Diálogos Desenvolvimentistas Nº 39: A esquerda, na crise, fica um pouco mais a direita?

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Gusthavo Santana 

Há muito os conceitos (e práticas) da esquerda e da direita vêm se modificando em todo mundo. Vale lembrar que a origem desses termos remonta a Revolução Francesa, quando as coisas eram, digamos, mais simples: o clero e a aristocracia – privilegiados pelo Antigo Regime, formavam a bancada da direita e a burguesia ascendente, junto aos camponeses, soldados e demais desassistidos do sistema, formavam a bancada da esquerda, ansiosa por mudanças.

Vamos dar um salto no tempo, saindo do século XVIII e chegando a 2011, e veremos que esquerda e direita não são mais conceitos tão estáveis. Basta olhar para a Grécia, o grande centro da crise fiscal na Europa. O grande vencedor das últimas eleições gregas foi o Partido Socialista (PASOK) que, o nome já entrega, está historicamente alinhado a esquerda. E quais são as medidas que os socialistas estão tomando, sob forte pressão da União Européia, FMI e bancos internacionais? Cortes de gastos públicos, privatizações, demissões de funcionários e redução de salários visando o pagamento de juros da dívida.

Atenágoras Oliveira, engenheiro eletrônico e doutor em economia, é enfático: “A prática ainda é o critério da verdade. Não vejo como classificar o atual governo grego como sendo de esquerda (nem mesmo centro-esquerda), não importando se ele carrega o título de “socialista” no nome do partido governante”. Para Atenágoras, “Os ajustes fiscais disseminados na Europa só conduzem, além da óbvia degeneração da qualidade de vida de seus cidadãos, a uma redução da arrecadação de impostos, levando – sob a ótica liberal – a uma nova rodada de redução de gastos”.

Para a economista Ceci Juruá, no entanto, “Há confusão e divergências sobre os conceitos de esquerda e direita, talvez seja mais um sentimento do que um conceito, ou uma postura”. Ceci ainda cita recente encontro de líderes de esquerda europeus do qual surgiram propostas como a criação de uma agência de avaliação de riscos pública e o resgate da prevalência do Estado sobre os mercados. Os líderes também declararam solidariedade ao governo grego. “Do meu ponto de vista, a solidariedade é um atributo universal das esquerdas”, finaliza Ceci.

Gustavo Santos, economista, lembra que o que está em jogo é qual tipo de Europa teremos no futuro. Para ele, “o Euro foi um projeto de emancipação européia frente ao poder americano, mas foi, certamente, tomado pelo setor financeiro e pelo conservadorismo monetário alemão”. Gustavo também afirma a que “os financistas tem diversos motivos para subjugar a soberania dos pequenos estados. Mas o conservadorismo alemão tem outras razões: busca, com isso, alterar as relações de força para definir – da forma que mais lhes convém, a futura federação européia, onde os pequenos países passarão a ser estados um pouco mais parecidos com os atuais estados brasileiros.”

Rodrigo Medeiros, professor universitário e sócio da Associação Keynesiana Brasileira (AKB), considera que “as comparações entre a União Europeia e o Brasil são interessantes: o predomínio das ideias financistas nos distintos centros hegemônicos merece um paralelo”. Ele cita um recente estudo do IBGE que mostra que o Brasil estaria vivendo uma espécie de refluxo da tradicional importação de mão de obra pelo Sudeste, o que poderia significar que a situação do Norte, Nordeste e Centro-Oeste estaria melhorando. Para Rodrigo Medeiros, “Isso não quer dizer que o governo Lula tenha sido muito bom. A questão é saber se esse processo brasileiro é sustentável e se não repetiremos algo próximo ao que ocorreu na UE, quando se distribuiu fundos de desenvolvimento regional que criaram uma sensação de elevação do bem-estar social e de que a União garantiria esse estado permanentemente. Espanha, Grécia, Portugal e Irlanda confiaram nessa hipótese”. Lembrando que Espanha, Grécia, Portugal e Irlanda são os países mais afetados pela crise na Europa.

Para Flavio Lyra, economista e ex-técnico do IPEA, a esquerda precisa se focar em três pontos de modo a justificar sua presença no poder. O primeiro é impedir a materialização de tendências atuais nas democracias liberais de crises econômicas recorrentes, destruição da natureza e aumento das desigualdades. Segundo, não apenas lutar parar melhorar a gestão da sociedade, mas sim para a realização de mudanças profundas nas instituições. “Não se trata aqui de negociação, mas sim de confrontação de forças. Por exemplo, fazer uma reforma tributária que torne os sistemas tributários menos regressivos não vai contar, em nenhuma hipótese, com o apoio das classes proprietárias”, salienta Flavio. O terceiro ponto, segundo o economista, diz respeito à capacidade da esquerda distinguir os interesses convergentes entre trabalhadores e capitalistas e os interesses divergentes. “É fundamental fazer alianças com os setores capitalistas com os quais haja interesses convergentes, como é o caso do combate ao processo de desindustrialização que ameaça os países da América do Sul. Porém, as esquerdas precisam também estar prontas para lutar pelos interesses dos trabalhadores, quando esses são conflitantes com os interesses dos capitalistas como é o caso, por exemplo, da universalização das políticas sociais”, ele explica.

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