Cesar Fonseca
A moeda, como todos sabem, é mero efeito reflexo, puro fetichismo. O que segura o poder de compra dela, nas economias monetárias? A crença do mercado na capacidade de endividamento dos governos que emitem as moedas sem lastro. O dólar e o euro estão dançando por quê?
O mercado e as agências classificadoras de crédito estão de olho, desconfiados. O dólar já foge dos EUA, como fugiu do Brasil, Argentina e outras praças, por que? Até quando o real desfrutará da confiança dos banqueiros? Até quando o governo brasileiro tiver fôlego para endividar.
Com esse juro que o Tombini insiste em manter elevado, podendo aumentá-lo, ainda mais, nessa quarta feira, num mundo onde o juro é zero ou negativo, nos países ricos, o fôlego do BC para enxugar gelo tem limite. A inflação que está na barriga da dívida, que cresce, dialeticamente, no lugar dela, pode virar hiperinflação, se o mercado financeiro começar a desconfiar que a jogada do BC, se o juro não cair, é suicida. Os economicidas estão no poder.
Vamos raciocinar. Parece loucura, dirão por aí, mas o real pode dançar, se perdurar a política louca de sustentação do juro alto, mantido pelo aliado de Barack Obama, presidente do BC, Alexandre Tombini, em nome do combate à inflação. Senão, vejamos.
Quanto mais Barack sustenta política monetária expansionista, de um lado, e Dilma Rousseff, de outro, avaliza política monetarista do BC, orientada pelo juro pós-fixado especulativo(jabuticada bancocrática) que financia o endividamento governamental, mais o real, diante do dólar sobredesvalorizado, sobrevaloriza, mais aumenta a dívida, que, sob impacto do juro alto, vira bola de neve.
Quem fica superassustado com isso? Aqueles que compram os títulos do governo. Não foi essa jogada que jogou a Grécia no buraco, também, a Itália, a Irlanda, a Espanha e, por que não, os Estados Unidos? Os banqueiros diante dos governos superendividados exigem juro mais alto, porque o risco fica alto. É a regra geral das crises. Suponhamos que o Congresso americano, depois de muito vai e vem, aprove o aumento do teto do endividamento.
Vocês acham que o dólar ficará mais valorizado por conta disso? Produzirá improvável, por enquanto, subida do juro nos Estados Unidos ou pode dar o contrário? Bernanke, o presidente do FED, já anunciou que a expansão monetária tende a continuar. Por que? Imagine se o governo sobe o juro para enxugar uma parte da enxurrada de dólar que lançou na circulação.
Para onde iria a dívida que Obama quer expandir para que seu governo possa continuar pagando suas contas? Para as nuvens, claro. Daria razão aos republicanos que estão pregando catastrofismo, se a dívida aumentar. Se Obama não puder aumentar o teto do endividamento, terá que dar calote. Será o Deus nos acuda. Se puder aumentar, a vulnerabilidade continuaria, a menos que eleve os juros. Mas, se fizer isso, a dívida sobe ainda mais e os compradores dos títulos de Tio Sam resistiriam em continuar estocando a papelada.
Quer dizer, se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Assim, não está de todo doida a análise de que Obama quer mesmo é continuar desvalorizando o dólar, via aumento do endividamento, para tirar os Estados Unidos da recessão, enquanto compromete a capacidade de endividamento dos aliados, como o Brasil, na medida em que valoriza o real brasileiro, promovendo a instabilidade monetária na terra dos outros. Está em jogo a sobrevivência dos bancos americanos.
Se o juro sobe depois do aumento do teto da dívida, o fôlego do tesouro de Tio Sam poderia ficar curtíssimo. Pintaria calote nos bancos. Se sobe o teto da dívida, mas mantem o juro baixo, os bancos se salvariam e o prejuízo seria transferido para quem mantém juro alto. Quem? Brasil. Por isso, ou o Governo Dilma cerca esse dólar doido varrido, que produzirá estragos gerais, ou o real pode ir para o buraco, embora tenha a avalizá-lo as reservas do pré-sal, as de minério, a extensão territorial que transforma o Brasil no maior produtor mundial de alimentos, as reservas bilionárias que continuarão se desvalorizando etc.
Afinal, não vai ser possível continuar suportando por muito tempo o endividamento movido a juro alto tombiniano para enxugar os dólares que Obama recusa a enxugar, na medida em que segura, nos Estados Unidos, a taxa de juro na casa dos zero ou negativa. A taxa de juro, no capitalismo tocado pela dívida do governo, está condenada a permanecer no chão.Se tem Tombini para fazer o serviço do lado de cá, por que Barack vai se preocupar do lado de lá? Nesse contexto, tanto se houver calote ou não, nos isteites, o destino do real nacional correrá risco.
Neodólar à vista?
Alguém duvida que possa acontecer com o dólar o que aconteceu com o cruzado brasileiro quando se viu diante de hiperinflação decorrente da falência financeira do governo?
Os Estados Unidos poderiam mudar a moeda? Não seria a primeira nem a última vez que essa jogada é feita pelos governos financeiramente falidos. Morreria o dólar, nasceria um superdólar, novinho em folha, depois de passar pela experiência da URV brasileira, que antecedeu ao real que substituiu o cruzeiro, lembram?
A moeda é puro fetichismo, expressão invertida do poder de compra fotográfico. Os americanos poderão dizer como disseram os brasileiros na véspera de lançamento do real: não é a economia que vai mal, mas, sim, as finanças do governo. Por isso, fazendo uma mágica, quem sabe?
