrupção virou uma epidemia… E os brasileiros que estudam, trabalham, pagam impostos e já pintaram a cara contra Collor, não estão nem aí? Há um silêncio ensurdecedor”.

Seletividade da mídia

Como se observa, o discurso é o mesmo. Ele conclama o povo a ir às ruas contra a corrupção… no governo Dilma. De quebra, ainda tenta cravar uma cunha entre a atual presidenta e o seu antecessor. A corrupção seria uma “herança maldita” de Lula. A intenção não é a de apurar as denúncias e punir os culpados, mas sim a de sangrar o atual governo.

Na sua seletividade, a mídia demotucana nunca convocou protestos contra o roubo da privataria tucana ou contra a reeleição milionária de FHC. Ela também nunca se indignou e exigiu que sejam desarquivadas as quase 100 CPIs contra as maracutaias do governo do PSDB de São Paulo. Para a mídia golpista, o discurso da ética é funcional. Só serve para os inimigos!

Acorda Dilma!

É bom a presidenta Dilma ficar esperta. O tempo está se esgotando. A fase do “namorico” com a mídia acabou. Das denúncias de corrupção, que já sangram o governo há quase dois meses, a imprensa partidarizada já passou para a fase da convocação de protestos de rua. Como principal partido da oposição, a mídia retomou a ofensiva. E o governo se mantém acuado, paralisado, sem personalidade.

Fonte: http://altamiroborges.blogspot.com/2011/07/midia-golpista-convoca-protestos-de-rua.html#more

A bandalheira fardada

Mauricio Dias | Carta Capital

Apesar da faxina que promove em alguns organismos do governo, a presidenta Dilma Rousseff ainda está longe de ter se livrado das dores de cabeça provocadas por denúncias e indícios de corrupção no Departamento de Infraestrutura de Transportes (Dnit), a árvore das mais frondosas bandalheiras no Ministério.

Na sexta-feira 15, Dilma demitiu José Henrique Sadok de Sá, mais uma cabeça coroada do Dnit. Além de diretor-geral, ele era o substituto imediato do já afastado Luiz Antonio Pagot. Sá foi afastado após denúncia de que a empresa da mulher dele tinha contratos da ordem de 18 milhões de reais com aquele departamento.

A tormenta de Dilma nessa área pode piorar. Sadok de Sá é o fio de uma meada que leva à sempre sensível área militar. Mais precisamente ao Instituto Militar de Engenharia (IME), subordinado ao Departamento de Ciência e Tecnologia do Exército e considerado um centro de referência do ensino de engenharia nas Américas.

Um Inquérito Policial Militar (IPM), aberto em maio de 2010 na Justiça Militar, no Rio de Janeiro, e concluído agora, denuncia por crime de peculato seis militares do Exército e nove civis “por desvio de recursos públicos em licitações realizadas pelo Instituto Militar de Engenharia, nos anos 2004 e 2005” referentes a convênios celebrados com o Dnit. O prejuízo aos cofres públicos está calculado em 11 milhões de reais.

Um dos vínculos entre os militares (IME) e Sadok de Sá (Dnit) está no fato de Fábia Sadok de Sá, filha do diretor do Dnit, constar como contratada da empresa WMW ANKAR.

Havia oito empresas participantes do esquema. A maioria delas formada por sócios, amigos e parentes.

O nome da WMW ANKAR é de uma evidência gritante. Soma o W de Washington (major Washington Luiz de Paula, um dos denunciados); o M de Marcelo; W de William; o AN de Antonio (sogro de Washington); o KA de Khaterine (esposa de Washington) e o R de Roberto (coronel Paulo Roberto Dias Morales, outro oficial denunciado), registrada em nome de Antonio da Cruz Fonseca (sogro de Washington-), da cunhada dele Edilania Fonseca- Froufe (empregada do Dnit) e de Wilson- Agostinho (pai de William).

Entre setembro de 2004 e julho de 2005, apenas dois meses após ter sido criada, ela teria desviado dos cofres públicos quase 2 milhões de reais (tabela).

Nos depoimentos, militares e civis, irmanados, argumentam que agiram dentro da lei. A denúncia contra eles, no entanto, derruba facilmente a tese, principalmente pela forma com que conduziram a homologação das licitações, a fase de liquidação das despesas e, enfim, o pagamento. Um simples exemplo:

No convite 43/2004, cuja execução seria de até 30 dias, foi pago 90,4% em cinco horas. Tempo decorrido entre a emissão da Nota de Empenho e da Ordem Bancária. O restante em dez dias.

