Arquivo mensais:julho 2011

O monopólio e a liberdade

Mauro Santayana

Imaginemos, já que a isso não nos impedem, o que seria da França de 1789 a 1793, se os mais de duzentos jornais que circularam em Paris pertencessem a um só homem. Se esse homem fosse girondino, a revolução seria paralisada e contida; se fosse jacobino, nada a moderaria, em sua incontida fúria durante o Terror. Ampliemos essa hipótese, e imaginemos que todos os meios de comunicação do mundo pertençam, em um futuro qualquer, a uma única empresa. Como todos sabem, o acionista majoritário de qualquer empresa tem mais poder em seu universo de mando, do que o chefe de estado democrático, dependente de dois outros poderes em vigilância permanente.

Pensemos agora no Sr. Rupert Murdoch e seus duzentos veículos de comunicação na Europa, nos Estados Unidos e na Austrália, com interesses também poderosos na América Latina e na Ásia. Há 58 anos, Murdoch era herdeiro de um pequeno jornal em Adelaide, na Austrália. Pouco a pouco foi expandindo a sua rede no país e, quando pôde chegou à Grã Bretanha e aos Estados Unidos. Como todas as grandes empresas de comunicação, o seu império tem uma ideologia e, nos países em que atua, seu partido e homens públicos de sua confiança. Murdoch sabe que, nos tempos modernos, os partidos já perderam seus princípios ideológicos, e que tanto os conservadores como os trabalhistas, na Grã Bretanha, quanto os republicanos nos Estados Unidos, são separados por frágeis artifícios retóricos.

Foi assim que, depois de apoiar os governos de Thatcher e Major, na Inglaterra, somou-se a Blair e a Gordon Brown, e, agora, seus jornais estão na retaguarda de David Cameron. Nos Estados Unidos, no entanto, Murdoch ainda não “digeriu” Obama. Continua fiel aos republicanos de Reagan e dos dois Bushes.

Os jornais de Murdoch que lhe dão mais lucro e leitores são papéis de sarjeta, mas financiam os prestige papers, dos quais se vale para, em linguagem mais séria e elegante, sustentar posições políticas conservadoras. A fim de manter tiragens elevadas, ele aprimorou a técnica dos blood papers famosos, britânicos e não britânicos – como o  Bild Zeitung, de Hamburgo, o mais notável dos tablóides da direita alemã. O Bild é tablóide na linguagem e, no formato é tradicional, broadsheet.  A linguagem dos tablóides, como a de certos programas populares de televisão, é a mais adequada para o proselitismo político das massas. Os jornalões que possui servem para conferir-lhe o simulacro de respeitabilidade.

A tablodização da política é o grande escopo dos jornais e das emissoras de televisão controladas pelo Sr. Rupert Murdoch, que não é personagem vulgar, como Berlusconi,  mas homem de excelente formação universitária em Oxford. Ele, que começou a vida aos 21 anos, editando o jornal da família, sabe muito bem o que determinar aos editores de sua imensa rede de tablóides: é preciso atrair os leitores com um jornalismo policial ágil e de suspense, com a continuidade nervosa das matérias, como nos filmes de Hitchcok. Para isso, todos os meios parecem adequados, entre eles o conluio abjeto entre os chefes de redação e os policiais, como os dirigentes da Scotland Yard, o uso de delatores, detetives e informantes, mediante pagamento e a interceptação telefônica. Convém lembrar a atuação canalha da Scotland Yard no caso do brasileiro Jean Charles (também vítima do News of the World, segundo se informa).

A revelação de que o jornal agiu de forma tão criminosa no caso de Milly Dowler – o que faz seus responsáveis cúmplices de Levi Bellfield, o serial killer que assassinou a menina de 13 anos – só ocorreu recentemente. E foi encontrado morto o jornalista Sean Hoare, que denunciou a prática de escutas ilegais e manipulação eletrônica dos telefones pela redação do jornal de Murdoch. É uma macabra coincidência, se coincidência for – e mesmo as coincidências têm raízes na realidade.

O escândalo está abalando a velha Inglaterra, e o primeiro ministro conservador David Cameron não conseguiu dizer coisa com coisa em seu comparecimento de ontem à Câmara dos Comuns. Sua resposta aos parlamentares da oposição foi pífia. Aos quarenta e cinco anos, o primeiro ministro está longe, muito longe, de homens que ocuparam, no passado, o mesmo cargo. Era bem diferente e distante dos dois jovens Pitt que ocuparam o mesmo cargo no século 18: o “velho”, pai, aos 44 anos, e o “jovem”, filho, aos 24 – ambos gigantes da política, como foi também Churchill no século passado. Foram lamentáveis diante da História os argumentos de Cameron, em pouco diferentes da  mediocridade oratória de Thatcher e Major e  dos mentirosos Blair e Brown.

O problema é que muitos europeus advogam a extinção da liberdade de imprensa, a fim de impedir crimes como os dos jornais de Murdoch. O problema é outro: é o da concentração dos meios de comunicação em empresas capitalistas que não oferecem informações e opiniões divergentes, mas, sim, vendem escândalos e chantageiam os políticos, além de servirem a projetos ideológicos totalitários.

