Arquivo mensais:julho 2011

Contra especulação no dólar, governo sobe imposto e planeja limites

BRASÍLIA – O governo decidiu intervir na especulação com o dólar para tentar frear o barateamento da moeda norte-americana, que nos últimos dias atingiu os menores níveis em uma década, prejudicando ainda mais as exportações e as empresas brasileiras que concorrem contra importados dentro do país. Vai taxar em até 25% a compra e venda de dólares feita no chamado mercado de derivativos, exigir o registro público de todos os contratos e poderá impor limites de quantias e de prazos às transações.

“Temos agora um arsenal maior para regular a questão cambial”, disse nesta terça-feira (27/07) o ministro da Fazenda, Guido Mantega, ao explicar as medidas, que foram publicadas no Diário Oficial da União. “[O pacote] Atrapalha a especulação e aqueles que estão preocupados em ganhar com a flutuação do câmbio.”

A intervenção vai atingir em cheio operações especulativas por naureza. No mercado de derivativos, investidores negociam valores de um bem (como a cotação do dólar) ou de ativos abstratos (juros), não necessariamente mercadorias físicas. O que comanda as transações, realizadas na Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F) de São Paulo, são as apostas dos investidores sobre os rumos de um determinado valor.

Para o governo, a especulação com o dólar no mercado de derivativos tornou-se exagerada. Já seria inclusive possível detectar uma ação deliberada dos especuladores para forçar a cotação do dólar ainda mais para baixo.

Com a alta taxa de juros do Banco Central (BC), uma enxurrada de dólares vem ao país atrás de lucros com títulos públicos. Quanto mais barata estiver a moeda norte-americana, maior será o ganho de quem entrou no Brasil, aplicou no “mercado” e depois voltará ao país de origem. Para aplicar aqui, o investidor troca dólares por reais. Ao ir embora, faz o inverso. Se o câmbio estiver baixo, ele vai obter mais dólares pelos reais que obteve na especulação.

Para enfrentar isso, o governo baixou uma medida provisória (MP) e um decreto. A MP permite ao Conselho Monetário Nacional (CMN) inteferir nos contratos de derivativos para fixar limites de volume e de prazos. Formado pelos ministros da Fazenda e do Planejamento e pelo presidente do BC, o CMN tem reunião nesta quinta-feira (28/07) e já está autorizado a definir regras específicas.

A MP também obriga todos os contratos fechados na BM&F a serem registrados em entidades previamente autorizadas a operar pelo Banco Central, o que aumentará o poder do governo de controlar o mercado de derivativos.

Altera ainda lei de 1994 que define alíquota máxima de 1,5% ao dia para o imposto sobre operações de crédito, câmbio, seguro ou títulos e valores mobiliários, o IOF. Com a MP, a taxação dos especuladores no mercado de derivativos poderá ser até 16 vezes maior. Segundo Mantega, o novo limite, de 25%, é “alto”, mas o governo não vai usá-lo de uma vez. O novo IOF será calibrado aos poucos.

Já o decreto autoriza o governo a cobrar 1% de IOF sobre a diferença entre o valor das compras de dólares e o valor das vendas, não necessariamente um resultado de soma zero – há quem se comprometa a vender o que não possui no momento porque só precisa entregar no futuro; até lá, espera lucrar de algum jeito. “Estão ofertando dólar sem pôr dinheiro, isso valoriza o real”, afirmou Mantega.

Fonte:http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=18129

Norte-americanos apoiam solução mista para a dívida

Reuters

Os norte-americanos estão muito temerosos quanto à crise da dívida dos Estados Unidos e a maioria deles apoia o tipo de comprometimento defendido pelo presidente Barack Obama para encerrar o impasse, revelou uma pesquisa da Reuters/Ipsos nesta terça-feira.

A maioria, ou 56 por cento dos entrevistados, indicou que os formuladores de políticas e Obama deveriam chegar a um acordo que envolva tanto um aumento de impostos quanto cortes à programas governamentais, a fim de encerrar o impasse nas negociações sobre a dívida.

