Arquivo mensais:julho 2011

A velha superstição

Estadão

Paul Krugman

Achei um exemplar da obra A Grande Depressão, de 1934, de Lionel Robbins, numa livraria de livros usados em Norwich. É muito revelador: sensato, repleto de tabelas e fatos, é um livro que, claramente, tem de ser visto como o trabalho de um observador sagaz – na verdade um sujeito muito sério.

Mas totalmente, completamente equivocado.

“A primeira razão fundamental para uma recuperação a partir da posição em que o mundo se encontra neste momento é reconquistar a confiança do setor privado”, afirma Robbins. “Mas como a confiança pode ser restaurada?” Ele se pronuncia contra a política monetária expansionista, mesmo para reverter a deflação de 1929 a 1933 – mas não dá nenhuma explicação lógica para isso; ao decidir que o problema era de “confiança”, declara que a expansão monetária cria “incertezas” e, em consequência, prejudica a confiança. E condena a política de taxas de câmbio flexíveis, porque isso cria incertezas e debilita a confiança.

Ao avaliar os escombros à sua volta, declara que a causa da depressão foi a intervenção excessiva do governo e que a solução, o que seria necessário para restaurar a confiança, seria (rufar de tambores) um retorno ao padrão ouro.

Você pode ver como este tipo de análise política baseada na superstição pode ter parecido plausível em 1934, embora mesmo a Teoria Geral de Keynes pudesse explicar como Robbins estava errado (e o fez). Mas, hoje, o que se esperava era que esses argumentos fossem coisa do passado.

O problema é que não.

O novo informe do BIS vai muito no caminho de Robbins em 1934, com muito menos desculpas. Robbins sofria com a falta de uma estrutura para dar sentido aos fatos. O BIS, com tantos economistas, deparando exatamente com a síndrome econômica que Keynes analisou e, nesse aspecto, até Milton Friedman exigiria uma ação vigorosa, preferiu ignorar essa estrutura e, em vez disso, jogar o Calvinball monetário.

Eu, originalmente, concluiria esta postagem falando alguma coisa sobre estupidez, mas não é correto: as pessoas que trabalham no BIS não são estúpidas. O que ocorre neste caso é algo diferente e pior: estamos observando o desejo de uma respeitabilidade convencional pesando mais do que as lições da história; e observando um vago preconceito (que existe para servir aos interesses dos rentistas) triunfando sobre a análise.

A história não perdoará essas pessoas.

Fonte: http://blogs.estadao.com.br/paul-krugman/2011/06/28/a-velha-supersticao/

Desindexar ainda é preciso

Andre de M. Modenesi, Fernando Ferrari Filho e Rui Lyrio Modenesi

Do Valor Econômico [05/07/2011]:

A indexação é definida como a correção automática dos valores nominais por um índice de preços. Normalmente, é buscada pelos agentes econômicos em momentos de inflação alta (ou crônica), como forma de proteger suas rendas do efeito corrosivo da alta dos preços – assegurando uma espécie de convivência pacífica com a inflação.

No Brasil, sua origem remonta à reforma monetária de 1965, no âmbito do Programa de Ação Econômica do Governo (Paeg) do presidente Castello Branco. No início dos anos 1960, havia o que A. L. Resende chamou de ficção da moeda estável: a coexistência de altas taxas de inflação (em 1964, os índices de preços acumulavam altas ao redor de 100%) com a lei da usura (limitava os juros em 12% ao ano). Isso inibia a demanda voluntária por títulos públicos (que apresentavam rendimento real negativo), comprometendo-se o financiamento não inflacionário do déficit.

A brilhante solução deu-se na forma de um título público indexado, a Obrigação Reajustável do Tesouro Nacional (ORTN). Já em 1965, metade do déficit – que desde 1960 vinha sendo coberto fundamentalmente por emissão de moeda – foi financiada pela venda de títulos; em 1966, a colocação de títulos assegurou o financiamento não inflacionário do mesmo.

No entanto, aquilo que, no curto prazo, parecia ser uma ótima solução transformou-se em verdadeiro tiro no pé. As ORTN representam o pecado original da ampla disseminação de mecanismos (formais e informais) de indexação, que distinguia a economia brasileira no fim dos 1970: era uma economia plenamente indexada.