A liberdade de expressão para todos é necessária. O monopólio da propriedade dos meios de comunicação é nocivo. Uma serve aos homens; a outra  serve à tirania e à injustiça.

Fonte: http://www.maurosantayana.com/2011/07/o-monopolio-e-liberdade.html

Brasil sem Miséria quer incluir mais 800 mil famílias pobres no Bolsa Família

  • Dilma Rousseff anuncia programa Brasil sem Miséria, em Arapiraca (AL)Dilma Rousseff anuncia programa Brasil sem Miséria, em Arapiraca (AL)

O governo federal quer identificar e retirar da “exclusão” cerca de 800 mil famílias pobres que ainda não recebem o programa Bolsa Família no país. O anúncio foi feito pela ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Tereza Campelo, durante lançamento do programa “Brasil sem Miséria” no Nordeste, nesta segunda-feira (25), em Arapiraca (AL).

Segundo estimativas do governo, além dessas famílias que estão excluídas do cadastro único de assistência social, outras 145 mil pessoas idosas ou deficientes não recebem benefícios de prestação continuada do governo e também serão buscadas pelas autoridades.

“Não podemos esperar que essas pessoas venham em busca do governo, nós é que precisamos encontrá-las e incluí-las nos cadastros de benefícios federais”, disse a ministra, afirmando que esse é um dos maiores desafios para conseguir erradicar a miséria no país até 2014.

As famílias citadas pela ministra estão fora de todos os cadastros e, em muitos casos, não possuem sequer documentação. Mutirões para retirada de documentos serão realizados.

O pontapé inicial para busca dessas famílias foi dada nesta segunda-feira, quando os governadores do Nordeste assinaram um pacto para erradicar a miséria na região até 2014. O Nordeste concentra 9,6 milhões dos 16 milhões das pessoas em pobreza extrema .

Segundo a ministra, a partir de agora os Estados serão responsáveis pela coordenação do “Brasil sem Miséria”, com estabelecimento de metas. “Vamos ter comitês gestores nos Estados, que trabalhem em conjunto com o governo federal. Não serão só ações pontuais, mas pretendemos construir uma agenda em cada Estado e, obviamente, assim conseguiremos garantir o fim da pobreza extrema no Nordeste”, afirmou.

Ao contrário de planos anteriores contra a pobreza, a presidente Dilma Rousseff afirmou que o Brasil sem Miséria terá diferentes atuações nas regiões, e por isso haverá planos regionais. Para ela, essa é a receita do sucesso do programa lançado.

“A miséria rural é diferente da miséria urbana. Há vários cenários, vamos tratar cada um deles com diferença, e nós precisamos da parceira dos prefeitos. Eles serão os grandes protagonistas”, disse.

Fonte: http://noticias.uol.com.br/politica/2011/07/25/brasil-sem-miseria-quer-incluir-mais-800-mil-familias-pobres-no-bolsa-familia.jhtm

 

Dura com partidos e “mercado”, Dilma distensiona com grande mídia

André Barrocal

BRASÍLIA – A presidenta Dilma Roussef concedeu, sexta-feira (22/07), entrevista a cinco grandes jornais brasileiros e deu recados importantes em política e economia. Disse que as trocas em cargos da área dos Transportes vão continuar e atingir quem for preciso. E que o crescimento não será sacrificado pela meta de inflação. Foram mensagens duras, dirigidas aos partidos e ao “mercado”.

Se tem endurecido com o Congresso e as finanças, que os veículos de comunicação presentes à conversa acham que tiveram boa vida no governo Lula, sobretudo no caso da classe política, Dilma tem procurado distensionar a relação com a grande imprensa, como mostra a própria entrevista.

Desde que assumiu, a presidenta faz gestos impensáveis para o antecessor, que dizia, sentindo-se orgulhoso, nunca ter tomado café, almoçado ou jantado com donos ou chefes dos grandes veículos em oito anos. Dilma tem recebido editores e colunistas no Palácio do Planalto e até na intimidade de sua residência oficial, o Palácio da Alvorada, para conversas informais, não apenas entrevistas.

Esteve na comemoração de 90 anos do jornal Folha de S. Paulo. Foi à sede da TV Globo participar de entrevista ao programa Ana Maria Braga e de almoço com dirigentes da emissora e membros da família Marinho. Agendara presença em evento do grupo O Estado de S. Paulo, no qual a agência do jornal entregaria prêmio a empresas. Na última hora, porém, antecipou viagem ao Paraguai, onde haveria reunião do Mercosul, e mandou o vice, Michel Temer, no lugar.

Nas palavras de um auxiliar, Dilma tenta estabelecer uma “relação mais madura” com a grande imprensa. E tem conseguido receber um tratamento mais respeitoso do que o antecessor. Segundo um repórter da sucursal brasiliense de um grande jornal, a presidenta inspira em seus chefes uma identificação que Lula não produzia, pois veio da classe média e gosta de ler, por exemplo. Contra ela, não há preconceito de classe.

