Arquivo mensais:julho 2011

Dívida externa deve subir à U$ 286,8 bi em junho, diz BC

Azelma Rodrigues | Valor

A dívida externa brasileira é estimada para junho em US$ 286,829 bilhões, ante US$ 275,947 bilhões fechados em março. Em dezembro de 2010, a dívida estava em US$ 256,8 bilhões, de acordo com números do Banco Central (BC).

A dívida de médio e longo prazos projetada para o fim do primeiro semestre de 2011 subiu para US$ 235,803 bilhões, em relação aos US$ 218,5 bilhões de março.

A dívida de curto prazo, por sua vez, foi prevista em US$ 51,027 bilhões para junho, apresentando redução ante os US$ 57,475 bilhões do fim do primeiro trimestre do ano.

A maior parcela é devida pelas instituições financeiras, com US$ 129,584 bilhões estimados para o primeiro semestre do ano; governo geral em US$ 59,964 bilhões; BC com US$ 4,621 bilhões e outros setores, US$ 92,661 bilhões.

Os empréstimos intercompanhias das multinacionais a suas subsidiárias no país foram projetados em US$ 106,51 bilhões para junho, contra US$ 102,144 bilhões em março.

Agregando-se esses empréstimos, que são desconsiderados da dívida externa líquida pelo BC, a dívida bruta foi projetada em US$ 393,34 bilhões para junho de 2011, superior à posição de US$ 378,092 bilhões divulgada para março.

Fonte: http://valoronline.com.br/online/financas/28/462083/divida-externa-deve-subir-a-us-2868-bi-em-junho-diz-bc

Os governos recentes e a concentração do capital

Quando a gente conta, as pessoas não acreditam. Afinal não é essa a imagem do governo atual e dos anteriores no exterior. Mas o fato é que realmente desde a posse de Lula em janeiro de 2003 tem início um processo de encantamento dos recém-chegados ao poder com o mundo do capital e das finanças. Uma situação que era inimaginável até então: o namoro e a aproximação político-ideológica dos dirigentes do partido e dos sindicalistas com o universo empresarial, em especial aquele das finanças.

Talvez o elemento mais emblemático tenha sido a indicação e a permanência de Henrique Meirelles à frente do comando do Banco Central durante os 8 anos em que Lula ocupou o Palácio do Planalto. E a tabelinha sincronizada e azeitada que fazia com Palocci à frente do Ministério da Fazenda. Mas há outras formas de encarar o mesmo tipo de comportamento dos governos mais recentes com relação aos pleitos e aos interesses do grande capital. No caso, talvez valha a pena detalhar melhor os processos relativos ao estímulo à concentração de capital e à formação e ao fortalecimento de grandes oligopólios atuantes em nossa economia. Mais uma impressionante reviravolta em tudo aquilo que o PT sempre havia proposto nos tempos em que estava na oposição. Antes, era sempre a denúncia de favorecimento de grandes grupos e a exposição dos malefícios e os riscos que a concentração pode trazer para a maioria da população. Depois de 2002, a coisa mudou de figura e as propostas sofreram uma guinada considerável.

Antes de mais nada, é importante registrar que o Executivo federal em nosso País tem um poder potencial considerável para atuar nessa matéria. Há órgãos nos ministérios encarregados de acompanhar as tendências à concentração de mercados, como a Secretaria de Acompanhamento Econômico do Ministério da Fazenda (SEAE/MF) e a Secretaria de Direito Econômico do Ministério da Justiça (SDE/MJ). Há projetos de pesquisa feitos pelo IPEA e pelos grupos de pesquisa nas universidades. O governo indica os membros do Conselho Administrativo de Defesa da Concorrência (CADE), um órgão que regula e julga os casos de abuso de poder no mercado. O governo tem sob sua direção as importantes agências financeiras, como o BNDES ou o Banco do Brasil, para estimular ou evitar tais eventos prejudiciais aos interesses da maioria.

Mas a grande surpresa tem sido o caminho trilhado desde então. Vamos recuperar aqui somente um pouco da memória dos casos mais significativos. Mas que confirmam a mudança de orientação e o estabelecimento de uma política (às vezes formalmente, outras vezes de maneira mais informal) de estímulo à concentração do capital.

