Arquivo mensais:julho 2011

Plano de Metas para todo o país é apresentado no Congresso

Raoni Scandiuzzi, Rede Brasil Atual

Prefeitos, governadores e o presidente da República teriam de apresentar, até 90 dias depois de assumir, um plano de metas para a gestão. A lista de prioridades já é obrigatória em São Paulo e em outras cidades, mas uma iniciativa da Rede Nossa São Paulo – que reúne cerca de 600 organizações da sociedade civil – pretende estender a exigência a todo o Brasil.

A associação elaborou uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC), apresentada pelo deputado federal Paulo Teixeira (PT-SP). Na terça-feira (12), o projeto foi protocolado no Congresso Nacional. Se aprovado, o programa cobraria do Executivo ações estratégicas, atreladas a indicadores de desempenho, e metas quantitativas e qualitativas para cada um dos setores da administração pública. O plano precisaria ter como referência as diretrizes traçadas durante as campanhas eleitorais.

Para exigir mais responsabilidade dos políticos e reduzir a farra das falsas promessas, Oded Grajew ressalta, em entrevista à Rede Brasil Atual, que “na obrigatória apresentação do plano de metas, terá de ser incluído necessariamente tudo o que foi prometido na campanha”. O político seria forçado a “traduzir” em resultados concretos o que foi apresentado durante a busca de votos.

“Qualquer gestão pública ou privada que se preze, trabalha com planejamento, metas e avaliação permanente, isso é o beabá de qualquer gestão”, explica Oded, que lamenta não existir esse tipo de prática na política brasileira.

Para a sociedade, se aprovada a PEC servirá como instrumento de fiscalização. “Os eleitores poderão ter importantes instrumentos de avaliação da gestão pública, mecanismos muito mais objetivos que os já existentes”, observa o coordenador.

Em São Paulo, o plano de metas já existe. Aprovada por unanimidades da Câmara Municipal em 2009, o projeto serve como referência para avaliações da sociedade e da mídia sobre qualquer área da gestão pública paulistana.

Como desafio para implementar uma iniciativa dessa amplitude em todo o Brasil, Oded ressalta a necessidade de aperfeiçoar forma de diagnóstico e de conhecimento das áreas de atuação do poder público. A principal via para isso envolve incorporar, na administração pública, “a rotina de levantar informações completas das áreas”, inclusive com indicadores que ajudem a medir o alcance das políticas.

Enquanto o projeto percorre o longo processo legislativo até sua aprovação, o Rio de Janeiro é outra das cidades a aprovar a exigência do plano de metas para a próxima gestão municipal. O projeto ainda conta com o apoio de diversos movimentos sociais e amplo incentivo da sociedade civil de locais onde ele já é aplicado.

Fonte:http://www.redebrasilatual.com.br/temas/politica/2011/07/proposta-de-plano-de-metas-para-todo-o-pais-e-apresentado-no-congresso/

Ou se faz a reforma política ou o Poder Executivo continuará prisioneiro do poder econômico e das oligarquias

Geraldo Serathiuk (*)

Atravessamos mais um momento de profunda de crise e decepção com o sistema político. Decepção da população como um todo e daqueles que lutaram contra o arbítrio, indignados com o fato de ver o presidente, governadores e prefeitos progressistas, em nome da chamada governabilidade se aliarem com pessoas que eram inimigos de ontem, aos quais denunciavam por imoralidades e outras coisas mais. E ainda para piorar não conseguem efetivar políticas fundamentais que prometeram para se eleger.  Em razão disso, mostro a causa principal deste fato acontecer. Isto é a realização de um projeto dos estrategistas do poder econômico, em especial, o financeiro. Ora, vejam porque.

O governo federal acaba de encaminhar uma proposta de reforma política ao Congresso Nacional propondo lista fechada, financiamento público exclusivo, fidelidade partidária, inelegibilidade, fim das coligações proporcionais e cláusula de barreira. Tal proposta partiu do diagnóstico do atual sistema que rege o processo político brasileiro, é “balizado por um presidencialismo de coalizão incrustado em um quadro partidário multifragmentado e volátil, que condiciona os governos à montagem de composições partidárias amplas, com vistas à garantia mínima de governabilidade”. E que num quadro desses, os sucessivos mandatários, eleitos pela via democrática, tiveram dificuldades para governar, pois a montagem do governo e de sua sustentação no parlamento nunca se deu em bases programáticas. Pelo contrário. As coligações são apenas para atender às demandas paroquiais, há exacerbação de personalismo, prevalência do poder econômico e fragilização dos partidos, inviabilizando um projeto nacional. Com reflexos nos demais poderes e nas esferas estadual e municipal.