Se, por um lado, a indexação assegura uma convivência pacífica com a inflação, por outro, ela dificulta a eliminação da própria inflação. A razão é bem conhecida dos brasileiros: o processo inflacionário torna-se inercial, como ficou claro a partir dos anos 1980. A inflação passada projeta-se para o futuro, criando-se um movimento de alta dos preços autônomo em relação ao lado real da economia. Isto é, a inflação inercial não resulta de choques de demanda nem de oferta.

As LFTs, verdadeiras aberrações, distorcem a curva de rendimentos e inibem financiamento de mais longo prazo

Consequentemente, a política monetária (que atua sobre a demanda) se torna pouco eficaz. O mesmo ocorre com as medidas de combate à inflação pelo lado dos custos, como as chamadas políticas de renda. No limite, o gestor de política econômica torna-se incapaz de debelar a inflação com os instrumentos tradicionais.

A interrupção do processo de alta inflação crônica foi obtida com sucesso com a reforma monetária do Plano Real. A proibição de indexação por prazos inferiores a um ano e a criação da Unidade Real de Valor (URV), inspirada na proposta de Resende e de Arida, reduziram fortemente o peso do componente inercial da inflação – recuperando-se, substancialmente, a eficácia dos instrumentos tradicionais de estabilização. Assim, foi vencida a batalha contra a alta inflação crônica.

Mas a guerra da estabilização ainda não está ganha. Ainda falta vencer a batalha da erradicação do piso inflacionário, que marca a economia nos 17 anos pós-Real: o IPCA se manteve abaixo de 5% ao ano em apenas quatro ocasiões e sua média foi superior a 7%, a despeito das doses cavalares da Selic.

Apesar do grande avanço, a desindexação do Real foi incompleta e os mecanismos de indexação ainda permeiam variados setores da economia. Quanto aos preços, destacam-se os aluguéis (indexados ao IGP-M), as tarifas de energia elétrica (parcialmente atrelada ao IGP-M) e de telefonia (indexada a um índice setorial, IST, também composto pelo IGP-M) e o salário mínimo (que passou a ser indexado ao IPCA e ao crescimento do PIB). São preços chave da economia, insumos de larga utilização, cuja indexação amplia o componente inercial da inflação.

No lado financeiro, nada foi feito: o Real manteve intocadas as anacrônicas instituições monetárias e financeiras do período de alta inflação. É preciso reformá-las, tornando-as compatíveis com a atual condição de estabilidade de preços. A existência de ativos financeiros altamente líquidos (muitos com liquidez diária) e pós-fixados (indexados ao CDI) é uma anormalidade. Não há nada similar em economias com preços minimamente estáveis, como o Brasil pós-Real. O mesmo vale para as Letras Financeiras do Tesouro (LFT), título público indexado à Selic: um ativo singular, com alta liquidez e rentabilidade e sem risco de taxa de juros. Uma verdadeira aberração, que distorce a curva de rendimentos – que tende a tornar-se mais curta e inclinada -, inibindo o financiamento de mais longo prazo.

A indexação compromete, portanto, dois elementos chave de uma estratégia de desenvolvimento econômico, em linha com o chamado Novo Desenvolvimentismo. Primeiro, contribui para reduzir a eficácia da política monetária – demandando taxas de juros relativamente altas, dadas as metas de inflação – com conhecidos efeitos deletérios sobre a atividade econômica, o câmbio e as contas públicas. Segundo, limita o financiamento de longo prazo, inibindo investimentos estratégicos (por exemplo, em infraestrutura) – assim se perpetuando os obstáculos ao crescimento sustentável. Não é à toa que, no pós-Real, o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu em média 3,3% ao ano, numa trajetória de “stop and go”.

Em suma, a indexação constitui sério entrave ao desenvolvimento do país. A dificuldade é que há um dilema. Por um lado, a eliminação voluntária (por parte dos agentes privados) dos mecanismos de indexação pressupõe um ambiente de estabilidade bem consolidado – do contrário, os brasileiros, que têm o DNA da inflação no sangue, vão continuar buscando proteção. Por outro, a consolidação de um ambiente de estabilidade requer a desindexação. O único agente capaz de resolver esse dilema é o Estado: é preciso promover uma nova rodada de desindexação, que elimine os entulhos remanescentes do período de alta inflação crônica. Enfim, a guerra da estabilização ainda está para ser vencida, dezessete anos depois do Plano Real.