Obama e republicanos estão discutindo sobre uma maneira colocar as finanças do país em ordem antes de 2 de agosto, prazo final para que o teto da dívida do país seja elevado e evitar um default. Obama prefere um misto de cortes de gastos e aumentos de impostos para reduzir o déficit, enquanto republicanos apoiam profundos cortes nos gastos, sem elevação de impostos.

A maior parte dos entrevistados –83 por cento– disse estar preocupada quanto ao fracasso das negociações sobre a dívida até o momento, enquanto que 54 por cento afirmou estar muito preocupada.

A atribuição da culpa pelo impasse pesa mais para os republicanos: 31 por cento das pessoas entrevistadas culparam os políticos do partido de oposição, enquanto que 21 por cento enxergavam Obama como o grande responsável pela crise. Apenas 9 por cento viam os políticos democratas como culpados.

(Reportagem de Steve Holland e Alistair Bell)

Fonte:http://br.reuters.com/article/businessNews/idBRSPE76P0KS20110726

Frear a alta do real é a única opção

André Siqueira (*)

A luta para conter a valorização do real é inglória, mas necessária. Assim o professor da Unicamp e ex-secretário de Política Econômica, Julio Gomes de Almeida, avalia as mais recentes medidas anunciadas pelo governo na área cambial. “Desta vez, há a vantagem de reduzir o ganho de quem aposta na valorização.” Uma medida provisória publicada na manhã desta quarta-feira 27 altera as regras para operações de derivativos em dólar, que poderão ser taxadas em até 25%, além de aumentar a fiscalização sobre operações potencialmente especulativas.

De acordo com o economista, as medidas não impedem a alta do real, mas podem conter o ritmo de apreciação. “Não há viv’alma que não ache que a moeda vai se valorizar, mas o mercado futuro afeta o presente de forma desproporcional.” A ausência completa de medidas de controle do câmbio, prossegue Almeida, poderia acelerar esse processo, com um “efeito manada” que se prolongaria até provocar uma reversão no fluxo de moeda de igual proporção. “Quando o capital de curto prazo decide ir embora, vai de uma vez, e os resultados são inflação e recessão.”

A grande dificuldade, para o governo, seria separar os capitais de curto prazo, que buscam ganhos nos altos juros brasileiros e na valorização cambial, daqueles que ingressam no País para reforçar a estrutura produtiva e colher os benefícios do crescimento econômico. “O bloqueio de recursos voláteis tem de ser permanente, por mais que seja difícil identificá-lo”, diz Almeida.

Ao lado da luta contra a valorização cambial, que deveria passar pela redução da taxa de juros, o professor destaca a necessidade de medidas urgentes para elevar a competitividade da indústria e reduzir os custos de operação das empresas nacionais. “A elevação de produtividade é uma forma de compensar a desvantagem cambial. Foi dessa forma que a China lidou com a valorização de sua moeda, que ocorre em um ritmo muito mais lento do que o brasileiro.”

(*) André Siqueira é subeditor de Economia da CartaCapital

Fonte:http://www.cartacapital.com.br/politica/frear-a-desvalorizacao-do-dolar-e-a-unica-opcao

Diálogos Desenvolvimentistas Nº 40: Brasil continua sendo o dono das mais altas taxas de juros do mundo: por que o Banco Central não reduz a Selic?

Gusthavo Santana

Todo mundo já conhece a novela dos juros no Brasil. Não é novidade que nós ocupamos o posto de país com as mais altas taxas de juros do mundo. A última confirmação veio de um estudo elaborado pelo analista internacional Jason Vieira, da Apregoa.com – Cruzeiro do Sul, que pesquisou as 40 principais economias do globo. Na lista, o Brasil está isolado na liderança do quesito juros real. Para deixar essa posição ingrata o país teria que cortar a famosa Selic (taxa básica de juros) para 7,25% ao ano.

No entanto, na última quarta-feira (20), o Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central, decidiu elevar a taxa em 0,25% para 12,50% ao ano. A justificativa dada pelo BC todo mundo também conhece: depois de ter consultado o “mercado” (leia-se: instituições ligadas ao sistema financeiro) sobre juros e inflação, o Copom julgou que a melhor coisa para o país seria mesmo elevar a Selic.

