André Barrocal
BRASÍLIA – A atividade econômica está menos veloz, o mercado de trabalho segue aquecido mas em ritmo moderado, o avanço do crédito desacelerou, o preço dos alimentos e dos combustíveis parou de subir. Não por acaso, os últimos índices de inflação mostram perda de força. Por tudo isso, o Banco Central (BC) não tem motivo para elevar a taxa de juros na noite desta quarta-feira (20/07). Só um elemento justificaria o conservadorismo. A visão do “mercado”, que ignora dados reais e mantém expectativas de inflação mais pessimistas.
A avaliação é do economista Roberto Messenberg, coordenador do Grupo de Análises e Previsões do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Ele é responsável por um boletim trimestral do Ipea que analisa a conjuntura econômica cuja edição mais recente foi divulgada nesta quarta-feira, poucas horas antes da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do BC.
“Do ponto de vista das variáveis reais, não há motivo para aumentar a taxa de juros”, afirmou Messenberg. “Só há um senão: o Banco Central não opera de forma completamente isolada do mercado financeiro, que consegue exercer força e pressão com suas expectativas. Esta é a única variável que não foi controlada ainda.”
O “mercado” a que se refere o economista se expressa toda semana por meio de uma pesquisa feita pelo BC sobre juros e inflação com cerca de 100 instituições, a maioria ligada ao sistema financeiro. O levantamento divulgado segunda-feira (18/07) mostra que o “mercado” continua mantendo para o ano que vem uma previsão de inflação superior à meta que o BC diz perseguir.
O debate sobre a inflação de 2012 tornou-se importante desde que o BC avisou que não trabalharia para atingir a meta de 4,5% em 2011, mas só em 2012. Depois dessa decisão, o “mercado”, que antes projetava uma inflação até 4,5% no ano que vem, passou a prever mais – a última estimativa é de 5,2%.
Para Messenberg, a inflação sob controle em 2011 mostra que o Banco Central acertou todos os diagnósticos feitos este ano sobre o controle da inflação, construiu credibilidade com isso e, agora, deveria “ir contra o mercado financeiro”. “Talvez seja hora de o Banco Central jogar mais duro. Poderia ter uma estratégia de mostrar mais auto-confiança. O BC acertou tudo até agora”, afirmou.
Segundo o economista, o mercado continua enfrentando o BC e produzindo prognósticos diferentes por vício e interesse. “O mercado se acostumou a uma administração de política monetária que está completamente obsoleta no mundo inteiro. A realidade mudou, o mundo se complicou, não existe mais só o instrumento da taxa de juros contra a inflação”, disse. “Mas quando a taxa se eleva, o mercado ganha dinheiro e quem sofre são outros atores.”
Fonte: http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=18083