O que o BC fará com suas reservas de 207 bilhões de dólares aplicados nos títulos da dívida pública de Tio Sam que poderão virar pó, se o tesouro americano não puder resgatá-los, já que perderá a confiança do mercado diante da impossibilidade de continuar emitindo novos títulos?
Não teria sido melhor jogar uma parte dessas reservas no PAC a fim de promover o desenvolvimento dilmista? Não tem aquela estória de distribuir os ovos? Por que numa cesta, só, na de Tio Sam? Não seria, também, mais interessante utilizar essa grana preta para liquidar os créditos dos governos estaduais junto ao governo federal garantidos pela Lei Kandir?
Os governadores, que estão querendo desobedecer a Lei de Responsabilidade Fiscal, para ampliarem o limite de endividamento estadual contraídos com o tesouro nacional, desistiriam dessa empreitada, porque teriam amplos recursos para tocarem o desenvolvimento regional.
O retorno dos investimentos nesse sentido não geraria mais lucros do que a merreca que o BC arrecada aplicando as reservas nos juros negativos mantidos pelo tesouro dos Estados Unidos? Os executivos estaduais, ao jogarem o dinheiro na circulação, baixariam seu custo, elevariam os investimentos, a renda, o emprego, o consumo, a arrecadação e, claro, os investimentos etc.
Certamente, esse movimento econômico financeiro, jogado no desenvolvimento, daria mais retorno ao capital aplicado do que ficar trabalhando de graça para Tio Sam, que está se transformando no maior caloteiro do planeta terra. Já, se não houver calote, o Real poderia ou não dançar, correndo o risco de a moeda brasileira sofrer ataques cambiais, overshooting, etc?
Tudo está na dependência da capacidade de endividamento do governo. Se a dívida não subir demais, tudo bem. Os credores continuarão acreditando… Mas, se ela subir, descontroladamente, babau. Isso pode acontecer? Claro. Basta Tombini manter o juro nas alturas celestiais, prometendo subir mais. Até quando?
Itamar Franco , o criador do real, exibe o fetichismo das mercadorias, ou seja, a moeda nacional que nasceu dos escombros da hiperinflação. Mas, teria vida eterna essa criatura ou iria até onde pudesse ser levado o endividamento do governo, que, nas economias monetárias, emitem os papéis que ganham os mercados, são comprados pelos bancos, que neles acreditam até que desconfiam da capacidade de endividamento desse cliente duvidoso, como demonstram ser, nesse momento, os governos dos países mais ricos do mundo?
“Tudo muda, só não muda a lei do movimento, segundo a qual tudo muda”(Hegel).
Não se deve esquecer que, no final da Era FHC, o real abriu o bico. Os gênios, que bolaram o programa, quiseram desindustrializar o País, como fez Gustavo Frango, jogando o dólar para ser cotado em R$ 0,80, enquanto subiram os juros, que alcançaram a casa dos 45%. Lembram? Loucura total! Até os especuladores assustaram com tanto milagre. Fugiram com medo.
A esmola quando é demais o santo desconfia. Fuga cambial. A inflação estava voltando braba no final de 2002. Os tucanos, espertos, disseram que os preços estavam subindo porque os credores estavam com medo de que os petistas dessem calote na dívida pública.
Obrigaram Lula a assinar a Carta aos Brasileiros, como passaporte para chegarem ao poder, já que a vitória do PT seria certa. Inverteram a realidade. Eles quebraram o país, promovendo endividamento, graças ao populismo cambial, que garantiu a reeleição de FHC, mas, espertamente, tentaram fazer a sociedade acreditar que a ameaça real não era eles, mas o PT! Então, é isso, minha gente. O Plano Real só não foi para o ralo porque, na ocasião, Bill Clinton, então, presidente dos EUA, mandou o FMI emprestar o dinheiro para os tucanos que haviam metido os pés pelas mãos. Na sequência do socorro clintoniano, quem salvou o plano foram os petistas.
Promoveram, depois do ajuste na economia, em 2003, a melhor distribuição da renda, desovando os estoques e impedindo desvalorizações cambiais radicais, a fim de exportar o produto nacional a qualquer custo, colhendo, como resultado a inflação incontrolável, como ocorria antigamente, quando a oferta não era realizada por falta de consumo da população mais pobre esfomeada.
Foi a distribuição da renda que controlou a inflação. Maiores gastos públicos com os programas sociais incrementaram o consumo, a produção, o emprego, a renda e, consequentemente, a arrecadação, que garantiu o PAC. As pressões inflacionárias, agora de volta, decorrem não dos gastos do governo para acabar com a fome do povo, sabendo que esses investimentos sociais dão retorno seguro ao capital estatal investido, mas da especulação financeira que acelerou com a sobredesvalorização do dólar sob impacto do juro alto. Este elevou o endividamento e o risco que, claro, traduz-se em juro alto. O FMI está certíssimo.
É o juro que eleva a inflação na medida em que bombeia o deficit que eleva o juro. Assim, a expansão da dívida pública interna brasileira no compasso da política monetária praticada por Obama, cuja continuidade está escrita nas estrelas, para tentar salvar o colosso imperialista que abriu o bico, representa a maior ameaça ao real, dado o risco cambial produzido pela continuidade do juro alto mantido pelo BC em nome do (falso) combate à inflação. Cuidado com o Tombini, Dilma.
Fonte: http://www.patrialatina.com.br/colunaconteudo.php?idprog=100d9f30ca54b18d14821dc88fea0631&cod=2181