Carlos Ferreira afirma que “atualmente, é tão certa a elevação da taxa Selic a cada reunião do Copom, como certas são as chuvas no verão. Isto é assegurado pela total rendição do governo ao ‘deus mercado’, às elites rentistas e sua mídia amestrada”. Para Carlos, “Aceitamos bovinamente a condição que os senhores do mundo nos reservaram na distribuição de tarefas, no mundo: simples fornecedores de produtos agromineirais – primários cabe ressaltar! Veja a Itália já se tornou nossa maior fornecedora de cafés processados, por exemplo. A nós cabe exportar os grão “in natura”.

Flavio Lyra, economista e ex-técnico do IPEA, acredita que existe um círculo vicioso nas estimativas da taxa Selic que servem de base a seu cálculo. Ele explica que “A estimativa das expectativas de inflação baseiam-se na taxa de inflação que as empresas incluem em seus reajustes de preços que, por vez, são feitas considerando os custos referentes a juros. Portanto, os aumentos de custos determinam o aumento dos preços que servem de base para o cálculo da expectativa de inflação e, portanto, da Selic”. Para Flavio, o governo deveria tomar a decisão de baixar a taxa de juros, assim, as demais variáveis se ajustariam a mudança.

Rodrigo Medeiros, professor universitário e sócio da Associação Keynesiana Brasileira (AKB), sugere meios alternativos ao aumento da taxa de juros para o controle da inflação: “Defendo controle de capital na entrada com o imposto regressivo para todos. Como não dá para parar por aí, defendo também que o governo federal atue a partir de estoques reguladores de certas commodities, ou seja, aquelas que compõem a cesta básica para aliviar o IPC (Índice de Preços ao Consumidor)”. Rodrigo também acredita que o BC poderia utilizar mais o arsenal de medidas prudências – como o IOF (Imposto sobre Operações de Crédito, Câmbio e Seguros), compulsórios, prazos e limites de endividamento, além mudar a metodologia do Focus, a pesquisa que o BC faz semanalmente com o “mercado” sobre a inflação.

 A economista Ceci Juruá acredita que existem várias vertentes para explicar as orientações da taxa Selic. Ela afirma que “Como cidadão e cidadã, contudo, precisamos principalmente entender os prejuízos que a Selic causa à sociedade, mas também o que nos cabe fazer para deter a sangria de recursos públicos operada pela Selic”. A economista defende a organização da sociedade em torno de uma bandeira comum, dentro do jogo democrático: “Defendo o alinhamento da Selic com as taxas praticadas no mundo desenvolvido. Um teto de 2% com variações de 50% para mais e para menos, seria oportuno”. E completa: “Esta bandeira é nossa, e não dos rentistas, nem das finanças internacionais. Não esperemos adesões nem vitórias por decreto. Ela vai depender da luta política que soubermos travar”.

Brasil, um pais de todos: Pesquisa revela que 80% das empresas pretendem contratar estrangeiros

Não bastasse o capital especulativo internacional encontrar no Brasil o seu “paraíso”, remunerado pelas taxas de juros mais altas do mundo, o país também vem se transformando, cada vez mais, no novo Eldorado para trabalhadores estrangeiros, situação que, embora ainda não admitida oficialmente pelo governo, pode representar uma séria ameaça ao emprego para o trabalhador brasileiro.

Balanço do Ministério do Trabalho e Emprego mostra que, apenas no primeiro semestre do ano, 26,5 mil estrangeiros conseguiram autorização para trabalhar no país. Na maioria, vistos temporários com validade de até dois anos. Aumento de 19,4% em comparação com 2010, quando foram emitidos 21,1 mil vistos para trabalhadores estrangeiros.

O país está recebendo, principalmente, portugueses, espanhóis, norte-americanos e trabalhadores dos países da América do Sul.