Tudo, como se vê, a tempo e a hora. Uma eficiência que não ocorre em qualquer outro órgão público que não tenha esquemas ilegais alternativos.

Há um fato extremamente relevante na trajetória do processo. Os autos foram enviados à Procuradoria da Justiça Militar “em razão da atribuição específica” desse órgão. Isso ocorre quando a denúncia envolve generais. E há três deles denunciados.

A granada que vai explodir nas mãos do ministro da Defesa, Nelson Jobim

Fonte: http://www.cartacapital.com.br/politica/a-bandalheira-fardada

Gás natural não convencional está a provocar uma revolução

A Shell vai à China assinar acordos, a ExxonMobil paga 41 milhões de dólares por uma pequena empresa, a Polónia está prestes a abrir um poço histórico, investimentos de milhões no Médio Oriente e na Rússia estão sem certeza de retorno.
Estas são peças de um xadrez que não pára de crescer há três anos e todas elas giram à volta da exploração de gás natural não convencional. Dizem que é a última grande revolução, discreta e rápida.

 (Reuters)

 

Nos últimos três anos, os EUA tornaram-se quase auto-suficientes em gás natural, à conta da aposta que fizeram no gás não convencional, quando em 2007 eram ainda os grandes importadores mundiais. As próximas estatísticas da Agência Internacional de Energia (AIE) podem confirmar que os norte-americanos destronaram a Rússia como maior produtor mundial de gás natural – é essa a expectativa do sector.

Se isso acontecer, significa que o equilíbrio mundial de forças entre exportadores e importadores tradicionais de gás natural está a mudar. O mundo ocidental depende cada vez mais deste combustível fóssil para produzir electricidade, sendo também considerado o menos “mau” do grupo, por ter o mais baixo nível de emissões de CO2.

Os exportadores tradicionais situam-se no Médio Oriente, nomeadamente Qatar, e na Rússia, com planos de investimento a médio e longo prazo. Os seus investimentos para alargar a capacidade de exportação são agora dólares incertos.

As últimas estimativas da AIE e do Departamento de Energia dos EUA indicam que o planeta terá entre 921 biliões e 1,2 milhares de biliões de metros cúbicos de gás não convencional, mais de cinco vezes as reservas estimadas do gás convencional retirado habitualmente das jazidas mais à superfície.

As formações geológicas deste gás com maior potencial de exploração encontram-se nos EUA e no Norte da Europa. Aponta-se para a Polónia, Alemanha, Áustria e Hungria. Os EUA, que lideram esta corrida, dizem garantir metade das suas necessidades actuais com gás natural produzido no seu mercado a partir de fontes não convencionais e calculam que as suas reservas potenciais bastam para quase um século mais, aos níveis de consumo de hoje. É um número em que acredita Daniel Yergin, uma das vozes mais ouvidas no mundo do petróleo.

A euforia dos mercados, com a clara liderança dos norte-americanos neste promissor filão energético, é mais evidente desde os acordos da Administração Obama com o Governo chinês em Novembro passado, e a compra da pequena XTO pela ExxonMobil, um mês depois, por 41 milhões de dólares.

Na Europa, que ainda não explora este tipo de gás, indica-se que as reservas estimadas são suficientes para substituir, pelo menos, quatro décadas de importações, aos níveis actuais, o que será também suficiente para alterar radicalmente a relação com a Rússia, o país que fornece um quarto do gás que consome hoje. É com a Rússia que os europeus têm um quadro de crises cíclicas de abastecimento e polémicos gasodutos desenvolvidos em conjunto, o Nord Stream, ou não, como o Nabbucco.

“As notícias da morte do petróleo e do gás surgiram várias vezes, mas o sistema tem respostas que as pessoas não imaginam”, diz o presidente executivo da Partex, António Costa Silva, ao PÚBLICO.

Sophia Ruester, da Universidade de Tecnologia de Dresden, afirma que “o aumento substancial da produção de gás não convencional inverteu o declínio histórico da produção de gás dos EUA, reduzindo a sua procura de gás natural liquefeito (GNL)”, que é o gás importado.

“Dado que se esperava que a América do Norte fosse um mercado de grande crescimento de GNL, este desenvolvimento tem um impacto severo no futuro da procura mundial”, acrescenta.