Andre de Melo Modenesi é professor adjunto da UFRJ, pesquisador do CNPq e autor de “Regimes monetários: teoria e a experiência do Real” (Manole, 2005).

Fernando Ferrari Filho é professor titular da UFRGS e pesquisador do CNPq.

Rui Lyrio Modenesi ex-professor adjunto da UFF e economista aposentado do BNDES.

Trabalho decente: o melhor caminho para a redução da criminalidade

Geraldo Serathiuk

 A notícia de que o governo federal, através do Ministério do Trabalho e Emprego, convocou a Conferência do Trabalho Decente, por orientação da OIT, nos alegra pela iniciativa, por ser uma conquista histórica da luta do movimento sindical pela democracia.  

O conhecimento adquirido pelo estudo e vivência no mundo do trabalho nos mostra que temos uma longa jornada para a construção de um mercado de trabalho mais humano e decente.

Vivemos num país dependente, onde a inclusão de trabalhadores na formalidade, recentemente, corrige distorções na estrutura do mercado de trabalho, mas ainda de forma incipiente e precária, pois estamos mal inseridos na divisão internacional do trabalho. Isto se prende ao fato de termos construído até aqui um projeto nacional de desenvolvimento, com independência tecnológica e industrial, incompleto, que não agrega valor suficiente à economia, para uma melhor distribuição de renda, que nos dê poupança interna e capacidade de investimento.        

Em razão disso, 80% dos empregos gerados pagam menos de 2 salários mínimos. Temos uma rotatividade de mão de obra criminosa, geradora de doenças emocionais e psicológicas, por não adotarmos a Convenção 158 da OIT, e ser intenso o uso da demissão imotivada; prática descabida do banco de horas e exagerado de horas extras; desemprego de aproximadamente 22% entre jovens e pobres, especialmente nas regiões metropolitanas, bem como dos jovens com diploma universitário e a expansão do uso da terceirização que precariza as relações de trabalho. Os trabalhadores do setor público estão desprotegidos e sem direitos de negociação por não adotarmos a Convenção 151 da OIT. O fator previdenciário achata os proventos e tira o poder de compra dos aposentados. O sistema tributário incide sobre a renda e o consumo dos trabalhadores  e não sobre o lucro e o patrimônio das elites. A legislação continua a proibir a organização dos trabalhadores nos locais de trabalho e por isso são altamente controladas por serem organizadas pelo setor empresarial, as Cipas organizadas em apenas 50% das empresas e Sesmt em apenas 20% das empresas, o que causa altíssimos níveis de acidentes e doenças decorrentes do trabalho na busca do aumento da produtividade. Temos um quadro de auditores para a fiscalização das normas do trabalho muito abaixo do número considerado necessário. E ainda não temos uma política de saúde e segurança do trabalho e tampouco um sistema público de emprego com recursos definidos em lei e na Constituição. O que faz a política de qualificação profissional e técnica ter poucos recursos, bem como outras políticas públicas, que sofrem contingenciamento, em face de atual política macroeconômica de juros, cambio e de cumprimento da meta do déficit primário.       

Por isso, os membros das Conferências Estaduais, já convocadas no Paraná pelo governador Beto Richa, através do decreto nº 1.653/2011, a ser realizada no final deste ano, têm que compreender que precisamos exigir das instâncias governamentais do poder executivo e legislativo a aprovação de novas legislações favoráveis aos trabalhadores, para a implementação de medidas favoráveis ao aperfeiçoamento do projeto nacional de desenvolvimento, para termos um país mais justo e um mercado de trabalho decente, que segundo a OIT se conceitua como “aquele que gera emprego adequadamente remunerado, exercido em condições de liberdade, eqüidade e segurança, capaz de garantir uma vida digna”.         

Assim, só a luta permanente para implementar mudanças e melhorias irão permitir que os brasileiros não continuem tendo como futuro as drogas, como usuários ou como mercado de trabalho, e conseqüentemente os presídios ou a morte como destino. Aumentando as estatísticas da criminalidade, que alguns insistem em propor, que para combatê-la deve-se aumentar o contingente de policiais. Policiais que na sua grande maioria, são originários de setores de baixa renda, que servem para prender majoritariamente pobres, que estão desempregados ou trabalhando sem remuneração adequada e vivem em bairros com serviços, equipamentos e infra-estrutura precária sem ter respeitado a sua dignidade.