Os profissionais vêm para ocupar vagas nos setores ligados à engenharia, infra-estrutura e tecnologia, como construção civil, portos, petróleo e gás e tecnologia da informação. Os estrangeiros também encontram oportunidades na área financeira, principalmente os especializados em contabilidade internacional, que enfrentam dificuldades para conseguir colocação no país de origem, em razão dos efeitos da crise econômica que atinge a Europa e os Estados Unidos.

Uma pesquisa da Consultoria Hays, que atua em 29 países e recruta executivos para empresas dos mais diversos segmentos, aponta que 80,4% das empresas do Brasil demonstraram a intenção de contratar.

Para César Rego, gerente da Hays em Curitiba, o número de estrangeiros dispostos a trabalhar no país reflete o crescimento da economia brasileira. “Eles vêem aqui a oportunidade de desenvolvimento profissional, para ganhar responsabilidade e visibilidade nas corporações”.

Segundo dados da Coordenação-Geral de Imigração, vinculada ao Ministério do Trabalho, órgão que concede os vistos de trabalho aos estrangeiros que querem trabalhar no Brasil, as cidades mais procuradas são São Paulo e Rio de Janeiro.

Fonte:http://www.monitormercantil.com.br/mostranoticia.php?id=98394

Brasil sobe para 5º no ranking de atração de investimento estrangeiro

Assis Moreira | Valor

O Brasil foi o quinto país que mais atraiu Investimento Estrangeiro Direto (IED) em 2010, num forte salto comparado a 15ª posição no ano anterior. O fluxo deve continuar aumentando, com o país sendo o quarto destino preferido pelas multinacionais para investir em 2011-2013.

Os dados são do Relatório Mundial de Investimentos, da Agencia das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad). Pela primeira vez, as economias em desenvolvimento e em transição atraíram mais da metade do fluxo de US$ 1,24 trilhão de IED.

A projeção para este ano é de o fluxo global de IED crescer para algo próximo de US$ 1,4 trilhão, apesar das incertezas na economia global. E na medida em que mais produção internacional toma o rumo das economias em desenvolvimento, as multinacionais aumentam os projetos de IED nesses mercados para abocanhar bons lucros e permanecer competitivas nas cadeias globais de produção. Isso reflete a mudança no consumo internacional.

Essa contínua expansão reflete as altas taxas de lucros obtidas pelas multinacionais nos emergentes, de 7,3%  em 2010 na média, mesmo nível do registrado antes da crise econômica e financeira global.

As vendas de filiais estrangeiras aumentaram 9,1%, refletindo melhor renda nos emergentes. As vendas e o valor agregado pelas filiais estrangeiras alcançaram US$ 33 bilhões e US$ 7 bilhões, respectivamente. Suas exportações somaram US$ 6 trilhões, um terço do total das exportações mundiais.

A alteração no fluxo de IED é confirmada também pelo ranking dos principais recebedores: em 2010, a metade dos 20 países desta lista foram economias em desenvolvimento.

A América Latina e o Caribe receberam US$ 159 bilhões de IED em 2010, numa alta de 13%, numa mostra do interesse de grupos estrangeiros em adquirir empresas na região, após uma década de fraqueza nas operações de fusão e aquisição transfronteiras. Mas a maioria das aquisições foi realizada por grupos asiáticos, principalmente China e Índia, focadas principalmente na extração de petróleo e gás na América do Sul.

O Brasil absorveu 30% do total da América Latina, com US$ 48 bilhões, quase o dobro dos US$ 26 bilhões no ano anterior. O estoque de investimentos diretos externos no país alcançou US$ 472,5 bilhões, dos quais US$ 187,7 bilhões entraram desde 2005. O país só ficou atrás dos EUA, China, Hong Kong e Bélgica na captação de IED no ano passado.

De outro lado, empresas brasileiras tem estoque de US$ 180,9 bilhões de investimentos diretos no exterior. Desse total, US$ 69,7 bilhões foram investidos nos últimos cinco anos, num ritmo acelerado de internacionalização de vários grupos brasileiros.

Nos primeiros quatro meses de 2011, houve, porém, valor negativo de US$ 9 bilhões nesse fluxo do Brasil para fora. Para a Unctad, isso é o resultado de uma enorme alta de US$ 14 bilhões no repagamento de empréstimos (entre companhias) de filiais estrangeiras para suas matrizes no Brasil.

