Arquivo mensais:julho 2011

Os limites da faxina alcançam o ministro da Defesa?

Morvan Bliasby (*)

Vinte e seis (26) de julho do ano de dois mil e onze. Este dia pode não ser de nenhuma relevância para os anais de qualquer país, mas, no Brasil, este dia representa uma efeméride, daquelas a nunca mais ser olvidada: o dia em que o Ministro da Defesa peitou (mais uma vez) a Presidente.

O Ministro Jobim, em entrevista à Folha de São Paulo, afirmou “… ter votado em José Serra (PSDB) na eleição de 2010. Segundo ele, a então candidata Dilma Rousseff (PT) sabia de sua preferência pelo tucano. Depois de se eleger e de convidá-lo para o ministério, a petista não teria mais tocado no assunto…”

Tal fato em si não evoca qualquer surpresa, mesmo para os que não acompanham a política no dia a dia, os quais sabem sobejamente que o Ministro Jobim declara simpatia pelo Projeto político derrotado nas últimas eleições e já é sabido pelos mais avisados que este político não goza de qualquer simpatia junto aos militantes do PT e nem mesmo entre os eleitores de Dilma Roussef, por vários motivos. As declarações do sr. Jobim com relação a determinadas posturas já são bastante corriqueiras; o próprio Ministro falou, há pouco tempo atrás, não haver mais documentos sigilosos a publicar, pois os mesmos teriam sido consumidos (sic!)…

O que causa espécie é a maneira acintosa com a qual o sr. Jobim emite suas ideias (o próprio veículo para transmissão de tais pensamentos já é acintoso, pois o Exmo. Sr. Ministro da Defesa sempre utiliza os canais do PIG para repercutir seus pensamentos), num claro tom de desafio à Presidente, como se dissesse: “Duvido que tu me demitas”.

Há que se ressaltar que a postura do sr. Jobim apresenta uma ambivalência: por um lado, ele é bastante homem para admitir não ter votado em Dilma Roussef; mesmo que o voto seja secreto, é de bastante arrojo declarar ter votado no adversário, principalmente quando não instado a fazê-lo (declarar seu voto). Numa cultura personalista como a nossa, o fato de não ter votado em A ou em B via de regra gera sequelas, ou, na melhor das hipóteses, pequenas pontas de ciúme político. Por sequelas entenda-se o que se quiser, inclusive ostracismo.

Por outro lado, o sr. Jobim poderia ter tido mais hombridade e [ter] declinado do cargo ofertado, afinal, o que se pode fazer em um Projeto preterido por este, ou seja, o outro Projeto, o derrotado, é que contemplava a minha (dele) visão de poder? Como se trabalha com alguém com quem não se concorda, ideológica e politicamente falando? Trabalhar acima do Projeto, pelo bem do país? Bela tentativa; conte-me uma mais plausível! Outra coisa: a expressão “cargo de confiança” nos diz alguma coisa? Muitas. É de confiança por ter o critério de quem o convida, baseado na confiança de fazer (ou de não fazer) algo. É de confiança também porque quem pode nomear pode também, por critérios seus, demitir.

Então, o que leva um ser humano a aceitar um cargo de confiança quando ele mesmo não pode provê-la, por pensar diferente de quem o quis nomear? Vaidade, gana, oportunismo, tudo ao mesmo tempo? Não parece nada enobrecedor, qualquer que seja o motivo que fez o sr. Jobim aceitar o cargo de Ministro da Defesa.

O problema do voto secreto é que ele se assemelha muito a um casamento com relações extraconjugais: o (a) cônjuge pode até tolerar a infidelidade, mas não tolera os relatos…

A Caixa de Pandora está aberta; Jobim abriu-a, mais de uma vez e agora de forma contundente, definitiva, cabal, peremptória, ao peitar a Presidente, mais uma vez.

A Presidente vai demiti-lo ou vai roer a corda? Quais são os percalços ocultos da não demissão do sr. Jobim, caso esta, mais uma vez, não se concretize?

O que há, no Brasil, de tão inconfesso, que faz um simples Ministro peitar o mandatário maior do país e ficar por isto mesmo?