Afinal, o sistema  mantido pela nossa Constituição Federal foi o estruturado pelo poder econômico, que vendo o seu modelo de desenvolvimento elitista e para poucos ruir com desemprego, carestia e miséria. Trouxe o avanço das oposições nos Estados mais populosos, com a inevitável perda da presidência, os governos e prefeituras, resolveram montar um sistema parlamentar para continuar dando as cartas. Principalmente porque este sistema político tem como base excesso de partidos, fracos e elege inevitavelmente pessoas muito, muitíssimas desqualificadas. O que é bom para o poder econômico e para as oligarquias regionais continuar mandando nos governos.

Diagnóstico correto colocado na mensagem da proposta de reforma política, porém, não se fala num dos temas mais importantes para a reforma política, que é a distorção do sistema representativo pela falta da adoção do coeficiente eleitoral nacional, para a eleição dos deputados federais e a necessidade de tirar o papel do Senado Federal de segunda Câmara revisora, que agride o Estado de direito democrático.

No caso da Câmara dos Deputados, casa de representação do povo, determinou que poderão eleger-se um mínimo de oito e um máximo de setenta deputados federais por Estado-membro. Não adotando a forma de coeficiente eleitoral nacional o que acabou produzindo uma distorção, pois aproximadamente 40% dos eleitores elegem 263 deputados federais e 60% dos eleitores elegem apenas 250 deputados federais.

O Senado Federal – casa de representação dos Estados-membros – que foi ampliado com a transformação de territórios pouco populosos e com pequenas economias, que deveria ter como atribuição discutir matérias de interesse da União e de conflitos entre as unidades federativas, mantendo o equilíbrio para o desenvolvimento das regiões. Mas, por distorção do sistema representativo, os senadores têm um dos campos de atribuições e competências dos mais amplos do mundo, podendo votar e vetar tudo, como se fosse uma segunda Câmara revisora.

A forma de impor um mínimo de três senadores por Estado-membro, gera uma distorção em que, aproximadamente, 40% dos eleitores elegem 59 senadores e 60% dos eleitores elegem apenas 22. Simbolizado na figura do senador eleito com 10 milhões de votos, tendo o mesmo peso de um senador que se elegeu com 300 mil votos. Isso é tão grave, pois o campo de atribuição e competência tão amplo acaba barrando a modernização das legislações brasileiras, pois representantes de Estados-membros poucos populosos e com economia pequena acabam impondo projetos locais, às vezes pessoais, em detrimento aos interesses estratégicos da sociedade brasileira.

Diante desse dilema, a reforma política – que seria realmente necessária – vai sendo protelada e o eleitor brasileiro em alguns Estados-membros vale 0,5 voto, enquanto em outros vale 15,4 votos. Não é por acaso o desinteresse pelas eleições, pois a distorção do sistema representativo distancia o representante do representado, comprometendo o sistema democrático. Distanciamento que não será resolvido só com a reforma proposta.

Em função dessa distorção, qualquer Presidente da República, Governador e Prefeito eleito pelo voto direto, por mais progressista que seja, teve, tem e terá problema de governabilidade. É só ver o caso recente do presidente Lula, eleito com 40 milhões de votos no primeiro turno. Caso tivéssemos o coeficiente eleitoral nacional, ele teria elegido uma bancada de apoio muito maior. Mas, a distorção do sistema representativo fez eleger bem menos, gerando problemas de governabilidade. Resultando naquilo que o poder econômico que um presidencialismo de coalização, ou seja, você pensa que esta votando num presidente, governador e prefeito com um programa de governo progressista, mas nas eleições do parlamento, em razão da deformação do sistema político, a sociedade não percebe que elege um governo de coalização, as vezes conservador, desqualificado e retrógrado. E por isso, é difícil governar e implantar políticas públicas voltadas para o povo por culpa desta engenharia política imposta pelo poder econômico e as oligarquias regionais, que resistem em mudar. Pois ganharam e ganham muito com ela.