Empresas estatais estão emergindo como uma fonte importante de IED. A Unctad calcula a existência De pelo menos 650 companhias, com 8.500 filiais no exterior, fazendo 11% do total de IED. Isso trás algumas preocupações sobre segurança nacional e implicações na área de regulação para a expansão internacional dessas companhias. Na lista da agencia da ONU, até a Volkswagen é apontada como estatal, por ter 20% de participação do governo alemão

Este ano, o relatório destaca a produção internacional não acionária (No-Equity Modes of International Production), que inclui a fabricação por contratos, subcontratação de serviços, as franquias, as licenças e os contratos de gestão. Isso permite a multinacionais coordenar atividades de outras empresas sem ter nenhuma participação direta nelas.

Essa produção gerou US$ 2 trilhões de vendas em 2010 e cresce rapidamente. A Unctad aponta preocupações, por exemplo, sobre as pobres condições de trabalho, na medida em que essas companhias produzindo para multinacionais estão sob forte pressão competitiva para reduzir custos. Em alguns casos, elas podem ser usadas também para driblar padrões ambientais e sociais que as multinacionais deveriam respeitar.

Fonte:http://valoronline.com.br/online/financas/28/462089/brasil-sobe-para-5-no-ranking-de-atracao-de-investimento-estrangeiro

Merlino X Ustra: Memória de um tempo não vivido

Na próxima quarta-feira, 27 de julho, a justiça ouvirá testemunhas da tortura e assassinato do jornalista Luiz Eduardo Merlino. Na ação movida pela família de Merlino, o coronel Carlos Alberto Bilhante Ustra é responsabilizado pela morte, ocorrida em julho de 71. O senador e ex-presidente da República José Sarney está entre as testemunhas de defesa do coronel

Por Tatiana Merlino, da Pública

Sobre a cômoda, ao lado do vaso onde quase sempre há uma flor, há um porta-retrato prateado. Na foto, um jovem de perfil: cabelos negros, pele clara, olhos grandes, óculos de aro escuro. Quando eu ainda olhava o porta-retrato de baixo para cima, com uns sete anos, já sabia que ele era alguém muito importante para a família.

Os anos se passaram, o porta-retrato mudou de casa, mas seguiu junto com a cômoda e o vaso. O homem da foto continuava jovem, olhando insistentemente para o infinito. Outros anos se seguiram, e a dona do porta-retrato e da cômoda morreu. Hoje, o porta-retrato mudou de casa e de dona. E eu o olho de cima para baixo.

O jovem é meu tio, o jornalista Luiz Eduardo da Rocha Merlino, torturado e assassinado aos 23 anos, em São Paulo, em 19 de julho de 1971, nas dependências do DOI-Codi, centro de tortura comandado pelo coronel reformado do Exército brasileiro, Carlos Alberto Brilhante Ustra. Sua mãe, Iracema da Rocha Merlino, dona do porta-retrato, faleceu em 1995 sem que o Estado tivesse reconhecido a responsabilidade pela morte do filho.

Não poderá ver, por exemplo, que no mês em que se completam 40 anos do assassinato do jovem, ocorrerá a audiência das testemunhas de uma ação por danos morais movida contra Ustra por sua ex-companheira, Angela Mendes de Almeida, e sua irmã, Regina Maria Merlino Dias de Almeida, que dão continuidade à luta de Iracema.

Na próxima quarta-feira, 27 de julho, a Justiça de São Paulo ouvirá os testemunhos dos que presenciaram a tortura e morte de Merlino, como os ex-militantes do POC (Partido Operário Comunista), organização na qual ele militava, Otacílio Cecchini, Eleonora Menicucci de Oliveira, Laurindo Junqueira Filho, Leane de Almeida e Ricardo Prata Soares; o ex-ministro da Secretaria Especial de Direitos Humanos, Paulo de Tarso Vanucchi; e o historiador e escritor Joel Rufino dos Santos.