Em 2004, chega ao momento de decisão um caso que se arrastava desde 2002, em que a grande multinacional suíça Nestlé resolveu adquirir o controle de seu grande concorrente nacional no ramo alimentício, em especial chocolates e biscoitos – a Garoto. Para quem conhece minimamente a realidade desse setor, tal fusão significaria a formação de um grande grupo cartelizado com poder quase monopolístico no mercado. Ou seja, grande poder de pressão sobre os fornecedores de matéria prima e bens intermediários, bem como uma enorme capacidade de atuar isoladamente na política de preços de seus produtos junto ao consumidor final. Apesar da decisão do CADE ter estabelecido certas condições para aprovar a operação, o fato é que o processo tornou-se irreversível.

Em 2008, saímos do ramo alimentar e entramos no espinhoso setor de telecomunicações. Em mais uma daquelas situações inexplicáveis, o governo acaba sendo convencido de uma suposta necessidade de promover a fusão de dois gigantes da telefonia. E juntando num único grupo uma empresa do ramo da telefonia fixa com outro da telefonia celular. Uma aberração econômica e uma impossibilidade jurídica. Afinal, a própria Lei Geral das Telecomunicações proibia tal concentração de mercado. Algum problema? Pois então tratoremos a decisão na ANATEL e mudemos essa leizinha que nos complica a vida… Simples assim. No final das contas, foi efetivada a fusão, com a compra da Brasil Telecom pela Oi/Telemar. Surgiu o monstrengo da BrOi. E o Brasil continua a ser um dos países que apresenta as maiores tarifas de serviço telefônico e telecomunicações em geral no mundo. Concorrência no setor para melhor a qualidade dos serviços e reduzir preços? Universalização do acesso à internet a custos efetivamente baixos? Isso não passa de conversa prá boi dormir.

No ano seguinte, em 2009, o ramo do agronegócio tangenciando com o alimentício volta à cena. Trata-se da fusão dos dois gigantes de carnes e aves: Sadia e Perdigão. Não contentando-se com a condição de grandes empresas com poder oligopolístico, resolveram unir-se num quase monopólio. Mais uma vez, foram ajudadas e estimuladas pelo governo, que via com bons olhos a formação dessa enormidade empresarial, num ramo voltado também ao mercado externo. Afinal, o País já havia conquistado a liderança mundial nas exportações de aves e seus subprodutos. Com todo o apoio financeiro necessário do BNDES, o discurso era o da necessidade da criação das “multinacionais brasileiras”. O nome da nova empresa é bem sugestivo a esse respeito: Brazil Foods, com o poder de quase 50% do mercado! E a nossa conhecida prática de recorrer ao Estado para ter recursos e assegurar o risco, ao passo que a apropriação do lucro continua sendo – obviamente – privada. Assim, decisão recente do CADE de colocar algumas pré-condições para aprovar a fusão pouco influencia no cerne da concentração.

Outra iniciativa do governo foi a promoção da concentração do já concentrado grupo de frigoríficos e carnes – o JBS-Friboi. Considerado como um dos grandes do mundo, nesse mesmo 2009 ele foi incentivado a fundir-se com o grupo internacional Bertin. Mesmo enredo dos anteriores: apoio logístico e financeiro do governo para uma mega operação entre privados, que em nada favorece a concorrência no mercado das carnes. Caso típico em que os fornecedores de matéria-prima (os criadores e fazendeiros) dependem do preço do oligopólio na compra e este determina o preço de venda na ponta para o consumidor final. Nos cursos e manuais de economia, costuma-se classificar essa condição como “oligopsônio”, caso em que as possibilidades de afastamento das regras de concorrência e de abuso de poder econômico são freqüentes.

Em 2010, a operação que chamou a atenção ocorreu no ramo da construção civil e da incorporação imobiliária. Uma das maiores empresas do mundo PDG Realty comprou a gigante brasileira Agre, que já havia sido resultado de uma fusão de três grandes nacionais (Agra, Klabin Segall e Abyara). A linha de defesa da operação apoiada pelo governo era a da importância estratégica das grandes multinacionais brasileiras.