Geraldo Serathiuk é advogado, especializado em direito tributário pelo IBEJ/Pr. e MBA em Marketing e Estratégia pela UFPR gserathiuk@yahoo.com.br

RESERVAS INTERNACIONAIS CARAS, INÚTEIS E DÍVIDA PÚBLICA

Brasília, 1º de Julho de 2011. Flávio Lyra

A manutenção de um nível mínimo de reservas (em dólares ou euros) constitui prática comum dos bancos centrais, desde o desaparecimento do sistema de Bretton Woods. O Instrumento reservas cumpre as funções de assegurar a disponibilidade de moeda estrangeira necessária ao financiamento das importações em situações de carência de moeda estrangeira, controlar variações bruscas da taxa de câmbio, ou ainda, de controlar a disponibilidade de crédito, mediante a compra/venda de moeda estrangeira pelo Banco Central.

O Brasil ocupa atualmente a posição de 5º maior volume de reservas no mundo, com uma cifra atual de US$ 335 bilhões após grande expansão a partir de 2003.  No período 2003-7, quando o Brasil vinha gerando superávits nas transações correntes do balanço de pagamentos, o valor das reservas multiplicou-se por 3,7 e no período 2008-10, quando passaram a ocorrer déficits, multiplicou-se por 1,7.

 A acumulação de grandes volumes de reservas está intimamente associada, de um modo geral, a situações favoráveis nas transações correntes do Balanço de Pagamentos.  Em alguns casos, porém, as entradas líquidas de capital estrangeiro (investimento direto e empréstimos), como é o caso mais recente do Brasil, pode ser o fator principal.

A dívida pública federal é o instrumento de acumulação de reservas em moeda estrangeira, mediante a compra dos valores em moeda estrangeira entrados no país, que excedem o necessário para o financiamento dos compromissos com as importações e outros itens do balanço de pagamentos.

No período 2003-7, os saldos de transações correntes atingiram US$ 45,3 bilhões e as entradas de capital estrangeiro US $ 84,3 bilhões, fazendo um total de US$ 129,6 bilhões, enquanto que as reservas aumentaram U$$ 130,6 bilhões. Esses recursos não  contribuíram expressivamente para aumentar a taxa de formação de capital da economia, que passou apenas por uma pequena elevação. Muito provavelmente, mantiveram-se em sua maior parte no circuito estritamente financeiro, usufruindo as benesses das elevadas taxas de juros do país.

A partir de 2008, os saldos da conta de transações mudaram de sinal e o país passou a acumular déficits. No período 2008-10, os déficits de transações correntes atingiram U$$ 100 bilhões. Portanto, a entrada de capital estrangeiro, da ordem de US$ 128,7 bilhões passou a financiar não apenas o déficit de transações correntes, mas também a acumulação de reservas para o que teriam contribuído com US$ 28,7 bilhões.

Como a reservas cresceram US$ 108,3 bilhões entre 2008 de 2010, a diferença de US$ 79,6 bilhões, deve ter sido coberta por endividamento externo. Acontece que este valor do endividamento externo não se reflete na dívida externa líquida, pois é deduzido do cálculo, porquanto aparece computado nas reservas. Desta forma, o país troca dívida externa por dívida pública interna.

Essa estratégia de aumento da dívida pública interna para aumentar as reservas em moeda estrangeira, apresenta um grande inconveniente. A dívida interna tem o custo de seu serviço muito elevado, pois as reservas, que são aplicadas em moeda e títulos estrangeiros, rendem uma remuneração baixíssima, enquanto os títulos da dívida pública, em sua maior parte são remunerados pela taxa de juros SELIC. A diferença de valor entre tais taxas, aplicada ao valor da dívida pública pertinente, transforma-se em necessidade de superávit fiscal para seu pagamento.

O capital estrangeiro que chega ao país tem, portanto, um custo muito elevado, medido pelo diferencial das taxas de juros antes mencionadas. Por outro lado, incorpora-se às reservas em moeda estrangeira que, de certo modo, passam a funcionar como garantidoras de uma eventual reconversão desses investimentos para suas moedas de origem, no caso de uma crise que os estimulem a deixar o país.