Já Ustra arrolou como suas testemunhas o ex-ministro Jarbas Passarinho; um coronel e três generais da reserva, Gélio Augusto Barbosa Fregapani Paulo Chagas, Raymundo Maximiano Negrão Torres e Valter Bischoff; além do atual presidente do Senado e ex-presidente da República, José Sarney (PMDB-AP), que recentemente defendeu a manutenção do sigilo eterno de documentos oficiais ultrassecretos, com o argumento de que a divulgação desses dados pode motivar a abertura de “feridas”.

A audiência está marcada para às 14h30, no Fórum João Mendes, centro de São Paulo. Na ocasião, serão ouvidas as testemunhas de acusação. As de defesa serão ouvidas por carta precatória.

Torturador declarado

 Para chegar à audiência das testemunhas, a família percorreu um longo caminho. Subscrita pelos advogados Fábio Konder Comparato, Claudineu de Melo e Aníbal Castro de Souza, esse é o segundo processo movido pela família de Merlino contra o coronel da reserva. Em 2008, Regina e Angela moveram uma ação civil declaratória na qual requeriam apenas o reconhecimento da Justiça sobre a responsabilidade de Ustra nas torturas e assassinato de Merlino. Porém, o ex-militar conseguiu paralisar e extinguir o processo por meio de artifício jurídico acatado pelo Tribunal de Justiça paulista. Assim, ambas entraram com uma segunda ação em 2010, também na área cível, que prevê uma indenização por danos morais.

Ustra já foi declarado torturador pela Justiça de São Paulo, em ação movida pela família Teles: Maria Amélia de Almeida Teles, César Teles e Criméia de Almeida. Conhecido como “major Tibiriçá”, ele comandou o DOI-Codi entre setembro de 1970 e janeiro de 1974. Em relação a esse período, houve 502 denúncias de torturas praticadas por homens sob o seu comando e por ele diretamente, além de 40 assassinatos decorrentes da violência utilizada nos interrogatórios. “Apanhei muito e apanhei do comandante. Ele foi o primeiro a me torturar e me espancou até eu perder a consciência, sendo que era uma gestante bem barriguda. Eu estava no sétimo mês de gravidez”, afirmou Criméia em dezembro de 2010.

Prisão e morte 

Em 15 de julho de 1971, Merlino foi preso por três homens na casa de sua mãe, em Santos, no litoral de São Paulo. “Logo estarei de volta”, disse à mãe, irmã e tia. Foi a última vez que o viram. Jornalista e militante do POC, ele tinha recém-chegado de uma viagem à França, onde havia aderido à Quarta Internacional. O jornalista havia viajado com passaporte legal, já que contra ele não constava nenhuma acusação dos órgãos repressivos.

Da casa de sua mãe, foi levado ao DOI-Codi de São Paulo, localizado à rua Tutóia, no bairro do Paraíso, onde “foi barbaramente torturado por 24 horas ininterruptas e abandonado numa solitária, a chamada cela forte, ou x-zero”, de acordo com o livro Direito à memória e à verdade, editado pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, ligada à Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República.

Muitos presos políticos testemunharam as torturas às quais o jornalista foi submetido, entre eles Guido Rocha, escultor que também estava preso no DOI-Codi na época e esteve com Merlino na “cela forte”. Guido estava há alguns dias na cela, quando o militante do POC foi trazido. “Ele estava muito machucado. Trouxeram ele carregado, ficou deitado, imobilizado. Mas muito tranquilo. Me impressionei muito com a segurança e tranquilidade dele”, disse Guido, em 1979, em entrevista ao jornalista Bernardo Kucinski.

Apesar da serenidade, seu estado de saúde piorava. As pernas estavam dormentes por conta do tempo que passara pendurado no “pau-de-arara” e, mesmo queixando-se de dor, não recebeu assistência médica. No dia seguinte, foi retirado da solitária e colocado sobre uma mesa, no pátio em frente às celas, fato que foi presenciado por diversos presos, que puderam ver seu estado. Ele queixava-se de dormência nas pernas, que não mais obedeciam. “À noite, começou a se sentir mal, estava bem pior. Ele falou: ‘chama o enfermeiro rápido que eu estou muito mal, a dormência está subindo, está nas duas pernas e nos braços também’. Aí eu bati na porta com força e gritei. Vieram o enfermeiro e alguns torturadores, policiais, os mesmos que já haviam me torturado e torturado a ele também. Vieram e o levaram. Nunca mais eu vi ele”, relatou Guido, falecido há dois anos.