Enquanto Dilma reformula a relação da Presidência com a grande imprensa, Lula briga. Em junho, ao participar do segundo encontro nacional de blogueiros progressistas, o ex-presidente acusou a grande imprensa de ser adepta do “pensamento único” e produzir “mentiras, má-fé e difamações” contra ele e seu governo.

Nos últimos dias, em discurso no Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE), atacou de novo. Disse que está “invocado” porque a imprensa não larga do pé dele e deu sua explicação para a má-vontade: “É que eu competia com o que eles falavam, e o povo acreditava em mim.”

Falta ‘competição’

“Competir” com a imprensa foi a principal estratégia de comunicação do ex-presidente depois da guerra que enfrentara em 2005 e 2006 contra um noticiário carregado de “mensalão”. Em oito anos, Lula deu mil entrevistas, nas contas da Secretaria de Comunicação Social da Presidência, sendo que quase 80% delas foram de 2007 em diante. No segundo mandato, ele falou com a imprensa dia sim, dia não, sempre “competindo” com o noticiário.

A frequência de entrevistas de Dilma assemelha-se ao Lula do primeiro mandato, mais ou menos uma por semana. Ao receber cinco jornais no Planalto sexta-feira (22/07), a presidenta totalizou 24 entrevistas no ano. Para um ministro, não é correto comparar o comportamento de Dilma com o Lula do segundo mandato. O certo seria a comparação com a primeira gestão, quando o ex-presidente também ainda estava se acostumando ao cargo, o que igualmente acontecer com Dilma.

Como “compete” menos com o noticiário, Dilma produz uma certa angústia na Esplanada dos Ministérios em pessoas que gostariam de contar à sociedade o que estão fazendo e defender o governo. “O Lula dava a linha de todo o governo. A presidenta faz pouco isso e não deixa a gente fazer”, diz um secretário ministerial.

O símbolo do perigo que é expor-se no governo Dilma foi a demissão, logo em janeiro, do secretário Nacional de Justiça do ministério da Justiça Pedro Abramovay. Ele tinha dado uma entrevista opinando que pequenos traficantes de drogas não deveriam ser presos. Advogado que passara por cargos no governo Lula, Abramovay comportara-se como estava acostumado: falar e defender posições para abrir um debate no governo. Dilma ficou irritada, porque não gosta de ver expostos publicamente temas sobre os quais o governo ainda não tomou um decisão.

Demitido, Abramovay foi colaborar com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que tem defendido a descriminalização da maconha, na criação de uma página na internet de debates, chamado Observador Político, inaugurado na última sexta-feira (22/07).

A saída dele foi pedagógica sobre a postura presidencial. Técnicos, secretários e até ministros têm medo de entrevistas, inclusive sem se identificar – em off, no jargão jornalístico. Ainda mais com uma presidenta que dá bastante atenção ao que é publicado, especialmente em jornais, tipo de mídia mais afeita a bastidores.

Dilma faz questão de ler minunciosamente, inclusive nos finais de semana, uma síntese das notícias mais importantes preparada por assessores – Lula recebia o mesmo resumo, mas preferia se guiar mais pelo relato verbal dos auxiliares. Quando encontra algo sobre o intestino do governo, irrita-se. Se a informação é “em off”, costuma pedir uma caça às bruxas, para saber quem foi. “Os vazadores oficiais estão na muda”, diz um assessor de um ministério.

É uma diferença de estilo importante. Com Lula, o governo, que já era heterogêneo e composto de forças políticas variadas, via setores diferentes usando a comunicação para influenciar a decisão final do presidente. Com Dilma, não. Até que ela decida, falar é um grande risco.

Fonte: http://cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=18114

Valorização do capital financeiro, endividamento e crise social

Flavio Lyra (*)

(“…o banqueiro não é primariamente só um intermediário da mercadoria ‘poder de compra’, mas um produtor desta mercadoria. (… ele substituiu os capitalistas privados  ou tornou-se o seu agente; tornou-se ele mesmo o capitalista par excellance”. In “Teoria do Desenvolvimento Econômico”, Joseph Schumpeter. Ed. Abril Cultural).

Dificilmente, nos últimos tempos, alguém deixou de tomar conhecimento de que situações de endividamento excessivo ameaçaram o funcionamento das economias capitalistas e, por essa razão, fizeram-se necessárias medidas de arrocho salarial e contenção dos gastos públicos, de modo a liberar recursos para amortizar as dívidas acumuladas. Em prejuízo, nitidamente, das políticas sociais. 

Mais recentemente, as diferentes modalidades de endividamento avolumaram-se. Os governos valeram-se crescentemente do aumento da dívida pública em substituição à cobrança de impostos e passaram a destinar cada vez maior parcela de sua receita fiscal ao pagamento de juros.