Nestes últimos dias, a palavra faxina tem sido o mote da direita brasileira. Pois bem. Não seria a hora certa de se fazer uma faxina em alguns Ministros claramente destoantes, até adversários, do Governo e, sem prejuízo de tempo, fazer uma faxina na nossa história oficial? Vamos discutir o Brasil com todos os brasileiros, Presidente Dilma!

(*)Morvan Bliasby é pedagogo, especializado em orientação educacional e em recursos humanos e psicologia organizacional.

A preservação da República

Pedro Estevam Serrano (*) 

Vivemos uma época de confusão de valores, em que as situações de mistura entre o que é público e o que é privado são recorrentes. A recente declaração do ministro da Defesa, Nelson Jobim, de que votou na campanha presidencial de 2010 no candidato José Serra (PSDB), ícone da oposição ao governo Dilma Rousseff, é mais um lance dessa confusão.

Em entrevista ao portal UOL, Jobim disse que votou em Serra pelos anos seguidos de uma amizade que é de conhecimento público. Disse ainda que comunicou o fato ao ex-presidente Lula —na ocasião, ocupante do mais alto cargo da esfera pública. Segundo Jobim, sua manifestação se deu ao ser convidado a gravar depoimento para a candidatura de Dilma.

O ministro teria dito, então, que havia uma posição “irremovível” que seria sua amizade e consequente voto em Serra, mas que havia uma situação “removível” que era sua condição de ministro a impedi-lo de fazer campanha para o tucano. Há de se convir que a colocação embute certo tom de desafio, mas Lula preferiu mantê-lo no cargo. Dilma venceu as eleições e também segurou Jobim no Ministério da Defesa.

É preciso separar o que é de cunho pessoal e o que é da esfera pública. Parece-me evidente que se o ministro quis votar no amigo no interior secreto da urna, o que se dá é o simples exercício de sua capacidade eleitoral ativa. Não há reparos a essa escolha, é um direito de todo cidadão. Pode-se argumentar que os amigos nem sempre partilham de nossas concepções —políticas, econômicas, sociais, religiosas— e ainda assim são nossos amigos.

Avalio, contudo, que a declaração pública de voto por Jobim constitui contradição ao princípio republicano, para além dos constrangimentos à presidenta.

O tom e o conteúdo adotados na declaração de voto denotam que Jobim se vê numa posição inatingível mesmo pela presidenta. Algo, aliás, presente na relação com o ex-presidente Lula, segundo a entrevista de Jobim. Essa postura, a rigor, empurra a presidenta para uma verdadeira “sinuca”, com duas soluções: ou Dilma o demite ou admite ter em seu Ministério alguém que não pode remover.

Na segunda hipótese, há reconhecimento de que Jobim é uma espécie de “ministro-dono” do cargo, diferente dos demais ministros e com capacidade para permanece no cargo independentemente de qualquer relação de confiança política com a presidenta. E é exatamente nesse ponto que reside o cerne do problema.

Os cargos de ministro de Estado são de provimento de confiança. Tal forma de provimento existe na estrutura administrativa como garantia ao princípio republicano, ou seja, de que o funcionamento do Estado se dá por orientação do interesse público . Em decorrência, esse princípio implica na periodicidade dos mandatos eletivos, quer dizer, mudança periódica de governo e governantes,e mais que iisso mudança de programas de governo.

Para possibilitar que tal mudança programatica de governo chegue a todos os rincões da Administração é que os cargos de auxiliares direitos do presidente tem provimento em comissão, por criterio de confiança politica do presidente. Para que este modelo republicano funcione de forma eficaz é fundamental que a presidenta salvaguarde a confiabilidade de seus nomeados face ao programa para a qual foi eleita.

O provimento em confiança anima-se, portanto, pelo imperativo de concretização do programa político e de governo consagrado nas urnas. É a partir do instituto da designação de auxiliares diretos, escolhidos por conta de sua confiabilidade política, que o presidente eleito leva a todos os rincões da Administração seu programa. Em suma, é só assim que se garante o mínimo de correlação entre os conteúdos defendidos na campanha eleitoral e a realização das políticas de governo.