Versão falsa

Em 20 de julho, cinco dias após a prisão, a família recebeu a notícia de que ele teria cometido suicídio, jogando-se embaixo de um caminhão na BR-116, na altura de Jacupiranga, em São Paulo, quando estaria sendo conduzido para o Rio Grande do Sul para “reconhecer” militantes. A família, porém, não acreditou na versão oficial da morte.

Como o corpo não foi entregue, dois tios e o cunhado do jornalista, Adalberto Dias de Almeida, que era delegado de polícia, foram ao Instituto Médico Legal (IML) de São Paulo, mas o diretor do órgão negou que o corpo ali estivesse. Adalberto burlou as regras do IML e, alegando procurar o cadáver de um bandido, foi em busca do corpo do cunhado. Encontrou-o ali, numa gaveta, com torturas e sem identificação. Só assim a família pôde enterrar o jornalista, que teve o corpo entregue em caixão fechado. O laudo necroscópico atestando aversão do suicídio e que vinha grafado com a letra “T” (de terrorista), escrita a mão, foi assinado pelos médicos legistas Isaac Abramovich e Abeylard de Queiroz Orsini.

Jornalistas amigos de Merlino estiveram no local onde ele supostamente teria se suicidado e não encontraram nenhum sinal de atropelamento ou outro acidente de trânsito ocorrido nas redondezas no dia indicado. Pouco mais de um mês depois do assassinato, o jornal o Estado de S. Paulo anunciou a missa de trigésimo dia de seu falecimento, ocorrida em 28 de agosto. Cerca de 770 jornalistas compareceram à celebração, e os mesmos três homens que buscaram o jornalista em Santos foram ao local e deram os “pêsames” à sua mãe e irmã.

Nascido em Santos, em 1948, Merlino participou, como secundarista, do movimento do Centro Popular de Cultura (CPC), da União Nacional dos Estudantes (UNE). Mudou-se para São Paulo, onde completou o ensino médio e, em 1966, com 17 anos, ingressaria como “foca” na primeira equipe de jornalistas do recém-fundado Jornal da Tarde, do grupo o Estado de S. Paulo. Ali escreveu reportagens de repercussão, como a que denunciava as atividades do “mau patrão” Abdala, da Fábrica de Cimento Perus-SP.

Também trabalhou na publicação Folha da Tarde, para onde cobriu o 30º Congresso da UNE, em Ibiúna, ocorrido em setembro de 1968, época em que já havia ingressado no POC. Detido e transferido para o presídio Tiradentes, depois de solto Merlino reportou os fatos e levou mensagens dos militantes que permaneceram presos. Estudante de história da Universidade de São Paulo (USP), também trabalhou no Jornal do Bairro e participou da fundação do jornal alternativo Amanhã.

Fundado em 1968, o POC foi resultado da fusão entre a Política Operária (Polop), fundada em 1961, e a Dissidência Leninista do Partido Comunista Brasileiro (PCB), no Rio Grande do Sul. Um pouco antes de morrer, Merlino havia aderido à Quarta Internacional.

A companheira Angela e os amigos, como Tonico Ferreira e Joel Rufino dos Santos, costumam imaginar o que ele estaria fazendo hoje, pelo que lutaria, como estaria. A mim, a sobrinha nascida seis anos após sua morte, não cabem tais pensamentos. O que serve de alento é pensar que, quarenta depois, o coronel Ustra poderá ser reconhecido como o responsável pela morte do jovem da foto do porta-retrato prateado.

(Texto originalmente publicado na Revista Caros Amigos)

Fonte: http://apublica.org/2011/07/merlino-x-ustra-memoria-de-um-tempo-nao-vivido/