Fonte: http://economia.publico.pt/Noticia/gas-natural-nao-convencional-esta-a-provocar-uma-revolucao_1429908

A corrupção e seus atores

Por Newton Bignotto (*)

Em pesquisa realizada pelo CRIP (Centro de Referência do Interesse público) nos últimos anos nos deparamos com um dado preocupante. Quase a totalidade – cerca de 97%-  dos brasileiros consideram a corrupção um fenômeno grave ou muito grave de nossa vida pública. Esses dados mostram sem equívoco que a população se inquieta com as consequências dos fatos que com frequência povoam os noticiários e que mostram agentes públicos sendo acusados de receber dinheiro ou outros benefícios em troca de favores prestados a terceiros.

A percepção de que a corrupção faz parte de nosso cotidiano e de que ela afeta particularmente os agentes do Estado parece indicar que existe em nosso país consciência dos males decorrentes  das práticas corruptas e um repúdio correspondente das mesmas. Com efeito nossas pesquisas mostram que os poderes públicos, o Legislativo em primeiro lugar, são considerados o verdadeiro lar da corrupção. No polo contrário, quanto mais nos aproximamos da família e dos amigos mais acreditamos que estamos longe de seus efeitos, mesmo quando confrontados com a lógica dos pequenos favores, que costumam acompanhar a prática clientelista tão comum em nossa vida pública.
O que torna esses dados de percepção da corrupção mais interessantes é que eles parecem convergir para o mesmo ponto de uma visão bastante influente entre os teóricos políticos e que foi expressa no conhecido Dicionário de Política organizado por Norberto Bobbio. Nele aprendemos que a corrupção designa “o fenômeno pelo qual um funcionário público é levado a agir de modo diverso dos padrões normativos do sistema, favorecendo interesses particulares em troca de recompensas”. Em outro lugar do verbete o autor afirma: “A Corrupção é considerada em termos de legalidade e ilegalidade e não de moralidade e imoralidade”.
A primeira parte da definição parece estar em sintonia com a percepção de que a corrupção diz respeito sobretudo aos agentes públicos. Não há nada de errado com essa maneira de ver as coisas, mas, no caso brasileiro, ela serve muitas vezes para mascarar a extensão e os atores envolvidos nos diversos casos de desvios de conduta que vêm a público.

Com frequência, o agente público é exposto à execração pública sem que os que o corromperam sejam sequer inquietados. Tudo se passa como se houvesse uma assimetria absoluta entre os atores. Os primeiros, os agentes públicos, encarnam o processo mesmo de corrupção, enquanto os corruptores são olhados pelas lentes cínicas de muitos analistas simplesmente como parte de um processo inelutável das sociedades contemporâneas. Abafado o escândalo, ou punido um culpado, as empresas ou atores privados são deixados de lado, como se investigá-los expusesse o Estado a um risco maior do que o representado pela corrupção ela mesma.

Agentes financiadores de campanhas políticas, parceiros em investimentos importantes nos negócios do País, são vistos como atores determinantes para o sucesso dos governantes que, por isso, preferem muitas vezes fechar os olhos para o que todos podem ver: a luta feroz por vantagens competitivas nos negócios com o Estado é a fonte maior para a corrupção daqueles que detém algum poder para decidir a favor dos que o corrompem.

Quanto aos agentes públicos, isolados em sua ação e responsabilizados quase que exclusivamente pelos fatos que envolvem muitos atores, eles tentam se refugiar no terreno da pura legalidade, para apresentar sua defesa, procurando assim circunscrever seus atos a uma esfera na qual acreditam poder se defender de forma eficaz. Não resta dúvida de que a corrupção deve ser tratada dentro do parâmetro da legalidade e da ilegalidade. Não podemos simplesmente naturalizar o fenômeno dizendo que é assim em todo lugar e que não há nada a fazer. O problema com essa abordagem, assim como ocorre com o esquecimento dos corruptores, não é o que ela mostra, mas sim o que deixa de lado, ou seja, a dimensão política e moral da corrupção.

Para compreender o que queremos dizer, vamos relegar a um segundo plano os casos mais escandalosos dos agentes do Estado que são surpreendidos recebendo dinheiro vivo. A cena é chocante, ela pode ser compreendida dentro da lógica da legalidade e parece-nos natural que os envolvidos sejam punidos. Eles se conformam à imagem que temos do corrupto e parecem ter saído de um manual de ciência política. Neles encontramos a figura do agente público recebendo uma vantagem indevida de forma explícita. Com eles compreendemos que mais importante do que a sanção moral é a punição, que deve advir da aplicação da lei. O problema é que no mundo atual esses procedimentos escandalosos estão longe de ser os mais relevantes.