Há de se considerar também que a distorção do sistema representativo, estruturado pelo poder econômico, para evitar o avanço das oposições progressistas, acabou gerando um custo muito alto para o país manter a governabilidade, pois para garantir a maioria no parlamento foi usado como moeda de troca  à criação e a manutenção de inúmeras estruturas públicas desnecessárias no âmbito federal, estadual e municipal. Incluindo as indicações para o poder judiciário e nos tribunais de contas, colocando em dúvida o princípio da independência dos poderes. Além do mais, acabamos por ter um sistema representativo deformado que ajudou muito na construção de uma divida interna e externa e um sistema previdenciário que beneficia a poucos, agregado o fator previdenciário, que vai dilapidando os benefícios com o tempo. E, também, a manutenção do controle dos meios de comunicação, de um sistema agrário, urbano, tributário questionável e uma política de juros e cambial que onera o setor produtivo nacional e a sociedade; Impedindo a nossa industrialização, impondo um projeto de exportadores de commodites (matéria prima sem industrialização e agregação de valor, como açúcar, farelo, madeira, minério, carne in natura etc), e por conseqüência a dura realidade na divisão internacional do trabalho, de geradores de empregos com baixos salários.

Por isso, a sociedade brasileira deve debater a reforma política sob a ótica de um novo pacto federativo, para que se redefina as atribuições dos senadores, o critério de composição do Senado Federal e inclua a mudança na eleição da Câmara dos Deputados. Não só sob o enfoque da reforma do sistema partidário e eleitoral. Devendo-se exigir a implantação do coeficiente eleitoral nacional, de acordo com o fundamento do princípio “um cidadão, um voto”. Esse princípio desaguará na regulamentação de mecanismos de participação popular e na reforma do Estado com o objetivo de se construir, verdadeiramente, um Estado de direito democrático e, por decorrência, um novo modelo de desenvolvimento democrático para todos os brasileiros.

(*) Geraldo Serathiuk, advogado especializado em direito tributário pelo IBEJ/PR e com MBA de Marketing e Estratégia da UFPR.

Governadores do Centro-Oeste resistem à redução de ICMS

Por Fernando Exman

Uma reunião realizada ontem entre a presidente Dilma Rousseff e os governadores do Centro-Oeste demonstrou o quão difícil será o governo federal conseguir promover um acordo para a redução da cobrança do ICMS interestadual.

Enquanto o governo prefere unificar a alíquota do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços em até 4%, Agnelo Queiroz (Distrito Federal), Silval Barbosa (Mato Grosso), André Puccinelli (Mato Grosso do Sul) e Marconi Perillo (Goiás) defenderam uma tarifa de 7% para os Estados do Centro-Oeste, Norte e Nordeste e outra de 2% para os do Sul e Sudeste. Eles sinalizaram que até podem aceitar a proposta do governo, desde que haja garantias da criação – e efetivo funcionamento – de um fundo de compensação aos Estados menos desenvolvidos.

“ICMS de 0% é difícil chegar a um acordo. Zero por cento seria um desastre. Quatro por cento até poderia ser aceitável, se tiver uma clareza do fundo de compensação”, afirmou Silval Barbosa ao deixar o encontro.

“Quais são as garantias desse fundo? Essa é a clareza que nós colocamos para a presidente, senão vão criar mais um fundo como a Lei Kandir e aí realmente quebra os Estados”, acrescentou.

Outros pontos constaram da pauta do encontro, como o rateio dos royalties do petróleo da camada pré-sal, a mudança na metodologia do cálculo das dívidas dos Estados com o governo federal e a manutenção dos incentivos fiscais já concedidos.

“Convalidar o que já foi feito (incentivos fiscais) daria uma estabilidade jurídica muito grande para todos os Estados”, comentou Agnelo Queiroz.
Os governadores querem que o indexador das dívidas dos Estados com a União passe de IGP-DI mais 6% ao ano para IPCA mais 2% ao ano, além da redução do comprometimento de 15% para 9% da receita líquida dos Estados destinado ao pagamento das suas dívidas com governo federal. Por ora, a ideia ainda não é bem recebida pelo Palácio do Planalto.