Agora estamos assistindo às marchas e contramarchas da novela da fusão do Carrefour e do Pão de Açúcar. E sempre o dedo do governo no meio da transação empresarial carregada de suspeita. No limite do desespero argumentativo, houve autoridade que chegou a falar na importância da operação, pois ela abriria mercado externo para produtos brasileiros! Como se já não bastassem serem dois gigantes da grande distribuição, o governo ainda estimula a superfusão entre ambos e tentou botar o BNDES a injetar recursos na arquitetura financeira. No final, foi necessária a ameaça do grupo francês Casino para que a fusão perdesse fôlego e o governo recuasse.

No caso das empresas de aviação, setor em que há uma tendência à concentração, o governo não se mobiliza tampouco para evitar a oligopolização. A recente aquisição da Webjet pela Gol reforça essa postura passiva, além de ter inviabilizado outra tentativa de consolidação de uma empresa operando no sistema de “baixo custo, baixa tarifa”, como foi o caso da aquisição da empresa Bra. O mercado brasileiro já demonstrou, por algumas vezes, que é possível operar empresas de aviação praticando preços mais baratos que o transporte por ônibus a longa distância. Mas para tais objetivos e o estímulo à criação de empresas aéreas regionais, é necessário que o poder regulador do Estado se faça de forma mais ativa.

Além disso, é importante lembrar a falta de coragem política de enfrentar a concentração de poder no setor da imprensa e das comunicações em sentido amplo. Não há argumentos de natureza jurídica, econômica ou democrática que justifiquem a existência desses conglomerados. Na maioria dos países há regras que evitam a horizontalização das atividades, ao contrário do que ocorre nas nossas terras. As oligarquias políticas regionais dominam a imprensa escrita, as rádios, as concessões de televisão e por aí vai. Ao manter intocável o atual estado de coisas favorecedor da concentração, os governos recentes foram perdendo sua credibilidade em um outro setor onde se esperava mudança. Com o agravante de tratar-se de uma área bastante sensível, pois estimula concentração de capital e de acesso à informação. O escândalo do todo-poderoso Murdoch está escancarado aí para quem quiser ver, mostrando o caminho a ser evitado.

Por fim, é importante registrar que a concentração em si mesma nem sempre é negativa para a sociedade. Há setores em que os recursos necessários exigem empresas de grande porte e poucas conseguem se manter na atividade. O caso da infra-estrutura é típico. E aqui, justamente, entra a ação do Estado, seja na condição de proprietário da empresa pública ou como órgão regulador das atividades do setor. A idéia é assegurar retorno social desse tipo mercado concentrado, de modo que os preços e a qualidade dos serviços oferecidos estejam compatíveis com as necessidades da população. E não adianta tentar escamotear a natureza das decisões políticas, com a já gasta desculpa retórica dos “elementos técnicos envolvidos na questão”. Há sempre, ao menos, dois lados com interesses opostos. E os governos têm adotado, de forma sistemática, os interesses das empresas envolvidas com a concentração.

(*) Paulo Kliass é Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental, carreira do governo federal e doutor em Economia pela Universidade de Paris 10.

Face à crise: quatro princípios e quatro virtudes

A frase de Einstein goza de plena atualidade: “o pensamento que criou a crise não pode ser o mesmo que vai superá-la”. É tarde demais para fazer só reformas. Estas não mudam o pensamento. Precisamos partir de outro, fundado em princípios e valores que possam sustentar um novo ensaio civilizatório. Ou então temos que aceitar um caminho que nos leva a um precipício. Os dinossauros já o percorreram.

Meu sentimento do mundo me diz que quatro princípios e quatro virtudes serão capazes de garantir um futuro bom para a Terra e à vida. Aqui apenas os enuncio sem poder aprofundá-los, coisa que fiz em várias publicações nos últimos anos.