Nos três últimos anos, os investimentos diretos têm sido mais do que suficientes para financiar o saldo negativo das transações correntes. Mesmo assim, o país ainda se endivida para acumular reservas. Cabe aqui a analogia com um indivíduo avarento, que tendo aplicações em caderneta de poupança que lhe rendem 6% ao ano, realiza uma compra a prazo com uma taxa de juros de 20% ao ano, para não gastar a poupança.

O país poderia perfeitamente financiar uma parte substancial de seu déficit em transações correntes com as reservas (para essa finalidade é que elas existem), dispensando o valor correspondente de entradas de capital estrangeiro, sob as formas de investimento direto e de crédito. Abriria exceção, apenas, para os recursos destinados ao financiamento de investimentos produtivos (estima-se que representam cerca de 20% do total dos investimentos diretos, ou seja, US$ 25,7 bilhões no período 2008-10).

Este seria o valor em que seriam aumentadas as reservas e a dívida pública pertinente e não os US$ 108, 3 bilhões, como ocorreu no período.

O mecanismo perverso de aumento de reservas e da dívida pública que lhe corresponde, nada mais é do que um disfarce para acobertar a entrada de capital estrangeiro que não oferece maior contribuição para o aumento da capacidade produtiva do país.

Parece incrível que as coisas se passem dessa maneira e nenhuma providência seja adotada. Daí a conclusão que serve de epígrafe a este texto: nossas reservas são caras, pois são formadas com a compra de dólares adquiridos com a expansão da dívida pública, cujo serviço custa muito mais do que o rendimento de suas aplicações; e, o que é mais grave, são inúteis, pois, não se prestam para financiar o déficit das transações correntes,  o que levaria à diminuição do valor da dívida pública. 

Os beneficiários dessa situação, que o próprio Kafka, em sua criação literária de uma sociedade totalitária e impessoal, teria sido incapaz de imaginar, são os bancos e os investidores financeiros externos e internos, que se alimentam dos serviços da dívida pública brasileira, sob beneplácito da política econômica. Tudo isso se passa, porém, sob o disfarce de duas necessidades: acumular reservas para evitar a valorização do Real, de modo a não desestimular as exportações; e enxugar a expansão dos meios de pagamento de modo a conter pressões inflacionárias. Fica a pergunta: Por que não perseguir os mesmos objetivos usando as reservas?

Ferrovia abandonada custa um trem-bala

Ministério Público Federal diz que país já perdeu R$ 40 bilhões com malha ferroviária largada após privatização

Instituição afirma que 16 mil quilômetros de ferrovias foram desprezados e pede investigação ao TCU

 

Catador de banana atravessaa estrada de ferro abandonada Cajati-Santos em Itariri, litoral sul do Estado de São Paulo

AGNALDO BRITO
ENVIADO ESPECIAL A MIRACATU (SP)

O ex-mascate Marino Soffiati, 47, precisou de tempo para entender como 360 metros de trilhos desapareceram numa madrugada. Parado sobre o talude de brita vazio, onde um dia repousou o quilômetro 221 da estrada de ferro Cajati-Santos, Soffiati avistara apenas as marcas do maçarico no chão.
Uma quadrilha muito bem entrosada retalhou e furtou 16 toneladas de trilhos naquela madrugada chuvosa.
Três anos depois, o hiato no ramal ferroviário Cajati-Santos é um entre vários no trecho de 250 quilômetros de ferrovia abandonada, hoje sob os auspícios da ALL (América Latina Logística).
O trecho, por onde circulavam minério e gente -como o ex-mascate Soffiati-, é apenas mais um retrato do completo abandono de 16.000 quilômetros de ferrovia no território nacional, um problema que só se agrava.
A ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres) diz que dois terços das ferrovias do Brasil estão subutilizados ou abandonados. Nesta semana, a agência divulgará relatório indicando onde estão os 5.760 quilômetros concedidos, mas ignorados.
O Grupo de Transporte do MPF (Ministério Público Federal) estima que essa situação tenha produzido um prejuízo de R$ 40 bilhões ao patrimônio público do país. É essa cifra o tamanho do esforço que o país precisará fazer para construir o primeiro trem-bala brasileiro, entre Campinas, São Paulo e Rio de Janeiro, negócio sob ameaça.
O caso do abandono das ferrovias está agora nas mãos do TCU (Tribunal de Contas da União). O MPF pediu ao órgão investigação sobre os contratos de concessão e o que chama de “dilapidação do patrimônio público”. O primeiro contrato que será visto é o maior, o da ALL.
A meta do MPF é exigir que todas as concessões sejam reavaliadas pelo tribunal.
“Começamos pelo contrato da ALL, mas o objetivo é que a investigação alcance todas as concessões feitas entre 1996 e 1998″, diz Thiago Lacerda Lopes, procurador e coordenador do Grupo de Transporte do MPF.
A ANTT diz que o contrato é “frouxo” tanto para impor metas quanto para obrigar a ativação de trechos.