Agnelo Queiroz (PT), Marconi Perillo (PSDB), Silval Barbosa (PMDB) e André Puccinelli (PMDB) também pediram a Dilma que a divisão dos royalties do pré-sal contemple os estados não-produtores de petróleo, uma forma de combater as desigualdades regionais do país. Segundo os governadores, a presidente considerou justo o pleito, mas reiterou não aceitar que o Tesouro Nacional pague a conta de um eventual entendimento sobre o assunto.

Para André Puccinelli, um acordo ainda só não foi fechado entre os estados produtores e não-produtores devido à “sanha voraz” de Rio de Janeiro, Espírito Santo e São Paulo.

Em relação ao risco de perderem os recursos do Fundo de Participação dos Estados (FPE) a partir do fim de 2012, o quarteto pediu que a União ressarça eventuais perdas que algum Estado venha a sofrer. Os governadores também pediram a partilha do ICMS que incide sobre o comércio eletrônico entre estados de origem e destino.

Por sua vez, Dilma Rousseff passou um dever de casa dos governadores: pediu que definam alguns projetos prioritários para que o governo federal os ajude a promover o desenvolvimento regional.

Fonte:http://www.valoronline.com.br/impresso/politica/100/456907/governadores-do-centro-oeste-resistem-a-reducao-de-icms

Politização e burocratização

por Cláudio Gonçalves Couto (*)

Na seção de política de ontem (14/06/2011), o Valor noticiava que servidores do Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes) iniciaram um protesto com o sugestivo título de “Ética no DNIT, fora corruptos”. Pleiteiam que a direção do órgão seja ocupada exclusivamente por funcionários públicos concursados. A iniciativa foi apoiada pelo Sindicato dos Servidores Públicos Federais no Distrito Federal.
Tendo em vista os últimos acontecimentos no Ministério dos Transportes e no próprio DNIT, o pleito dos servidores parece mais do que justificável.

Ainda mais considerando-se o imenso número de cargos de livre provimento à disposição do governo e, consequentemente, dos partidos da base aliada, os quais são utilizados não apenas como moeda de troca na obtenção e manutenção de apoio político, mas também como prováveis fontes de recursos ilícitos para o financiamento de campanhas e o enriquecimento pessoal.

Já se tornou lugar comum a menção à grande quantidade de cargos públicos politicamente negociáveis, muito superior ao que se verifica em países institucional e economicamente mais desenvolvidos que nós. Enquanto no Brasil (apenas no governo federal em sua administração direta) os cargos de livre nomeação ultrapassam as duas dezenas de milhares, em nações como o Reino Unido eles são contados na casa das centenas. Assim, se por um lado a classe política profissional dispõe de um generoso butim do qual se apossar em proveito próprio, por outro o funcionalismo profissional (incorporado à máquina do Estado por méritos profissionais comprovados em concursos) se vê preterido em suas justas ambições de ascensão aos postos mais elevados da burocracia governamental.

Partidarização de cargos é só um aspecto do problema
Ocorre, todavia, que a relação entre política e administração pública no Brasil é mais complicada do que isto. Boa parte das mazelas que nos atingem nesta seara ultrapassa a questão do mal uso do dinheiro público por uma elite política predatória e seus apaniguados, muitas vezes em associação com corruptores privados que financiam campanhas e contribuem para o enriquecimento pessoal mútuo. Há sérios problemas de gestão relacionados à existência de incentivos perversos para os próprios servidores de carreira, inclusive ao ponto de fazer com que o livre provimento ultrapasse a mera condição de instrumento para a politização predatória, constituindo-se também num recurso gerencial para aprimorar a administração pública.
Isto fica evidente quando se considera o problema da previdência do setor público e seus impactos sobre os gastos com a folha do funcionalismo. Ao longo de décadas tem vigorado um sistema de aposentadoria nitidamente privilegiado em comparação ao dos trabalhadores do setor privado. Em primeiro lugar, porque remunera aposentados do funcionalismo com os salários integrais da ativa – em alguns casos incluindo até mesmo ganhos de produtividade, por absurdo que seja. Em segundo lugar, porque não se constituíram historicamente fundos com suas contribuições ainda no período de atividade, ficando a conta para o contribuinte.