O primeiro é o cuidado. É uma relação de não agressão e de amor à Terra e a qualquer outro ser. O cuidado se opõe à dominação que caracterizou o velho paradigma. O cuidado regenera as feridas passadas e evita as futuras. Ele retarda a força irrefreável da entropia e permite que tudo possa viver e perdurar mais. Para os orientais o equivalente ao cuidado é a compaixão; por ela nunca se deixa o outro que sofre abandonado, mas se caminha, se solidariza e se alegra com ele.

O segundo é o respeito. Cada ser possui um valor intrínseco, independetemente de seu uso humano. Expressa alguma potencialidade do universo, tem algo a nos revelar e merece exisitir e viver. O respeito reconhece e acolhe o outro como outro e se propõe a conviver pacificamente com ele. Ético é respeitar ilimitadamene tudo o que existe e vive.

O terceiro é a responsabilidade universal. Por ela, o ser humano e a sociedade se dão conta das consequências benéficas ou funestas de suas ações. Ambos precisam cuidar da qualidade das relações com os outros e com a natureza para que não seja hostil mas amigável à vida. Com os meios de destruição já construidos, a humanidade pode, por falta de responsabilidade, se autoeliminar e danificar a biosfera.

O quarto princípio é a cooperação incondicional. A lei universal da evolução não é a competição com a vitória do mais forte mas a interdependência de todos com todos. Todos cooperam entre si para coevoluir e para assegurar a biodiversidade. Foi pela cooperação de uns com os outros que nossos ancestrais se tornaram humanos. O mercado globalizado se rege pela mais rígida competição, sem espaço para a cooperação. Por isso, campeiam o individualismo e o egoismo que subjazem à crise atual e que impediram até agora qualquer consenso possível face às mudanças climáticas.

Os quatro princípios devem vir acolitados por quatro virtudes, imprescindíveis para a consolidação da nova ordem.

A primeira é a hospitalidade, virtude primacial, segundo Kant, para a república mundial. Todos tem o direito de serem acolhidos o que correspode ao dever de acolher os outros. Esta virtude será fundamental face ao fluxo dos povos e aos milhões de refugiados climáticos que surgirão nos próximos anos. Não deve haver, como há, extra-comunitários.

A segunda é a convivência com os diferentes. A globalização do experimento homem não anula as diferenças culturais com as quais devemos aprender a conviver, a trocar, a nos complementar e a nos enriquecer com os intercâmbios mútuos.

A terceira é a tolerância. Nem todos os valores e costumes culturais são convergentes e de fácil aceitação. Dai impõe-se a tolerância ativa de reconhecer o direito do outro de existir como diferente e garantir-lhe sua plena expressão.

A quarta é a comensalidade. Todos os seres humanos devem ter acesso solidário e suficiente aos meios de vida e à seguridade alimentar. Devem poder sentir-se membros da mesma família que comem e bebem juntos. Mais que a nutrição necessária, trata-se de um rito de confraternização.

Todos os esforços serão em vão se a Rio+20 de 2012 se limitar à discussão apenas de medidas práticas para mitigar o aquecimento global, sem discutir outros princípios e valores que podem gerar um consenso mínimo entre todos e assim conferir sustentabilidade à nossa civilização. Caso contrário, a crise continuará sua corrosão até se transformar num tragédia. Temos meios e ciência para isso. Só nos faltam vontade e amor à vida, à nossa, e a de nossos filhos e netos. Que o Espírito que preside à história, não nos falte.

(*) Leonardo Boff é teólogo e escritor.

Governo economiza como nunca e enfatiza efeitos contra a inflação

André Barrocal | Carta Maior

O governo federal economizou, de janeiro a junho, R$ 55 bilhões em dinheiro que coletara da sociedade em tributos, para destinar ao pagamento de juros da dívida pública, de acordo com informações divulgadas nesta segunda-feira (25/07) pela Secretaria do Tesouro Nacional.

A quantia equivale a 67% dos R$ 81 bilhões que o governo planeja represar no ano todo com a mesma finalidade. Só em junho, foram economizados R$ 10 bilhões, um recorde no mês. Em 12 meses, foram R$ 109 bilhões, outro recorde. Já os gastos federais com obras e investimentos em geral somaram, no semestre, R$ 15 bilhões, 22% do total de R$ 67 bilhões previstos para 2011.