DESTRUIÇÃO
O direito de arbitrar sobre qual trecho explorar condenou ramais considerados pouco atrativos. A situação se agravou com o abandono, o que gerou um problema social espalhado pela faixa de domínio hoje sem mando.
Em Itanhaém (SP), o mato, o furto e a ocupação irregular proliferam.
A paragem do bairro Cibratel é agora o lar de Maria de Lourdes. Pela antiga estação, ela pagou R$ 17.000 a um ex-funcionário da Fepasa. “Era tudo o que tinha.”
O produtor de banana Marcos Ribeiro, 36, critica o desleixo. O plantio ilegal da fruta domina a ferrovia e atrapalha seu negócio.
Há anos, a área virou alvo de saqueadores. Gente que busca o ferro dos trilhos, a madeira dos dormentes e os cabos do velho telégrafo.
A estrada de ferro que um dia transportou o agricultor Ribeiro, a dona de casa Maria de Lourdes e o mascate Soffiati perece no tempo.

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mercado/me0307201108.htm

Fonte:http://marcosocosta.wordpress.com/2011/07/03/ferrovia-abandonada-custa-um-trem-bala/

“Custo Brasil” ou “lucro Brasil”?

Por Altamiro Borges

A elite patronal adora falar no tal “Custo Brasil”. Ambiciosa e marota, ela difunde que a economia é vítima da alta carga tributária e do elevado custo da força de trabalho. Repetitiva, ela usa sua mídia para defender a redução dos impostos e o corte dos direitos trabalhistas. Os editoriais do jornalões e os comentários na TV são unânimes na defesa deste “pensamento único” neoliberal.

Felizmente, ainda há jornalistas na velha mídia que não se submetem às bravatas empresariais e exercitam com ética a profissão – pesquisando as reais causas que entravam o desenvolvimento da economia. É o caso do jornalista Joel Leite, especialista no setor automobilístico, que produziu uma reportagem no UOL que desmascara o discurso do Custo Brasil. Reproduzo alguns trechos:

O carro mais caro do mundo

“O Brasil tem o carro mais caro do mundo. Por quê? Os principais argumentos das montadoras para justificar o alto preço do automóvel vendido no Brasil são a alta carga tributária e a baixa escala de produção. Outro vilão seria o “alto valor da mão de obra”, mas os fabricantes não revelam quanto os salários – e os benefícios sociais – representam no preço final do carro. Muito menos os custos de produção, um segredo protegido por lei.

A explicação dos fabricantes para vender no Brasil o carro mais caro do mundo é o chamado Custo Brasil, isto é, a alta carga tributária somada ao custo do capital, que onera a produção. Mas as histórias que você verá a seguir vão mostrar que o grande vilão dos preços é, sim, o Lucro Brasil. Em nenhum país do mundo onde a indústria automobilística tem um peso importante no PIB, o carro custa tão caro para o consumidor (…).

Com um mercado interno de um milhão de unidades em 1978, as fábricas argumentavam que seria impossível produzir um carro barato. Era preciso aumentar a escala de produção para, assim, baratear os custos dos fornecedores e chegar a um preço final no nível dos demais países produtores.

Pois bem: o Brasil fechou 2010 como quinto maior produtor de veículos do mundo e como quarto maior mercado consumidor, com 3,5 milhões de unidades vendidas no mercado interno e uma produção de 3,638 milhões de unidades. Três milhões e meio de carros não seria um volume suficiente para baratear o produto? Quanto será preciso produzir para que o consumidor brasileiro possa comprar um carro com preço equivalente ao dos demais países?