Portanto, não apenas o peso das aposentadorias e pensões cresce magnificamente ano a ano, mas também impede que políticas de estímulo aos trabalhadores da ativa sejam implementadas. Afinal, com a correspondência automática de ganhos entre ativos e inativos, qualquer aumento ou incentivo adicional que se dá aos que ainda trabalham gera imediatamente uma despesa previdenciária adicional. Ou seja, não se dão merecidos aumentos aos ativos para não inflar os gastos com inativos, precarizando as condições de trabalho dos servidores e tornando muitas áreas do serviço público desinteressantes aos mais aptos.

As nomeações discricionárias para cargos de mais alto escalão são usadas frequentemente como uma forma de driblar este obstáculo. Primeiramente porque pessoas contratadas de fora da administração pública não se integram ao corpo estável do funcionalismo e, com isto, não adquirem o direito a uma aposentadoria integral. A criação de mais cargos de confiança em diversos níveis de governo serve também a este propósito – e não só ao “loteamento” da máquina, como frequentemente supõe o senso comum moralista.

O oferecimento de salários mais altos para cargos de confiança tem também o condão de atrair do mercado profissionais que, doutra forma, não iriam trabalhar no setor público, tendo em vista o achatamento dos salários. E justamente porque é possível ocupar tais cargos comissionados com membros externos ao setor público, sem pressionar os gastos previdenciários, é que os salários aí podem ser maiores. Por fim, ainda que podendo gerar gastos previdenciários adicionais, a perspectiva da ocupação de cargos de confiança por funcionários de carreira constitui um estímulo profissional para o mérito, algo nada negligenciável numa burocracia pública caracterizada por incentivos perversos (ou desincentivos) como a progressão apenas por tempo de serviço. Em contrapartida, não apenas o mérito, mas também a sujeição às exigências e benesses da politização predatória pode se constituir num fator de ascensão profissional a funcionários públicos de carreira. Não por acaso servidores concursados estavam presentes em muitos escândalos de corrupção dos últimos anos, atuando a serviço de interesses partidários bem pouco republicanos.

Portanto, pode ser até mesmo contraproducente a mera redução do espaço às nomeações discricionárias no setor público, restringindo os cargos de direção apenas aos funcionários de carreira. Não se eliminam todos os riscos e criam-se custos adicionais. Avançar no debate requer discutir também a qualidade dos incentivos para o funcionalismo e seu custo para a sociedade. As mudanças devem passar pela regulamentação da reforma da previdência do setor público (tornando-a sustentável e equitativa) e pela instituição de estímulos a uma meritocracia republicana na burocracia de Estado. Os sindicatos do funcionalismo e suas corporações, contudo, sempre se opõem a tais reformas.

(*) Cláudio Gonçalves Couto é cientista político, professor da FGV-SP e colunista convidado do Valor Econômico.

Concessionárias não sofrem bullying, mas de amnésia, diz especialista

Por Vera Gaspareto

“As concessionárias privadas, com a ALL [América Latina Logística] à frente, não sofrem bullying, sofrem de amnésia interessada”. A observação é do ex-presidente da Ferroeste, Samuel Gomes, em contraponto ao diretor-executivo da Associação Nacional dos Transportadores Ferroviários (ANTF), Rodrigo Vilaça, que, em entrevista ao jornal Valor Econômico, no dia 4 último, disse que o setor “está sofrendo de bullying e síndrome do pânico” porque é atacado por todos os lados.

Samuel Gomes é bastante crítico à situação atual das ferrovias nacionais. A amnésia a que se refere é que as concessionárias esqueceram os contratos que se obrigaram a cumprir.

“Esqueceram, também, dos bilhões com que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico Social (BNDES) irrigou os cofres das concessionárias durante os 15 anos em que as ferrovias foram depredadas e as práticas monopolísticas mais cruéis e irresponsáveis levaram à falência empresas e de regiões inteiras e o transporte ferroviário de cargas à regressão em vários aspectos”.

Para ele, não resta dúvida de que recursos públicos financiaram a privatização da malha e financiaram sua exploração predatória. “Dinheiro público contra a sociedade brasileira”.

O ex-presidente da Ferroeste entende que a Agência Nacional dos Transportes Terrestres (ANTT) não cumpre o seu papel corretamente de controle e fiscalização dos contratos, permitindo a depredação das ferrovias brasileiras nos últimos 15 anos. “Mas agora faz biquinho com as concessionárias apenas porque está sob intensa pressão do Ministério Público Federal, que depois de anos de ações pontuais dos Procuradores da República em defesa das populações e regiões prejudicadas”.