Este resultado do manejo dos recursos pode incomodar quem gostaria de ver o governo investindo mais na superação de deficiências brasileiras, como os gargalos de infra-estrutura ou a erradicação da miséria.

Mas é um desempenho que tem motivo para ser comemorado, na avaliação do Tesouro, gestor dos recursos. “Contribui para que as pressões inflacionárias sejam menores sem que a gente tenha a mesma necessidade de política monetária que teríamos”, disse o secretário Arno Augustin.

Tradução: a Fazenda acredita que, ao guardar o dinheiro arrecadado sem devolvê-lo à sociedade na forma de investimentos ou outros gastos, ajuda a conter a atividade econômica e, com isso, a alta de juros (“necessidade de política monetária”) por parte do Banco Central (BC). Sem tamanho ajuste fiscal, o BC teria subido o juro numa proporção maior do que fez nas cinco vezes seguidas em que tomou tal decisão em 2011.

O BC concorda com a análise, que faz parte de uma estratégia traçada desde o fim do ano passado pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, e que foi chancelada pela presidenta Dilma Rousseff no início de 2011.

Ao usar o represamento de recursos no combate da inflação, o governo tira proveito do crescimento – é a atividade que gera arrecadação – sem desanimar trabalhadores e empresários com juros muito mais altos.

Desta forma, quando as pressões inflacionárias sumirem, a economia não terá sido sacrificada, trabalhadores e empresários não teram perdido a confiança sobre o futuro do país, e a taxa de juros será menor, facilitando sua redução a patamares mais compatíveis com as observadas no resto do mundo.

O governo tem se esforçado para propagandear as benesses anti-inflacionárias de um “superávit primário” robusto, por causa da batalha contra o “mercado”, que sustenta expectativas de inflação em alta, a despeito da ação da Fazenda e do BC.

A entrevista de Arno Augustin, com ênfase no aspecto anti-inflacionário do superávit primário e a declaração de que o corte de R$ 50 bilhões do orçamento no início do ano não será atenuado, é um exemplo disso.

Outro foi dado pelo Banco Central recentemente, em seu relatório trimestral de inflação. Pela primeira vez, o banco dedicou espaço especial a cálculos sobre o impacto do superávit primário no ritmo econômico, os quais apontam uma relação direta e inversamente proporcional entre ajuste fiscal e o crescimento.

Fonte: http://cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=18118

Aliados cogitam manter Kadafi

Carta Capital

Autoridades de relações exteriores de ambos os países, que fazem parte das ações militares na Líbia, afirmam que o general deve deixar o poder, mas seu destino está nas mãos dos líbios. Foto: Alessandro Bianchi/Reuters/Latinstock

O Reino Unido está preparado para aceitar um acordo político na Líbia que permita a permanência do general Muamar Kadafi no país, desde que ele renuncie ao poder. A afirmação partiu do Secretário britânico para Assuntos Internacionais, William Hague, em uma coletiva de imprensa em Londres, na  segunda-feira 25.

Segundo Hague, o foco do país é garantir a queda de Kadafi, sendo a  decisão sobre seu futuro responsabilidade dos líbios. “Não importa o que aconteça, ele tem que deixar o poder. Ele não pode nunca mais  ameaçar a vida de civis”, disse.

“Obviamente, deixar a Líbia seria a melhor maneira de mostrar ao povo líbio que eles não precisam mais temê-lo”, completou no evento, que ainda contava com a participação do Ministro de Assuntos Internacionais da França, Alain Juppé.

A ideia da permanência de Kadafi no país, caso ele deixe o poder, já havia sido aventada pelo líder rebelde líbio, Mustafa Abdel Jalil, em entrevista ao jornal americano Wall Street Journal. Uma saída que parece começar a refletir a visão da OTAN, incluindo a França e o Reino Unido, que agora sugerem que o general pode não responder por suas ações contra civis na Líbia diante da Corte Internacional de Crimes de Guerra em Haia, na Holanda.