As famílias, também, expandiram seus índices de endividamento, em muitos casos tornando-se poupadores negativos, como aconteceu até recentemente nos Estados, para financiar suas aquisições de bens de consumo e de moradia. Nesse contexto, de exacerbada expansão do crédito, os países que se mostram menos competitivos no mercado internacional, também têm se endividado fortemente, já seja para financiar suas próprias exportações, mas principalmente as importações de bens e serviços estrangeiros.

 Como dizia o frade italiano, Lucas Pacíolo, inventor das partidas dobradas em Contabilidade: “não há devedor sem credor”. Cabe, portanto, atentar também para o outro lado do espectro os credores, representados por empresas superavitárias, fundos de pensão e outros tipos de fundo, famílias que poupam e bancos.

Os bancos, porém, ocupam situação sui generis, pois, situados no meio do caminho entre os credores e os devedores, devido a esse posicionamento estratégico, são os grandes propulsores do endividamento, especialmente, devido a seu do poder de criar dinheiro.  Tornam-se, assim, grandes credores líquidos da sociedade e maiores beneficiários do processo econômico, mediante a cobrança de juros e taxas de administração sobre as operações de endividamento.     

Não sem razão, pois, os lucros acumulados pelos bancos e por outras empresas financeiras, têm sido gigantescos. Em parte, por conta das inovações por eles introduzidas com a criação de novos tipos de títulos financeiros. Um exemplo destacado são os derivativos, que têm permitido expandir muito além do que pareceria razoável, operações financeiras muito arriscadas, mas que propiciam vultosas remunerações a seus dirigentes do mais alto escalão. Os derivativos são contratos sobre as variações futuras de taxas de juros, câmbio, índices econômicos e financeiros, verdadeiras apostas.

Acontece que qualquer processo de endividamento só se mantem no tempo se a renda dos devedores aumentar pelo menos no ritmo dos serviços da dívida (juros mais amortizações), que precisam ser pagos aos credores. Caso contrário, o processo de entra em colapso, com os bancos sendo os primeiros afetados, desencadeando uma crise de confiança que se difunde por todo o sistema econômico.

Se os devedores não conseguem ter renda suficiente para pagar aos bancos, estes têm não apenas sua capacidade de criar dinheiro afetada, mas também não conseguem pagar a seus credores, reduzindo o volume de crédito disponível na economia. É quando a crise de crédito migra da área financeira para a área econômica. Agrava-se, então, a situação inicial, pois o nível da produção se contrai e a renda dos devedores também, como conseqüência.  

Nos últimos tempos os bancos, na ânsia de valorização de seus capitais, cometeram três tipos de erros fatais que aumentaram os riscos associados às operações de financiamento: expandiram exageradamente os empréstimos destinados a aquisição de bens pelas famílias, gerando um movimento especulativo que aumentou os preços dos bens adquiridos (imóveis, principalmente); dirigiram parte substancial dos recursos a operações puramente especulativas nos mercados financeiros, fomentando a aquisição de papéis de alto risco (ativos tóxicos); e descuidaram o financiamento de investimentos produtivos, especialmente na infraestrutura econômica, prejudicando o crescimento da produção e da renda.

A crise do setor imobiliário deflagrada nos Estados Unidos em fins de 2007, decorrência da incapacidade dos compradores de honrarem suas dívidas referentes à compra de imóveis residenciais, propagou-se por todo o sistema financeiro  internacional, evidenciando que as carteiras dos bancos estavam repletas de créditos impagáveis, muitos deles papéis sem qualquer lastro. Chegou-se, assim, à iminência de um colapso total do sistema bancário, após a falência do Lehman Brothers, um grande banco de investimento dos Estados Unidos.

 Os governos foram obrigados a intervir nos bancos com o aporte de volumosos recursos para cobrirem os buracos deixados pelos ativos financeiros que se desvalorizaram da noite para o dia. Os bancos foram salvos à custa do aumento da dívida pública dos países e os investidores em títulos privados arcaram com enormes prejuízos. A contração do crédito afetou o crescimento econômico.

 As políticas monetárias têm mantido os juros baixos, mas as economias continuam estagnadas. Os Estados Unidos, valendo-se da condição de detentor da principal moeda internacional, expandiram substancialmente o volume de dólares em circulação no mundo, com o que pretendem reduzir seu déficit em transações correntes, especialmente com a China, seu principal credor e abastecedor de produtos importados, mediante a desvalorização relativa de sua moeda.

Os Estados Unidos e os mais importantes países da União Européia buscam transferir para a classe trabalhadora os custos decorrentes da salvação dos bancos, o que lhes acarretou aumento da dívida pública, com medidas de redução dos gastos sociais. Por seu turno, os países menos importantes da União Européia mostram-se crescentemente incapazes de honrar suas dívidas com os bancos, representando uma séria ameaça de aprofundamento da crise mundial. Os bancos pressionam para que esses países realizem substanciais cortes em seus gastos públicos.

As duas primeiras vítimas dessas políticas estão sendo Grécia e Portugal, mas Irlanda, Espanha e Itália estão caminhando na mesma direção. As baixas notas que as agências de avaliação de riscos (rating) atribuem às dívidas desses países não estão lhes assegurando a possibilidade de renegociá-las com os bancos, pois não há perspectiva de pagarem os juros e amortizações correspondentes. 