Ora, quando Jobim declara que votou em Serra, o que ele está dizendo em alto e bom som é que avalia —pelo menos avaliava— o programa oposicionista como sendo melhor. Há, portanto, um desalinhamento transparente entre o que queria o ministro e o que defendeu a presidenta, com maioria do apoio da população votante. Esse ruído se torna ainda mais estridente se observarmos que, hoje, Serra se coloca no espectro político nacional como oposição sistemática e extrema ao governo Dilma.

Quando a presidenta da República permite a um ministro permanecer no cargo após ele se declarar desalinhado com o programa de governo e exprimir simpatia pelo candidato que representou programa político diverso, quem perde não é apenas a presidenta em termos de seu poder pessoal —aliás, este é o problema menor—, mas, sim, a República como valor em nosso sistema político.

A presidenta, nesta sua omissão, deixa de dar vazão a seu dever institucional de defender a República como principio jurídico e político, assim como deixa de ecoar a vontade dos eleitores que a elegeram. A situação desnuda não apenas a tentativa de subtrair poder da presidenta, mas, fundamentalmente, conduta claudicante no dever de defesa da República como valor maior.

Ademais, qualquer argumentação de defesa do voto por razões pessoais tende, igualmente, a ser contrária aos interesses públicos, já que a motivação do voto deveria assentar-se sobre critérios racionais e lógicos voltados aos programas de governo. Este é, aliás, um dos nortes no debate sobre reforma política: como fortalecer as escolhas programáticas na hora do voto, em substituição às opções emocionais —tais quais a amizade.

Por fim, o que os brasileiros ficamos a nos perguntar diante das declarações de Jobim é: entre as pessoas e líderes dos partidos que apoiam o programa político para o qual Dilma foi eleita para concretizar, não há ninguém em condições de assumir o Ministério da Defesa? Alguém em especial que não se sinta tentado a desafiar a autoridade presidencial e a menoscabar o projeto político do governo do qual participa?

Pedro Estevam Serrano é advogado e professor de Direito Constitucional da PUC-SP,mestre e doutor em Direito do Estado pela PUC-SP.

Fonte: http://www.cartacapital.com.br/politica/a-declaracao-de-jobim-e-a-preservacao-da-republica

Recorrências e incertezas

“Ao longo das últimas décadas, um conceito novo tem conhecido êxito cada vez maior: a noção de instabilidade dinâmica associada ao ‘caos’. Este último sugere desordem, imprevisibilidade, mas veremos que não é assim. É possível (…) incluir o caos nas leis da natureza, mas contanto que generalizemos essa noção para nela incluirmos as noções de probabilidade e de irreversibilidade ”.
Ilya Prigogine, “As leis do caos”, Unesp, SP, 2002, p:8

Fica muito difícil de entender a intensidade do conflito e o impasse nas negociações sobre o “aumento do limite da dívida pública americana”, quando se lê apenas a análise dos economistas, sejam eles democratas ou republicanos, ortodoxos ou keynesianos. Uma vez que todos estão de acordo com o aumento do teto da dívida, e com a necessidade de cortar gastos e aumentar impostos. Ainda que discordem sobre as dimensões e sobre o ritmo de implementação destas medidas e, mais ainda, sobre a distribuição dos seus custos, dentro da sociedade americana, que apesar disto, segundo as pesquisas, permanece indiferente com relação ao debate. Talvez, porque a população intua que o conflito não tem a ver com a questão da “dívida pública” e dos “desequilíbrios fiscais”, e envolva desacordos muito mais sérios, que transcendem o campo da economia e das disputas partidárias convencionais.

Divergências profundas, dentro do próprio establishment americano, que só reaparecem periodicamente, em momentos de grandes mudanças mundiais, e, como consequência, na hora de redefinição da estratégia política e econômica, nacional e internacional, do estado norte-americano. Ou, pelo menos, foi o que aconteceu em três momentos cruciais da histórias americana do século XX. Começando pela divisão da sociedade e da elite política norte-americana – antes e depois da Primeira Guerra Mundial – que acabou afastando os EUA da Liga das Nações, e de todas as negociações internacionais que poderiam ter impedido a Grande Crise Econômica, da década de 30, que acabou atingindo em cheio a própria economia americana.