Uma boa parte dos casos de corrupção não está ligado a delitos facilmente percebidos como tal, mas a complexos mecanismos, que envolvem países e empresas transnacionais, cujas operações se dão ao mesmo tempo em vários contextos legais. Assim, é perfeitamente possível que uma parte de uma operação financeira ocorra num país, que aceita determinadas práticas, e que em seguida os ganhos decorrentes desses movimentos sejam incorporados a projetos que conservam todo o ar de legalidade.

Da mesma maneira, é muito mais fácil provar o recebimento direto de propina do que provar a venda de informações privilegiadas, cujo uso pode ocorrer num momento e num contexto muito diferente daquele no qual o agente público esteve envolvido.

O exame da legalidade dos atos de um agente político é sem dúvida um procedimento necessário ao combate à corrupção. Não podemos substituí-lo simplesmente por julgamentos políticos  sem comprometer a democracia. Mas se quisermos entender o processo de corrupção em nossas sociedades, é necessário levar em conta que ele diz respeito ao Estado, a seus agentes, mas também ao conjunto de forças que dentro de uma nação luta para obter vantagens e privilégios.

Nesse sentido, a corrupção existe numa rede complexa de relações e de interações. Deixar de lado um de seus atores no momento de combatê-la corresponde de fato a conservá-la com uma forma corrente da vida pública.

No caso brasileiro, a ação muitas vezes eficaz dos órgãos de controle no combate à corrupção dos agentes do Estado representa um passo importante, mas não decisivo de combate à corrupção. Enquanto os grandes corruptores continuarem a ser sistematicamente esquecidos pelos poderes públicos e pelos meios de comunicação continuaremos a ser surpreendidos pelos escândalos cuja repetição não parece nos ensinar coisa alguma.

A limitação de nossas investigações sobre a natureza das ações dos muitos atores envolvidos nos casos de corrupção fazem com que deles não decorra nenhum avanço institucional e nem mesmo um desejo real de dotar a legislação de mecanismos adequados para combater um fenômeno extremamente complexo. Enquanto a percepção da corrupção pela população continuar a ser alimentada por fatos escabrosos e parecer ser confirmada por análises simplistas do fenômeno, estaremos muito longe de realmente enfrentá-lo.

(*) Newton Bignotto  é pós doutor em Filosofia pela Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales, Pós doutor em Filosofia pela Universite de Paris VII – Universite Denis Diderot, Doutor em Filosofia pela Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales, Mestre em Filosofia pela UFMG e graduado em Filosofia pela UFMG.

Fonte: http://www.cartacapital.com.br/destaques_carta_capital/a-corrupcao-e-seus-atores

Variáveis inflacionárias controlaram-se, menos previsão do ‘mercado’

André Barrocal

BRASÍLIA – A atividade econômica está menos veloz, o mercado de trabalho segue aquecido mas em ritmo moderado, o avanço do crédito desacelerou, o preço dos alimentos e dos combustíveis parou de subir. Não por acaso, os últimos índices de inflação mostram perda de força. Por tudo isso, o Banco Central (BC) não tem motivo para elevar a taxa de juros na noite desta quarta-feira (20/07). Só um elemento justificaria o conservadorismo. A visão do “mercado”, que ignora dados reais e mantém expectativas de inflação mais pessimistas.

A avaliação é do economista Roberto Messenberg, coordenador do Grupo de Análises e Previsões do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Ele é responsável por um boletim trimestral do Ipea que analisa a conjuntura econômica cuja edição mais recente foi divulgada nesta quarta-feira, poucas horas antes da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do BC.

“Do ponto de vista das variáveis reais, não há motivo para aumentar a taxa de juros”, afirmou Messenberg. “Só há um senão: o Banco Central não opera de forma completamente isolada do mercado financeiro, que consegue exercer força e pressão com suas expectativas. Esta é a única variável que não foi controlada ainda.”

O “mercado” a que se refere o economista se expressa toda semana por meio de uma pesquisa feita pelo BC sobre juros e inflação com cerca de 100 instituições, a maioria ligada ao sistema financeiro. O levantamento divulgado segunda-feira (18/07) mostra que o “mercado” continua mantendo para o ano que vem uma previsão de inflação superior à meta que o BC diz perseguir.