A adoção de políticas de austeridade no gasto público, num contexto em que a estagnação econômica, já vem produzindo altas taxas de desemprego, tem gerado protestos crescentes da população, configurando uma situação de grave crise social sem perspectiva de atenuação no médio prazo, porquanto a contenção do gasto público tende a deprimir a atividade econômica e a receita fiscal.

 Nesse contexto de turbulência financeira, estagnação econômica e expectativas pessimistas para as condições de vida da classe trabalhadora no mundo, como se situa a economia brasileira?

Nos últimos cinco anos, a economia brasileira teve um desempenho satisfatório. A produção expandiu-se em média mais de 4,5% ao ano. Os índices de desemprego caíram substancialmente. Foi possível atravessar o ano de 2009, período mais crítico da crise mundial até agora, sem queda no nível atividade econômica e, já em 2010, o crescimento do PIB recuperou-se do estancamento observado em 2088. Para o corrente ano deverá manter-se o crescimento médio do período.

Seguindo a tendência mundial, o processo de endividamento na economia brasileira tem avançado substancialmente, com destaque para o endividamento das famílias e das empresas. Os bancos têm acumulado lucros, pois as taxas de juros têm se colocado entre as mais altas do mundo.

A política monetária, visando conter a inflação, tem mantido a taxa de juros dos títulos públicos bastante elevada, levando ao crescimento da dívida pública. Os investimentos públicos continuam muito baixos, como porcentagem do PIB, face à necessidade de gerar recursos para pagar os juros da dívida pública..

As taxas de investimento produtivo na economia têm se mostrado aquém do que se considera necessário para dar sustentação ao crescimento sem pressionar a inflação. Os bancos públicos são as únicas fontes de crédito de longo-prazo, pois os bancos privados mostram aversão aos riscos inerentes a esse tipo de financiamento.

No auge da crise mundial nos anos 2008 e 2009, os bancos privados contraíram suas aplicações. Graças aos bancos públicos a atividade econômica não sofreu um grande impacto negativo por falta de crédito. 

A dívida externa do país tem voltado a crescer em função da acumulação de déficits crescentes nas transações correntes do Balanço de Pagamentos. Nos anos 2008/10, o aludido déficit já atingiu US$ 100 bilhões. Para o ano de 2011 está previsto em US$ 80 bilhões, aproximadamente 3% do PIB.

A dívida pública também vem crescendo em função das altas taxas de juros e pela necessidade do governo de estar absorvendo a entrada de dólares para aplicações em títulos do governo, estimulada pelo alto diferencial entre as taxas de juros externa e interna, cujo custo transforma-se em dívida pública.

O aumento do processo de endividamento do país, tanto privado quanto público, tem como principais beneficiários os bancos e demais instituições financeiras.

O avanço desse processo pode estar próximo de seus limites, o que poderá, proximamente, afetar o crescimento econômico. Manter as taxas de crescimento econômico nos próximos anos, certamente vai requerer a redução das taxas de juros internas e a limitação do endividamento externo.

Em síntese, a crise econômica que vem afetando a economia internacional tem muito a ver com o descontrole do processo de endividamento em seus diferentes níveis, estimulado pelos bancos que, na busca da valorização dos capitais financeiros, expandem o endividamento a taxas mais rápidas do que a taxa de crescimento do PIB.

No Brasil, até alguns atrás, os bancos expandiram seus empréstimos ao ritmo de crescimento do PIB e aumentaram seus lucros principalmente, mediante taxas de juros muito elevadas, consideradas necessárias para o combate às pressões inflacionárias.

Nos últimos três anos, o processo de endividamento intensificou-se, funcionando até agora como estímulo ao crescimento econômico.  A dívida privada como proporção do PIB cresceu substancialmente. O endividamento externo nos últimos três anos também tem crescido rapidamente, estimulado pela valorização do real, que acarreta crescimento das importações em detrimento da produção interna.

 Por sua vez, o endividamento público também começa a aumentar como proporção do PIB, requerendo contenção da taxa de expansão dos gastos públicos, de modo a gerar recursos para o pagamento de juros, em prejuízo dos gastos na área social.

Os limites desse processo de endividamento podem estar sendo alcançados, mormente em função das altas taxas de juros que fazem as dívidas crescerem mais rapidamente do que a capacidade da economia para arcar com seus serviços. Mantidas essas tendências, o país ficará cada vez mais vulnerável ao aprofundamento da crise mundial, que certamente vai gerar o encurtamento do financiamento externo. 

Por seu turno, o endividamento interno privado precisa ser contido dentro de limites compatíveis com o aumento da renda, sob o risco de provocarem um curto-circuito no abastecimento de crédito bancário.