O mesmo voltou a acontecer, antes e depois da Segunda Guerra Mundial, quando o establishment e a sociedade americana dividiram-se de cima abaixo, com relação à própria Guerra, e depois da II Guerra, com relação à estratégia de cerco e isolamento da URSS, e com relação à ordem econômica desenhada em Bretton Woods. Depois da década de 50, a estratégia geopolítica americana pacificou a Europa, e os acordos de Bretton Woods, permitiram a reconstrução do Velho Continente e do Japão, promovendo um crescimento econômico assimétrico mas contínuo, da economia mundial.

Na década de 70, entretanto, os Estados Unidos foram derrotados no Vietnã e sofreram sucessivos revezes políticos e diplomáticos. E no campo econômico, tiveram que abandonar o sistema monetário que tinham criado, em Bretton Woods. Foi uma crise dura e profunda, mas foi também o momento e a oportunidade, em que os Estados Unidos mudaram a sua política econômica internacional. A nova estratégia levou à superação da crise e à uma reviravolta dentro do sistema mundial, mas sua definição tomou uma década – pelo menos – de divisão e de lutas intestinas, em torno da Guerra do Vietnã, da crise do Dólar, do Petróleo, do Oriente Médio, etc. Passando pela retirada da Indochina, pelo fim da convertibilidade ouro-dólar, pela renúncia do presidente Nixon, e pela imensa fragilidade e desorientação dos governos de Gerald Ford e Jimmy Carter, que abriram as portas para a restauração conservadora de Ronald Reagan.

Agora de novo, na primeira década do século XXI, os revezes da política externa americana, somados aos efeitos nacionais e internacionais de sua crise econômica implodiram a coalizão de poder e o consenso dominante, desde a década de 1980, incluindo republicanos e democratas. O mais provável é que esta implosão dê lugar a um longo período de fragmentação de forças e posições, com um nível crescente de conflito e radicalidade, até que seja possível a formação de um novo consenso, como ocorreu no passado. Desta vez, entretanto, o processo será mais complexo, porque apesar das semelhanças, agora o poder americano é muito maior, e sua inserção internacional envolve disjuntivas diferentes, e incompatíveis, nos vários tabuleiros geopolíticos e econômicos do mundo.

Pode parecer paradoxal, mas o aumento do poder global dos EUA, internacionalizou sua política e sua economia, mais do que em qualquer outro país, aumentando a complexidade e confundindo seus conflitos externos, com suas lutas internas. Por isto, não existe a possibilidade, de uma simples repetição do passado, e o único absolutamente seguro, é que o atual “impasse da dívida pública” americana não passa de um incidente e de um detalhe, dentro de uma luta longa e sem quartel que deverá definir os novos objetivos e caminhos estratégicos dos EUA. Como no mundo físico, estas conjunturas são momentos de grande incerteza e indeterminação, dentro de um sistema mundial que se expande e transforma, apesar de suas recorrências.

(*) José Luís Fiori, cientista político, é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro

Fonte:http://cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=5136

A Universidade e as leis para a comunicação

Laurindo Lalo Leal Filho (*)

Passou desapercebido por aqui. Não fosse a menção feita pelo jornalista Eric Nepomuceno, na revista Carta Capital, poucos ficariam sabendo que a Ley de Médios argentina está sendo implantada, apesar da oposição feroz dos grandes grupos de comunicação locais.

No noite de 21 de junho, a presidenta Cristina Kirchner apareceu em rede nacional de televisão para fazer um anúncio capaz de tirar o sono dos controladores monopolistas da radiodifusão. O governo abria, naquela data, uma licitação para a concessão de 220 novas licenças de serviço de audiovisual no país.

Como determina a lei metade dessas concessões será destinada a emissoras privadas e a outra metade dividida entre os governos estaduais, o federal e as organizações sem fins lucrativos. Fórmula encontrada para romper com oligopólio existente hoje na comunicação argentina.