Monopólio

A reclamação de “perseguição” por parte das concessionárias é facilmente desmontada, segundo Gomes, comparando os números do Brasil com os de outros países.

“Aqui o frete, por exemplo, é fixado com base no preço do caminhão e algumas concessionárias têm suas próprias frotas de caminhão. Aqui as concessionárias regulam a oferta de vagões para “administrar” os seus preços. A domesticação vergonhosa da ANTT pelas concessionárias é um escândalo. Com a Agência controlada, os monopólios privados deitaram e rolaram”.

Ele também crítica o papel dos fundos de pensão das estatais que foram, gradativamente, convertendo-se em sócios majoritários de concessionárias, como é o caso da ALL. A privatização das ferrovias, da forma como foi feita, significou a perda pelo Brasil de um instrumento fundamental de indução do desenvolvimento.Ferrovia é questão de soberania”.

Fonte: http://www.portogente.com.br/texto.php?cod=49209

A perda de confiança na ordem atual

Por Leornardo Boff (*)

Na perspectiva das grandes maiorias da humanidade, a atual ordem é uma ordem na desordem, produzida e mantida por aquelas forças e países que se beneficiam dela, aumentando seu poder e seus ganhos. Essa desordem deriva do fato de que a globalização econômica não deu origem a uma globalização política. Não há nenhuma instância ou força que controle a voracidade da globalização econômica. Joseph Stiglitz e Paul Krugman, dois prêmios Nobel em economia, criticam o Presidente Obama por não ter imposto freios aos ladrões de Wall Street e da City, ao invés de se ter rendido a eles. Depois de terem provocado a crise, ainda foram beneficiados com inversões bilionários de dinheiro público. Voltaram, airosos, ao sistema de especulação financeira.

Estes excepcionais economistas são ótimos na análise; mas, mudos na apresentação de saídas à atual crise. Talvez, como insinuam, por estarem convencidos de que a solução da economia não esteja na economia, mas no ‘refazimento’ das relações sociais destruídas pela economia de mercado, especialmente, a especulativa. Esta é sem compaixão e desprovida de qualquer projeto de mundo, de sociedade e de política. Seu propósito é acumular maximamente, apropriando-se de bens comuns vitais como água, sementes e solos e destroçado economias nacionais.

Para os especuladores, também no Brasil, o dinheiro serve para produzir mais dinheiro e não para produzir mais bens. Aqui o Governo tem que pagar 150 bilhões de reais anuais pelos empréstimos tomados, enquanto repassa apenas cerca de 60 bilhões para os projetos sociais. Esta disparidade resulta eticamente perversa, consequência do tipo de sociedade a qual nos incorporamos, sociedade essa que colocou, como eixo estruturador central, a economia, que de tudo faz mercadoria até da vida.

Não são poucos que sustentam a tese de que estamos num momento dramático de decomposição dos laços sociais. Alain Touraine fala até de fase pós-social ao invés de pós-industrial.

Esta decomposição social se revela por polarizações ou por lógicas opostas: a lógica do capital produtivo cerca de 60 trilhões de dólares/ano e a do capital especulativo, cerca de 600 trilhões de dólares sob a égide do “greed is good” (a cobiça é boa). A lógica dos que defendem a maior lucratividade possível e a dos que lutam pelos direitos da vida, da humanidade e da Terra. A lógica do individualismo que destrói a “casa comum”, aumentando o número dos que não querem mais conviver e a lógica da solidariedade social a partir dos mais vulneráveis. A lógica das elites que fazem as mudanças intrassistêmicas e se apropriam dos lucros e a lógica dos assalariados, ameaçados de desemprego e sem capacidade de intervenção. A lógica da aceleração do crescimento material (o PAC) e a dos limites de cada ecossistema e da própria Terra.

Vigora uma desconfiança generalizada de que deste sistema não poderá vir nada de bom para a humanidade. Estamos indo de mal a pior em todos os itens da vida e da natureza. O futuro depende do cabedal de confiança que os povos depositam em suas capacidades e nas possibilidades da realidade. E esta confiança está minguando dia a dia.