O endividamento do governo também precisa ser contido, de modo a não gerar um aumento na conta de juros que obrigue a cortar gastos na área social, a exemplo do que vem ocorrendo nos países desenvolvidos. Não cabe esquecer, pois, que na atual etapa do desenvolvimento capitalista, endividamento crescente, valorização do capital financeiro e crise social estão intimamente associados. E nós não somos exceção.

(*) Flávio Lyra é economista. Cursou o doutorado de economia da UNICAMP. Ex-técnico do IPEA.

Globalização e concentração de capitais

Antonio Corrêa de Lacerda (*)

A concentração de empresas é uma das faces mais controversas do capitalismo contemporâneo. A expressiva expansão da disponibilidade de recursos financeiros, intensificada na fase da chamada financeirização, ou globalização financeira, especialmente a partir das últimas décadas do século passado tem representado um desafio crescente.

Na medida em que os mercados financeiros se sofisticaram com a criação de novos produtos, como os derivativos, por exemplo, e se interligaram nas 24 horas do dia, isso propiciou uma fantástica alavancagem de recursos. Estima-se que o volume global de ativos financeiros, sem considerar os derivativos, represente mais de quatro vezes o PIB (Produto Interno Bruto) mundial. Ao mesmo tempo em que essa enorme liquidez aumentou o potencial de geração de crises, como as que se observou especialmente a partir dos anos 1990, também expandiu a disponibilidade de funding para as atividades produtivas: a expansão das empresas, do comércio internacional, da evolução tecnológica e das inovações.

As empresas intensificaram a sua atuação para fora das fronteiras dos seus países de origem, por meio dos investimentos diretos estrangeiros, cujos fluxos cresceram da média anual de US$ 200 bilhões, no inicio da década de 1990, para mais de US$ 1 trilhão, nos anos 2000. Isso também impulsionou as operações de fusões e aquisições mundo afora, que respondem por cerca de três quartos do volume de investimento no exterior.

Para fazer frente a esta crescente internacionalização, as empresas locais logo perceberam que se não adotassem uma estratégia ativa, elas seriam alvos fáceis de aquisição por parte de seus concorrentes mais robustos, agora fortalecidos pela expansão dos mercados de capitais. As empresas domésticas adotaram duas estratégias muito claras para ganhar economias de escala e competir neste novo cenário: primeiro adquirindo, ou se fundindo a outras empresas locais, e, segundo, expandindo sua atuação no exterior.

Assim, o movimento de concentração de empresas se deu tanto de fora para dentro, com a intensificação dos capitais forâneos, mas também internamente, como mecanismo de defesa, e ainda, no exterior, com a internacionalização das suas filiais.

Este cenário de hipercompetição entre grandes grupos econômicos impõe desafios para os países na formulação das políticas econômicas domésticas e para a regulação da concorrência. Uma atitude passiva pode significar a completa desnacionalização da suas estruturas produtivas com evidentes perdas estratégicas. Os Estados Nacionais são mais fortes, na medida em que atuam em parceria com as empresas, como demonstram as experiências dos EUA, Japão, China, Coréia do Sul, dentre muitos outros.

Um outro dilema é garantir que o consumidor não seja prejudicado com a crescente concentração, pois se os órgãos de defesa da concorrência inviabilizarem as operações de fusões e aquisições poderão, por outro lado, condenar as empresas locais à extinção.

Para o Brasil, especialmente, o cenário imposto pela concentração globalizada dos capitais é um desafio ainda maior. Primeiro, porque nos falta uma clara estratégia integrada para fazer frente às novas circunstâncias e definir mais claramente o nosso papel nas grandes cadeias globais. Tenho dúvida se sequer estamos compreendendo a dimensão do problema. Segundo, e decorrente do primeiro, a valorização cambial, as desvantagens competitivas sistêmicas e a fragilidade das políticas de competitividade (políticas industrial, comercial e tecnológica) denota um quadro preocupante.

Até porque estas questões são muito mal compreendidas e maltratadas na opinião pública, e pelos Poderes. Falta-nos um Projeto, um rumo a ser seguido, que ultrapasse a excessiva fixação nos pseudo benefícios de curto prazo.

O risco implícito se traduz na crescente desnacionalização das bases produtivas, na desindustrialização precoce e na vulnerabilização das contas externas. Um cenário pouco propício para o desenvolvimento de longo prazo. Urge-nos, acordar e agir logo!

(*) Antonio Corrêa de Lacerda é professor-doutor do departamento de economia da PUC-SP e  autor, entre outros livros, de “Globalização e Investimento Estrangeiro no Brasil”

Diálogos Desenvolvimentistas Nº 39: A esquerda, na crise, fica um pouco mais a direita?

Gusthavo Santana 

Há muito os conceitos (e práticas) da esquerda e da direita vêm se modificando em todo mundo. Vale lembrar que a origem desses termos remonta a Revolução Francesa, quando as coisas eram, digamos, mais simples: o clero e a aristocracia – privilegiados pelo Antigo Regime, formavam a bancada da direita e a burguesia ascendente, junto aos camponeses, soldados e demais desassistidos do sistema, formavam a bancada da esquerda, ansiosa por mudanças.