Claro que a mídia comercial brasileira esconde esses avanços e quando fala da Ley de Médios argentina é para atacá-la, chegando habitualmente a tachá-la de censura, quando trata-se exatamente do oposto. Seu papel é o de permitir o acesso aos meios de comunicação de um número muito maior de atores sociais, hoje sem voz.

Mas aos que se opõem à lei interessa a omissão e a desinformação. Para isso usam uma estratégia eficiente: apropriam-se de um símbolo facilmente compreensível, como é a censura, e com ele carimbam a lei, interditando o debate de forma liminar.

A legislação argentina mereceria no Brasil estudos e debates mais sérios e aprofundados. As criticas feitas por aqui são superficiais, ecoando apenas o temor dos controladores da mídia nativa com o possível contágio da experiência vizinha.

Não é levado em conta o formidável trabalho de pesquisa realizado para se chegar ao texto final. Seus 166 artigos não caíram do céu. São resultado de um levantamento minucioso daquilo que existe de mais avançado no mundo, em termos de legislação para área das comunicações.

Dos meios comerciais não se pode esperar nada, além das críticas habituais. Os meios públicos pouco se dedicam ao tema e a internet o trata de forma esporádica. Mesmo as redes sociais, com conteúdos mais críticos, não tem como aprofundar a discussão e acabam, em determinados momentos, dialogando com os grandes meios nos mesmos níveis por eles impostos.

Resta como alternativa a Universidade, teoricamente menos sujeita às imposições externas. Mas parece que, no geral, ela não despertou ou não se interessou pelo assunto. Falo, obviamente, dos setores universitários ainda não cooptados pela grande mídia, propiciadora de cursos e eventos destinados ao conformismo e a alienação.

Fico a pensar na riqueza de um debate não só da Ley de Médios argentina, mas das experiências de democratização das comunicações que vêm sendo articuladas na Venezuela, Bolívia, Equador, Paraguai e Uruguai, por exemplo.

Ao invés de infindáveis e insossas discussões sobre “teorias da recepção”, tão ao gosto dos acadêmicos alinhados com “status quo” da comunicação, teríamos o pulsar da vida real das nossas sociedades.

A Universidade – pública ou privada – repousa sob um tripé formado pelo ensino, a pesquisa e a extensão. Um tema como o aqui proposto atenderia com desenvoltura esses três objetivos.

Colocaria o aluno em contato com a disputa que se trava no continente em torno do papel social da comunicação, deixando mais claro o cenário onde se dará, no futuro, sua atuação profissional.

Propiciaria uma ampliação no campo das pesquisas, necessitadas cada vez mais de interdisciplinaridade. O estudo da comunicação só ganha concretude quando dialoga com o Direito e as Ciências Sociais em geral.

E finalmente, a extensão se daria com a formulação de projetos e propostas capazes de contribuir para o debate político que se trava na sociedade em torno das novas leis para a comunicação.

A fundamentação existente na Ley dos Médios argentinos tem grande contribuição acadêmica e poderia servir como referência para a Universidade brasileira.

A íntegra de Lei de Meios da Argentina está disponível neste endereço: http://www.infoleg.gov.ar/infolegInternet/anexos/155000-159999/158649/norma.htm

(*) Laurindo Lalo Leal Filho é sociólogo e jornalista, é professor de Jornalismo da ECA-USP.

Fonte: http://cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=5106

Empresas não investem em inovação e forçam governo a criar bolsas

 
André Barrocal

BRASÍLIA – O baixo nível, numa comparação internacional, de investimento das empresas em inovação tecnológica levou o governo a lançar um programa de bolsa de estudos para brasileiros frequentarem universidades estrangeiras. A meta é mandar 100 mil estudantes ao exterior, 75 mil financiados com dinheiro público, para que eles se tornem cientistas e, na volta ao país, possam aplicar o conhecimento aquirido em pesquisas para empresas.

Os bolsistas serão selecionados por mérito – vão precisar tirar notas mínimas em provas classificatórias – e direcionados a 50 instituições listadas em dois rankings internacionais como as melhores do planeta. O governo federal vai investir R$ 3,1 bilhões na formação dos alunos.