Carga tributária caiu e preço do carro subiu

O imposto, o eterno vilão, caiu nos últimos anos. Em 1997, o carro 1.0 pagava 26,2% de impostos, o carro com motor até 100cv recolhia 34,8% (gasolina) e 32,5% (álcool). Para motores mais potentes o imposto era de 36,9% para gasolina e 34,8% a álcool. Hoje – com os critérios alterados – o carro 1.0 recolhe 27,1%, a faixa de 1.0 a 2.0 paga 30,4% para motor a gasolina e 29,2% para motor a álcool. E na faixa superior, acima de 2.0, o imposto é de 36,4% para carro a gasolina e 33,8% a álcool.

Quer dizer: o carro popular teve um acréscimo de 0,9 ponto percentual na carga tributária, enquanto nas demais categorias o imposto diminuiu: o carro médio a gasolina paga 4,4 pontos percentuais a menos. O imposto da versão álcool/flex caiu de 32,5% para 29,2%. No segmento de luxo, o imposto também caiu: 0,5 ponto no carro e gasolina (de 36.9% para 36,4%) e 1 ponto percentual no álcool/flex.

Enquanto a carga tributária total do País, conforme o Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário, cresceu de 30,03% no ano 2000 para 35,04% em 2010, o imposto sobre veículo não acompanhou esse aumento. Isso sem contar as ações do governo, que baixaram o IPI (retirou, no caso dos carros 1.0) durante a crise econômica. A política de incentivos durou de dezembro de 2008 a abril de 2010, reduzindo o preço do carro em mais de 5% sem que esse benefício fosse totalmente repassado para o consumidor.

As montadoras têm uma margem de lucro muito maior no Brasil do que em outros países. Uma pesquisa feita pelo banco de investimento Morgan Stanley, da Inglaterra, mostrou que algumas montadoras instaladas no Brasil são responsáveis por boa parte do lucro mundial das suas matrizes e que grande parte desse lucro vem da venda dos carros com aparência fora-de-estrada. Derivados de carros de passeio comuns, esses carros ganham uma maquiagem e um estilo aventureiro. Alguns têm suspensão elevada, pneus de uso misto, estribos laterais. Outros têm faróis de milha e, alguns, o estepe na traseira, o que confere uma aparência mais esportiva.

Margem de lucro é três vezes maior que em outros países

O Banco Morgan concluiu que esses carros são altamente lucrativos, têm uma margem muito maior do que a dos carros dos quais são derivados. Os técnicos da instituição calcularam que o custo de produção desses carros, como o CrossFox, da Volks, e o Palio Adventure, da Fiat, é 5 a 7% acima do custo de produção dos modelos dos quais derivam: Fox e Palio Weekend. Mas são vendidos por 10% a 15% a mais.

O Palio Adventure (que tem motor 1.8 e sistema locker), custa R$ 52,5 mil e a versão normal R$ 40,9 mil (motor 1.4), uma diferença de 28,5%. No caso do Doblò (que tem a mesma configuração), a versão Adventure custa 9,3% a mais. O analista Adam Jonas, responsável pela pesquisa, concluiu que, no geral, a margem de lucro das montadoras no Brasil chega a ser três vezes maior que a de outros países.

O Honda City é um bom exemplo do que ocorre com o preço do carro no Brasil. Fabricado em Sumaré, no interior de São Paulo, ele é vendido no México por R$ 25,8 mil (versão LX). Neste preço está incluído o frete, de R$ 3,5 mil, e a margem de lucro da revenda, em torno de R$ 2 mil. Restam, portanto R$ 20,3 mil.

Adicionando os custos de impostos e distribuição aos R$ 20,3 mil, teremos R$ 16.413,32 de carga tributária (de 29,2%) e R$ 3.979,66 de margem de lucro das concessionárias (10%). A soma dá R$ 40.692,00. Considerando que nos R$ 20,3 mil faturados para o México a montadora já tem a sua margem de lucro, o “Lucro Brasil” (adicional) é de R$ 15.518,00: R$ 56.210,00 (preço vendido no Brasil) menos R$ 40.692,00.