O debate sobre a inflação de 2012 tornou-se importante desde que o BC avisou que não trabalharia para atingir a meta de 4,5% em 2011, mas só em 2012. Depois dessa decisão, o “mercado”, que antes projetava uma inflação até 4,5% no ano que vem, passou a prever mais – a última estimativa é de 5,2%.

Para Messenberg, a inflação sob controle em 2011 mostra que o Banco Central acertou todos os diagnósticos feitos este ano sobre o controle da inflação, construiu credibilidade com isso e, agora, deveria “ir contra o mercado financeiro”. “Talvez seja hora de o Banco Central jogar mais duro. Poderia ter uma estratégia de mostrar mais auto-confiança. O BC acertou tudo até agora”, afirmou.

Segundo o economista, o mercado continua enfrentando o BC e produzindo prognósticos diferentes por vício e interesse. “O mercado se acostumou a uma administração de política monetária que está completamente obsoleta no mundo inteiro. A realidade mudou, o mundo se complicou, não existe mais só o instrumento da taxa de juros contra a inflação”, disse. “Mas quando a taxa se eleva, o mercado ganha dinheiro e quem sofre são outros atores.”

Fonte: http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=18083

Se vale para o trem, porque não vale para a web?

Brizola Neto

A Agência Nacional de Transportes Terrestres baixou hoje uma determinação para que as empresas privadas que abocanharam a concessão de nossas ferrovias sejam obrigadas, no caso de não as estarem utilizando com toda a sua capacidade, a ceder para outras empresas o uso da ferrovia em qualquer circunstância, naturalmente pagando pelo uso da infraestrutura.

A resolução protege os direitos do usuário, que contrata as concessionárias para o transporte de suas cargas e institui penalidades, por exemplo, para o atraso nas entregas.

A decisão é corretíssima, pois se tratam de concessões públicas, cujo objetivo maior é prestar serviços.

Agora, porque a mesma regra não se aplica aos outros serviços públicos?

Porque a Anatel não obriga as concessionárias de telefonia a cederem suas redes físicas, a preços determinados, para que outras prestadoras possam oferecer os serviços de voz e, sobretudo, de internet através delas.

O mecanismo do unbundling, que é este compartilhamento das redes físicas, permitiria a qualquer empresa oferecer conexões de banda larga e ampliaria a competição, sem exigir tanto investimento.

João Maria de Oliveira, técnico de Planejamento e Pesquisa do Ipea e um dos responsáveis pelo estudo “Panorama da Comunicação e das Telecomunicações no Brasil” define bem porque isso é justo, em entrevista à revista Teletime:

“A infraestrutura não é da concessionária, a infraestrutura é pública; ela (a concessionária) usa a infraestrutura”

E ele explica porque as redes físicas, mesmo as implantadas após a privatização, não são propriedade privada:

(…)o investimento em infraestrutura ela repassa todo para o serviço. Essa definição de serviço público e serviço privado já distorce toda a discussão posterior. Nós caracterizamos os países que estão na ponta em termos de utilização da tecnologia e com preços baixos, e olhamos o que é comum entre eles. Então você começa a ver que em comum existem esses dois aspectos.

Primeiro: o mercado é aberto, quem quiser entra. Não existem restrições. Se uma empresa estrangeira que não opera no país quiser vir operar, ela opera.

Segundo: a infraestrutura deve ser necessariamente compartilhada, porque isso é o que garante um nível de competitividade. Políticas de livre acesso, em particular de desagregação de redes, existem no Japão, Dinamarca, Holanda, Noruega, Suécia, França, Grã-Bretanha e Nova Zelândia. Aí você tem algumas outras características em alguns países e outros não. Regras de livre acesso aplicam-se à transição para a próxima geração tecnológica, particularmente fibra, no Japão, Coreia do Sul, Suécia, Holanda, França, Grã-Bretanha, todo o mercado comum europeu na realidade, e Nova Zelândia. Essas coisas a gente não tem. Se a gente não tem e esses países têm, está faltando isso a nós.”

Está mesmo e esse compartilhamento é apenas uma decisão política, que de investimento só demanda aquele de controle e fiscalização.

Atividades que não parecem ser muito “a praia” da Anatel.

Fonte: http://www.tijolaco.com/se-vale-para-o-trem-porque-nao-vale-para-a-web/