O programa de bolsas, chamado Ciência sem Fronteiras, foi apresentado pelo ministro da Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante, nesta terça-feira (27/07), durante reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES), no Palácio do Planalto. Parte da constatação de que o país tem várias deficiências na área de inovação. Entre elas, a “falta protagonismo das empresas” no investimento em pesquisa, segundo Mercadante.

Estatísticas do ministério mostram que, no Brasil, o investimento privado em pesquisa representa 0,54% do Produto Interno Bruto (PIB), a soma das riquezes produzidas pelo paíse em um ano. O investimento público é maior (0,57% do PIB).

Em outros países, a situação se inverte. O Estado gasta menos do que o setor privado. No Japão e na Coréia do Sul, o investimentos privado é quatro vezes superior ao brasileiro como proporção do PIB. Nos Estados Unidos, Cingapura e Alemanha, o triplo. Na China e na Austrália, o dobro. Enquanto dois terços das patentes registradas no mundo são privadas, no Brasil, são públicas.

De acordo com Mercadante, o investimento privado diminuto é resultado de anos de inflação e ausência de crescimento no passado. Mas, também, de “passividade” das empresas, que optam por usar tecnologia comprada de terceiros, o que dá menos trabalho.

Com pouco investimento em pesquisa, as empresas brasileiras, especialmente do setor industrial, têm ganhos de produtividade inferiores aos de competidoras estrangeiras. E, por causa disso, estão sofrendo desde a eclosão da crise financeira internacional de 2008/2009, que fechou os mercados para produtos manufaturados pelo mundo. O atual preço barato do dólar no Brasil, nos patamares mais baixos em mais de uma década, é um complicador adicional.

Sem inovar, as empresas pressionam o governo a adotar medidas que as ajudem a se tornar mais competitivas frente à concorrência de fora. Uma das principais reinvindicações é pagar menos tributos incidentes sobre a folha de salários, algo que o governo estuda concretamente fazer.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, tem dito que ainda não há prazo para a conclusão dos estudos sobre a chamada desoneração da folha salarial.

Segundo Carta Maior apurou, está difícil de chegar a um acordo com as centrais sindicais de trabalhadores, que temem que o governo desonere a folha sem criar um novo imposto para alternativamente financiar a Previdência Social. A Fazenda diz, no entanto, que a desoneração terá uma compensação.

Em recente debate no Congresso sobre desoneração da folha, o economista Manuseto Almeida, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), disse é mais fácil para as empresas tentarem superar problemas de competitividade mandando a fatura para terceiros, do que se esforçando por conta própria.

Para ele, as empresas deveriam gastar mais dinheiro, por exemplo, com o treinamento dos funcionários. “O caminho mais fácil é tirar direitos dos trabalhadores, mais difícil é aumentar a produtividade”, afirmou.

Fonte:http://cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=18126

O voto no “amigo” Serra e outras tucanices de Nelson Jobim

André Cintra

Ao participar do programa Poder e Política — Entrevista, lançado nesta quarta-feira (27) numa parceria entre Folha de S.Paulo, Folha.com e UOL, o ministro se mostrou à vontade para reiterar que está no governo, mas não tem muito a ver com essa gente. A chamada na capa da Folha de hoje já estabelece a primeira demarcação: “Jobim, ministro de Dilma, revela que votou em Serra em 2010”.
 
Não que seja um segredo de Estado à altura daqueles que Jobim quer esconder da Comissão da Verdade. Seus laços com o tucanato vêm de longa data e foram devidamente renovados em 30 de junho, quando ele participou da festa em homenagem aos 80 anos de Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Na ocasião, Jobim comparou o ex-presidente à sua atual chefe, Dilma — “nunca o presidente levantou a voz para ninguém. Nunca criou tensionamento entre aqueles que te assessoravam”.

Quase um mês depois, ao iniciar a entrevista ao jornalista Fernando Rodrigues no programa on-line do Grupo Folha, Jobim sinalizava uma distensão. A primeira pergunta remetia à comparação: “Olá ministro Nelson Jobim. O senhor foi ministro de três governos sucessivos. Com quem é mais fácil trabalhar: Fernando Henrique, Lula ou Dilma?”.

