Flavio Lyra (*)
(“…o banqueiro não é primariamente só um intermediário da mercadoria ‘poder de compra’, mas um produtor desta mercadoria. (… ele substituiu os capitalistas privados ou tornou-se o seu agente; tornou-se ele mesmo o capitalista par excellance”. In “Teoria do Desenvolvimento Econômico”, Joseph Schumpeter. Ed. Abril Cultural).
Dificilmente, nos últimos tempos, alguém deixou de tomar conhecimento de que situações de endividamento excessivo ameaçaram o funcionamento das economias capitalistas e, por essa razão, fizeram-se necessárias medidas de arrocho salarial e contenção dos gastos públicos, de modo a liberar recursos para amortizar as dívidas acumuladas. Em prejuízo, nitidamente, das políticas sociais.
Mais recentemente, as diferentes modalidades de endividamento avolumaram-se. Os governos valeram-se crescentemente do aumento da dívida pública em substituição à cobrança de impostos e passaram a destinar cada vez maior parcela de sua receita fiscal ao pagamento de juros.
As famílias, também, expandiram seus índices de endividamento, em muitos casos tornando-se poupadores negativos, como aconteceu até recentemente nos Estados, para financiar suas aquisições de bens de consumo e de moradia. Nesse contexto, de exacerbada expansão do crédito, os países que se mostram menos competitivos no mercado internacional, também têm se endividado fortemente, já seja para financiar suas próprias exportações, mas principalmente as importações de bens e serviços estrangeiros.
Como dizia o frade italiano, Lucas Pacíolo, inventor das partidas dobradas em Contabilidade: “não há devedor sem credor”. Cabe, portanto, atentar também para o outro lado do espectro os credores, representados por empresas superavitárias, fundos de pensão e outros tipos de fundo, famílias que poupam e bancos.
Os bancos, porém, ocupam situação sui generis, pois, situados no meio do caminho entre os credores e os devedores, devido a esse posicionamento estratégico, são os grandes propulsores do endividamento, especialmente, devido a seu do poder de criar dinheiro. Tornam-se, assim, grandes credores líquidos da sociedade e maiores beneficiários do processo econômico, mediante a cobrança de juros e taxas de administração sobre as operações de endividamento.
Não sem razão, pois, os lucros acumulados pelos bancos e por outras empresas financeiras, têm sido gigantescos. Em parte, por conta das inovações por eles introduzidas com a criação de novos tipos de títulos financeiros. Um exemplo destacado são os derivativos, que têm permitido expandir muito além do que pareceria razoável, operações financeiras muito arriscadas, mas que propiciam vultosas remunerações a seus dirigentes do mais alto escalão. Os derivativos são contratos sobre as variações futuras de taxas de juros, câmbio, índices econômicos e financeiros, verdadeiras apostas.
Acontece que qualquer processo de endividamento só se mantem no tempo se a renda dos devedores aumentar pelo menos no ritmo dos serviços da dívida (juros mais amortizações), que precisam ser pagos aos credores. Caso contrário, o processo de entra em colapso, com os bancos sendo os primeiros afetados, desencadeando uma crise de confiança que se difunde por todo o sistema econômico.
Se os devedores não conseguem ter renda suficiente para pagar aos bancos, estes têm não apenas sua capacidade de criar dinheiro afetada, mas também não conseguem pagar a seus credores, reduzindo o volume de crédito disponível na economia. É quando a crise de crédito migra da área financeira para a área econômica. Agrava-se, então, a situação inicial, pois o nível da produção se contrai e a renda dos devedores também, como conseqüência.
Nos últimos tempos os bancos, na ânsia de valorização de seus capitais, cometeram três tipos de erros fatais que aumentaram os riscos associados às operações de financiamento: expandiram exageradamente os empréstimos destinados a aquisição de bens pelas famílias, gerando um movimento especulativo que aumentou os preços dos bens adquiridos (imóveis, principalmente); dirigiram parte substancial dos recursos a operações puramente especulativas nos mercados financeiros, fomentando a aquisição de papéis de alto risco (ativos tóxicos); e descuidaram o financiamento de investimentos produtivos, especialmente na infraestrutura econômica, prejudicando o crescimento da produção e da renda.
A crise do setor imobiliário deflagrada nos Estados Unidos em fins de 2007, decorrência da incapacidade dos compradores de honrarem suas dívidas referentes à compra de imóveis residenciais, propagou-se por todo o sistema financeiro internacional, evidenciando que as carteiras dos bancos estavam repletas de créditos impagáveis, muitos deles papéis sem qualquer lastro. Chegou-se, assim, à iminência de um colapso total do sistema bancário, após a falência do Lehman Brothers, um grande banco de investimento dos Estados Unidos.
Os governos foram obrigados a intervir nos bancos com o aporte de volumosos recursos para cobrirem os buracos deixados pelos ativos financeiros que se desvalorizaram da noite para o dia. Os bancos foram salvos à custa do aumento da dívida pública dos países e os investidores em títulos privados arcaram com enormes prejuízos. A contração do crédito afetou o crescimento econômico.
As políticas monetárias têm mantido os juros baixos, mas as economias continuam estagnadas. Os Estados Unidos, valendo-se da condição de detentor da principal moeda internacional, expandiram substancialmente o volume de dólares em circulação no mundo, com o que pretendem reduzir seu déficit em transações correntes, especialmente com a China, seu principal credor e abastecedor de produtos importados, mediante a desvalorização relativa de sua moeda.
Os Estados Unidos e os mais importantes países da União Européia buscam transferir para a classe trabalhadora os custos decorrentes da salvação dos bancos, o que lhes acarretou aumento da dívida pública, com medidas de redução dos gastos sociais. Por seu turno, os países menos importantes da União Européia mostram-se crescentemente incapazes de honrar suas dívidas com os bancos, representando uma séria ameaça de aprofundamento da crise mundial. Os bancos pressionam para que esses países realizem substanciais cortes em seus gastos públicos.
