Assis Moreira | Valor
O Brasil foi o quinto país que mais atraiu Investimento Estrangeiro Direto (IED) em 2010, num forte salto comparado a 15ª posição no ano anterior. O fluxo deve continuar aumentando, com o país sendo o quarto destino preferido pelas multinacionais para investir em 2011-2013.
Os dados são do Relatório Mundial de Investimentos, da Agencia das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad). Pela primeira vez, as economias em desenvolvimento e em transição atraíram mais da metade do fluxo de US$ 1,24 trilhão de IED.
A projeção para este ano é de o fluxo global de IED crescer para algo próximo de US$ 1,4 trilhão, apesar das incertezas na economia global. E na medida em que mais produção internacional toma o rumo das economias em desenvolvimento, as multinacionais aumentam os projetos de IED nesses mercados para abocanhar bons lucros e permanecer competitivas nas cadeias globais de produção. Isso reflete a mudança no consumo internacional.
Essa contínua expansão reflete as altas taxas de lucros obtidas pelas multinacionais nos emergentes, de 7,3% em 2010 na média, mesmo nível do registrado antes da crise econômica e financeira global.
As vendas de filiais estrangeiras aumentaram 9,1%, refletindo melhor renda nos emergentes. As vendas e o valor agregado pelas filiais estrangeiras alcançaram US$ 33 bilhões e US$ 7 bilhões, respectivamente. Suas exportações somaram US$ 6 trilhões, um terço do total das exportações mundiais.
A alteração no fluxo de IED é confirmada também pelo ranking dos principais recebedores: em 2010, a metade dos 20 países desta lista foram economias em desenvolvimento.
A América Latina e o Caribe receberam US$ 159 bilhões de IED em 2010, numa alta de 13%, numa mostra do interesse de grupos estrangeiros em adquirir empresas na região, após uma década de fraqueza nas operações de fusão e aquisição transfronteiras. Mas a maioria das aquisições foi realizada por grupos asiáticos, principalmente China e Índia, focadas principalmente na extração de petróleo e gás na América do Sul.
O Brasil absorveu 30% do total da América Latina, com US$ 48 bilhões, quase o dobro dos US$ 26 bilhões no ano anterior. O estoque de investimentos diretos externos no país alcançou US$ 472,5 bilhões, dos quais US$ 187,7 bilhões entraram desde 2005. O país só ficou atrás dos EUA, China, Hong Kong e Bélgica na captação de IED no ano passado.
De outro lado, empresas brasileiras tem estoque de US$ 180,9 bilhões de investimentos diretos no exterior. Desse total, US$ 69,7 bilhões foram investidos nos últimos cinco anos, num ritmo acelerado de internacionalização de vários grupos brasileiros.
Nos primeiros quatro meses de 2011, houve, porém, valor negativo de US$ 9 bilhões nesse fluxo do Brasil para fora. Para a Unctad, isso é o resultado de uma enorme alta de US$ 14 bilhões no repagamento de empréstimos (entre companhias) de filiais estrangeiras para suas matrizes no Brasil.
Empresas estatais estão emergindo como uma fonte importante de IED. A Unctad calcula a existência De pelo menos 650 companhias, com 8.500 filiais no exterior, fazendo 11% do total de IED. Isso trás algumas preocupações sobre segurança nacional e implicações na área de regulação para a expansão internacional dessas companhias. Na lista da agencia da ONU, até a Volkswagen é apontada como estatal, por ter 20% de participação do governo alemão
Este ano, o relatório destaca a produção internacional não acionária (No-Equity Modes of International Production), que inclui a fabricação por contratos, subcontratação de serviços, as franquias, as licenças e os contratos de gestão. Isso permite a multinacionais coordenar atividades de outras empresas sem ter nenhuma participação direta nelas.
Essa produção gerou US$ 2 trilhões de vendas em 2010 e cresce rapidamente. A Unctad aponta preocupações, por exemplo, sobre as pobres condições de trabalho, na medida em que essas companhias produzindo para multinacionais estão sob forte pressão competitiva para reduzir custos. Em alguns casos, elas podem ser usadas também para driblar padrões ambientais e sociais que as multinacionais deveriam respeitar.