Estamos nos confrontando com esse dilema: ou deixamos as coisas correrem assim como estão e então nos afundaremos numa crise abissal ou então nos empenharemos na gestação de uma nova vida social, capaz de sustentar um outro tipo de civilização. Os vínculos sociais novos não se derivarão nem da técnica nem da política, descoladas da natureza e de uma relação de sinergia com a Terra. Nascerão de um consenso mínimo entre os humanos, a ser ainda construído, ao redor do reconhecimento e do respeito dos direitos da vida, de cada sujeito, da humanidade e da Terra, tida como Gaia e nossa Mãe comum. A essa nova vida social devem servir a técnica, a política, as instituições e os valores do passado. Sobre isso venho pensando e escrevendo já pelo menos há vinte anos. Mas é voz perdida no deserto. “Clamei e salvei a minha alma” (clamavi et salvavi animam meam), diria desolado Marx. Mas importa continuar. O improvável é ainda possível.

(*) Leonardo Boff é teólogo e escritor

Fonte: http://cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=5118

Um cidadão Kane acuado

Carta Capital

A cada dia, mais complicada se torna a situação do magnata das comunicações Rupert Murdoch. Nesta quinta-feira 14, foi preso o ex-editor executivo Neil Wallis, do News of the World, jornal londrino envolvido em um escândalo de escutas telefônicas ilegais e pagamento de subornos a policiais em troca de informações. Ele é a nona pessoa ligada ao jornal detida no caso.

O Guardian informou em sua versão online que Wallis foi levado para prestar depoimento em uma delegacia de Londres. Antes de chegar ao cargo de editor-executivo em 2007, Wallis foi editor adjunto do tabloide desde 2003. Ele deixou o cargo em 2009 e hoje é consultor na empresa de relações públicas Outside Organisation.

Durante anos, Wallis foi subordinado ao então diretor Andy Coulson, que foi chefe de imprensa do atual primeiro ministro do Reino Unido David Cameron. Coulson foi detido na última sexta-feira 8 por supostamente ter incentivado os jornalistas do News of the World a realizar grampos telefônicos e ter ainda autorizado o pagamento de valores a policiais em troca de informações. Ele foi liberado sob fiança.

Em 2003, Coulson assumiu a direção do jornal, no mesmo ano em que tiveram início as escutas. Em janeiro de 2007 ele deixou o cargo após o jornalista do News of the World Clive Goodman ter sido preso por admitir ter realizado escutas em telefones de membros da família real britânica.

O News of the World circulou pela última vez no domingo 10 e a decisão de fechá-lo partiu de Murdoch, dono do conglomerado News Corporation. O encerramento das atividades foi consequência do desgates causado pelo escândalo dos grampos. O próprio Murdoch, informa o jornal El País, foi convocado a depor na Comissão de Cultura do Parlamento do país, que investiga as escutas ilegais.

Também foram chamados a depor o filho do magnata e presidente da filial britânica da News Corporation, James Murdoch, e a diretora-executiva do grupo Rebekah Brooks. Até o momento apenas Brooks confirmou que se apresentará à Câmara dos Comuns. Em duas cartas, Rupert e James Murdoch, que não são cidadãos britânicos, disseram que não estão disponíveis na data estipulada pela casa. O magnata disse ainda que está “totalmente preparado para apresentar evidências no processo judicial que será iniciado num futuro próximo”.

Jean Charles de Menezes

A Scotland Yard divulgou, nesta quinta-feira 14, que Alex Pereira, um dos primos do brasileiro Jean Charles de Menezes, confundido com um terrorista e morto brutalmente pela polícia britânica num metrô de Londres em 2005, teve seu telefone interceptado pelo tabloide.

O caso do primo de Jean Charles de Menezes junta-se as escutas realizadas em números telefônicos de celebridades, familiares de vítimas dos atentados de 7 de julho de 2005, políticos, membros da família real e de familiares de soldados britânicos mortos no Afeganistão e no Iraque, num total de mais de quatro mil pessoas grampeadas.

As consequências do escândalo também refletiram nos planos de expansão do conglomerado de Murdoch. Ele desistiu de comprar a totalidade das ações do canal BSkyB, da qual já detinha 39%.

Fonte: http://www.cartacapital.com.br/politica/um-cidadao-kane-acuado