Isso sem considerar que o carro que vai para o México tem mais equipamentos de série: freios a disco nas quatro rodas com ABS e EBD, airbag duplo, ar-condicionado, vidros, travas e retrovisores elétricos. O motor é o mesmo: 1.5 de 116cv. Será possível que a montadora tenha um lucro adicional de R$ 15,5 mil num carro desses? O que a Honda fala sobre isso? Nada. Consultada, a montadora apenas diz que a empresa “não fala sobre o assunto”.

Na Argentina, a versão básica, a LX com câmbio manual, airbag duplo e rodas de liga leve de 15 polegadas, custa a partir de US$ 20.100 (R$ 35.600), segundo o Auto Blog. Já o Hyundai ix35 é vendido na Argentina com o nome de Novo Tucson 2011 por R$ 56 mil, 37% a menos do que o consumidor brasileiro paga por ele: R$ 88 mil.

Fonte:http://altamiroborges.blogspot.com/2011/07/custo-brasil-ou-lucro-brasil.html

Ex-ministro sugeriu que EUA não tratassem Brasil como ‘substituto’

Redação Carta Capital

30 de junho de 2011

Um documento diplomático enviado ao departamento de Estado americano em 16 de janeiro de 2008 revela que, durante encontro ocorrido em 16 de janeiro de 2008 com o embaixador americano Clifford Sobel, o ex-ministro das Relações Exteriores Luiz Felipe Palmeira Lampreia (1995-2001) fez uma série de acusações ao sucessor no posto, Celso Amorim.

O teor da conversa foi divulgado pela agência Pública, com base em documentos obtidos pelo site Wikileaks.

Na ocasião, revela a Pública, após ouvir o ex-ministro de Fernando Henrique Cardoso dizer que Amorim “era um homem de esquerda”, que “odiava americanos” por pura ideologia, Sobel quis saber como, na avaliação do colega, seria possível melhorar a relação entre os dois países.

A sugestão de Lampreia foi que os Estados Unidos ajudassem a elevar a reputação do Brasil no mundo, mas, “discretamente”, para não levantar suposições de que estariam estabelecendo o País como uma espécie de “substituto” no continente.

Na mesma conversa, informou a Pública, Lampreia relatou que o assessor presidencial Marco Aurélio Garcia era grande amigo pessoal do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, observando que deveria ser “humilhante” para o chanceler Celso Amorim não se envolver em situações como a negociação para a libertação de reféns das Farc – assunto que teria sido discutido pelo presidente diretamente com Garcia.

Em seguida, perguntado se um acordo comercial em Doha poderia ter sido alcançado caso Amorim não estivesse atuando em nível político e comercial simultaneamente, Lampreia respondeu que o ministro era “um homem de esquerda”, o que implicaria no fato de que o chanceler não poderia estar interessado em um acordo desse tipo, “por razões ideológicas”.

Lampreia sugeria ainda que o Ministério das Relações Exteriores estaria interessado em um programa nuclear para o Brasil, mas negou que isso tivesse a ver com o acordo nuclear firmado entre EUA e Índia, em 2008.

O ex-ministro avaliava que a execução de um programa nuclear seria um “crime contra o povo brasileiro, dados os custos de tal programa e outras necessidades prementes, como saúde, educação e habitação”.

Segundo ele, como não havia necessidade de um elemento de dissuasão contra outros países da região, um programa desse tipo só poderia ser interpretado como uma defesa potencial contra os Estados Unidos.

Ainda durante a reunião, que ocorreu na esteira de um artigo publicado por Lampreia na revista American Interest, na qual analisava a relação EUA-Brasil, o diplomata manifestou otimismo com as chances do tucano José Serra na corrida presidencial que só aconteceria mais de dois anos depois (pesquisa CNT/Sensus de 18 de fevereiro daquele ano mostrava o governador de São Paulo com 38,2% das intenções de voto, contra 4,5% de Dilma Rousseff ).

Ele especulava que Sergio Amaral, ex-ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior do governo FHC, seria o próximo ministro do Exterior em um eventual governo tucano.

Em relação ao governo Lula, ele disse considerar o presidente um “pragmático conservador”, sugerindo que sua política externa se contrapunha à ortodoxia de suas políticas econômicas. Isso, segundo o diplomata, tornava possível que Lula tivesse amigos de espectros distintos, se relacionando tanto com o então presidente Bush como com o mandatário venezuelano Hugo Chávez.