Juppé disse em Londres que desde o início da incursão na Líbia o objetivo principal era “dar ao povo local liberdade e a democracia”, defendendo que o destino de Kadafi deve ficar nas mãos da população. No entanto, afirmou também ser importante manter o princípio de que “ninguém está imune a ser processado”.

Fonte: http://www.cartacapital.com.br/politica/reino-unido-e-franca-cogitam-deixar-kadafi-na-libia

Barack Obama, Jânio Quadros e o fim da privacidade

Luiz Carlos Azenha

Durante a campanha eleitoral de 2008, nos Estados Unidos, eu morava em Washington. Na época o New York Times publicou um perfil de Barack Obama que eu gostaria de ter guardado e traduzido para o site, mas, depois de perdê-lo, nunca mais consegui recuperar o link.

O que me interessou foram alguns breves parágrafos. Contavam de uma viagem de Obama a Israel, quando senador. Numa ocasião, Obama depositou um pedaço de papel — com um desejo escrito — no muro das Lamentações. A viagem não mereceu grande cobertura da mídia, mas mesmo assim algum jornalista foi lá, recolheu o papel colocado por Obama e reproduziu o conteúdo. Era uma frase impecável, digna de um marqueteiro nato.

O Times, a propósito do episódio, concluiu que Obama havia se preparado desde muito cedo para uma possível campanha presidencial, dado o conteúdo do bilhete supostamente ’secreto’ deixado no muro. O autor do texto também disse que Obama era o primeiro candidato da geração para a qual a sensação de privacidade já não existia mais.

É fato que Obama, desde muito cedo, adotou as novas mídias na arena política. Ganhou a Casa Branca com intenso uso da internet, batendo recorde de arrecadação e de trabalho gratuito de internautas voluntários. Foi o primeiro a levar o You Tube realmente a sério e, mais recentemente, o primeiro a dar uma entrevista para tuiteiros.

A internet é uma arma poderosa, mas também cobra caro: elimina hierarquias e dá ao eleitor o poder de fazer cobranças em tempo real, quando o tempo político — de formação de consensos, de vencer resistências, de construir alianças e do próprio processo legislativo — é outro.

O artigo do Times comparava diferentes gerações de políticos. Não me lembro, a essa altura, se usava o exemplo de John Kennedy, cuja persona pública de bom moço contrastava com a vida nos bastidores. Mas Obama, dizia o articulista, era produto de outro tempo, da transparência total, de uma época em que somos olhados 24 horas por dia, das câmeras de vigilância ao Facebook, do Twitter à blogagem de assuntos que antes eram vistos como estritamente pessoais.

Esse novo tempo gera um descompasso entre os políticos tradicionais e parte considerável do eleitorado, especialmente em países onde haja muitos jovens e grande penetração da banda larga.

Nestes países, nos quais não incluo o Brasil, milhões que usam a comunicação eletrônica e instantânea esperam respostas imediatas para suas demandas e reproduzem com uma velocidade sem igual seu descompasso com a lentidão dos poderes constituídos.

Embora as revoltas na rua árabe e os protestos na Grécia, na Espanha ou no Chile sejam resultado de processos políticos distintos, me parece que a capacidade de difundir e ampliar não apenas informações, mas também sentimentos (lembrem-se, no Facebook uma gigantesca empresa se esconde atrás do que, no passado, seria um familiar mural de universidade) contribui para ampliar numa velocidade inesperada o fosso entre representantes e representados.

Nas últimas semanas, como todos vocês devem ter notado, parte da mídia brasileira parecia tomada por um furor udenista, saudando nas manchetes a “limpeza” e a “varrição” promovida pela presidente Dilma Rouseff no Ministério dos Transportes. É como se o Planalto tivesse, de repente, sido tomado por um Jânio Quadros de saias.

Setores da esquerda, como sempre, fizeram cara de pouco caso. Ainda existe gente na esquerda que considera o combate à corrupção algo “moralista” –  comportamento dito “pequeno burguês”  — e, portanto, menor.

O duro é combinar com os milhões que pagam impostos e que insistem na ideia de que merecem transparência e emprego eficaz do dinheiro público.