E Jobim rodeou: “Todos são fáceis de trabalhar. Cada um tem o seu estilo. A questão não é fazer comparações. Se você for fazer comparações, não dá solução e só cria problema. O Fernando [Henrique] tinha um estilo. O Lula tinha outro estilo. A presidente Dilma tem outro estilo. Mas são estilos absolutamente razoáveis. Pelo menos comigo as relações são absolutamente extraordinárias”.

A seguir, na comparação entre sua rotina com FHC, Lula e Dilma, Jobim retoma a busca pela distensão e diz que falava sempre “com os três”. Mas a sequência de sua resposta começa a esclarecer com qual desses líderes o ministro é realmente mais afim:

“Eu tinha uma grande integração com o Fernando [Henrique]. Trabalhei com o Fernando também, na Constituinte. Servi como uma espécie de assessor. Porque era advogado, tinha formação jurídica. Então eu tinha boa relação com o Fernando, tinha uma amizade mais íntima com o Fernando.

Com o presidente Lula a mesma coisa, com menos intimidade. Eu frequentava a casa do Fernando e aquela fazenda que ele tinha aqui perto [de Brasília], aos finais de semana. Com o Lula tinha uma intimidade muito boa, sem nenhuma dificuldade. E a mesma coisa se passa com a presidente Dilma.”
 

Até que lhe perguntaram em quem Jobim votou nas eleições presidenciais do ano passado, e o ministro passou recibo. Lembrou sua relação com Serra, “amigo íntimo”, “meu padrinho de casamento”. Disse que expôs sua preferência ao governo, ao próprio Lula. E, no arremate, debitou parte de sua decisão na conta do ex-presidente. Tudo se resume, diz Jobim, a “manter a minha coerência histórica com o Serra”. Eis a resposta:

“Em uma reunião de articulação do governo, da qual eu participava, eu levantei o seguinte problema. Eu disse: ‘Olha, presidente [Lula], eu estou com um problema. De um lado, por razões pessoais eu não tenho condições de fazer campanha para a ministra Dilma, uma vez que sou amigo íntimo do Serra. O Serra foi meu padrinho de casamento, eu morei com ele algum tempo aqui em Brasília. Quando vou a São Paulo, normalmente eu janto com ele, vou ao Palácio [dos Bandeirantes] com minha mulher, nos damos muito bem. Por outro lado, eu tenho também um impedimento de natureza institucional de fazer campanha para o Serra. Porque o governo do qual eu participo tem um candidato que é a ministra Dilma’.

Aí o Lula disse: ‘Olha Jobim, fique fora disso. Eu sei claramente das suas relações com o Serra. Sei que você tem uma amizade íntima com o Serra de muitos anos’. E avisou ao Padilha: ‘Olha, não envolvam o Jobim na campanha’. E eu votei no Serra.”
 

E o que Dilma teria achado disso? Segundo Jobim, sua própria postura foi a mais irrepreensível. Não só Dilma sabia do serrismo do ministro como até teria lhe atribuído mais respeito por sua heroica sinceridade. A tal ponto que a relação entre eles não azedou depois da eleição.

“Azeda quando você esconde”, ensina Jobim. “Quando você não esconde, quando você é transparente, não tem como azedar. Tem como se resolver. O problema é quando você esconde, fica fazendo dissimulações. Daí dá problema. Eu não costumo fazer dissimulações, então não tenho dificuldades.”

O ministro também flerta com os militares. Embora não chegue ao ponto de praguejar contrariar a Comissão da Verdade, Jobim volta a dizer que, em sua gestão na Defesa, as Forças Armadas foram as primeiras a abrirem os arquivos da ditadura militar (1964-1985) — ou, pelo menos, os documentos sigilosos que ainda perduram. E se proclama como o ministro que, de fato, lutou pelo restabelecimento do direito à verdade.

“Antes mesmo de [eu] entrar no Ministério da Defesa (…), a presidente Dilma era ministra da Casa Civil e tinha determinado criar uma comissão sobre documentos. Ela foi presidente [da comissão]. E enviou ao então ministro, o Zé Alencar, para determinar aos militares a entrega desses documentos. Foram encaminhados aos comandantes de Força os avisos.