Vamos dar um salto no tempo, saindo do século XVIII e chegando a 2011, e veremos que esquerda e direita não são mais conceitos tão estáveis. Basta olhar para a Grécia, o grande centro da crise fiscal na Europa. O grande vencedor das últimas eleições gregas foi o Partido Socialista (PASOK) que, o nome já entrega, está historicamente alinhado a esquerda. E quais são as medidas que os socialistas estão tomando, sob forte pressão da União Européia, FMI e bancos internacionais? Cortes de gastos públicos, privatizações, demissões de funcionários e redução de salários visando o pagamento de juros da dívida.

Atenágoras Oliveira, engenheiro eletrônico e doutor em economia, é enfático: “A prática ainda é o critério da verdade. Não vejo como classificar o atual governo grego como sendo de esquerda (nem mesmo centro-esquerda), não importando se ele carrega o título de “socialista” no nome do partido governante”. Para Atenágoras, “Os ajustes fiscais disseminados na Europa só conduzem, além da óbvia degeneração da qualidade de vida de seus cidadãos, a uma redução da arrecadação de impostos, levando – sob a ótica liberal – a uma nova rodada de redução de gastos”.

Para a economista Ceci Juruá, no entanto, “Há confusão e divergências sobre os conceitos de esquerda e direita, talvez seja mais um sentimento do que um conceito, ou uma postura”. Ceci ainda cita recente encontro de líderes de esquerda europeus do qual surgiram propostas como a criação de uma agência de avaliação de riscos pública e o resgate da prevalência do Estado sobre os mercados. Os líderes também declararam solidariedade ao governo grego. “Do meu ponto de vista, a solidariedade é um atributo universal das esquerdas”, finaliza Ceci.

Gustavo Santos, economista, lembra que o que está em jogo é qual tipo de Europa teremos no futuro. Para ele, “o Euro foi um projeto de emancipação européia frente ao poder americano, mas foi, certamente, tomado pelo setor financeiro e pelo conservadorismo monetário alemão”. Gustavo também afirma a que “os financistas tem diversos motivos para subjugar a soberania dos pequenos estados. Mas o conservadorismo alemão tem outras razões: busca, com isso, alterar as relações de força para definir – da forma que mais lhes convém, a futura federação européia, onde os pequenos países passarão a ser estados um pouco mais parecidos com os atuais estados brasileiros.”

Rodrigo Medeiros, professor universitário e sócio da Associação Keynesiana Brasileira (AKB), considera que “as comparações entre a União Europeia e o Brasil são interessantes: o predomínio das ideias financistas nos distintos centros hegemônicos merece um paralelo”. Ele cita um recente estudo do IBGE que mostra que o Brasil estaria vivendo uma espécie de refluxo da tradicional importação de mão de obra pelo Sudeste, o que poderia significar que a situação do Norte, Nordeste e Centro-Oeste estaria melhorando. Para Rodrigo Medeiros, “Isso não quer dizer que o governo Lula tenha sido muito bom. A questão é saber se esse processo brasileiro é sustentável e se não repetiremos algo próximo ao que ocorreu na UE, quando se distribuiu fundos de desenvolvimento regional que criaram uma sensação de elevação do bem-estar social e de que a União garantiria esse estado permanentemente. Espanha, Grécia, Portugal e Irlanda confiaram nessa hipótese”. Lembrando que Espanha, Grécia, Portugal e Irlanda são os países mais afetados pela crise na Europa.

Para Flavio Lyra, economista e ex-técnico do IPEA, a esquerda precisa se focar em três pontos de modo a justificar sua presença no poder. O primeiro é impedir a materialização de tendências atuais nas democracias liberais de crises econômicas recorrentes, destruição da natureza e aumento das desigualdades. Segundo, não apenas lutar parar melhorar a gestão da sociedade, mas sim para a realização de mudanças profundas nas instituições. “Não se trata aqui de negociação, mas sim de confrontação de forças. Por exemplo, fazer uma reforma tributária que torne os sistemas tributários menos regressivos não vai contar, em nenhuma hipótese, com o apoio das classes proprietárias”, salienta Flavio. O terceiro ponto, segundo o economista, diz respeito à capacidade da esquerda distinguir os interesses convergentes entre trabalhadores e capitalistas e os interesses divergentes. “É fundamental fazer alianças com os setores capitalistas com os quais haja interesses convergentes, como é o caso do combate ao processo de desindustrialização que ameaça os países da América do Sul. Porém, as esquerdas precisam também estar prontas para lutar pelos interesses dos trabalhadores, quando esses são conflitantes com os interesses dos capitalistas como é o caso, por exemplo, da universalização das políticas sociais”, ele explica.

Por que a oposição não fala de economia?

