Carta Maior
Ao mesmo tempo em que cheira a loucura, o impasse orçamentário norte-americano que ameaça lançar o mundo ao caos financeiro, empresta –como costuma acontecer no auge das crises– uma forte dose de transparência à realidade ao seu redor. Condensam-se ali escolhas que tem dividido a disputa política ao longo de todo o ciclo neoliberal e do qual esse episódio figura como símbolo de um crepúsculo arrastado.
Uma disjuntiva resume todas as demais: cortar gastos sociais ou aumentar o imposto sobre os ricos? É isso que paralisa a Casa Branca nesse momento. E não terá sido essa, afinal, a disputa de fundo dos últimos 30 anos, vencida em grande parte pelo cânone neoliberal em boa parte do planeta, onde o martelo e o cutelo conservador plasmaram a economia e a sociedade na base de cortes de impostos, redução do papel do Estado na economia -incluindo-se aí a desregulação financeira e as privatizações e, por fim, consumada a fragilidade fiscal decorrente dessa lapidação, a apropriação dos fundos públicos pelos rentistas, através do pagamento de juros da dívida pública?
A diferença agora é que a crise desse modelo politizou a economia, escancarando a luta de classes que estrutura a sua engrenagem, sempre caramelada pelo jornalismo nativo com glacê científico. Ao subtrair, como no caso americano e no de boa parte da UE, o fôlego do amortecedor fiscal exaurido pelo socorro a banca e aos rentistas , não sobrou mais cartilagem pública para suavizar o atrito entre ricos e pobres. A fricção tornou-se direta e cobra uma intervenção cirúrgica. É isso que a cordura do atual Presidente democrata, que, justiça seja feita, nunca se propôs a ser um Franklin Roosevelt, enfrenta como sua hora da verdade.
O Brasil ainda vive um estágio anterior do conflito -a dívida pública aqui é da ordem de 45% do PIB. Deve, porém, pesar meticulosamente como gastará a cartilagem e o tempo disponível, antes que os mercados e a direita extremista, vocalizada pelos Murdochs locais, entendam que chegou a hora de acionar também o xeque-mate testado pelos republicanos. O sinal verde que ela fareja -depois de ter perdido até a farisaica bandeira da corrupção– remete ao impasse cambial. Ademais de ameaçar a indústria brasileira , numa reversão da liquidez externa ele poderá transmudar-se em fuga de capitais abrupta e gerar pressões inflacionárias. Hoje o dólar atingiu o valor mais baixo desde 1999.
Pergunta à Presidenta Dilma: não é melhor surpreender a fatalidade com o inesperado e antecipar-se ao xeque-mate dotando o país de um legítimo controle cambial, ancorado em negociação política, ou política econômica, que iniba o bote dos preços?
Fonte: http://cartamaior.com.br/