O fato é que a presidente, ao satisfazer os autores das manchetes, cobriu também, mesmo que sem querer, o déficit da transparência a que me referi acima.

Dilma tem uma coisa em comum com Obama: ambos eram políticos “novatos” ao assumir a presidência. Ele, senador em primeiro mandato. Ela, em sua primeira campanha eleitoral.

Nenhum acumulou bagagem de uma longa carreira capaz de destruí-lo na idade da transparência.

De Obama o máximo que a direita conseguiu encontrar foi uma certidão de nascimento “falsa”, o sobrenome Hussein e o suposto envolvimento com radicais dos anos 60.

De Dilma o máximo que a direita conseguiu produzir foi uma ficha falsa, publicada na capa de um blog su… quero dizer, do maior jornal do Brasil.

Portanto, se pode se dar ao luxo, que Dilma faça o papel de Jânio de saias.

Não convém permitir que o fosso entre representantes e representados se abra de forma demasiada, especialmente quando os últimos dispõem como nunca de ferramentas para ampliar e reverberar as suas frustrações.

A política é um teatro onde contam as aparencias e se o eleitorado clama por uma vassourada o papel mais cômodo é o de quem a aplica.

Fonte: http://www.viomundo.com.br/politica/barack-obama-janio-quadros-e-o-fim-da-privacidade.html

Impasse americano e a armadilha cambial no Brasil: a politização da economia

Carta Maior

Ao mesmo tempo em que cheira a loucura, o impasse orçamentário norte-americano que ameaça lançar o mundo ao caos financeiro, empresta –como costuma acontecer no auge das crises– uma forte dose de transparência à realidade ao seu redor. Condensam-se ali escolhas que tem dividido a disputa política ao longo de todo o ciclo neoliberal e do qual esse episódio figura como símbolo de um crepúsculo arrastado.

Uma disjuntiva resume todas as demais: cortar gastos sociais ou aumentar o imposto sobre os ricos? É isso que paralisa a Casa Branca nesse momento. E não terá sido essa, afinal, a disputa de fundo dos últimos 30 anos, vencida em grande parte pelo cânone neoliberal em boa parte do planeta, onde o martelo e o cutelo conservador plasmaram a economia e a sociedade na base de cortes de impostos, redução do papel do Estado na economia -incluindo-se aí a desregulação financeira e as privatizações e, por fim, consumada a fragilidade fiscal decorrente dessa lapidação, a apropriação dos fundos públicos pelos rentistas, através do pagamento de juros da dívida pública?

A diferença agora é que a crise desse modelo politizou a economia, escancarando a luta de classes que estrutura a sua engrenagem, sempre caramelada pelo jornalismo nativo com glacê científico. Ao subtrair, como no caso americano e no de boa parte da UE, o fôlego do amortecedor fiscal exaurido pelo socorro a banca e aos rentistas , não sobrou mais cartilagem pública para suavizar o atrito entre ricos e pobres. A fricção tornou-se direta e cobra uma intervenção cirúrgica. É isso que a cordura do atual Presidente democrata, que, justiça seja feita, nunca se propôs a ser um Franklin Roosevelt, enfrenta como sua hora da verdade.

O Brasil ainda vive um estágio anterior do conflito -a dívida pública aqui é da ordem de 45% do PIB. Deve, porém, pesar meticulosamente como gastará a cartilagem e o tempo disponível, antes que os mercados e a direita extremista, vocalizada pelos Murdochs locais, entendam que chegou a hora de acionar também o xeque-mate testado pelos republicanos. O sinal verde que ela fareja -depois de ter perdido até a farisaica bandeira da corrupção– remete ao impasse cambial. Ademais de ameaçar a indústria brasileira , numa reversão da liquidez externa ele poderá transmudar-se em fuga de capitais abrupta e gerar pressões inflacionárias. Hoje o dólar atingiu o valor mais baixo desde 1999.

Pergunta à Presidenta Dilma: não é melhor surpreender a fatalidade com o inesperado e antecipar-se ao xeque-mate dotando o país de um legítimo controle cambial, ancorado em negociação política, ou política econômica, que iniba o bote dos preços?

Fonte: http://cartamaior.com.br/