A Força Aérea inclusive colocou à disposição alguns documentos que ela havia encontrado nos seus arquivos. Mas o Exército e a Marinha disseram que não havia mais nenhum documento. Haviam sido incinerados há algum tempo.

Depois, essa comissão [presidida por Dilma] determinou que o Ministério da Defesa abrisse um inquérito. Na época, [o ministro] era o Valdir [Pires]. O Valdir acabou atrapalhado com o problema da aviação civil e não tomou providências. Eu tomei providências nesse sentido. Mandei abrir os inquéritos.

Vieram então as respostas das três Forças. A Força Aérea informou que tinha aqueles documentos que tinha posto à disposição. Entregou os documentos. Os demais informaram que os documentos tinham sido incinerados. E, quando eles tinham informado que tinham sido incinerados, a ministra Dilma pediu então que se apresentasse o termo de incineração.

Só que o termo de incineração, pela legislação vigente, exigia que os documentos fossem sigilosos. Eles informaram que não eram sigilosos e que foram incinerados normalmente. (…) Como você não tem formalização do processo de incineração, você não tem como identificar de quem partiu o ato.”
 

Há um mês, Jobim “comemorou” o desaparecimento de arquivos ultrassecretos e, pouco depois, disse se sentir cercado de “idiotas”. Agora, o ministro que se diz desacostumado a “fazer dissimulações” revela ter sido habitué da fazenda de FHC e do Palácio dos Bandeirantes sob Serra. Com tanta polêmica, votar no “amigo íntimo” em 2010 talvez seja mesmo o episódio menos ruidoso na saga de Nelson Jobim.

Fonte: http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=159812&id_secao=1

Medidas afetam câmbio no curto prazo, mas quadro externo ainda pesa

Daniela Machado e Karin Sato | Valor

As novas medidas cambiais anunciadas pelo governo surtem efeito sobre as cotações do dólar no curto prazo, mas não eliminam a tendência de queda da moeda americana por conta do cenário internacional.

Analistas ainda digerem o arsenal do governo, que inclui taxação de 1% sobre a posição líquida vendida dos bancos e deu mais poderes ao Conselho Monetário Nacional (CMN) para regulamentar o mercado de derivativos. Mas, nesta manhã, o dólar avançava 2,14%, para R$ 1,570 na venda, depois de seis dias de queda que o colocaram de volta nas mínimas desde 1999.

Alguns operadores frisam que o volume de operações não é forte, considerando as dúvidas que restam sobre as medidas.

“O governo está tentando fechar as brechas e diminuir a parcela da apreciação do real que é especulativa”, afirma Luciano Rostagno, estrategista-chefe da CM Capital Markets, lembrando que há um componente de fundamentos que também exerce pressão de baixa sobre o dólar.

“No curtíssimo prazo, a medida tem impacto, mas não altera a tendência de queda do dólar dada a realidade da economia brasileira e da americana”, avalia.

Rafael Bistafa, economista da Rosenberg Consultores Associados, diz que as medidas anunciadas hoje são mais fortes que as anteriores e concorda que, no curto prazo, devem causar uma depreciação do real.

O que chama atenção é que o Conselho Monetário Nacional (CMN) recebeu poder para estabelecer condições específicas para a negociação de derivativos, como, por exemplo, fixar limites, prazos e condições para esses contratos.

Desta vez, o governo atingiu mais duramente o mercado de derivativos, que, conforme explica o economista, é o que de fato influencia a cotação do dólar.

Por fim, o governo fechou uma brecha em uma medida anunciada em março, em que instituía Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) de 6% sobre empréstimos externos com prazo de até 720 dias. As instituições estavam captando com prazos superiores a esse mas liquidando antes. Agora, quem antecipar a liquidação também paga IOF de 6%.

Para Bistafa, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, precisava agir, porque há algum tempo fazia apenas ameaças e, como resultado, os investidores estavam se antecipando, o que produzia um efeito contrário ao que o governo desejava no câmbio.

Fonte:http://www.valoronline.com.br/online/cambio/31/462741/medidas-afetam-cambio-no-curto-prazo-mas-quadro-externo-ainda-pesa