As duas primeiras vítimas dessas políticas estão sendo Grécia e Portugal, mas Irlanda, Espanha e Itália estão caminhando na mesma direção. As baixas notas que as agências de avaliação de riscos (rating) atribuem às dívidas desses países não estão lhes assegurando a possibilidade de renegociá-las com os bancos, pois não há perspectiva de pagarem os juros e amortizações correspondentes.
A adoção de políticas de austeridade no gasto público, num contexto em que a estagnação econômica, já vem produzindo altas taxas de desemprego, tem gerado protestos crescentes da população, configurando uma situação de grave crise social sem perspectiva de atenuação no médio prazo, porquanto a contenção do gasto público tende a deprimir a atividade econômica e a receita fiscal.
Nesse contexto de turbulência financeira, estagnação econômica e expectativas pessimistas para as condições de vida da classe trabalhadora no mundo, como se situa a economia brasileira?
Nos últimos cinco anos, a economia brasileira teve um desempenho satisfatório. A produção expandiu-se em média mais de 4,5% ao ano. Os índices de desemprego caíram substancialmente. Foi possível atravessar o ano de 2009, período mais crítico da crise mundial até agora, sem queda no nível atividade econômica e, já em 2010, o crescimento do PIB recuperou-se do estancamento observado em 2088. Para o corrente ano deverá manter-se o crescimento médio do período.
Seguindo a tendência mundial, o processo de endividamento na economia brasileira tem avançado substancialmente, com destaque para o endividamento das famílias e das empresas. Os bancos têm acumulado lucros, pois as taxas de juros têm se colocado entre as mais altas do mundo.
A política monetária, visando conter a inflação, tem mantido a taxa de juros dos títulos públicos bastante elevada, levando ao crescimento da dívida pública. Os investimentos públicos continuam muito baixos, como porcentagem do PIB, face à necessidade de gerar recursos para pagar os juros da dívida pública..
As taxas de investimento produtivo na economia têm se mostrado aquém do que se considera necessário para dar sustentação ao crescimento sem pressionar a inflação. Os bancos públicos são as únicas fontes de crédito de longo-prazo, pois os bancos privados mostram aversão aos riscos inerentes a esse tipo de financiamento.
No auge da crise mundial nos anos 2008 e 2009, os bancos privados contraíram suas aplicações. Graças aos bancos públicos a atividade econômica não sofreu um grande impacto negativo por falta de crédito.
A dívida externa do país tem voltado a crescer em função da acumulação de déficits crescentes nas transações correntes do Balanço de Pagamentos. Nos anos 2008/10, o aludido déficit já atingiu US$ 100 bilhões. Para o ano de 2011 está previsto em US$ 80 bilhões, aproximadamente 3% do PIB.
A dívida pública também vem crescendo em função das altas taxas de juros e pela necessidade do governo de estar absorvendo a entrada de dólares para aplicações em títulos do governo, estimulada pelo alto diferencial entre as taxas de juros externa e interna, cujo custo transforma-se em dívida pública.
O aumento do processo de endividamento do país, tanto privado quanto público, tem como principais beneficiários os bancos e demais instituições financeiras.
O avanço desse processo pode estar próximo de seus limites, o que poderá, proximamente, afetar o crescimento econômico. Manter as taxas de crescimento econômico nos próximos anos, certamente vai requerer a redução das taxas de juros internas e a limitação do endividamento externo.
Em síntese, a crise econômica que vem afetando a economia internacional tem muito a ver com o descontrole do processo de endividamento em seus diferentes níveis, estimulado pelos bancos que, na busca da valorização dos capitais financeiros, expandem o endividamento a taxas mais rápidas do que a taxa de crescimento do PIB.
No Brasil, até alguns atrás, os bancos expandiram seus empréstimos ao ritmo de crescimento do PIB e aumentaram seus lucros principalmente, mediante taxas de juros muito elevadas, consideradas necessárias para o combate às pressões inflacionárias.
Nos últimos três anos, o processo de endividamento intensificou-se, funcionando até agora como estímulo ao crescimento econômico. A dívida privada como proporção do PIB cresceu substancialmente. O endividamento externo nos últimos três anos também tem crescido rapidamente, estimulado pela valorização do real, que acarreta crescimento das importações em detrimento da produção interna.
Por sua vez, o endividamento público também começa a aumentar como proporção do PIB, requerendo contenção da taxa de expansão dos gastos públicos, de modo a gerar recursos para o pagamento de juros, em prejuízo dos gastos na área social.
Os limites desse processo de endividamento podem estar sendo alcançados, mormente em função das altas taxas de juros que fazem as dívidas crescerem mais rapidamente do que a capacidade da economia para arcar com seus serviços. Mantidas essas tendências, o país ficará cada vez mais vulnerável ao aprofundamento da crise mundial, que certamente vai gerar o encurtamento do financiamento externo.
Por seu turno, o endividamento interno privado precisa ser contido dentro de limites compatíveis com o aumento da renda, sob o risco de provocarem um curto-circuito no abastecimento de crédito bancário.
O endividamento do governo também precisa ser contido, de modo a não gerar um aumento na conta de juros que obrigue a cortar gastos na área social, a exemplo do que vem ocorrendo nos países desenvolvidos. Não cabe esquecer, pois, que na atual etapa do desenvolvimento capitalista, endividamento crescente, valorização do capital financeiro e crise social estão intimamente associados. E nós não somos exceção.
(*) Flávio Lyra é economista. Cursou o doutorado de economia da UNICAMP. Ex-técnico do IPEA.