Diálogos Desenvolvimentistas Nº 40: Brasil continua sendo o dono das mais altas taxas de juros do mundo: por que o Banco Central não reduz a Selic?

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Gusthavo Santana

Todo mundo já conhece a novela dos juros no Brasil. Não é novidade que nós ocupamos o posto de país com as mais altas taxas de juros do mundo. A última confirmação veio de um estudo elaborado pelo analista internacional Jason Vieira, da Apregoa.com – Cruzeiro do Sul, que pesquisou as 40 principais economias do globo. Na lista, o Brasil está isolado na liderança do quesito juros real. Para deixar essa posição ingrata o país teria que cortar a famosa Selic (taxa básica de juros) para 7,25% ao ano.

No entanto, na última quarta-feira (20), o Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central, decidiu elevar a taxa em 0,25% para 12,50% ao ano. A justificativa dada pelo BC todo mundo também conhece: depois de ter consultado o “mercado” (leia-se: instituições ligadas ao sistema financeiro) sobre juros e inflação, o Copom julgou que a melhor coisa para o país seria mesmo elevar a Selic.

Carlos Ferreira afirma que “atualmente, é tão certa a elevação da taxa Selic a cada reunião do Copom, como certas são as chuvas no verão. Isto é assegurado pela total rendição do governo ao ‘deus mercado’, às elites rentistas e sua mídia amestrada”. Para Carlos, “Aceitamos bovinamente a condição que os senhores do mundo nos reservaram na distribuição de tarefas, no mundo: simples fornecedores de produtos agromineirais – primários cabe ressaltar! Veja a Itália já se tornou nossa maior fornecedora de cafés processados, por exemplo. A nós cabe exportar os grão “in natura”.

Flavio Lyra, economista e ex-técnico do IPEA, acredita que existe um círculo vicioso nas estimativas da taxa Selic que servem de base a seu cálculo. Ele explica que “A estimativa das expectativas de inflação baseiam-se na taxa de inflação que as empresas incluem em seus reajustes de preços que, por vez, são feitas considerando os custos referentes a juros. Portanto, os aumentos de custos determinam o aumento dos preços que servem de base para o cálculo da expectativa de inflação e, portanto, da Selic”. Para Flavio, o governo deveria tomar a decisão de baixar a taxa de juros, assim, as demais variáveis se ajustariam a mudança.

Rodrigo Medeiros, professor universitário e sócio da Associação Keynesiana Brasileira (AKB), sugere meios alternativos ao aumento da taxa de juros para o controle da inflação: “Defendo controle de capital na entrada com o imposto regressivo para todos. Como não dá para parar por aí, defendo também que o governo federal atue a partir de estoques reguladores de certas commodities, ou seja, aquelas que compõem a cesta básica para aliviar o IPC (Índice de Preços ao Consumidor)”. Rodrigo também acredita que o BC poderia utilizar mais o arsenal de medidas prudências – como o IOF (Imposto sobre Operações de Crédito, Câmbio e Seguros), compulsórios, prazos e limites de endividamento, além mudar a metodologia do Focus, a pesquisa que o BC faz semanalmente com o “mercado” sobre a inflação.

 A economista Ceci Juruá acredita que existem várias vertentes para explicar as orientações da taxa Selic. Ela afirma que “Como cidadão e cidadã, contudo, precisamos principalmente entender os prejuízos que a Selic causa à sociedade, mas também o que nos cabe fazer para deter a sangria de recursos públicos operada pela Selic”. A economista defende a organização da sociedade em torno de uma bandeira comum, dentro do jogo democrático: “Defendo o alinhamento da Selic com as taxas praticadas no mundo desenvolvido. Um teto de 2% com variações de 50% para mais e para menos, seria oportuno”. E completa: “Esta bandeira é nossa, e não dos rentistas, nem das finanças internacionais. Não esperemos adesões nem vitórias por decreto. Ela vai depender da luta política que soubermos travar”.

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