Marco Aurélio Weissheimer

Subitamente, setores da sociedade brasileira querem que o povo saia às ruas. É preciso qualificar esses “setores da sociedade brasileira”. São aqueles que foram apeados do poder político no início dos anos 2000 e que tiveram sua agenda política e econômica dilacerada pela realidade. A globalização econômica cantada em prosa e verso nos anos 1990 revelou-se um fracasso retumbante. A globalização financeira, a única que houve, afundou em uma crise dramática que drenou bilhões de dólares da economia real, conta que, agora, está sendo paga por quem costuma pagar essas lambanças: o povo trabalhador que vive da renda de seu trabalho.

Durante praticamente duas décadas, nos anos 80 e 90, a esmagadora maioria da imprensa no Brasil e no exterior repetiu os mesmos mantras: o Estado era uma instituição ineficiente e corrupta, era preciso privatizar a economia, desregulamentar, flexibilizar. A globalização levaria o mundo a um novo renascimento. Milhares de editoriais e colunas repetiram esse discurso em jornais, rádios, tvs e páginas da internet por todo o mundo. Tudo isso virou pó. Os gigantes da economia capitalista estão mergulhados em uma grave crise, a Europa, que já foi exemplo de Estado de Bem-Estar Social, corta direitos conquistados a duras penas após duas guerras mundiais. A principal experiência de integração regional, a União Europeia, anda para trás.

No Brasil, diante da total ausência de programa, de projeto, os representantes políticos e midiáticos deste modelo fracassado que levou a economia mundial para o atoleiro, voltam-se mais uma vez para o tema da corrupção. Essa é uma história velhíssima na política brasileira. Já foi usada várias vezes, contra diferentes governantes. Afinal de contas, os corruptos seguem agindo dentro e fora dos governos. Aparentemente, por uma curiosa mágica, eles são apresentados sempre como um ser que habita exclusivamente a esfera pública. Quando algum corrupto privado aparece com algemas, costuma haver uma surda indignação contra os “excessos policiais”.

No último domingo, o jornal O Globo publicou uma reportagem para questionar por que os brasileiros não saem às ruas para protestar contra a corrupção (aliás, o MST respondeu à pergunta, mas não teve sua resposta publicada). O Globo sabe a resposta. Como costuma acontecer no Brasil e no resto do mundo, o povo só sai às ruas quando a economia vai mal, quando há elevadas taxas de desemprego, quando as prateleiras dos super mercados tornam-se território hostil, quando não há perspectiva para a juventude. Não há nada disso no Brasil de hoje. Há outros problemas, sérios, mas não estes. A violência, o tráfico de drogas, as filas na saúde, a falta de uma educação de melhor qualidade. É de causar perplexidade (só aparente, na verdade) que nada disso interesse à oposição. Quem está falando sobre isso são setores mais à esquerda do atual governo.

Comparando com o que acontece no resto do mundo, a economia brasileira vai bem. Não chegamos ao paraíso, obviamente. Longe disso. Há preocupações legítimas em nosso vale de lágrimas que deveriam ser levadas a sério pelo governo federal sobre a correção e pertinência da atual política cambial e de juros, apenas para citar um exemplo. O Brasil virou mais uma vez um paraíso para o capital especulativo e a supervalorização do real incentiva um processo de desindustrialização.

Curiosamente, essa não é a principal bandeira da oposição. Por que estão centrando fogo no tema da corrupção e não na ausência de mecanismos de controle de capitais, por exemplo? Por que não há editoriais irados e enfáticos contra a política do Banco Central e as posições defendidas pelos agentes do setor financeiro? Bem, as respostas são conhecidas. Os partidos políticos não são entidades abstratas descoladas da vida social das comunidades. Alguns até acabam pervertendo seus ideais de origem e se transformam em híbridos de difícil definição. Mas outros permanecem fiéis às suas origens e repetem seus discursos e estratégias, década após década.

Nos últimos dias, lideranças nacionais do PSDB e seus braços midiáticos vêm repetindo um mesmo slogan: o Brasil vive uma das mais graves crises de corrupção de sua história. Parece ser uma tese com pouco futuro. Tomando as denúncias de corrupção como critério, o processo de privatizações no período FHC é imbatível. Há problemas econômicos reais no horizonte. É curioso que isso não interesse à oposição. Afinal, é isso que, no final das contas, faz o povo sair às ruas. Sempre foi assim: a guerra, a fome, o desemprego. Esses são os combustíveis das revoluções.

A indigência intelectual e programática da oposição brasileira não consegue fazer algo além do que abrir a geladeira, pegar o feijão congelado meio embolorado da UDN, colocá-lo no forno e oferecê-lo à população como se fosse uma feijoada irrecusável. Mas no fundo não se trata de indigência. É falta de alternativa mesmo. Falta de ter o quê dizer. Não falta matéria-prima para uma oposição no Brasil, falta cérebro e, principalmente, compromisso com um projeto de país e seu povo.

O modelo político-econômico que hoje, no Brasil, abraça a corrupção como principal bandeira esteve no poder nas últimas décadas por toda a América Latina e foi varrido do mapa político do continente, com algumas exceções. Seu ideário virou sinônimo de crise por todo o mundo. É preciso mudar de assunto mesmo. A verdade, em muitos casos, pode ser insuportável, ou, simplesmente, inconveniente.